terça-feira, 11 de abril de 2017

Crônicas Eternas - Neve Vermelha


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Para Carolini Neves
A única

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Os olhos dos guerreiros cheio de raiva pura
O aço cortando a carne
Espalhando entranhas, decepando cabeças
Enviando os homens para as suas mortes
Cavalgue, cavalgue, cavalgue Valquíria

- Amon Amarth (Valkyries Ride)

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 Faz parte da natureza humana buscar outros que possam se responsabilizar por seus problemas. Sejam vilões, na pior das hipóteses, com quem eles possam xingar e atirar coisas, enforcar ou espancar, qualquer um que seja fraco demais para superar a opinião publica ou as massas de pessoas que avança sobre eles.
 Ou alguém que possa resolver o problema...alguém que possa ir onde ninguém mais vai, fazer o que ninguém mais faz, enfrentar e destruir o que ninguém mais pode. Apesar da natureza humana ser agressiva, eles sempre vão preferir olhar para uma estrela brilhante ao invés de um carrasco negro, sempre vão procurar o mais forte ao invés do mais violento, o justo ao invés do tirano.
 As pessoas procuram heróis.
 Por isso, quando a neve começou a cair e o gado sumiu, junto com plantações inteiras...depois crianças e por fim, as mulheres, o Barão Effy, líder do Vilarejo das Pedras, foi responsabilizado e chamado por seu povo. O "dono" do vilarejo decidiu montar um grupo de busca com os poucos Rangers a sua disposição e, após as investigações mostrarem que rastros vinham dos montes rochosos ao Sudeste, o grupo de busca avançou. Dos 20 guerreiros, 9 voltaram, aterrorizados, membros faltando, alguns severamente mutilados. Somente o Barão, em sua astucia (ou covardia) voltou de corpo inteiro, mas de mente destroçada, repetindo coisas desconexas e desconcertantes, com medo e frio.
 Após alguns dias, sem a sanidade mental do Barão voltar, seu filho, Effot, assumiu o comando do local e apesar de jovem se mostrou mais digno que o pai. Trouxe todos para dentro dos muros de sua mansão e pediu para que continuassem suas vidas ali, os guardas e Rangers treinaram os apitos a usarem arcos e espadas e pouco a pouco a moral foi voltando...já que o que acontecia lá fora era mentido em segredo...os guardas avisavam sempre que podiam ao mestre, sobre criaturas cinzentas e verdes que vinham e procuravam e roubavam as casas, destruindo-as no processo. Após alguns meses, conseguindo reunir ouro o suficiente e mostrando os caminhos secretos a um batedor pelas cavernas subterrâneas da mansão, mandou o homem ir buscar quem pudesse resolver seu problema, foi para noroeste, onde a civilização poderia ajuda-lo.
 Foi uma espera angustiante de três meses, com musicas profanas e fogo podendo serem ouvidos e vistos por cima dos muros, não deixando ninguém dormir...os monstros, por algum motivo, não haviam avançado ainda contra os muros da mansão, mas ainda saqueavam e ocupavam a cidade de dia, mas sempre retornavam de noite para seu covil.
 Até que um dia, ele vem, logo de manhã...e encontram uma surpresa.


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Vilarejo das Pedras
Inverno

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 Eles vieram, caminhando pesadamente na neve, para sua tortura diária, mas para um bom fim. Os mais fracos espiritualmente deveriam perdurar e sentir o cheiro de carne humana e não devora-lá para se fortalecer. Pouco a pouco, foi colocado em suas cabeças duras, mas agora eles obedeciam devidamente. Com seus mantos grossos e negros cobrindo seus corpos enormes e fortes, com capuzes cobrindo seus rostos, com machados e armas em suas mãos, eles se moviam, para ocupar o vilarejo mais uma vez, se proteger do frio e sobreviver a provação. O grupo consistia de vinte seres, andando lado a lado, um espaço de cinco metros de cada um, indo pacientemente com suas clavas e martelos em mãos.
 Foi quando um cheiro diferente veio ao ar.
 Os vinte farejaram, respiravam fundo...e tentaram saber o que era. Era diferente de tudo que tivessem farejado antes...mas ainda assim, estranhamente familiar.
 A neve caia gentilmente quando eles pararam, segurando suas armas com ambas as mãos e rosnando...olharam um para os outros e se perguntavam mentalmente se poderiam sair da formação, desafiar ordens superiores. O ultimo da fila, o do canto esquerdo, ia dizer alguma coisa que veio.
 O sabor frio do aço foi sentido em sua língua antes de morrer. O machado rachou a cabeça ao meio e só foi parar de cortar no meio do pescoço do ser...os outros 19 olharam sua agressora.
 Cabelos vermelhos que balançavam ao vento, um manto de pele de urso em suas costas balançava com o vento, cota de malha embaixo de armadura de couro fervido cobrindo seu tronco, suas pernas estavam cobertas com uma calça de pele e seus pés cobertos por botas de couro...e em suas mãos, um grande machado.
 A valquíria rosnou e avançou.
 Rugindo, grunhindo como animais, os encapuzados avançaram,seus rostos ainda não podiam ser vistos, mas ela estava sendo paga para matar...não para reconhecer.
 O primeiro desceu a clava pesada e atingiu a neve, tendo a cabeça decepada no processo, o segundo recebeu o cabo do machado no meio do estomago e se curvou, tendo a lamina cravada nas costas e puxada de forma rude, destruindo sua coluna. A guerreira gira o corpo e decepa a perna do quarto em sua corrida, o quinto tem sua arma bloqueada e um chute no meio do estomago, recurando e tendo o machado cravado no meio da cabeça. O sexto empurro o corpo para frente, na tentativa de surpreende-la e derruba-la, em vão, já que a guerreira já havia girado seu corpo e, aproveitando o movimento desesperado do inimigo, cravou o machado na garganta, o puxando com violência e o balançando de baixo para cima com toda a força que podia ter, cortando a figura da cintura até seu ombro esquerdo, abrindo-o ao meio. As entranhas caíram na neve enquanto ela matava o nono com um golpe rápido no tronco, atravessando o mesmo com a lamina do machado, logo em seguida pegando o décimo, que veio com seu martelo, golpeando em horizontal. Em sua agilidade, a valquíria salta e contrai as pernas, evitando o golpe. Seu machado atinge o ombro e rasga o encapuzado até o peito antes que seus pés toquem o chão.
 É quando ela para e respira fundo.
 O ar quente sai de seus pulmões em fumaça enquanto ela analisa as dez figuras a sua frente, temerosas, recuando e seus pés enormes afundando na neve. Estavam se organizando, tentando se juntar...os dez avançaram juntos, em uma especie de formação que dificultaria algumas coisas pra ela.
 A guerreira sorriu antes de levar os dedos a boca e assoviar.
 Os seres correram, vieram com tudo e rugindo...ofuscando os barulho dos cascos.
 O Carneiro de Batalha veio, atropelando sete encapuzados com seus poderosos chifres e corpo forte, quebrando seus ossos e despedaçando órgãos, derrapando na neve para se virar e ver o restante de seus agressores.


 Os outros três encapuzados miravam a besta agitando seus cascos, prontos para atacar, foi um minuto de descuido...que custou a cabeça de um deles pelos machados da guerreira. Os outros dois, em panico, começaram a correr...e eles mesmos a assoviar.
 A valquíria levou o machado acima da cabeça, forçou os braços e o atirou, girando no seu caminho e cravando na nuca de um deles...pronto, faltava somente um e o serviço estaria...
 ...
 Algo se ouviu mais ao fundo da floresta...
 Risadas?
 Risadas e rosnados...o som de patas afundando na neve e saltando em raízes...
 A guerreira conhecia o som.
 Hienas de Fogo...


 Isso explicada muita coisa, porém deixava mais duvidas.
 A guerreira contou cinco hienas, bestas ferozes e enormes, dentes como adagas, patas poderosas que não pareciam se atrapalhar na neve ou em terreno algum.
 - Jallahar! - A guerreira gritou. - PEGA! - E apontou para o encapuzado restante, fugindo pela floresta adentro. A montaria a obedeceu e voltou a correr como o vento, enquanto ela corria até sua arma. As feras vieram e quando entraram no campo de visão dela, ainda faltava cinco passos para sua arma. A valquíria saltou ao mesmo tempo que os animais saltaram, rindo, mostrando seus dentes, todos mirando a bela guerreira. Ela pegou seu machado, girou seu corpo pela nele, o desprendendo do cadáver e golpeou cegamente em um arco assim que ficou de pé, decepando, por pura sorte, o topo da cabeça de uma das feras. Mais centrada, ela pode fazer mais dano: A segunda saltou e teve o machado cravado em seu pescoço, que se rasgou quando tiraram o machado. A terceira tentou pegar as pernas dela e atacou baixo, fazendo a valquíria saltar e enterrar as botas na sua nuca, quebrando o pescoço. As outras duas atacaram juntas e a guerreira só pode acertar um, enterrando o machado em seu peito, enquanto desviou da outra, rolando pela neve, ficando mais longe que pode.
 Ela se levantou, mas manteve o corpo curvado. A hiena, a fera, circulou os corpos mortos de seus companheiros de matilha, mirando e babando pela carne da mulher a sua frente. Os cabelos vermelhos cobriam os olhos da guerreira, deixando-a com uma aparência bestial mais amedrontadora do que a besta a sua frente. Ambos ficaram ali, se encarando, até que a hiena riu e avançou.
 A valquíria também o fez. Correndo de frente um para o outro, ambos se chocaram e caíram.
 A valquíria usava toda a força de seus braços e apertava a garganta do animal, que guinchava e esperneava, tentando sair do abraço matador da mulher...em vão. Em poucos minutos, o animal parou e a guerreira pode parar...se levantando e tomando ar, ofegante e olhando para toda morte ao seu redor...caminhou até seu machado, tirou da carne do inimigo, foi até um tronco próximo e ali se sentou, esperando...
 Quando seus batimentos estavam se normalizando, seu carneio voltava...com um moribundo agonizante em sua boca.
 - Pode soltar, Jallahar. - E a montaria o fez. Ela caminha até a figura e tira seu capuz.
Hienas de Fogo eram animais impiedosos, cruéis e devoradores de carne, a unica criação da natureza que tinha crueldade em seu amago e forte adaptação, podendo viver onde bem quiserem e pelo tempo que quiserem. E só existia uma raça que foi capaz de domar esses seres, só uma:
 - ORCS! - Ela rosnou e cuspiu ao ver a face do monstro.
 Pele verde musgo, cheiro de podridão, fortes e rápidos...mas muitos fatos não se encaixava em tudo aquilo.
 O primeiro era a cor do orc a sua frente...cinza. Não existia a variação cinza na cor de pele de Orcs.
 O segundo era o clima...Orcs detestavam frio.
 O terceiro se fossem Orcs desde o começo, eles não teriam pego algumas crianças e deixado o resto fazer o cerco...eles teriam invadido e devorado a todos.
 O quarto...carne de Orc é dura, o osso mais ainda...não era para o machado, mesmo sendo feito de aço diamante, atravessa-los tão facilmente.
 Ela ia tirar aquilo a limpo.
 Pegou o dito cujo pelo colarinho e olhou fundo em seus olhos. Ainda havia desafio ali, havia petulância, mesmo com alguns ossos quebrados, mesmo arranhões feios por todo o corpo.
 Ela o levantou o mais alto que podia e o derrubou no chão, batendo com força a cara do Orc na rocha, depois levantou seu machado e cravo no ombro esquerdo dele, o fazendo gritar. A lamina não chegou a atravessar os ombros grossos da criatura, a valquíria não havia usado sua força total e nem planejava usar...ela levantou e desceu o machado de novo...e de novo...cortando lenta e desordenadamente o braço do Orc para fora, fazendo o sangue jorrar, depois o virando para si e levantando o machado mais uma vez e cravando no outro ombro, dessa vez fazendo uma carranca, mostrando os dentes, mirando a criatura ganir e gritar...e olhou fundo nos olhos dele. Dessa vez só havia dor e suplica.
 Agora ela perguntaria para ele.
 - Quem é você? - Ela perguntou, Jallahar agitou os cascos, pronto para pular de cabeça e afundar o Orc na neve e na lama caso precisasse.
 - Utu'ouh... - Ele respondeu com dificuldade.
 - Por que estão aqui?
 - Mestre...mandou. - A valquíria levantou uma sobrancelha.
 - Seu mestre? Seu Orkun? - A guerreira era bem informada. Orkun era como era chamado o mais habilidoso, forte e líder de um batalhão de Orcs.
 - Orkun...obedece...ao Mestre. - Aquilo era estranho demais, até pra ela que havia enfrentado muita coisa. Um Orkun só responde ao seu Orkoh, e um Orkoh só responde ao Korkhan, o líder supremo de uma raça de Orcs...mas o tom não deveria ser esse usado, a palavra "mestre" não era usada por eles, somente por seus escravos.
 - Quem é seu mestre? Onde ele está? - Ela rosnou pra ele, voltando a segurar o machado com ambas as mãos.
 - Mestre...está nas montanhas... - Ele tosse. - Nunca vi seu rosto...na passagem escura de musgo...e... - Como se saísse de um transe, o Orc olhou para a pose da guerreira...viu sua pose e viu o modo como ela parecia que iria mata-lo. Algo acordou dentro do Orc que rosnou, ignorou a dor, ignorou tudo...e começou a rosnar. - Imunda! Humana imunda! FOME E DOR NÃO VÃO ME TIRAR O GOSTO DE UMA VITORIA HOJE! MEU ESTOMAGO IRÁ PARAR DE RONCAR COM SUA CARNE DENTRO DELE, SEU INSETO! EU... - E ele se calou ao perceber que não conseguia se mexer por causa das pernas quebradas e pelo machado sendo erguido.
 - Quando você chegar no inferno...diz pra eles que Karoly te mandou. - E a valquíria desceu sua arma, cortando a cabeça do Orc ao meio, até o meio do seu pescoço.
 Por fim...silencio.
 Ela olhou ao seu redor...a neve vermelha, os corpos e o modo como corvos parecia circularem o local. Bufou...montou em Jallahar e voltou para o castelo.
 Ela precisava comunicar tudo a todos antes de partir.

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Cinco horas mais tarde

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 Karoly se cobria com seu manto grosso, sentindo o vento frio passar por seus cabelos e fazer as poucas tranças balançarem gentilmente sobre seu rosto, comendo uma maça verde uma mordida de cada vez. Bem ao lado, agachado entre rochas, se escondendo na melhor maneira que podia.
 A guerreira observava uma passagem escura com diversos musgos em sua entrada. Mesmo com o frio implacável, a vegetação rasteira crescia, verde e úmida.

 Após se encarregar da pequena frota de Orcs, Karoly voltou para o castelo, avisar seu contratante do ocorrido e informar seus próximos passos, além de se comer, se limpar e se aquecer. Após isso, ela perguntou a Effot se existia cavernas pelas redondezas e ele explicou que ao norte existia uma cadeia de pequenos montes antes de uma grande montanha e por ali, haviam cavernas, mas nenhuma capaz de habitar Orcs, uma vez que eram bem pequenas e mal cabia crianças lá dentro. Ela só agradeceu e esperou o Sol baixar antes de partir pelos portões montada em Jallahar.
 O carneio era veloz como uma flecha, não era a toa que uma pancada dele podia matar sete Orcs, destroçando seus corpos. Ela corria ininterrupto e desviando de tudo, graças a agilidade de suas pernas e a firmeza de seus cascos.
 Correndo, Karoly começou a pensar.
 O Orc se queixou da fome, por isso a fraqueza, a moleza e ataques lerdos e óbvios. Não que ela teria morrido se estivessem bem alimentados, mas pelo menos teria sido mais...divertido, por assim dizer. Orcs são maquinas de comer, todos que conhecem a raça sabem que tudo o que eles fazem é guerrear, matar, foder, dormir e comer. Que tipo de ser poderia fazer um Orc ficar com fome?
 Ela descobriria.
 Passou alguns minutos procurando após atravessar a floresta e chegar aos pequenos montes rochosos...nada de cavernas grandes, somente neve e pequenos locais para se esconder, já estava chegando perto da montanha quando Jallahar ignorou um comando seu e começou a acelerar o passo, trotando e pulando, a deixando nervosa...até que ele parou e abaixou a cabeça. Quando iria reprende-lo, olhou para o que estava fazendo...estava comendo algo. Musgo.
 Karoly o deixou comer...a trilha era um tanto longa e o animal ia devagar...mas após uma curva, viu seu destino. A caverna, grande e com uma entrada triangular, escura, parecendo a garganta de um ser do Abismo a esperava.
 Tomou de volta o controle da montaria e a colocou escondida...e esperou.
 Esperou até ver uma luz bruxuleante e laranja aparecer e o som de metal ser ouvido. Pegou seu machado, se levantou, jogou o resto da maça para o carneiro, assim como seu manto e disse.
 - Só venha se eu chamar.
 E se esgueirando como uma pantera, ela adentrou ao local.

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 O machado nas costas, preso em tiras de couro da armadura leve a fazia se sentir mais segura. Entrou pela frente, se esgueirando, a unica entrada que sabia e não viu mais NINGUÉM vir por ali...mas ainda assim, alguém estava lá dentro. Quando a entrada se expandiu para ser o interior da caverna, logo grudou na parede e seguiu sua expansão, sempre se mantendo nas sombras conforme ia seguindo. A luz vinha do fundo, descendo a caverna, então quando ela viu degraus de pedra cavados a sua esquerda, ela seguiu por eles. Sorrateira e agora com o machado em mãos, ela subiu as escadas sem dar um único ruido. Ela ia reta, depois dobrava e dobrava de novo, sempre subindo...até que finalmente, uma janela apareceu. A escada continuava, mas ela preferiu olhar por ali.
 A luz era de uma fogueira enorme, cercada por pedras e crânios fixadas a elas com argila. O fogo crescia e suas línguas flamejantes chegavam a lamber o teto da caverna. Aboboras com faces dentuças e nervosas estavam espalhadas, fixadas as paredes com argila, com velas dentro. De joelhos, com os braços cruzados, suando como cães, Orcs, uns cinquenta deles, em suas armaduras, armas no chão, olhos fechados, como se estivessem concentrados em algo além da compreensão humana.
 Ela conhecia o suficiente da vida para saber que aquilo era um ritual.
 - Boa noite, meus bons guerreiros. - Uma voz veio, grossa e fina ao mesmo tempo, ecoante perante a caverna toda. Os Orcs, como se saíssem de um transe, abriram os olhos e se colocaram de pé.
 Uma sombra cresceu em meio as chamas, tomando forma, crescendo como que infinitamente...até que, em uma lufada de vento gelado, que fez Karoly, uma guerreira crescida nas montanhas geladas, tremer os dentes. Ela fechou a mandíbula o mais forte que pode e continuou assistindo.
A caverna toda ficou em um tom azul escuro, com alguns pontos luminosos na parede, pequenas esferas de luz que davam tom ao local e ate mesmo as velas dentro das aboboras estavam na tal cor. Os Orcs estavam ali, eretos e prontos, mal pareciam sentir o frio arrebatador...e no meio do lugar, onde antes estava uma fogueira enorme, uma figura apareceu.


 Estopa cobria sua cabeça, uma corda arrebentada ficava como um colar no pescoço e um sobretudo rasgado por cima de um corpo podre e morto, porém ainda era forte. Em uma de suas mãos, uma foice bem curva, afiada, com um cabo de carvalho.
 A figura era hipnotizante, fazendo com que Karoly perdesse o foco de sua missão um segundo que fosse.
 - Meus guerreiros. - Ele começou a dizer, colocando os braços secos para cima. - Meu exercito. Vocês vem até mim, todas as noites e se fortalecem. E isso me agrada. Porém... - Ele abaixou os braços e bateu o cabo da foice no chão de pedras, alguns Orcs se mexeram com receio. - Vejo que aqueles que eram fracos de espirito não voltaram...é realmente, uma pena... - A figura então, respirou fundo...e soltou o ar pela boca, uma pequena nuvem de fumaça.
 - Qual é o meu nome? - A figura morte perguntou. Os Orcs, seres fortes e parrudos, gritaram e rugiram em uníssono.
 - RUNI! - E suas vozes ecoaram.
 - Isso mesmo. -  Runi voltou a falar com sua voz fantasmagórica. - O que eu estou fazendo aqui é bem simples. Estou forjando um exercito digno de meu querido mestre...Shukita-haran. - O som do nome trouxe más memorias para Karoly...o nome de um dos Uruni, um Deus Negro do vazio, destruidor de mundos, normalmente faz isso. 
 - Eu treino vocês. Eu sou seu mestre. Após muitas tentativas, a custo de algumas vidas que limitavam as de vocês, eu libertei seu clã. Eu dei a vocês perspectiva, treinamento especial. Os fracos de espirito estão lá fora...lutando contra a tentação de devorarem homens e com a fome, aprendendo a acalmar os animais e seus espíritos para que se tornem de fato guerreiros. Com calor e com o frio eu moldo vocês como aço, cujas almas são controladas por seus sensos de honra. E assim, logo teremos nosso exercito...forte, poderoso, digno de meu Senhor e ele nos dará sua semente...assim como a deu para mim. E assim, marcharemos...espalhando nossa palavra e nosso meios, fazendo cada Orc entrar para nossa linhagem. - E por fim ele riu, ficando em silencio por alguns segundos depois.
 - Vocês devem estar se perguntando do porquê eu estar me repetindo. Bem... - Runi olhou para cima...para Karoly. - Eu detestaria que nossa invasora morresse sem saber o que se passa. - E todos os Orcs seguiram o olhar de seu mestre, que logo apontou um dedo indicador podre e sussurrou.
 - Peguem. - E como cães raivosos, eles começaram a correr e dar a volta para pega-la.
 Karoly se amaldiçoou por ser tão descuidada e decidiu subir a escada por completo, começando a correr. Quando estava no quinto e sexto degrau, ouviu os passos acelerados e os rosnados, o ranger das armaduras e as armas sendo puxadas e prontas. Eles eram rápidos...mas ela também era.
 Karoly girou o corpo e usando todos os músculos que tinha, se virou e cravou o machado na cabeça do primeiro da fila e o puxou com dificuldade. Ele mal caiu no chão e os outros vieram, puxando seu corpo para fora do caminho, a entrada bem estreita dificultando suas passagem, só por isso ela continuou viva e continuou golpeando. Matou cinco, seis, sete, oito crânios esmagados, um a um eles vinham, um a um, eles caiam com seus golpes. Treze, quatorze, quinze, eles morriam e já puxavam-no para trás para morrer em outro lugar e não interromper a luta, e eles vinha, rugindo, incansáveis. Vinte cinco, vinte seis, vinte sete, vinte oito...
 Os pulmões da valquíria começaram a queimar, os músculos a doerem, o corpo a cansar...ela precisava sair dali, estava cortando carne de Orc a tempo demais, esforço demais. Foi quando o trigésimo primeiro corpo verde caiu, que ela chutou o Orc seguinte e correu para cima, fugindo do combate, com os outros voltando a se derrubar para caça-la. Ela correu, as pernas agradeceram pelos movimentos renovados, subindo sem parar, ouvindo os grunhidos atrás dela, os xingamentos e os cânticos de batalha.
 Ela correu até onde dava para ir...para uma área circular a céu aberto, forrada com a neve que agora caia, escavada na pedra, cercada por estalagmites afiadas...e no centro dela, um bloco de pedra, enorme, rubro de tantos sacrifícios feitos nele. Sem ter para onde fugir, ela correu de volta para a escada...não podia deixa-los passar, caso contrario a luta seria um pouco mais...
 - URGH! - Todo ar dos pulmões de Karoly se foram quando punho do tamanho de uma pedra atingia seu estomago e a fazia rolar pelo chão, criando arranhões negros na neve, revelando o chão. Ela estava tentando se recuperar quando alguém agarrou seus cabelos e a puxou para cima. Estava cercada, os Orcs estavam prontos para fazer o que quisessem com ela.
 Mas eles deveriam saber que não se puxa os pelos de uma loba. Nunca.
 Karoly viu a primeira coisa que pudesse usar de arma...uma faca, na cinta de um Orc. Se apoiou no chão, pegou a arma, subiu já cortando a garganta de um e cravando no pescoço de outro, deu com o cotovelo no nariz de um atrás de si e cravou a faca no meio dos olhos de um que a tentou agarrar e voltou a balançar o machado, cortando a cabeça de um. Quando ia voltar a matar, ela ouviu a voz.
 - Basssta! - E tudo pareceu congelar no tempo. Ofegante, ela parou com o machado no meio do caminho, assim como seis outros Orcs que pararam suas espadas e martelos. Organizados, os Orcs se afastaram, abrindo caminho para seu mestre. Runi veio, mãos atrás do corpo, caminhando devagar, a neve caindo aos seus pés. Karoly ficou na posição de combate...mas não se mexeu mais que isso.
 - Reduziu meu exercito...a um mero punhado de homens, um simples batalhão. - Ele riu. - Meus Para... - Karoly saltou, machado pronto para cravar onde desse...quando Runi apontou uma de suas mãos para ela e uma força a empurrou...foi como se o punho que a atingiu momentos antes tivesse o tamanho exato do seu corpo e a tivesse atingido com o dobro de força. Ela bateu na mesa central, seu corpo se curvando de forma violenta e ficando com o tronco em cima dela, as pernas penduradas. A dor era horrível, algumas costelas estavam quebradas e estava sem ar...mas ainda estava inteira.
 - Talvez eu tenha pego a raça errada. - O feiticeiro começou a dizer. - Talvez que deva pedir perdão ao meu mestre porque, afinal...falhei com ele em minha primeira missão. Mas eu tenho um plano B...eu acharei o SEU povo...e com ele, farei um exercito digno de treino. Sim...farei isso. - Runi começou a caminhar, divagando em pensamentos...parou no meio do caminho, olhou para seu batalhão e disse.
 - Se matem.- E quinze Orcs pegaram suas facas e cortaram suas próprias gargantas sem nem mesmo questionar. Karoly estava levantando, olhando o sangue jorrar daqueles e mal podia acreditar...estava ficando sentada na mesa...quando viu o mago vindo mais perto e começou a se arrastar para o lado aposto...caiu da mesa e foi rastejando até o outro lado...o mago acelerou um pouco o passo, contornou a mesa e começou a falar de novo.
 - Acalme-se, Karoly, tudo será resolvido...sua dor não existirá mais, uma vez que se unir a mim e aos meus. Entenda...tudo é para o bem desse mundo. As pessoas elas...acham que a escuridão é uma coisa ruim, mas não é, criança...é algo natural, é só o oposto da luz, nada mais. Por que as pessoas teimam em achar que eu sou algo...ruim? - E ele chegou perto dela e agachou...ele ia segura-la em seus braços e sussurrar seus feitiços e cânticos no ouvido, a deixando sobre seu controle.
 Karoly conseguiu alcançar seu machado e levantou, vencendo a dor e cravando a mesma na barriga do mago desfigurado. Runi rugiu de dor. Karoly se colocou de pé e o derrubou, já ficando em cima dele e afundando seu punho na sua cara.
 - EXISTE UMA GRANDE DIFERENÇA - outro soco - ENTRE ESCURIDÃO - mais um - E TREVAS! - e mais um soco, mais um, mais um e mais outro. Foi quando o rosto de Runi parecia desfigurado, mesmo com a estopa protegendo o mesmo, que ele rugiu...o rugido era como a mesma força de novo, dessa vez como vento furiosos, tentando afasta-lá de qualquer jeito. Os músculos da valquíria saltaram quando ela se agarrou nele e aproveitou tais ventos para se levantar e leva-lo junto com ela...e atira-lo contra as bordas de estalagmites. Runi, surpreso, ferido e com medo, pela primeira vez em séculos, ficou de pé, pronto para tentar outro feitiço...quando viu Karoly correndo contra ele como um touro enfurecido e se chocando contra ele.
 Pedras quebraram e eles caíram pela montanha. Em pleno ar, Karoly teve a habilidade de lhe dar um soco no meio da fuça...e a queda veio, um tanto amortecida pela neve, mas ainda causando danos. Um dos braços da guerreira estava quebrado agora e ela trincou os dentes para não gritar. Pelo contrario...ela ficou de pé, levou os dedos a boca e assobiou.
 Runi levantou da neve logo em seguida, levantando neve, olhando para a guerreira com um rugido.
 - VACA! - Ele rugiu. Ele tira o machado do seu corpo e o joga longe, começando a sussurrar palavras de magia que pareciam sussurrar aos quatro ventos...uma esfera de energia azul começou a crescer em suas mãos...a guerreira não podia correr, muito menos andar...então tudo o que fez foi sorrir.
 Runi estacou por um segundo.
 As palavras proferidas eram altas e pareciam invadir a mente de alguém...por isso ele não ouviu o barulho dos cascos.
 Jallahar veio violento, mesmo com a neve, os cascos do Carneiro foram firmes e rápidos e como uma bala, acertou o corpo do mago de merda. Runi rolou pela neve...todos os seus membros e corpo quebrados, tentando respirar,aquele tipo de ruido que se faz quando o pulmão não recebe o ar.
 Ele olhou para cima...e a ultima cena que viu foi Karoly, subindo seu machado e o descendo com força.
 A guerreira pegou a estopa que servia de mascara para o homem e a levantou...o peso parecia estranho e flácido...ela olhou dentro e o cheiro de podre era inexplicável...mas inexplicável ainda era as larvas ali dentro.
 Mesmo assim, ela o levou consigo.
 Encharcada de sangue, pingando vermelho pela neve, mancando, ela chegou até Jallahar e montou nele...deu a ordem e plena velocidade, eles saíram dali.

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 Karoly passou o inverno com o povo do Vilarejo das Pedras.
 Após mostrar o saco de estopa e contar sua historia, ela foi levada para ser curada e limpa. Batedores foram conferir se o que lhes foi contado e voltaram boquiabertos e confirmando tudo. No primeiro mês, Karoly ficou em aposentos reais, se recuperando, tendo comida e vinho para se alimentar. No segundo mês, estava ajudando nas plantações e nos últimos reparos das casas. No terceiro e ultimo mês de inverno, estava se preparando para ir embora, recolhendo seu pagamento que lhe fora prometido e pedido por ela: Duas mil moedas de ouro, uma nova armadura, um novo elmo, um novo machado de dois gumes e um escudo, tudo da melhor qualidade.
 Após tal serviço, ninguém pode nega-lá.
 Quando estava para ir embora, Effot, agora o definitivo Barão, assumindo após a demência de seu pai ter chegado a níveis alarmantes, foi conversar com ela.
 - Precisa mesmo ir? - Ele perguntou. Ela colocou as ultimas bolsas na cela de Jallahar e falou com ele.
 - Sim. Outros serviços precisam ser feitos, mais ouro a ser conquistado.
 - Se quiser, pode ficar...você pode ser minha...
 - Não. - Ela disse secamente. - Não nasci para tais...luxos. Meu prazer está na guerra, na batalha. Espero que entenda.
 - Eu não lhe agrado? - Ele perguntou. Karoly olhou para ele. O porte era magro, mas atlético. Os ombros eram largos e seus cabelos eram loiros e longos até o queixo. Não tinha barba, o rosto era tão branco quanto deveria ser o resto do seu corpo.
 Ele não era forte. Ele não tinha uma barba negra e espessa. Ele não segurava cicatrizes no corpo e na alma, não as de verdade. Ele não manejava um machado de guerra. Ele não parecia poder...percorrer nenhuma distancia por ela.
 Effot não era Vykan.


 - Não. - Ela respondeu. - Não me agrada. - E subiu em seu Carneiro de Batalha...e partiu portão a fora.
 Effot nunca a esqueceu...e muito menos amou outra mulher.

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 Existem heróis e heroínas nesse mundo. São raros. Alguns tem um preço. Outros, só esperam gratidão. Os tolos não esperam nada. Mas eles estão lá fora. E suas historias sempre serão contadas.
 As dela são. Karoly...a filha de Gigantes do Norte, descendente de Deuses da neve, poderosa...indo a lugares que ninguém vai e ninguém mais pode ir. Se você puder acha-lá e tiver seu preço, poderá ser salvo.
 Como encontra-lá? É simples.
 Ela é filha do conflito.
Basta seguir a marca de cascos na neve.
Basta ver a sua cabeleira vermelha em meio ao branco.
Basta seguir os corpos de seus inimigos.
 Basta seguir a Neve Vermelha.

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