sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Um Velho Caçador



A juventude é uma idade horrível, que apreciamos
 apenas no momento em que sentimos saudade dela.
 - A. Amurri


 Dor. Velha amiga. Por que não me desperta mais a fúria de mil Sóis como fez em dias melhores?
 Até tu, como a mais fria das ultimas moedas de cobre que tive, decidiu me abandonar?
 Pois bem...eu segurei sem você!
 A fera sibila enquanto dá voltas em mim, me medindo, vendo meus cabelos cumpridos, minhas roupas de pano e faca de caça na mão...ela duvida de que eu seja eu...eu também duvidaria. Me olha fundo nos olhos e faz minha alma rachar, mostra seus dentes e raspa suas garras no chão. Suas asas se abrem, fazendo o réptil alçar voo eu sei como tudo vai acontecer...como tudo vai acabar antes mesmo que comece.
 Em chamas.

 Eu era jovem e indescritivelmente tolo.
 Faz tantos anos que quando me lembro sinto-me lembrando de uma fábula do que minha própria vida. Houve princesas, plebeias, reinos, comida farta, bebida a vontade...e lutas...muitas e muitas lutas. Eu era um garoto do campo, nascido de um pai ferreiro trabalhador e uma mãe fazendeira, a mais bela mulher no mundo dos homens. Aprendi desde cedo a moldar o metal, plantar e colher e construir uma vida com o suor de um trabalho honesto, podendo sobreviver com a força de meus braços e graças ao dinheiro que recebíamos com os trabalhos, foi me pago uma professora que ia em casa diariamente, uma freira recém integrada a Igreja, responsável por minha educação, habilidades literárias e primeiras experiencias sexuais e emocionais.
 Um dia, porém, fomos atacados. Em uma montanha próximo ao reino em que nos encontrávamos, um ovo de dragão eclodiu a anos atrás, o bebê dragão cresceu naquela montanha se alimentando de cabras, cervos e pessoas desavisadas até que seu tamanho exigiu que comesse coisas maiores, levantou voo de seu esconderijo e partiu pra cima da primeira coisa que viu se movendo: O povo do Reino. Tínhamos procedimento para ataques, mas um dragão era um cataclismo perto de tudo aquilo, algo novo e horrendo, sobrevoando tudo e disparando fogo contra nossos campos e casas. Porém, quando todos viram fugiam quando o dragão atacava, eu senti fúria...fúria e desespero completo. Eu não deixaria que matassem meus amigos e conhecidos, eu não deixaria que queimassem minha casa e destruíssem a plantação de minha mãe, não deixaria um monstro tomar o que era meu pelo simples fato de que sentia fome.
 Sozinho, 15 anos, peguei a espada que forjará e corri na direção de onde o monstro ia. Quando cheguei perto, a criatura estava no pasto do gado do Rei, cercado de vacas e bois mortos e distraído com a Cavalaria que chegava a sua esquerda. Eu cheguei pela direita, pulando e cravando a espada na base da nuca do bicho. Em poucos minutos com vários espasmos, ele caiu, morto, espirrando sangue por todo meu corpo.
 Tornei-me conhecido e rico naquele mesmo dia.
 Fui tomado como herói e até me tomaram como um Semideus, um garoto, sem armadura, com uma espada de metal barato, foi capaz de matar um dragão. Eu comecei a andar por ai, deixando a casa que defendi para trás...pois a glória me seduziu. O amor de minha mãe, os ensinamentos de meu pai e o corpo de uma freira pareceu efêmero e pequeno comparado ao mundo que estava na minha frente. Eu andei por ai, comprei tudo o que um homem poderia ter, forjei armas em forjas mais puras e metais mais nobres, conheci culturas e corpos de mil mulheres diferentes, conheci Rei e matei alguns, cacei feras diferentes...mas sempre continuei a caçar e matar dragões.
 Eu aprendi com o passar do tempo o estilo de vida dessas especies, o modo como caça-los adequadamente, como prendê-los e tortura-los se preciso, mas eu nunca me preocupei em saber como eles pensavam...como funcionava seu sistema de sociedade...eu sempre os tratei como bichos animalescos e nada mais, seres sem paixão ou amor, somente ódio correndo junto com o fogo em suas almas...eu fui ignorante, mas era feliz...cicatrizes se espalhavam por meu corpo, mas nada disso importava, nenhuma mulher deixava de me querer, nenhuma mesa estava vazia para mim no fim do dia...
 Até que ele veio.


 Não me lembro onde nem quando...mas era um local pacifico e tranquilo quando um ancião...ou elder...não sei como esses bichos se referem a seus superiores, pousou e rugiu contra os muros da cidade. Fui, sozinho, enfrentá-lo e destruí-lo. E obtive exito após uma luta exaustiva, banhado-me em seu sangue, como sempre fazia, para perpetuar minha imunidade e longevidade.
 Foi um erro.
 Eu matei um Patriarca aquele dia. Um pai de uma linhagem vasta de dragões. Um chefe de família, de casta de mais um monte de coisas...praticamente, um Rei dos Dragões, uma figura politica deles...
 Foi como se eu declarasse guerra a todos os dragões, do oriente ao ocidente, do topo mundo as profundezas da Terra. Todas as criaturas que cuspiam fogo e percorriam os céus se uniram em uma única empreitada: Me matar.
 A desgraça se abateu sobre mim e tomei conhecimento dela quando um mensageiro disse que minha terra natal havia sido queimada e engolida pela terra. Todos os reinos por onde passava, os dragões esperavam e assim que eu saia, queimavam tudo e diziam, com suas vozes mentais, que tudo era culpa minha e os punia por abrigarem um ser maldito. A noticia se espalhou...muros se levantavam contra mim, portões subiam e não me deixavam passar, mulheres me amaldiçoava e homens começaram a me caçar. O dinheiro acabou, camas fofas se tornaram chão úmidos de cavernas e estradas...sempre seguido por asas e baforadas do inferno. Matei tantos...tanto...usei seus ossos como arma e sua carne como alimento e continuei vivendo...sempre em dor, sempre sozinho, matando um até dois dragões por dia...minhas habilidades se tornaram minha maldição.
 Após alguns anos...eu passei um dia todo sem ser atacado e pensei ter encontrado a paz. Esperança havia nascido novamente e procurei um local isolado. Nas montanhas, construí uma casa, madeira, moveis simples, uma forja bem rustica...mas era meu mundinho, um local pra chamar de meu...tive dias tranquilos...trinta e seis dias tranquilos...
 Até que eles voltaram. Durante uma caçada. Queimaram as florestas ao redor e queimaram meu canto. Minha cabana e instrumentos foram todos consumidos e tudo o que me sobrou foi isso...minhas roupas, um par de botas e minha faca de caça...está que eu creio que possa perfurar o couro do dragão a minha frente, combinado com a pouca força dos meus ossos. Por mais que minha vida seja miserável, por mais que a morte pareça um consolo tranquilo e todas as motivações desse mundo sejam pequenas comparadas ao desespero em que me encontro...a morte não é uma opção. Seria dar a eles o ultimo gosto, a vitoria, dar a esses lagartos de merda a bandeira branca.
 Nunca!
 Aqui, no fim de todas as coisas...quando não sinto mais amor, mais ódio ou dor...ainda sinto orgulho, ainda sinto a necessidade da vida.
 Por isso eu salto contra ele. E tudo que peço, aos deuses que um dia me guiaram, aos santos que um dia me protegeram que me permitam mais essa vitoria...me permitam esfregar na cara dessas bestas a força de um homem mortal.
 Por favor...
 Me dê mais tempo...
 Um pouco mais...
 Só um pouco mais...
 Deem uma chance a esse velho caçador...

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