terça-feira, 8 de novembro de 2016

Cinderella

 Ela sorriu ao chegar no ultimo degrau.
 Quando adentrou no grande salão, a música deu uma leve diminuída em sua velocidade pois o maestro daquela pequena, porém competente, orquestra, se distrai com ela...assim como os guardas, os garçons, os príncipes e duques, os homens que não desejam mais suas esposas e até mesmo aqueles que desejam.
 Seu tomara que caia era azul e não tão volumoso quanto os das outras mulheres eram, ignorando a tendencia da moda da época, deixando mais espaço para que passasse e desfilasse pelas mesas e convidados; nas costas, um decote um tanto atrevido trançado por rendas lhe descia as costas expondo sua pele macia e branca, em suas orelhas brincos de diamante com pequenas pedrinhas de topázio azul, seus cabelos loiros estavam presos em um coque bem feito e formoso, completando seu estilo simples, natural e belo.
 E em poucos segundos, todos queriam saber seu nome.


 - Cinderella. - Ela disse com uma voz doce, gentil e contente para um homem que teve mais coragem do que os outros e lhe perguntou, mas logo foi censurado por sua esposa gorda e com cabelos emaranhados em enfeites e um vestido volumoso demais. A bela dama seguiu seu caminho, pelo salão, confiante nas palavras que sua querida Fada havia lhe dito mais cedo naquele dia.
 "Siga pelo salão até seu coração parar"
 Seu coração pulava demais para parar de tal forma...mas como desconfiar de sua querida amiga?
 Ela havia ensinado tanto a ela...

-

 A Fada, uma ninfa das florestas, adotara Cinderella como sua sobrinha, de acordo com as palavras dela, e havia pouco a pouco feito dela uma mulher melhor e em condições melhores. Antes, sendo feita de escrava por Lady Tremaine, sua madrasta maligna e de feições horrorosas em um rosto marcado pela idade e suas duas filhas, Anastasia e Drizella, igualmente feias e porcas como a mãe, tudo por ser filha do ultimo marido da Lady que não havia resistido a uma febre súbita que dera nele em uma noite de tempestade. Sendo vista como uma bastarda e uma intrusa em suas vidas, os mais indignos trabalhos foram passados para a jovem moça, desde limpar a cada com suas própria escova de dentes até limpar os estábulos sozinha em noite de chuva. Açoitada por xingamentos e tapas, Cinderella era vitima de um ódio indescritível e sem muita razão, uma vez que fez tudo para que seu pai ficasse bem junto com o médico da cidade e suas recomendações, mas por algum motivo já tinham chamado-a e assassina e traiçoeira.
 O cumulo da humilhação foi quando foi presa e obrigada a "satisfazer" sua madrasta durante uma madrugada inteira.
 Se sentindo suja e impura, Cinderella correu pela floresta, chorando de raiva, tristeza, panico e frustração, desejando, de todas as formas, uma meio de sair dali, de mudar tudo e, caso não houvesse meios, que morresse de forma indolor e que seu corpo afundasse na lama para que ninguém mais a achasse. E quando caiu em meio ao chão sujo e as gotas de chuva açoitavam seu corpo dolorido, quando a lua subia em meio as nuvens de chuva...uma pequena luz surgiu.
 - Chora mais do que a chuva, princesa. - Uma voz doce e de mulher veio em seus ouvidos, fazendo a tempestade a sua volta ficar abafada e não lhe incomodar em nada, Cinderella olhou para cima e mirou a pequena esfera de luz que tomava a forma de quem pequena mulher de olhos negros, cabelos loiros em pé e unhas grandes e afiadas.
 Foi o começo de sua amizade.
 Na manhã seguinte, a jovem voltou para sua casa mudada. Estava seminua, suja de lama, cabelos bagunçados e cheirava mal...porém seu caminhar agora era firme, seu queixo era erguido e seus olhos eram como adagas na alma de quem a mirasse. As irmãs, acostumadas e dar-lhes bordoadas logo quando acordassem para que fizesse o café, olharam-na com medo e deixaram que passasse pelo corredor sem toca-la. Cinderella se recolheu em seus aposentos, trancou a porta e ali ficou durante dias e dias. Por mais que batessem, por mais que ameaçassem, por mais que tentassem derrubar a porta, tudo o que recebiam em troca era o mais puro silencio. Tentativas de derrubar a porta também foram infrutíferas, assim como palavras doces disfarçadas, então depois de um tempo decidiram deixar para lá, que a estranha morresse de fome dentro do quarto amaldiçoado. Anastasia e Drizella foram as que mais nutriram ódio pela jovem que não estava mais lá para fazer as tarefas e assumiram seu lugar...e foi assim durante dias, depois semanas, depois meses...e as vezes, bem as vezes...durante a madrugada, caso algumas delas estivesse acordada, poderiam ouvir risos...risos de dentro do quarto da garota. O medo as assolou e decidiram nunca mais falar no nome de Cinderella.
 Passado mais algum tempo...foi dado convites a todas as damas e princesas da região que tivessem menos de vinte anos, pois o Príncipe, o filho mais velho do rei e herdeiro legitimo ao trono, procurava uma esposa que fosse da região para que mante-se o sangue real unido ao da cidade pelas próximas gerações, ao menos era isso o que liam seus mensageiros as casas das damas e donzelas, quando o que movia o coração do príncipe nada mais era de que suas aventuras extraconjugais não ofendessem nenhum pai super protetor que pudesse causar guerras por causa disso se fosse descoberto. Mas foi uma febre, um alvoroço de vozes e promessas, orações e pedidos aos deuses e demônios que pudessem ouvir...
 Todas queriam ser Rainha.
 E uma noite antes da Grande Festa, Lady Tremaine foi procurar sua filha mais velha, Anastasia, para que a ajudasse dar o ultimo remendo em seu vestido perfeito e procurou por toda casa e nos corredores pela sua filha de mão firme...até chegar no corredor do quarto da bastarda. Com passos lentos a Madrasta chegou perto da porta que pela primeira vez em meses estava aberta e uma luz bruxuleante emanava de lá dentro...
 Quando olhou, suas pernas falharam e só ficou de pé pois seus joelhos travaram.
 A cabeça de Anastasia jazia no chão, sem os olhos, próxima a cabeça de sua irmã, ambas sem os olhos e de bocas abertas, sem os dentes e as línguas. Os corpos das duas estavam de ponta cabeça, presas pelos calcanhares por correntes com ganchos em suas pontas, enterradas na carne morta, fazendo o sangue cair em uma banheira de porcelana branca...onde Cinderella se banhava.


 O liquido escarlate escorria por suas pernas brancas que iam para fora e se esticavam para serem alisadas por mãos delicadas e rápidas e Cinderella só parou quando percebeu a Madrasta na porta, em choque, olhando para aquilo tudo com um horror inexplicável que a manteve presa ao chão e sem nenhum movimento, como se seus pés estivessem pregados ao chão e seu corpo fosse vitima de uma crucificamento, mesmo quando a filha de seu antigo marido saiu da banheira, deixando um rastro de pegadas vermelhas no curto caminho até ela, segurou seu rosto o maculando com o sangue das filhas e encostou seus lábios no dela, em um beijo apertado e demorado...que só foi interrompido pela Madrasta ao sentir algo descer pela garganta, como um verme rastejando pelas entranhas. Em um empurrão, ela se desfez dos braços de Cinderella e começou a correr, primeiro pelos corredores, depois pela sala e depois para fora, quando começou a tossir e uma dor grotesca percorreu seu corpo, a torcendo e a forçando a rastejar pela grama úmida da noite em direção aos estábulos, onde os cavalos relinchavam e davam coices na madeira...e seu corpo rangeu, torceu, se quebrou, sua garganta se fechou e a impediu que gritasse, suas mãos se voltaram para dentro e a carne e ossos se dobravam de tal forma que seus dedos caíram...seus membros se atrofiaram e se alongaram, pelo começou a crescer pelo corpo conforme seu cabelo começava a cair e crescia de uma forma diferente pela cabeça e emendava pelo pescoço, seu rosto de alongou...e em alguns minutos de pura agonia, com a consciência quase perdida durante a dor...a Madrasta não existia mais. O que existia em seu lugar era uma égua malhada, magra e mal cuidada, eternamente fadada a permanecer no cio.
 Cinderella a entregou aos cavalos na mesma noite.
 Na noite seguinte, estava tudo pronto...o ritual havia claramente funcionado, tudo estava perfeito...sua pele não tinha mais marcas ou cicatrizes dos mal tratos que recebia diariamente, sua beleza era radiante e seus lábios eram vermelhos como o sangue que se banhará na noite anterior. Seu vestido azul, originalmente da Madrasta com algumas modificações feitas pela Fada, estava perfeito e cabia devidamente em seu corpo, assim como os brincos e joias, porém faltava algo...um toque único, especial, ainda mais diferente de todas as outras...foi quando ela pediu que reunisse todas as outras joias da família a sua frente e Cinderella reuniu todas elas em uma grande bandeja de prata e colocou em cima da mesa da cozinha em frente a Fada que entoou um feitiço poderoso, onde calor derreteu e moldou aquelas joias...até que a luz do momento apagou e todas aquelas joias se uniram e formaram um par de sapatos de cristais, reluzentes e puxados para o azul, assim como os olhos da menina.
 Tudo estava pronto.
 Chegando a derradeira hora, a Fada se encaminhou a pequena horta que havia ao lado da casa, pedindo a Cinderella que tirasse uma abobora dali, a colocando no centro do jardim...e com algumas palavras magicas e poderes, a Fada fez crescer uma carruagem negra com detalhes em branco, reluzente e bonita como tudo que a fada fazia...depois, usando mais artifícios mágicos, acalmou os cavalos para que saíssem de cima da nova égua e os selou devidamente no veiculo e, sem precisar de cocheiro, colocou a futura Princesa em seu caminho. Sua amiga disse que não iria com ela, esperaria ansiosa pelo seu retorno, para que juntas pudessem conversar e planejar a vida dela como Rainha.
 E isso nos faz voltar para o momento atual....onde Cinderella sentiu seu coração parar.

-

 O Príncipe, entediado, estava sentado em seu trono, bebericando do vinho e olhando o rosto de todas aquelas mulheres...algumas eram bonitas de rosto, mas o corpo era magro demais...outras tinham sua forma devida, com seios fartos e um corpo bonito, mas o rosto era semelhante a de ratos...e tinham outras que não tinham a menor etiqueta...
 Até que ela entrou...
 Caminhou firme até o meio do salão, seus quadris de movendo a cada passo, seus olhos mirando os dele, provocando, lábios que formavam um sorriso irônico. O coração do príncipe pulou, sentiu a maior ereção da sua vida crescendo, sentiu sua respiração perder o controle...ele queria aquela mulher, mais do que tudo na vida. A levaria aos aposentos imediatamente e a tomaria para si, dispensaria todas as outras, aquela deusa lhe daria prazer pelo resto da vida...pelos Deuses, quem era ela?
 Ele se levantou, o que fez com que todos parassem e o olhassem, mas ele ignorou isso...pois seguiu em passos longos e firmes, confiante, até chegar cara a cara com a dama que o fazia querer perseguir seus desejos carnais mais devassos e profanos. Ele olhou de relance e mal humor para os músicos.
 - Toquem! - Ele ordenou e a música de valsa começou, devidamente. Apesar de tudo, formalidades eram importantes...o primeiro toque inocente era que revelaria se tudo poderia andar conforme o planejado.
 Porém, o plano foi muito além do que deveria ir.
 O Príncipe segurou sua cintura e ela depositou a mão em seu ombro, fizeram a devida pose e começaram. Em alguns segundos, o coração de ambos bateram em uníssono e seus olhares diziam tudo. Nem mesmo perguntaram como cada um se chamavam...era o mais puro amor que cada um tinha sentido em suas vidas. O Príncipe não queria mais uma vida de luxuria e aventuras, queria se aquietar no castelo, ter ela como sua esposa, casar com ela e ter filhos, filhos o suficiente para encher todos os quartos disponíveis, ficar velho ao seu lado e sempre sentir aquela sensação de desejo e vida que sentia agora. Cinderella se sentia infinita, poderosa e apaixonada, o toque do Príncipe era gentil, porém firme e lhe tirava as memorias ruins de uma vida agora passada, agora ela poderia ser alguém e fazer diferença na vida das pessoas de uma forma boa. Ela nunca mais iria machucar ninguém, muito menos matar, todo seu ódio e desgosto foi devidamente depositado nas mulheres que tentavam fazer de sua vida um inferno e agora punidas e fora de suas vidas ela não se importava mais com nada, somente com sua felicidade.
 Ambos foram feitos um para o outro...e quando a música acabou, todos os convidados suspiraram e bateram palmas, não pela performance, mas pelo beijo longo e carinhoso que deram um no outro, deixando até mesmo o Rei emocionado com aquele momento, observando tudo do segundo andar. Todos sabiam que a Princesa e futura Rainha havia sido escolhida. Tudo estava perfeito.
 Até que a primeira badalada da meia noite aconteceu.
 Um medo e um aperto no estomago fez o sorriso de Cinderella morrer aos poucos, fazendo sua face ficar no horror, fazendo o Príncipe mira-lá com preocupação. Algo estava errado!
 - Bela dama? - Ele pergunta antes que Cinderella o deixe falando sozinho, andando depressa para o caminho da saída. Precisava sair dali! A dor crescia dentro de si e ela se sentia cada vez mais com medo, com um pavor imensurável dentro dela que a faria enlouquecer. Onde estava a Fada? Onde estava sua amiga?
 Ela chegou até uma das portas e puxou as maçanetas. Trancada! De repente o panico se alastrou! Todos tentavam abrir as portas, todas elas trancadas, cadeiras voaram, mesas foram jogadas mas nenhuma delas cedeu! Quem havia fechado as portas? Por que?
 Cinderella tentou correr de novo, quem sabe no segundo andar, mas quando ia dar o terceiro passo, uma dor aguda tomou conta de seus pés e a fez cair, gritando de dor e chorando. O Príncipe, alheio ao desespero dos convidados, preocupado com sua amada, olhou com a aflição os pés em carne viva pelos sapatos de cristais quebrados que enfiavam seus cacos nas solas de sua futura esposa. Quando tentou chama-lá novamente e ela se virou para ele, todo o ultimo encanto que restava sumiu.
 Cinderella tinha os olhos amarelos e uma pupila fina como a de gatos...olhou para o Príncipe e rugiu, um rugido grotesco e profundo, que tremeu todo o salão e atraiu a atenção de todos. A jovem se jogou no chão e começou a se contorcer...seu corpo dava estalos violentos, parecendo que sua coluna estava sendo feita em pedaços e chorava com sua nova voz grotesca conforme era jogada e um lado para o outro em espasmos involuntários. Sua pele se derreteu e caiu, formando poças de um liquido amarelo misturado com sangue no processo, dando lugar a uma pelugem marrom escura em seu corpo e uma juba que cresceu ao redor da cabeça e dominou o pescoço e o busto. Suas costelas se abriram, fazendo mais dois pares de braços surgirem quando suas pernas caíram. Seu rosto se deformou e um focinho cresceu, com dentes enormes como adagas que saiam de sua boca grotesca, semelhante a de crocodilos, que babaca um liquido viscoso.
 Quando a ultima badalada se ouviu, sua transformação estava completa. Os novos pares de olhos se abriram como esferas de mel cristalizadas para olhar para todas os humanos a sua frente, horrorizados com a forma do monstro grotesco a sua frente, tentando escapar e gritar.
 Nenhum deles teve a minima chance. O monstro caminhou, engolindo, pisando e triturando todos a sua volta, com suas patas poderosas ou fechando suas mandíbulas em volta de seres gritantes, transformando o Grande Salão em uma piscina de corpo, sangue e vísceras, um antro de gritos e pedidos de clemencia, socorros e pedidos a todos os deuses, mas ninguém ouviu, ninguém se importou...o monstro estava com fome e com medo e todos ali em uma ameaça. E durante a noite toda, foi tudo o que houve...

 E de manhã, Cinderella acordou.
 Nua e coberta de sangue, com dificuldade se levantou e olhou ao redor, concluindo que tudo que houve noite passada não foi um pesadelo gerado pelo excesso de bebida...era real. Bem real. E culpa dela.
 Ela estava no meio do sangue das pilhas e pilhas de corpos que ela mesmo havia feito ao se transformar em tamanha monstruosidade. Ela mirou tudo aquilo...discerniu poucos rostos em meio a carnificina e carne destroçada, mas viu ali...o Príncipe, cortado ao meio, suas pernas nem mesmo estavam perto dele, provavelmente ao longe ou dentro dela.
 A jovem começou a rir. Ria, tomada pela dor, pelo arrependimento, pelo medo, pelo poder o que tudo resultava em uma grande loucura no seu espirito. Cinderella caminhou para a porta com seus pés afundando e fazendo um som liquido a cada passo, rindo, levou a mão a maçaneta e a porta abriu gentilmente ao toque...lá fora, o Sol brilhava, dourado e belo. Cinderella desceu as escadas, rindo, com lagrimas caindo de seus olhos e escorrendo pelas bochechas até avistar sua carruagem na porta do Salão...mas tudo que havia ali era uma abobora esmigalhada, com dois cavalos comendo seu conteúdo. Contendo um pouco a risada, a jovem foi até um deles e tirou seu cabresto e rédeas...e quando o fez voltou a gargalhar em meio ao choro, caminhando desolada até a arvore mais próxima, pulando e se segurando em um galho e, com uma mão, prendeu a ponta do cabresto na madeira e as rédeas foram enroladas no seu pescoço, bem apertado...e continuou ali, rindo, se segurando na madeira, lembrando de tudo o que tinha feito, tudo o que tinha planejado e como tudo tinha ido direto para o inferno.
 - Me desculpa, pai... - Ela disse, finalmente se soltando. O cabresto aguentou seu peso, mas seu pescoço não quebrou...ela riu até finalmente se sufocar em meio a espasmos.
 O corpo de Cinderella fechou o espetáculo e, perto dali, uma fada batia palmas e ria com sua voz fina e malévola, se rolando de rir em pleno ar, até decidir tomar ar e parar em um galho de outra arvore.


 Ela tomou um ar, observou bem a cena...e decidiu levantar voo, indo contar a família e amigos o que tinha feito dessa vez no mundo dos humanos.
 Aquilo sim renderia uma historia por toda uma vida.
 E a Fada...viveu feliz para sempre.


Fim

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