quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Imortais - A Leoa


Para Sabrina

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 - Acabamos de envia-lá, meu senhor. - O jovem sacerdote disse, mantendo o olhar baixo e as mãos juntas ao colo. O Padre, um senhor de idade com corpo forte, branca branca bem cuidada, com os trajes sagrados e sentado em uma cadeira a frente de uma pequena mesa com pão, frutas e vinho, observava o nascer do sol da varanda do grande Palácio. Ele suspirou e continuou olhando para o nada, divagando em memorias, pensamentos e preocupações até que finalmente notou a presença do jovem ao seu lado.
 - Perdão, aprendiz, o que me disse?
 - Disse que já enviamos a Leoa para o destino, meu senhor.
 - Ah sim...sim. Isso é ótimo, a situação será resolvida prontamente, eu tenho certeza disso. Obrigado, está dispensado pelo resto do dia. - Respondeu o homem, que logo pegou sua taça de vinho para degustar quando...
 - Padre Miguel, peço desculpas, senhor...mas eu tenho algumas duvidas e eu gostaria muito que as me esclarecesse, se possível. -  O sacerdote disse, fazendo o Padre parar a bebida no meio do caminho. Suspirando, largou o recipiente, se endireitou na cadeira e disse.
 - Pois não...
 - Os outros Padres e Sacerdotes Mestres dizem que a mulher escolhida para tal tarefa não é exatamente a melhor para isso. Eu mesmo já a vi aqui no dia a dia, senhor. Ela é quieta e esforçada, sim, mas é desrespeitosa com a maioria de nossas tradições, muitas vezes falando por gírias e de forma chula, sem nenhuma preocupação com a gramática, com o exemplo a ser dado. Suas roupas comuns são um tanto alarmantes, com decotes grosseiros e sem mangas, dizendo para cuidarmos de nossa vida ou chamando até para brigas caso escute algum sussurro e assuma que estejam falando dela. Em missões, se mostra descuidada, caminhando livremente em locais que deveria tomar a cautela caso haja alguma armadilha, desafiando a sorte e os ensinamentos. Ela se mostra mais uma arruaceira do que uma clériga, senhor. Por que mandar justamente ELA para tal missão?
 - Porque eu quero alguém que esmague a cabeça do inimigo e resolva a situação ao invés de ficar rezando, orando e chamando pra uma conversa, entende? - Respondeu o padre, sem rodeios. - E que fique claro aqui...que se metade dos Leões fosse como essa menina, metade dos nossos problemas estavam resolvidos. Ela pode ter algumas manias sim e levar a Palavra de uma forma diferente da nossa, mas a luz dela brilha mais forte do que muitos aqui dentro e isso inclui Padres, Sacerdotes, guerreiros, clérigos e até Leões. Ela é o que você vê, ela demonstra quem é e aceite como quiser, ela é pura exatamente por isso, pela sinceridade em suas ações, por não aceitar afrontas e palavras escondidas, ela não trama, ela não sente inveja, ela conquista por meios limpos e é por isso que eu coloco minha fé nela mais do que coloco em vocês. - O jovem olhava espantado para o Padre, sem nenhuma resposta aparente. - Agora, pode ir e fofocar o que eu disse aqui para seus superiores e com as pessoas nos corredores...mas me deixe em paz enquanto faz isso, garoto.
 - Com...sua licença, meu senhor. - O rapaz saiu, fazendo reverencia e em passos apressados. Padre Miguel voltou a contemplar o Sol, sabendo que aquele podia ser um dos seus últimos momentos de vida.
 Minha querida criança... - Ele pensou. - Ensinei a você tudo que poderia ensinar...e você cresceu mais do que eu jamais pude crescer. Por favor...seja forte. A ameaça é bem maior do que pensa...
 Coloque ordem na casa!


 Sandria é um mundo vasto, cheio de criaturas, seres, ordens, ideias e religiões. Religiões que também variam muito em suas crenças, tendo vários deuses, poucos deuses, um deus, nenhum, venerando a natureza, os elementos, até mesmo as trevas e cores são cultuadas e igual a vastidão de opções, são também os meios de impor-las, seja com palavras, ações ou com aço.
 Mas não é segredo para ninguém que as palavras mais bonitas e o aço mais frio pertencem aos Clérigos de Marfim.
 A Igreja de Marfim é responsável por 80% de toda a crença do mundo de Sandria sendo como um império imposto nas palavras de um Deus Iluminado, o "onipotente" e todo grande reino tem boa parte de suas terras pertencentes a Igreja e a família real se mostra extremamente devota com pagamentos de dizimo e seguindo suas recomendações, conselhos e ordens. E como todo bom império, ele tem seus soldados: Os Paladinos de Marfim são os cavaleiros mais bem treinados de todo o continente, sendo capazes de mil soldados subjugarem cem mil em seus melhores dias, sempre voltados a eliminar hereges e monstros das trevas que ameacem a humanidade e principalmente a ordem dos Clérigos. Os Paladinos, com suas maças, manguais, martelos e escudos vastos e largos, com o ditado sagrado de "Esmagar o mal, onde quer que ele esteja, quem quer que ele seja" já abriram caminho até mesmo nas Legiões Azuis do abismo, impedindo o fim do mundo em Eras passadas mais de uma vez.
 A elite dessa força, reconhecida e ungida pela Santidade em pessoa, é conhecida com temor por todos os inimigos da igreja e até mesmo por alguns praticantes da religião: Os Leões Brancos. Os capitães e generais do Exercito de Marfim, homens e mulheres considerados os melhores entre os melhores que são mandados até sozinhos para missões diversas.
 Aqui não foi diferente.
 Pois ela cavalga, sozinha, até seu destino.

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 A chuva era morna, indicando que o dia finalmente seria refrescado. A clériga agradeceu silenciosamente por isso, a cota de malha e a armadura da ordem não era exatamente a vestimenta mais arejada para certas situações. Ela sentia o vento do leste, de onde tinha vindo, como se a impulsionasse até seu destino e o encarava como uma benção e um aviso importante. Seu cavalo, um corcel malhado, carregava suas provisões e estava cansado, precisaria parar logo, porém a situação pedia que ela corresse, forçando o animal a terminar o percurso antes do merecido descanso.
 Ela verificou no mapa que carregava, o dobrou e colocou de volta embaixo do manto e direcionou sua montaria, subindo um pequeno morro após sair da estrada, seguindo a dica de um colega da Ordem que poderia servir de atalho, cortando a floresta por dentro em uma trilha que poucos conheciam começando a partir dali. Em certa altura, ela pode ver seu destino...Miridium.
 Ela começou a descer com cautela, pois a lama havia se formado, a chuva apertará rápido demais e um vento frio começava a soprar com mais força, rapidamente tirando o calor dentro da armadura da clériga. Ela continuou seu caminho devagar com uma certa inquietação crescendo em seu coração...
 Achou a bendita trilha em meio as árvores após algum tempo e continuou, puxando o gorro de seu manto para cima, conforme a chuva ficava mais forte ainda e atrapalhava sua visão. Seu cavalo reclamava, mas ela o forçava e o mandava seguir...não demorou muito e em uma pequena curva, os portões da cidade "escondida" se apresentavam a ela.
 Miridium era uma cidade de lenhadores, fazendeiros e mercadores que ficava a Oeste do Grande Palácio, a sede de toda Igreja de Marfim. Apesar de ser bem rica, a cidade sempre manteve seu visual modesto e simples, tanto para atrair menos perigos possíveis, quanto para respeitar as ordens e mandamentos da igreja. Sem soldados próprios, Miridium sempre dependeu da proteção da própria Igreja, com soldados e padres vindo periodicamente até o local, alguns até morando no lugar. A cidade também era responsável por metade dos grãos e bebidas que a Igreja coletava, pagando muito bem para eles continuarem o bom serviço e continuarem dando seu dizimo. Porém, o carregamento do mês não chegou. Se passou duas semanas até que uma tropa de soldados rasos fossem a cidade verificar o que estava acontecendo, seus superiores achando que se tratava de um pequeno atraso por razões pessoais, nada demais. Se passou mais um mês e nenhuma noticia voltou daquela tropa.
 Foi então convocado um dos Leões para o serviço, mais precisamente, uma Leoa.
 Sabrina Belnonty.

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 A clériga desmontou do cavalo e caminhou até os portões. Perto das grandes portas de madeira e ferro, o chão ficava revestido com pedras de mármore. Ela subiu, foi até uma pequena corda no lado esquerdo e a puxou, fazendo um sino médio tocar. Ela aguardou dois minutos até tentar abrir as portas por si mesma.
 Para sua surpresa, os portões cederam.
 Ela abriu pouca coisa, o suficiente para ela e seu cavalo passarem. Ela puxou sua montaria, fechou os portões e olhou ao seu redor.
 Nada além de chuva.
 Miridium tinha sua entrada de cara para o ponto comercial, se subia uma pequena "rampa" e depois se descia para lá. Tabernas, hotéis, mercados e barracas, sempre abarrotado de gente, diversos preços e serviços, todos disponíveis ali. A ideia de ter de subir para ver a entrada da cidade foi feita pelos governantes, dizendo que assim, quando Miridium se abrisse para quem chegasse, pareceria mais surpreendente e charmosa. Causava o devido efeito. Os comércios seguiam até um quilometro a frente, para depois vir a praça principal e a igreja da cidade, ramificando suas ruas onde tinha as moradias e por fim, todas elas se juntavam em uma única estrada que levava até a zona rural, onde estavam as plantações e a criação de gado.
 Mas não dessa vez.
 Segurando seu cavalo pelas rédeas, ela subiu e olhou para a cidade, e tudo que viu foram poças se formando e barracas ameaçando cair com o vento. Tudo a frente dela era vazio. Normalmente, ela pensaria se tratar da chuva, que estava virando uma tempestade, fazendo todo mundo se abrigar, mas até mesmo a guarita, ficando ao lado esquerdo do portão, sendo feita de madeira reforçada, para abrigar o guarda em questão, nunca ficando vazia mesmo no pior dos tempos, estava em silencio. Com cuidado, pois as pedras tendiam a ficar escorregadias, ela seguiu caminho a baixo e passou por todas as tendas formadas direitinho, mas notou que iguarias estavam guardadas ou não estavam ali. O que quer que tivesse acontecido, não tinha feito as pessoas fugirem tanto assim na pressa...
 Mesmo com tal mistério a se resolver, ela tinha necessidades mais básicas a resolver: O frio e a fome. Acelerou o passo e chegou até uma taberna local, chutando a porta e nem prestando atenção no seu nome. Estava irritada, cansada, até puxou o cavalo para dentro. Olhou ao redor, na penumbra, com escassos feixes de luz escapando pelas poucas janelas do recinto, porém sentiu que não tinha ninguém por perto, nenhum que seus sentidos treinados pudessem sentir, ao menos, e continuou entrando, com sua montaria empurrando cadeiras e mesas até o caminho do balcão, onde amarrou as rédeas numa coluna, logo procurando sua tocha, guardada com panos em volta em uma das bolsas presas a rédeas do cavalo. A pegou, junto com suas pedras de fogo, colocou-a em meio as pernas e bateu as pedras até as faíscas acenderem os panos embebidos em liquido inflamável, iluminando o suficiente o seu campo de visão, a deixando mais tranquila. Sabrina percorre o local, procurando velas e outras tochas a acender...mas todas as velas estavam totalmente gastas e as tochas reduzidas a cinzas. Decidiu procurar atrás do balcão, também vazio, sem sinais de luta ou qualquer outra coisa que levasse a uma suspeita mais concreta do que havia ocorrido...mas procurou velas e outras tochas, aproveitando e pegando pão, pedaços de carne e alguns vidros com alimento em conserva para ela e alguns vegetais para sua montaria. Acendeu três tochas a colocando nas paredes, substituindo as queimadas e acendeu as seis velas na mesa em que decidiu sentar, próxima ao cavalo, que mastigava maças, alface e couve flores.
 Ela separa as ombreiras da armadura e coloca em cima duma mesa, puxa uma cadeira e cai pesadamente sobre ela, respirando fundo e bufando, pegado seus cabelos e os torcendo, derramando o excesso de água neles. Devorou, em segundos, o pão, as cernas secas e secou uma caneca de cerveja como se fosse um bárbaro do norte. Após saciar a fome, se recostou na cadeira, deixando descansar um pouco. Ficou alguns minutos assim, olhando para o teto, olhando o fogo crepitar e a chuva cair pesadamente lá fora, a noite caindo, transformando a tempestade numa garoa fina. Mas quando bocejou logo se levantou, não podia fazer corpo mole por mais tempo, muito menos se dar ao luxo de dormir. Antes de sair, ela procurou atrás do balcão novamente, na esperança de achar a chave da porta da frente, com sucesso.
 Completou sua armadura novamente, verificou suas armas, pegou uma das tochas, se armou com seu escudo e saiu porta a fora, a fechando e trancando após sair.
 A garoa fazia chiados saírem das chamas que guiavam seu caminho mas nada que ela não estivesse acostumada, o combustível aguentaria aquela pequena quantia de água caindo. Sabrina caminhou em passos firmes pela noite, procurando qualquer tipo de sinal de vida, mas as lojas, barracas, as ruas e a praça eram o mais puro silencio na escuridão. Um vento frio cortou a noite causando arrepios e uma certa estranheza na moça...ela sabia que choveria mais cedo ou mais tarde, como o clima local sempre prometia, mas não para fazer aquele frio, não daquela maneira, uma virada de tempo tão brusca não era natural.
 Em passos largos ela andou pela grama da praça principal, desviando de bancos e poças, sua armadura tilintando aguda enquanto se movimentava...e começou a subir os degraus de pedra branca na igreja local, um recinto grande, sendo o maior prédio na região. Apoiou o escudo devidamente no braço, apertou a fivela de couro e o colocou contra o meio da porta e começou a empurrar, fazendo a madeira e o ferro rangerem enquanto forçava o caminho. Quando a primeira fresta se abriu, Sabrina quase vomitou...o cheiro fétido de podridão e moscas vieram para fora, a forçando virar o rosto e tampar o nariz. Rangendo os dentes, com toda força de vontade que tinha, forçou mais um pouco e abriu o suficiente para passar.
 Quando adentrou o recinto, levantou sua tocha e ela soltou as primeiras palavras desde que chegou.
 - Puta merda...
 Corpos e mais corpos se encontrava a toda extensão da igreja até o altar. Inchados, cheio de protuberâncias e líquidos viscosos que escapavam de feridas menores e entranhas para fora das maiores, cabeças decepadas, braços e pernas arrancados. Havia uma menina, no máximo dez anos, com um pedaço de madeira, cravada em seu rosto, o fazendo se repuxar todo pra dentro. Um homem estava empalado em um pedaço de metal, que parecia o resto de um candelabro. Os lustres, lá em cima, também contavam com corpos pendurados neles. Pessoas e mais pessoas estavam cravadas nas paredes, com facas, espadas ou pregos. A cena era isso: Corpos mutilados e profanados, cheios de feridas e pele amarelada...clara evidencia de envenenamento. Quem quer que tenha feito aquilo, já tinha conseguido matar todo mundo por meios mais furtivos...mas as mutilações eram um meio de desrespeitar o local.
 Havia uma lista enorme de quem poderia ter feito aquilo: Hereges, selvagens das florestas, bruxas, adoradores de Moloch, tanta coisa...
 Sabrina caminhou entre os corpos, a tocha em sua mão tremendo junto com todo seu corpo. Não era medo, não era frio, não era nada mais além da mais pura fúria. Tinham manchado a sua casa, a sua ordem, tinham o intuito de profanar aquilo, desrespeitar...iriam pagar com suas vidas. Ela passou por cima de cada um, com cuidado, não pisando em nenhum dos corpos ou restos que saiam deles, indo até o altar, onde as tripas do padre estavam jogadas em cima de uma bíblia aberta, e as metades de seu corpo estavam "jogadas" aos lados. Sabrina queria abrir, por meio de uma alavanca embaixo do púlpito, uma passagem secreta que seria aberta para dentro do altar, onde haverias camarás para situações de emergência, como toda igreja deveria ter.
 Sua raiva e surpresa aumentaram ao ver que a passagem estava aberta, com um rastro de sangue lhe mostrando o caminho e o cheiro de podre vindo mais forte do buraco escuro.
 Suspirou e continuou andando em frente, descendo os degraus, rachando a escuridão com a tocha o melhor que podia...o sangue forrava o chão e paredes de pedra, deixando tudo mais escuro e mais tenebroso. Ela seguiu caminho...até que uma "parede" se formou a sua frente. Não podia se dizer que eram corpos empilhados, pois não tinham pele ou forma definida, mas a carne, triturada e mastigada, era claramente humana, pois o cheiro era característico e podia se ver um dente ou cabelo aqui e ali...
 Sabrina aproximou o fogo e analisou o estado da carne. Lá em cima, sinais de envenenamento, aqui em baixo, carnificina pura...a carne parecia digerida...sim, foi digerida, depois expelida...
 Digerida, depois expelida...
 - MERDA! - Sabrina rosnou, quando se tocou do que estava acontecendo e quando as carnes a sua frente se separaram em um estrondo, revelando uma criatura que estava por trás delas, avançando contra a clériga. Ela, por reflexo, levantou seu escudo, colocando a face do leão para enfrentar o perigo por ela, segurando o impacto da criatura, depois a empurrando para longe.
 Sabrina encarou o Reptiliano.


 A Serpente ruge e já salta sobre ela. Sabrina não poderia sacar seu mangual preso na cintura, o corredor era estreito demais para sacar, muito mais usar, a arma. Se sentiu um pouco idiota por deixar a faca na cela do cavalo, mas tudo bem...ela tinha tudo que precisava.
 Avançou mais rápido que o inimigo, apontando o escudo para ele em um soco, enfiando o metal prateado na boca do bicho, o fazendo perder o equilíbrio e concentração. Puxou o escudo de novo e socou novamente, e de novo e de novo, até o monstro cair no chão, sem jeito. Rápida, pois não podia perder tempo, a clériga pula em cima do animal, enterrando forte suas botas no tronco da criatura, soltando a tocha e puxando o escudo do braço, o erguendo acima da cabeça com as duas mãos e o abaixando com toda sua força...duas...três...quatro...cinco...seis...sete vezes na cabeça da Serpente, que já na quarta havia parado de se mexer.
 A cabeça da criatura era uma massa verde escura com tons de sangue negro. Sabrina se levanta e ofega um pouco, já montando o que deveria ter acontecido conforme fazia o caminho inverso, para fora da Igreja...uma invasão daquelas coisas no local, estudaram seus feitos e viram que a cidade costumava esvaziar quando havia culto, com todos entrando na igreja e ficando lá por horas...poucos guardas por fora, fácil, foi como entrar em um açougue. Reptilianos não ficavam sozinhos, nunca, mas tendiam a dormir e ficar sonolentos a luz solar...
 Ela sai da Igreja, a chuva apertou um pouco, mas não foi isso, nem a possibilidade de apagar sua tocha que a fez ficar parada no ultimo degrau branco.
 Foram as silhuetas, olhos vermelhos que começaram a aparecer na escuridão a sua frente. Primeiro só alguns, Sabrina contou dez pares...depois vinte...trinta...e por fim, os chiados e rosnados pareciam uma canção profana que a chamavam para ser engolida. Um relâmpago rasgou o céu e mostrou mais detalhadamente seus inimigos...Serpentes armadas com laminas rusticas, seus corpos esguios se levantando e abaixando, seus braços escamosos e magros fazendo uma especie de dança com suas armas e suas bocas abertas, com dentes finos e pontiagudos; Lagartos...Reptilianos de grande porte, escamas pareciam couradas, suas garras parecidas com adagas, bocas enormes e cheias de dentes contaminados com o mais puro dos venenos, uma calda grande e larga, tão forte quando seus braços, balançando de lá para cá...são burros pra caralho, mas extremamente fortes e ofensivos.


 Sabrina sorriu.
  - Podem vir... - Ela cantarolou, enquanto jogava a tocha fora e se entregava a escuridão, pegando um pequeno barbante negro em um bolso e prendendo os cabelos negros em um rabo de cavalo. - Podem vir, podem vir, podem vir! - Ela continuou, ajeitando seu escudo e pegando seu mangual. - Matarei vocês para os anjos poderem rir! - E de súbito tudo se iluminou um pouco, pois uma aura de luz a envolveu.


  As criaturas tomaram um certo susto. Estavam acostumados com gritos, pavor, medo de suas presenças, mas não aquilo...não uma guerreira se firmando contra eles e se "acendendo daquela forma".
 Sabrina avançou. As correntes tilintaram quando balançadas e a esfera pontiaguda de ferro acertou o primeiro, de cima para baixo, bem no meio da cabeça da Serpente, esmagando o crânio para dentro do corpo e fazendo o sangue escorrer. Ela já girava o corpo e a bola de ferro arrancou metade da cara de um lagarto, o jogando no chão, chiando em agonia e, foi só ai que eles vieram para cima dela, brandindo espadas e garras...e ela foi pra cima deles.
 Seu escudo de chocou contra armas, seus pés pisaram em corpos e sua arma os despedaçou. Sabrina girava seu mangual com força e destreza, com seu equilíbrio a corrente se dobrava de maneiras impossíveis e direcionava a pesada bola de ferro na ponta, destroçando a carne maldita que tocava, fazendo sangue e nacos jorrarem para todos os lados, combatendo as feras como se não houvesse amanhã em meio a chuva que vinha de cima e o barro embaixo de suas botas. A luz a sua volta só se intensificava a cada golpe, a cada nova morte, machucando os olhos sensíveis e os confundindo, só aumentando suas chances de vitoria. Aquela luz era a Grande Benção, o poder dos Clérigos de Marfim, um pedaço de Deus havia sido depositado nos corações dos guerreiros e que usavam tal poder para superar qualquer tipo de obstaculo.
 E em pouco menos de meia hora, Sabrina ofegava, cercada de carne morta e mutilada...exceto por UM deles, um dos Lagartos, por ser mais resistente a dor e mais difícil de morrer, foi escolhido por ela em meio ao combate e só teve suas pernas arrancadas pelo impacto de sua arma.
 Ofegante e ainda com a luz tomando conta de seu corpo, seu único modo de ver o que estava ao seu redor, Sabrina caminha até o inimigo que tentava rastejar para longe dali em um esforço patética, mas parou para rugir de dor quando em novos golpes de sua inimiga perdeu o rabo e um dos braços. O Reptiliano, prestes a perder a consciência, foi virado bruscamente para ficar de barriga para cima, tendo seu ultimo membro pressionado pelo grande escudo da clériga e um joelho em sua garganta. Sabrina, botando bastante força na garganta do inimigo para impedi-lo de cuspir qualquer coisa, encarou os olhos esbranquiçados do inimigo e rosnou na linguá inimiga.
 - URU SHINAIKADAI! SHASHIO SUSHU RASSAI! SHUSSU SODOSH? -  Reptiliano, claramente surpreso, voltou ao foco e olhou fixamente nos olhos da clériga que esperava uma resposta...e tudo que conseguiu foi uma risada grotesca e rouca do fundo da garganta dele. Sabrina depositou o mangual no chão e segurou a esfera de metal com suas pontas ensanguentadas...e encostou e começou a torcer na carne viva do membro mutilado do monstro. O que seria um grito foi um espasmo contido e um guinchado pelo peso da clériga em cima dele. Após alguns segundos, parou com a tortura e afrouxou o aperto em sua garganta, fazendo o Reptiliano respirar fundo e com dificuldade...e ela o questionou novamente na linguá deles.
 - FIQUE QUIETO! NÃO SE MOVA OU IREI TE MATAR! O QUE ACONTECEU AQUI? - E ela esperou até perder a paciência de novo e quanto iria esmagar o resto do cotoco daquele braço, ela começou a sussurrar repetidamente...
 - Shuku mussh...shuku mussh... - "Doze chaves, doze chaves...", Sabrina não sabia o que aquilo queria dizer, estava lembrando das palavras e das aulas que teve para formular uma frase de questionamento quando uma flecha, vindo de sua direita, atravessou a cabeça do monstro. Pasma, mas alerta, a clériga já se colocou de pé já olhando para de onde tinha vindo o tiro e viu a poucos metros dali um grupo de pessoas com tochas grandes e armas em punho e, um deles, o que estava na frente de todos, com um arco em uma das mãos, já começando a caminhar em sua direção.
 Eram Paladinos de Marfim, guerreiros da ordem e da Igreja. Eles vinham, com sorrisos nos rostos cansados e sujos, com tochas enormes em cabos de ferro alimentando chamas poderosas o suficiente para aguentarem as gotas de chuva forte que caiam. O jovem, aquele que tinha atirado a flecha, correu até ela e estendeu a mão para ajuda-lá a se levantar.
 - É muito bom encontrar alguém que... - Ele não terminou a frase, o punho de Sabrina o interrompeu, no lado direito do queixo, derrubando o rapaz no chão lamacento com poças de sangue diluído na chuva. O restante do grupo chegou, preocupado e alarmado enquanto via seu companheiro chegar ao chão e um dos Leões, com uma aura de luz, se levantar furiosa.
 - SEU FILHO DE UMA PUTA! - Ela gritou, pisando no estomago do Paladino. - ELE IA ME DAR RESPOSTAS E...NÃO INTERROMPAM! - Ela apontou o dedo em riste para o grupo que continuava alarmado, os fazendo parar e balbuciar.
 - Estávamos preocupados, achávamos que estava em perigo e...
 - EM PERIGO? - Ela solta o rapaz e caminha até aquele que falava com ela, chegando perto e desferindo um soco bem no meio do nariz, fazendo o rapaz cair no meio dos outros. - EU ESTAVA INTERROGANDO...OLHEM A SUA VOLTA, TÁ VENDO ALGUÉM VIVO? NÃO! SÓ EU! E VOCÊ VEM FALAR DE PERIGO? - Ela, respirando fundo, começa a observar aqueles homens a sua volta um a um, ignorando as tosses e os gemidos de dor dos que estavam no chão. - Quem são vocês?
 - Somos a Cavalaria do Capitão Inoki. Viemos pra cá, caindo em uma armadilha e...
 - Eram trinta homens, contando com o Capitão. - Ela os interrompeu. - Cadê o resto de vocês? - Os dez rostos empolgados ficaram tristes e cabisbaixos...
 - Tem mais quatro de nós, escondidos em um porão, aqui perto...o resto, incluindo o Capitão, não sobreviveu. - Sabrina só concordou e perguntou em seguida.
 - E o que você vieram fazer agora?
 - Viemos ver se tem comida por aqui. - Outro cara respondeu. - Onde estávamos acabou tudo.
 - Entendi... - Sabrina disse, enfraquecendo a aura a sua volta conforme ia se sentindo mais a vontade com eles. - Ok, só mais uma coisa. Nesse tempo todo que estão aqui...não tentaram escapar por que?
 - Porque temos de terminar a missão. - Outro respondeu, a direita de Sabrina. - Ainda temos de exterminar esses reptilianos e saber o que está acontecendo, com você aqui teremos uma chance. Agora, por favor, se "apague" e venha conosco até o local em que estamos...precisamos mesmo de uma líder agora. - Ela olhou para ele, o mediu...concordou com a cabeça e entortando a boca.
 - Ok. - Ela disse, deixando a aura se dissipar e dando um passo para frente.
 Ela recebeu uma joelhada no estomago e teve seus cabelos puxados por alguém atrás dela. A ultima coisa que sentiu foi coisas afiadas entrarem em seu pescoço e o mundo ficar turvo após um baque na cabeça...mas antes de cair, ela balançou seu mangual mais uma ultima vez, acertando de raspão um dos homens a sua volta. Sua face caiu na lama e seu corpo pesou mais do que nunca, mas ela lutava dentro de si, lutava para se manter consciente e viva acima de tudo...ela olhava, em meio a sombras e visões embaçadas, o rosto daqueles homens, ela queria marca-los...mas ai viu aquele que tinha acertado e ele limpou a ferida que havia recebido, deixando a pele descascar e cair para o chão, revelando um rosto escamoso. Um relâmpago cruzou os céus criando sombras com olhos amarelos a sua frente antes que finalmente tudo escurecesse.

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 Sabrina abriu os olhos e temeu que a cegueira a havia dominado quando na verdade o ambiente que era escuro e úmido. Um alivio percorreu seu corpo quando reparou um pequeno feixe de luz pálida vindo de uma janela lá em cima.
 Lá fora a chuva havia parado e a lua decidira brilhar, lá dentro a clériga se sentia melhor e mais acordada, sua visão se acostumava com a escuridão conseguindo observar silhuetas nela e sua atual situação. Suas pernas e braços estavam presas a correntes apertadas e firmes que a mantinham presa nas paredes da masmorra. Olhou para baixo e viu que estaria nua não fosse os panos que cobriam os seios e se enrolavam na cintura como uma saia improvisada, aquilo diminuía as chances de ter sido violentada nas horas que passou desacordada (ou teria sido dias?). Uma porta a sua frente, tochas apagadas, mais cadeados e correntes vazias ao longo da cela oval...e era isso, mais nada.
 Sabrina baixou a cabeça, deixando a cabeleira cobrir seu rosto e começou a rezar, já sentindo seu corpo ficar mais forte ao proferir as primeiras palavras, pedindo força, sabedoria e discernimento e, principalmente, uma forma de sair dali e terminar sua missão.
 Ela ficou ali durante um dia inteiro, só rezando, não vendo o Sol vir e trazer um silencio absoluto consigo e um calor de matar mas, logo quando se pôs, a chuva e o frio vieram cortante como a mais afiada das facas. Quando a lua ficou escondida atrás da nuvens, a porta a frente de Sabrina se destrancou e a luz bruxuleante de uma tocha veio acompanhada de dois pares de olhos amarelos que a observavam de cima abaixo. Um deles era o homem que ela havia arrancado a pele de seu rosto e ainda estava assim, um rosto marcado e ferido, revelando um segundo por baixo da pele, um com escamas esverdeadas...o segundo tinha a aparência de um camponês qualquer. Os dois caminharam pelo recinto, acendendo cada tocha presa nas paredes até metade da sala e depois voltando para cada canto da porta, a medindo e devorando com os olhos. O corpo de Sabrina e os longos cabelos negros já foi motivo de muitos problemas internos na Igreja e até mesmo no dia a dia...mas ser cobiçada por aquelas criaturas lhe pareceu a maior das afrontas.
 Mas o verdadeiro monstro só adentrou a porta após alguns segundos.
 Do corredor escuro, ele esgueirou lentamente até finalmente aparecer para a luz. Ele não tinha pernas como todas as Serpentes que já havia visto, mas Sabrina notou como seu corpo era maior, mais forte e sua postura tinha uma autoridade natural, seus braços eram fortes,  seu tronco era largo e "bem humano" para sua especie...tudo isso, combinado com sua pele que mesclava do negro ao branco, sua lança e suas "cristas" faziam clara referencia a sua autoridade como líder.


 - Boa noite. - Disse o Reptiliano ao entrar ao lugar, com uma voz bastante humana para a surpresa da guerreira. - Meu nome é Thulsa Ones. Sou o dono do cativeiro que aqui te mantém. - Terminou de dizer, apoiando as mãos na lança e parando de rastejar. Da porta até o ponto onde Thulsa parou, deveria ter cerca de cinco metros de comprimento e mesmo assim, o final de seu "corpo" não adentrou o recinto. - Chegou ao meu conhecimento que você é um dos Leões de Marfim...uma Leoa, é claro. - Ele voltou a falar, observando cada pedaço dela. - Uma ótima espécime de sua raça, será perfeito se colaborar...caso contrario, ficará com algumas cicatrizes. - A Serpente a segurou no queixo, a clériga fechou o maxilar com tal força que parecia que iria quebrar os dentes...mas a força de seus músculos não foi capaz de impedir que Thulsa colocasse seu rosto para cima, para baixo e depois para os lados.
 - Perfeito. - Ele concluiu, soltando-a e voltando a apoiar ambas as mãos na lança. - Criança...você irá se tornar, de uma forma ou outra, parte de mim e de minha ordem...se for por bem, poderá ser como eu...caso contrario, se recusando fará de você como eles... - e gesticulou para os homens atrás de si. - Com habilidades limitadas e sem grandes chances de crescimento...mas estou falando com o vento aqui, não é? Você é uma Leoa, treinada em todas as artes de combate e tortura...aposto que não consigo alcançar uma única centelha de colaboração sua. - Ele deu uma risada chiada que fez o estomago de Sabrina revirar. - Uma noa era vai surgir, criança. Seu Deus de Marfim é estupido e omisso. Os outros deuses são igualmente fracos e perdidos...sabe porquê? LUZ DEMAIS! - Ele disse em um leve rosnado. - Essa ideologia patética que vocês, peles macias, tem de que a luz é o único caminho e ignorando a ordem natural das coisas...ESCURIDÃO também faz parte da natureza, não é algo maligno, não é algo que se despreze, é parte da ORDEM natural das coisas. E já tem luz demais nesse mundo...cegando as pessoas, calor demais em suas mentes, as deixando cegas pra tudo...mas no escuro, quando Ele vier, vai tudo ser mais fácil, o escuro irá tomar sua parte devida da existência e mostrará a todos que é possível viver com ele...no escuro, sua visão não atrapalha, seu tato sentirá devidamente o sentimento alheio, seus ouvidos irão ouvir devidamente as palavras dos outros e sua voz irá falar somente a verdade. Tudo o que eu quero é que não haja mais mortes desnecessárias...mas se você não se juntar a nós, querida Leoa...eu terei de matar você...assim como matei antes...e dei os corpos para o processo de evolução...se você se voluntariar, ficará mais fácil...ou prefere ficar ai como uma Leoa sem garras até que a fome a leve e por fim...eu use seu corpo? - A Serpente parou de falar, por fim, esperando qualquer tipo de resposta ou dez segundos de silencio. O que veio foi um sussurro. Sabrina deixou a cabeça cair um pouco e começou a sussurrar palavras que não conseguiam ser escutadas nem mesmo pelos ouvidos aguçados de Thulsa que chegou um pouco mais perto, a garganta da mulher estava muito seca pra falar qualquer coisa em alto e bom som...
 - Sim? - Thulsa perguntou, chegando mais perto, mas o sussurro ainda era muito baixo...ele se arrastou um pouco mais perto, colocando o ouvido perto da boca dela...e conseguiu ouvi-la rosnar...
 - Essa Leoa...ainda tem garras! - E abriu sua boca e enterrou os dentes na jugular do monstro a sua frente que já começou a guinchar, gritar e se debater.
 Foi tudo muito rápido. O monstro se debatia, preso na boca da clériga que, com a força ganha por meios de oração mais cedo puxou as correntes que prendiam suas mãos e pés, as quebrando com facilidade, apoiando seus membros no corpo da serpente e a empurrando, soltando sua garganta e passando por cima dele em cima do chão. Os dois na porta só reagiram aquela altura, sacando espadas enferrujadas das bainhas gastas e avançando para cima dela, o primeiro tentando espeta-lá, o segundo a cortar de cima para baixo. Juntou todo sangue negro que estava em sua boca por causa da cobra e cuspiu no primeiro, tampando seus olhos com aquela coisa que mais parecia piche e segurando seu pulso, puxando para ficar no caminho da segunda espada que vinha a sua direção, a "ganhando" cravada na cabeça. A clériga disparou pelo corredor escuro com a voz de Thulsa atrás dela.
 - PEGUEM-NA! MATEM! CORTEM! DEVOREM! MATEM ESSA PUTA! - E ela continuou a correr, tateando na escuridão, fazendo curvas impossíveis até que, por sorte para os incrédulos, mas uma benção para ela, uma porta aberta e iluminada estava logo a sua frente. Passou por ela e logo avançou contra o guarda de costas, perto de uma escada, dando uma ombrada e o colocando contra a parede, já puxando seu pescoço e o quebrando em uma torção rápida, rezando mentalmente para que aquilo o mante-se morto. Ele também usava um manto da Igreja...quantos haviam sido controlados pela serpente?
 Ignorando as perguntas, ela pegou a espada curta da cintura do corpo, pegou uma tocha que tinha naquele local e disparou escada a cima, abrindo a porta de madeira e correndo novamente em corredores...e continuou sem rumo, desviando de onde vinha ruídos e sons de armas, sempre indo para o outro lado...ela estava fraca demais pra invocar sua Luz, demais para lutar...mas isso não a impediria. Sua corrida terminou quando viu uma placa em uma porta escrito "arsenal", entrando ali e fechando a porta num estrondo.

-

 Thulsa sentia o sangue coagular conforme a ferida se curava, mas isso não diminuía sua raiva. Já havia estrangulado o incompetente que deixará tudo acontecer dentro da cela mesmo e agora seguia o cheiro da vadia até o andar superior. Rodeado de seus soldados, lagartos e serpentes sibilavam ao seu redor conforme chegavam a porta do Arsenal.
 - VOCÊ! - Thulsa apontou para um lagarto aleatório, forte, quase batendo a cabeça no teto. - Abra! - O monstro obedeceu, indo até a porta e já cravando suas garras para arrancar a madeira de forma brusca...quando a mesma se despedaçou em uma explosão, com o lagarto sendo mandado para longe, atropelando seus "companheiros" conforme seu corpo se descolava pelo corredor. Thulsa desviou por pouco, se abaixando, suas mãos tocando o chão. Quando viram, o lagarto jazia caído com uma maça em sua barriga, cravada na carne, havia sido jogada com tal força que tinha feito tudo aquilo.
 Distraídos, eles perceberam tarde demais a ameaça.
 Sabrina apareceu da escuridão, sua Luz se acendendo em seu corpo, um pouco fraca, mas o suficiente agora. Dentro do arsenal achará sua armadura e seu manto, assim como seu escudo, que colocou nas costas e pegou uma nova arma...um martelo feito de prata, grande, de duas mãos, com seu cabo forrado de couro branco podendo ser segurado com firmeza. A cabeça do martelo havia sido moldada, agora era a face de um leão rugindo e sua juba se estendia até o outro lado, criando a verdadeira extensão da arma. Ela conhecia aquele arma, o Martelo do Rugido, seu senhor era um Leão, um comandante de tropas comuns que havia liderado a primeira investida de soldados naquela cidade...o Capitão Inoki.
 Com certa tristeza, ela pegou a arma para si, prometendo vingar devidamente a morte e o corrompimento de cada membro da Igreja. Quando percebeu que tinham achado seu esconderijo e tentavam entrar, pegou a primeira coisa que viu na frente e jogou contra a porta...acendendo sua luz em meio a fúria que havia criado e saltou para fora.
 Thulsa se retirou rapidamente do lugar, seu corpo enorme trombando contra todos conforme corria para longe da clériga que girava sua nova arma esmagando carne podre de reptiliano a cada golpe que dava. A face do leão ficou negra com o sangue maculado daquelas criaturas, e ela não parava, ataques era interrompidos, serpentes tiveram suas caldas puxadas ao tentarem fugir e tiveram um martelo em suas cabeças antes que pudessem gritar mais. Em alguns minutos, o corredor era um antro de corpos mutilados e esmagados enquanto Sabrina corria atrás de Thulsa. Ela acabou achando uma saída, subindo novamente uma escada e indo parar naquele corredor que havia encontrado a primeira Serpente e depois, saindo para a Igreja, onde os corpos podres ainda fediam.
 Por que havia uma masmorra nos fundos da igreja? Por que?
 Ignorando a pergunta por um momento, ela correu para fora e a chuva fria e forte familiar, já observando na lama e no meio dos corpos dos monstros que havia matado antes, o rastro de uma grande serpente que fugia para a zona rural.
 Sabrina começou a correr, seguindo o rastro, logo entrando na zona urbana, passando por casas, varais estendidos no meio da rua e depois seguindo para a única estrada que levaria até a zona rural. Correndo, arfando, com um martelo pesado na mão e um escudo nas costas em plena chuva, todas as dores de clériga rugiam mandando parar...mas ela não parou, só correu mais rápido...Sabrina, assim como os outros que foram contados aqui e aqueles que ainda serão contados não ouvem as dores, não ouvem os apelos ruins e chorosos do corpo, da alma ou de outras pessoas...não, eles são feitos de alguma coisa diferente dos demais, são devidamente especiais em matéria prima...são feitos daquelas coisas que os heróis são feitos, aquele material resistente e incorruptível que só esfria quando morre. Portanto, ela continuou correndo.
 Sabrina chegou em um campo largo que precedia os campos de plantação. A sua frente, uma casa grande de madeira e depois uma sequencia de árvores frutíferas...deveria ter ido para lá ou...
 ...
 A grama para o lado das plantações não continuava a trilha...fazia um desvio na direção da casa. Sabrina subiu os dois degraus de madeira, cruzou a parte de fora da casa e viu que a grama se abria de maneira agressiva subindo um pequeno morro...ela seguiu e quando chegou ao topo, contemplou Thulsa com os braços abertos falando em sua língua nativa a uma árvore...uma árvore que era uma mistura maldita de madeira, metal e corpos...corpos destroçados e presos uns aos outros de maneira grotesca, formando um tronco vermelho e podre e ramificações de braços e pernas...e daquela aberração saia uma especie de fumaça roxa, fumaça que era inalada pela Serpente em questão. O chefe do culto inalou tudo que podia e se virou para encarar a clériga.
 - VOCÊ SÓ ATRASOU UM POUCO MAIS O INEVITÁVEL! - Ele berrou em meio a tempestade. - VOCÊ PODE TER DISPERSADO MEU BATALHÃO, MAS AINDA HÁ INÚMEROS DE NÓS POR AI...ATÉ A SUA IGREJA É CORRUPTA! - Sabrina sentiu uma certa pontada na espinha...aquele tipo de pontada que ele falava a verdade...mas continuou em silencio. Thulsa girou sua lança e recolheu um pouco do seu corpo, ficando um metro mais alto e sua calda sibilou quando começou a falar. - VENHA CRIANÇA...VENHA E...
 Sabrina avançou antes que ele terminasse, o martelo descendo num espaço da imensa calda do ser, acertando em cheio, fazendo o monstro rugir brevemente, mas já avança mirando a ponta negra de sua arma para a mulher que se colocou de costas e fez a lança se chocar contra o escudo em suas costas, a clériga girou o corpo novamente e o martelo passou pelo ar rapidamente quando Thulsa conseguiu desviar...e se enrolou na moça, rapidamente a espremendo com seu corpo gigantesco. A força do aperto era o suficiente para fazer a armadura começar a entortar. Sabrina sentiu falta de ar conforma o ser fazia mais pressão e sua visão se tornou turva...a chuva caia impiedosa e de alguma forma fazia tudo ficar pior...foi quando Thulsa abriu as mandíbulas, deslocando seu maxilar e até mesmo seu tórax expandiu para dar passagem ao corpo dela. A Clériga seria engolida, seria derretida no interior da cobra e depois cuspida como os corpos que viu na Igreja...
 Foi quando ela começou a proferir...a orar...palavras que devem ser usadas somente em uma situação de emergência, a antiga linguá dos Anjos de Mármore que invocam o poder de Deus escondido em cada criatura da vida. Sua armadura começou a esquentar, o martelo preso no corpo da serpente, assim como ela, começou a ferver, a chuva ao redor começou a vir mais forte ainda e barulhos de trovão a cortar mais intensamente o céu. Thulsa hesitou um pouco ao perceber o calor que emanava dela, que aumentava a cada palavra proferida...ele pensou em espeta-lá com sua lança, acabar com o falatório mas agora era tarde demais.
 - AMÉM! - Ela berrou e um relâmpago iluminou os céus, cortou nuvens e desceu para a terra, em direção a ela. A clériga recebeu a carga de energia com prazer, gritando ao sentir o poder percorrer por seu corpo e explodir a sua volta, levantando terra e criando um show de luzes para quem estivesse vendo ao longe.
 Quase que imediatamente, a chuva começou a cessar...começou tudo a ficar mais calmo...o vento parou, a garoa ficava mais e mais fina e as nuvens pareciam se dispersar. Apoiada ao seu martelo, Sabrina ofegava, cansada...receber a energia de Deus não era brincadeira e ela já estava exausta de mais cedo...precisava recuperar o ar. Olhou ao redor quando sua visão voltou ao normal e viu o que tinha feito...ela se encontrava no meio de uma pequena cratera chamuscada, um pouco abaixo do nível do solo e ao seu redor, pedaços de cobra queimadas aqui e ali...Thulsa havia sido explodido, mas um gemido atrás dela fez ver que não tinha sido morto...ainda não.
 Com dificuldade, a clériga se levantou, carregando o Martelo do Rugido, deixando pedaços de armadura amassados caírem conforme caminhava. Thulsa tinha perdido seu corpo do tronco para baixo e o braço esquerdo e metade de sua face jazia queimada, com uma orbita negra no lugar do olho...mas se negava a morrer, respirando fundo e rapidamente, balbuciando coisas...
 - Você...não tem pra onde voltar. - Ele grunhia. - A Igreja...os Paladinos...a Ordem inteira está infestada com a minha especie...disfarçada de humanos...de outros seres...prontos para atacar quando o tempo for certo, para tomar nosso lugar de direito... - Com seu único olho, ele mira Sabrina, que se mantinha de pé, de cabelos molhados e armadura em pedaços, mas ainda com o queixo erguido e rosto firme. - Você...podia ser uma de nós...mas começou uma guerra...que não vai poder ganhar...você....podia ter me ouvido...por que...por que não me ouviu? Por que...
 A clériga segura bem na ponta do cabo do martelo e o levanta em cima de sua cabeça e diz.
 - Leões não comungam com Serpentes! - E depois abaixa o martelo, esfacelando o crânio do Reptiliano. Após isso, ela caminhou até a árvore profana e, invocando a ultima de suas forças, bateu com tudo no "tronco", a derrubando de uma vez.
 Então a exaustão a tomou de vez...e Sabrina caiu, desfalecida no chão.

-

O sol estava alto no céu quando Sabrina sentiu os lábios do cavalo mordiscando seu rosto. A clériga acordou grogue, mas se segurou na cela do corcel e se colocou de pé, já se jogando pra cima da cela, se equilibrando o melhor que podia. Olhou ao redor e, tirando os restos de cinzas que deveriam ser os restos de Thulsa e dos corpos que haviam sido usados na árvore profana...a grama estava verde e a plantação parecia bem viva. Uma tristeza percorreu seu corpo ao notar que, mais cedo ou mais tarde, tudo aquilo desmoronaria, uma vez que ninguém mais iria cuidar de nada daquilo.
 Ela foi até a taberna em que deixou o cavalo em primeiro lugar e agradeceu a Deus por tê-lo deixado vivo. Ignorou que tudo estava coberto com bosta, mas procurou os aposentos dos fundos e achou uma cama e uma dispensa com alguns alimentos ainda em bom estado. Se fartou do que podia e depois caiu na cama, acordando ao anoitecer, ficando esperta nas ruas ao som de qualquer coisa que saísse do comum...mas não, nem mesmo choveu, nem fez frio, era tudo o mais calmo possível. Relaxou e aquela noite, procurou em cada casa até achar um banheiro limpo e banhou-se, limpando seu corpo, a armadura e o manto, assim como suas armas. Ela não se deu ao trabalho de procurar seu mangual novamente...aquela arma não era tão importante assim.
 Após isso, no dia seguinte, logo de manhã, ela começou o trabalho mais árduo: Limpar a igreja.
 Cavou covas e enterrou corpos no cemitério local na primeira metade do dia, depois procurou novamente nas casas até achar esfregões, panos e sabão o suficiente para isso. Lavou a Igreja de dentro para fora e depois selou a masmorra definitivamente. Dois dias depois, o local estava devidamente limpo e purificado e ela tinha tomado sua decisão.
 Durante sua estadia no mais puro silencio e no mais puro trabalho, Sabrina ponderou sobre tudo. Um dos dons dos clérigos era saber quando alguém estava mentindo...e Thulsa não mentiu uma única vez pra ela. Não encontrou, por mais que procurasse nas casas ou nas masmorras, qualquer documento ou anotação que a fizesse souber qual era seu plano, da onde vinha aquela magia, qual era o tal culto que eles faziam...mas sabia que a parte de haver Reptilianos nas Igrejas era verdade. O que faria? Ela não sabia quão grande era a ameaça, quantos haviam sido possuídos ou trocados por esses monstros...
 No final das contas, só havia uma coisa a fazer.

-

 Sabrina fechou os portões da cidade e envolveu correntes nas argolas, dificultando a entrada de alguém. Pegando uma faca, ela começou a arranhar com força na madeira da porta, deixando palavras ali para quem passasse e quisesse ler. Subiu em seu cavalo, colocando o martelo junto a cela e seu escudo nas costas. Deu o comando e começou a trotar de volta para casa.
 Só havia uma coisa a se fazer.
 Encarar a distancia, o desafio.
 Esmagar o mal, onde quer que ele esteja, quem quer que ele seja.
 Ela estava indo colocar ordem na casa. 


 E quem passasse pelos Portões de Miridium,
leriam aquelas palavras cravadas na madeira
que logo se tornariam a premissa de todas as lendas de Sabrina.

A LEOA ESTEVE AQUI!

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