quinta-feira, 13 de julho de 2017

Crônicas Eternas - O Poder de Um Gatilho


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Continue, meu filho rebelde.
Haverá paz quando você tiver terminado.
Coloque sua cabeça cansada para descansar.
Não chore mais.
- Kansas (Carry On Wayward Son)

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No futuro
Onde a Era de Heróis é uma lenda
E seus feitos, duvidosos

-

 Eu já vi muita gente nessa vida. Vivi pouco mas eu vivi corrido.
 Eu não tiro a razão de alguns homens que conheci.
 São homens ruins, sem senso de compaixão ou algo assim. Mas eu entendo e não os condeno. Porque eu vi eles tentarem. Eles tentaram ser bons homens e jogar limpo, pensar no próximo, conquistar seu devido lugar ao Sol, mas a lei do retorno vem a tona nessas horas, é quando o mundo decide te fazer pagar por toda bosta que você fez, te fazer suar no calor do deserto, sentir sede e te coloca no chão, esperando que você implore. E tem gente que não aguenta...que volta correndo pra fonte de corrupção e pra escarrar no mundo.
 E eu entendo eles. Não é covardia nenhuma desistir e aceitar quem você é.
 Afinal, somos só homens. E nada mais.
 Só que isso não se aplica a esses cães...
 Eles olham pra mim com ódio justificável, mas se esquecem que meu tiro também foi. Eles me culpam pelo sangue, mas se esquecem de que vieram até mim de bom grado, eu não os forcei.
 O vento sopra, as pessoas param de respirar e a lua brilha bem alto no céu. A tensão é tanta que um deles grita e tudo o que podemos fazer é sacar nossas armas. Os disparos são como estrelas na terra e novamente, o solo é banhado de escarlate.
 Mas...eu estou me adiantando demais...eu deveria começar direito.
 Pelo começo.

🎩

Coloque a música para melhor aproveitamento.

-


 Eu estava sentado, desfrutando de um bom tabaco, quando escutei os cascos e eu senti que era problema. Cavalos se comportam espelhados em seus donos e esses vem acelerados e sem muito medo de obstáculos. Eles vieram e as pessoas trabalhadoras olharam o horizonte quando seus ouvidos menos treinados captaram o som e pais puxaram seus filhos para dentro, mulheres largaram suas sombrinhas e entraram em casa e logo, somente os corajosos e aqueles que tinham algo pra provar ficaram na rua arenosa.
 E eles vieram, trotando, levantando poeira e quando chegaram, andaram em círculos, exibindo seu cavalo, seu porte e suas armas...rifles winchester, escopetas e facas de caça pra ser mais exatos. Eles descem, são dez homens, barbas na cara, casacões e chapéus na cabeça. Eles esperam um homem descer do cavalo para se moverem a favor dele, obviamente o líder e o seguem para dentro do bar...um homem com um chapéu meio largo, um cinto de cartucheiras cruzando seu corpo, provavelmente para a colta na cintura, um bigode negro e bem espeço enfeitava sua face carrancuda e ele andou em passos largos para dentro do estabelecimento, junto com aqueles homens.
 - Tinha que ser no bar em que eu aluguei um quarto? - Eu pensei alto.
 Respirei bem fundo...degustei o sabor da minha saliva...olhei para o céu...e senti.
 Levantei e caminhei, soltando o pequeno pedaço de papel queimado no chão. Cruzei o caminho principal, passando perto do bar em que os homens entraram, pois meu cavalo estava selado ali, passei a mão nele e segui em frente, entrei em uma ruinha e segui reto e cheguei até o arsenal da cidade. Balas e Pólvoras do Jerry...bom lugar, regido por uma boa pessoa.
 Entrei, o sino tocou em cima da porta e Jerry olhou para mim. De colete preto igual ao meu, mas com alguns números a mais para abrigar a barriga saliente, bigode cinza e óculos redondos na ponta do nariz, ele sorriu meio torto e perguntou.
 - Veio em bem na hora, senhor Roy.
 - Gostaria que fosse melhor, Jerry. - Caminhei até o balcão de carvalho, apoiei minhas mãos nele e olhei nos olhos do rapaz. - Está pronta?
 - Está sim. Poderá usa-lá por mais três anos, senhor. Com sua licença. - E foi para os fundos, voltando logo em seguida com uma caixa de madeira envernizada com ele, abrindo e mostrando seu conteúdo.
 - Perfeito. - Eu sussurro.


 Peguei o dinheiro dentro do meu colete, contei as notas e dei o valor combinado ao homem, que fechou a caixa e passou pra mim.
 - Caso dê algo errado, pode vir me procurar.
 - Pode ter certeza de que irei. - E eu não pude deixar de rir um pouco quando vi a face de medo do homem.
 Bati a porta ao sair.

🎩

 Quando anoiteceu e a cidade estava iluminada por lamparinas, tochas e afins, eu me encontrava no meu quarto, terminando de colocar tudo na minha mala e pronto pra partir. A noite estava com o céu limpo, a lua estava cheia, então ficar no escuro não era um risco, contanto que eu ficasse em céu aberto e em tal hora, o máximo que poderia enfrentar na minha rota seria alguns coiotes, nada que me preocupasse muito. Olhei pela janela, meu cavalo estava lá embaixo. Coloquei meu sobretudo, minha arma no coldre, ao lado da faca e segurei minha mochila, coloquei o chapéu e deixei uma nota de 5 dobrões em cima da cama. Abri a porta e comecei a descer as escadas.
 Os homens de mais cedo ainda estavam lá ainda e cheguei até pensar que meus instintos estavam errados por uma vez na vida...portanto caminhei descontraído até a saída e quando toquei na madeira da portinhola...
 - Hey. Você é o Roy? - Parei.
 É...certas coisas nunca mudam.
 - Me disseram que você é o Roy. - A voz grossa era de um homem a poucos metros atrás de mim. Outro, um rapaz mais jovem, apareceu ao meu lado, segurando meia caneca de cerveja na mão, com um chapeuzinho de merda na cabeça e um sorriso irônico no rosto fino. Eu olhava pra ele e sabia, esse cara era fruto de incesto.
 - Meu pai tá falando com você. - Ele disse. - Por favor, dê a devida atenção. - Ao menos era educado. Quando eu demorei cinco segundos olhando pra ele, eu vi seu sorriso morrer e o som de cadeiras sendo arrastadas por todo o bar.
 - Calma, senhores, calma. Ele provavelmente não está acostumado com uma aproximação tão rude. Vamos... - E eu respirei fundo e me virei.
 Quem falava comigo era o homem de mais cedo, o líder, sem o chapéu, mostrando seu cabelo lambido e oleoso para todos verem, usando um novo casaco, um cinza, mais novo. Era o tipo de cara que não tomava banho e colocava novas roupas para disfarçar o cheiro que saia do seu corpo...mas não importava, o que importava era que oito homens estavam a sua volta, de pé, prontos para atirar em mim.
 Caminhei até a mesa dele, coloquei minha mala no chão e puxei a cadeira.
 - Com sua licença. - Eu disse e me sentei, me curvando um pouco e me apoiando na mesa. Todos ficaram mais relaxados e deixaram suas mãos penderem as armas, voltando a se sentar, jogar cartas e fumar, mas sempre olhando pra mim de vez em quando.
 - Peço desculpas pelo meu filho mais novo. - Ele gesticula para o garoto retardado atrás de mim. - Sabe como é, ilegítimos são sempre mais temperamentais. - E ri e me estende a mão. - Meu nome é William Phillips, muito prazer.
 - O prazer é meu. - Eu digo e aperto sua mão. - Como já sabe, me chamo Roy.
 - Muito bem, Roy. Bom, vamos direto ao ponto, odeio devaneios. - Ele dá um sinal e logo, há uma caneca de cerveja bem generosa na minha frente, assim como a dele. - Eu e minha família, junto com alguns amigos, estamos em uma busca. Mais ao Sul, no centro da civilização, onde moramos, é um local de estudo...de progresso, entende?
 - Uhum. - Eu me limito a responder e tomo um gole da cerveja.
 - É um local ótimo. E existem livros lá, ótimos livros. Gosta de ler, senhor Roy?
 - Jornais principalmente, mas já li alguns livros.
 - Ótimo, é um homem informado e letrado, perfeito. Então... - Conforme ele ia divagando a respeito de sua cidade, de como frequentou faculdade, eu observei meu terreno...e o único cara no meu ponto cego, era o filho mais novo de William, que ainda estava atrás de mim. Depois de dois minutos de conversa fiada, ele fez a pergunta.
 - Acredita na Era dos Heróis, Roy?
 - Não. - Eu respondi de imediato, dando outro gole.
 - Pois deveria. Temos provas históricas de que aconteceu realmente, temos registros, tudo...o único motivo de que duvidamos de que tudo aquilo aconteceu é porque a força chamada Magia não existe mais...ou ao menos é o que pensamos.
 - Acredita em magia? - Eu perguntei.
 - Acredito. Decidi buscar a respeito...ver como essa força funciona, como deveria funcionar e se eu podia adquiri-la. Os registros que tive acesso falaram a respeito de uma área ao leste...onde hoje é conhecida como O Cemitério de Shamans. - E ai, eu tive um pequeno estalo dentro da minha alma. - Fui até lá...conversei...com alguns dos indígenas na área. - Os homens dele riram. - Meu filho do meio aqui... - E apontou o polegar para trás, para um homem de jaqueta de couro e chapéu pequeno. - Até conseguiu uma mulher. O mais velho, aquele lá atrás. - Ele indicou um homem de camisa azul, por baixo de um colete aberto de couro, com um chapéu branco. - Arranjou duas. - E riu. - Mas enfim...falamos com eles e tivemos uma conversa interessante com o chefe deles, um tal de...
 - Águia Negra. - Eu disse, interrompendo ele. - Shaman chefe, dono das Terras da Lua Crescente. - E com a minha confirmação, William sorriu.
 - Então você esteve mesmo lá.
 - Tocou nele? - Eu perguntei, olhando bem fundo nos olhos do homem rico. Seu sorriso se foi.
 - Perdão?
 - Estou perguntando se tocou nele. Se fez mal a aquelas pessoas. - E seu semblante mudou.
 - Se importa? - William respondeu e sua família olhou pra mim junto com ele.
 - Claro que me importo. - Eu disse, meio alto, ao estilo canastrão. - Aqueles caras eram meus colegas. Salvei a filha de um deles e seria recebido com ouro toda vez que voltasse a tribo depois de alguns dias. - Resmunguei e tomei outro gole de cerveja. - Deixaram pelo menos um deles vivo pra cumprir a promessa? - E todos desataram a rir.
 - Eu não tenho certeza, Roy. - William disse, em meio a risos roucos. - Mas se tivesse te conhecido mais cedo, eu não teria exagerado tanto. - E mais risos vieram, até sua barriga gorda doer. - Ai ai...aqueles selvagens...tinham ouro...quem diria? Talvez eu volte lá depois de hoje, mas...tudo bem, voltando ao que interessa...
 - Sim, por favor. - Eu disse.
 - Eles nos disseram que a magia sim, ainda existe...que um descendente do Urso ainda anda por ai...que a magia não foi morta, só se reclusou a linhagem dos Imortais, para que o mundo pudesse continuar sem grandes riscos e que, quando o homem encontrasse seu lugar nas estrelas, a tal força poderia voltar, digna e imaculada, para todos os seres de Sandria. - Ele sorriu. - E ele também me disse...que um tal de Roy...sabia sobre essa linhagem do Urso. E é por isso que eu estou aqui...para falar com você, meu amigo. - E um silencio se abateu. Eu fiquei olhando pra ele e todos olhavam para mim.
 - O Urso? - Eu perguntei. - Aquele da lenda? O bárbaro de machado que reuniu os Imortais, junto com o irmão, o Tigre? É disso que estamos falando, certo?
 - Esse mesmo. - Ele respondeu, sério, curto e grosso.
 - Bom...eu sei sim. - Me reclinei na cadeira. - Sei e lhe darei essa informação, senhor William, com muito prazer. - E ele sorriu.
 - Ótimo, é isso mesmo que queremos.
 - Mas, é claro, eu quero algo em troca. É o minimo não é mesmo? Todo bom homem sabe dos custos de algo na vida e paga para que logo tenha o que lhe é de direito. E eu acredito que a informação que eu tenho é sua por direito, senhor William. Um homem como você, a merece. - E o sorriso dele só aumentou.
 - É bom ter um reconhecimento.
 - É claro. Um homem de seu calibre, de família e de visão. Merece sim. - Esfreguei as mãos e voltei a falar. - Mas então...posso dizer meu preço?
 - Claro, diga.
 - Quero duas coisas. A primeira é uma dose de whisky. - Ele ficou surpreso. - Um Michael's, se possível. - William logo gesticulou para o barman que logo trouxe a dose, bem generosa, diga-se de passagem. Virei a mesma e me senti melhor, mais calmo...pronto pra tudo.
 - E a segunda coisa?
 - Aquele rifle. - Respondi a pergunta, apontando para um homem de casacão preto. - Winchester calibre 45, cano longo, capacidade de 10 balas. É uma obra prima. Quero ele e as balas...e a informação é sua.
 O homem olhou para William, com olhar suplicante. O dono da família olhou pra ele e gesticulou com a cabeça.
 - Tio...
 - Douglas, agora. - E com o tom de voz da resposta, não houve mais questionamento. Douglas tirou a bandoleira com as cartucheiras cheias e passou tudo pra mim. Coloquei a bandoleira no corpo, por cima do casaco mesmo e verifiquei a arma. Perfeita em todos os sentidos.
 - Ótimo. - Coloquei o rifle no meu colo e olhei para o homem a minha frente. - Muito bem, senhor William, vou te contar. - Pigarreei e todos se curvaram mais pra frente, para ouvir direito. - A linhagem realmente existe...e eu sei onde encontrar o dono do sangue magico. - William se animou.
 - Sim, sim, senhor Roy, conte o resto. - E eu sorri.
 - Que indelicadeza a minha. O senhor me falou seu nome completo e eu não disse o meu, perdão.
 - Ah, claro... - Ele respondeu, transparecendo impaciência. - Não me importo, senhor Roy, mas quero saber a respeito...
 - Vamos, senhor William Phillips. O senhor não é um homem de etiqueta? - Eu sorri. - Por favor, me pergunte.
 Ele bufou e rangeu os dentes...mas perguntou.
 - Qual seu nome completo, senhor Roy?
 E eu respondi.
 - Roy Vykan. - E seus olhos se abriram bem com a surpresa da minha informação e com o fato de eu ter sacado meu revolver e encostado no pescoço dele. O rifle, coloquei ele acima do ombro e o apontei para trás, contando com a sorte.
 Disparei as duas armas de uma vez e tudo começou...eu nem vi direito o que eu tinha feito com meus ataques, mas eu sabia que, pelo sangue espirrando na minha nuca e pelo sangue na minha face, que eu tinha acertado...
 Me joguei para o lado e corri para fora, disparando e consegui sair antes dos primeiros tiros serem dados. Rolei na terra e ouvi os gritos das pessoas ao redor da cidade e continuei a correr...pensei no meu cavalo, selado ali na porta e tudo que podia fazer era contar com a sorte para que continuasse vivo no caos que ia se iniciar.
 Corri, cruzei a rua e ouvi os homens vindo atrás de mim, tentando sair de uma vez pela porta e se atrapalhando, mas conseguindo apontar suas armas. Peguei a primeira pessoa que vi na minha frente em meio a correria, uma mulher, de vestido verde limão e chapéu extravagante, virei e a coloquei na minha frente, já apontando meu Smith and Wesson novamente por cima do ombro dela. Ela gritou, mas logo parou quando o seu corpo segurou os disparos contra mim e eu atirei, acertando um deles na cabeça e voltei a correr, deixando tudo para trás por um momento, indo na rua seguinte e me apoiando na parede de um lugar qualquer.
 Ótimo, três tinham caído, só faltavam sete.
 - PEGA A CARROÇA, PEGA A CARROÇA! - Um deles começou a gritar. Não tinha carroça quando eles chegaram, ou seja, tinha algo importante nessa carroça, provavelmente suprimentos e mais armas e, com certeza, mais homens protegendo ela.
 Eu tinha que equilibrar esses números rápido.
 Coloquei o revolver no coldre, pelo peso, sabia que o rifle ainda tinha nove balas dentro e comecei a correr pela extensão da rua, tentando ouvir onde eles vinham. Quando a primeira abertura de viela veio, vi dois tentando passar, apontei e atirei, um caiu com um tiro na cabeça o outro no peito, olhei para trás e vi outro, tentando me cercar. Ele atirou ao mesmo tempo que eu e eu senti a bala passando de raspão no meu tronco, mas ele sentiu o tranco no pescoço quando a cabeça pendeu pra trás e o cérebro caiu na areia.
 Ok, faltavam quatro.
 Foi nesse momento em que eu ouvi mais cavalos e o barulho de rodas, a carroça estava chegando e com ela, a surpresa.
 Corri mais um pouco e entrei em mais uma viela e fiquei ali, entre os espaços das duas casas, esperando algo acontecer ou escutar alguma coisa. Nada...por dois minutos, nada.
 - ROOOOOOY! - Até que o grito de um filho órfão ecoou pela noite. - VENHA! - Ele respirou fundo, podia ouvir dali. - Te convido para um duelo. Que a Lei de Bangkok faça justiça!
 Eu sorri...não dava pra recusar um duelo. Coloquei o rifle nas costas presa a bandoleira, saquei e abri meu revolver.
 - ROY! - Ele gritou de novo. Babaca impaciente...
 - QUAL MINHA GARANTIA? - Eu gritei de volta, enquanto eu tirava o cartucho da bala que tinha usado e recarregava.
 - NENHUMA! - Ele ruge de volta. Eu sabia que tinha coisa ali, não dava pra ser justo. Nunca daria para ser justo...
 Pra eles.
 Então só coloquei a arma no coldre e segui para o campo aberto. Lá estavam os quatro restantes, alinhados, um no outro lado do outro a céu aberto na rua principal, me esperando. Fiquei no meio da rua e os encarei, olhei bem fundo nos olhos de cada um e na sujeira de seus rostos.
 - Se arrepende de alguma coisa, senhor Roy? - Um deles, o filho mais velho gritou. - Se arrepende de alguém que já matou?
 - Só me arrependo daqueles que deixei escapar porque estava dormindo!
 E foi aqui que estávamos quando comecei.
 - Pronto? - O da ponta direita grita pra mim.
 - Sempre. - Eu respondo e começo a andar. Dez passos e os tiros iriam começar.
 No quinto passo, eles mudaram de direção e começaram a correr para os lados e eu comecei a ouvir cavalos...dois vieram, antes que eu pudesse reagir e trouxeram a carroça e nela, um novo homem com uma nova arma.
 - FILHOS DA PUTA! - Eu gritei e me joguei no chão.


 A metralhadora começou a girar e as balas vieram, aos montes e eu só desviei porque um milagre decidiu acontecer ou o atirador estava bêbado. Os tiros eram espalhados e até mesmo ordens de "atirar" direito vieram e eu podia sentir o calor das balas chegando mais perto...
 Eu não tive escolha a não ser usar aquilo.
 Eu trinquei os dentes, senti o coração acelerar, a pele esquentar e o sangue correr pelos meus ouvidos. Por fim...levantei meu punho e por sorte, nenhum tiro atingiu meu braço...e o desci na terra.
 Poeira levantou, mas os tiros não pararam, só depois...quando eu levantei e eles me viram rodeado com aquela energia vermelha tremulante, como fogo sem fundo...meus olhos, provavelmente brancos, como já me disseram que ficavam assim, miraram a arma e eu vi que quem a manuseava, um homem magrelo e de poucas roupas, ficou assustado e por isso voltou a atirar. O susto deve ter melhorado sua mira porque todos eles vieram pra cima de mim...mas nenhum me atingiu...eu vi as balas virarem cinzas no momento em que entravam na aura, vi o desespero dos homens e mulheres que me observavam...
 Apontei meu revolver...senti o calor do metal beirar a ebulição, eu vi a energia se concentrar na arma...senti o poder focado na bala e apertei o gatilho. O som foi de um canhão e meu braço ameaçou deslocar...mas ninguém reparou nisso, eles viram a estrela cadente escarlate que saia da minha arma e atingia a carroça, destruindo a mesma em pedaços, assim como a arma e assim como o homem que virava mil pedaços de carne e por fim a energia ia...e explodia em algum lugar no horizonte noturno.
 Tudo ficou em silêncio por alguns segundos...ainda com a energia no corpo, olhei para os outros homens que não demoraram muito e correram em disparada, berrando coisas...só quando não podia vê-los mais, eu deixei tal energia ir embora.
 Voltei ao normal...e olhei ao redor. Todos me olhavam, alguns de suas janelas, outros de suas portas...
 Dei meia volta e comecei a andar para meu cavalo...tinha que ir embora antes que algo acontecesse, antes que eu tivesse de pilhar mais corpos. Andei até o local onde o tiroteio tinha começado...por mais impressionante e improvável que fosse, meu cavalo estava vivo. Agitado, mas vivo.
 E não era só ele.
 - Hhhhmmmm...grr...gra...hmmm...rrrro...vy...vaaaa... - o som era gorgorejante, como se a boca de alguém estivesse cheio de água ou sangue. E eu vi dentro do bar novamente...William estava deitado, cabeça apoiada na parede, cuspindo vermelho e tentando dizer alguma coisa.
 Eu podia ir embora, seguir minha vida, fingir que aquilo não acontecer, só riscar mais um lugar no mapa onde eu não era mais bem vindo...eu podia....mas eu queria saber algumas coisas.
 Entrei no bar mais uma vez, caminhei em meio a vidros quebrados e lascas de madeira. O barman estava tremendo atrás do balcão e eu não consegui me segurar e dizer.
 - Pode sair, amigo. Não vou te machucar. Eu só me defendi. - E continuei andando até ele...ele estava com a cabeça apoiada na parede e o corpo todo no chão, então seu queixo estava no busto, o papo cheio de sangue o estava afogando e o coitado não tinha força pra se mexer. Me agachei, peguei seu pé, o puxei e apesar do gemido de dor, ele respirou fundo e cuspiu sangue como um louco.
 Tomei aquilo como um obrigado.
 - Vykan...lenda...tempos antigos...você...descendente dele...herdou o poder! Magia pura! - Ele voltou a falar, o gargarejar menor.
 - Por que quer tanto esse poder? - Eu perguntei. - O que quer tanto conquistar nisso tudo? - Ele respirou com dificuldade, podia se ver que sentia dor...eu devo ter atingido a espinha ou algo do tipo, a bala devia estar alojada...
 - Mudar o mundo... - Ele respondeu. - Usar esse poder...salvar o mundo...salvar o mundo...
 - O que te faz pensar que é digno disso? - Eu trinco os dentes. - Não existem mais heróis! Você massacrou uma vila de Shamans pra me achar! Matou amigos meus e ainda quer cantar de messias?
 - Então...por que você não usa isso? - A pergunta me pegou de surpresa. - Tanto mal...tanta merda...esse poder...limparia tudo...colocaria ordem...
 Eu fiquei olhando pra ele, naquele estado deplorável, sangrando, lagrimas saindo dos olhos, com medo e confuso...e as ultimas palavas daquele rico insuportável eram perguntas para mim. No final, aquele pedaço de merda era igual a todo mundo...cansado de como o mundo funcionava, achando que poderia melhorar tudo...e se um cara gordo e abastado como ele se sentia assim, quem diria do resto...
 - Eu tentei. - Eu falei. - Eu tentei muitas vezes. Usei tal poder contra coisas que sua mente não conseguiria dar forma...tentei seguir a linhagem do meu pai, que aprendeu com meu avô, que aprendeu com meu bisavô e assim vai...até Vykan, o Urso. Mas não adiantou. O mundo hoje é para as coisas palpáveis e explicáveis...maquinas...armas, esse é o verdadeiro poder de um gatilho...a habilidade de moldar a crença de uma nação e do mundo. Mas eu tentei...e perdi amigos...matei amigos queridos por causa de pouca confiança...recebi tiros, facadas e golpes nas costas...destrói lares, lugares e pessoas...e tudo o que eu tentei fazer foi proteger eles e seguir...seguir em... - Quando minha garganta se fechou e eu senti os olhos arderem que eu percebi o que estava dizendo. Talvez fosse um momento de fraqueza, talvez eu tenha me identificado com aquele homem...não sei...
 Só sei que me calei, mirei na no meio da testa dele e puxei o gatilho.
 Na saída, deixei meu bolo de dobrões no balcão e sussurrei um "me desculpe".
 Peguei minha mala no chão, coloquei em meu cavalo, subi e puxei suas rédeas...
 Desapareci no meio da noite.

🎩

 Eu já vi muita gente nessa vida. Vivi pouco mas eu vivi corrido.
 Eu não tiro a razão de alguns homens que conheci.
 Eu não tiro a minha razão nisso tudo.
 Sou um homem ruim, sem senso de compaixão ou algo assim. Mas eu não me condeno. Porque eu tentei. Eu tentei ser um bom homem e jogar limpo, pensar no próximo, conquistar meu devido lugar ao Sol, mas a lei do retorno vem a tona nessas horas, é quando o mundo decidiu me fazer pagar por toda bosta que fiz, me fez suar no calor do deserto, senti sede e me colocou no chão, esperando que você implorasse. E eu não aguentei...voltei correndo pra fonte de corrupção, pra escarrar no mundo.
 E eu espero que entendam. Não é covardia nenhuma desistir e aceitar quem você é.
 Afinal, sou só um homem.
 E nada mais.

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