quarta-feira, 8 de março de 2017

Crônicas Eternas - A Beleza do Silêncio


🌀

Para Beatriz Squinello Cunha
Uma entre um milhão

🌀

Palavras violentas rompem o silêncio.
Chegam destruindo o meu mundinho.
Doloroso para mim, me atravessam.
Não consegue entender?
- Depeche Mode (Enjoy The Silence)

🌀


 Sussurros.
 Eram assim que eram chamadas.
 Mulheres que decidiam o destino do mundo.

 No mundo de Sandria, existem inúmeros reinos, ordens, feudos e etc. como já foi explicado antes. E obviamente, nesse meio, existem aqueles cujas habilidades ou números eram usados para arrecadar fundos, sem bandeira ou honra, seus meios de batalha eram unicamente para ganhar moedas de seus contratantes.
 Mercenários.
 Inúmeros grupos de diferentes especialidades e alguns tiveram seus serviços como referencias. Os Ninjas de Splin e suas táticas silenciosas para invadir castelos. Os Irmãos Brok e seus explosivos. O Exercito Gêmeo e seus homens gigantes. Os Irmãos Lukan e Vykan, o Tigre e o Urso, e seus meios de tomar castelos...
 Mas quando se tratava de qualidade, de dar certo, de sucesso real na missão no mais perfeita ordem de acordo com suas preferencias, caso você pudesse pagar, deveria chamar as "Sussurros".
 Mulheres sem nome, assassinas, ladras, piratas, rainhas de seus mundos e segredos. Hábeis em fazer qualquer tipo de serviço, desde assassinatos silenciosos a mensagens escandalosas, tudo era feito de forma que não haveria rastros, não deixaria rostos a serem identificados ou ligação com seus contratantes. Silenciosas, meticulosas, ninguém sabia quem eram e seus procedimentos de serem achadas eram complexos e diferentes.
 Derrubaram civilizações de leste a oeste. Mataram heróis e monstros de norte a sul. O serviço perfeito, sem rastros ou nomes...somente o sussurro no caminho de que alguém fez algo que mais ninguém poderia fazer.
 Desde a Primeira Era, as Sussurros se movimentam e recebem por seus serviços, aperfeiçoando seus treinamentos, se tornando devidamente mortais.
 Porém, na metade da Terceira Era, algo aconteceu...os chamados das Sussurros não mostraram mais resultados, os serviços pararam de ser feitos...se foi especulado que morreram, sumiram, alcançaram a riqueza que queriam e se foram...ninguém sabe dizer.
 Ninguém...
 Somente ela.

🌀

Vilarejo dos Canários
Próximo as Planícies Azuis
Continente Oeste
Outono

🌀


 O sino da igreja bateu. Foi o primeiro barulho do dia pra ela.
 Beatrice olhou ao redor. A vila estava movimentada, mas ninguém falava muito e se falassem, era baixinho, conversas individuais sem ninguém saber do que se tratava. O chão de terra batida não levantava muita poeira graças ao clima úmido, as casas simples mas bem construídas, de madeira, tomavam distancias uma das outras, onde as pessoas estendiam suas roupas que lavavam nos rios próximos. Mais para o centro, carroças abasteciam os dois mercados e os açougues do lugar, assim como as oferendas para a igreja local. Era um local cercado por campos gramados, arvores e uma floresta mais a longe.
 Era calmo. Silencioso. O lugar que ela gostava.
 Estava do lado de fora da casa, em pé, em frente a um barril com uma tábua de carne em cima dela, fatiando as partes das coxas de um cervo que foi caçado ontem e trazido a ela como presente...de novo.
 Beatrice era bonita. O corpo de uma mulher, pele branca, olhos castanhos claros com bordas esverdeadas, cabelos levemente cacheados e compridos que balançavam com o vento. Ela chama a atenção de todos os homens do lugar desde que chegou a três anos atrás, mesmo agora, vestindo somente uma camisa simples, uma calça que ia até metade das pernas, chinelos de palha e um avental grosseiro por cima de tudo, todos olhavam para ela, seguido de olhares baixos. As "oferendas" a ela eram múltiplas, desde poemas, bijuterias confeccionadas a mão, flores raras, vestidos, roupas e juras. Nenhuma a interessava. Mas eram tantas...tamanhas que, um dia, ela decidiu dar um basta.
 Não era só o fato da vila ser silenciosa que a fazia um achado, mas sim o conceito de fidelidade entre os moradores dali. Dos 93 habitantes, 60 eram casados e extremamente fieis e leais uns aos outros. Ninguém se intrometia na vida amorosa alheia uma vez que o casal estava formado, logo ao observar isso, Beatrice escolheu um para que a parassem de incomoda-la sem ter de apelar para rudez: Dereck, caçador, filho do açougueiro, era bonito, forte, gentil, trazia comida para ela e a satisfazia quando as luzes se apagavam. Era mais que o suficiente...mas a cada dia ele começava a sorrir mais ao vê-la, ao cuidar dela, conversar...estava realmente se apaixonando e ela pensava que talvez devesse acabar logo com o teatro...ou segui-lo até onde pudesse. Gostava do lugar.
 Suspirou e afastou os pensamentos. Terminou de cortar a carne, cravou a lamina na madeira, colocou os pedaços dentro da sua tigela de sal grosso e cobriu com um pano. Lavou as mãos  pegou seu balde e foi caminhando até o poço, a poucos metros dali. Ficou na fila, deu bom dia a todos que viu por ali e, ao longe, sentiu algo a olhando. Se virou e viu, próximo a um morro dali, os olhos de Dereck. Ele estava voltando com uma ninhada de coelhos nos ombros e seu arco e flecha nas costas, seus cabelos longos presos em um rabo de cavalo e a barba espessa pelo rosto. Mandou um tchau para ela e ela para ele.
 Ele era um bom homem...mesmo não sentindo muito por ele, nada mais do que um leve apresso, ali, onde ela estava, seria bom ficar com ele...não seria um sacrifício tão grande.
 Até que chegou sua vez, amarrou a corda no balde, desceu ele e quando o instrumento mergulhou...ela começou a ouvir.
 Primeiro foi por causa das vibrações da água, que subiam lentamente pela corda. Poucos sentiriam tal coisa...mas ela sentiu. Depois umedeceu os lábios, pelo menos foi o que pareceu para qualquer um, mas ao colocar a ponta da língua para fora, experimentou o ar...
 Sentiu o gosto de ferro trazido pelo vento. O sabor era minusculo, como se você colocasse um único floco de açúcar em uma xícara de leite...mas ela sentiu. Ela podia.
 Puxou o balde e, parecendo um descuido, o derrubou.
 - Ai, me desculpem...parece que vou demorar mais um pouco.
 - Ah, tudo bem, eu vi, ein? - Uma moça atrás dela disse. - Dereck chegou de outra caça e te mandou um tchau...eu também ficaria meio tonta, com todo respeito. - E todos riram na fila, assim como ela. Beatrice se agachou para pegar o balde...e seu ouvido encostou de leve nas pedras que cercavam o poço. Ouviu melhor e pode dizer...cavalos vinham ai. Apressados, em ritmo constante...
 Ela se levantou, pegou a água e saiu. Voltou para sua casa e deixou o balde do lado de fora, entrou, retirou o avental e pendurou atrás da porta. O local era simples, um quadrado sem divisórias, onde havia uma cama, um forno a lenha com seus materiais de cozinha pendurados em cima deles e material para a pequena plantação de batatas que tinha na parte de trás. Mais nada que ela precisasse.
 Ela ia cozinhar, mas não se sentiu mais a vontade pra isso. Ela só se sentou nos pés da cama, curvou o corpo, colocou os cotovelos nos joelhos, entrelaçou os dedos e colocou a mão embaixo do queixo, apoiando sua cabeça. E ficou assim...esperando.
 Os cavalos chegavam mais e mais perto...logo pode discernir a quantidade, eram seis e eram pesados...ou carregavam muita coisa ou quem os montava estavam com armaduras. Esperando mais, desejando que partissem, que fossem embora...mas não foi assim. Eles viraram pela estrada e cruzaram os campos de trigo...depois chegaram ao local, cruzando a cidade e assustando os moradores.
 Se levantou e saiu pra fora, pegando a faca em cima da tábua quando o fez.
 A cena era o seguinte: Dereck chegava carregado de coelhos e flores, ficando travado no meio do caminho, por causa dos seis cavaleiros negros que chegavam fazendo barulho.
 Barulho demais.
 Beatrice ficou ali, parada, a lamina meio que escondida no seu antebraço, o cabo sendo segurado de maneira leve na mão esquerda. Os cavalos eram negros com rédeas bem curtas, aparadas a faca, carregando celas marrom escuras, onde cavaleiros com armaduras bem completas, cheias de placas, com elmos que faziam moicanos pontudos em cima de suas cabeças e placas de metal retorcido para caírem nos rostos, os escondendo.
 - Beatrice... - Dereck fez um movimento, algo como ir até ela e protegê-la.
 - Não saia dai. - Ela disse, sem se virar. O tom de sua voz foi o suficiente para travar o caçador de novo...mesmo assim, com o receio monstruoso instaurado e suas mãos tremendo, o caçador foi capaz de soltar suas caças e presentes e armar seu arco.
 É...ela tinha escolhido bem.
 - Com licença. - Uma voz masculina abafada se fez ouvir. Os cavaleiros saíram do caminho do seu líder, que logo desmontou do cavalo, tirou suas luvas e seu elmo.
 Seus cabelos eram lisos, longos e negros...e seu rosto era frio. Mais frio do que já viu outro na vida.


 - Boa tarde. - Ele então olhou na palma de sua mão e sorriu. Depois olhou para Beatrice. - Parece que lhe achamos.
 - É comigo que está falando? - Beatrice perguntou.
 - Sim. Com você. A Sussurro. - E aquilo fez a moça gelar. A sensação até então desconhecida para ela a chocou...não era possivel. Ela achou que os cavaleiros estavam vindo para pilhar a vila, estuprar as mulheres e fazer a desforra. Mas procurar por ela? E ainda chama-la de Sussurro? Era impossível. Impossível!
 - Por favor, não se assuste. - Ele voltou a dizer. - Somos meros mensageiros...somos de um reino muito, muito distante. E precisamos da sua ajuda.
 - Eu não tenho porque te ajudar. - Ela se limitou a dizer.
 - Sim, você tem. - Ele respondeu, com o sorriso ainda estampado no rosto. - Veja bem, meu rei está necessitado...ele está precisando muito de uma coisa...uma coisa que só um Sussurro pode...
 - Pare de dizer essa palavra. - Ela quase rosna. - Eu não tenho o que vocês querem. Muito menos tenho o interesse de ajudar vocês.
 - Que pena. - Um dos cavaleiros de voz grave diz, ainda montado em seu cavalo. - Se não tem, não é de nossa serventia. Você viu o rosto do nosso capitão, então, vai ter de morrer. E teremos de matar todo mundo aqui também.
 - Infelizmente, funciona como nosso amigo ali falou. - O Capitão de cabelos cumpridos falou. - Não é algo que queremos, nós queremos mesmo é dar ao nosso rei o que ele quer para que possamos expandir um pouco as fronteiras. Deixaremos você e seu vilarejo em paz como recompensa, eu posso prometer isso se isso fazer parte do seu acordo.
 - Primeiro ameaçam e depois falam de acordo. - Beatrice responde. - Vocês são péssimos no que fazem.
 - Ora, isso não é jeito de...
 - Silencio. - Beatrice o interrompeu. - Tudo o que eu quero é silencio. Te ajudar implica em quebrar o mesmo...então, minha resposta é não e não, não vão matar ninguém aqui. Deem meia volta. Vão até seu rei. Digam que acharam o corpo de uma mulher que se parece muito comigo e os vermes não deixaram que me levassem. E assim, todo mundo fica vivo e bem. - A autoridade em sua voz criou diferentes reações. No povo em volta, medo. Nos homens a sua frente, raiva e pavor ao mesmo tempo, estavam compelidos a atacar, mas suas montarias estavam instintivamente querendo sair dali. Ao capitão, curiosidade e duvida. E ao Dereck, estranhamente, uma ereção enorme.
 - E o que vai fazer? - O Capitão pergunta. - Nos matar com uma faca de caça?
 - Cozinha.
 - ...ein?
 - Mato vocês com uma faca de cozinha. - Beatrice terminou de responder, girando a ponta da faca em seu indicador. - E ai? Qual sua resposta?
 O silencio durou cinco segundos.
 - Você vai cono... - O Capitão não continuou. Não pode. Não quando a faca atravessou seu nariz e subiu até varar sua cabeça, o matando instantaneamente. Beatrice, com velocidade sobre-humana, arranca a faca do corpo antes que qualquer um solte um suspiro de surpresa. Ela salta e na queda, abraça um dos soldados em cima do cavalo e caem de maneira dura e grosseira no chão. Ela se levanta e o pescoço do homem está cortado de orelha a orelha e mais uma vez, sem perder tempo, ela gira o corpo e a lamina voa de sua mão, enterrando na testa de um deles.
 Faltam três.
 Em meio a um grito, um deles tenta sacar a espada. Beatrice chega antes e segura o punho da arma antes dele, saca a mesma e corta a cabeça do cavalo. O animal morto cai e em baixo dele, a perna do homem, o prendendo e o fazendo gritar.
 Faltam dois.
 Ambos os homens restantes presenciam aquilo boquiabertos. Quatro dos seus caídos, um deles está gritando ali sem parar no chão. A vila está toda petrificada e respirando fundo...Beatrice, a doce mulher que trabalhava com metais simples, ajudava em algumas plantações, futura esposa do filho do açougueiro, estava ali, agora, suja de sangue com uma espada em mãos.
 Um dos homens puxou as rédeas do cavalo, fazendo dar algumas passadas para trás. O olhar de Beatrice o fuzilou.
 - Não. - Ela apertou o punho da espada. - Não há escapatória.
 Beatrice explode em uma corrida e o cavaleiro, em seu medo desenfreado, balança sua lança com um grito estridente na garganta. O parceiro do mesmo, ignorando o aviso da moça, contorna seu cavalo e começa a fugir, correndo entre as pessoas, as atropelando. No meio da corrida, a Sussurro enterra a espada no chão e sobe em cima dela. Como um gato durante o salto, Beatrice gira seu corpo, desviando do golpe de lança...e enterra os dois pés na cara do seu agressor. Ele cai do cavalo de tal maneira que o é possivel ouvir o pescoço quebrando.
 A mulher aterrissa no chão e a lança do cavaleiro agora está em suas mãos. Em silencio, todos assistem petrificados, enquanto ela segura a arma com ambas as mãos, gira o corpo...e a joga. Ela vai alto e desce em arco...se enterrando nas costas do fugitivo que cai morto do cavalo. O animal continua sua corrida como se nada tivesse acontecido.
 E por fim...silencio.
 Ele aproveitou aquilo...fechou os olhos, parecia em transe...balançou a cabeça de um lado para o outro...até que os gritos e perguntas começaram. Beatrice os encarou antes que a tocassem para agredi-la com suas mãos e palavras...e todos pararam de medo. Os olhos dela...estavam vermelhos...puramente vermelhos.
 Ela deu meia volta, foi até o homem agonizando embaixo do cavalo morto. Com um dos pés, ela tirou a carcaça de cima dele, tirando mais gritos do cavaleiro...e o segurou pela orelha, começando a arrasta-lo para dentro de sua casa. No caminho se abaixou e tirou sua faca cravada na testa de uma das vitimas.
 - Beatrice, o que... - Dereck tentou falar.
 - Volte pra casa, Dereck. - Ela o interrompeu. - Volte para suas caças e para sua vida minuscula. Eu e você não temos mais nada. - Depois ela olhou para todos da vila. - Me deem meia hora...e eu vou embora para que nunca mais me vejam novamente. Eu prometo.
 E entrou na casa, arrastando o homem. O jogou no chão, subiu em cima dele. A essa altura, ele só respirava fundo e resmungava, sem mais forças ou voz pra gritar. A perna estava quebrada em mais lugares do que se podia contar e a dor era tremenda...mas a presença dela o calava.
 Beatrice pegou uma das mãos do homem e a puxou para perto de si. Olhou bem para os dedos, escolhendo um que achava melhor...o dedo médio serviria. Segurando ele, ela manteve a mão do homem próximo ao seu busto.
 - Agora você vai me contar...quem te mantou, o porque, vai me mostrar mapas, vai me dar localizações, nomes, tudo...e principalmente vai me dizer como conseguiu me achar. - E encostou a ponta na faca na ponta do dedo dele. - Entendeu bem?
Ela concordou com a cabeça, suando frio.
 - Ótimo. - Beatrice concluiu. Ela sabia que não precisaria enfiar a lamina embaixo da unha do homem...mas ela o fez mesmo assim.

🌀

Pequeno reino de Ustérios
A Noroeste do Vilarejo dos Canários

🌀

 O Rei acordou no meio da noite. Olhou para o lado e sua cama enorme só contava com sua presença. Seu corpo grande e musculoso não combinava com a barriga inchada, resultado de anos de bebedeira. Se levantou, coçou a barba rala e começou a caminhar pelo piso de pedra. Vestiu um dos seus roupões e, por instinto, pegou sua espada.
 Não era de hoje que ele suspeitava de aventuras noturnas de sua esposa, mas o sono pesado nunca o deixou ter certeza...agora, por ventura ou benção dos deuses, ele tinha como saber.
 Abriu a porta enorme e notou o silencio...
 Silencio demais.
 O quarto era a prova de som, mas lá fora, ele sempre ouvia os guardas conversando, até o som da cozinha a quatro andares a baixo no castelo...o rei tinha ouvidos apurados, ele se orgulhava disso. Mas dessa vez, o chão e paredes de pedra só eram recheados com o crepitar das tochas nas paredes e o tremular das fracas chamas de lamparinas. Nenhum outro som...
 Silencio total.
 Encucado com a situação, ele percorreu o corredor e ficou irado ao ver que nenhum guarda se encontrava ali, nem no corredor do seu quarto, nem no outro...começou a percorrer tudo e a gritar.
 - GUARDAS! - Ele rugia. - SEUS IMUNDOS DE MERDA! ABORTOS! FILHOS DE UMA VACA! AS PUTAS DAS SUAS MÃES NÃO VALERAM ESSE ESFORÇO TODO! - E continuou a gritar quando desceu as escadas...mais corredores...os quartos...tudo vazio.
 A raiva virou receio...e pouco depois, medo.
 O rei estava sozinho no castelo.
 Com medo, o rei gritou, mas ninguém ouviu...cada berro era engolido pelo silencio e seus passos de pés descalços ecoavam fracamente por todos os lados. E para onde um rei vai quando quer se sentir seguro? Onde mais os guardas poderiam estar? Onde poderia ser o fim do seu sofrimento?
 Na sala do trono.
 O rei corre, tropeça e cai, se levanta, amarra novamente o roupão, pega sua espada e volta a correr. Mesmo com o corpo pouco preparado para o esforço físico, ele não para, o pavor de perder seu reino, sua vida é grande demais...
 Ele chega a porta de ébano enorme. Ele se joga contra elas e as empurra e as abre em um estrondo...se estivesse mais consciente e menos sangue quente, teria percebido mais cedo o piso úmido em escarlate.
 O rei abre as portas...e ele não vê seu trono, não. Primeiro, ele sente o verdadeiro medo, não o receio de que algo poderia estar acontecendo, alguma coisa sendo tramada contra ele...agora era a certeza...pois a cabeça de cada homem, cada mulher, cada guarda, cada servo estava ali, empilhado em sua frente e bem no topo, estava a da rainha...sua esposa.
 O rei soltou sua espada...tapou a boca e os olhos e tentou dizer algo, gritar, não se sabe...mas se interrompeu.
 O frio de uma lamina larga era sentida em suas costas, invadia um de seus rins.
 Em um espasmo, ele solta um grito curto e cai no tapete vermelho, tentando vencer a dor ele se arrasta...até que olha para trás e vê sua agressora.
 O olhar triste de uma assassina.


 - É você. - O rei aponta, tentando se arrastar para trás, indo em direção a pilha de cabeças. - Essa roupa...é você, a sussurro...é você! - Ele balbuciava, Beatrice nem se movia. O Rei só parou, com suas dores e respiração difícil quando encostou na pilha profana que bloqueava o caminho até seu trono.
 - Sabe...tudo o que eu quero é um pouco de paz. - Ela começou a dizer, caminhando lentamente. Ao sair para a luz, pode se ver que sangue banhava suas mãos e antebraço. - Mas sua esposa teve de me localizar...são poucas as bruxas que podem fazer tal ato contra nós. Foi um ato considerável, apesar de imprudente. - Ele suspirou antes de continuar. - Essa armadura...causa tanto barulho aqui... - Ela leva uma das mãos a cabeça e bate com o indicador delicadamente na têmpora. - Trás memorias demais...de hipocrisia e maldições. Você sabia que as Sussurros juntaram o maior tesouro que o homem poderia conceber? É uma fortuna juntada durante três eras...três mil anos de serviços extremamente caros juntos em um só lugar...e sabe pra que? Pra financiar. - Ela parou aos pés do rei, o mesmo já perdendo muito sangue, mas ainda atento a voz da mulher e do seu desabafo. - Elas queriam fazer uma guerra tão grande e poderosa...movida a magia, maquinas, soldados treinados e nós...as Sussurros como generais e futuras governantes do mundo...elas queriam que tomássemos conta de tudo...o mundo seria nosso. Mas...a confusão...o trabalho que daria tudo isso, o barulho, o choro...eu já estive em guerra antes...é horrível. Eu não gosto. Então...eu as silenciei.
 O rei esbugalhou os olhos ao ouvir aquilo.
 - Você...matou as Sussurros. - A resposta do rei foi um par de olhos perdidos...depois se focando nele, sem emoção nenhuma, Beatrice sacou uma faca da cintura.
 Uma faca de cozinha.
 - Você vai passar uma mensagem importante para mim, meu rei. - Ela disse.
 - Não adianta, sabia? - O rei disse, ofegante, não conseguindo sentir mais as pernas. - Matar as Sussurros...só vai fazer mais guerra, mais merda aparecer. - Por mais incrível que aquilo pareceu...as palavras fizeram Beatrice parar por um instante. - Sussurros, ao longo da historia, pararam guerras com uma unica morte...o silencio vinha com eles, cada sangue derramado poupava mil homens de cair em desgraça. Você deve se lembrar...tem que se lembrar. - Ele rosna de dor...a consciência começa a oscilar. Ele balbucia. - Sussurros...salvavam vidas...tirando vidas...eles...o barulho da guerra...não era ouvido quando...podia se pagar um sussurro... - E ele começou a cair no sono eterno.
 O rei de Ustérios morreu assim...falando algumas verdades em suas ultimas consciências, sentindo uma dor aguda...mas muito parecido como entrar em águas mornas e se deitar ali, esperando que esfriem.
 As palavras fizeram Beatrice ficar encarando o corpo e a carnificina que realizou mais cedo durante algumas minutos. Ela piscou e olhou para dentro de si...relembrou de sua historia, seus motivos...e como foi ensinada e treinada, se adaptou rapidamente a novas evidencias encontradas.
 No dia seguinte, quando os guardas da cidade entraram na sala do trono, acharam as cabeças empilhadas...e seu rei, no trono, como adormecido, com sua coroa na cabeça.

🌀

Na Noite Seguinte
Algum lugar do Continente Oeste

🌀

 Beatrice esperou pacientemente, encostado em uma arvore. Havia tomado sua decisão. Ela mirava a lua cheia e sentia o ar puro entrando pela mascara que cobria seu rosto...pela primeira vez, que colocava a armadura leve das Sussurros, sua mente estava vazia...tranquila...em silencio.
 - Beatrice... - Ela se virou ao ouvir seu nome. Dereck apareceu...carregando seu arco e flechas e uma mala nas costas. O jovem vestia um manto negro sobre trajes cinzas, sua barba estava um pouco mais longa do que de costume e seus cabelos longos estavam soltos. Ele estava pronto para segui-la mais uma vez.
 - Vou perguntar de novo, caçador. - Beatrice andou até ele.
 - Já tomei minha decisão, eu... - Ela segurou seu rosto, olhando fixamente em seus olhos, o interrompendo.
 - Eu não te amo, Dereck. Mas eu sei que você me ama. Por isso te chamei. Por isso vou te usar. Você não significa nada pra mim do que um potencial soldado. Eu vou te usar. Como arma, como objeto... - Seus dedos percorreram os lábios dele. - Como amante...mas eu nunca vou te olhar como igual, nunca vou te ver mais do que uma arma...algo que vou ter para alcançar o que eu quero. Vai abandonar sua vila tranquila, suas caçadas e seu pai...pra se tornar um assassino? Para ser meu e para que eu faça o que bem entender com você?
 A respiração do homem era pesada...ele engoliu a seco e respondeu, com um meio sorriso.
 - Sim, Beatrice.
 - Ótimo. - Ela empurrou seu rosto levemente e se virou. - Então vamos... - E ele começou a segui-la.
 - E que caminho vamos tomar, Beatrice?
 A assassina sorriu por debaixo da mascará.
 - O Caminho do Esquecimento.
 E desapareceram na floresta escura.


🌀

Começou como um boato.
Depois como recados de sangue.
E por fim, os rituais, mesmo os feitos a anos atrás começaram a ser respondidos.
Pouco a pouco, a força e o temor foram colocados nos corações dos homens.
Os fantasmas estavam de volta.
Os demônios devoradores de almas.
Restaurados e prontos para ganhar suas vidas a custa de outras.
Evitando guerras. Diminuindo o barulho do mundo.
Fazendo reis, heróis e até deuses falarem baixo.
Em sussurros.
Com uma líder mais eficiente e visionaria, eles se espalharam.
Mostrando ao mundo sua mensagem.
Mostrando a toda Sandria...
...a beleza do silencio.

🌀


FIM

Nenhum comentário:

Postar um comentário