terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Ossos Vazios

   Um final de semana inteiro para si. Os pais, temerosos, deixaram-na sozinha, rumo a uma viagem a qual a garota claramente não demonstrava interesse. Visando uma felicidade geral, a mãe confiara que sua filha conseguiria se virar durante este curto período de solidão. Despediram-se e partiram. Um misto inicial de pânico e certeza atingiu Marina, que almejava um bom tempo sozinha desde o final de sua adolescência.
   Escutar música alta enquanto prepara um lanche, ler ao som do absoluto silêncio da noite – o qual a garota tanto ama -, e simplesmente ficar calada por boa parte do dia enquanto assiste a um filme ou curta. A casa era toda sua. Danças desengonçadas à tarde e a contemplação do passar do dia faziam parte desta liberdade provisória.
   O primeiro dia fora repleto de tudo isso. Mas, como bem sabia, o excesso de solidão levava aos mais variados pensamentos. O segundo dia teve certa diversão, mas a garota logo se viu absorta em sufoco psicológico, e decidiu ir ao shopping perto de seu apartamento. Quanto mais andava, mais olhava e estudava as pessoas ao seu redor – hábito não muito diferente de Sherlock Holmes. Ela considerava esse um exercício interessante, pois raramente errava em suas análises – o que já chegou a frustrar seus amigos de longa data, cujas surpresas não a atordoavam.
   Dado o tamanho do estabelecimento, logo a garota se cansou de vagar pelas mesmas lojas e corredores abarrotados. Não havia um filme interessante no Cinema, o que a entristecia muitíssimo – dado seu amor pela 7ª arte -, e o minúsculo jornaleiro ali presente não era dotado de muito conteúdo. Logo, Marina pôs-se a sentar num quiosque de café – seu preferido. Estranhamente, não sentiu vontade de pedir coisa alguma. Desejava permanecer sentada à mesa, somente.
   Após alguns minutos, começou a mexer em seu celular, em busca de algum arquivo em PDF perdido, o qual não tivera tempo prévio para estudar. Nada. Seus amigos conversavam num grupo de uma rede social, mas não havia nada em particular que sentisse vontade de opinar; já havia visto as notícias ali repassadas. Resolveu guardar o aparelho.
   Perto de onde estava, havia uma loja de brinquedos. Lembranças de infância começaram a ocupar sua mente, inevitavelmente. Detestava quando tal coisa ocorria; seu saudosismo era rememorado todos os dias, praticamente, e isso a tirava do presente momento, de seus objetivos. Levantou-se, sem pedir sequer uma bebida, o que certamente havia frustrado as funcionárias.
   Decidiu caminhar pelas ruas, sem um rumo definido. Passou em frente à casa de cada um de seus amigos, com o desejo de tocar-lhes a campainha, a fim de interagir, efetivamente, com alguns deles. Não teve coragem; achava que iria incomodar ou algo do tipo, então sequer tentou. Continuou a vagar, até que a luz da lua começou a chamar-lhe a atenção. Sem o que fazer, retornou à casa.
   Por algum motivo nefasto, quando adentrava quaisquer cômodos, algo na atmosfera a oprimia. Isso sempre ocorria quando voltava da rua, mas nunca entendera ao certo o motivo para tal. Seus amigos continuavam a papear, mas não tinha interesse em interagir por meio de uma rede social. Sua cabeça logo se tornou lar de um turbilhão de pensamentos negativos, então desceu e sentou num dos bancos do condomínio, que ficava perto da área de lazer, que englobava um barzinho, quadras esportivas e salões de festa e leitura. O solitário banco a atraía mais do que tudo.
   Já passava das dez da noite. O céu repleto de estrelas não cansava de deixá-la maravilhada. As pessoas que ali passavam não gostavam de manter contato visual, devido à sua face “enraivecida” – algo que afastava aqueles que não a conheciam. Era uma tática proposital, com o real intuito de transparecer seu desejo pela solidão. Eis que uma jovem alma teve coragem suficiente para a abordar:
   - Posso me sentar aqui? – perguntou, apontando para o lado vazio do banco.



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