quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Imortais - A Coruja


Para Lorena

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  A neve caia lenta e vagarosamente, imitando o ritmo dos passos dos dois magos que caminhavam entre as árvores, soltando baforadas de seus narizes e bocas. Toda vez que Soton tremia, Unori o abraçava rapidamente, dando um pouco mais de coragem e calor ao seu companheiro. Eles continuaram caminhando durante algum tempo, até uma bifurcação e não sabendo qual caminho seguir, os dois olham para ambos os lados, tentando ouvir algo...mas nada veio aos seus ouvidos novamente.
 - Vamos, velho...faça logo, sabe que eu não consigo.
 - Acalme-se, Soton...eu sei, eu sei.
 Unori ergueu sua mão e proferiu algumas palavras mágicas em sussurro, fazendo a forma de uma mulher azulada aparecer e dançar na palma da sua mão, tirando alguns risos da dupla até que a imagem apontou para um lado. Unori disse então entusiasmado.
 - Para nossa esquerda, meu velho...vamos, antes que a noite caia.
 Soton firmou o cajado e voltaram a caminhar.


 Eles caminharam mais um pouco, dessa vez o mais rápido que suas idades permitiam e seguiram em linha reta quando ouviram novamente...o choro. Um choro alto e agudo de um bebê estava vindo de algum canto da floresta mais cedo, cerca de uma hora atrás e tinham vindo procurar a criança antes que o frio ou algum animal a fizesse mal, querendo salva-lá. Após andar mais alguns minutos, Soton apontou para frente e ambos os magos viram uma árvore bem maior do que as outras. Seu tronco era largo ao mesmo nível que era alto, com um buraco grande, porém natural em seu meio, seus galhos se espalhavam para todos os lados e para cima e tudo nela era maior e aparentemente mais forte do que todas as outras árvores ao seu redor, porém o que fez ambos prestarem atenção nela não foi nada relacionado ao tamanho...e sim as inúmeras corujas pousadas em seus galhos. Dezenas, algumas brancas, outras cinzentas, mas todas estavam pousadas somente naquela árvore, em nenhum outro lugar, em nenhuma outro galho. Até mesmo no chão, o corpo de inúmeras corujas estavam jogadas ao seu redor, literalmente forrando o chão.
 - É como se estivessem esperando...guardando o que quer que esteja lá dentro... - Soton disse, com sua voz rouca e cansada, mas interessado em tudo aquilo.
 - Sim, meu velho...espero que nos deixem aproximar. - Respondeu Unori, dando passos vagarosos para frente até que Soton colocou a mão no ombro do cônjuge e começou a seguir a frente, com o cajado não servindo mais de apoio, mas o segurando como uma arma em potencial. Unori poderia ser o melhor com magias de cura, rastreamento e de absorção de conhecimento, mas em questão de combate, Soton sempre teve a dianteira, um talento nato para lutas magicas e, mesmo naquela idade, qualquer um sofreria em suas hábeis mãos e palavras, principalmente quem ameaçasse Unori.
 Eles seguiram com passos cautelosos até a Grande Árvore e nenhum pássaro fez barulho ou qualquer tipo de movimento, fazendo os magos ir em frente até ficarem cara a cara com o buraco que havia no tronco. Soton, então, entregou seu cajado a Unori e arregaçou as mangas, junto as duas mãos em tigela e assoprou em seu meio fazendo uma leve faísca surgir, mas logo aquele pequeno pedaço de brasa se intensificou se tornando uma pequena fonte de calor e luz. O mago a soltou e flutuou gentilmente até o buraco escuro do tronco, iluminando seu interior.
 A visão os petrificou ao mesmo tempo que os maravilhou.
 No meio de um ninho feito de inúmeras penas de coruja e galhos, estava um bebê, coberto por panos sujos, com cara de choro e olhos fechados, tremendo levemente. Unori tomou a dianteira e pegou a criança em seus braços logo identificando que era uma menina. O bebê, como se estivesse esperando por aquilo, abriu o berreiro, chorando alto a ponto de ecoar por toda a floresta, mas o pranto foi se amenizando conforme o calor dos mantos limpos do mago a envolviam e lhe davam uma segurança maior. Lagrimas brotaram dos olhos daqueles homens conforme viam a pequena forma se contorcer confortável entre eles.
  - O que tudo isso significa, Soton?
 - Eu não sei, Unori...mas quem se importa com isso agora? - respondeu o mago, conforme dava o indicador para a criança segurar e brincar. - Temos uma filha agora.
 Entre risos e sorrisos, os magos andaram de volta para o caminho que haviam feito, enquanto as corujas, como se saindo de um longo transe, começaram a sair dos galhos e voar para longe dali.
 - Bom...que nome acha que devemos dar a ela? - Perguntou Unori, ainda a segurando. Soton pensou bem, caminhando firme e alegremente, com um sorriso no rosto, olhando para baixo e pensando em mil palavras que poderiam simbolizar o futuro brilhante daquela pequena e a alegria que ela trouxera em seus corações...até que ele se recordou de uma palavra mágica que simbolizava isso que, dita por alguém com dons, poderia trazer exatamente isso para qualquer um: Alegria, força, conforto...mas também, em respeito aos guardiões da criança, que deram suas vidas e guardaram a árvore que foi sua breve morada, então fazendo um jogo de palavras e abreviações em sua mente, o mago formou uma palavra nova cuja sonoridade lhe trazia paz e seria um novo mais que plausível, o dizendo de boca cheia para todos que pudessem ouvir.
 - O nome dela é Loren.


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20 anos depois
Extremo Sul do Continente Leste
Próxima a Garganta Azul
A Terra de Ninguém

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 Os ventos uivavam e a neve se demonstrava soberana perante a natureza naquele local. No chão, o branco fofo e traiçoeiro já havia engolido inúmeras vidas e as enterrado, tornando a paisagem imaculada e maldita. Toda a extensão do lugar era assim, por quilômetros e quilômetros a fio, impedindo uma transição pelo solo. A vida animal ali era zero, demônios espreitariam ao anoitecer e fantasmas viriam buscar sua alma...ao menos era o que diziam. Se tocasse o solo, você morreria.
 A solução seria pelo voo. E era isso o que ela estava fazendo.
 Sua montaria era um Tigru do Vazio, ou seja, um felino enorme com orelhas bem pontudas e duas asas de morcegos nas costas com sua pelugem característica roxa. Voava cortando o vento com o bater das suas asas em intervalos curtos, nunca perdendo o ritmo, nem mesmo respirando muito fundo. Agarrado ao pelo, se mantendo abaixada, segurando seu chapéu pontudo e mantendo a mandíbula firme para não tremer, a bruxa mantinha os olhos fechados e a Intuição bem aguçada...e quando sentiu que era a hora, puxou as orelhas dele, comandando o bicho que fez um looping rápido e desceu em linha reta até o chão, aterrissando com leveza, contradizendo totalmente seu comportamento até então.
 - Filho da puta. - Sussurrou a bruxa, com o estomago grudado nas costas e o coração na boca. Recuperando o ar rapidamente, ela olhou para baixo...a neve estava por cima de uma fina cama de gelo. Com um leve mexer das mãos, um circulo de energia apareceu e ela conseguiu pisar neles, ficando se pé sem risco. Ela olhou para o animal que retribuiu e rosnou baixinho. A bruxa fez um carinho perto do focinho e ele ronronou, o que a fez rir. Por fim, o Tigru deu meia volta e andou alguns metro até abrir as asas e disparar para o céu ensolarado, cortando o ar o mais rápido que podia. Estava voltando para Otug, o Orc do Bestiário...ele sabia o devido caminho.
 A bruxa olhou até que sumisse no horizonte, depois olhou a posição do Sol e concluiu que dispunha de pelo menos mais umas quatro horas de luz natural, mais do que  suficiente para ela. Olhou de cima a baixo e verificou se tudo estava de acordo: Trajava um vestido azul claro desbotado meio esfarrapado nas barras que ficavam no meio da canela. Um cinto de couro com pequenos compartimentos ao longo dele estava firme em seu quadril, delineando as curvas do seu corpo. Por cima dos longos cabelos castanhos escuros, um chapéu bem pontudo com a aba larga e redonda, dobrado na metade, para trás. Nas costas, preso ao cinto, um cajado de madeira, fino na base que ia se expandindo até a ponta superior, onde se enrolava como o casco de um caracol; runas e símbolos diversos estavam entalhados por toda extensão da madeira. A bruxa tirou sua arma das costas e a apoiou na borda do circulo, girou nos calcanhares e olhou para seu caminho. A cada novo passo, um novo circulo se formava a frente e lhe dava apoio e o anterior se apagava.
 Foi assim que Loren começou a seguir seu caminho.
 Ela caminhou, cantarolando, balançando seu cajado e ajeitando o chapéu a cada vento forte que batia nele. Caminhou por três horas e o Sol já começava a se por quando o frio foi ficando mais intenso e Loren sabia em seu intimo que aquilo não tinha nada haver com o clima. Ela começou a proferir algumas palavras de proteção, em sussurros...afinal, era melhor ninguém ouvi-lá.
 Após mais uma hora e meia de caminhada, com a lua bem alta no céu sem estrelas, Loren avistou, no horizonte seu destino...chegou perto e mediu a entrada da gruta...comum a qualquer olhar humano, daria em um fundo escuro e úmido em menos de dez passos. Mas não pra ela.
 Ao chegar ao fundo e tocar a fria parede, a bruxa sentiu o portal se enfraquecer perante sua presença e conhecimento, ainda assim era necessário certos passos para abri-lo, por isso mordeu seu indicador, fazendo o sangue escorrer, desenhou um simbolo arcano na parede e sussurrou com temor:
 - Uruni... - E para sua felicidade e desespero, o simbolo se contraiu e depois se expandiu em um vórtice. Aquilo confirmou que a ameça era real.
 Ela pisou no chão pela primeira vez, os círculos de apoio deixando de existir. O chão frio e firme a fez ficar mais alerta e segurar o cajado com ambas as mãos. Subiu firmemente as escadas entalhadas na pedra e por fim, começou a caminhar em um caminho cercado por estalagmites. O cenário se abriu a ela e graças a luz da Lua que entrava pelo teto aberto, ela pode ver seus detalhes.
 Apesar de tudo, o Templo Azul ainda estava de pé.


 Lorena caminhou até os portões e os tocou, logo abriram, rangendo, reconhecendo o poder mistico de quem chegava. O escuro e recebeu, mas a bruxa aproximou uma das mãos e assoprou de leve em sua palma, em segundos uma pequena esfera de luz se formou que a rodeou e começou a iluminar o local.
 - Vá embora... - Uma voz, quase fantasmagórica se não fosse de origem facilmente detectável. - Vá...embora... - A sua esquerda, um homem, moribundo, pele ressecada e cheia de rugas, vestindo farrapos e sem olhos nas orbitas, gemia e tentava falar o melhor que podia. Loren foi até ele, se abaixando e segurando sua mão, o pegando de surpresa pela gentileza.
 Antes de qualquer pergunta se proferida, a bruxa mexeu em uma das bolsas de couro no seu cinto, tirando um Cristal de Água, uma pequena esfera, do tamanho de uma ameixa, perfeitamente redonda e cristalina. Ela coloco-o na boca do homem que, assustado, quase a cuspiu, mas ao perceber do que se tratava mordeu a esfera e a engoliu...a garganta ressecada se curou e toda sua sede se foi.
 - Obrigado, muito obrigado. - Ele disse, com uma voz mais coerente. Loren colocou a mão na cabeça calva do homem e viu que a febre o consumia...ele não tinha muito tempo de qualquer forma. - Três dias...sem beber ou comer nada...eu estava...
 - O que aconteceu aqui? - Loren o interrompeu, atraindo sua atenção devida. Um tremor percorreu o corpo do homem.
 - O mestre...o Mestre Aronu invocou alguma coisa maligna no mês passado. Alguma coisa que tomou nossa escola, nosso lar...muitos morreram, muitos se tornaram coisas indescritíveis...lutamos...lutamos até onde podíamos, mas tudo que víamos...a loucura...o poder monstruoso que vinha daquele ser...nós não aguentamos, fomos morrendo, cedendo terreno até que...eu não aguentei mais...eu fugi. Eu corri e não podia mais ver aquelas coisas, não queria mais ver, o que me causavam, eu...eu... - Sem poder descrever tal ato em palavras pela vergonha que sentia, tudo o que o homem fez foi gesticular suas mãos em formas de garras perto das orbitas vazias.
 Loren acariciou a testa do homem, proferindo poucas palavras em um sussurro. Uma tranquilidade enorme o invadiu, desconhecida mas bem vinda.
 - Agora relaxe...e tente me contar em mais detalhes o que foi dito e visto ANTES do grande caos, por favor.- Ela perguntou novamente, fazendo o homem transitar em memorias mais "tranquilas".
 - Antes...nossos Oráculos estavam quietos, bem quietos. As plantações, as criações e o gado que tínhamos nas Salas de Cria começaram a morrer. Crianças doentes...mas...havia uma coisa que cresceu de forma escandalosa em muito pouco tempo.
 - O que? - Perguntou a Bruxa, franzindo a testa.
 - Rosas...nossos Jardins Internos estavam cheio de rosas. Todas as ervas, plantas, tudo foi engolido pelas rosas. Rosas Vermelhas. - E aquilo fez a percepção de Loren mudar um pouco, até mesmo se sentir aliviada.
 - Descanse agora, bom homem. - Ela disse, se levantando e começando a seguir pelo corredor escuro. - Vai ficar tudo bem...
 - Não, não vai. - Ele voltou a delirar. - Os Oráculos...os Oráculos disseram que estava vindo...
 - O que? - Ela perguntou, se detendo por um momento.
 - Uma tempestade. - Ele respirou fundo. - Eles disseram que uma tempestade estava vindo.
 - Correção: Eu já estou aqui. - Loren respondeu, se virou e seguiu seu caminho.

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 O pingo de luz mostrou a sua frente. Os corredores de pedra estavam úmidos, gosmas estranhas escorriam pela parede, tapeçarias penduradas nas paredes e carcomidas nos chãos, moveis quebrados e corpos ocasionais em decomposição apareceram aos montes. Tudo o que ela fez foi desviar e continuar seu caminho, pensando no que o homem havia lhe dito.
 Os Uruni...os Deuses Negros que provem do Vazio. Seres bestiais que causam o mais puro caos por onde passam e influenciam. Quando eles vem, é mais ou menos isso que acontece...morte, destruição e putrificação. E quando digo "que vem" é quando eles possuem alguém, usam alguém como receptáculo de seus espíritos porque, se um dia, um Uruni sair do Vazio em sua verdadeira forma, o mundo está condenado por completo. Porém...quando Uruni chega, ele chega em silencio. Não há sinal, não há festa, é como age um profissional, sem alarde nenhum...essa coisa de Oráculos se calarem, animais e plantações morrerem e rosas nascerem...deve ser outra coisa.
 - E pensa e pensa...a pequena bruxinha de azul... - Uma voz vindo de algum lugar das paredes começou a sussurrar. - A Coruja perdida...o que procura?
 Sem dar atenção, ela continuou a caminhar até um grande salão, bem mais "aberto" que os corredores, a necessidade de luz era maior.
 - Aumente. - Ela comandou e o pingo de luz voou bem para cima, onde se expandiu em um pequeno estrondo e iluminou tudo como um pequeno Sol.
 - Oh, caralho... - Ela sussurrou quando olhou para a pilha de corpos a sua frente. Quase sete metros de um monte de corpos podres e fétido empilhados em uma forma piramidal, onde no topo, uma criança estava com uma lança enfincada no ventre, a mantendo de pé. Loren levou a mão a boca e fechou os olhos por alguns segundos...tais cenas eram fortes demais.
 - Então...veio até o fim, mas a vista não lhe agradou? - A voz voltou a sussurrar...mas com espanto, ao abrir os olhos, Loren via que a boca da criança se mexia...o cadáver com a lança era o receptáculo da entidade que habitava o local. - Espero que possamos fazer algo a respeito... - Ela disse, virando a cabeça em decomposição, mirando dois olhos carcomidos para a bruxa.
 - Quem é você? - Loren perguntou.
 - Você que vem a minha casa. Você que deve me responder, Corujinha...apesar de eu já saber muita coisa sobre você. - Ele sorriu. - Estou perdidos em quantos fragmentos a sua alma se espedaçou, minha querida. - Então o cadáver minusculo segura a lança cravada em seu corpo e a puxa, mostrando a ponta embebida em liquido negro. Em movimentos travados e ossos estalando, a pequena criança fica de pé...suas entranhas caem nos outros corpos abaixo dela, mas não se importa e volta a falar. - O que aconteceu...que tipo de sofrimentos passou para tal?
 - Nada que não fosse para me deixar mais forte. - Loren respondeu, bateu o cajado no chão e uma energia azul lhe cobriu o corpo todo...seus olhos foram tomados pela cor e seu potencial estava pronto para ser usado. - Sou Loren, filha de Unori, filha de Soton, Bruxa das Forças...e eu ordeno que me responda quem é! - Sua voz ecoou como um trovão e uma ventania começou a correr pelo salão fechado. Sua resposta foi uma risada seca e debochada...até que todos os cadáveres falaram.
 - NÓS SOMOS LEGIÃO...PORQUE SOMOS MUITOS! - Foi quando eles se comprimiram. O som de carne se partindo e ossos se quebrando e se remodelando vieram aos montes, criando uma sinfonia maldita. Sugando toda sanidade do lugar, os corpos se desfizeram por completo em meio a gritos de agonia e risadas do além, tomando uma nova forma...pernas apareceram, uma calda cresceu, placas se formara e o que parecia ser uma cabeça se ergueu.
 Legião havia tomado sua forma.


 - Criança... - Ele voltou a sussurrar, caminhando seu corpo fétido e enorme pouco a pouco mais próxima a bruxa. - Você não sabe o quão poderosa poderia ser...ao se permitir ser tocada por nós...se tornar uma conosco. - Ele parou de caminhar, mas esticou o corpo. - Poderíamos concertar tudo...poderíamos...
 - Se calar. - Interrompeu a bruxa, que bateu com o cajado no chão, fazendo um flash de luz explodir. A criatura sentiu dor de queimaduras pelo corpo todo, os folículos de luz se espalhando e começando a se incendiar. Fogo azul cobriu a criatura que começou a rugir e partiu para cima de Loren, que saltou para o lado, já formando os círculos debaixo dos pés novamente, subindo e descendo, desviando dos ataques da criatura, de suas patas, garras e bocanhadas, seu corpo queimava e as vozes gritavam como nunca, mas Legião avançava e forçava a Bruxa a desviar. Em um momento, deixando-o chegar bem perto e desviando de ultima hora, a criatura se chocou contra uma das paredes, derrubando-a no processo. Sem perder tempo, a Bruxa gia o cajado e profere mais algumas palavras na linguá antiga...a terra se abre e quando o monstro dá a volta para tentar atacá-la novamente, rochas pontiagudas saltam da escuridão e perfuram toda a podridão de seu ser.
- Você não é digno do dom da vida! - Ela sussurra, levantando o cajado, a energia ao seu redor se intensificando. - Desapareça! - E bate sua arma no chão...que se abre mais, revelando um brilho alaranjado, a terra com suas rochas puxando a criatura para baixo...puxando e trazendo a morte e paz a cada um dos corpos que gritavam e se esperneavam dentro do corpo de Legião.
 A resposta a isso foi uma risada.
 - Criança...há mais coisas entre o céu e o vazio - O chão começou a ser abrir de novo, em vários pontos distintos. - que sua limitada filosofia pode compreender... - E mãos se erguerem e puxaram para cima seus corpos mortos, esqueletos e zumbis começaram a subir, a brotar das paredes e avançar, famintos e rugindo para cima de Loren, que já se posicionou...olhou ao redor...e suspirou.
 - Tava querendo guardar isso pra mais tarde...mas tudo bem. - Ela disse, colocando a mão dentro de uma das bolsas de couro, sendo pouco a pouco cercada pelos mortos. Tirou dali uma pequena esfera negra...levou a boca e mordeu um pedaço e, fazendo cara feia, mastigou e engoliu. - Cara, é muito ruim. - E deu uma risada...levantou seu cajado e sussurrou.
 - Ifrit! - E uma esfera alaranjada surgiu na ponta da madeira...e se expandiu violentamente. O turbilhão de fogo se formou como uma supernova, consumindo todos os corpos a sua volta, transformando o grande salão e os corredores em um espaço tomado pelo fogo...em poucos segundos, tudo o que restou foram cinzas, corpos carbonizados e a bruxa, de pé, no meio disso tudo.
 Ela olhou ao redor e perguntou.
 - Alguém mais?
 Nenhuma voz ou risada foi ouvida. Ela girou nos calcanhares, ajeitou o chapéu, olhou para o corredor norte, pisou nos corpos com seus pés descalços e voltou a seguir seu caminho.
 A pedra, ainda quente, não pareceu incomoda-lá. Loren continuou sua caminhada e após um cruzamento de corredores, ela achou uma escada em caracol, a qual subiu...tudo estava como seus pais haviam lhe ensinado. Subiu durante dez minutos e depois voltou a caminhar, imaginou que agora estava na torre central e que só precisaria chegar a passarela para ir até a torre norte, seu destino final.
 - É raro achar alguém que tenha uma Fruta do Abismo...e mais raro ainda alguém que pode consumi-la. - A voz voltou a sussurrar.
 - Com medo? - Loren provocou o homem ao passar por uma sala de jantar vazia.
 - Emoções são desconhecidas para mim, criança. Minhas razões são baseadas unicamente na gloria que as coisas podem alcançar.
 - Não há gloria nenhuma na morte. - A bruxa respondeu, parando em um corredor e olhando para os dois lados. - Não importa o quão grande você seja, o quão importante ou até que sua morte traga algum beneficio para os outros...no fim, na morte, é tudo igual...você volta ao solo, seu corpo apodrece...tudo o que a morte lhe traz é um fim e nada mais. Não há gloria nenhuma nisso. Agora, mexer com isso conforme você está fazendo é só uma das coisas que me incomoda. - E decidiu ir para a direita.
 - Não há morte em meu mundo... - A voz sussurrou novamente, dessa vez tendo um certo toque de inocência. - E não precisa haver no seu...
 - Ai, ai... - Loren suspirou, passando a mão na cabeça. - Vamos deixar as coisas bem claras aqui...eu não sei o que é você. E não te interessa o que eu vim fazer aqui. Mas, fique bem claro...que no processo eu vou te destruir. Entendeu bem? - E foi como se uma nuvem de vapor saísse das costas de Loren. A presença que a vigiava havia saído e tudo o que restou foi o frio.
 E uma sensação enorme de alivio.
 Ela seguiu reto pelo corredor escolhido, virou a direita e já viu a saída em seu fim. Alcançando a abertura, uma ponte de pedra castigada pela neve e pelo vento era seu próximo passo. 
 - Firme. - Ela sussurrou e seus pés foram cobertos pela mesma energia de luz antes, formando uma camada luminosa. Quando pisou fora, o vesto ameaçou levar seu chapéu embora, mas não de derruba-lá de lá. Continuou o caminho a passo lento, segurando o chapéu na cabeça e tentando não bater os dentes de frio.
 Foi quando veio o primeiro estrondo, seguido de um leve tremor e depois um terremoto propriamente dito. Loren acelerou o passo...até que o canto do olho esquerdo a fez encarar o horizonte e ver a sombra que crescia e crescia em cima de si.
 Um Templo como aquele tinha suas proteções, naturais e magicas, todo grande lugar tem. O erro de Loren foi entrar e achar que o mal que havia tomado o lugar já teria enfrentado tais defesas e as subjuga-las, tais defesas são poderosas demais para serem controladas por meios convencionais. Mas aquele não era um inimigo convencional e a bruxa recebeu mais uma prova disso quando o Colosso de Pedra se levantou trinta metros do chão erguendo uma pedra do tamanho de uma torre para ataca-la.


 Loren pensou rápido e fez o que podia na hora. O Colosso ergueu a pedra acima da cabeça e a desceu com todas as suas forças...a bruxa levantou seu cajado acima da cabeça e gritou.
 - ANALEEEEIK! - A palavra antiga para "Escudo". Como se mil cristais se formassem no ar e se ligassem formando uma enorme esfera de vidro ao redor dela, a proteção se fechou no segundo em que a pedra se chocou...e naquele milésimo de segundo, com a aura tomando seu corpo, Loren balançou o cajado e gritou...o mais alto que podia e toda a esfera se desfez, se expandindo violentamente em uma explosão, jogando o Colosso para trás. 30 metros de músculos de pedra, rugindo, despencaram ao chão. A bruxa nem parou para olhar, já começou a correr o resto do caminho, usando a magia para acelerar o processo. Seus pulmões ameaçavam explodir quando estava chegando perto e viu novamente a sombra se erguendo para cima dela, o Colosso havia se recuperado e erguia ambos os punhos para descer como poderosas marretas. Loren saltou e rolou para dentro da escuridão da Torre Norte, tentando ficar de pé mas escorregando no processo, rolando as escadas em espiral. O que machucou salvou sua vida, uma vez que o Colosso quebrou toda a entrada tentando colocar o braço para dentro para pega-la. Após rolar alguns lances, Loren conseguiu parar...ficar de pé...e dizer.
 - Caralhos alados... - Olhou para trás...ouvia os rugidos do monstro, mas não mais a incomodaria. Olhou para baixo e invocou a pequena esfera de luz, mostrando os degraus negros e vendo que era seu caminho.
 Mancando ela o seguiu. Desceu e desceu...até o ar parecer que era feito de chumbo. Era difícil inspirar e para expirar era como algo comprimisse seus pulmões...
 Ela estava chegando perto.
 - Venha, criança... - A voz voltou a sussurrar. - Venha me conhecer...e ver o que pode ser feito. - E ela seguiu seu caminho. A escuridão era tanta e tamanha que  a pequena esfera de luz de Loren nada mais era o que uma pequena fagulha...mal iluminava seus pés. Mas algo a atraia, algo a chamava.
 Ela caminhou pelos degraus finais e virou a esquerda...o corredor agora estava limpo, com cortinas brancas que protegiam de forma elegante os quadros dos antigos Sarcedotes do Templo Azul, com flores bem vivas e coloridas em vasos chiques em cima de pilastras bem desenhadas para representar o luto e  de como nunca seriam esquecidos. Ela andou calmamente, sabendo que dali, não haveria perigo de vida, ainda. Seus pés descalços fazendo o som característico enquanto andava e cruzava rapidamente a distancia até uma pequena escada que dava em um arco de pedra...a entrada para a Sala de Conferencia. Todos os Grandes Templos tinham seus Sacerdotes, o responsável pela ordem e conservação de seus ocupantes e utilizadores de magia, e todos os templos tinham uma Sala de Conferencia, a sala onde todos os grandes magos, os professores, os chefes de guarda, os melhores guerreiros e etc. se juntavam ao Sacerdote para conversar e mantê-lo atualizado de tudo...Loren só leu a respeito, nunca fazendo parte de nenhuma escola de magia, porém...aquela não era uma sala de conferencia...
 Parecia mais o salão do Deus dos Mortos.
 Uma mesa, redonda, estava em pé, no cato direito, em meio a duas pilastras de ouro...pilastras manchadas de sangue e cheio de arranhados. O chão, de marfim, estava limpo, contradizendo bem o local...ao lado esquerdo, uma moldura enorme, mas sem quadro nenhum. O teto era adornado com a mais bela das artes magicas, mostrando todas as constelações existentes em seus pontos de luz ligados e artes que mostravam a forma que desejavam demonstrar. Feitos por magia, eram jogos de luzes que uma hora mostravam as estrelas, outra hora mostravam as criaturas e guerreiros que representavam, em constante movimento...era lindo.
 Mas o trono acabava com toda beleza do lugar.
 Loren julgou que todos os corpos que estavam em baixo e em volta do trono, mastigados e unidos de forma putrefaz e profana eram dos membros da Sala de Conferencia Azul...o trono, em cima da carne e dos ossos amassados e colocados de forma a dar sustento a cadeira enorme sem desiquilíbrio, era feito de ouro azul e metal diamante, adornado com milhares de Pedras Cadentes em seu topo. Sentado nele, um homem. Enorme, deveria ter uns 2 metros de altura, músculos e veias saltando de seus braços, pernas e tórax, o mais perfeito corpo que Loren já viu, a pele era morena escura, como quem esta se recuperando de uma queimadura de longa estadia no sol. Um pano esfarrapado cinza estava enrolado na cintura, lhe protegendo as partes intimas, um pouco acima da coxa e seu rosto era protegido por um elmo negro, bem fechado, onde a única abertura era um T pela frente, onde podia se ver só seus dois olhos, brilhantes e vermelhos, mirando a bruxa.
 Loren engoliu a seco e continuou até ficar poucos metros do homem, bater seu cajado no chão e dizer em alto e bom som.
 - Te dou um minuto pra voltar pro Vazio.
 As palavras da moça ecoaram durante um tempo...até que a voz imponente do homem se fez ouvir.
 - Você tem espirito, garota. Não foi como estes homens...que pediram por suas vidas ou por seus tesouros. – Ele gesticulou para a carnificina  abaixo de si. – Mas eu os perdoei. Assim como perdoo você por suas insolências. Você poderá fazer parte de mim também...assim como eles. – E ele ergue sua mão direta onde Loren observa marcas se mexerem...marcas negras, formando rostos em desespero e loucura...a alma de todos os mortos do local. - Você veio, com sua fé e poderes limitados, pronto para desbravar o desconhecido, sobrevivendo aos meus testes e formas...eu estou impressionado, pequena Coruja. – Ele diz, voltando a olhar para ela.
 - E dai?
 - Sabe quem eu sou, Loren? – Ele disse, erguendo a palma de suas mãos enormes para cima.
 - Legião?
 - Sim. Legião. – Ele sorri por baixo do elmo. – Sou um...
 - Arauto. – Ela o interrompe...e pela primeira vez em milênios, o ser fica surpreso, parando seu discurso e olhando para a bruxa.
 - Achei que fosse um Uruni no começo. Já até pensei se tratar de Inormetopeti, mas...não. Urunis não fazem o que você fez.
 Um Arauto.
 Todo Uruni tem seu Arauto, seu mais leal Soldado, um Verme do Vazio que conseguiu superar as expectativas e poderes e se tornou próximo de seu mestre. Menos perigoso, mas longe de não ser uma grande ameaça, um Arauto faz estardalhaço, gosta de dar sinais, gosta de ver o medo, a morte e a podridão tomando conta quando chega...mas os casos são tão raros que pouco de conhece sobre eles, mas um Arauto é considerado um sinal PIOR do que a possessão de um Uruni pois seu show de horrores pode se estender sem limites até que este concluísse seu objetivo.
 São as crianças mimadas do Vazio.
 - Vejo que acertei. – Loren sorri. – E sei que este corpo que você pegou se auto transmutou para recebe-lo...provavelmente daquele que o invocou para esse mundo...uma vez que Urunis e Arautos não vem até aqui sozinhos, já que não podem. – E voltou a sorrir.
 - Impressionante... – Legião se resumiu a dizer. – Tu és mesmo uma Coruja...capaz de ver tudo ao seu redor e absorver as informações...
 - Seu minuto está acabando, Legião... – E sua resposta foi uma risada contida.
 - Se não fará parte de mim de bom grado. – Ele se ergue, seu corpo gigante formando uma sombra a sua frente, onde Loren já se prepara para o combate, a energia azul tomando conta de seu corpo e projetando uma plataforma de luz embaixo dos pés. Legião leva suas mãos até as aberturas de seu elmo. – Fará parte de mim pelo meu modo... – E puxa o metal, fazendo-o ranger e ceder.
 Loren perde o folego por um segundo ao sentir o tremor e para de respirar por completo...quando o elmo se desfaz em uma explosão, onde milhares de tentáculos negros saltam do pescoço aberto...até que a própria pele se rompe e todo o corpo enorme de Legião se desfaz...em sua verdadeira forma.


 O cheiro de podre e morte toma conta em segundos. Um emaranhado de tentáculos e braços esqueléticos cercam a bruxa. Não tem fim aquilo...nas mucosas dos membros, é possível ver os rostos se retorcendo mais claramente, ouvir seus gritos...tudo é negro e cinza agora, as vozes queimam em seus ouvidos...mas ainda é possível ouvir a voz dele dizendo.
 - Ouça-me, criança...Legião está aqui! – E quando ela olha para baixo, ela vê...a boca de Legião. Um buraco sem fundo, com dentes pontiagudos que fazem ondas, se retraindo e se esticando, esperando por mastigar o corpo da bruxa.
 - Legião...tomara você. – Ele voltou a sussurrar, os tentáculos e fechando ao redor dela, fazendo uma cúpula. - Legião...tomara o mundo. Legião...
 - Poderia calar a boca. – Sussurra Loren...e tudo se calou por um minuto...e em mil raios de luz, os tentáculos e braços recuam, queimados, a boxa se contrai e tudo parece dominado por chamas azuis...
 Em meio ao caos que é Legião, Loren se ergue.
 Levitando, seus contornos são azuis, seus olhos são brancos, pode se ver através dela pois agora seu seu corpo é pura energia. Sua aura pulsa e machuca o monstro profano, o fazendo gritar e trazendo um pouco de paz as almas presas ao seu corpo. Ela gira seu cajado e o solta para o alto, o mesmo brilha como um segundo Sol se mantendo no teto. E nas costas de Loren, duas asas surgem, compartilhando sua forma de energia pura, essas asas se expandem cada vez mais...e o canto de mil corujas podem ser ouvidas.
 - PARE! – O demônio chora. – PARE! EU VOLTAREI! EU...
 - Não voltará. Pra onde você vai, não será nada mais do que um breve pesadelo nas memorias dos vivos. – Ela disse. Sua voz ecoa por todo o Templ, suas chamas se espalham pelos corredores, queimando tudo que está morto, tudo que foi profanado.
 - QUE TIPO...DE PODER É ESSE?
 - O meu poder. – Ela responde. – O poder que criei com intenso treinamento, com o gosto pela vida e pelo valor de meus pais. – Até que ela junta suas duas mãos...as palmas se tocam, mas logo começam a se afastar. Um zumbido é ouvido, o som de energia se acumulando e tomando a forma de uma esfera.
 - LOREN...LOREN, PARE! – O demônio suplica novamente. – EU LHE CONTAREI...TUDO QUE ESTÁ PLANEJADO, TUDO QUE...
 - Eu sei muito bem o que irá acontecer, Arauto. – Ela fala, continuando a acumular energia. – Sei bem o que está por vir...e eu não tenho medo. – Em suas mãos, agora, uma esfera branca e brilhante se fazia.
 - QUEIMA! – Legião ruge. – O QUE É ESSE PODER?
 - O poder absoluto. A magia que todo bom mago deveria saber, mas foi trancafiada pela ignorância de um Sacerdote mesquinho...mas é minha por direito. – Loren ergue as duas mãos e diz. – Eu invoco...a LEI ABSOLUTA!
 E a luz que se fez foi tão forte que até mesmo o som das coisas foi destruído por um momento. Cada janela, cada porta, cada recinto do Templo Azul foi dominado por aquela luz...a luz da Lei Absoluta, a primeira das três Magias Proibidas.
 E quando tudo acabou e o vento voltou a soprar lá fora...Loren só arrumou seu chapéu, colocou a mão para cima e pegou o cajado em plena queda e olhou ao seu redor...onde pilhas enorme de cinzas mostravam o fim de Legião. Pontos luminosos saíram dali, alguns subiram, outros desceram...as almas estavam livres.
 Mas quando a Coruja ouviu a tosse, ela soube que UMA alma não teria descanso, muito menos um fim.

-


 Ela caminha para frente e vê, jogando de barriga para cima, nu entre as cinzas, com o corpo todo torto e atrofiado...
 - Sacerdote Aronu. – Ela diz com certo desprezo em sua voz. O homem, com o corpo destruído pela possessão do Arauto, se retorce, abre os olhos...estica o melhor que pode um dos braços e diz.
 -  Coruja...Coruja...me salvou... – Ela permaneceu quieta. – Por favor, me ajude... – Ela continuou só observando...até que deu as costas e começou a ir embora. O homem se desesperou.
 - Espere...ESPERE! – Ele rolou pelas cinzas e rastejou no chão como um verme. – QUEM É VOCÊ? COMO SABE USAR A LEI ABSOLUTA? QUEM...QUEM É? – E ela parou de andar.
 - Soton e Unori. – Ela diz, se virando para ele. – Lembra-se deles? – Os olhos do homem vagam para o além de suas lembranças quebradas...
 - Eles...eles...
 - Eram bons homens. Leais. Devotos. Prodigiosos. E você, o Sacerdote, aquele que deveria reconhecer seus verdadeiros talentos...os viu com desprezo...uma vez que ficou sabendo que se amavam. – Ele a olhava com curiosidade e súplica. – Em seu preconceito, você os excomungou...os acusando de comportamento imoral. Seus homens o ajudaram. Acharam que morreriam nas florestas, uma vez que sempre viveram aqui dentro e conheciam pouco do mundo lá fora...mas adivinha só, seu merdinha. – Ela se agacha e fica cara a cara com o ser deplorável. – Eles sobreviveram. Construíram uma casa. Melhoraram na magia e sentiram que esse era o destino deles...porque em conexão com o mundo, eles descobriram muito mais do que suas bibliotecas mofadas. Descobriram como ouvir a natureza...como a magia era um curso a ser seguido e não algo que é tomado a força. – O homem, mesmo em seu estado decadente, começa a ranger os dentes em fúria.
 - Eles eram...imorais, eles eram...
 - Imorais...imorais são um casal de amantes que, ao saberem que a mulher está gravida, se esconde em um torre enquanto o homem cuida para que o bebê cresça logo...e o deixa pra morrer dentro de um tronco de arvore oco no meio do inverno! – Ela rosna e segura os cabelos ralos do homem e o olha bem fundo nos olhos. – Imoral é esse mesmo homem apagar a memoria da pobre moça e faze-la virar uma empregada qualquer. Mais Imoral ainda...é ceder aos sussurros do Vazio, sacrificar pessoas para um ritual e achar que poderia controlar um Arauto dentro do seu corpo...perdendo no processo todo um Templo por causa de uma ambição fracassada. – E o solta, batendo a cada do homem no chão, se levantando e o encarando uma ultima vez.
 O antigo Sacerdote, com o nariz quebrado e sangrando, olha uma ultima vez para cima. Lagrimas correm em seus olhos, seus lábios tremem...e ele sussurra:
 - Me perdoe... – Loren só da de ombros e vai embora.
 Os corredores, agora limpos, não oferecem perigo. Quando passa pela ponte, não há nenhum vento que pode derruba-la e o Colosso jaz caído bem longe lá no chão. Não há mortos ou monstros e quando chega a porta, ela reencontra...o homem cego ainda está vivo...mas dessa vez há um sorriso em seu rosto.
 - Então...acabou?
 -Sim, acabou. – Ela diz, sussurrando, deixando transparecer seu cansaço.
 - Sabe, anjo...o Templo pode estar vazio...mas ainda está de pé. Precisamos de um novo...Sacerdote. Uma Sacerdotisa, dessa vez...
 - Ainda não posso fazer isso. – Ela responde, com toda naturalidade do mundo. – Ainda tem muita coisa pra eu fazer, isso que aconteceu aqui...é só mais uma ponta do Iceberg. – E o homem concorda com a cabeça. – E o senhor? Vai ficar bem?
 - Eu me viro, filha. – E com dificuldade, ele fica de pé. – E você?
 - Eu me viro. – Ambos sorriem. Ela caminha para fora. Ele, caminha para dentro.
 Quando ela sai de vez do Templo e sente o vento frio lhe bater o rosto, congelando suas lagrimas...tudo o que ela faz é sorrir mais uma vez.


Pai...
Pai...
 Essa foi por vocês...

 Ela respira fundo, sussurra algumas palavras e deixe que o vento as leve. Agora era só esperar o Tigru voltar...e o Bárbaro a chamar.
 Ela olhou para o futuro e como sempre, não teve medo, não...pelo contrario.
 O abraçou e o deu por bem vindo...com todas as suas possibilidades.

-

 Rumores dizem que os ventos frios do Sul pararam de soprar. Que luzes foram vistas que fizeram as Auroras Boreais se extinguirem durante noites e noites a fio...
 Outros dizem que viram uma ave foi vista voando para longe dali, levando consigo um manto de tranquilidade para onde suas asas batiam. Passaram-se meses até se ter noticias do Templo Azul novamente, onde um único mago, com os olhos guardados por um pano de seda, voltou a ativa, tomando para si todos os deveres e partiu em peregrinação para achar novos recrutas, criar uma nova geração de magos. E ele explicou, a quem quisesse ouvir, tudo o que aconteceu.
 E todos sempre sorriam quando falavam da Coruja que enfrentou a escuridão aquela noite...e livrou o mundo do Abismo.

 Longa vida a Bruxa Azul.
 Longa vida a Coruja.
 Longa vida a Loren!

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