domingo, 19 de fevereiro de 2017

Crônicas Eternas - Liberdade Real


Para Anna
A mulher mais forte que conheço


 Você tem esse leão. Ele é o rei da floresta, com sua juba enorme. Ele está deitado embaixo de uma arvore, no meio da áfrica e ele é tão grande e está tão quente que ele não quer se mexer.
Então vem os pequenos leões mexer com ele, mordem sua calda, mordem suas orelhas. Ele não faz nada. Então vem a leoa, começa a mexer com ele, trazendo problemas e preocupações. Ainda assim, nada. Agora os outros animais, eles notaram isso, eles começam a chegar perto. Chacais. Hienas. Latindo, rindo dele. Começam a comer a comida que está em seu domínio.
Eles fazem isso e vão chegando mais perto e mais perto, ficando mais ousados...
Até que um dia...aquele Leão levanta.

- Christopher Walken

=

 Englen.
 Esse é o nome da raça.
 Em Sandria, o mundo onde ocorre tantas historias, existem varias e varias especies que habitam suas florestas e cidades, com suas culturas, deuses e costumes. Os Englen é uma dessas especies.
 Fisicamente falando, lembram um pouco os humanos. Suas diferenças são as orelhas, levemente pontudas mas não a ponto de serem confundidos com elfos, seus traços corporais e faciais são mais delicados e seus cabelos são naturalmente curtos dos lados da cabeça, ou seja, os Englen tem moicanos de forma natural. A principal diferença física, entretanto, é que são mil vezes mais ágeis e fortes, podendo correr como o vento, saltar longas distancias e levantar rochas enormes e tirar raízes de arvores do chão sem grande esforço. Seus olhos podem ter somente três cores: Um castanho avermelhado, de cor semelhante a de avelãs; um verde água com traços purpuras; e um azul bem claro beirando o branco.
 Eles tem o costume de fazerem suas roupas com couro de animais e plantas próprias para tal, de prenderem adornos ao longo do corpo, como brincos e argolas, de fazerem tatuagens e criar vestimentas em homenagens aos seus deuses, o Sol, a Lua e o Verde. Apesar da forma que vivem, ninguém que vê os Englen conseguem dizer que são seres selvagens, muito pelo contrario, tem sua própria língua, são cultos, sempre com o habito de escrever seus pensamentos, filosofias e sonhos em suas tábuas de argila ou seus papiros, deixando registrado suas lições para todos que quiserem ler. Demonstram uma grande facilidade para aprender coisas, como manusear o metal de diversas maneiras e aprender línguas de outros povos e raças.
 São seres belos que escondem muito mais do que são no seu interior.


 Os Englen tem duas almas no mesmo corpo. Uma é conectada a sua consciência e a razão, enquanto a outra é ligada ao seu coração e emoção. Ambas as almas ficam em equilíbrio dentro deles e é o principal fator para seu estilo de vida. Os Englen vivem nas florestas e mostram uma civilização única. E é dito civilização, e não aldeia, pela magnitude de suas construções e o modo como sua civilização anárquica funciona, movida a magia, pela natureza e o respeito mútuo, com casas de diversos materiais, cidades inteiras construídas ao redor e integradas as árvores, sabendo manusear o vidro e criando utensílios, armas e estatuas do tal material.


 Os Englen sempre se mostraram muito bons com arcos, flechas, facas e principalmente com magia branca e elementar, nascendo com o dom para tal coisa. Vivendo em perfeita harmonia, na base da harmonia consigo mesmo, com os outros e com o ambiente em que vivem, os Englen já foram cogitados como a raça e a civilização mais pacifica que se existe.
 Apesar disso, quando guerreiam ou enfrentam uma ameaça, são os mais perigosos seres que você pode imaginar, tendo que combater quase que diariamente feras, maus espíritos, demônios e invasores que tentam tomar seus domínios.
 Ainda assim...não foi o suficiente para afastar as ameaças.


 O fato dos Englen ter duas almas, segredo mantido por milênios, começou a se espalhar como um boato por todo o continente. Ninguém sabe como ou porquê ou quem espalhou tal informação, mas o que importa é que chegou nos ouvidos de pessoas ruins...mais precisamente, de Adon, o Negro.
 Adon era um mago das artes proibidas, com pacto de sangue com os Uruni, os Deuses Negros do vazio. Organizando cultos profanos ao longo de sua imortalidade frágil, conseguindo poder além da imaginação da grande maioria, viu grande potencial na tal raça de Englens. A alma é a fonte de poder de qualquer mago, a alma pode ser expandida, mantida eterna e absorver outras forças. Duas almas no mesmo corpo poderiam trazer mais vantagens ainda para alguém como ele...Adon precisava de Englens para seus experimentos e começou a fazer seus movimentos, colocando um preço generoso para cada um deles que for capturado e trazido vivo.
 Foi o começo do Inferno para eles.


 Poucos sabiam onde os Englen viviam, logo poucos ataques foram feitos a eles e quem o fez, não sobreviveu para contar a historia. Porém, Adon foi capaz de localizar todas as Cidades Englen que existiam com sua magia, passando tal informação a seus mercenários. Humanos, Orcs, Goblins, Trolls, todos atrás de fortuna, marcharam. Florestas foram queimadas, Englens foram mortos, a caçada foi tamanha que nenhuma cidade ficou fora de combate. Durou meses os confrontos e sequestros, porém a trama não teve um final feliz: As florestas foram ocupadas e tomadas, os mercenários começando o contrabando da tal raça. Campos de concentração foram criados para conter tais seres e logo, os Englen foram distorcidos no senso comum, sendo ditos como selvagens, bruxos, adeptos a bestialidades e consumidores de carne humana.
 Aos montes, foram capturados, torturados e levados ao Mago Negro e a outros que também queriam tal poder da alma dupla. Foi uma era negra aos Englen que não tinham como se defender e ninguém para salva-los ou direciona-los no combate.

ATÉ AGORA...


Cidade de Ausch
Continente Oeste
Outono


  Os muros da cidade eram altos e fortificados. A cada dez metros, uma torre de combate se erguia, com no minimo quatro arqueiros treinados vigiando seu topo. Na entrada da cidade, duas portas gigantescas de Carvalho Vermelho puro com dobras de aço eram seguidos de grades enormes de ferro fundido. Caso algum invasor conseguisse passar por isso, teria de lidar com os baldes de óleo fervente que cairiam pela cabeça e uma tropa de cavaleiros altamente treinados e uma cavalaria fortemente armada. A cidade nada mais era do que um enorme complexo militar desenvolvido com só UM proposito: Proteger sua mercadoria.
 Ausch era onde estava o maior campo de concentração de Englens de toda Sandria. Presos em celas, forçados a trabalhar e coisas piores, eles ficavam ali...no centro da cidade, dentro de cercas e jaulas e muros altos de pedra.
 E naquela noite, especificamente, havia algo a ser comemorado: Adon em pessoa iria comprar cada Englen conseguido por aqueles soldados, levando todos a grande fortuna. O líder da companhia, Caamar Sacul, um paladino consagrado da Ordem da Supremacia, companhia militar mercenária cuja especialidade era caça de tudo que não era humano, estava lá, de ombros largos, cabelos louros e pele meio queimada pelo Sol, sorrindo fazia três dias, fazendo piadas e já planejando o que fazer com tal fortuna. E lá estava ele agora, dentro do maior prédio de pedra do lugar, com três andares recheados dos seus mais fieis guardas e cavaleiros, onde todo seu conforto era garantido e protegido...calmo, recostado em sua mesa, no seu grande escritório, com seu piso de madeira, quadros e prateleiras cheias de livros, no prédio principal do local...bem a frente do gigantesco campo de concentração.
 Em seus pensamentos de confiança, racismo e riquezas, o paladina estava cego para muitas verdades do mundo. Mas dessa vez, o deixou cego para o que acontecia lá fora.
 Algo se movia na escuridão.



 Os soldados comiam sua carne e bebiam seu vinho e cerveja e agora sentiram um gosto diferente. Os alojamentos estavam quietos a essa hora, mais do que o normal, mesmo com as concubinas que haviam sido mandadas para lá agradar seus soldados.
 Os arqueiros estavam no chão de cada torre. Alguns espumavam pela boca, outros tinham suas gargantas cortadas. A sombra estava passando por eles. Ativou as alavancas certas e os portões se abriram...as grades se levantaram. Com a algazarra, a musica e a sensação de segurança, ninguém ouviu, ninguém se importou.
 Tal sombra, com agilidade fora do comum, saltou do muro e foi pulando de prédio em prédio, de alojamento e alojamento...vendo o silencio dominando cada canto por onde havia passado mais cedo aquele dia...em direção a Igreja local, o único prédio sem fim militar.


 Dentro do Campo de Concentração, no corredor das celas, os guardas andavam de lá para cá, verificando a "mercadoria". Não podiam beber no serviço e só podiam se alimentar de suas rações, tudo para manter o foco. Dois deles, com seus uniformes em cima de suas cotas de malhas, resmungavam da situação.
 - É sério, eu só acho injusto, porra. - Um deles, o mais alto, reclamou. - Eles estão lá fora, bebendo, comendo, fodendo, e nós aqui, trabalhando, vamos madrugar nesse lugar frio e sujo...
 - Fica calmo, ai, rapaz. - O mais baixo respondeu. - Os soldados lutaram e morreram nas florestas, eles merecem isso. Pelo menos a gente ficou de fora da briga toda e amanhã, quando a gente trocar o turno, ainda vai ter puta e bebida.
 - É, isso é...morreu muita gente, não é?
 - Metade do exercito...cerca de cinco mil homens...
 - Puta que pariu. - Eles pararam na frente de uma cela. Uma Englen estava lá, abraçando os joelhos, os longos cabelos negros caindo sobre o corpo machucado e cobrindo as orelhas pontudas. - Olha essa porra ai. Cê fala que uma merda dessas luta?
 - Não. - O companheiro respondeu. - Mas, na real...eu comia.
 - Eu e você comíamos. - Ele riu. - Mas não dá...esses bichos ai são muito fortes e o tal mago falou que elas tem que ser puras... - Tal comentário fez o outro guarda rir.
 - Até parece. - E depois apontou para a prisioneira. - Já deve ter dado pra meio mundo, até pra bicho. - E ambos riram. O mais baixo se vira para a prisioneira e começa a gritar. - EI...QUAL O SEU NOME? - E ela ficou em silencio. Rosnando, o guarda arrancou uma pedra da parede e atacou na mesma, atingindo bem na testa. Sua resposta foi um olhar feroz como nenhum outro.


 - Eu perguntei seu nome! - O guarda gritou, não temendo nada. A cela era própria para segurar tais criaturas.
 Respirando fundo, tentando se conter, sentindo os grilhões presos no tornozelo a impedindo de avançar...ela rosnou.
 - Bella... - E ambos os homens deram risada.
 - To surpreso que ela fala nossa língua. Gostosa, ein, Bella? - O mais alto disse, rindo...e quando iam voltar a atormenta-lá...ele ouviram.
 O sino. O sino da Igreja.
 Estava tocando.


 Caamar saiu de seus pensamentos felizes com o som dos sinos. Aquilo era incomum...não era a corneta de emergência mas ele sentiu um certo frio na espinha com aquilo. Não era hora de missa, nem dia...merda, ninguém nunca usou o sino. Quando ele se levantou da sua mesa, já vestindo seu sobretudo branco, foi sair para questionar tal coisa...a porta do seu escritório foi aberta violentamente. Um dos guardas principais, sua armadura meio frouxa no corpo, seus olhos injetados de sangue, vinho saindo de sua boca, o rosto era uma moldura de pavor...Caamar paralisou, olhando para o homem.
 - Senhor...senhor... - Ele balbuciou, os braços estendidos, andando como um zumbi. Seu senhor começou a andar para trás.
 - O que aconteceu, Soldado?
 - Ataque...ataque...todos...veneno... - E por fim, o mesmo caiu no chão, morto, cuspindo todo o sangue do seu corpo.
 - O que...o que? - Caamar pulou o corpo e correu para fora, ao ar livre, no último nível do complexo militar. Soldados estavam lá, apavorados, tentando entender o que aconteceu com aquele soldado que correu até o dono do lugar para avisa-lo de algo.
 Os olhos de Caamar foram para a torre da Igreja...o sino tocava violentamente, ameaçando virar e quebrar. Olhou para baixo, lá nas ruas e todos os soldados estavam ali, discutindo, tentando gritar para seu senhor, avisar o que estava acontecendo. O paladino, desesperado, olhou para o soldado mais próximo e o agarrou pela armadura, gritando em sua face.
 - O QUE ESTÁ ACONTECENDO?
 - Fomos verificar, senhor. - Ele respondeu, com certa firmeza, coisa que se esperava de um soldado de elite. - Os soldados...todos que estavam comendo e bebendo, em seus alojamentos, até as prostitutas senhor...estão mortos.
 - COMO ASSIM MORTOS? POR QUE NÃO ME AVISARAM MAIS CEDO? - Caamar berrou de novo.
 - Só vimos agora, senhor. Foram envenenados. Nossa comida, nossas bebidas, até nosso fumo, tudo está envenenado. - Caamar estava descrente com tudo aquilo...ele procurava mais respostas no rosto do soldado, que não encontrou, então o empurrou.
 - EU QUERO RESPOSTAS. - Ele voltou a gritar. - EU QUERO SABER O QUE ACONTECEU, QUEM ENVENENOU! FORAM OS ELFOS? ANÕES? RIVAIS? ESSES ANORMAIS DOS ENGLEN? EU QUERO SABER DE TUDO AGORA, VÃO, VÃO, EU ORDENO QUE...
 E se calou. Pois uma voz maior falava agora.
 - Senhoras e senhores...boa noite. - Todos começaram a olhar para todos os lados. A voz era alta...alta o suficiente para todos ouvirem, ainda assim...era calma e tranquila, ecoando nos cantos do complexo.
 - Espero que tenham aproveitado a refeição de hoje e suas festividades. Vocês comeram bem. - O tom ficou mais agressivo...e começou a ventar mais forte. - Comeram a paz dos Englen, sua riqueza, seu espírito. Destruíram suas casas e profanaram suas florestas. - Um rosnado pode ser ouvido. - De agora em diante o banquete acabou. E nenhum de vocês estará à salvo.
 A voz se calou...mas outra coisa pode ser ouvida...
 O som de mil cascos batendo na terra...e ficando mais e mais alto.
 - LÁ NA FRENTE! - Um dos soldados no chão apontou. - OS PORTÕES...ESTÃO ABERTOS. - E como se abrissem as cortinas de um teatro, a lua apareceu, as nuvens saindo da sua frente, e com sua luz pálida quebrou a escuridão para que todos pudessem ver o que acontecia.


 Com a luz natural, não dependendo de fracas tochas, todos puderam ver os portões abertos, todos ouviram o estouro...foi quando ficou ensurdecedor que um dos soldados gritou.
 - CAVALOS! - E eles entraram. Milhares e milhares de cavalos, todos enfurecidos e machucados, todos com a marca de Caamar, haviam sido roubados de seus estábulos e estavam sendo usados contra eles.
 - O QUE É AQUILO NAS COSTAS DELES? - Outro soldado, um arqueiro, perguntou...algo estava preso, mas não conseguiam ver direito por causa da confusão...os soldados tentando entrar no complexo de seu comandante, o estouro vinha violento e mataria a todos atropelados se ficassem ali...foi quando o mesmo arqueiro percebeu.
 - SÃO BARRIS...BARRIS DE PÓLVORA! NOSSA PÓLVORA! - Tal fato foi confirmado logo em seguida...quando os cavalos começaram a atropelar os cavaleiros, eles explodiram...um a um, fumaça e sangue tomou conta de tudo, soldados sendo levados para o inferno em um frenesi de explosões. Os portões do complexo sucumbiram a tal ataque e desabaram, deixando interior recheado de mais soldados ao céu aberto. Quando iam fazer um movimento, sair, tentar entender o que se passava...algo saltou da fumaça.
 Alguém, sacando uma espada, pronta pra atacar.


 Dentro da prisão, os Englen se remexiam...tentavam sentir o cheiro do ar e alguns passavam mal, o cheiro de queimado e sangue era muito forte...alguém os estava atacando. Alguns ficaram com medo e raiva, deveria ser alguém vindo tentando captura-los para eles mesmos ganharem o dinheiro. Mas havia aqueles com sentidos mais aguçados que conseguiu sentir o cheiro mais especifico...no meio de toda aquela carnificina que se iniciava. Era o cheiro de sua raça...um cheiro com um misto de dor e raiva...mas era o cheiro dela. Era um Englen...um Englen estava lá!
 Bella foi até a janela de sua cela e conseguiu sentir o cheiro...respirou fundo...agradeceu aos deuses a sua mente e pediu que protegessem quem quer que fosse...foi quando inspirou novamente...e ficou paralisada.
 Ela conhecia o cheiro. Conhecia sim...
 - Anna?


 A primeira fileira de soldados foi cortada ao meio com um só movimento.
 Lá fora, prédios caiam, soldados desmembrados agonizavam e tudo ruía, mas lá dentro era um massacre. O atacando balançava uma espada estranha e destroçava todos pelo caminho. Quarenta soldados estavam ali dentro no piso térreo e trinta haviam sido cortados das mais diversas maneiras e ângulos.
 Foi quando a atacando parou...precisava respirar um pouco. E todos a viram.
 Era uma mulher!
 Uma Englen!
 Seu cabelo era curto e negro. Sua orelhas, levemente pontudas com alargadores. Sua pele era morena. Uma argola estava presa ao nariz. Ela trajava botas que iam até sua canela nos pés, calças justas ao corpo e um cinto no quadril. Uma especie de blusa justa protegia o tronco. Um manto cinza curto que ia até metade do braço estava preso em seus ombros. No antebraço, peças de uma armadura. Nas mãos, uma espada gigantesca com traços orientais, mas não podia se definir.
 Ela era diferente demais. Não se trajava do modo tipico dos Englen, não se usava nada tipico da raça do pescoço para baixo. Um dos soldados ia gritar alguma coisa, falar, o que seja, mas ela os interrompeu.
 - Não. - Ela disse, sua voz forte dominando a todos. - Ninguém fala. Só morre. - E voltou a atacar.


  Cada golpe era uma morte, rápida, forte, invencível ara os padrões humanos. Armada com aço, uma Englen mostrava o que podia se fazer realmente. Quando o térreo ficou limpo, ela correu pelas escadas, subindo até o próximo andar e voltando a matar. Armadura, pele, carne, osso, tudo era cortado. Em silencio, a face fria como gelo, ela atacava.
 No segundo andar, se deparou com soldados com armaduras maiores, mais fortes e escudos largos, brandindo maças de ferro, gritando e indo para cima dela. Anna correu para cima deles...depois correu pela parede, aumentando sua velocidade...depois correu pelo teto. E andando em tal superfície improvável, ela deu seus golpes certeiros antes de ir até o chão. A cabeça de cada soldado caiu, rolando no chão.


 Caamar ouvia os barulhos do massacre nos andares mais baixos. Seus soldados tremiam, suas pernas balançavam e ele temeu por sua vida. Mas também sentiu raiva...muita raiva. Era a primeira vez que alguém o afrontava diretamente e isso o ofendia profundamente...a sensação de intocável saindo e deixando-lhe com um ódio mortal de tal afronta. Seu exercito, seu poderoso exercito, estava sendo exterminado...por alguma coisa.
 Ele correu para dentro de seus aposentos.
 - PROTEJAM O COMPLEXO! - Ele berrava. - VAMOS HOMENS! QUEM ABATER A BESTA GANHARÁ SEU PRÓPRIO FEUDO! - Ele parou, se virou e mentiu. - SOBREVIVAM...ACABEM COM A AMEÇA E EU OS FAREI NOBRES DE MANHÃ! - E fechou as portas. Correu até sua mesa, verificou suas gavetas e achou suas luvas...logo começou a bota-las e a sentir as diferenças em seu corpo.

 Anna continuava seu ataque. Sem prazer nenhum, ela resolvi a situação...limpou o segundo andar, e correu para o terceiro, um borrão assassino que se movia como um tornado. O ultimo andar...onde o resto dos soldados estariam, onde o mandante de tudo estaria.
 Quando chegou, passando pelo ultimo lance de escadas, uma barreira de escudos, lanças e arcos prontos estavam a sua espera. Tudo o que ela fez foi rosnar e diminuir um pouco a velocidade...e com seus olhos superiores, viu o exato segundo quando todas as flechas foram soltas, conseguiu ouvir as madeiras em atrito, os projeteis vindo em sua direção. Nesse exato segundo, ela pula, seu corpo gira no ar evitando as flechas uma por uma e, em pleno ar, ela se segura em uma das lanças e se puxa para baixo. Seu corpo evitando todas as armas, com os dois pés, atinge um dos soldados na cabeça, destroçando seu elmo e quebrando a formação, rolando para o meio dela. Cercada de soldados furiosos e com medo, tentando sacar suas espadas e largando seus escudos, a Englen não demonstra nada...seu rosto é frio e seus olhos castanhos avermelhados irradiam uma aversão ao local, as pessoas dali...
 Segurando sua lamina com ambas as mãos, Anna gira seu corpo de maneira violenta...o metal especial afiado corta tudo ao seu redor. Metade dos soldados morrem nessa empreitada e não espera nem o sangue cair no chão para atacar de novo.
 Eles eram soldados, mercenários...preparados para uma guerra. Mas não preparados para a guerra dela!

 Quando todos estavam mortos aos seus pés, a Englen se permitiu sentir...respirando fundo e devagar, ela tentava recuperar o folego e esquecer o cheiro de sangue impregnado no seu nariz. Ela tinha que acabar com aquilo e rápido.
 Olhou para a porta que a separava do comandante de tudo aquilo e caminhou firme até ela. Chutou a mesma e já preparou a espada para golpear.
 No mesmo instante, ficou paralisada e gritou de dor. Soltando a lamina e retorcendo seu corpo inteiro, a Englen sentiu como se fios grudassem em sua pele, se apertando e a forçando a parar...
 Quando ela olhou para frente, ela notou que era isso mesmo.
 Caamar estava ali, duas luvas negras em suas mãos, as colocando para frente e retorcendo seus dedos como garras. Na ponta dos seus dedos, fios de prata, finos como cabelo, eram controlados magicamente...e agora estavam segurando a Englen onde ela estava, mantendo seus braços justos ao corpo e seus antebraços e mãos para frente, grudadas uns aos outros.
 A dor era quase insuportável, os fios finos e inquebráveis pressionando através da pele, cortando e fazendo o sangue jorrar.
 - Uma Englen? - Caamar falou, após saborear o fato da sua armadilha ter dado certo. - Uma...SÓ UMA...Englen foi capaz de fazer tudo isso? - Ele apertou mais os fios. As pernas dela bambearam, mas se manteve firme. - Qual seu nome? Quem é você?
 Ela ergue bem o queixo antes de dizer.
 - Anna Englert! - E ficou olhando com seus olhos ferozes os do comandante.
 - Englert...hm... - Caamar havia aprendido a língua do inimigo, afinal, era o minimo para se evitar revoltas e saber do que falavam...Englen, o nome da raça, na língua nativa, significada "Liberto". O sobrenome da guerreira era um trocadilho de outras palavras, que formavam...
 - Liberdade Real...seu sobrenome significa isso. E Real é no sentido de Realeza, não é? - O Comandando respirou fundo. - Vou te jogar junto com os outros no fundo do poço pelo que fez...mas antes você vai me contar tudo...como conseguiu veneno, quem te contratou, esse tipo de coisa...eu quero saber e quero saber agora. - E voltou a apertar os fios. Anna conseguia se manter de pé, mas sentia os músculos começarem a ser cortados. - Curve-se! - Ele forçou mais. - CURVE-SE!
 - Chego em pedaços no outro mundo. Mas não chego de joelhos!
 - Você é bicho! - Caamar rosnou. - Não tem alma! Mancham esse mundo com sua selvageria! Com seus falsos Deuses! Vocês tem que morrer! - Ao ouvir aquilo, Anna rosnou...e aturando toda a dor, ela girou os braços e puxou. Os fios se enrolaram ainda mais nela, mas conseguiu atrair o maldito pra mais perto e pulou para frente.
 Afundou os dentes na jugular do comandante e puxou. O naco de carne generoso saiu com certa facilidade, fazendo o sangue jorrar. Caamar caiu no chão, estrebuchando e se debatendo, tentando gritar, sem sucesso. Anna cuspiu o pedaço do inimigo e respirou fundo, sentindo os fios se afrouxarem. Alguns caíram, outros ela teve de puxar para fora de sua pele.
 - Vadia... - Caamar gargareja o próprio sangue. - Por que...por que você...hmm...
 - Vocês vem com esse papo de...inferioridade, superioridade, civilização, religião, essa merda toda...no final das contas, vocês tem medo de nós. Vocês viram que, no fim das contas, sem suas estradas de terra batida, sem suas armaduras, sem o conhecimento limitado de vocês, alguém poderia crescer e se desenvolver...conquistar alguma coisa. E é por isso que vocês tem medo...alguém seguindo os próprios passos, fora do caminho que botaram na cabeça de vocês, isso aterroriza vocês, alguém podendo viver melhor que vocês. Vocês odeiam o que não entendem e o que não conseguem fazer. - O desabafo era dito enquanto ela pegava sua espada do outro lado da sala e caminhava para Caamar, quase desfalecido.
 Anna para em cima dele, um pé em cada lado do seu corpo. O homem, já palido, sem forças olhou para ela.
 - Estávamos quietos no nosso canto e vocês vieram. - Ela ergueu sua espada. - Agora aguentem! - E abaixou com tudo. Até o piso foi cortado quando a cabeça, o pescoço e o busto de Caamar foi divido do meio.
 Anna observou o que fez. Cuspiu nos restos mortais do homem e foi procurar as chaves.


 Bella voltou a abraçar suas pernas, tentando entender o que havia sentido. Era o cheiro de Anna, sua esposa...ela conhecia-o muito bem. Mas, aquilo tudo...aquilo não podia ser obra dela, Anna não era assim, Anna não...
 - NÃO, ESPERA! - Bella escuta um soldado gritar antes de ouvir laminas se chocando e depois cortando carne e osso. Ela escuta corpos caindo no chão e depois passos...o corredor começa a gritar, eles parecem felizes e surpresos, mas Bella não se move, ela não sabe bem o porque...Bella só fica ali, abraçando as pernas nuas, mirando as grades que a impedem de sair, sentindo os grilhões apertados no tornozelo.
 Até que ela aparece.
 Vestida como uma guerreira. O corpo que compartilhou seu leito, sujo de sangue dos pés a cabeça. Espada em mãos. Olhar feroz no rosto.
 Anna destrói a porta com um chute só. Ela caminha firme até sua amada e com um movimento da espada, destrói as correntes. O corpo de Bella segue seus impulsos...e logo ela está nos braços de Anna, a beijando, a abraçando, a puxando para perto de si. Naquele inferno todo, aquela é a primeira coisa boa que acontece em anos...
 Interrompendo as caricias, Bella passa as mãos pelo rosto de Anna...ela quer ter certeza...ela quer saber.
 - Faz tanto tempo. - Ela chora.
 - Eu tive de me preparar.
 - Onde...onde aprendeu tudo isso? Onde aprendeu a matar desse jeito? E...e essas roupas, essa arma? O que você fez?
 - Eu explico depois. - Anna responde. - Vamos...a gente vai sair daqui. Liberte os outros, arrume roupas para eles e pra você...e ai a gente conversa.
 Bella concorda e começa agir.


 Dois dias após a tomada do complexo, Anna agora observava tudo queimar a uma distancia segura, em cima de um pequeno monte. Suas roupas estavam limpas, sua lamina estava brilhando e afiada...pronto pra outra.
 Cada pedra do lugar foi abaixo, os Englen agiram rápidos para isso. Mas não foi o suficiente...Anna queria mandar um sinal. Um sinal de fumaça pra todo ver e saber que a revolta estava começando.
 Embainhando sua espada, Anna se volta para seu povo, todos com ela, naquela clareira do morro, esperando o sinal para seguir suas ordens.
 - Muito bem, vocês sabem o que fazer. Vão...e tomem cuidado. - Eles concordaram, agradeceram em uníssono e todos os 150 Englens sobreviventes foram para a floresta...armados até os dentes.
 Todos...menos Bella, que esperava ali em pé. Ela vestia um manto agora, por cima de roupas simples.
 - Bella...
 - Você vem comigo!
 - Não é assim que funciona.
 - Então eu vou com você. - Ela chegava mais perto a cada palavra.
 - Não, você não vem! - Anna rosnou, parada como uma rocha. - Já discutimos isso.
 - Não, você falou que era uma coisa e esperou que eu aceitasse! Eu não vou deixar você sozinha de novo!
 - VOCÊ TEM QUE ME DEIXAR SOZINHA! - Anna gritou, segurando nos braços da amada, ecoando por toda floresta. Bella ficou parada, surpresa. - Você tem...que me deixar sozinha. - E engoliu em seco ao ver o olhar da esposa. - Bella...vamos ter de nos mover. Você tem que ir onde mandei você ir, vai ter gente lá te esperando, vamos denunciar legalmente esse contrabando, essa afronta...vai tudo dar certo, são pessoas de bem. Eu sei que são. Eu confirmei isso. Vamos atacar eles com a lei, com a verdade, vamos expor cada um deles. Mas ainda tem alguns...que estão fora do alcance deles. Ainda tem aqueles que precisam ser feitos de exemplo.
 - Tudo bem, então me ensine. - O pedido de Bella fez Anna recuar um pouco. - Me ensine a te ajudar.
 - Não vou te ensinar a matar. Esse caminho é meu. É horrível, é escuro e mal dormido, mas é meu! Antes eu do que você. - Mesmo engolindo em seco, uma lagrima escorreu do rosto de Anna. - Se eu tiver que perverter minha vida pra te proteger...proteger nossa raça, tudo bem. Eu topo. Mas não vou deixar você deixar de ser quem é por causa disso. Não. Eu não vou... - As duas ficaram se olhando por alguns segundos, Bella absorvendo tudo aquilo e Anna esperando uma resposta.
 A resposta foi um beijo. Apertado, calmo, doce pelo sentimento, amargo pela despedida. As duas ficaram ali, em seu momento, até o beijo acabar, mas nenhuma se desgrudou da outra. Os olhos fechados, as testas juntas, a respiração em ritmo.
 - Vai. - Anna disse com dificuldade. - Vai e acompanha eles. Eu vou voltar, eu prometo. - Bella não disse nada...não conseguiu...virou as costas e saiu correndo. Anna só observou...e quando teve certeza de que estava sozinha, ela pegou suas coisas e começou a correr na direção oposta.
 Ainda tinha muito o que se fazer.
 A caçada só tinha começado.


A noticia se espalhou de leste a oeste.
Reis e aldeões ficaram sabendo dos Englen e do reboliço que havia se criado
Do modo como eram caçados e injustiçados por causa de atrocidades na busca por poder
Leis foram criadas, esquadrões de proteção, reconhecimento do poder dos Englen
A luta foi longa, o reconhecimento conquistado com suor
Mas o principal fato...foi ela.
O Fantasma.
A Guerreira Veloz.
A Lamina que chegava de surpresa em todos aqueles que abusavam dos Englen.
Aquela que atacava os campos de concentração um por um
e deixava a cabeça de seus generais a mostra.
Aquela que partiu para caçar Adon.
Suas proezas viraram canções e inspiraram gerações futuras.
Anna Englert.
Aquela que trazia a Liberdade Real.

-

Fim

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