quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Imortais - A Hiena

Para Felipe Vidal

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 - NÃO! ESPERA! - Foi a única coisa que o taberneiro conseguiu gritar antes que a confusão se instaurasse e começasse a briga generalizada. Tudo começou por causa de uma mulher que olhou para um homem e outro homem atrás achou que era para ele e os dois começaram a bater boca até finalmente chegarem aos socos, os amigos de uns começaram a se bater com os amigos dos outros e tudo começou a ficar um caos...


 Canecas voaram, cadeiras e mesas quebraram, homens caíram no chão, mulheres deram socos e pontapés, até o taberneiro ficou puto e saiu do balcão com um porrete e começou a fazer todo mundo correr e desmaiar com golpes na cabeça. Teve gente que nem sabia o que estava acontecendo direito, mas entrou na briga pela emoção e todo mundo da taberna começou a brigar, quebras garrafas e a porra toda.
 Exceto um homem, que observava tudo com um sorriso debochado bem no canto da estalagem.
 Aquele homem, que colocava suas botas bege de cano alto de um couro de ótima qualidade em cima de um banquinho, trajava calças cinzas de algodão fino, uma camisa branca fina por baixo de um casaco de couro marrom e, por cima de tudo isso, um manto azul escuro preso com um brasão de prata em volta dos ombros largos. Em sua cabeça, um chapéu negro, pontudo, estilo robin com uma pena malhada entre preto e branco que não deixava muita luminosidade cair em seu rosto. Vez ou outra, baforava seu cachimbo cujo cheiro demonstrava que não era fumo comum que ele tragava.
 O homem aproveitou a vista e a confusão até que alguém caiu perto de sua mesa, ameaçando derrubar seu caneco de cerveja, então ele já havia visto demais. Debaixo da mesa ele tirou um Bandolim, logo prendendo sua tira de couro em volta do pescoço e por baixo do braço, afinando um pouco as cordas e, em poucos segundos, começou a tocar.


 Algo mágico aconteceu prontamente a musica. Todo mundo parou de repente, ficando no mais puro dos silêncios por alguns instantes, deixando que somente uma musica alegre e acelerada tocasse no fundo de suas mentes e dominassem seus ouvidos e instintos. De repente, todo mundo desatou a rir, um riso histérico, sincero e bonito, até mesmo para as vozes roucas e continuaram a rir até faltar ar e voltaram a beber e a comer, felizes, os cozinheiros pararam de reclamar e fizeram seu devido trabalho, o taberneiro riu e serviu bebidas e comida a noite toda sem se preocupar, todo mundo se divertiu, riu, pagou devidamente e exagerou nas gorjetas, o clima foi o mais agradável possível durante toda a musica que aquele homem tocou durante duas horas...e quando seus dedos ficaram cansados, ele parou e todo mundo parou também...olharam e procuraram o local de onde aquela musica estava vindo antes e encontraram o rapaz, bebendo um pouco e colocando novo fumo no cachimbo.
 - EI, NÃO PARE! - O taberneiro gritou. -Por favor, continue! - Falou em seguida, mais educadamente.
 - Hora, meus amigos e colegas. - O bardo disse, gentilmente baforando enquanto falava. - Preciso de um minuto, afinal toquei bastante, minhas mãos estão doendo.
 - Você é um bardo? - Um homem, gordo e meio baixinho de cabeça calva, com uma caneca na mão e uma mulher no colo, perguntou.
 - Não, não, sou pedreiro. - E todos desataram a rir com a resposta dele, até mesmo o homem gordo e sua mulher no colo, dando uma boa golada em sua bebida em seguida.
 - Se é um bardo, pode nos contar historias. - Alguém gritou e todos concordaram, gritando e já empurrando suas mesas e cadeiras para perto dele.
 - Alguém dê mais cerveja pra ele!
 - Hidromel é melhor!
 - Mais fumo para o cachimbo, erva roxa, eu conheço esse cheiro!
 - Carne de javali, por minha conta!
 - Mais uma lamparina, quero ver o rosto dele! - Todos gritavam diferentes coisas e o bardo só ficava ali, quieto, com um sorriso no rosto. E veio a sua mesa, bebida, carne e fumo dichavado para degustar e todo mundo fico uma expectativa conforme ele pegava algumas fatias de carne de javali e colocava na boa, engolindo quase sem mastigar.
 - Qual o seu nome? - uma das mulheres presentes perguntou e causou um certo mal estar em todo mundo, estavam ali pedindo atenção e serviços ao homem sem ao menos saber seu nome.
 O bardo engoliu um grande pedaço de carne,tomou uma dose generosa de cerveja e tirou o chapéu, revelando cabelos loiros escuros, uma barba curta no rosto pálido e olhos castanhos claros. Deu um leve riso e respondeu.
 - Meu nome é Vidalas, das Terras Livres. É um prazer conhecer a todos. - Alguns homens repetiram o nome em uníssono, outros retribuíram as boas vindas, mas um homem, aquele gordo com a mulher no colo, se levantou de imediato, derrubando a companheira no chão e chamando a atenção de todos quando apontou o indicador para ele e disse.
 - A Hiena? - Os espectadores ficaram olhando para ele, depois para Vidalas. O bardo, que colocava novo fumo em seu cachimbo, só concordou com a cabeça antes de falar.
- Acho um apelido um tanto quanto equivocado, sendo que não gosto muito de carniça...mas se pegou, que eu posso fazer? - Disse rindo e todos riram, até o gordo que, com semblante preocupado, voltou ao seu lugar reparando o broche de prata que prendia o manto do bardo era a forma de uma cabeça de hiena.


 - Muito bem, senhores, senhoras e, caso haja algum disfarçado aqui, reptiliano. - Todos riram enquanto Vidalas falava. - Eu irei contar uma historia pra vocês que, como meu bom amigo obeso ali me lembrou. - Apontou para o mesmo e todos riram de novo. - De como ganhei meu apelido...
 "Essa é a historia de Vidalas, a Hiena!"

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3 anos atrás
Reino de Namelih
Sul do Continente Central

 - O povo está ficando calvo e o Rei de pau mole. - Disse um mercador para alguém a direita de Vidalas quando ele adentrou na cidade. A expressão era usada naqueles arredores para mostrar que o povo estava descontente e/ou preocupado com alguma situação e o rei era um bosta broxa que não resolvia merda nenhuma. Vidalas riu, continuou seu caminho desviando de algumas pessoas e se dirigiu a primeira taberna local que julgou se descente.
 Suas vestes eram um tanto mais humildes naquele dia, se resumindo as botas, calças marrons, camisa de linho por baixo de um colete de couro e, na cabeça, seu chapéu. Nas costas, seu Bandolim; na cintura uma aljava de pequenas flechas e uma besta de pequeno porte, presas na parte de trás. Nos bolsos, poucas moedas de ouro e algumas de prata, mas seria mais que o suficiente para sobreviver naquele "reino" despedaçado.
 Entrou e caminhou firme até o balcão vazio...na verdade, o local todo estava vazio, tirando um cara que tirava soneca ao fundo, babando em cima de uma mesa e com uma caneca virada perto do rosto vermelho. O bardo chegou até o balcão e começou a puxar assunto.
 - Bom dia! - Vidalas disse animado.
 - Bom dia. - Respondeu o taberneiro, pouco animado.
 - Eu preciso de um cachimbo, erva roxa se tiver, se não, me vê fumo laranja mesmo, e quero uma garrafa de rum e, se tiver ai, um pão de milho por favor. - O taberneiro ficou parado, olhando pra cara dele como se tivesse ouvido uma piada e tentava entender o sentido.
 - Tá falando sério? - Ele perguntou.
 - Eu tô... - E com a resposta, o rosto do taberneiro se acendeu, sincero, sem sorriso forçado nem exagerado, e começou a correr em todos os cantos, pegando tudo o que havia sido requisitado para ele e quando o bardo viu tudo em cima da mesa, ele disse.
 - Ah, é melhor uma bolsa também, uma mochila de couro se você tiver.
 - Ah, claro, claro. - E ele foi buscar, levando alguns minutos e voltou com uma bolsa grande o suficiente para aquilo, era de viagem e meio usada...claramente era um item pessoal do homem que, desesperado por algumas moedas extras, estava vendendo para ele.
 - Quanto deu?
 - Uma moeda de ouro e três de prata, senhor. - Vidalas, sem discutir, mexeu no bolso, pegou a devida quantia e deu para o homem, que segurou o dinheiro como se fosse a Fonte de Juventude. O bardo empacotou tudo e, antes de colocar a mochila nas costas, decidiu perguntar.
 - Diz ai, meu caro homem...o que acontece na cidade? - O taberneiro, como se saísse de uma grande fantasia, mudou a expressão para preocupação pura antes de falar.
 - Goblins.
 - Perdão?
 - Goblins...o problema são Goblins. - Ele dizia aquilo em um sussurro. Gesticulou para Vidalas se sentar em um dos bancos a sua frente e pegou uma caneca, indo até o barril atrás de si e despejando cerveja dentro. O bardo se senta e recebe o liquido com louvor, já que sua garganta estava um pouco seca e continuou bebendo enquanto o homem começou a explicar.
 - A alguns meses atrás, a cidade estava normal...eramos todos ricos aqui, entende? Quase isso ao menos...Namelih é um reino bonito, mas de pequeno porte, mas isso não importava  porque estamos em uma rota comercial muito bem localizada e nossos produtos são bons demais...
 - São mesmo. - O bardo o interrompeu amigavelmente, gesticulando para a cerveja, arrancando um sorriso do taberneiro.
 - Então...mas um dia, o príncipe Nudolf começou a sair para caçadas...fez quinze anos e estava querendo fazer "coisas de homem", entende? E começou a caçar de tudo, até ai tudo bem...mas começou a chegar perto demais da floresta, ao Sul...
 - A Floresta de Barro? - O bardo perguntou e ganhou uma cabeça concordando como resposta.
 - E começou a entrar na floresta...e viu as esculturas de barro que decoravam o local, e depois viu casas de barro e, dizem, que em um acidente, acabou por derrubar um tronco em uma dessas casas...e é claro, como sabemos agora por causa disso, casas de barro são moradas de Goblins. Como se não bastasse, o bom príncipe decepou a cabeça do monstrinho...e isso fodeu tudo. - Terminou o taberneiro, se apoiando no balcão. - Goblins começaram a atacar...primeiro nossos fazendeiros, depois as nossas rotas mercantis, forçando todo mundo a viver dentro dos muros...até que nossas crianças começaram a sumir...
 - Como é? - O bardo perguntou, meio alarmado.
 - Os Goblins, não sabemos como, andam invadindo as cidades...escolhem casas aleatórias e roubam a criança, as vezes matam todo mundo quando dormem...não sabemos o que acontece com elas, eu...
 - Goblins comem crianças. - Vidalas disse, terminando a caneca de cerveja. - Sinto muito dizer isso assim, dessa forma, mas...Goblins tem um certo gosto por carne humana jovem. - O taberneiro só concordou com a cabeça, seu rosto murchando mais ainda. Vidalas pareceu não notar ou não se importar, pois continuou falando. - Mas, me diga...esse tempo todo, nenhum ataque, a floresta bem perto daqui...por que?
 - Ahm... - O taberneiro fungou um pouco antes de responder. - Pelo que parece, o fundador do Reino, Rei Kaiser, tinha um acordo com eles que foi quebrado quando o príncipe fez a transgressão.
 - Entendo...
 - Entendeu mesmo? - A voz grossa de uma mulher fez ambos virarem a cabeça para porta. Uma oficial sentinela, de armadura prateada e corpo robusto, com elmo na cabeça e espada no cinto, adentrou o local, com dois outros guardas atrás dela. - Senhor Rudolf, já falamos que não é pra conversar a respeito de nada disso, as paredes tem ouvidos...sempre que se comenta a respeito, há mais ataques. - Ela disse, em tom firme, chegando perto do balcão e dando um soco com um punho de ferro. - Já é a terceira vez que escuto você falando a respeito disso...
 - E já é a terceira vez que você entra na minha estalagem sem meu filho. - Rudolf, o taberneiro, respondeu firme, mesmo com a aparência triste. Vidalas se sentiu um pouco mal pela falta de tato que tinha...não perguntou o nome do rapaz, nem perguntou se algo tinha acontecido a sua casa.
 - E quem é o marginal? - Vidalas sabia que era com ele antes de se virar pra responder. O guarda de armadura prateada, elmo na cabeça e uma espada curta na cintura, prestou pouca atenção a dor do bom homem e isso deixou alguma parte do bardo irritado com tudo aquilo.
 - Hey...Rudolf, não é? - O bardo perguntou, ignorando o guarda, recebendo uma cabeça confirmando seu nome do homem atrás do balcão. - Tem certeza que são Goblins? - Outra vez, Rudolf concordou com ele, mas dessa vez apreensivo pois o guarda já tirava sua espada da cintura.
 Nesse segundo, Vidalas se levantou e colocou o rosto perto do guarda, que se surpreendeu, mas não recuou.
 - O marginal aqui é a solução dos seus problemas, homem de lata! - Ele disse, batendo o nó do dedo indicador na armadura do guarda, fazendo o barulho característico de metal. - Avisa pro seu rei que eu to aqui pra acabar com essa praga! - O silencio tenso se instaurou e todos que olhavam para o homem cheio de marra ficaram boquiabertos...só quem abriu o silencio foi a mulher, perguntando:
 - Quem é você? - O bardo olhou para ela e disse.
 - Meu nome é Vidalas, das Terras Livres...mas pra você é Senhor Matador de Goblins!

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 O Rei, em seu trono, olhava incrédulo e sem reação para o homem a sua frente. Magro, barba por fazer e cabelos bagunçados, "armado" de um bandolim e uma besta, dizendo que podia acabar com a praga que assolava e matava aquele reino aos poucos. Além dele, a sua frente, estavam os três guardas que o acharam, um taberneiro que teve o primeiro contato com ele e mais alguns cavaleiros de sua comitiva, e ao seu lado esquerdo, sua esposa, sentada em um trono próprio, mais modesto que o dele, e ao lado direito, seu filho, aqueles que todo mundo dizia se tratar do culpado por tudo aquilo que estava acontecendo e, no nível em que estava chegando, no estresse e no cansaço que curvavam o Rei, até mesmo ele começou a concordar...
 Mas no momento, o centro de sua atenção era o homem a sua frente.
 - Perdão, eu devo estar...bêbado, cansado e exausto, tudo junto. - Ele disse, sem formalidade alguma, o que não foi surpresa pra mais ninguém da corte além dos convidados. - Você disse que pode tomar conta dos Goblins...com flechas e uma besta?
 - Meu caro Rei, peço perdão pelas palavras pomposas que vão se seguir agora. - Começou Vidalas, fazendo um certo teatro. - Mas vossa majestade carece de uma audição mais aguçada para os graves e agudos de minha voz? - Todos na corte prenderam a respiração depois de ouvir aquilo, o Rei por sua vez se colocou de pé e rugiu a todos da sala.
 - COMO VOCÊ OUSA? - E bateu com o punho no braço do trono. - VEM A MINHA SALA FAZER POUCO DA SITUAÇÃO DO MEU REINO E DE MIM? QUEM VOCÊ PENSA QUE É, VERME?
- Vou repetir. - O tom da voz de Vidalas mudou...agora ele falava baixo e firme, a voz um tanto grave. - Eu posso matar os Goblins, posso cuidar do problema com minha musica.
 - Sua musica? - O Rei repetiu, incrédulo. - Um BARDO quer matar MIL GOBLINS?
 - Sim, vossa majestade. - O silencio se instaurou até o Rei cair pesadamente em seu trono novamente, coçando os olhos.
 - Você deve estar brincando comigo... - Vidalas não conseguiu deixar de rir, mas quando foi explicar, o Rei explodiu de novo. - POR QUE VOCÊ RI, SUA HIENA? EIN? - Ele rosna antes de continuar, babando em seus trajes. - VOCÊ VEM AQUI E QUER O QUE? EIN? FAZENDO TAL PROPOSTA, SÓ PODE QUERER ALGUMA COISA! QUER SE ALIMENTAR DAS CARCAÇAS DE UM REI MORTO? É ISSO? - Ele para e começa a respirar fundo,
 - Posso demonstrar se você quiser. - Ele abriu os olhos quando ouviu as ultimas palavras do Bardo, jogou o manto para longe das pernas magras e fez um gesto com a mão.
 - Fique a vontade. - E assim, Vidalas, após notar com certa satisfação e humor dos devaneios bipolares do Rei, sacou seu instrumento das costas, o apoiou direito no corpo e...começou a tocar. Primeiro, tudo o que aconteceu foi uma melodia bonita, calma e cativante, o suficiente para fazer escapar o mal humor do Rei...mas de repente, botas começaram a bater no chão, atraindo a atenção da família real. Dos guardas, metade estava levantando os joelhos o mais alto que podia e batia com vontade os pés no chão.
 - Mas...mas o que é isso? - A Rainha perguntou quando vinte guardas começaram a fazer fila e andar em círculos ao redor do Bardo, largando suas armas e batendo palma. O príncipe, por sua vez, começou a rir, achando aquilo divertido e até acompanhando as palmas enquanto o rei via incrédulo tudo acontecer a sua frente. E a música continuou, assim como os pés batendo e as palmas...até que Vidalas parou e os guardas caíram como dominós ao redor dele, fazendo o príncipe rir mais ainda e bater mais palmas.
 - O que foi isso? - O Rei repetiu a pergunta da esposa, impressionado e sem muitas palavras. Deu um olhar de relance para que o filho se calasse, o príncipe obedeceu mas continuou com um sorriso zombeteiro no rosto.
 - Magia, em sua mais pura forma, na musica. - Respondeu o bardo, colocando de volta o instrumento nas costas. - Sou de uma ordem pouco conhecida por aqui que me ensinou isso desde moleque. Pra mim é fácil e sei que vai funcionar com os Goblins.
 - Como sabe? - Perguntou novamente o Rei, maravilhado, espantado e temeroso.
 - Goblins tem pouco cérebro. Quem pensa pouco é mais facilmente influenciado por minha musica, permitindo o controle.
 - Ou seja, quem é burro é controlado? - O príncipe perguntou e quando Vidalas fez que sim, desatou a rir, apontando para os guardas que haviam caído no feitiço. Esses guardas rosnaram para o bardo, o olharam com ódio e, mais tarde naquele dia, foram executados pela rainha, para que nunca mais envergonhassem a ninguém.
 - Muito bem...digamos que o problema seja resolvido. - a Rainha agora falava. - O que quer em troca?
 - Um pedaço de terra. - O bardo respondeu, seus ombros abaixando levemente, como se a possibilidade de algo tranquilo a sua frente fosse o suficiente para que toda sua pose fosse embora. - Fora dos muros da cidade. Não me importo com o tamanho, desde que esteja perto de um poço e tenha terra fértil. O suficiente para que possa ser construído uma casa simples, uma pequena plantação, uma criação de porcos e galinhas e um pequeno moinho. Quero uma vida simples, não planejo ter mulher, fixa pelo menos, ou filhos, serei só eu cuidando da minha vida. Pagarei os impostos devidamente se for conforme a lei e prometo lealdade pura ao Rei e sua família.
 A majestade ouviu tudo, ponderou rapidamente passando a mão fina no rosto envelhecido e após alguns segundos, se colocou de pé, ergueu o queixo e disse em alto e bom som.
 - Feito! Do que você precisa? - Vidalas riu e disse.
 - Saber em qual direção fica o rio mais próximo.

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Algumas horas mais tarde
Entrada da Floresta de Barro

 Vidalas andou os últimos vinte metros sozinho, com a cavalaria e soldados do Rei o olhando de longe, o chamando de louco, outros rezando por ele e que sua musica tocasse bem alta e junto a eles, Rudolf continuava vendo o desenrolar daquela historia, cada vez mais curioso. O bardo caminhou tranquilo, até uma rocha e nela se sentou. Ali, primeiro, pegou sua pequena besta na cintura, armou e colocou uma de suas flechas nela e deixando a arma apoiado a pedra, pronta para um saque rápido, depois pegou seu novo cachimbo, colocou o fumo que tinha comprado, acendeu, começando a fumar e mirou a floresta, olhando cada canto possível como que esperasse algo sair dali.
 Vidalas já havia caminhado por um bom pedaço de Sandria, conhecido pessoas e visto criaturas ao longo de sua jornada e Goblins não era uma novidade para ele, sabia como funcionava essa especie, sabia de seus perigos, sabia também que era fácil de provocar. Era só ficar próximo a casa deles, fumando um cachimbo com cara de despreocupado.
 Não demorou muito e eles pularam das folhas, gritando, rosnando, brandindo suas lanças e espadas, esticando seus arcos e lambendo suas adagas, fazendo suas armaduras rusticas rangerem e tilintarem. Pequenos, o tamanho das crianças que capturavam e comiam, verdes e de orelhas pontudas, ferozes em sua natureza, as criaturas começaram a cercar o bendito bardo, prontos para ataca-lo ao primeiro sinal de resistência.
 Ou se sentissem vontade.


 - Meu Deus, esqueci como vocês fediam. - Reclamou o bardo que apagava o cachimbo e sentia o fedor vindo daqueles seres rançosos, aproveitando para pegar sua besta e amarrar novamente na cintura. Apesar de se comunicarem com língua própria, Goblins entendiam bem a natureza das palavras humanas e sabia que aquelas lhe faziam ofensa, já começando a rosnar, se armar e partir pra cima.
 Antes que alguém disparasse a primeira flecha, Vidalas puxou o instrumento e começou a tocar. Era um ritmo festivo, acelerado, que fez uma mudança repentina nas criaturas, instantânea a ponto deles ouvirem a primeira nota, suas faces se tornarem neutras e a partir dai, sorrirem, rirem e começarem a dançar. Do nada, Goblins soltaram seus arcos, brandiam suas facas e espadas para cima em ritmo alegre enquanto seguravam os braços uns dos outros e faziam passos de dança, batiam palmas com a melodia e gargalhavam...e pouco a pouco, todo Goblin da floresta foi saindo e cercando o bardo, se unindo a festa. Com certo horror, todos viram mil criaturas verdes dançando em um circulo enorme e cheio em volta daquele único ponto intocado no centro, o bardo Vidalas.
 Ao ter certeza de que todos os Goblins da floresta estavam presentes, ele se levantou e começou a caminhar, na direção leste. Os pequenos se organizaram atrás dele, entrando em formação militar, se dividindo em inúmeras fileiras, em três grupos, ainda batendo palmas e rindo, mas mantendo a ordem, exatamente como Vidalas queria, o seguindo onde quer que ele fosse. O bardo, para completar a magia e manter o devido cabresto nas pequenas feras, começou a cantar e rapidamente os versos simples foram decorados pelas criaturas e começaram a ser repetidos em voz alta e estridente, mesmo não sabendo nada na língua humana, eles o imitaram.

♪ Vamos comigo, vamos andar ♫
♫ Vamos comigo, vamos nadar ♪
♪ Nem mesmo pense em me questionar ♫
♫ Tome cuidado pra não tropeçar ♪
♪ Venha comigo, vamos andar ♫
♫ Venha comigo, vamos nadar ♪
♪ Vamos logo ali se afogar ♫

 E o seguiram, pouco a pouco, verso por verso, até chegarem as margens do rio. Vidalas se colocou de lado e comandou, cada um deles, a pular no rio de correnteza forte que descia pela campina e chegaria até outra floresta em seu destino longínquo. Goblins não sabiam nadar, por isso cada pulo era alegre, mas terminava no mais absoluto desespero para aquelas criaturas, pois assim que tocavam a água voltavam a realidade e afundavam como pedras, morrendo afogados pouco depois. As fileiras pulavam juntas, trajando suas armaduras e se debatendo no fundo da água fria, era impossível qualquer resistência e volta para a superfície. E Vidalas ria...ria com o prazer sádico de ver aquelas criaturas se fodendo bonito graças a sua musica, ria como pulava para suas mortes sem saber ao certo o porque, como se entregavam ao prazer barato de um estranho e se arriscavam a segui-lo para suas mortes, como eram burros e ignorantes e por isso permitiam que tal magia funcionassem neles.
 E quando só sobrou um Goblin na margem, Vidalas parou de tocar. O pequeno verde não pulou, ficou com um sorriso bobo olhando ao redor, procurando a fonte da música para lhe suplicar por mais...até que se tocou de tudo que havia feito e acontecido e o desespero se estampou na sua cara, mas não teve tempo de expressar devidamente...não quando Vidalas apontou para ele sua besta e cravou uma flecha na testa. Aquele foi o único Goblin que caiu já morto na água, sendo levado pela correnteza.
 O bardo se caminhou até o exercito que assistiu tudo, incrédulo e assustado...mas quando seu herói chegou perto, gritaram de alegria e entusiasmo, o segurando para o alto e festejando em seu nome.
 Vidalas havia salvo o pequeno reino.
 Os portões se abriram e os guardas já espalharam a novidade. As pessoas viram aquele homem sendo carregado em cima das cabeças dos soldados e o ovacionaram, jogaram flores para eles, folhas coloridas e grãos e tudo que podiam, comemorando o fim de uma época de horror.
 E de longe, do ponto mais alto do reino, com uma cara de asco, observava tudo...a rainha.

 Os guardas o saldavam, os cavaleiros o cumprimentavam e o chamavam pelo nome. Vidalas foi conhecido logo por todos e, conforme entrava pela sala do trono, batendo as pétalas e folhas de suas vestimentas, um sorriso estampava seu rosto. Ele caminhou confiante até os três tronos a sua frente, onde a Rainha e o Rei esperavam com rostos duros, o príncipe não se encontrava no momento. Ele se curvou devidamente e disse, com gosto em cada palavra.
 - A ameaça foi destruída, meu rei. Vim buscar meu prêmio, como prometido por vossa majestade. - E esperou, com olhos atentos e grande expectativa a resposta.
 - Que prêmio? - E os sorrisos morreram e o coração do bardo parou por um segundo.
 - Meu pedaço de terra...por ter eliminado os Goblins. - Foi a resposta de Vidalas para o Rei, que se pôs a pensar teatralmente.
 - Ah sim... - A majestade respondeu. - Os Goblins estão mortos, sim. Ótimo. Mas e as crianças? - O Rei perguntou e todos voltaram os olhos para o bardo.
 - Não tem crianças. - Ele respondeu secamente, já prevendo como tudo seria. - Goblins capturam crianças e idosos para comê-los, nada mais. Não tem como haver crianças para retornar. - Vidalas olhou por cima do ombro rapidamente para medir quantas forças estavam entre ele e a porta e se Rudolf ainda estava na comitiva, não queria machucar novamente o fraco espirito do homem.
 O Rei fez cara de nojo.
 - Seu miserável! - Ele disse em alto e bom som. - Condena nossas crias dessa forma? Despeja essa visão pessimista? Elas podem estar vivas no fundo da floresta! Por que não foi atrás delas? - Quando ia responder, o Rei continuou. - A não ser, cara Hiena, que ri enquanto mata, como meus homens disseram para mim...que você seja a causa de tudo isso. - Murmúrios vieram de todos os lados, conversas e duvidas, mas dentro do bardo, um ódio crescia e se movia, o dominando pouco a pouco. O Rei começou a falar em voz alta. - Pensem, meus amigos...um homem que com sua musica cria movimentos nos corpos a sua volta...por que não criaria ilusões em nossas mentes? - E apontou o indicador para o bardo. - FARSA! Eu sinto isso! Tu é uma farsa, Hiena! - E completou rosnando. - Aposto meu reino inteiro que você iludiu a todos! Que a muito tempo está nas redondezas, capturando crianças, nos fazendo ver Goblins na floresta, ou...os Goblins ainda estão lá e você não matou ninguém, somente ilusões perante nossos olhos! Tu és uma farsa! - E vários homens que antes festejavam com ele começaram a medi-lo dos pés a cabeça. E o estopim foi dada pela Rainha, se levantando do trono e gritando.
 - PRENDAM-NO! AGORA! -  Espadas foram tiradas das bainhas, o som de metal dominando a sala do trono. - VAMOS PRENDÊ-LO ATÉ SABER SE TUDO ISSO É VERDADE! - Com um olhar transbordando loucura, a Rainha ordenou e todos obedeceram. Tudo o que Vidalas fez tirar o Bandolim das costas, colocar devidamente em suas mãos e dizer.
 - Vocês irão me pagar. - E segurou todas as cordas de um jeito esquisito e as puxou de forma violenta, causando uma distorção sonora alta e grave, deixando todos tontos e perdidos, se debruçando e caindo no chão. Quando voltaram ao normal, poucos segundos depois, Vidalas não estava mais lá. Com gritos e ordens, Rei e Rainha mandaram caçar o bardo feiticeiro...mas nunca o encontraram.
 Vidalas nunca soube devidamente, mas quem moveu tudo foi a Rainha...ela tinha um desprezo enorme por qualquer pessoa sem título de nobreza ou que não fazia parte de uma corte, tendo mais ódio ainda por tudo que não tinha, não conhecia ou tinha medo de conhecer. Ela tinha medo de magia pois tentou aprender e nunca conseguiu, tinha medo das terras livres pois nunca as conheceu, tinha medo da música pois era algo que seu intelecto pequeno não conseguia conceber. Medo gerou ódio e por mil motivos mesquinhos e ridículos, a Rainha quis a cabeça de Vidalas pendurada em uma lança...e com artifícios sujos, palavras sussurradas e promessas conjugais, influenciou o Rei...mas não o príncipe, que discordou de tudo aquilo, dizendo que tinha gostado do rapaz. O garoto foi espancado, finalmente acusado de toda aquela confusão e foi trancado no quarto pelo pai.
 Dias se passaram. Batedores buscaram as crianças e só acharam seus ossos. As rotas comerciais foram reintegradas e riqueza finalmente entrou na vida daquele reino que começou a se expandir de novo. O Rei e a Rainha, embora felizes agora, tinham começado uma caçada pelo bardo que se mostrou infrutífera e, depois de semanas, decidiram esquecer...ele nunca voltaria.
 Afinal, ele nunca havia saído dos muros.
 E numa bela noite de lua cheia, Vidalas saiu do porão da taberna de Rudoldf, agradecendo ao amigo pela ajuda e asilo e ordenando que saísse da cidade o mais rápido possível.
 - Por que? - Quis saber o taberneiro.
 - Porque hoje darei um espetáculo digno dessa cidade. - Respondeu o Bardo, saindo noite a fora.

 Vidalas passou em alguns lugares e conseguiu algumas coisas que queria e que precisava. Conseguiu seu manto, seu chapéu, uma mochila e um mapa da cidade, depois pediu informações para os comerciantes que visitou. Conseguiu algumas coisas com sua música, mas a maioria com sua carisma e poucas moedas. Quando descobriu e conseguiu o que queria, seguiu seu rumo até a torre mais alta da cidade. A Torre do Sino Dourado, da Igreja no centro da cidade, só não era mais alta do que as torres do castelo do Rei, mas era o suficiente para ele e para o que queria fazer. Subiu até o topo, escondido e ficou de pé no parapeito, com o sino atrás de si, se agachando e pegando as Ervas Brancas que conseguiu, o colocando em um padrão a sua frente, estendendo sua mão e já dizendo algumas palavras.
 Nas Terras Livres, terras sem reis e rainhas onde povos independentes tinham espaço para desenvolver como queriam, existia a Ordem de Tarja. Tarja, deusa da música, do prazer e da lua, abençoava os bardos treinados em sua ordem com as faces de sua magia, dando alguns o dom de serem guerreiros, outros de serem excelentes comerciantes e amantes...e outros, o mais atentos e espertos, o dom da música e do controle que ela lhe dava...e na lua cheia, seus filhos ficavam mais poderosos. A Erva Branca, pequenas plantas que cresciam e brilhavam a luz do luar, eram seu simbolo e uma demonstração de respeito e pedido de força a deusa quando estavam para fazer algo grande.
 E Vidalas planejará algo gigantesco.
 O bardo colocou uma pequena folha cor de leite no canto da boca e se posicionou, passando as mãos nas cordas do Bandolim após sua prece. Sentiu sua força crescer e seu espirito se elevar...e exatamente a meia noite, começou a tocar sua obra prima. Uma melodia improvisada, raivosa, rápida e melancólica ao mesmo tempo...entrando na mente de cada uma das pessoas daquele Reino.
 Primeiro, foram as crianças. Acordando, ouvindo os comandos melódicos e saindo de suas camas. Eram poucas, pois os Goblins haviam feito uma grande limpa na cidade...mas eram o suficiente. Foram até suas cozinhas e pegaram objetos afiados, sentenciando seus pais a morte silenciosa, ainda na cama, cravando-os nas suas cabeças ou peitos. Depois, foram mendigos e pessoas pobres...pegando qualquer coisa afiada ou que pudessem usar como arma e começaram a avançar contra os guardas, os espancando ou cortando suas gargantas. Depois, foram os animais, mais instintivos e incisivos, atacavam qualquer um em qualquer lugar. Depois foram os cavaleiros, sacando suas espadas, atacando prostitutas, casebres e o povo sem distinção, outros cometiam suicídio, enterrando suas próprias laminas no peito. Depois foram as pessoas mais nobres, estas se digladiavam nas ruas, atacavam tochas nas casas uma das outras, começando incêndios catastróficos.
 Essa era a ordem da música. Vidalas criava a melodia que fazia as pessoas atacarem o que odiavam. Transformavam um simples desgosto ou descontentamento no mais puro ódio e os fazia avançar, ignorando razão, pudor ou sentimentos. Crianças se mataram, maridos atacaram esposas, prostitutas quebraram casas, pobres esfolaram ricos, fogo se alastrou, fazendo a cidade inteira se banhar laranja, tudo ao som das cordas de Vidalas...e de suas risadas. Ele nem percebeu, mas ria...ria com tudo aquilo. O reino inteiro se tornou um caos, sangue e morte se espalhavam junto com as chamas e ele ria...ria de tudo aquilo...alguns, mais instruídos ou abençoados, imunes ao feitiço mas não a destruição, apontavam o dedo para cima, para a figura que se deformava nas sombras e gritavam.
 - DEMONIO! O DEMONIO ESTÁ RINDO DE NÓS!
 - É A HIENA! A HIENA VOLTOU! - E Vidalas riu quando até eles caiu em sua melodia. A Rainha acordou com o barulho, foi até a janela de seu quarto na torre e vislumbrou a destruição, a cidade pegando fogo e o povo se matando. Horrorizada, foi chamar o marido...mas quando se virou para trás viu o filho, o príncipe, com um sorriso maniaco no rosto e olhos recheados de loucura e uma adaga ensanguentada na mão, com o corpo do Rei inerte na cama, banhado pelo próprio sangue. Ela tentou gritar, tentou fugir, mas o rapaz correu até ela e a abraçou, cravou os dentes no pescoço da mão, fazendo o sangue jorrar...e se jogou pela janela, condenando os dois a morte. E Vidalas tocou...e tocou...durante algumas horas...até que parou.
 E tudo o que se pode ouvir foi sua risada, alta e satisfeita.
 Vidalas esperou mais um pouco, a cidade terminou de queimar e só quando o Sol raiou, as ruas eram cinzas, pó, sangue e corpos, ele desceu, caminhou tranquilamente até a saída e deixou aquele pequeno inferno para trás.
 - Está pago, meu Rei. - Sussurrou o bardo, antes de rir mais uma vez e seguir seu caminho.

-

Presente
Na Taberna

 - E então, eu andei por ai e conheci um ferreiro amigável que fez esse broche para mim. - Gesticulou para o que prendia seu manto. - Decidi carregar a acunha desde então, me garantiu muitos trabalhos e outras historias interessantes. - Terminou de narrar sua historia. Vidalas bebeu a ultima gota de hidromel e olhou para sua plateia...atônita, com medo e receio. Todos começaram a murmurar, porém antes que as perguntas viessem, ele se levantou, pegou suas coisas e começou a sair.
 - Muito obrigado a todos pela maravilhosa noite. Foi um prazer tocar minha musica para vocês. - E começou a se dirigir a saída. Todos olharam surpresos pela janela, o Sol estava nascendo, banhando o céu com a cor laranja.
 - Não, espere... - Um homem, o gordo que o reconheceu, chamou sua atenção. - Mas...e Rudolf? O que aconteceu com ele? - Vidalas deu um leve riso e olhou de relance para o taberneiro, que disfarçou com um meio sorriso e coçou a orelha, mirando o chão.
- Seguiu seu caminho. - E puxou a porta. - Assim como seguirei o meu.
 - Espere mais um momento. - Um homem, de porte grande, braços enormes e barba na cara. - E quem pode dizer que você não nos enganou mais cedo? Que começou a briga com alguma musica para depois ganhar tudo isso de graça e contar sua historia, perpetuar sua lenda? Quem pode garantir isso? - Todos olharam para o bardo, carrancudos e cheios de duvidas e malicia.
 Vidalas riu, olhou no fundo dos olhos do homem e sussurrou.
 - Ninguém pode. - E todos sentiram um leve toque da morte na espinha.
 O bardo saiu, rindo baixinho, porta a fora, ganhando o mundo mais uma vez.

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