quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Imortais - A Águia


Para Thay


 Nevava. Lá fora e dentro dela.
 Seus cabelos loiros ainda estavam úmidos pois havia pego a nevasca antes de se abrigar na gruta. A vestimenta de couro absorvia o calor do fogo, mas não a queimava nem aquecia demais, pois os panos e vestimentas internas não deixavam tal calor chegar em contato direto com a pele. Suas calças de algodão verde escuro recebiam o toque de suas mãos urgentes, indo e vindo, para ajudar a aquecer as pernas. Suas botas, remendadas e negras, não aqueciam seus pés devidamente, por isso os deixava perto do fogo. Sua aljava pendurada na parede, ao lado, graças a uma faca de caça cravada ali. Seu arco estava bem do lado, no chão, junto das luvas e braceletes e, mais a frente, um manto, bem esticado no chão, para secar sua pintura improvisada. Fácil de pegar, caso algo acontecesse.
 E claro, Aurora estava ali, emplumada ao lado dela, mas Ayna decidiu não recostava na amiga hoje...ela queria se sentir sozinha naqueles dias, queria ser o mais individualista possível. Aquilo tornava tudo um pouco mais fácil.
 O fogo fervia a panela e qualquer pessoa que visse de longe, pensaria se tratar de uma caçadora, preparando algo para comer, algo pequeno que pegou para conseguir ter energia para amanhã pegar algo devidamente grande.
 De certa forma estariam certos. Ela era uma caçadora...ao menos, agora era, mas nem sempre foi, mas ela ia pegar algo grande amanhã. Só que o que cozia não era nada que devesse ser ingerido voluntariamente.
 Era uma mistura de seiva de Arvore Azul com veneno de Mamba Negra. Letal em todos os sentidos, causando uma morte dolorosa em poucos segundos, deixando um cadaver em pessimas condições pra um enterro com caixão aberto. Algumas pessoas chamariam aquilo disso mesmo, de veneno. Mas ela, não.
 Ayna chamava aquilo de Cura.
 E pela manhã, todas as suas setenta flechas haviam sido mergulhadas no liquido negro e viscoso e colocadas em ordem e com cuidado na aljava.
 Elas começaram a correr pela floresta antes que o primeiro passaro pudesse piar.


 Ayna, filha de Lucy, havia nascido na cidade de Zodoma, Capital de Onorra, um Reino a Sudoeste do continente. Em Zodoma, a vida selvagem é bem respeitada, principalmente os Plume, uma raça de pássaros bípedes, fortes e ágeis e doceis, muitas vezes sendo usados como montarias por magos e alguns cavaleiros até. Porém, um Plume deve deixar você montar nele, ele escolhe seu dono, pois todo aquele que monta em um Plume, estará destinado a grandes coisas. Quando Ayna deu seu primeiro choro, um ovo de Plume, que sua mãe tinha em casa, acabou se chocando, revelando um pássaro forte de penas douradas, assim como os cabelos da menina. A mãe da criança tinha o ovo em casa para fins culinários e nada mais, porém quando viu a criatura e como ela era atraída pela sua filha, decidiu mantê-la junto de si, criando os dois novos bebês em casa. Colocou o nome do pássaro de Aurora, pois nasceu ao amanhecer, e a menina de Ayna pois, de todos os sons que o pássaro fazia, Aurora só "dizia" algo parecido com Ayna quando se aproximava do bebê.
 A menina cresceu e seguiu, durante um bom tempo, o oficio da mãe, de caçadora. Lucy criou e ensinou tudo sozinha a sua filha que, apesar de demonstrar uma grande habilidade, igual a mãe, preferiu seguir um caminho diferente, algo mais voltado a ajudar as pessoas do que só alimenta-las por um preço. Zodoma era conhecida por sua escola de medicina, com usos mistos de materiais extraordinários e magia, os Doutores de Zodoma eram respeitados em qualquer canto do mundo e muitas vezes requisitados nos quatro cantos do mundo, também servindo como emissários do país. Ayna começou a se esforçar e estudar para entrar na tal escola e foi o que fez, começando a frequentar as aulas com cerca de 16 anos e se formando aos 20, exercendo a profissão logo em seguida, conseguindo fazer a parte de cima do açougue da mãe ser seu consultório. Notoria era a habilidade da magia e de poções da moça, ajudando quem precisasse da melhor maneira possível, carregando enfermos nas costas de Aurora sempre que possível. A Plume tinha agora mais de 2 metros e era muito forte, mesmo para sua especie e raramente reclamava. Foram bons dias para ela, dias em que sorria com tanta facilidade.
 Mas a vida nunca foi feita pra ser um mar de rosas, caso contrario, nunca amadureceríamos.
 Um conflito de iniciou após quase um ano de sua formatura. Alguma coisa aconteceu nas regiões das Florestas Esquecíveis, como seu povo a chamava, e o chão havia desabado em uma área tremendamente grande, devastando florestas e monumentos considerados sagrados para um povo que vivia aos arredores. Alguns boatos ainda dizem que sua divindade morava ali e que ela fora morta por uma Caçadora. Outros dizem que uma pantera foi o motivo da destruição. Mas o que acontece é que, uma vez sem lugar para viver adequadamente, as inúmeras tribos barbaras que residiam ali começaram a procurar asilo em outros lugares, destruindo tudo em sua fúria e em vingança contra o mundo por seu deus ter sumido e, nessa caminhada de devastação, chegou nos arredores de Zodoma. As tribos, apesar de seu aspecto selvagem, eram tremendamente bem preparadas para a guerra e começaram a fazer Zodoma usar todos os seus recursos para dar cabo dos selvagens, sempre impedindo seus homens de sequer subir os muros de concreto. Vendo uma oportunidade de continuar ajudando as pessoas, Lucy e Ayna (consequentemente Aurora), se alistaram como arqueiros a serviço do Rei. Foram longos dois anos de cerco e mortes, mas um dia, em um ataque desesperado, onde as tribos selvagens reuniram todas as suas forças, os militares a serviço de Zodoma foram capazes de exterminar de uma só vez o inimigo. Ayna, que sempre ficou em torres ou no topo do muro, naquela vez, foi obrigada a entrar no campo de batalha por causa de suas habilidades médicas, mas ela nunca usou qualquer lamina contra qualquer tipo de ser humano, ela só atirava com seu arco e qualquer instrumento afiado que tinha consigo era sempre usado para procedimentos médicos e nada mais. Uma vez questionada sobre isso, Ayna só respondeu:
 - Laminas só trazem felicidade se for para curar ou cozinhar. Matar não trás felicidade a pessoas boas. Por isso faço isso de longe...pode até ser uma postura hipócrita de minha parte, mas é o que me permite dormir a noite.
 A caçadora, então, após o fim do conflito, sem flechas, cansada, ainda conseguiu gritar vitoria, por um curto período de tempo...até que foi chamada aos limites dos muros, onde sua mãe havia sido vitima de um ataque de lança, onde havia perfurado o coração da moça. Ayna não chegou a tempo de ouvir as ultimas palavras da sua mãe, mas as recebeu de um cavaleiro que segurou as mãos dela até o fim.
 A mãe de Ayna só disse "Siga em frente".
 Ela foi cremada em uma pira funerária acima de um morro, longe dos outros. Somente Ayna e Aurora estavam lá e foi assim que a médica queria. Ela nunca gostou de ninguém a visse chorar.
 Ela seguiu seus dias de luto, mas firme em suas tarefas, voltando a atender pacientes antes mesmo de limparem e reconstruírem os limites da cidade e ela seguiu sozinha até a neve começar a cair.
 Ayna teve de fechar o açougue da família, a renda havia decaído bastante, mas conseguia se sustentar com o salario de medico, ainda mais quando voltou a suas praticas de caça, durante finais de tarde a noite, onde conseguia pegar animais maiores, muitas vezes carnívoros, que habitavam as florestas de Zodoma, conseguindo se alimentar sem gastar, praticamente, nada. Com a ajuda de Aurora, nenhuma caçada foi de grande risco.
 Foi voltando em uma dessas aventuras, carregando um enorme porco selvagem nas costas de sua Plume, que Ayna ouviu o lamentar. Um resmungo se seguiu e depois o som de pés se arrastando. Ayna já tinha lutado demais durante a guerra pra saber que aquilo era barulho de homem ferido. Ela montou em Aurora e começou a correr ao som que se fazia ao longe, com seus olhos acostumados a escuridão e silhuetas criadas a partir da luz da lua, ela encontrou o caminho rápido a uma trilha na lateral da floresta, onde viu um homem da mesma altura que ela, cabelos negros que lhe caiam pelos ombros, pele um pouco morena que, dali, ela podia ver uma certa palidez tomar conta de seu rosto...olheiras horríveis tomavam conta de seus olhos, andava curvado e com uma das mãos no abi domem.
 Ayna o pegou antes que caísse no chão. Ele ardia em febre e sussurrava coisas que não conseguia compreender.
 A Arqueira o colocou em cima de sua montaria e o carregou para casa. Colocou água para ferver e deu um banho no homem inconsciente, o colocando na cama após isso. Começou os procedimentos de analise magica e mistura de ervas e, quem quer que seja o homem, estava com todas as costelas do lado esquerdo do corpo fraturadas, cortes profundos na carne na região da barriga e das pernas. Tinha perdido muito sangue, ela tinha de agir rápido. Fez as pastas necessárias, depositou nos ferimentos e ficou a noite toda conjurando encantamentos para colocar os ossos no lugar. Exausta, ela só não desmaiou porque Aurora gritava no seu ouvido para que acordasse...ela se alimentou e achou um leito apropriado e dormiu durante um dia todo. Quando acordou, o homem não havia acordado, mas a febre dele tinha baixado. Assou parte do porco, viu se tinha alguma emergência na cidade e ficou feliz ao saber que não, tomando conta só da sua casa e do seu visitante misterioso. Depois de mais outro dia, ele acordou.
 Assustado, ele tentou levantar da cama com um tranco e só lhe causou dor e incomodo. Ayna o acalmou e explicou tudo o que deveria saber e como foi encontrado. O jovem pediu água e acabou por beber uma jarra inteira, até que veio as apresentações. O nome do jovem era Veru e era um guerreiro andarilho, um aspirante a poeta e intelectual, mas ninguém podia dizer que era, de fato, inteligente e carismático e acabou por conquistar Ayna e até mesmo Aurora. Ele ficou por perto, tempo o suficiente para se recuperar, depois para trabalhar com ela, com a desculpa de pagar o favor recebido...não demorou muito e estavam dividindo a cama, a banheira e tudo mais. Pela primeira vez na vida, Ayna amou alguém.
 Alguém que saia para caminhar sozinho e voltava na calada da noite, as vezes com raiva, as vezes com alegria, mas sempre com as mãos frias. Alguém que se mostrou muito bom no uso de rituais com ervas, conhecimento da geografia local e certo talento com manuseio de metais.
 Apesar de certas manias, Veru era uma boa companhia e trazia paz a ela, alegria e amizade com todos da cidade, trabalhando em conjunto com todos.
 Ninguém suspeitou deles quando as crianças começaram a desaparecer. Ninguém suspeitou dele quando, já havia sido constatado antes, o desparecimento de seis funcionarias do bordel ao norte da cidade. Ninguém suspeitou dele quando começou a sumir magos e magas de baixa classe e itens diversos aqui e ali. Ninguém suspeitou dele...até o dia do grande incêndio.
 Ayna ficou o dia inteiro em seu consultório, cuidando de algumas crianças doentes. Parecia haver uma epidemia de gripe na região. Foi por volta do por do Sol e que tudo ficou quieto...absolutamente tudo. Sem vento, arvores se mexendo, nem nada do tipo...só, subitamente, o som de uma risada...forte, grave e que ecoou por toda a cidade, seguido do som de uma explosão. Ayna, pegou seu arco, montou em Aurora e pulou para fora do consultório o mais rápido possível e começou a correr pelas ruas, para poder saber o que estava acontecendo...foi facil ver a coluna enorme de fumaça que vinha do Templo Principal, o cheiro de queimado vindo com força total graças ao vento que decidiu vir de uma vez só.
 Ayna bateu nas rédeas da montaria e a Plume saltou para cima das casas e dos pequenos prédios, tamanha era sua agilidade, força e velocidade. O pássaro dourado evitou a multidão ao pular as moradias, mas quando chegou ao centro, começou a correr por entre elas mesmo. Foi quando a Arqueira percebeu, olhando ao redor...ninguém vinha ao local...nenhuma força armada estava indo para lá, ninguém, só ela...
 Quando as ruas ficaram vazias, ela sabia que estava perto...e quando virou a esquina e deu de cara com o que restava do edifício em chamas, outra explosão se deu e ela e Aurora voaram para trás, rolando na calçada. Com a visão embaçada e o corpo fraco, ela se apoiou no seu arco e se colocou de pé...e olhando por entre a fumaça, entre o fogo...ela pode ver seu amado. Veru estava de pé, entre os escombros e sangue pintava seu braço até os ombros, seus olhos não eram mais o castanho convidativo, mas eram verdes, um verde estranho que emanava tudo de ruim que se podia ter em um homem.
 Ele sorriu para ela quando uma enorme sombra apareceu atrás dele. Por fim, ele disse, em alto e bom som.
 - Obrigado!
 Deu as costas e desapareceu em meio as chamas.
 Ayna ficou de pé e ia correr atrás dele, mas foi quando a cavalaria chegou. Espadachins em cavalos, magos em Plumes e cidadãos preocupados a pé. E antes que pudesse entender a situação, lanças e espadas eram apontadas para ela.
 Ayna era suspeita de tudo aquilo que estava acontecendo.
 Ficou em uma prisão na delegacia local por dois dias até ir a julgamento, em uma cela apertada junto com sua Plume. Por ser conhecida por todos desde pequeno, pode sempre mostrar boa índole e talvez um pouco de sorte também, Ayna foi inocentada e buscas começaram a ser feitas pelos batedores e cavaleiros locais, tentando trazer Veru a justiça. Nada foi realmente encontrado, somente mais sinais de incêndios por um local até outro e depois, tudo havia sumido.
 Mas Ayna não fica quieta. Não por muito tempo.
 Após sair da prisão e receber seu termo de Inocência, ela voltou para casa e fechou o consultório. Ela e Aurora ficaram se preparando durante nove dias, até finalmente terem conseguido cada ingrediente, cada provisão, cada mapa e cada centelha de coragem que elas tinham.
 Um dia antes de sair de casa por um bom tempo, ela entregou a copia da chave a uma família de confiança nas proximidades...depois foi até o sótão e desembrulhou um velho baú grande, destrancando seu cadeado e revirando os panos dentro, revelando seu conteúdo. Eram as coisas da sua mãe. Havia um manto, botas e algumas joias, mas ela só pegou uma coisa ali.
 Seu arco.


 Um arco simples, de certa forma modesto, que sua mãe carregou durante sua vida toda. Ela afirmava, com certeza, que havia ganho de um elfo da floresta depois de ajuda-lo a caçar, muito antes da menina nascer. Ela dizia que o Arco tinha a Benção da Águia.

 A Benção da Águia é a benção destinada aos fortes. Como descobrimos, águias tem de fazer uma escolha em sua vida...um dia, elas devem se recolher em um canto de uma montanha e se auto flagelar, arrancando suas pernas, quebrando seu bico, passando dor imensa...mas tudo para que seu corpo se renove, para que fique mais forte e viva mais. É assim que é para todos aqueles que usam este arco ou estão destinados a toma-lo para si, minha querida. Passaremos dores inimagináveis durante a vida para que, um dia, possamos voar mais fortes e ir mais longe do que nunca poderíamos antes. Portanto, Ayna, se um dia este arco for seu, eu espero que seja após a dor, após todos os problemas terem passado...mas caso não seja, caso ainda esteja mergulhada nas dores e duvidas e chegue a tomar o arco, eu só tenho mais um conselho pra te dar:

Mire no coração!

 Ayna sorri ao lembrar das palavras da mãe.
 A caçadora seguiu, durante a madrugada, até o local do incêndio e seguiu o rastro obvio, seguido antes pelos batedores da cidade. Demorou cerca de uma hora de analise no escuro, somente iluminada por uma tocha...mas ela finalmente viu o que não era obvio e seguiu o rastro, montada em Aurora, disparando pela floresta.
 Uma semana depois, ela achou o maldito. Se recolheu em uma caverna e esperou pacientemente seu cozido e a neve cair.

-

 O sol ainda levaria uma hora pra nascer quando um dos homens decidiu sair de perto da fogueira para se aliviar. No caminho para a arvore mais próxima, ele já começou a tirar as inúmeras peles que serviam de proteção frio. Dois amigos seus, sentinelas tão preguiçosos quanto eles, raspavam suas tigelas de um guisado de coelho que havia sido feito as pressas. Ninguém vinha até aquela parte da floresta, a caça era muito escassa pra se arriscar, ainda mais nessa época do ano, onde o frio e a neve afasta as pessoas. O chefe sabia disso, mas insistia que se precisava de segurança acirrada, mas...eles nunca levaram a sério.
 Mesmo se levassem a sério, eles não teriam conseguido ver, entre as arvores, o manto pintado de marrom e branco em tons tão harmoniosos que causava a perfeita ilusão e camuflava a arqueira. Talvez eles conseguiriam ouvir a madeira estalar levemente conforme o arco era puxado e as três flechas entre os dedos de Ayna se encaixavam estrategicamente na fina corda...mas com certeza ouviram as flechas assobiarem, mas já era tarde demais. Ao camarada que iria se aliviar, uma flecha na cabeça. Aos outros dois, na garganta. O único som que fizeram foram o de seus corpos caindo no chão.
 Ayna não pulou para o chão...mas saltou até a próxima arvore...e depois para a outra e para a outra. Só tocando a madeira com seus pés, com um equilíbrio perfeito, ela voava,de galho em galo, arvore a arvore, seu manto e seu capuz lhe dando a pouca visibilidade que lhe era preciso...avançando pouco a pouco. Aurora a seguia de longe, fora do perímetro especificado, só esperando algum sinal especifico para ir ao auxilio da dona.
 Mais três homens lá embaixo, estão para entrar em uma pequena cabana de madeira. Carregam lanças e estão rindo de alguma coisa. Ela para em um galho especifico, curva as pernas e prepara mais flechas...e dispara. Os três caem em uníssono, com flechas nas nucas, varando seus narizes. Ela prepara mais uma flecha e espera...e só sai dali quando tem certeza de que ninguém mais está dentro do lugar. Ela volta a pular nas arvores.
 O caminho que seguia logo se tornaria uma clareira, e logo se tornariam uma passagem estreita que depois daria numa enorme rachadura em uma montanha. Ayna sabia que Veru estava lá dentro, usando o local como sua fortaleza, colocando seguranças por fora, para proteger o que quer que estivesse fazendo lá dentro. De longe, com uma luneta, ela conseguiu ver luzes vermelhas lá dentro, sombras de labaredas dançando.
 - Você vai morrer. - Ela proferiu, entre uma arfada e outra. - Você vai morrer, Veru. - E continuou correndo, com o misto de lembranças boas e ruins sobre o homem, dançando em sua mente, fazendo arder velhas feridas.
 Ótimo. Um pouco de motivação não faz mal a ninguém.
 Não encontrou mais nenhuma resistência quando teve de chegar ao chão, quando as arvores começavam a ter muito espaço entre elas, como se aquele pedaço não fosse preciso ter nada demais...muito estranho. Ela segue pela neve, até uma encosta de um morro rochoso onde teve de subir bem devagar...ao chegar ao topo, subiu bem devagar, olhando primeiro. Um acampamento se seguia, com homens armados, barracas de pele levantadas, até um estabulo improvisado. Eram guerreiros bárbaros, tribos nômades e selvagens, todos cobertos com peles e couro fervido, capacetes encaracolados e pontudos, carregando marcas de guerra vermelhas no rosto, a maioria com lanças ou cimitarras. E por trás desse acampamento militar improvisado, estava a montanha, com sua grande rachadura, porém lá dentro, era só a mais pura escuridão.
 Mercenários. Nada mais do que isso. Porém aparências já a enganaram antes e Ayna sabia que eles poderiam ser bem treinados, talvez fosse melhor...
 Um tremor a quase faz cair. Algumas pedras se soltam e os guerreiros olham para dentro da montanha, na rachadura enorme. Luzes vermelhas vieram, fogo ardeu em seu interior e o que fosse que aquilo significava, fez os soldados levantarem suas armas e rugirem de alegria, mais pura felicidade.
 Ayna estranhou tudo aquilo...era demais até pra ela entender, mas ela sabia, sentia que Veru estava lá dentro e que ele iria pagar por todas as vidas que tinha tomado e por tentar destruir a sua. Ela precisava de um plano, precisava armar alguma coisa pra tudo aquilo.
 Se agarrando em cada pedra, cada fissura, ela percorreu a encosta do morro e os arredores do acampamento...até que achou o local da dispensa, onde barris e barris de cerveja se encontravam.

-

 Veru estava cansado, suado e sujo. O sangue seco criava crostas em sua pele e fazia coçar, mas sabia que aquilo seria um desrespeito ao seu senhor e ao Soberano. Após o ritual, ele deveria se lavar em água fervida, enquanto fazia sua oração, só desse jeito sua purificação não insultaria Moloch...afinal, seu soberano sabia que os humanos devem se limpar, caso contrario pegam doenças e se tornam inúteis perante toda fragilidade...e Veru havia sido de ótimo uso para o Soberano Moloch a ponto do Deus reconhecer sua limitações, assim como reconheceu as de seu senhor...o único acima de sua hierarquia...mas não por muito tempo.
 Ao começar seu caminho para fora da montanha, entretanto, algo o inquietou. Normalmente, havia barulho...muito barulho, canecas se batendo, conversas altas, lutas, as vezes até o chocar de laminas entre esses selvagens...mas nessa hora, estava tudo silencioso.  Até na hora de dormir, os roncos e xingo faziam a noite ser incomoda...mas agora...
 Ele saiu, seminu, somente com sua tanga e o corpo empapado se sangue para o frio lá fora, onde o crepúsculo se acentuava. A visão o fez estremecer, mas não de frio.
 Seus homens jaziam caídos, cada um deles. A maioria com canecas nas mãos, outros, com flechas em suas costas, mas todos no chão, com espumas brancas lhes cobrindo a boca, olhos revirados cheio de veias e a pele em um tom branco igual a neve.
 Antes de proferir qualquer palavra, ele sabia quem tinha feito aquilo...e gritou de dor, se caindo para trás, quando uma flecha o atingiu no ombro, outra no meio do seu joelho. Ayna saiu de trás de uma das barracas, já preparando outra flecha. Após mergulhar algumas flechas envenenadas nos baris de cerveja, esperar que eles morressem um a um foi fácil...alguns não estavam com sede, ela teve de colocar fim ela mesma. Fácil...bem fácil. Aquilo tudo estava estranho demais pra ela até que ela viu o homem que amou um dia sair daquela escuridão...encharcado de sangue. Não hesitou antes, não hesitou agora...
 Quando chegou perto o suficiente, pisou com força na barriga dele, o fazendo guinchar.
 - Ayna... - ele falou, em suplica..mas parou de falar quando ela meteu uma flecha no meio do seu peito, atravessando o coração.
 - Essas flechas não tem veneno. - Ela disse, com calma, sem emoção alguma em sua voz. - Você vai morrer, devagar, olhando pra mim enquanto faz isso...entendeu? - Veru cuspiu sangue e olhou para as flechas cravadas em seu corpo...então, olhou para ela, com espanto. Ela chegou um pouco mais perto e continuou dizendo. - No final...você é só mais uma doença...e eu fui a cura.
 Veru olhou de novo para os ferimentos...olhou nos olhos da arqueira e disse...
 - Corre. - E caiu para trás, ainda vivo, mas entrando em choque. Ayna não entendeu direito o aviso...até que a terra tremeu de novo e uma nova voz saiu da montanha.
 - VERU! - Era uma voz grossa, "rasgada", como se saísse bem do fundo da terra. - SEU CALHORDA INSIGNIFICANTE! - A voz voltou a rugir...e de repente a terra tremeu. - VOCÊ VAI MORRER! E POR CAUSA DISSO, O RITUAL IRÁ RETROCEDER ATÉ O ZERO! - O som de algo batendo veio, rochas se rachando com o impacto e caindo no chão...como alguma coisa grande, muito grande, socando a parede do interior da montanha, a fazendo tremer. - EU VOU ESMAGAR O SEU CORPO E SEU CRÂNIO VAI PARA MINHA SALA, SEU PEDAÇO DE MERDA! - E então uma sombra se projetou de lá de dentro da enorme rachadura, logo em seguida saindo para os raios laranjas de Sol entre as arvores, revelando o dono da voz, relevando o dono de Veru.
 O Ogro ergueu sua clava e rugiu.


 Veru ainda estava vivo quando o instrumento esmagou seu corpo e o transformou em nada mais do que uma poça de sangue espalhada pela neve. O sacode do chão com o poder da arma fez Ayna acordar, saindo daquele transe maldito que o choque da visão a fez passar. Ela, inconscientemente, havia dado passos para trás, e isso acabou salvando sua vida.
 O ogro era enorme, cinco metros. Corpulento, musculoso, tinha vestimentas de tecidos ralos e couro fervido, com pinturas ao longo de toda sua estatura, até mesmo na face, com um certo ar ritualístico. Sua arma era uma clava, uma mistura maldita de metal e madeira crua e dela, o cheiro de sangue era perceptível até para a arqueira.
 - ACHO QUE FICAREI SEM CRÂNIO DESSA VEZ...HUMANO DE MERDA!  EU ME CONTENTO COM O DOS SEUS PAIS E DO SEU IRMÃO! - Ogro se colocou de pé, passando uma das mãos nas três caveiras em seu cinto, segurando sua arma na outra, até que olhou para a Arqueira. - E HORA...VEJA O QUE VENTOS GELADOS ME TROUXERAM... - Os reflexos de Ayna não funcionaram dessa vez. O ogro estendeu a mão e a pegou rapidamente, seu tronco e braços sendo espremidos na palma gigantesca do monstro cinza. - UMA ÁGUIA QUEBRADA... - Completou sua frase e riu, o monstro, em tom de escarnio. Ele a trouxe para perto de si, enquanto se debatia, e inspirou forte em cima dela, fazendo seus cabelos subirem com a força de tal ato. - AAAAH SIM...EU TE CONHEÇO! NÃO IMPORTA A FORMA QUE SEU ESPIRITO TENHA, EU CONSIGO VER AS RACHADURAS, CRIANÇA...CONSIGO VER O CRISTAL QUEBRADO QUE FOI VOCÊ UM DIA...E ESSE CHEIRO, É O CHEIO DA...COMO VERU SE REFERIU A VOCÊ? - Ele olhou para cima, pensando, olhando. - AÉ...A VAGABUNDA BURRA! - Ayna parou um segundo de tentar se soltar. O choque daquelas palavras a percorreu, assim como o risco de quebrar o arco caso ela se mexesse demais ou o ogro a apertasse mais. - SE TE SERVE DE CONSOLO, VOCÊ NÃO FOI A PRIMEIRA, DE LONGE A SEGUNDA...MAS FOI A ÚNICA QUE CONSEGUIU SE LIVRAR DESSE PEDAÇO DE MERDA...DEUS MOLOCH ESCOLHE SABIAMENTE SEUS SERVOS, MAS DESSA VEZ, ELE...
 - AURORAAAA! - Ayna berra bem alto, o ogro levantou uma sobrancelha e já iria apertar mais ainda a menina por interrompe-lo...até que o som de patas pesadas e um grasnado alto e poderoso veio a sua esquerda, o fazendo virar...e receber uma bicada bem no olho esquerdo. Aurora, a Plume, cravou as garras no rosto do monstro após deixa-lo "meio cego", e voltou a bicar em todas as direções. Em um espasmo, o ogro soltou a arqueira, mas a jogou em uma distancia considerável, a fazendo rolar pela neve até parar de uma vez. Ayna levantou quase prontamente e inspirou o máximo de ar possível, estalando cada costela que tinha..mas quando voltou a si, não teve tempo de formar qualquer tipo de pensamento, pois Aurora corria na sua direção e, atrás dela, o ogro, com uma mão cobrindo um lado do rosto, ensanguentado, e na outra mão, sua crava, a brandindo o mais alto que podia.
 Ayna tirou seu manto, que impedia muito de sua mobilidade, e segurou na rédea da Plume quando ela passou perto de si, se puxando para cima dela em meio a sua corrida. O ogro começou a correr, balançando a clava no ar, derrubando arvores e levantando neve em suas investidas.
 - VACA! - Ele rugiu - EU VOU SACRIFICAR VOCÊ PARA DEUS MOLOCH! MEU SENHOR EI DE VOLTAR A ESSE MUNDO! - E começou sua perseguição na floresta, derrubando tudo a sua volta. Ayna, se sentindo melhor e com oxigênio correndo propriamente em seu corpo, tentou puxar uma flecha da aljava...não saia. Estava danificada, quebrada, dobrada para dentro, segurando as flechas ali.
 - SEU MONSTRO IMUNDO! - Ela gritou, soltando fumaça da boca e fazendo o monstro rir. Se equilibrando o melhor possível em cima de Aurora, que corria e saltava de tudo no caminho para fugir daquele ser, Ayna tirou a aljava das costas e começou quebra-lá, livrando suas flechas...e com dor no coração, viu que mais da metade delas havia quebrado...só sobraram cinco. Ela as segura na mão esquerda, junto com seu arco e monta uma estratégia rápida na mente.
 A arqueira rosna e segurou as rédeas de sua montaria.
 - Acelera, Aurora! - E a Plume a obedeceu. Eles estavam chegando na floresta de antes, aquelas com arvores bem juntas, o suficiente para que ela pulasse de galho em galho. Ela iria, então...
 A nuca de Ayna se arrepia, a fazendo olhar para trás. Ela vê a tempo de tombar o corpo e puxar as rédeas do Plume com força o suficiente para que as duas caiam e derrapem pela neve. A clava do ogro passa de raspam por elas e despedaça duas arvores a frente de seu caminho. O chão treme quando a besta chega perto, rindo, com as duas mãos tentando pegar a garota. Ayna está presa, Aurora não consegue se levantar a tempo, ele vai pega-las. Sem mirar direito, Ayna pega uma das flechas e puxa com tudo e dispara...o projétil pega no joelho direito da criatura. O ogro guincha antes de tropeçar e cair e joelhos, fazendo a flecha entrar por completo na cartilagem. O monstro ruge e em seu momento de dor, Ayna consegue se levantar, junto de Aurora e correr para dentro da floresta densa.
 - AYNAAAAAAAAA! - O ogro rugi o mais alto que pode. - EU VOU TE MATAR! - Ele consegue se levantar e, sem se preocupar muito com a flecha, manca até a floresta, empurrando as arvores como se fossem nada para ele. - VENENO DE MAMBA NEGRA...EU CONHEÇO ESSA DOR CHATA...MAS NÃO VAI FAZER DIFERENÇA PRA MIM...NÃO, SENHORA! - Ele riu, se agachando e pegando sua clava enorme de volta. - QUER SE ESCONDER? - Começou a gritar mais alto, batendo uma vez com vontade sua arma no chão, causando um puta estrondo. - SE ESCONDA! SE ESCONDA E EU VOU TE CAÇAR! PEGUEI SEU CHEIRO, GAROTA! PEGUEI TEU FEDOR E VOU TE SEGUIR ONDE QUER QUE VÁ E EU VOU MATAR E DESTRUIR QUALQUER LUGAR QUE VOCÊ TENHA PASSADO! - Fúria dominou sua voz. - MATOU MEU PUPILO! DESTRUIU MINHA CHANCE DE TRAZER DEUS PARA ESSE MUNDO! EU VOU TE FAZER SOFRER! EU VOU TE FAZER SOFRER! - E continuou a sua procura, socando e empurrando tudo que via pelo caminho.
 Ayna estava escondida, atrás de uma roxa, olhando para seu inimigo, o analisando. Não entendia metade do que deveria entender, mas entendia que aquelas gotas de suor amarelo que brotavam da testa de seu inimigo demonstravam sua vulnerabilidade, ao mesmo tempo, resistência ao veneno. Analisou suas vestimentas e proteção. Analisou seu capacete e o modo abria bem a boca pra falar.
 Ela tinha um plano agora, um de verdade, melhor do que tiros aleatórios aqui e ali em cima das arvores. Aquela coisa iria segui-lá por toda a vida se deixasse, se continuasse fugindo...tinha de ser encarada ali e naquela hora. Foi até Aurora e mexeu em seus pertentes presos na cela que, graças aos deuses, não tinham caído quando derraparam. Tirou dali uma faca de caça, bem afiada, cabo de madeira. Olhou para Aurora, em tom de suplica e disse.
 - Eu vou precisar da sua ajuda. Só mais um pouquinho, ok?
 A Plume só concordou.

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 O ogro rosnava e procurava, sentia o cheiro, o melhor que podia, mas seus sentido eram atrapalhados pelo vento gelado que vinha do norte, pela dor do olho mutilado e pelo veneno em sua rede sanguínea. Ogros eram resistentes e imunes a maioria dos venenos e doenças desse mundo...mas a Mamba Negra era outra coisa, era forte...fora que parecia estar misturada com mais alguma coisa...ele se sentiria mal mais um pouco até que voltasse a ficar em sua força habitual.
 A noite já estava caindo, na verdade, já estava quase escuro. Talvez fosse melhor esperar...ele podia ver no escuro. A humana não.
 Mas Ayna sabia disso, por isso, o plano foi executado facilmente. Graças ao vento e sentidos embaralhados, ele não ouviu o som da faca batendo com força no tronco de uma arvore um pouco a leste de sua posição...quando tudo estava pronto, ela voltou para o chão e voltou a correr.
 O ogro já estava quase desistindo, quando um ruido o fez olhar para baixo. Um coelho se arrastava, para uma toca talvez, com certa dificuldade. Suas pernas traseiras estavam amarradas...amarradas com um fio de corda com pedras presas a elas. Distração!
 Um assobio o faz olhar para frente. Uma flecha é disparada e é cravada no meio do seu olho bom. Ayna está sobre um galho forte bem a frente do monstro, possibilitando um tiro direto, fácil. Das cinco flechas restantes, só três permaneciam com ela, em sua boca, com a arqueira as mordendo com força para não perde-las de modo algum. Agora vinha a parte complicada, ele iria...
 Ayna é pega de surpresa e morreria se não fosse sua mente focada. Ao invés de se entregar a dor e ao chilique, o ogro ignorou o tiro e se jogou para cima dela, clava em punho, levantada, pronto pra dar o golpe, junto com seu corpo todo, pronto pra esmaga-lá no processo. Ayna apoia seu pé esquerdo no tronco e se joga. Ela não vê o estrago, mas pode ouvi-lo, o ogro baixou sua clava e destroçou tudo em seu caminho, só não caindo por se agarrar em uma das árvores na mais pura sorte. A mão direita da arqueira se segura em uma das argolas de ferro que prendem a proteção ao corpo do monstro, se equilibra o melhor que pode, coloca o arco no ombro, cruzando o corpo, saca sua faca de caça da bota e começa a cortar as tirar de couro daquele lado...rapidamente, as tiras começam a se soltar, ceder ao fio da navalha, ela corta o mais rápido que pode, mas está longe de acabar quando o ogro volta a si, finalmente soltando um rugido de dor, mas começando a caça-la, primeiro cegamente, depois, voltando ao tato e ao cheiro. Ele tenta pega-la assim que ela se livra da ultima tira de couro e faz a proteção de couro fervido tombar levemente de um lado.
 - O QUE É ISSO? - O ogro toca seu ombro, mas a caçadora já pulou para suas costas, cravando a faca. A espessura do couro era tanta que a faca não atingiu a carne da criatura. - VOCÊ ME DEIXOU CEGO! - Ele rosna e ruge. - CEGO! - E começou a se chacoalhar o corpo todo, rosnando. - VACA! IMUNDA! VAGABUNDA BURRA! - Ele gritava se agitava, batendo com sua arma gigante em todos os lados, ele não sabia se ela estava nele, ou ao redor ainda, Ayna se segurando da melhor forma possível, mas a lamina estava começando a se desprender...então se apoiou da melhor forma e se impulsionou para cima, se segurando na "gola" daquela proteção corporal. O ogro sentiu em sua pele o toque dos nós dos dedos da arqueira e sabia agora que ela estava em suas costas com certeza...na hora, se jogou para o chão com toda força que tinha. Ayna se jogou também, ao perceber a tática do monstro, e tocou o chão ao mesmo tempo do monstro, rolando na neve. Porém, ao tomar cuidado para cair de um jeito que não quebrasse as flechas ou o arco, a arqueira colocou as mãos na frente na hora de girar o corpo no chão, torcendo o pulso no processo. Guinchou de dor e mordeu forte demais, estalando a madeira de um dos projeteis...agora ela só tinha duas flechas. Não se deixou abater, logo se colocando de pé e olhando para trás...o ogro, caído, tentava agora se levantar...ela correu e se segurou no outro ombro dele, já passando a navalha na primeira e segunda fivela, partindo pra terceira, quando o monstro rola no chão, levantando neve e tirando sua concentração e quando olhou de novo, a boca do monstro estava a centímetros dela. Seria devorada...seria comida pelo monstro, não tinha tempo de sacar o arco, não tinha tempo de nada, ela...
 ...
 Passos...
 Passos pesados...
 O grasnar que ouvira desde sempre, desde que nasceu.
 Aurora apareceu, saindo em meios as árvores, cansada de esperar o sinal da dona, preocupada, vindo em sua busca e vendo a cena. Para evitar o pior, fez a única coisa que podia fazer naqueles segundos que tinha.
 Se jogou na boca do monstro.
 O ogro fecha as mandíbulas de uma vez. O sangue espirra na neve e na caçadora. A cabeça de aurora fica entre os dentes e pende, com a linguá para fora. Morte instantânea.
 Ayna só sai do choque a cena lhe dá quando o ogro puxa a carne pra dentro e começa a mastigar. Ela se levanta e começa a correr o caminho inverso de sua antiga companheira. Ela chora, as lagrimas congelam em seu rosto, ela tropeça algumas vezes, mas não cai, afinal, a noite está caindo de vez, o escuro toma conta da floresta. O demônio ri lá longe e logo fica de pé, seguindo pelo olfato a moça que corre o máximo que pode entre os soluços de seu choro.
 - TAVA UMA DELICIA!- Ele grita e volta a caminhar pesadamente pela floresta, derrubando arvores e esmagando rochas, procurando-a. Ayna adianta o plano o mais rápido que consegue, ela chegou no lugar onde tudo vai acontecer, ela joga neve em cima da armadilha...e segura o choro. As lagrimas caem, mas não faz nenhum ruido, ela não pode chamar a atenção dele, não agora.
 O silencio reina enquanto o ogro tateia seu olho ferido e fica feliz ao ver que a carne já se recompunha.
 - SE VOCÊ FUGIU, MULHER HUMANA! - Ele volta a gritar. - VOCÊ NÃO VAI MUDAR NADA! MOLOCH, O TODO PODEROSO, ME CONCEDEU O DOM DA CURA! A DOR ME ABANDONA, E MEUS OLHOS VÃO TER LUZ NOVAMENTE...E CUMPRIREI MINHA PROMESSA. - enquanto tagarelava, ele não vê Ayna chegando pelo chão, subindo em uma arvore próxima, enxugando as lagrimas e esperando ele se aproximar. Ele ainda ri, canta vitoria, quando chega perto o suficiente, ela pula de novo em cima dele, cravando a faca no couro. A proteção não o deixava sentir nada, não o deixava nem sentir que ela estava em cima dele, como antes foi provado. Ela sobe até seu ombro e corta, mais rápido do que nunca, as duas tiras que faltam. Como se abrisse um livro, a proteção cai, ficando preso na cintura dele, por trás e pela frente. Ayna se joga novamente ao chão, pousando perfeitamente, já tirando seu arco do corpo, aprontando uma flecha, segurando a outra, a ultima, junto com o arco e gritando.
 - VOCÊ! - O ogro se vira, surpreso e abismado, sua proteção foi tirada dele e nem conseguiu prever isso acontecer...e agora ela chamava sua atenção. Ele se vira levanta sua arma, rugindo e pronto pra bater...quando uma flecha crava no seu da boca e mais uma no fundo da garganta. Ele se engasga. Ayna solta uma oração rápida...vamos, tem de dar certo, por Aurora...por Aurora...
 O monstro cambaleia para trás e pisa onde deveria pisar. Uma clareira na floresta, pequena, mas o suficiente para comporta-lo, caso se deite nela. E como fazer um ogro se deitar? O derrubando. E como o derrubar? Colocando pedras pontiagudas e estacas de madeira para ele pisar na única entrada do lugar. Sorte? Desesperado? Sim. Por isso daria certo. Ele cai, duramente, rugindo. Ela tem de ser rápida, o mais rápida possível...essa era parte de Aurora, não dela...tem de ser mais rápida que um Plume...
 Ela corta caminho. Ela pisa no monstro, corre pelo seu corpo e pula pelo seu rosto e pousa em cima de uma pedra. Ela escada as rochas e logo sobe na arvore...a arvore que preparou mais cedo.
 - SUA...SUA... - O ogro ia xingar...e se pudesse ver o que aconteceria, talvez pudesse desviar, talvez pudesse impedir. Mas não podia ver, nem se mexer...cego, veneno correndo nas veias, ele ficaria ali deitado por um tempo.
 Pra sempre.
 Ayna enfia a lamina no tronco "podado" e força seu corpo, com toda fúria que tinha agora...a arvore quebra ao meio. Ela despenca, a sua ponta seca virada para baixo. A madeira atravessa o peito do monstro com estranha facilidade.
 Silencio.
 O ogro, com olhos perdidos e machucado, observa o nada a sua frente, com medo e descrença. Sua mão tateou a madeira, enorme, que havia perfurado seu coração. Ayna observava, lá de cima, agachada em um galho forte, vendo seu inimigo, mas agarrada a faca...talvez ele não fosse vencido assim, talvez...
 - Não... - O ogro sussurrou...e começou a se desfazer. Ayna presenciou tudo, enquanto o monstro se deformava...criava protuberâncias em toda sua pele e depois, se arrebentavam e derramavam um liquido amarelo e fedido...e depois, murchava. Em pouco minutos, o que havia ali era um esqueleto, enorme, cercado por uma poça enorme de sangue viscoso e outros fluidos e Ayna não quis saber o que.
 Ela respirou fundo e foi até o chão. Começou a caminhar, achou um pequeno canto, dentro de uma especie de toca, que ela julgou se de raposa, e se enfiou lá dentro, para passar a noite e vencer o frio.
 Chorou até o Sol nascer.

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 Ayna chegou ao seu vilarejo suja, cansada e com cara de poucos amigos. Logo foi ajudada por todos que a viram. Ela desmaiou nos braços de alguém, não lembra de quem, mas acordou limpa em sua casa, com sua vizinha, a de confiança que tinha deixado a chave de casa, tomando conta dela. Ficou sem falar nada com ninguém durante alguns dias e lançou olhares de raiva contra quem perguntava de Aurora. Mas depois de dois dias, sem comer direito, sem beber quase nada, as autoridades locais vieram e quiseram saber o que tinha acontecido. Ela contou tudo, cada parte, cada detalhe e recebeu olhares descrentes e surpresos de primeira. Batedores foram investigar os locais e viram e constataram que tudo era verdade...tanto que, alguns que entraram na dita caverna, saíram loucos, dizendo que o que tinha lá, não deveria ser visto por ninguém, cometendo suicídio logo em seguida. Os que manterão a sanidade, disse que havia uma nevoa negra e espessa que os fez ver coisas, logo a entrada da caverna foi selada e nunca mais ninguém a abriu.
 Já Ayna, ficou em seu silencio, digerindo tudo o que acontecia...até que um dia saiu da cama, fez suas refeições devidamente e voltou a conversar com algumas pessoas, mas nunca foi a mesma, nunca com aquele sorriso sincero e alegre...nunca.
 As pessoas a chamavam de A Águia agora...pois tinha ido até a montanha, sofrido muito e voltou, pronta para voar novamente. Sua historia logo se espalhou, as vezes sendo aumentada, as vezes inventada, mas sempre com seu nome dela. Mas apesar de tudo isso, "voar" não era algo que parecia que iria ser feito tão cedo...
 Ela precisava de alguma coisa antes.

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 Ayna limpou a casa e se sentou, cansada, na mesa, se servindo de um copo de rum. Bebeu em um gole e tomou um ar. Estava mais que na hora de voltar a abrir seu negocio, curar as pessoas, ajudar...era isso no que ela era boa. Tinha até mudado o nome do lugar...tinha colocado Aurora na placa, com um Plume correndo no pasto verde. Perfeito. Então, amanhã...
 *toc toc toc*
 Alguém na porta.
 Ayna pegou sua faca e se dirigiu até a mesma. Ela abriu uma pequena fresta e olhou para todos os lados..não tinha ninguém ali, na rua, no meio da noite.
 Até que olhou pra baixo.
 Uma cesta, com um embrulho no meio, envolto em panos. Ela olhou tudo mais uma vez, porém seus sentidos diziam que era seguro. Ela pegou a cesta e trouxe para dentro, trancando a porta e colocando o pacote em cima da mesa. Desembrulhou os panos e tomou um leve susto ao ver seu conteúdo.
 Um ovo de Plume, em meio a palha.
 Ela iria protestar, levar para fora novamente, ver o dono...quando o ovo rachou. Não demorou muito a nova ave saiu dali, olhando para sua nova dona.


 Ayna sorriu, pela primeira vez em muito tempo...mesmo que as lagrimas corressem, ela sorria quando trouxe a pequena ave para si, a abraçando com cuidado.
 Foi quando ela se tocou de que ainda podia voar. Algumas coisas devem partir, devem morrer...devem ser destruídas para que algo se renove. Tudo era temporário...mas tudo podia ser renovado.
 Ela estava bem agora, pois agora ela pensava.


É...ainda vale a pena viver.

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