quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Imortais - A Fênix


Para Bruna

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  Sandria é um mundo vasto, cheio de reinos, feudos, castelos e impérios distribuídos de forma pouco linear entre seus três continentes, o Leste, o Central e o Oeste, com suas respectivas ordens e governantes, culturas e costumes.
 Mas não é segredo para ninguém que um dos maiores e melhores Impérios de Sandria, localizado ao Sul do continente Central, se mantendo de força militar, economia e absorção de cultura externa, se adaptando a incontáveis anos de guerras contra tribos barbaras e reinos vizinhos e saindo soberano de tudo isso é o Império de Acidália. Com palácios enormes, templos de mármore, uma civilização culta e devotada aos Deuses e aos Imperadores, com litorais recheados de navios e portos grandes, com florestas preservadas e uma vida selvagem vasta, sua beleza em terra e mar só é equiparada pelo poder de seu exercito vasto, com escudos largos, espadas curtas e afiadas, lanças fortes e poderosas,armaduras leves e resistentes e formação de combate inigualável.
 Acidalianos são conhecidos por serem imbatíveis no campo de batalha, sendo responsáveis por manter, totalmente seguros, todo seu Império que ocupa 60% de todo o Continente Central.


 Tal poder, entretanto, não é só talento e trabalho duro. Acidália se formou, inicialmente, pelo poder de suas Relíquias da Tormenta. De acordo com a religião do Império, Omen, o Cosmo, escolhendo Quatro Irmãos para carregar sua mensagem para o mundo de ordem, paz, amor e poder, escolheu quatro estrelas, forjou armas com seu metal e deu a seus escolhidos: O Escudo Prata, a Espada Luz, o Elmo Angelical  e A Lança Sol. Os Quatro escolhidos, munidos de suas armas, marcharam contra exércitos inteiros, saindo vitoriosos, carregando seguidores, conquistando a confiança e aliança de Reis e Rainhas...para mata-los no final e pegar suas terras. Mas no fim, pouco a pouco, os Quatro se declararam Imperadores e construíram a Cidadela, o centro do poder de Acidália até os dias de hoje, onde os descendentes dos Quatro Originais reinam soberanos, guardando os poderes das Relíquias, visando somente a ordem de suas leis, a paz de seu povo, o amor para com o próximo e o poder do Império.
 Mas, como toda boa ideologia, se por um acaso se estende demais...se perde.
 Os Imperadores se reuniram e sentiram que tal poder das relíquias poderiam ser ampliados com rituais profanos e, com tal poder, poderiam marchar, por terra, mar e ar fazendo toda Sandria o Império e logo...talvez até as estrelas. Tal ideia começou a ser implementada e as tropas começaram a ser movidas, o ideal de conquista sendo espalhado...e detestado. Invasão já fez parte do Império contra seres e reinos que declararam guerra primeiro,  mas ir contra quem estava quieto era algo novo. O ódio e a vontade havia inflamado em muitos, mas havia aqueles que não aderiram a ideia, que viram que o ideal dos Império estava se perdendo...e começaram a tramar. Um grupo de insurgentes reagiu, invadindo um dos palácios, casa de um dos Imperadores...o Guardião da Lança Sol. As relíquias funcionava em conjunto...caso fossem separadas, seus poderes seriam reduzidos a um décimo de sua total potencia e tal fato nunca foi um segredo, uma vez que a união e transparência eram os valores primordiais de Acidália. Eles invadiram, lutaram, seguiram até o cofre, foram capazes de alguma maneira de abri-lo, pegar a relíquia e sair...dos 90 soldados que se juntaram pela causa e avançaram...somente uma foi capaz de chegar até o navio escondido e partir para o Continente Oeste.
 Uma única guerreira.
 Coberta com o sangue de seus companheiros e inimigos.
 Carregando uma lança nas costas de um corpo machucado, com um rosnado nos lábios e choro nos olhos.
 Uma única guerreira.
 Ela.

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Três Meses após o Ataque ao Palácio
Estrada de Carvalho Verde
Cidade Próxima ao Litoral

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 Ela cavalgava.
 Vestindo um manto por cima da armadura do império, com sua arma escondida dentro de panos presa as costas e seu escudo na cela em baixo de seus pacotes, Iruna não chamava nenhuma atenção.
 A chuva vinha como uma benção, parecia lavar a alma e tirava o cheiro de água salgada impregnado na alma da guerreira. Três meses no mar era pouco comparado as historias que já tinha ouvido, mas Iruna pouco se importava. Ficou enjoada, mal dormiu e quando o fez teve pesadelos. Ouviu historias do Corvo que enfrentou um Leviatã a poucos meses e em como aquilo a deixou com certo receio dos oceanos, uma vez que monstros marinhos são bem reais e água não era exatamente o elemento dela, pelo menos a que a cercava...a que vinha de cima era sempre bem vinda, ainda mais quando estava em terra firme.
 Chegou no porto a dois dias e não perdeu tempo, já pesquisando quais os lugares mais inóspitos e invisíveis aos olhos do governo ou rei local, onde poucas pessoas poderiam saber de sua presença e pouco se ouviu falar do Carvalho Verde, uma aldeia pequena e com um povo simples, sendo muitas vezes chamados de "Caipiras de Merda" pelo pessoal.
 Era pra lá mesmo que ela ia.
 É o melhor lugar!
 Iruna suspirou.
 Melhor do que ficar em um porto cheio desses marinheiros fedidos!
 Coçou levemente a nuca e resmungou.
 Desde pequena, uma voz vivia dentro da sua cabeça. Era exatamente igual a sua, mas tinha seus próprios pensamentos que muitas vezes irritavam Iruna. Com o tempo, aprendeu a ignora-la na maioria das vezes, mas no navio, sem ninguém pra conversar e passando mal toda hora, fica difícil se concentrar em bloqueios mentais.
 Comprou um cavalo, provisões e caiu na estrada logo ao anoitecer. Cavalgou durante a noite toda e só se permitiu descansar quando amanheceu, se escondendo entre arbustos e se ajeitando dentro de raízes de uma arvore. Dormiu como uma criança.
 Antes do Sol se por, já estava na estrada novamente, foi quando a chuva veio. Iruna seguiu pela estrada sem grandes problemas, só os olhos que era difícil se manter abertos, o corpo estava mesmo cansado da viagem e da pressa. Estava quase se entregando e dormindo em cima da montaria quando...
 - Melhor voltar! - Iruna olhou para a origem da voz com o olhar de poucos amigos, o instinto levando sua mão para a faca na cintura, até que ela viu que se tratava só de um homem, conduzindo uma carroça velha, sua carga estava cheia e era possivel ver que o velho cavalo sofria para levar tudo. Junto com o home estava uma duas meninas, uma mais velha, a outra uma mera criança. De pé, ao lado da carroça, um pedaço de pau na mão, um garoto, nada mais que quinze anos.
 Iruna sabia reconhecer uma família fugindo quando via uma. Ela parou o cavalo e respondeu.
 - Boa tarde, bom homem. O que acontece? - Surpreso com a educação da moça, o velho parou a carroça.
 - O que acontece é que a vila está condenada. Não tem o que possa ser feito. Eu fui o primeiro a sair, mas mais estão vindo por este caminho.
 - E para onde está pensando em ir? - Ela voltou a perguntar.
 - Tenho parentes no outro continente. - Ele sorriu. - Mas é uma pena sair daqui.
 - O que acontece aqui? - Ela voltou a perguntar. O homem suspirou, as meninas trocaram olhares temerosos e o garoto deu um leve rosnado. O velho olhou para trás e respondeu.
 - Quimeras. - E depois voltou a olhar para a garota. - Milhares delas começaram a aparecer pela floresta e atacar nossas casas. Fomos reduzidos pela metade tentando nos proteger, mas...agora, o pouco que resta está indo embora. - E deu de ombros e um sorriso triste.
 Iruna respirou fundo e deu uma leve risada com a ironia. Olhou para frente e viu o perigo. Olhou para trás e viu uma promessa. Sentiu um calor emanando do peito e do "pacote" que segurava nas costas.
 - Esperem aqui. - Ela quebrou o silencio. - Acampem debaixo daquela arvore, é seguro e pode se fazer uma fogueira quando essa chuva chata passar. Eu dou um jeito de te avisar quando eu acabar.
 - Acabar o que? - O velho perguntou quando ela voltou a cavalgar.
 - De matar as Quimeras. - E acelerou o galope da montaria.
 Os momentos seguintes foram como o velho disse que seria, varias pessoas vieram, carregando da melhor forma que podiam tudo que tinham, carroças caindo aos pedaços, crianças chorando e lamentações no geral. A estrada virou um corredor de arvores, fechando o céu que começava a escurecer, com galhos vastos e cheios de folhas verdes e flores azuis estranhas. O chão agora era liso, terra batida, cercado de pedras que foram colocadas ali para simular uma estrada mais formal, pedras agora cobertas de musgo, fazendo uma linha entre o terreno de passagem e as arvores enormes dali. A chuva começou a passar quando ela finalmente chegou no vilarejo, passando por um arco de madeira tosco...e vendo a cena.
 A lama no chão estava cheio de marcas de rodas e pegadas, algumas pessoas estavam aos gritos, preparando tudo para ir embora, Iruna percebeu que eram aqueles que tinham animais para cuidar e mais membros da família, mais tempo para se arrumar. Também eram os donos das casas maiores, o que não queria dizer muita coisa. As casas eram afastadas umas das outras, algumas de madeira, outras de palha, outras de pedra, nenhuma delas seguiu uma linha ou um parâmetro, o que deixou um certo incomodo dentro de Iruna. A aldeia era cercada pela mata e por pequenas cercas...mas mais para frente, as cercas cresciam e se tornavam um grande portão de madeira grossa, com correntes enroladas nelas...dali a guerreira pode ver que fora reparado mais de uma vez.
 Perto desse portão, alguns homens, armados de foices, pás e pedaços de pau, gritavam.
 - NÃO FUJAM! FIQUEM E LUTEM! VAMOS! - Eram aspirantes a guerreiros, amadores...mas estavam tentando proteger seu lar e por isso, Iruna os respeitou. Ela chegou perto deles a cavalo e eles olharam para ela.
 - O que quer? - Um deles, o mais velho gritou.
 - Ajudar vocês. - Ela respondeu, desmontando. Os homens trocaram olhares, alguns seguraram o riso.
 - E como? Vai pegar suas panelas e bater nas Quimeras? - Um deles, o mais gordo, gritou.
 - Não. - Iruna respondeu, tirando o embrulho e depois o manto de si, revelando seus longos cabelos negros, sua armadura e suas ombreiras, o saiote de couro que protegia suas coxas e as sandálias de couro com sola grossa. Tirou o escudo redondo e brilhante do cavalo que era grande o suficiente para proteger todo seu tronco e, por fim...pegou o embrulho e com uma mão só o jogou para cima, puxou e o fez desenrolar, soltando os panos e pegando seu conteúdo antes que caísse no chão. Uma lança branca, com círculos vermelhos no fim de seu cabo e com a ponta da lamina quebrada.


 Todos recuaram ao ver a postura da guerreira, que caminhou até certa distancia do portão. Alguém tentou falar alguma coisa e ela mandou que se calassem, se concentrando logo em seguida...fechou seus olhos e sentiu as poucas gotas da garoa fina, o vento soprando e o som das folhas...respirou fundo e sentiu o gosto do vento e continuou ali...até que sentiu.
 - Está chegando. - Ela rosna, entrando em modo de combate.
 - Mas quem é você? - O mais velho pergunta.
 - Iruna, Acidaliana, Capitã da Legião. - Ela respondeu secamente e antes que outra pergunta pudesse ser feita...
 BOOM!
 Alguma coisa grande bateu no portão, forte o suficiente para fazer aqueles troncos racharem. Os homens voltaram em suas posições, dando passos para trás e tremendo quando um novo estrondo veio. Iruna ficou ali...tranquila. Pela primeira vez em muito tempo, seu coração estava batendo normalmente, calmo, acompanhando o ritmo da sua respiração. Estava longe da crise, da corrupção, do pesadelo que se tornou seu sonho de casa, de nação, do combate contra seus irmãos, da fuga e do mar que fez com que se sentisse enjoada.
 Era ali que ela pertencia. Terra firme sob seus pés. Armas em punho. Armadura no corpo. E apesar da falta que seu elmo lhe fazia, ela gostava de sentir o vento frio assoprando seus cabelos para longe dos olhos.
 Se sentiu em casa.
 Lute!
 O portão estourou, madeira e lascas voaram para todos os lados e tudo ficou em câmera lenta para Iruna quando viu seu adversário.
 A Quimera saltou e rugiu em pleno ar.


 AGORA!
 E naquele micro segundo que o monstro colocou a primeira pata no chão, Iruna avançou. Um salto para frente, em linha reta, sua lança atravessa a cabeça de dragão, varando pela nuca e sendo puxada rapidamente. A guerreira apoia o escudo no chão, rola e fica de pé logo em seguida, quando a Quimera começa a gritar e rugir de dor. A cabeça de dragão é a mais perigosa e a que tem de ser abatida primeiro...sem ela, não há fogo, não há asas e nem calda.
 - Faltam duas. - Ela sussurra para si mesma...é quando as duas cabeças restantes olham para ela. O Leão rosna e a cabra solta fumaça pelo nariz. As asas, a cabeça e a calda estão pendentes no corpo, causando certa dificuldade para ela...mas se demorar demais, a cabeça poderia se curar.
 Ela não sabia controlar as coisas muito bem, mas o que mais poderia fazer? Ela podia sentir que mais estavam vindo. O monstro avançou, o Leão rugindo, a Cabra apontando seus chifres, em um salto...foi quando o ar ficou quente ao redor da guerreira...a ponta quebrada da lança se tornou incandescente e avançou...a arma nem mesmo chegou a tocar o monstro e cinzas explodiram de onde ele estava. O pó, com pequenas brasas, voou em cima dos homens que assistiam tudo incrédulos...onde uma mulher, chegando do nada, matou um dos monstros que os vinham atormentando, os fazendo se esconder em seus porões e se armar como podiam...tudo com o golpe.
 - Que...arma é essa? - O gordo, o que a tinha ofendido mais cedo, perguntou.
 - A Lança Sol. - Ela respondeu, olhou para trás e pode ver arvores se mexendo além do portão quebrado. Rosnou e olhou para os homens. - Saiam daqui! Estão tirando minha liberdade de movimento! Vão chamar os outros! Ninguém vai perder sua casa hoje! - A autoridade em sua voz era clara e sentida no coração deles, os fazendo correr para a estrada onde todos fugiram.
 Iruna ouviu um galho quebrando e se virou rápida o suficiente para colocar o escudo no caminho e sentir o impacto que quase quebra seu braço, suas sandálias chiaram com o atrito do solo, mas conseguiu se manter de pé mesmo sendo arrastada por causa da força do impacto. Olhou para seu atacante com um leve rosnado na garganta...outra Quimera vinha e a tinha acertado com a cabeça de cabra. Mas ouviu mais coisas, mais patas vindo da floresta...pulando e ficando em cima das cercas e dos portões...
 Cinco Quimeras. As cabeças de leões rugiam e as de dragões cuspiam fogo. Os monstros pularam pesadamente no chão e seus estrondos acompanharam um trovão, mostrando que a chuva voltaria...começaram a cerca-la, a estudar sua posição e movimentos. Aquilo era novidade para Iruna...bestas não tem formação, não tem táticas, não daquela forma.
 Alguém estava coordenando-as. E ela estava em uma má posição.
 Quando ia dar alguns passos para tentar uma investida e sair dali, as cinco criaturas então dispararam, correram e comprimiram o circulo, rugindo e saltando...as cinco bateram suas asas e em pleno ar as cabeças de dragões rugiram, o fundo de suas gargantas ficando iluminados e Iruna sabia o que iria acontecer, ela olhou para todos os lados e de todos vinhas as chamas...então ela se agachou, colocou o escudo acima da cabeça e esperou pelo pior.
 "Burra do caralho!" ela gritou na sua mente "Veio de tão longe pra morrer em uma causa que não era sua!". Os músculos ficaram rígidos e esperaram sentir o calor, as chamas consumindo sua pele, Iruna fez mil promessas aos deuses na sua cabeça de que jamais entraria numa luta por desespero de esticar as pernas novamente, nunca mais. 
 E o fogo veio, junto com o rugido e o rosnado de feras, de todas as direções...e não a queimaram. Iruna nem sentiu o impacto no escudo, pelo contrario...se sentiu bem...foi quando ela viu. As cabeças rugiam, o fogo vinha com tudo que tinham...mas faziam uma especie de espiral em pleno ar e circulavam a guerreira, juntando as chamas em um único facho e indo diretamente para a ponta da lança onde o calor era absorvido pela arma.
 Iruna não pode acreditar quando o ataque dos monstros acabaram, desceram até a terra e viram que sua vitima não estava em cinzas...viram a ponta de sua arma alaranjada, em brasa e sentiram medo, as Quimeras tremeram, sentindo o poder daquela arma nas mãos de sua inimiga. Medo que Iruna pode sentir vindo deles...sentiu em seu espirito, sentiu o cheiro dele...
 Ela não fez mais perguntas, ela não sentiu mais duvidas, ela se deixou entregar. A mente programada de uma guerreira, de um predador, sentindo a fraqueza do inimigo se espalhando. Sua mente era o campo de batalha agora. Largou o escudo e correu para a primeira Quimera a sua frente e, girando o corpo, com um grito de guerra, cortou com a lança em arco e atingiu a primeira Quimera, passando pelas três cabeças enfileiradas como faca passa por manteiga...Iruna conseguiu ver dentro de seus crânios antes que explodissem em cinzas como a anterior. As outras quatro vieram, a primeira fez um ataque terreno, correndo pelas quatro patas e tentando agarra-lá, Iruna saltou e cravou a lança nas costas da criatura e usou-a como vara de salto para chegar ao outro lado. A Quimera mal havia virado cinzas quando a guerreira balançou a arma e cortou outra e espetou mais uma, ambas explodindo em pó. O quinto monstro rugia, parado, assustado...se virou para correr, para dentro da floresta quando travou por um segundo e se desfez com a lança cravada em suas costas. Iruna havia jogado a arma e agora olhava ao seu redor...saboreando a estranha vitoria.
 Estranha porque não a fez se sentir bem...a fez se sentir com medo.
 A Lança Sol era uma arma poderosa, ela teve de usa-lá na sua fuga para o navio e sabia como queimar desgraçados e vê-los se tornarem pó diante dos seus olhos, ela via como era fácil perfurar escudos, destruir armaduras, quebrar lanças e derreter espadas...mas aquilo? Aquilo tudo? Aquele nível de poder era algo novo pra sua compreensão, era como se ela fosse uma maga, algo do tipo...era poder demais, não era a toa que o roubo de uma relíquia desestabilizaria o poder dos Imperadores...o resto do grupo rebelde, o exercito de verdade, ficou lá para enfrentar e tentar roubar as outras três relíquias, mas se elas tiverem esse mesmo poder era obvio que todos iriam morrer, o que isso...
 O que está fazendo?
 Iruna parou...respirou bem fundo e expirou bem devagar.
 Acalme-se.
 Ela inspirou e expirou de novo. Seus pensamentos começaram a se ordenar novamente.
 Ela era uma guerreira de Acidália, Capitã da Legião, rebelde que lutou pelo bem e pelo futuro do seu povo. A missão era levar a Lança Sol para longe e dar uma vantagem para seus outros soldados, eles sabiam que tal missão era perigosa, ainda assim foi feita e ela se foi, levando um dos itens que sustenta sua civilização...eles tinham fé nela e agora, ela tinha de ter fé neles. E se caso ela tivesse más noticias, era só voltar...ela tinha a relíquia. Mas por hora, ela tinha outra coisa pra fazer, aquele lugar era perfeito para se esconder sem chamar muita atenção e boas pessoas pareciam morar ali.
 Além de serem o tipo que obedecem facilmente.
 Boa garota!
 Ela tinha que assegurar o local e rápido. E o que causava os problemas estava ali, dentro da floresta.
 Iruna, na maioria das vezes,odiava a sua voz que tinha personalidade própria dentro da cabeça, mas ela tinha seus momentos, como aquele.
 Deixando seu escudo para trás, ela passou pelos portões, percorreu a curta estrada de terra e começou a correr pela mata quando a chuva finalmente voltou, mais forte do que uma garoa comum.A lama se formava e entrava entre os dedos e a sola dos pés, mas ela continuava seu caminho, ela seguia os sinais óbvios...galhos quebrados, arvores derrubadas, áreas queimadas, tinha um rastro inteiro de atividade de Quimeras ali.
 Mas ela só teve certeza da onde ir quando ouviu os gritos.
 Iruna parou e ouviu direito. Eram gritos altos, seguidos de gemidos, suspiros fundos e lamentações para depois virem mais gritos e rosnados. A guerreira começou a correr para o local de tais gritos...e se ela seus ouvidos não a estivessem enganando, ela sabia qual era o tipo de dor que causava tais gritos...
 Dores de parto.
 Ela continuou a correr durante alguns bons minutos, arfando com nuvens de fumaça saindo pela boca e nariz...o frio estava tomando conta, mais um motivo para não parar de se mexer. Ela correu e quando passou por uma serie de arbustos, a cena se abriu a ela.
  Degraus largos de pedra lisa subiam e formavam uma pequena piramide de no máximo dois metros, forradas de musgos e cheias de rachaduras por conta de raízes que cresciam na estrutura...raízes que vinham de uma arvore que crescia no ultimo degrau, se levantando por quatro metro, seus galhos entretanto se abriam e depois se erguiam ao crescer, formando uma cúpula aberta, como um berço redondo...e entre esses galhos, uma mulher gritava e rugia de dor, a barriga inchada se mexia de forma nada natural.
 E ela gritou e rugiu, se contorceu, suas pernas magras se afastaram uma das outras e...seu ventre explodiu em sangue e órgãos. Saindo dela, um filhote de Quimera rolou pelos degraus de pedra até parar na grama...a chuva lavava a placenta e o sangue em seu corpo diminuto, as asas mal estavam formadas, mal conseguia ficar de pé...mas já conseguia rugir e grunhir e mirava Iruna com fome.
 - Mate... - Os gritos agudos da mulher tiraram a concentração de Iruna.- MATE ESSE MONSTRO! - E no meio da chuva, começou a chorar de novo, a dor a atingia com tudo, seu ventre aberto sendo invadido pela chuva forte, os degraus lavados com seu sangue...e ela pedia para matar a criatura que havia saído dela.
 O bicho pequeno rosnou e avançou, facilmente abatido por um golpe da poderosa lança. As cinzas não voando muito longe, a água as fazendo cair no chão rapidamente. Iruna correu até a mulher...o desespero era tão eminente, tão palpável que era transmitido para ela.
 Ela subiu os degraus e ficou cara a cara com aquele corpo deformado e aberto por um segundo, tempo suficiente para que as entranhas começassem a retornar a seus devidos lugares, para espanto de Iruna. Todavia, no mesmo instante, a guerreira se encontrou em um leve estado de catatonia, quando avistou a aparência da mulher, ignorando por um breve momento seus gritos e gemidos: em sua cabeça, chifres semelhantes às de uma cabra, cobertos por uma quantidade razoável de sangue, o que o deixava com um visual diabólico; olhos penetrantes e um nariz achatado que mais lembravam aqueles de um leão...e por fim, saindo de suas costas e jogada para o lado como um trapo, uma calda escamosa, machucada, feridas abertas, mas a aparência era clara...era de um dragão.
 A mulher, percebendo o olhar de Iruna, o maxilar estalando em fúria e duvidas, resolveu tentar explicar-lhe o que a havia acometido.
- Espera...eu...
 - O que é você? - Ela rosnou, a chuva fazendo seus cabelos caírem em seu rosto. - Você é a causa disso tudo?
 - Sim. - Ela disse...sem dor agora em sua voz, seu corpo totalmente curado, mas o arrependimento ainda acometia sua alma. - Perceba, por favor. Fiz por um motivo nobre... – proferiu a mulher, enquanto tentava engolir o choro.
 A guerreira ficou ali, parada, olhando para o ser a sua frente, tentando saber se era um monstro ou um ser humano. A moça continuou.
 - Essa vila, ela estava condenada. Ninguém poderia salvá-la. O que faziam por aqui era imperdoável. Mandando aquelas pobres pessoas...aquelas crianças. – tossiu, dessa vez uma quantidade de sangue saiu, se espalhando por seu rosto e busto. – Por que precisavam delas nos reinos? Por que o povo se submetia a tal ato? O que o ser humano não faz por um punhado de moedas é desprezível. Ninguém se importava. O que os Reis faziam com aquelas crianças.
 - Eles... - Antes de perguntar, Iruna entendeu e se deteve...lembrou do garoto quieto e rabugento vindo para cá.
 - Eles vendem pessoas aqui...o vilarejo é um posto de troca...crianças inclusas... - A mulher chorou, e voltou a falar. - Ninguém se importava, ninguém... - E então gritou - Mas eu me importava! Aquilo não poderia acontecer de novo e de novo. Foi quando cometi um terrível erro. - Ela respirou fundo, a chuva pareceu diminuir. - Eu escolhi um caminho que acreditava ser certo, minha alma...ele tomou posse dela para que pudesse salvar a vila. Não entende? Foi tudo por um bom motivo. Eu teria poder para parar este povo. Mesmo que me tornasse...Isso... – disse em uma voz embargada e quase inaudível.
 Iruna, finalmente tocada por sua consciência, se encontrava desolada pelo estado da mulher. Afinal, não eram quase iguais? Ela mesma não tomou um poder para si para tentar a salvação do seu povo, para defender o que era certo? E isso mesmo não tinha lhe trazido um fardo maior?
  A tristeza da moça era visível e antes que pudesse tentar consolá-la, a moça retornou a falar:
 - Não posso mais dar à luz aos filhos de um demônio. Esses monstros...as mortes...é tudo culpa minha. Minha inocência foi meu fim. Por favor... – Desta vez, direcionou seus olhos marejados aos da guerreira, e, com um tom de súplica, indagou – Acabe com isso de uma vez.
 Um trovão cruzou o céu, assim como a certeza passou pela alma da guerreira. Iruna só concordou, pegou sua lança com ambas as mãos e direcionou à barriga da mulher, mirando certo onde poderia furar o coração logo de uma vez..
- Vai doer muito? - A parteira pergunta.
- Não sei. - Iruna responde sinceramente. - Todos viraram cinzas antes de gritar.
 E quando deu um passo para frente, para destruir tudo, colocar um fim naquilo..até que os galhos das árvores ao redor se entortaram violenta e rapidamente, envolvendo a moça que começou a gritar lá dentro, pedindo socorro. O único erro de Iruna foi se deter, o poder da lança destruiria aquilo...mas a energia que se gerou, a escuridão, a fumaça que veio com tanta força que a empurrou para longe, fazendo a guerreira rolar pela lama e pela grama violentamente, a impediu de terminar seu movimento.
 Ela girou, socou o chão e se forçou a ficou de pé...foi quando rugidos vieram de todas as direções. Não havia estratégia alguma que a auxiliasse em tal momento desesperador...Quimeras saíram da mata, algumas três vezes o tamanho daquelas que matara mais cedo, rugindo, cuspindo chamas, rosnando, a cercando por todos os lados...aquela fumaça formando uma coluna a sua frente, crescendo e crescendo, tomando formas estranhas, luzes vinham de dentro como trovões dentro de uma nuvem e havia algo lá dentro...algo que não pode ser descrito com palavras.
 - Guerreira do fogo. -Uma voz, fina, fantasmagórica e fria veio até sua mente. Iruna parou para ouvir, não sentia que podia fazer mais qualquer coisa. - Seu fim é aqui. - Ela riu. - Meu exercito está pronto para marchar...e da Capital, iremos conquistar!
 Iruna balançou sua cabeça, mas logo a voz retornou.
 - E por favor...grite, meu amor, grite...grite como seus amigos gritaram quando os soldados do Império os fizeram gritar!
  Nesse momento, uma fúria avassaladora irrompeu de si.
 - Tocou na ferida errada, seu viado!
 Aaaaah, mas tocou meeeeesmo!
 A voz na cabeça da Iruna riu enquanto sentia a fúria tomar conta do corpo da guerreira que cerrava os punhos, segurando sua arma com mais e mais força, era sua raiva tomando conta de seu ser. Logo tal sentimento se tornou físico, ao passo que tanto a lança quanto Iruna encontravam-se em chamas incandescentes. Estranhamente, a sensação de ser engolida por elas não machucava; pelo contrário, a deixara revigorada, seu corpo todo aquela era uma grande esfera de fogo. Algo rugiu nas sombras e as Quimeras partem para cima dela,
 Iruna vê o mundo fragmentado em um segundo...levanta sua arma...ruge e a bate no chão.
 Tudo vai pro inferno.


 Poucas pessoas entenderam o que foi a coluna de chamas que pode ser vista até mesmo do porto, as labaredas que destruíram e consumiram metade daquela floresta inteira...se expandindo e abrindo suas asas como um grande pássaro de fogo, levanto tudo ao seu caminho.
 Tudo que virou cinzas não importava mais...só o que importava era ela. Iruna. A guerreira. O pássaro foi seu renascimento, seu modo de enfrentar o mundo se manifestando, seu real poder convergindo, se manifestando. O passado não importava, seus sentimentos antigos não importavam, sua antiga vida, nada...aquele era seu novo lar e não havia espaço ali para antigos arrependimentos, nada que a prendesse em uma arvore e a fizesse chorar por dias, dando partos a monstros que a consumiriam por seus erros antigos, seus feitos passados, não...naquele minuto onde o pássaro cruzou os céus e por fim se desfez....a unica coisa que levantou do mar de cinzas que se criou não foi uma guerreira, uma capitã da Legião, alguém que havia se comprometido a uma missão.
 Foi uma lenda.

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 O sol nascia no céu quando todos foram até o vilarejo, todos que viviam nos portos, todos que moravam ali, até alguns cavaleiros em seus cavalos, tudo estava em paz...mas ninguém entendia direito o que tinha acontecido. Alguns logo lembram da guerreira, falando em como lutou com os monstros usando uma lança e em como ela os queimava. Falaram dela e foram desacreditados no começo, até que alguém começou a gritar e todos se viraram.
 Irunha vinha, nua, o corpo inteiro coberto por cinzas, seus cabelos ainda jogados grudados no rosto e em uma de suas mãos, a tal lança. Alguns gritaram de alegria, outros ficaram com medo...mas todos se calaram quando ela parou nos portões destruídos e os ficou encarando-os até que o silencio se instaurasse.
 Foi quando ela disse.
 - Eu sei o que vocês fizeram aqui.
 Ela pôde notar algumas pessoas engolindo em seco, com olhos arregalados, enquanto que alguns poucos – os mais jovens – não sabiam do que se tratava tal afirmação. Mas ninguém pôde pensar por mais alguns minutos e avaliar a situação, não quando Iruna levantou sua arma e cravou a ponta no chão, fazendo uma onda de fogo nascer e engolir cada ser humano em seu campo de visão.
 Ela respirou fundo...olhou tudo quieto e vazio...as casas ainda estavam de pé.
 Deveria haver o que comer, beber e onde se banhar em alguma delas.
 Fez o certo.
 - Eu sei. - Ela respondeu para "si mesma" e entrou na primeira construção. Foi quando parou na entrada. Logo percebeu que havia respondido a voz em sua mente, de forma natural, como uma conversa. Achou estranho...até que ela voltou.
 Está começando a entender?
 - Entender o que? - Ela só ficava parada, mirando o nada.
 Desde quando você nasceu, eu falo com você...eu te direciono, mesmo quando ignorada. Os Imperadores acham que somos objetos a serem herdadas e não é nada disso...somos merecidas! Desde o nascimento...
 - Que porra tá acontecendo?! - Iruna rosna e olha para todos os lados, esperando ver alguma coisa ou alguém. Estava estressada e tinha todos os motivos do mundo.
Basta olhar para suas mãos. – Iruna olhou diretamente para a lança – Achou! - E demorou alguns segundos para entender devidamente tudo aquilo...e riu, achando estar louca.
Isso não advém de nenhum caso de esquizofrenia, posso garantir. Sou consciente e viva desde que fui formada, Iruna...e tenho esperado por você por muito tempo. E fico grata que tenha me feito um só com você, agora...
 Iruna ficou olhando pra arma...balançou a cabeça e disse.
 - Foda-se. - Soltou a arma gentilmente próximo a porta e foi procurar o que comer.

-

 Uma semana depois, Iruna mirava a mesma floresta que tinha queimado.
 Vestia botas e couro, calças e camiseta de algodão, um casaco e por cima de tudo isso um manto velho da cor vinho. Na suas costas, uma mochila grande e sua arma nas mãos, servindo como cajado na ocasião.
 Olhou para trás e viu os restos carbonizados das pessoas de antes.
 Não olhe para trás, não é pra lá que você vai.
 - Eu sei.
 Se arrepende?
 - De matar o mal? Não. - Olhou para frente e começou a caminhar. - Tem que se fazer a coisa certa. Mesmo que signifique fazer sozinha.

-

Se espalhou como fogo em palha. Até os desertos receberam as noticias. 
Reinos vizinhos se encontraram, debatendo tal caso presenciado por todos, rei e rainhas preocupados se poderia ser o sinal de algo maior, fora de seus controles. Tudo aquilo...era estranho.
O pássaro de fogo viera e exterminara uma floresta e o vilarejo próximo...alguns diziam se tratar de uma fera santa, outros diziam que era uma mulher,
uma guerreira formidável na posse de uma arma divina.
Tudo isso, especulação...muitas perguntas, sem respostas.
Mas não é segredo para ninguém:
Fênix havia nascido...e que ela estava por ai.
Queimando e destruindo o mal.

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