sexta-feira, 7 de julho de 2017

Crônicas Eternas - Espíritos de Conquista



Para Henrique Rodrigues
Cuja meticulosidade fez de mim um escritor melhor


Portanto, nunca procure saber por quem os sinos dobram;
eles dobram por ti.
- John Donne


 Poucos nascem para ser heróis, menos ainda nascem para se ter poderes. Em Sandria, existem várias formas de se conseguir superar seu status de simples mortal, muitos deles, não seguros. Mas isso não impede os grandes, não...muito menos este homem, cuja esperteza só rivaliza com sua frieza e habilidades dedutivas. Ele aprendeu o que poderia e ainda mais do que deveria...e ele usa tudo isso ao seu favor. Ele aprendeu a verdade e a verdade é a Lei!
 E querendo ou não...só existe uma única lei universal:
 Nesse universo, tudo nasce. Cresce. E morre.



Templo Profano do Deus Pesado
Em algum lugar do Continente Leste
Outono


Coloque o som para melhor aproveitamento da historia.

 Chovia, como sempre chovia naquela região entre as estações intermediarias. Os trovões incendiavam arvores a distancia, que caiam e logo se apagavam em poças generosas no barro. Os animais se encolhiam em suas cavernas, tocas e ninhos, enquanto os famintos aguentavam o frio e a chuva para tentar caçar. O barulho era ensurdecedor...menos lá dentro, menos para um homem cujo coração batia tão rápido que o fluxo de sangue fazia seus ouvidos não o deixava ouvir mais nada.
 Lá...no Templo, cujos tuneis subterrâneos faziam-no ser bem maior por dentro do que por fora.


 O monge corria pelos corredores escuros. Mas quem o perseguia dava um passo de cada vez.
 O Templo era dominado pela natureza, como era de se esperar de tal culto, mas os olhos vermelhos e a pele "germinando" dos adoradores foi uma surpresa para o invasor. Conforme matou os homens e deixou o ultimo para correr, ele se perguntou se aquele cheiro de ervas, um dia, sairia da sua bota.
 O monge, assustado, dobrou os corredores como um louco, o manto que cobria seu corpo quase caindo, mas seu desespero o impedia de se importar, já que o impossivel aconteceu: Abudagah os abandonou...estavam todos mortos por alguém que não seguia os caminhos sagrados e ele se sentia traído, por suas habilidades, pelas habilidades de seus irmãos, pelo próprio Abugadah e pelo destino. Ele coçaria sua pele de nervosismo, mas suas unhas sairiam facilmente em sua pele de madeira e isso causaria uma dor indescritível, ainda mais quando as folhas e galhos estavam se formando em seu pescoço, ele não queria correr o risco de deixar os dedos inutilizados, depois, quem iria poda-los devidamente?
 Perdido em sua correria e em sua loucura, o monge não percebeu quando seu perseguidor simplesmente parou. Em sua postura, ele observou os desenhos feitos nas paredes dos corredores, acompanhando com seus olhos negros o que parecia ser uma historia a respeito de Abudagah, o Deus pesado e em sua jornada para se sentar no topo do mundo e afundar a maior montanha que existe, para deixar o mundo plano e perfeito para começar seu devido plantio de uma nova raça que conquistaria toda Sandria.
 Ele riu...e voltou a perseguir o monge.
 O mesmo, medroso e apavorado, sentiu um pouco de calor na espinha quando se viu fechado no lugar onde queria estar, o Salão de Adoração, onde a estátua de seu deus estava, onde os livros e pergaminhos estavam e onde se sentia seguro. Checou novamente se a porta estava fechada devidamente e as 3 toras de madeira estavam lacradas direito quando correu para dentro, passando pelas estantes de livros e caiu de joelhos perante a estátua de Abudagah.


 - Oh Lorde! - O monge gritou, caindo no chão. - Nos abandonaste? Precisamos de ti! Do seu peso e de sua força! Queremos que venha até aqui e esmague esse homem! POR QUE NOS DEIXA MORRER, SENHOR?
 - Ouvi dizer que elefantes não são muito espertos. - O monge olhou para trás. - Tem o cérebro do tamanho de um amendoim. - E ele estava lá. O assassino.
 Mãos para trás, olhos pacientes e um sorriso discreto no rosto, que logo sumiu ao ver o estado deplorável do lugar. Seu rosto era fino, bochechas bem magras, o nariz um tanto arrebitado. Seus cabelos eram negros, um pouco em pé, mas nada chamativo. Seu tronco era coberto por um casaco de couro curto, que só ia até o quadril, com gola alta. Sua calça, também de couro, assim como as botas, combinavam perfeitamente com o homem, ajeitando-se bem em sua postura.


 - Quem é você? - O monge perguntou, se levantando. - QUEM É VOCÊ QUE PROVOCA A IRA DE ABUDAGAH!
 - Henry. - Ele respondeu, começando a caminhar para frente. - Henry Charon. - Ele parou e olhou para o lado e continuou a falar sem olhar para o monge. - E não, não se escreve como se fala. Sei que é "Enrai", mas se escreve com um H na frente e um Y no final. É de um dialeto élfico, você não entenderia. - Ele tirou as mãos de trás das costas e as esfregou uma das outras, ansioso. - Mas não se preocupe comigo, pode fazer suas orações...eu vim...para isso aqui. - Uma das mãos, permaneceu no seu colo, a outra começou a passar nos papiros, documentos, pergaminhos e livros, analisando onde deveria começar sua procura.
 O monge ficou ali, olhando para ele, foleando livros e papeis, os jogando no chão por não se tratar do assunto que queria saber. Olhou e incrédulo, com raiva e desespero, rugiu.
 - VOCÊ VEIO ATRÁS DE LIVROS?
 - De um documento em especifico ou um mapa, as indicações não foram realmente exatas.
 - Matou meus irmãos...por isso? - Lágrimas começaram a rolar nos olhos do monge. - Todos eles...mortos...
 - Eu não teria que fazer nada daquilo se não fosse os gritos, os golpes e as frases "Ninguém conhece esse lugar" e "Você vai morrer por invadir nosso Templo" serem gritadas uma atrás da outra, de novo, de novo e de novo.
 - Você está perdido agora, ser imundo! - O mesmo assumiu posição de combate. - Vejo que perdeu sua arma, seja o que for que tenha feito vender todos nós!  Está morto agora! - E correu contra ele, fazendo zigue-zague e mirando seu punho de madeira contra o rosto do mesmo.
 As mãos de Henry se fixaram no pescoço do seu agressor antes que qualquer golpe pudesse ser feito. O homem olhou nos olhos do monge sufocante e disse.
 - Garoto...eu não uso armas. - E com a outra mão, Henry invocou seu poder, para espanto do homem. Uma energia púrpura se formou ali e começou a tomar sua devida forma, o crânio de um homem, e foi crescendo e se formando e quando parecia completo, uma coluna começou a crescer e se enrolar no seu braço.
 Henry solta o garoto com certa força e o joga para perto da estátua de seu deus e em seguida, solta o esqueleto de sua mão...o crânio usa a coluna e rasteja pelo piso de pedra como uma cobra e se contorce ao redor do homem, o prendendo por completo, pela força e pelo terror.
 - Necromante! - O monge chora e Henry ri.
 - Bingo, rapaz. - E volta a sua procura. - E já que estamos falando de revelações, vamos falar um pouco sobre esse Abudagah. Seu deus na verdade é um monstro da sexta dimensão que se alimenta de matéria vegetal proeminente de seu local de origem, a qual não existe mais pois ele é um deus com demasiada fome. Então, ele viaja de reino em reino, dimensão em dimensão e coleta seguidores, lança seus encantos que precisam ser constantes, por isso vocês rezam de três a quatro horas por dia e faz com que eles se transformem no material que come e depois o trás para si para o jantar quando estiver no ponto. - Só ai, Henry olha para o monge enrolado. - Você é a comida de Abudagah...nada mais. - E voltou a sua procura.
 O monge ficou ali, em choque, tentando processar tudo que acontecia, tudo o que ouviu e viu. Henry continuou a procurar até que se deu por vencido e suspirou profundamente se frustração.
 - Não está aqui. - Ele falou baixinho. Cruzou os braços e levou uma das mãos ao queixo. - Deve haver alguma biblioteca escondida por aqui, algum local para guardar documentos...mas você me garantiu que estaria nesse local. Talvez tenham mudado de lugar?
 - Está louco? - O monge rosna, atraindo a atenção do necromante. - Está falando sozinho, criatura vil?
 - Sozinho? Eu? - Henry riu novamente. - Não se cansa de estar enganado, rapaz?
 - Seres como ele só servem para manipulação e nada mais. - O som da voz fina, rouca e com uma sonoridade rançosa veio, fazendo o resto de fé do rapaz ir embora. Uma especie de fumaça negra surgiu no ombro do necromante, uma que se concentrou por de trás do seu pescoço e se uniu ali e subindo pelo ombro uma pequena criatura, negra, com asas pequenas e quebradiças, olhos vermelhos bem desiguais, garras compridas nas pequenas mãos...e ela olhou para o monge e riu.
 - Este é Merlin. - Explicou Henry. - Diga oi a ele, Merlin. - A criatura pulou no rapaz, batendo suas asas, fazendo um som parecido com as de um inseto, aterrissando no busto dele, ficou cara a cara e disse.
 - Olá!


 A sanidade do monge se foi e começou a gritar, gritar e rugir, se debater, com a coluna do crânio o apertando mais e mais até que, seja por falta de oxigênio no corpo ou pelo medo causado, desmaiou. Merlin riu e se virou para seu mestre.
 - Adoro quando o senhor me dá essas oportunidades. Mas voltando ao que interessa: Está dentro da estátua, meu amo. - Henry piscou duas vezes com a nova informação e viu a estátua do elefante a sua frente. Ele juntou os dedos de suas mãos enquanto caminhava a passos lentos para frente e quando os separou, uma energia roxa se esticou junto e com as dobras dos dedos, a energia em fios se soltou da mão esquerda e usando a direita, balançou a tal energia de cima para baixo, quebrando a estátua ao meio. Após a poeira baixar, ele caminhou e viu o que tinha caído de dentro...uma caixa de marfim, selada com quatro cadeados de prata, uma para cada face da mesma.
 - Se estivesse acordado, Monge, eu poderia lhe dizer mais. - Ele começou a a dizer conforme fez a caixa flutuar em sua frente, com ambas em cada lado. Da palma de suas mãos, energias esverdeadas começaram a surgir, com rostos negros e deformados, como se estivessem em um estado permanente de tristeza e essas pequenas almas condensadas começaram a percorrer a caixa. - A verdade também é que a fome de Abudagah não se limita somente a comida, mas também a prazeres, sensações, objetos, riquezas e...conhecimento. Com sua idade e a quantidade de conhecimento adquirido, Abudagah fez parte de uma confraria de seres antigos,deuses, espíritos, chame como quiser, para combater uma ameaça muito mais antiga dos que os próprios Uruni, porém muito mais imprudentes...eram Lords da Dimensão Perdida, demônios do plano infernal que tinham como objetivo destruir toda criação, incluindo a si mesmos...eles aprisionaram tais demônios um bem longe do outro quando tudo terminou. - As almas iam rodando a caixa e pouco a pouco, a ferrugem e podridão podia ser vista tomando conta do metal precioso e encantado. - Eles não mataram os Lords...eles queriam saber como pegar seus poderes sem se corromper e até hoje, tenho certeza de que procuram por isso...e um dos demônios estão aqui, no nosso plano, nosso mundo, nosso pequeno planetinha. Foi decidido que o conhecimento de como liberta-los seria dado a cada um dos membros da confraria, mas deveriam escondê-los...e o fato dele nunca compartilhar essa informação com a SUA geração de monges, enfraqueceu o lugar...
 - Tal conhecimento é o suficiente para levar um homem a loucura, saber o que existe lá fora, corrompê-lo por completo. - Henry sorriu ao ver o ultimo cadeado se quebrando. - Mas eu não temo corromper-me. Porque não se pode corromper a morte!
 A caixa se abriu e dela, um pergaminho enrolado e grosso saiu. Uma energia podia ser sentida quando o mesmo o fez, tanto que Merlin, o pequeno Sombrio, pulou para o bolso do casaco de seu mestre, com medo daquilo tudo. Henry fitou o pergaminho e fechou um dos seus punhos com verdadeira e aparente satisfação. O pergaminho se desfez em cinzas, mas sua essência, sua vida, uma energia dourada e reluzente se moveu até o necromante, como o mesmo ordenou...ele puxou para si e inspirou fundo, puxando para dentro de si aquele poder...e todo seu conhecimento.
 Os olhos de Henry viraram e seu corpo flutuou. Ele soltou um rugido que não era desse mundo quando as imagens vieram.

 Deuses, monstros, escuridão, estrelas, buracos negros, verdades, mentiras, sussurros, planos, astral, físico, espirito, carne, podre, morto, vivo, sangue, olhos, garras, unhas, pele, sereno, raivoso, mundos, Sóis, luas, sistemas, universos...

A caverna...o fogo...o branco...DESMONDUS!

 Henry caiu no chão...bem ao lado do monge, que ainda jazia desacordado...respirando com dificuldade, se levantou pouco a pouco.
 - Mestre! - Merlin o chamou. - Mestre! Você está bem?
 - Meu caro Merlin! - O necromante sorriu. - Melhor impossivel! - E em seus olhos injetados de sangue e insanidade, Merlin pode ver algo diferente nele...
 O verdadeiro poder estava a seu alcance.


Perto da Costa de Mulcateria
Continente Oeste
Ilha de Atrode

 Henry usava agora um manto que o cobria dos pés a cabeça, o capuz fazendo um ótimo trabalho em esconder seu rosto. Sempre foi de manter as aparências, mas seus olhos não estavam melhorando e não queria chamar a atenção.
 Ainda não.
 - Obrigado. - Agradeceu ao homem da embarcação e desceu, suas botas ficando meio sujas de areia conforme ele caminhava para as áreas rochosas e o barqueiro voltava a grande embarcação, remando com visível pressa.
 - Por que usou uma embarcação, mestre? - Merlin se tornou físico novamente, vindo até o ombro de seu amo. - Poderia ter feito o encantamento do Leviatã. É mais útil, rápido e divertido.
 - Preciso de cada milimetro de energia no meu corpo para essa empreitada, caro Merlin. - O necromante respondeu, conforme caminhava mais e mais para dentro da ilha, entrando agora em uma floresta morta. - Terei de usar cada poder e força que conquistei em todos esses anos.
 - Está mesmo pronto, mestre? - O pequeno pergunta. - Você está indo enfrentar algo maior do que eu e você e tudo que acreditamos e vimos até hoje. Se falhar...está pronto para ser recebido pela Morte que tanto cultua?
 - Estou pronto desde o dia em que nasci. Objetivo isso desde o dia que aprendi a falar. - Ele sorriu. - Irei caminhar até lá e enfrentar meu destino e caso eu caia, não existe problema. Pois serei EU que receberei a morte de braços abertos...com o poder do conhecimento que adquiri, colocarei a cadela numa coleira e a farei minha rainha e iniciarei minha empreitada em um plano diferente e é só! - Ele olha para o Sombrio ao seu ombro. - Entende agora, Merlin? Mesmo que eu morra, sairei vitorioso. - E voltou a caminhar, conforme Merlin ria de satisfação ao ouvir tudo aquilo.
 Ele caminhou até que degraus de pedra se iniciaram quando a floresta terminou e ele começou a subir, sempre mirando os degraus e calculando seu próximo passo. Depois de dez minutos andando, ele  ouviu o uivar do vento...primeiro olhou para cima e sentiu o cortante frio no rosto trazendo nuvens pesadas ao longe.
 A chuva o tinha seguido.
 Depois, olhou para sua esquerda e viu um buraco enorme.
 Não podia ser chamado de caverna, nem de gruta, nem de natural, era sim um buraco, perfeitamente redondo, cujo fundo não podia ser visto, nem mesmo o chão enxergado.
 - Mestre... - Merlin fez uma voz chorosa que foi ignorada por Henry que logo caminhou para dentro e caminhou...caminhou até que o tempo lá fora se tornasse irrelevante e a escuridão guiasse seu caminho...e uma pequena luz se mostrasse no fim do túnel, se acendendo repentinamente, como uma vela no fim do mundo.
 Henry seguiu e se aproximou e se viu na beirada de um vórtice, uma imensidão de luz bruxuleante, brancura e escuridão em espiral constante para baixo. Henry nem mesmo pensou...deu um passo para frente e deixou ser engolido por aquilo...a queda durou cerca de segundos e teve o cuidado de fechar os olhos para que os efeitos de cores e luzes não o atormentasse muito e por fim...só abriu os olhos quando começou a cair bem devagar.
 Ele sentiu o solo nos pés e abriu os olhos...
 - Chegamos, Merlin. - O pequeno Sombrio colocou a cabeça pra fora do bolso de seu mestre. - A Caverna de Cristal.


 Henry caminhou e sentiu seus músculos repuxarem, mas ignorou a pequena dor e seguiu em frente...atravessou alguns cristais, passou por algumas rochas, corpos, flores negras e entrou no circulo branco de diamantes que se cruzavam em colunas enormes e poderosas, tentando bloquear seu caminho, sem sucesso...ele caminhou até chegar ao seu centro.
 Lá estava ele. Os braços cruzados, como um morto qualquer, mas de pé, bem no centro da maior e mais forte coluna de cristal que já foi feita por qualquer ser em qualquer lugar e lá dentro, iluminado por seu poder que o mantinha vivo, Desmondus, o Demônio Branco, dormia...
 Henry tirou o manto que o cobria e Merlin voou para seus pés, caindo de mal jeito no chão. O necromante nem mesmo notou e começou a mexer o manto em círculos a sua frente, depois ele levava o tecido esvoaçante para os lados do seu corpo e continuou fazendo esse padrão até que uma energia começasse a se acumular, vermelha como sangue, com traços purpuras que pareciam estrelas cadentes em meio a um céu de sangue...e ele fez isso até que o brilho começou a ofuscar até mesmo os cristais e o pequeno Merlin começou a sentir dor...era muito poder carregado, até demais...
 Henry, de súbito, para o movimento e estende a mão com a palma para cima e o tecido se comprime em uma esfera lilás em sua mão...os músculos do necromante saltavam, assim como suas veias, por baixo das mangas de couro. Então ele puxa seu corpo para trás e depois vem para frente, mirando a esfera em sua mão no cristal.
 - ORCHITÁ ORRA HISTARÁ! - Ele ruge quando a esfera se choca com o cristal e começa um terrível show de luzes que ameaça a derrubar tudo. - QUE AQUILO QUE SEJA VIVO ACORDE PARA QUE SEU SOPRO DE VIDA ME ALIMENTE! - E com essas ultimas palavras ditas, uma explosão ocorreu, forte o suficiente para Henry ser lançado longe e Merlin junto com ele. Eles rolaram até que um cristal partido ao meio parasse ambos.
 - Foi melhor do que pensei. - O necromante disse, se levantando e batendo as roupas, fazendo a poeira cair. Olhou para o chão e viu Merlin em uma posição ridícula, com as pernas para cima e a cara enfiada no chão.
 - Ainda vivo, Sombrio? - O pequeno ser negro se levantou, bateu as asas e balançou o corpo e rosnou.
 - Não posso morrer tão fácil assim, mestre. - Até que algo atraiu sua atenção...Merlin olhou boquiaberto para algo e Henry seguiu seu olhar, depois estendeu sua mão e o Sombrio pulou na mesma, logo o colocando no seu bolso.
 - Não saia. - Henry ordenou e não esperou uma resposta.
 A sua frente, Desmondus o observava.


 O rosto melancólico contradizia seu porte enorme, com músculos desenhados perfeitamente, patas grossas de três dedos que substituíam seus pés, a calda de aspecto reptiliano que terminava fina como um chicote e seus dois metros e meio de altura. Tudo em seu corpo era branco...menos aqueles pequenos olhos vermelhos, que miravam-no.
 Seu poder era sufocante...e Henry sabia que não era nem mesmo metade dele, uma vez que adormecido, muito do mesmo foi selado dentro dele...mas quanto mais tempo acordado, mais tempo ele teria de se despertar. Ele precisava agir.
 - Soru... - O demônio falou algo. Sua voz era grossa, profunda, mas gentil. - Oran goru rotan shakan noru soru. - E ele fez algo...
 Pareceu sorrir.
 - MESTRE! - O grito abafado de Merlin fez os sentidos de Henry se expandirem e ele olhou para cima e conseguiu invocar seus poderes para desviar. Um cristal, do tamanho de coluna que guardava Desmundus caia em sua cabeça e só desviou saltar para longe, invocando os poderes das almas guardadas em si para impulsionar seus pés e parar em cima de um rochedo. O necromante junta suas mãos, invoca mais poder e uma caveira coberta em chamas é jogada contra o demônio, que recebe os golpes como se nada tivesse acontecido, para logo depois erguer suas mãos e fazer aquelas chamas que rodeavam Desmundus crescessem e engolissem a criatura em uma espiral de fogo que chegou ao teto da caverna.
 O necromante teve tempo para pensar...cinco segundos depois, um feixe de luz se fez, abrindo caminho entre as chamas e quase o atingindo...se não fosse seu pé esquerdo bater no chão e uma parede grossa de ossos e carne apodrecida se erguer do sono, protegendo-o e desviando o tal feixe.
 - Essa ilha foi muitas coisas. - Henry sussurrou para si mesmo. - Uma delas foi o campo de incontáveis batalhas. Tem MUITA matéria prima aqui! - Foi quando o demônio saiu das chamas, caminhando tranquilamente...ele ergueu suas mãos enormes e Henry pode ver raios se formando ali, seu poder estava voltando e mais rápido do que ele calculou. O necromante enterrou suas mãos no solo, seus dedos estavam bem fundos na terra quando sussurrou:
 - Nível 1. Ressuscitação! - Seus olhos se tornaram brancos como a lua e um tremor pode ser sentido...até mesmo Desmondus sentiu quando a terra se partiu em pedaços para que mil esqueletos se erguessem, rugindo, gritando algo que não podia ser entendido, somente temido. Trajavam antigas armaduras de batalhas, armas enferrujadas e um brilho azulado podia ser visto nas duas covas negras que eram seus olhos...e eram milhões...mais do que se podia contar e cada um deles ergueu seu machado, sua espada e suas lanças contra o Demônio Branco.


 O próprio se sentiu ameaçado, para o deleite de Henry, que viu o mesmo se debater, quebrando vários deles com suas poderosas mãos, sua calda e rugidos que distorciam o som...mas foi ferido...Henry viu o sangue platinado do monstro ser derramado e sorriu insanamente.
 - Se sangra, pode morrer. - Ele juntou suas mãos e começou a exercer um cântico, algo mais antigo, mais forte para ir mais fundo nas camadas de terra. Outra coisa que o local foi, antes de ser uma prisão, antes de ser um eterno campo de batalha...
 Foi um Cemitério de Gigantes.
 Desmondus estava conseguindo sentir seu poder crescer, conseguia destruir aqueles seres inferiores com o passo constante e que o estava ajudando a se despertar por completo...outro tremor, mais forte do que os outros aconteceu, mas ele não prestou atenção, queria ainda evitar os ataques que podia e usar a dor dos que o atingiam para...
 Uma sombra interrompeu seu raciocínio, enorme, do tipo que o fez lembrar das eras em que podia se engolir sóis ao longo do cosmos. Ele olhou para cima e viu de relance o gigantesco esqueleto se armadura completa, elmo e olhos vermelhos levantar seu punho e o descer com toda força. O impacto fez esqueletos voarem e baterem em cada canto da caverna e se despedaçarem, mas os que ficaram inteiros ainda avançavam com tudo, batendo no punho do gigante.
 - Duro na queda. - Henry sussurrou antes que uma luz emanasse e um calor insano fosse sentido. Desmondus levantou voo, destroçando o braço de osso do gigante no caminho, parando em pleno ar e rugindo com todas as suas forças, criando uma aura a sua volta e dessa aura branca, raios e feixes de luz começaram a ser expelidos, jogados para todos os lados, destruindo tudo, acompanhando o desespero e a tristeza daquele ser em seu grito gutural. Tais tiros foram evitados quando Henry estendeu sua mão e comandou que mil esqueletos o cobrissem. Os tiros ainda estavam sendo dados quando o necromante, em meio a sua "oca" de ossos juntou suas mãos e sussurrou.
 - Nivel 2. Necroformação! - E os estalos começaram. Os ossos dos guerreiros se afastaram, quebraram e despedaçaram...e começaram a se juntar, um a um, no corpo do necromante.

 Desmondus parou de gritar e liberar seu poder. Ele observou todos os destroços e ossos quebrados ao seu redor e começou a inspirar bem fundo para saber se seu inimigo estava ali...
 Tudo que sentiu foi o odor de morte.
 Dando-se por satisfeito, começou a levitar devagar, indo procurar uma saída, baixando sua guarda.
 Um estrondo foi ouvido e com ele, a surpresa, a dor aguda de ter seu corpo acertado com tanta força. O Demônio Branco voou para a parede e depois foi para o chão, sentindo o gosto de algo novo para ele...
Mortalidade.
 O mesmo se levantou de pronto socando o chão e rosnando, podia sentir sua energia voltar cada vez mais e mais, só que ainda assim, muito devagar. Mas nem mesmo o problema de seu poder ou os milênios de experiencia que tinha poderia prepará-lo para o que estava vendo agora.
 Henry estava a sua frente, trajando uma armadura.


 - Soru... - O Demônio sussurrou quando viu a forma dele e protegeu seu rosto quando viu que o mesmo avançou, saltando e quebrando o chão e trazendo seu punho com ele. O golpe acertou o braço do Demônio e Desmondus decidiu entrar no jogo dele...o fez lembrar quando decidia brigar com seus irmãos e não queria destruir o local onde estavam. Henry e o Demônio Branco trocaram socos, chutes e  golpes, o som se distorcia a cada investida, causando o som de trovões...até que Desmondus deixou a guarda aberta. Ele abriu demais os braços, ia dar um soco forte demais e o necromante agiu rápido...alinhou os dedos e mirou no peito do monstro. A armadura de Henry era feita por minúsculos ossos unidos de tal forma que era difícil dizer quando começava um e quando termina outro, mas eram milhares, unidos a sua carne e alma para protegê-lo...e o em apenar dois segundos, ele atirou cada um desses ossos para o peito do Demônio. Eles andaram por todo o corpo de Henry e deslizaram rapidamente para sua mão e de lá pulavam na velocidade do som contra a carne maldita de Desmondus, abrindo um rombo enorme no peito do mesmo, fazendo seu sangue cristalino jorrar...
 Dois segundos foi tudo o que ele precisou.
 - Isso! - Henry, agora com sua vestimenta normal, viu o olhar triste de seu inimigo se tornando de espanto. Aquilo era impossivel! Um mero mortal...
 Henry saltou, segurando o Demônio pelo pescoço e rosnou.
 - OKIRI THANIA SHAKATA! - E do chão, brotaram novos esqueletos, agarrando os pés do monstro e correntes enferrujadas de algum lugar perdido no tempo, enrolando-se em seu tronco, seus braços, pescoço e pernas. Desmondus estava imobilizado.
 - SORU! - Ele chorou. O necromante continuou, ele não sabia quanto tempo ainda tinha. Ele abriu seus braços e disse em alto e bom som.
 - Nível 3. Destruição! - Sentindo medo pela primeira vez em toda sua existência, Desmondus assistiu um portal negro do tamanho de uma mesa de jantar, nascer e crescer acima da cabeça do necromante. Henry estendeu sua mão direita para cima e fechou os olhos ao colocar sua mão dentro do portal negro, não queria demonstrar dor de modo algum...mas pegou o que precisava e trouxe de volta.
 Demondus começou a se debater ao ver a Foice da Morte a sua frente.
 - SORU! - Ele gritou de novo. - SO... - E calou-se. O corte havia sido perfeito, um filete de pele não deixando a cabeça cair do corpo. Henry quase se permitiu sorrir...mas largou a Foice, que se desfez em areia negra e já começou a falar as palavras do encantamento...
 Agora seria a parte mais perigosa.
 Todo poder adormecido de Demondus explodiu quando seu receptáculo estava morto. Era como uma força da natureza presa dentro de um boneco, comprimida, machucada, mas não diminuída...com os encantamentos, Henry conseguiu fazer com que não saísse da caverna aquela tormenta de poder e luz branca que poderia consumi-lo se não soubesse os meios. Henry viu que não enfrentou nem 1% do poder de Demondus e agradeceu a seus antigos mestres por todo conhecimento dado a ele...e começou. Proferiu cada palavra, cada sílaba com um gosto diferente na língua...o ultimo passo!
 - Nível 4! ASSIMILAÇÃO! - E todo poder do inferno se juntou a ele.
 Ondas enormes devastaram as costas próximas, trovões queimaram navios em alto mar, monstros escondidos no submundo encontraram uma saída e anjos sentiram o mundo tremer.
 - MEU NOME É HENRY CHARON! E EU EXISTO!
 Tudo havia mudado.


Em algum lugar de algum oceano

 - Estamos chegando, Mestre?
 - Logo. - Merlin se arrepiou de novo com a nova voz de seu mestre. Observou novamente como todo seu corpo havia mudado, estava mais forte, a postura era melhor, suas roupas, antes negras, agora estavam totalmente brancas, assim como seus cabelos...e seus olhos eram vermelhos com uma pupila  pequena, como uma poça de sangue com um pingo de tinta em seu centro.
 Eles caminhavam pela água fazia dois dias, sem parar, sem conversar direito, indo para o Sul...até que finalmente, Henry parou.
 - É aqui. - Ele sussurrou...ele levitou um pouco mais acima da água e levantou as mãos. Terra começou a emergir, argila, rochas, de tudo um pouco...e pela vontade de Henry, começou a se moldar.
 - E agora, mestre? O que irá fazer?
 - Uma ilha, meu pequeno Sombrio. Um local estratégico. E assim...nossos primeiros passos serão dados.
 Merlin sorriu. Se sentiu afortunado por presenciar o inicio de uma grande história!


 Marinheiros mais espertos e experientes levaram sustos aqueles dias. Uma ilha surgiu em um trecho do mar onde não deveria haver nada e com ele a nevoa mais densa de Sandria, com direito a tempestades repentinas. Os boatos começaram e homens entraram para saber o que tinha lá...nunca saíram ou voltavam para suas casas e nunca mais entravam no mar...os mais afortunados cometeram suicídio, os outros devoraram os corações e genitais de seus parantes.
 Os boatos continuaram mesmo depois de se afastarem...pois a ilha parecia se mover e até mesmo aumentar de tamanho. Portanto, se for desbravar o mar...tome cuidado. Existem forças malignas por ali ao Sul. Forças conquistadas por anos e anos de preparo e espíritos sussurrantes na mente de um jovem sagaz. Um jovem que foi capaz de conquistar um poder proibido e esquecido que faz os Anjos temerem descer de suas montanhas. E eu temo...que será preciso logo alguém que o detenha...que derrote o Senhor da Ilha e seus Espíritos de Conquista...caso contrário...coisas iram acontecer...
 E Sandria nunca mais será a mesma.

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