quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Eu Deveria Escrever Romances

 Eu deveria saber escrever romances.
 Ah, cara, eu poderia muito bem escrever romances.
 Eu sei inventar alguns, inventei muitos no passado, inventaram outros pra cima de mim e eu sempre me imagino vivendo um agora. Seria do caralho escrever algo assim.
 Mas eu não consigo. É um maldito sentimento que não tem pé nem cabeça. Sinceramente, pra mim, qualquer um que consiga (e eu digo "consiga" na concepção de que essa pessoa ACHA que consegue) escrever sobre o amor, não realmente sabe o que é senti-lo. Sabe o que é sexo, sabe o que é paixão, sabe talvez o que é saudade, mas amar...não sabe. Porra nenhuma. Eu mesmo não sei...mas faço minhas ideias, já me disseram que eu deveria escrever algo mais leve, mais voltado para o sentimento, uma historia de casais, intrigas.
 Mas olha bem pra minha cara de roteirista de novela da globo.
 Não, eu não presto pra isso. Não presto para o amor. Mas tenho boas historias que o envolve, sempre senti demais as coisas e cheguei a senti-lo algumas vezes sim. E sabe como que eu sei que senti amor? Porque eu não sei explicar como começou e não sei em que fim deu.
 Mas quem sabe eu deveria me arriscar. Sim...criaria aquelas historias cheias de simbologias e reviravoltas, eu misturaria minhas experiencias com as que me contaram e formaria uma puta tragedia, cheia de altos e baixo, daria sinais claros do inevitável fim e da lição a ser aprendida, mas faria também todos se agarrarem a esperança de que tudo ficará bem no final, que o casal vai ficar unido, que vão casar, ter filhos e uma casa bonita no subúrbio com jardim na frente, uma casa na arvore e quaisquer que seja os clichês de filme americano de hoje em dia. Seria libertador.
 E o mais importante, isso vende. Mesmo numa geração "uma cama por noite" como a nossa, uma boa historia de amor vende, toca os corações e faz imaginações saltarem. Coloque uma ou outra cena de sexo explicita e pronto, está garantido. Teria filas e filas esperando por um autografo meu com todo tipo de gente pedindo pra assinar seus nomes e deixar uma mensagem, se iludindo de que eu escrevi aquilo para eles, sendo que na verdade, eu achei uma formula de escape naquelas letras, eu achei uma forma de me expressar e tirar do peito tudo aquilo que nunca tive coragem ou oportunidade de dizer, escrevi o que meus lábios nunca foram capazes de formular sonoramente e tudo aquilo nada mais é do que um pedaço de uma realidade "do que poderia ter sido" e não uma simples historia para se vender, que coloquei aquilo ali porque na vida eu não achei direito alguém que entenderia minhas ideias vagas sobre a alma e que eu soltei aquelas frases ao vento para que, em uma vã esperança perdida, achasse alguém que me entendesse, pelo menos que um pouco.
 Quem diria...
 Vou morrer rico e incompreendido.
 É...
 Eu deveria saber escrever romances.

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