segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Imortais - O Urso



Para sempre
Imortal


 - Corre!
 - Pai!
 - Sai daqui, Vykan! Leva o Lukan embora!
 - A MÃE, ELA MORREU!
 - Pega seu irmão e sai daqui! AGORA!
 - Pai, atrás de você!
 - AAAAAAAAAAAAARGH!
 - PAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAI!



 Apesar da violência em sua mente, os olhos do Bárbaro se abriram calmamente. Acostumado, desde criança, com as turbulências do passado a ponto de não lhe atrapalhar mais o sono, bocejou e pensou em tirar mais uma soneca antes de partir, mas não conseguiu.
 Bufou, se levantou, ficou sentado por um tempo, bocejou, coçou as costelas...abriu a barraca e saiu para o frio afora.
 Só trajando uma calça de algodão grossa, mostrando o corpo enorme e forte cheio de cicatrizes e marcas de lutas passadas, Vykan se alongou, estalando alguns ossos e passou as mãos pela cabeça raspada e depois pela barba. Olhou para cima e viu o Sol, calculando ser no máximo umas oito horas da manhã. Tinha tempo de sobra.
 Olhou ao redor e viu a pequena clareira em que se encontrava, onde a grama era verde apesar do clima frio, as árvores eram bem tortas, troncos escuros de com aspecto medonho e raízes que se embrenhavam umas nas outras, mas suas folhas eram igualmente verdes e claras. No meio da floresta, a luz do Sol não entrava muito, mas havia seus focos de luz natural. Mais a frente, havia um rio, o qual Vykan podia ouvi-lo e sabia que precisava visita-lo e logo. E viu mais adiante, acima das arvores, o seu destino: As Montanhas de Maquia. E se sentiu ansioso...ele adorava neve.


 Olhou ao redor e viu sua fogueira apagada, sentindo o estomago roncar. Vykan queria alguma coisa fresca pra comer, não que a carne seca ou a salsicha em conserva fossem ruins, mas cerveja sempre era melhor com carne de coelho fresca. O pensamento só fez ele caminhar mais rápido para o fundo da floresta, tentando verificar suas armadilhas colocadas na noite anterior. Para sua sorte e deleite, havia conseguido pegar três coelhos e um esquilo, rapidamente voltando para o acampamento, pegando suas ferramentas, tirando a pele e limpando os animais, cortando em alguns pedaços e jogando os que não prestavam fora. Acendeu a fogueira com suas Pedras de Fogo e deixou ali, para que tudo ficasse em brasa.
 Deu uma corrida até o rio, se ajoelhou na beirada e afundou as mãos sujas de sangue na água fria, esfregando uma na outra pouco a pouco. Pensou em como queria já pular ali e se lavar para continuar rapidamente seu dia, mas tinha primeiro que comer alguma coisa...sentia o corpo ficando fraco já...
 Foi quando ouviu o rosnado.
 Vykan só olhou para cima, sem mudar a postura. Um Urso de Sabre o mirava, saindo de trás de uma arvore e rosnando.


 A fera caminhou pesadamente até a margem oposta do rio, seu corpo pronto para atacar...quando parou, poucos centímetros da água. O Urso de Sabre era o maior predador da região, normalmente vivendo em bandos pequenos ou totalmente solitários, quando um aparece, todos correm...e aquele estava acostumado com isso, sua vitima sair correndo para no fim caça-la, mata-la e come-la. Mas aquele ali, não se mexeu...ficou na mesma posição, agachado, levemente curvado, as duas mãos dentro do rio, o encarando de volta com uma expressão nada amigável.
 Vykan já havia agarrado uma pedra embaixo da água e continuou segurando-a ali mesmo, encarando a besta que ainda rosnada, mas exitava...dali, só haveria dois resultados: Ou atacaria ou iria embora.
 O Urso rosnou, rugiu, se mexeu, ficou de pé e bateu as poderosas patas no chão, mas nada intimidou o que deveria ser sua caça, pelo contrario...o Bárbaro soltou um rosnado do fundo da garganta e enrijeceu os músculos. E por fim, quando a besta deu alguns passos para trás, Vykan sabia que não haveria confronto. Se levantou, mirou a fera por alguns segundos, deu meia volta e voltou para o acampamento.
 Olhou para as chamas na fogueira e alimentou com mais alguns gravetos, foi para dentro da barraca e mexeu na mochila, tirando uma panela e uma garrafa de rum. Se sentou próximo ao fogo, forrou a panela como a bebida e deu alguns goles. Colocou perto do fogo e quando esquentou, colocou o coelho lá dentro.
 Preparou sua comida, comeu até os ossos e foi se lavar. Quando chegou no rio, não viu mais o urso. Tirou as poucas roupas que tinha e mergulhou nas águas congelantes, mas o frio pouco o incomodava. Ficou ali durante uma meia hora e quando se sentiu limpo, saiu, voltando para perto da fogueira. Vestiu novas calças e colocou  suas botas de couro que iam até o meio da sua canela, se dobrando ali. Vestiu sua Cota de Malha e se deu por satisfeito por enquanto. Desfez a barraca e a enrolou, juntando tudo que era seu, deixando algumas coisas separadas e pegou sua pá e cavou o mais fundo que seu bom senso indicou. Enterrou tudo. A próxima etapa da jornada pedia que carregasse pouco peso e que se livrasse de certas coisas e era isso o que ele faria.
 Bateu a terra, escondeu a pá em algum lugar no mato e foi pegar as coisas que deixou para usar.
 Uma pequena bolsa com alguma coisa dentro. Um par de luvas sem os dedos. Dois braceletes de couro de Wyvern Negro que cobriam seu antebraço inteiro. Colocou nas costas uma pele de Urso Pardo e na cabeça, um elmo negro com dois chifres pequenos de marfim, que iam reto e depois faziam uma curva para cima.
 Por fim, pegou seu machado, o apoiou em cima de um dos ombros e seguiu para o seu caminho.



 Vykan começou a subir após algum tempo e continuou nesse ritmo constante. As arvores começaram a ficar escassas até que sumiram de vez, a grama começou a ficar mais escura, murcha e focos de neve podiam ser vistos...logo era somente neve e pedra...finalmente estava subindo a montanha.
 Por experiencia própria, Vykan sabia onde pisar, onde a neve suportaria seu peso e onde afundaria e o mandaria para uma morte lenta. Percorreu o caminho desviando periodicamente de alguns lugares, pulando de pedra em pedra quando necessário. Por volta do meio dia, já tinha percorrido uma boa parte do caminho, suas pernas pegavam fogo e os joelhos doíam, mas isso não o fez parar, pelo contrario, o fez se apressar...ele não queria ter que achar um lugar pra dormir ali.
 Foi mais ou menos por volta de duas da tarde que a primeira escalada foi necessária. Ingrime, poucos lugares para se agarrar, Vykan teve de cravar a lamina do machado na rocha varias e varias vezes para conseguir subir...depois de uma hora, chegou ao topo, respirando fundo, seus braços doendo...aquilo não estava certo. Já esteve em batalhas e caminhadas mais árduas que aquilo, mas tudo parecia mais difícil naquela montanha, já estava cansado, sentindo os músculos repuxarem. Quando voltou a caminhar, foi se lembrando das palavras dos pergaminhos que achou ao longo de sua jornada.

 "As Montanhas de Maquia são traiçoeiras, um dos locas mais perigosos do planeta. O planeta parece querer lhe enterrar, o vento lhe sussurra segredos que não deveria saber e o Castelo do Senhor é perdido entre seus picos mais gelados. É um local de provação e somente aqueles que podem passar por seus testes, podem superar seus desafios e ser reconhecido por seu dono. "

 Vykan bufou e continuou a caminhar, inquieto, com pressa...já levou tempo demais recolhendo tudo o que precisava, fazia um ano que estava longe do irmão, deixando nas mãos dele o comando de suas tropas e ele se odiava por cada dia que não conseguia resolver seus objetivos.
 A Morte do Imperador Negro aconteceria de qualquer forma. Vykan decidiu isso no momento em que puxou o machado do corpo do seu pai e começou a matar seus soldados, quando fugiu com seu irmão e ficaram semanas comendo carne crua de caças pequenas para não chamar atenção dos soldados que marchavam pra lá e pra cá. Não importava que o mesmo tinha seguido para o Continente Central e estava conseguindo até derrubar o Império de Acidália, que havia explodido em revolução e facilitou a invasão, não importava que até mesmo da Ásia e do Sul estavam vindo exércitos para se juntar a ele. Não importava o poder desse cara...o que importava era que tudo tinha um jeito, ele podia ser derrotado, nada nessa vida é eterno, nada é imortal.
 Somente a vontade de vencer!
 Vykan continuou seu caminho e começou a escalar outra parede quando o vento piorou. A lamina de Aço Diamante no machado teve até dificuldades para se cravar nas pedras lisas. Quando terminou outra hora de escalada, Vykan sucumbiu e se deixou cair na neve, inspirando o ar frio e soltando fumaça ao expirar. Ficou ali durante uns 15 minutos até se levantar e, quando levantou, tomou um susto...
 Conseguia ver o castelo dali.


 Aquilo cheirou ruim. Tudo bem, o caminho foi árduo, foi cansativo e andou durante algumas boas horas, mas agora era basicamente decida...desceria pelas montanhas agora, atravessaria uma planície de neve e desceria mais um morro...pra depois passar por uma praia congelada e atravessar um rio e chegaria até ele. Não era tão difícil.  E foi um caminho relativamente curto comparado ao que percorreu para achar muitas das coisas que tinha...não podia ser só aquilo, estava perto demais, o sexto sentido do Bárbaro estava gritando, avisando que tinha que haver algum tipo de pegadinha ali.
Ajeitou o elmo e voltou a caminhar, quando deu dois passos, ele notou o barulho...patas batendo, alguma coisa grande correndo. Olhou para sua esquerda e só conseguiu dizer.
 - AH, EU SABIA, VELHO! - Rosnou e se preparou para atacar o Yeti correndo na sua direção.


 O monstro veio, rugiu, levantou os dois braços enormes e os abaixou. Vykan rolou para o lado, fazendo o Yeti golpear o chão, explodindo a neve para todos os lados. Sem perder o foco,o Bárbaro fica de pé, segura os machado com ambas as mãos e vem, com toda força que seus músculos podiam fornecer, mirando na panturrilha.
 Cortou fora. O machado passou direto, um corte liso em pele, osso e carne. O monstro rugiu, colocando o peso todo no outro pé e erguendo seu corpo. Girando a arma na mão, o outro golpe foi bem no meio do estomago da criatura, a lamina cravando ali. Antes de qualquer reação do monstro, o Bárbaro puxa sua arma, fazendo sangue e tripas tingirem de rubro a neve. O monstro cai de joelho, tentando segurar as entranhas para dentro, tentando entender a situação, não era possivel nada daquilo!
 Vykan não deixou que pensasse mais nada. 


 Com um golpe, arrancou a cabeça da criatura. Sangue jorrou generoso, o corpo enorme do Yeti tombou e Vykan sentiu o gosto de sangue na boca...o gosto da vitoria.
 Ergueu a arma com uma mão, a outra bateu no peito e rugiu aos céus, gritou o mais alto que podia.
 - VEM! - Gritou novamente. - PODEM VIR! QUEM MAIS? EIN? ESSA MONTANHA É MINHAAAAA! - E se deixou relaxar. Comemorar silenciosamente não era seu forte. Ele respirou fundo, coçou o nariz e voltou a olhar para o castelo...já calculava como iria começar a descer quando mais sons de patas vieram...e dessa vez eram muitos.
 Yetis brotavam da neve, apareciam subindo pela encosta, rugindo, babando, sentindo o cheiro de sangue do irmão e vindo atrás de seu assassino.
 Resmungando, o Bárbaro segurou o machado com ambas as mãos e começou a andar para trás, vendo aqueles monstros vindo para cima dele. Quantos? Uns 20? 30? Não, bem mais...não podia com todos, não daquela forma...ele iria correr em direção ao Castelo do Senhor e...
 Um Yeti começou a subir pelo morro que ele desceria...Vykan olhou para trás e viu mais de 100, olhou para frente e viu um só.
 Correu e saltou para cima do monstro que bloqueava seu caminho. Enterrou o machado no crânio do monstro e os dois começaram a rolar pela neve, morro a baixo.


O Titã aguardava.


 Em seu Trono de Berilo Cinza, ele fechava os olhos de momento em momento, entretido com o avanço do ser que adentrara sua montanha mais cedo. Um Bárbaro das tribos um pouco mais ao Sul, mas acostumado com o frio de uma tal forma que não poderia ser natural. Ao invés de pesquisar, entretanto, o Titã escolheu ver o quanto ele aguentava. O Bárbaro de barbas negras e pele de urso nas costas subiu apesar da gravidade avantajada do lugar, e seu espirito se mostrou resistente, uma vez que os demônios do local não foram fortes o suficiente para sussurrar nada em seus ouvidos. Depois, encontrou um dos Yetis, protetores do local e conseguiu dar cabo dele rapidamente, demonstrando sua experiencia em batalhas. Ele conseguiria chegar até o Castelo, talvez tivesse problemas com o gelo fino perto do lago ou as sereias...mas ao invés de continuar, ele resolver gritar, urrando como uma fera, comemorando sua vitoria....e atraindo cada um dos abomináveis homens das neves até o local.
  O que primeiro fez o Titã rir, depois se fez remexer ao trono. Homens são covardes, perante maior numero ou algo que eles não entendem, eles recuam. Mas o Bárbaro não recuou quando os guardiões se reuniram, não...ele saltou no ponto mais fraco e rolou pela montanha e quando chegou ao chão, começou a correr pela neve e atacando o viesse pela frente, seus ataques miravam as pernas, tentando só retarda-los, sabia que se tentasse mata-los poderia perder sua arma, deu socos e chutes em alguns no caminho também, rolando montanha abaixo sempre que aparecia algum novo declive e continuou correndo quando atingia o chão, ignorando os ossos quebrados e o sangue espirrando de suas feridas. Ele correu, com Yetis atrás dele...até que, sem nem parar pra pensar, saltou dentro do lago congelado, quebrando o gelo com seus punhos no salto e mergulhando nas águas congelantes...e saiu nadando, como se fossem águas normais. Tal temperatura teria congelado qualquer coisa instantaneamente, igual aos Yetis que escorregaram pela neve, caíram nas águas e afundaram no mesmo instante. Mas ele continuou...foi até a superfície, pegou ar e começou a nadar a braças para a margem, segurando seu machado na boca...foi quando as Sereias Brancas avançaram.


 E lá está ele agora...lutando para matar e para respirar, cada golpe do seu machado era uma morte, mas havia muitas delas, criaturas grotescas que gritam e tentam comer suas vitimas de qualquer forma, mas ele estava conseguindo até o momento se manter na superfície...até que, o cansaço ou algum ferimento foi demais para ele...e o o Bárbaro por fim, afundou com as Sereias em cima dele.
 O Titã bufou e balançou a cabeça. Ele tinha fé neste aqui e suas expectativas foram, mais uma vez, frustradas.
 Se levantou do trono e seus pés fizeram o gelo tremer do lado de fora.Caminhou por sua sala e abriu as portas enormes de marfim gentilmente. Caminhou pelos corredores vazios até, após mais uma porta, abrir o local que fazia aquele castelo ser sagrado e digno de proteção.
 A Biblioteca Infinita.
 O Castelo todo era a Biblioteca, tirando a sala do trono, o aposento de alguns empregados escolhidos a dedo, a Sala da Escrita e a Torre Mais Alta, tudo naquele castelo branco era a biblioteca. As paredes eram estantes, os corredores eram estantes, salões inteiros tinham estantes que iam até o teto, tudo guardando livros de todos os tamanhos, anotações, pergaminhos, papiros, qualquer coisa que você pudesse imaginar havia ali. Instrumentos musicais eram guardados junto com notas suas musicas, armas, o modo de usa-las, desenhos detalhados da anatomia de todas as criaturas que já existiram e existiam, na sala de magia os livros voavam por ai e suas escadas mudavam de lugar, havia a sala dos ladrões, onde todas as fechaduras do mundo estavam lá para serem estudadas e compreendidas. Tudo que transmitia conhecimento existia naquele lugar...e o Titã era responsável pela segurança dele.
 Ele caminhou por todos os lugares até parar no salão principal, o maior acervo de livros do local, onde parou em uma mesa pequena, para sua estatura, e se serviu de uma garrafa de vidro uma bebida escura.  Quando levou a bebida aos lábios, tudo tremeu. E um grito abafado pode ser ouvido.

BOOM!

 Alguma explodiu ao lado de fora. O teto tremeu e pó do mármore caiu em cima das prateleiras, livros foram ao chão das estantes reforçadas ao extremo para não derrubarem nada com os passos pesados do gigante. O Titã olhou ao redor e pensou que talvez pudesse ser algum dos seus irmãos...mas não. Quando se focou e sentiu e energia...
 Não pode ser...
 Ele caminhou, a passos largos, até a entrada do lugar, o corredor que dava para o portão de entrada...o ser de sete metros e meio ficou ali, parado, olhando, esperando, com um sorriso ansioso no rosto, quase como uma criança que esperou demais por um presente especial.
 Um dos Escrivães, um ser corcunda dentro de seus robes brancos e com um capuz que cobria seu rosto chegou perto dele e foi fazer uma pergunta, bateram na porta...forte o suficiente para fazer o mármore soltar pó mais uma vez. A madeira de Carvalho Marfim entortou com o segundo golpe...e cedeu com o terceiro de vez, abrindo com violência.
 Uma sombra adentrou no meio da fumaça que se fez. O Titã só ficou ali, olhando, esperando...e quando a fumaça baixou, a visão o fez abrir um sorriso completo.
 O Bárbaro, coberto de sangue, braço esquerdo quebrado, a pele de urso despedaçada em suas costas, o elmo torto na cabeça, sem uma das botas, arfando como um louco, segurando seu machado em cima de um dos ombros...e atrás dele, Sereias Brancas e Yetis mortos as centenas.
 A cena ficou ali, com alguns segundos de silencio até que o Bárbaro começou a andar para dentro, um passo devagar de cada vez...levantou seu olhar...mediu o Titã com os olhos, depois olhou diretamente nos olhos dele...deu uma leve risada...e disse:
 - Como que tá o tempo ai em cima? - E caiu, inconsciente no chão.
 O Titã riu, sua voz de trovão chamando atenção de todos os seus servos...e pessoalmente tirou Vykan do chão, já ordenando que os aposentos fossem preparados.


 - Você vai voltar?
 - Eu vou dar um jeito.
 - Me prometa, Vykan.
 - Carol...
 - Se você me prometer, sei que vai dar um jeito mesmo, vai cumprir com sua palavra.
 - ...
 - Você vai voltar?
 - Eu prometo. Eu vou voltar.
 - Tudo bem, então...
 - Olha pra mim.
 - ...
 - Eu vou voltar por você, Carol. Entendeu bem?

Eu vou voltar por você!


 Vykan abriu os olhos e seu incomodo era claro em seus olhos. Primeiro por seus sonhos não terem sido tempestuosos nem maléficos pela primeira vez em muito tempo. E segundo era porquê, sua ultima memoria, era de estar caindo morto no chão após Yetis e Sereias tirarem sangue o suficiente para apaga-lo...logo depois de ver uma figura enorme a sua frente.
 Foi quando olhou ao redor: Estava em uma cama bem grande, deitado e arrumado bem no meio dela, entre lençóis macios e edredons de pele. E podia sentir, o travesseiro que apoiava sua cabeça era de penas...macio como nunca sentiu. O quarto onde estava se resumia a cama, a uma mesa pequena com uma tigela de água em cima, um espelho proximo a uma porta de madeira cheia de enfeites e um lustre no teto que iluminava tudo com magia: Esferas de luz amarelas giravam nele, deixando o quarto com um certo clima dourado.
 Levantou e se sentou na cama sem nenhuma dificuldade, sem nenhuma dor e estranhou aquilo...tirou as peles em cima de si e olhou no seu corpo...ficou assustado e depois correu para frente do espelho, para ver se é verdade.
 - Eita porra... - Sussurrou, conforme viu que não havia nenhuma cicatriz no corpo, nem as antigas, nem as novas, sua pele até parecia macia, uma tela em branco. Foi quando algo ocorreu em sua mente.
 - Puta merda, eu morri e vim pra Valhala! - Ele botou as mãos na cabeça. - Morri em combate e fui trazido para o paraíso. Merda! - Rangeu os dentes e apertou os punhos o mais forte que podia, fazendo os músculos do braço saltarem. - Eu tinha muita coisa pra fazer ainda, caralho! Eu...
 Duas batidas fortes na porta fez Vykan se calar. Apesar da batida, a mesma se abriu calmamente e rangendo, revelando um ser curvado, a cabeça a menos de um metro do chão, todo coberto com robes caramelos que tampavam seu rosto e suas mãos.
 - Creio que o senhor está melhor agora. - Ele disse, juntado as mãos e se curvando ainda mais. - Meu nome é Oo'Taish, sou um dos Escritores e é uma honra recebê-lo no Castelo do Senhor. - Aquilo fez o bárbaro respirar fundo.
 - Então, eu não morri.
 - Por pouco, senhor. Mas não, não morreu. - E voltou a sua pose "normal". - Conseguimos salva-lo e limpa-lo com nossa medicina.
 - Minha cicatrizes, então...
 - Sim, a tiramos. São marcas de um guerreiro orgulhoso, sim, mas, acho que não vai precisar mais delas, não é mesmo? - E deu uma risada rouca e engasgada com sua voz. Achando estranho, Vykan não retrucou. As vezes é melhor caminhar conforme a música pra sair por cima.
 - Onde está minhas roupas e minhas armas?
 - Ah sim, estão aqui. - Ele se virou para a porta rapidamente e puxou um carrinho pra dentro. Todas as roupas estavam limpas, as pele de urso estava inteira e a Cota de Malha estava brilhando de tão limpa...e o machado também estava lá, brilhando e até polido. Vykan o segurou com ambas as mãos e se sentiu mais tranquilo.
 - É feita de Trionidium, não é? - Vykan olhou para o Escritor ao ouvir sua pergunta. - A Cota de Malha...é feita desse metal, não é? Metal do Deserto Negro.
 - É sim. - E a criatura riu rocamente, deixando o Bárbaro tenso.
 - Normalmente não devolveríamos a sua arma, mas, o mestre pediu para que você o encontrasse em suas condições originais.
 - Como? - Vykan sentiu um frio na espinha e segurou o machado com mais força, pronto para enterrar na cabeça da criatura, se ela tivesse alguma. O Escritor, percebendo o que disse, logo se concertou.
 - Ah, perdão, digo em condições originais, senhor, não nas que o encontramos aqui. Ele quer que você leve sua arma e conte suas historia.
 - Ah sim...ok. - O Bárbaro respondeu. O Escritor saiu e Vykan começou a se trocar, vestindo tudo corretamente e só se acalmou de fato quando colocou seu elmo. Apoiou o machado no braço e saiu pra fora do quarto, o Escritor o aguardava.
 Mas quando olhou para cima, ficou sem palavras.
 Até mesmo o teto tinha livros, as paredes eram forradas com pergaminhos...
 - Meu Deus...
 - Eu sei. - Oo'Taish respondeu. - Venha. - E caminharam juntos, pelos corredores e corredores de livros. Passaram algumas portas de alguns quartos ocasionais e continuaram por um grande salão, próximo a entrada e continuaram. Vykan viu toneladas de livros no seu caminho, viu pergaminhos, viu moldes de veículos de guerra e alguns que não pareciam ser de guerra, todos os aposentos era iluminados por aquelas esferas. Viu de tudo um pouco...até que finalmente, após entrar em um corredor com paredes normais, com cores de marfim e ébano, com quadros pendurados na parede emoldurando cenas de batalhas, mais uma porta se abriu quando chegaram perto. O Escritor parou na frente e apontou para que entrasse.
 O Bárbaro o fez e caminhou...e ficou sem palavras mais uma vez.
 O local era mais um grande salão com piso e paredes de madeira. O teto era adornado com pinturas dos antigos deuses, de todas as culturas possíveis, alguns eram irreconhecíveis para o Bárbaro. A sua frente estava a mais bela e farta mesa de jantar que já viu na vida. Tinha galinha, tinha porco inteiro com direito a maçã na boca e até uma vaca assada inteira. Tinha barris de cerveja, tinha vinho, rum, pão, algumas sopas e até salada. Vykan se tocou o quanto estava com fome naquele momento.
 - Bem vindo! - Uma voz de trovão o fez recuar brevemente. Ficou tão admirado com a comida que eu esqueceu de ver o mais obvio: O gigantesco ser de pele azul brilhando a sua esquerda, sentado em um trono com uma mesa proporcional ao seu tamanho onde comia sua refeição...um Yeti inteiro assado.
 Vykan olhou para ele...olhou para mesa...olhou pra ele...pra mesa...e finalmente perguntou.
 - Estou convidado pro jantar ou eu SOU o jantar? - O Titã riu e todas as paredes pareceram tremer. Por fim, gesticulou para que Vykan se sentasse e o Bárbaro o fez. Se sentou na ponta, de frente para a grande mesa e para o Titã. Devorou quilos e quilos de carne, pão e tomou litros de cerveja, toda vez que queria alguma coisa, magicamente era arrastada para perto de si, sem ajuda de ninguém e após se servir ela ia embora. Estava faminto e a fome de um Bárbaro não pode ser saciada facilmente. O Titã o observava, ocasionalmente comendo sua própria refeição em sua "mesinha gigantesca", olhando o ser humano como algo a ser estudado e muito esperado. Por fim, quando viu que o apetite do mesmo havia sido amenizado, começou a puxar conversa.
 - E então...como está a comida, Vykan, o Urso? Filho de Vulcan, irmão de Lukan...um dos Irmãos Mercenários do Norte Gelado... - o Bárbaro foi pego de surpresa nessa, mas deu uma risada, pois não foi pego de guarda baixa.
 - Minha reputação chegou até aqui ou Tokan, o Titã que Tudo Vê...sobrevivente da Guerra Eterna do inicio dos Tempos e Guardião do Conhecimento...pesquisou sobre mim em algum ponto de sua vida? - O Titã riu de novo, contente com a situação.
 - Bem informado, garoto. Gosto disso.
 - Muitos pensaram que você fosse uma lenda ou algo do tipo. - O Bárbaro disse, se dando por satisfeito da refeição. - Mas são pessoas de pouca fé.
 - Imagino. - O Titã esfregou as mãos, ansioso. - Bom...primeiro, antes de qualquer coisa...eu poderia ver seu machado? - Tokan ergueu sua mão, esperando já a resposta obvia. Vykan olhou para a arma apoiada na mesa e percorreu sua extensão com os olhos...pegou-o, ficou de pé e o jogou com força para o Titã, a arma pousando na palma de sua mão. O mesmo observou com cuidado, cada centímetro da arma, cada átomo de sua extensão, e por fim comentou.
 - Lamina feita de Aço Diamante, mais precisando das Minas Cinzas dos Anões. A madeira é Carvalho Vermelho das Florestas Crimson, meio curvada para ajudar no manuseio e no contraste do combate. - Ele desviou o olhar para o convidado por um segundo. - Muitos problemas com os Demogorgons para conseguir tal material?
 - Se eu ainda tivesse minhas cicatrizes, eu te mostraria quais foram feitas por eles. - Tokan só concordou, voltou a olhar para a arma e passou o indicador nela bem de leve e continuou a falar.
 - E eu sinto que há algo mistico na arma...ela foi abençoada com algo, além de uma resistência fora do comum e um fio de lamina mais difícil de cegar, é claro...tem algo a mais aqui. O que é? - Vykan ficou de pé novamente e ergueu sua mão esquerda e instantaneamente o machado voou até a mão do Bárbaro novamente.
 - Isso aqui. - Ele disse, batendo e cravando o machado na mesa e voltando a se sentar. Os dois riram, o Titã chegou a enxugar os olhos.
 - Faz séculos que não rio assim. - E tomou um ar. - Tal arma tão perfeita e cuidada deve ter um nome, eu suponho.
 - Tem sim. - Vykan disse, com aparente satisfação. - O nome é Mastodon.
 - Perfeito. - Tokan falou. - Arrumarei um local especialmente para ele no meu arsenal?
 - Perdão? - Vykan perguntou, olhando fundo nos olhos do ser gigantesco. Tokan deu uma leve risada sem graça.
 - Você chegou, Vykan. O Escolhido. Foi dito que chegaria alguém aqui um dia, que iria superar cada um dos desafios e enigmas ao redor do mundo e ao redor do Castelo do Senhor, onde todos os segredos do mundo estão escondidos. Esse ser virá e trará grandes mudanças para o local. É dito que ele ficará para sempre aqui e aprenderá os segredos do mundo, se tornará um novo imortal e poderá usufruir de sua magnânima inteligencia e trazer sabedoria para o Mundo de Sandria. - E depois apontou para o Bárbaro. - Essa sempre foi a lenda...e eis que você chegou, buscando isso, certo?
 - Não foi isso que me trouxe aqui, Tokan. Eu busco outra coisa. - E o silencio que se instaurou pareceu fúnebre. Os olhos firmes do guerreiro ficaram fitando os olhos de duvida e tristeza do Titã. Após processar tal informação, Tokan sorriu...e perguntou.
 - Então...o que buscas, Vykan, filho de Vulcan?
 - Eu quero usar o Olho de Deus. - E a surpresa do Titã foi tamanha que sua taça de vinho caiu, esparramando litros e litros do líquidos pelo salão. Cochichos vinham das paredes, fazendo o local parecer um enxame de abelhas. Vykan deduziu que fossem os Escritores...retirou o machado da mesa e o depositou no colo. Quando Tokan reafirmou sua postura, tudo se calou novamente...e ele perguntou.
 - Como sabe a respeito do Olho?
 Vykan bebeu um gole longo de cerveja antes de continuar.
 - No Inicio, Deus, se originando sabe-se lá como...criou os Titãs...66 seres feitos a partir da Matriz do Universo com pó de estrela correndo em suas veias. Cada Titã recebeu uma montanha, as 66 Montanhas de Sandria, como seus Tronos...cada um representando uma vontade de Deus. Lhes foi dada a habilidade de criar vida e foram ordenados que criassem e enchessem Sandria com tantos Seres possíveis. E foi feito...mas com o tempo passando eles viram que suas criações não eram eternas. Elas tinham a morte como fim...e isso aborreceu os Titãs. Se voltaram contra Deus, queriam seu poder de criar coisas eternas, não coisas efêmeras. Com raiva, começaram a criar criaturas grotescas, muitos dos monstros que habitam esse mundo hoje, para ver se duravam...mas nada era como queriam. Putos da vida, começaram a subir o Cosmos, atrás de seu Pai, para mata-lo e tomar seus poderes...vendo que tal guerra era inevitável, Deus criou os Anjos, 66 anjos que se opunham aos Titãs e obedeciam a Deus sem questionar...e eles avançaram contra seus irmãos. Deus chorou durante todo confronto porque não gostava de ver seus filhos brigando...e foi por isso que choveu e inundou Sandria inteira durante o confronto. Porém...havia um Titã cuja natureza era eterna...a sua. - O Bárbaro apontou para o mesmo. - Tokan...sua natureza era o conhecimento e você viu que, de geração em geração, tal coisa era passada e se tornava eterno. Você ficou fora do combate, se reguardou aqui, na sua montanha, no Extremo Norte...a Montanha do Senhor. Seus 65 irmãos foram mortos e mandados para o Inferno, e você entendeu o porque. As outras 65 Montanhas foram habitadas pelos Anjos que participaram da Guerra Eterna e começaram a disseminar a vida no planeta novamente. O Anjo que era seu oposto, Orion, se tornou a mão esquerda de Deus...por compartilhar de seus ideias mais do que ninguém. Deus permitiu que você ficasse aqui e admirou sua firmeza e comprometimento com a causa e então lhe presenteou um com de seus olhos...o Olho de Deus, capaz de ver tudo o que acontece no mundo e nas estrelas, pra que você nunca pare de buscar conhecimento. Dizem que o Olho pode até mesmo se comunicar com indivíduos que você quiser, foi assim que você avisou aqueles guerreiros da primeira Era sobre a Invasão de Demônios que resultou na Primeira Grande Guerra...onde os Heróis da Primeira Era se tornaram os Deuses que cultuamos hoje em dia, uma vez que Anjos são...neutros. - Vykan tomou ar quando finalmente concluiu seu pensamento. - Eu preciso da habilidade do Olho de Deus...para achar pessoas que possam me ajudar.
 - Com o que? - A voz do Titã agora era fria como gelo, porém seus olhos demonstravam interesse.
 - Por causa do Imperador Negro.


 Tal nome fez os olhos do Titã se estreitarem. E os de Vykan transbordar em ódio quando voltou a se explicar.
 - Ninguém sabe quem ele é, de onde veio, se é humano ou não...mas o que sabemos é que o Imperador Negro é um conquistador que passa de local em local, pegando o que precisa e destruindo tudo no processo. Compactuado com os Uruni, os Deuses Negros do Vazio, minhas fontes dizem que ele planeja abrir um portal para lá além do Limbo...para que todas as criaturas do Vazio se espalhem pelo mundo e que seja moldada a sua vontade. Ele conseguiu reunir poder o suficiente para distorcer a realidade por onde passa, abrindo portais mesmo sem querer, existem Vermes do Vazio surgindo em todo canto, servos dele abrindo caminho monstros trabalharem para ele, dizem que um Arauto foi visto perto da onde eu vivia. Ele já reuniu um exercito grande o suficiente para ocupar quase a metade do Continente Central...e ele vai tentar tomar as Relíquias dos Acidália, o mundo pode estar perdido...fora que eu tenho meus próprios motivos pessoais com ele. Ele é uma ameaça para toda a existência e por algum motivo, muitos não fazem nada a respeito...
 - Qual é seu problema pessoal com ele? - O Titã quis saber.
 - Ele massacrou meu vilarejo atrás de itens mágicos que guardavam no cofre do palácio do Jarl. - Vykan respondeu, sem hesitar.
 - Foi nesse dia que começou a lutar?
 - Sim. Tirei o machado do corpo do meu pai e comecei a cortar o que via pela frente. - O Titã piscou duas vezes ao processar a informação e então concordou. - Preciso do Olho de Deus para falar com quem possa me ajudar...reunir forças o suficiente para quebrar as do Imperador Negro e impedir o fim do mundo.
 O silencio se seguiu. O Titã se colocou a pensar e aquilo parecia uma eternidade para ele.
 Por fim, Tokan falou.
 - Não. - E um muro de gelo pareceu cair sobre a alma do Bárbaro.
 - Mas por que? - Vykan se colocou de pé, rosnando.
 - Sei de tudo que você me disse. Eu queria ver se você seria sincero. Somente para saber se você sairia daqui vivo. - A voz do Titã atingia a alma de Vykan como facas geladas. - Pedir para usar o Olho de Deus é uma ofensa enorme, sendo que Deus foi quem me deu ele. Nem mesmo sei como chegou a saber a respeito dessa maravilha, mas não importa. Não usará.
 - Tokan, eu...
 - Sabe o que eu vejo? - O Titã o interrompeu, ficando de pé, o chão tremendo. - O Imperador Negro irá tomar o Continente Central...irá compactuar com os Uruni e ficará preso em sua própria loucura. Os Uruni iram consumi-lo e ele deixará de existir, não será uma ameaça e irá só levar a destruição quem o seguiu. E você...é alguém que busca vingança e só isso. Nada mais. - Ele apontou para a porta. - Está expulso daqui...se não busca conhecimento, não busca nada aqui. Vá embora...e leve seus sonhos destrutivos para longe.
 Vykan ficou encarando o Titã...ficou olhando em seus olhos e viu que ele não mudaria de ideia. Se levantou, apoiou o machado nas costas e começou a caminhar para fora. O Titã também caminhou, lado a lado, o escoltando para fora. Quando saiu do salão de jantar, viu dois Escritores, corcundas e a espera, já sabendo o que fazer.
 Guiado e acompanhado pelos três. Conforme caminhava, Vykan dizia.
 - Sabe o que eu vejo? - Ele não esperou uma resposta. - Vejo um Titã que esperou algo por muito tempo, uma profecia perdida vindo de sabe lá de onde...e quando viu que não aconteceria como planejou, ficou com raiva...e agora expulsa e joga fora o que não correspondeu suas expectativas. - O Titã não respondeu, mas cerrou os punhos e se esforçou para não perder a compostura.
 Finalmente chegaram no corredor de saída e entrada. O Bárbaro seguiu alguns passos e viu que seguia sozinho agora. Cruzou o grande corredor...e parou na grande porta meio entre aberta. Sem olhar para trás, perguntou.
 - Essa é a única saída e entrada, certo? - O Titã respirou fundo antes de perguntar.
 - Sim. É.
 - Ótimo. - O Bárbaro rosnou, empurrando e fechando a mesma. Tokan não acreditou.
 Vykan girou o machado nas mãos e, o segurando em posição de combate, começou a caminhar de volta para o Titã. Os Escritores tremeram e Tokan rosnou.
 - O que pensa que está fazendo?
 - Primeiro eu pedi com educação. Você não me deu. - Começou a aumentar a velocidade dos passos. - Então pedirei perdão aos Deuses...por te matar e tomar o QUE EU QUERO! - E começou a correr, seu machado em riste, um sorriso insano no rosto, pronto pra matar. Tokan, o Titã rugiu...e os dois Escritores que estavam com ele começaram a correr, em uma velocidade desumana, com adagas saindo de suas mangas, sendo seguradas por mãos brancas como a neve. Eles pularam em cima do Bárbaro que com um só golpe do seu machado cortou ambos no meio. Banhado pelo sangue deles, Vykan continuou a corrida...seu alvo era o Titã...e continuou correndo...até que mais Escritores vieram. Quebram as paredes, saindo do chão, pulando de fissuras do teto...vieram, aos montes em cima dele...Vykan não se deteve, continuou a correr.
 - VEM! - Ele rosnou. - SÓ VEM! - E começou a atacar e a ser atacado. Adagas cortaram sua pele e seu machado cortou cabeças. Laminas arranharam sua cota de malha e seus punhos e cotovelos bateram quebraram ossos. O peso do mundo começou a afoga-lo, os Escritores vendo que não conseguiriam mata-los com suas técnicas, teriam de esmaga-lo, subjuga-lo com seu peso. E começaram a faze-lo, se jogando e agarrando-se nele, Vykan ainda cortou algumas dezenas com sua arma antes de finalmente tocar o chão, de bruços, o peso dos Escritores o sufocando.
 Tokan, observando o invasor sendo vencido, começou a se aproximar.
 - Um Bárbaro sem nação, sem casa...eu imagino sua tristeza e eu admiro que sua determinação seja maior que ela. Mas se acha que pode me fazer compactuar com suas... - E chegou perto, se agachando um pouco, estendendo sua mão para pegar o corpo do inimigo, tirando seus Escritores do caminho...
 Um rugido foi ouvido como o de um Urso de Sabre. Saltando do meio dos corpos, banhado em sangue, uma energia vermelha banhando seu corpo, Vykan em seu modo Berserker, rugindo, atacou o Titã, cravando seu machado bem no meio do olho esquerdo do mesmo.
 E pela primeira vez, Tokan sentiu aquilo: Dor!
 O Titã rugiu e jogou o corpo para trás, levando o Bárbaro consigo. Vykan, o machado ainda cravado no rosto do Tokan, se segurou e foi levado junto. O Titã deixou o rosto pra cima e Vykan se equilibrou e puxou a arma pra fora, ficando de pé no rosto do gigante e já se preparando pra acertar o meio da testa dele. Demorando demais, Tokan o agarrou, sua mão se fechando ao redor de seu corpo.
 - HUMANO DE MERDA! - Ele rugiu, arremessando o guerreiro para dentro do castelo como uma criança arremessa uma pedrinha na beira do rio. Vykan atravessou quatro prateleiras, seu corpo destroçando a madeira e os livros no caminho, parando só quando atingiu a parede no fim de tudo. Sentiu o sangue percorrer o esófago e saindo pela boca e o nariz antes mesmo de atingir o chão pesadamente...e mesmo assim, não largou o machado. Rosnou e tentou ficar de pé...Tokan veio gritando e rosnando.
 - VYKAN...filho de uma puta bárbara do Norte Gelado que acasalou com um guerreiro de merda que morreu preocupado com os filhos. Eu sei tudo sobre você. - Seus passos eram pesados e sua voz era grave, ecoando pelos corredores, os Escritores se escondendo com medo de sua fúria, sua pele se tornando um azul mais escuro, beirando o negro, seus olhos irradiando de energia. - Você é assim, Vykan, toma tudo que quer pela força uma vez que vê que sua carisma ou intelecto não podem ser o suficiente. Olha pra você. - O Titã abaixa sua mão e enterra os dedos no chão ao erguer o guerreiro de novo, esmagando o mesmo na sua palma junto com o mármore, causando mais dor ainda ao Bárbaro que gritou ao ser erguido e encarar os olhos azuis do monstro. - Andando por ai, sem rumo, vozes na sua cabeça lhe dizendo pra matar a todos, para se matar, ficar mais forte! Cresceu ouvindo historias de guerreiros e quer, por isso, ter seu nome na historia, e por isso vive com medo, com medo constante de ser deixado para trás, de ser esquecido por onde passa, mesmo inconscientemente você sabe disso, não sabe? É por isso que, onde não consegue deixar sua marca por bem, deixa sua marca por mal! Arruma confusão, brigas e tudo que pode para ser lembrado de alguma forma. - Apertou mais ainda a mão, Vykan se segurou para não gritar quando uma de suas costelas se quebrou. Se não fosse pela Cota de Malha e pelo Elmo, já estaria morto. - Você fala de conquista, você fala de matar o Imperador Negro...você já passou noites em claro o odiando não porque matou seus pais, mas com inveja do poder que ele tem...você não realmente se importa com esse mundo...você só não quer obedecer a ninguém! Não quer se curvar a ele! E você tem medo de não ser bom o suficiente, sempre com esse medo, sempre com essa insegurança, sempre se jogando pra cima de seus inimigos para que as vozes das duvidas não tenham tempo de começar a falar! - e rugiu - NÃO É?! - O halito gelado do Titã fez Vykan sentir o rosto queimar, mas ele só rosnou. - Você fala de ser um guerreiro! O que você mais quer não é vitoria, não é atingir o Valhala, existe algo que você quer mais ainda que matar o Imperador...algo tão patético que me faz querer rir! - e o Titã riu. - Você quer uma historia de amor! Você quer se aquietar, ter filhos, ter alguém para amar, tal sonho entra em conflito constante com suas promessas dentro de você dia após dia, não é? Por isso tantas mulheres, por isso tantas ilusões, traições, mentiras e verdades, juramentos quebrados e presentes gastos. QUEM DIRIA! O PONTO FRACO DO GRANDE VYKAN É UM PAR DE PEITOS COM PALAVRAS DOCES! - E rugindo como um animal, o Titã o joga novamente...Vykan bate secamente em uma parede, mas antes que seu corpo possa ir ao chão, Tokan corre e fecha seu punho, dando um soco de lado que pega no corpo inteiro do Bárbaro. Vykan atravessa uma parede e rola no chão, mal estando consciente.
 Tokan parou por um segundo, tomando ar...fazia milênios que não perdia o controle. Respirou fundo...e foi buscar o Bárbaro. Precisava ver em que comodo ele tinha caído e ver se tinha sobrevivido.


 Vykan ficou ali no chão, respirando pesadamente. Se concentrou o melhor que podia, mexendo algumas partes do seu corpo, procurando ver se tinha mais alguma coisa fora do lugar, quebrada ou arrancado...não estava 100% mas, estava inteiro. Ótimo.
 Quando decidiu se mexer, se lembrou das palavras do Titã...
 - Foda-se! - Ele rosnou...e se colocou de pé, se apoiando no machado. Agora sim ele tava puto. Detestava gente ou qualquer coisa que viesse falando como se o conhecesse. Mas agora, o que ele precisava era de uma tática, algo a mais...nunca tinha enfrentado um Titã e se continuasse apanhando, com ou sem armadura magica, iria se foder bonito.
 Ele teria de usar aquilo. Mas teria de ser bem calculado, ele tinha que ficar o mais parado possivel, caso contrario, morreria no processo.
 Foi quando olhou ao redor...estava em um arsenal! O local todo era congelado, gelo do chão até o teto, e as armas eram presas a parede pelo gelo...aquilo fez o Bárbaro parar um momento, admirar...até que seus olhos passaram por uma coisa. Ele parou, olhou e ficou verificando pra ver se era mesmo o que ele pensava que era.
 Vykan havia achado um escudo.



  O Titã mexeu nos cômodos mais próximos, mas a cada comodo, mais buracos nas paredes apareciam...realmente colocou força no soco, Vykan não poderia ser sobrevivido. Começou a andar pelos corredores, onde os Escritores já trabalhavam para arrumar os danos da luta e recolher o corpo de seus companheiros mortos.
 Quando Tokan fez a curva no ultimo corredor, ele parou.
 Vykan estava ali, no fim do mesmo, o esperando. Dessa vez, no braço esquerdo, um escudo estava preso, grande o suficiente para proteger seu corpo inteiro. Na outra mão, o machado sendo segurado por um punho tremulo...mas o sorriso no rosto do Bárbaro foi o que tirou o Titã do sério.
 - Insolente. - Ele rosnou.
 - Sabe, eu não tava afim de usar isso tão cedo...eu só posso usar uma vez ao mês, sabia? Eu andei treinando pra melhorar, mas não é tão simples assim. - Vykan começou a dizer, arrumando sua postura.
 - Do que está falando, humano de merda? - Tokan rosnou novamente, começando a caminhar pra frente.
 - Foi um Anjo que me contou sobre o Olho de Deus. - E aquilo fez o Titã travar. - Sabe, assim como você ele veio cheio de verdades na minha cara, falando um monte de merda, achando que eu tenho uma alma pra ferir ou coisa do tipo...mas foram as Asas dele me deram mais trabalho, mais do que esses seus punhos, hehe...mas no fim, eu fiz ele falar. - Algo começou a mudar...o Titã começou a ver e sentir, o ar estava mudando.
 Tokan estava sentindo frio.
 - Você...matou um Anjo? - Tokan perguntou.
 - Quando se arranca um coração de um Anjo, você o mata? - A voz dele transbordando de sarcasmo...e o chão ao seu redor começando a congelar.
 - Quem...qual...
 - O Anjo que matei foi Jalidel...líder e criador dos Gigantes de Gelo, no Extremo Sul, Possuidor da Geada.
 - Você arrancou o coração de Jalidel? - O mundo do Titã parecia ruir, precisava confirmar o fato antes de cair na descrença. - NINGUÉM PODE FAZER ISSO! NÃO COM UM ANJO!
 - Não. - Vykan riu, seus olhos se tornando branco puro. - Eu comi o coração de Jalidel. - E uma aura branca se fez ao seu redor. Mil flocos de neves começaram a rodear o guerreiro como o olho de um tufão de gelo, se preparando para se expandir. - E seu poder veio para mim. Como acha que eu consegui resistir ao frio daqui, Tokan? - O zero absoluto começou a se formar e tomar conta do local...o Urso preparando seu golpe final.
 - NÃO! - O Titã rugiu, medo tomando conta do seu ser pela primeira vez em muito tempo. - NÃO! VOCÊ NÃO VAI... - E socou, com tudo que tinha. Foi quando Vykan colocou o escudo na frente.
 O Arsenal de Tokan era recheado de armas e itens mágicos e lendários, tudo parte da coleção de curiosidades e conhecimento do Titã. Vykan estudou cada item de cada lenda que existe ao redor do mundo, cada boato, cada livro, ele sempre caçou o que o deixaria mais forte o ajudaria na sua viagem e na sua busca. Fora seu machado, que ele mesmo fez, seus itens são todos tesouros conquistados a partir de lutas ou buscas, como sua cota de malha de Trionidium, um metal precioso, raro e inquebrável, mesmo material do seu Elmo, protegendo seu corpo magicamente da maioria de ataques pesados. Portanto, ele reconheceu o Escudo de Zorum quando o viu no arsenal, não acreditando na sua sorte...um escudo que conseguia segurar qualquer golpe, perfeitamente e sem recuo. Tal lenda poderia ser só isso, uma lenda, mas ele tentou a sorte, seu lado suicida sempre a flor da pele...
 Mas tudo de confirmou verdade, quando o escudo segurou aquele punho enorme e Vykan não sentiu nem mesmo seu braço envergar. Tokan não teve muito tempo para reagir...pois Vykan já tirou o escudo do caminho e desceu seu machado com tudo que tinha, rasgando a mão do Titã ao meio. Sangue jorrou...sangue braço e brilhante como pó de estrela.
 Tokan segurou seu pulso e começou a recuar, gritando, mas o Bárbaro foi mais rápido de novo. Largou o escudo e saltou...a aura tomando conta do seu corpo, era como se tivesse se tornado um cometa de neve, o branco tomando conta do seu redor...o frio absoluto. Tokan teve tempo de olhar pra cima e gemer de dor uma ultima vez...antes de Mastodon ficar totalmente tomado pelo poder de Vykan e tomar seu golpe.
 A explosão destruiu um quarto da Biblioteca do Castelo do Senhor.
 Tudo daquele canto do castelo, foi congelado totalmente, todos os livros, cômodos e Escritores...tudo foi tomado pelo poder congelante que antes foi de um Anjo, mas que agora era de Vykan.
 Algum momento se passou e os Escritores sobreviventes começaram a se amontoar a beira do desastre, olhando para a brancura e o gelo e a neve acumulada no corredor...se perguntando se seu mestre Tokan sairia dali.
 Quando aquele bando de seres curvados começaram a discutir se deveriam ir investigar, passos começaram a ser ouvidos na neve. Mancando, a pele branca e tremendo de frio...Vykan saiu, com seu novo escudo no braço esquerdo e o machado apoiado no ombro direito. Os Escritores ficaram assustados...mas não sacaram suas adagas...só ficaram vendo aquele homem passar, a pele de urso balançando a cada passo em suas costas, sua barba recheada de flocos de neve...até que subitamente ele larga o escudo e pega um dos escritores pelo casaco e mirou o vazio de seus rostos com fúria nos olhos e na voz.
 - ONDE EU ACHO O OLHO DE DEUS? - Ele gritou. - ONDE?
 - Na torre mais alta! - Ele grita com a voz rouca. - Na torre mais alta...por favor, não me mate!
 - COMO EU CHEGO LÁ? - Ele grita mais alto.
 - Por ali. - Ele apontou uma escada. - Só subir até um portão de gelo...é lá. - Vykan solta a criatura e ela cai no chão. Pega seu escudo e começa a ir até a escada...até que outro Escritor, esse, aparentemente uma fêmea da raça, começa a gritar.
 - VOCÊ MATOU TOKAN? - Vykan parou no caminho, mas não olhou para trás. - Você matou o ultimo Titã...nós ouvimos, você matou um anjo, tomou seu poder...você usou seu poder Berserker a dias atrás e matou todas as criaturas dessa montanha para chegar até aqui...VOCÊ SÓ MATA! - Ele rugiu. - SÓ MATA! O QUE ESPERA COM TUDO ISSO? ONDE ESPERA CHEGAR, O QUE ESPERA ATINGIR?
 A unica coisa que pode ser ouvida por alguns segundos era a respiração da criatura curvada, nervosa, esperando uma resposta. E ela veio.
 - Redenção. - Ele sussurrou. - Um pouco de paz. Um sono tranquilo. E quem sabe...um futuro mais claro e mais calmo. - Ele sorriu tristemente e continuou a andar.
 - E vai matar mais quem? Quem mais será vitima do seu machado? - Ela gritou de novo e Vykan parou novamente...e olhou para trás, seus olhos tomados pelo poder do gelo novamente. E ele respondeu, antes de ir embora de uma vez.

 - Eu mataria DEUS para chegar onde quero ir.


Por favor, toque a musica para continuar.

 Vykan subiu cada degrau daquela torre. Subiu até o ponto mais alto e chegou na maldita porta, onde meteu o pé e entrou. O local era um grande salão, o chão tinha a pintura de uma espiral...uma espiral que unia e terminava em uma esfera, do tamanho de uma abobora, flutuando no centro do local. O Bárbaro andou até ela e largou suas armas, tocou a esfera e sentiu uma sensação diferente de tudo que já tinha sentido na vida.
 Se sentiu onipresente.
 Respirou fundo...manteve o foco...e perguntou.
 - Onde e como está Carol? - A esfera brilhou e no seu centro se expandiu uma galaxia inteira...mas na mente de Vykan a imagem de uma guerreira de cabelos loiros curtos apareceu e tudo que se passou e se passava com ela, ele soube.
 Por fim...engoliu a seco...sorriu e perguntou.

ME MOSTRE AQUELES QUE VÃO ME AJUDAR
A MUDAR E PROTEGER ESSE MUNDO!

 E a imagem de de 11 guerreiros surgiram em sua mente. E Vykan, sorrindo, ignorando suas dores, começou a falar com eles.


Olá...
A maioria de vocês não me conhecem.
Meu nome é Vykan, o Urso...talvez tenham ouvido falar de mim.
Um grande mal está crescendo no mundo de Sandria...e eu preciso de ajuda para destruí-lo.
Não vou conseguir fazer isso sozinho.
Por isso eu busquei meios para achar vocês...os maiores guerreiros dessa Era.
Eu sei que vocês estão em duvida...sei que as imagens que estou mostrando pra vocês agora são confusas, mas tudo vai se encaixar.
Nós iremos nos unir.
Nós iremos lutar juntos.
Nós iremos subjugar todo e qualquer mal que aparecer no nosso caminho.
E juntos, seremos Senhores...
Lords...
Reis e Rainhas...
Lendas...
Nós...
Seremos...

IMORTAIS!

E então?
Quem está comigo?





A partir de agora, a verdadeira historia começa.

Imortais - Arco Um
Fim.

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