sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Reconstituição de um save perdido

      - Espero que tenham uma viagem segura – disse o mercenário, com um sorriso auspicioso estampado em seu rosto. Hisoka havia percebido, mas permaneceu em silêncio. Algo em seu olhar frio indicava que sabia o que aconteceria em seguida, e que tinha confiança suficiente para lidar com o que fosse.
         Sentamo-nos um do lado do outro numa fileira de bancos de metal, próximos à parede. Cruzei minhas pernas, e meu amigo, os braços, ainda exalando o ar sereno de sempre. Com todo o clima sério que Tredder havia gerado, era um tanto complicado iniciar uma conversa informal naquela ocasião. Mesmo assim...
         - Então... seu nome verdadeiro não é Hisoka, é?
         - Hisoka Izumi é meu Alias no mundo digital. Uso-o em todos os lugares possíveis, há muito tempo. Tanto que não me recordo de meu nome de batismo. – Pude sentir certa tristeza em seu tom de voz, o qual ele tentou contornar – E você? Certamente não se chama Pwned Bitch.
         - Claro que não! – Indaguei, rindo de meu próprio codinome – Meu nome verdadeiro é Sarah Carson. Ah, e não pense que não irei caçar seu nome de batismo! – Disse, rindo. Notei um sorriso de canto de boca de Hisoka.
         À essa altura, já havia percebido que ele gostava de ficar um bom tempo em silêncio após qualquer conversa. Era quase como se estivesse em um mundo particular, orquestrando seus passos e pensando em quaisquer adversidades que pudessem cruzar nosso caminho. Mas... ainda não entendia a razão de estarmos conectados em tal jornada. Nem ele.
         Um homem suspeito, com mais ou menos uns 2 metros de altura, se levantou de seu assento e aproximou-se da porta ao nosso lado. Ele não parava de me encarar com certa malícia. Quando ele virou seu rosto para o lado oposto, ao escutar uma gritaria generalizada vinda do vagão à direita, agarrei o braço de Hisoka, e avisei do homem, mas não a tempo. O grandão me pegou pelo pescoço e arremessou-me ao outro vagão, cessando a gritaria e causando um silêncio de espanto e medo. Hisoka correu em direção ao homem, praguejando todo tipo de palavrão, enquanto deslizou e acertou as pernas de meu adversário, fazendo-o tombar. Hisoka me pegou do chão e me segurou em seus braços, correndo o máximo que pôde, a ponto de formar um campo de força ao nosso entorno, e pulando porta afora, estilhaçando-a.
         Hisoka, antes de aterrissar no topo do prédio, formou um campo de invisibilidade para nos proteger da vista de qualquer outro mercenário. Tredder havia nos ajudado, mas assim que ganhou o que queria em troca, decidiu nos eliminar. Ao menos, essa foi a conclusão à qual ambos chegamos. Hisoka pôs-me de pé, e pediu perdão por não ter prestado atenção antes.
         - Não sei como não o notei lá antes. Havia estudado cada canto de nosso vagão, e dos outros também. Mesmo que tivesse um campo de invisibilidade em uso, ainda assim o perceberia. O que ele fez, então?
         Não pude responder sua pergunta. Não fazia a menor ideia do que aquele brutamontes poderia ter feito—
         - Hisoka, não tem um dispositivo ilegal que permite que a pessoa assuma outra forma? Ouvi falar sobre há um bom tempo, mas achei que fosse rumor dos carinhas que queriam mais cash nos jogos. Você sabe que aqueles caras são desesperados. E também ouvi falar que ele seria bom em missões específicas, anulando sua aura perante os inimigos.
         - Então, aquele cara... não era...
         Ouvimos um rugido alto o suficiente para nos fazer vomitar. E ele vinha dos trilhos do metrô.
- Meu Deus. Tredder, além de ter acesso a esse dispositivo, o implementou às criaturas.
          - Nosso pagamento por termos confiado naquele filho da puta.

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