quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Sorte de Assassino


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O homem mais perigoso é aquele que não tem nada a perder.

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 Eu sempre me coloco em momento de reflexão quando saco essa arma.
 Presente do meu avô quando eu entrei para os negócios da família. Colt M1911, calibre 45, modificada para totalmente automática, sete balas no pente, uma na agulha. É linda. Me faz lembrar de tanta coisa.
 Como o motivo de eu estar onde estou agora.


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 A tempestade me lava dos pés a cabeça, uma poça se formou ao redor de uma das minhas botas, minha jaqueta que deveria ser impermeável parece que não aguenta o poder dessa tempestade e pesa no meu corpo, encharcada. Estou parado em uma estrada pouco movimentada, minha arma em punho, esperando.
 Raramente eu me sinto tão bem quanto me sinto agora.
 Lá em casa, no México, chovia pouco. Provavelmente é por isso que eu amo tanto a chuva...pois é raro em minha vida. Coisas frequentes, para mim, perdem o valor e consequentemente me irritam. Como, por exemplo, a vida humana.
 Sou um Pistoleiro desde meus 16 anos. Treinado pela minha mãe e gerenciado pelo meu pai, eu cresci rápido...eu tinha gosto e vocação pra coisa, especialmente quando eu e meus primos eramos bons em trabalhar juntos. O dinheiro veio e antes dos 18 eu tinha tudo o que um homem poderia querer: dinheiro, mulheres, carro, reputação, respeito e uma montanha de corpos em chamas atrás de mim.
 Perfecto.
 Mas com o tempo...veio o que meu avô chamou de "febre de consciência". Eu comecei a pensar em tudo aquilo, nas minhas conquistas...e comecei a ver como foi fácil, em como a vida humana era frágil e com o puxão de um gatilho eu conseguia tudo o que eu queria.
 Fácil demais.
 Sem gosto.
 Comecei eu mesmo a me gerenciar. Comecei a pegar os contratos de verdade, nada de empresários rivais, pessoas que falavam demais, amantes ou herdeiros não merecedores. Não, eu pegava políticos, donos de carteis de drogas, mafiosos, hijos de puta que ninguém poderia tocar normalmente, ninguém seria louco de tentar...mas eu era bom, bom o suficiente para sair do meu país e se tornar global. E eu comecei a sentir o gosto...primeiro foi de ferro na língua, depois de agulhas na pele...mas com o tempo, o gosto real do sucesso. Eu era mais rico e mais merecedor de tudo aquilo. Mesmo com meu sistema, mesmo ninguém sabendo quem eu era, eu sabia que podia morrer a qualquer hora e isso me motivava a ser o melhor de mim, melhor que qualquer um.
 Até que com o tempo, isso também me cansou. E como o louco obsessivo que sou, procurei um meio de manter a minha vida mais interessante, sem abandona-la.
 Comecei a me propor desafios.
 Comecei a contar com a sorte pela primeira vez na vida.
 Uma casa completamente cercada de seguranças, câmeras e um helicóptero de fuga nos fundos? Vou entrar pela porta da frente, matar todo mundo e chegar até meu alvo antes que ele pegue o veiculo.
 Um chefe do trafico no alto de um morro cercado de mamertos armados? Vou me disfarçar e farei o serviço só com uma faca.
 Um cafetão contrabandista tranquilo em sua ilha, curtindo la pachanga enquanto seus seguranças fazem o trabalho? Vou amarrar um explosivo no seu cachorro e só esperar que ele chegue perto pra detonar.
 Uma empresaria corrupta que usa o caminho mais longo para evitar suspeitas da família e olheiros? Vou ficar no meio da estrada que ela usa, verificando o GPS do meu celular, esperando que chegue perto para que eu a finalize...
 E cá estou eu.
 Esperando...sentindo a chuva na pele, vendo tudo ao meu redor nos segundos em que os relâmpagos permitem. As memorias latejam mais do que as cicatrizes e os curativos...mas eu me sinto bem...melhor do que nunca me senti.
 As vezes acho que sou louco...puramente louco, insano. As vezes acho que estou procurando motivos pra morrer...uma vez que sei o quanto de moedas vale uma vida humana. As vezes acho que só estou tentando ver se a minha tem mais valor...a sobreviver depois de tanta mierda...
 ...
 Escuto o som do motor. Vejo os faróis criando sombras a frente...logo eles viram e ameaçam me cegar. Eu aponto a arma e olho bem nos olhos da motorista naquele leve segundo, onde eu reconheço os impulsos do seu corpo levados pelo instinto de sobrevivência e medo, fazendo o carro acelerar mais, me mirando, pronta pra me matar. Ela não vai recuar. E eu não vou me mover.
 Mais um relâmpago.
 A sorte está lançada.

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