segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Imortais - O Tigre


Para Lucas

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 Imagine então...o Exército Negro, passando por tudo que você conheceu como os monstros que são, distribuindo horror e morte onde seus pés tocam. As mulheres são violadas, os homens são espancados, famílias são jogadas nas chamas. Um deles tenta lutar, um pai e uma mãe, protegendo seus filhos...eles até derrubam alguns, mas o que são dois contra milhões? Eles caem, parecem, na frente dos filhos, que ficam sem reação...até que as crianças decidem fazer alguma coisa. O mais velho tira o machado cravado no crânio do corpo do pai. O mais novo tira a espada cravada no coração da mãe...e começam a matar. E matar. E matar. E a fugir. E a reconhecer. E a treinar. E a desejar. Planejar. Guerrear. Gritar. Inspirar. E eles fazem isso tão bem, mas tão bem que enganam a si mesmos...e pensam que podem fazer o que ninguém fez antes.
 Uma revolução.

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 - Lukan! Lukan! - O guerreiro desperta, mas não porquê a mulher em sua cama grita seu nome, mas porque sua mente não aguentava mais.
 Lukan respirava fundo, seu corpo estava empapado de suor, seus olhos queriam fechar, mas ele os mantinha bem aberto. Ele esticou o braço até a cabeceira da cama e apalpou a parede ao lado, procurando...quando a mão encontrou o cabo de sua espada, a apertou com força, sentindo o peso da arma. Conforme seu coração parava de pulsar e o frio o acometeu, ele foi se acalmando, seu corpo deixando de se enrijecer. A mão de Amanda se colocou no fim das suas costas...seus dedos foram deslizando pelo desenho da tatuagem ali, o causando arrepios, deslizou pelo pescoço e mexeu nos seus cabelos negros e encaracolados. Isso só fez o se sentir melhor.
 - Pesadelo?
 - Sim. - Respondendo com uma voz fraca, ele pigarreou e respondeu novamente, com a voz normal. - Sim.
 - Qual dessa vez?
 - O mesmo, de todas as noites.
 - Mãe? - A porta abriu gentilmente com a voz do menino. O filho de Amanda entrou, com olhos curiosos, com as mãozinhas segurando a porta e a fazendo de escudo ao mesmo tempo. Mikael, como era chamado, era um garoto de 6 anos, esperto, filho de um pescador, ex-marido de Amanda, que acabou abusando de sua autoridade no lar e ela o tirou de sua miséria. Amanda levantou-se e foi até o filho, o segurando no colo e sussurrando pra ele.
 - Shhh...fica tranquilo, meu amor...o amigo da mamãe só estava passando mal, mas já passou, okay?
 - Tá tudo bem, tio Lukan? - Ele pergunta, olhando para o guerreiro, com o corpo marcado de suor e a cintura para baixo coberto em peles. Ele ri e responde.
 - Tudo bem, garoto. Faz assim. Fica aqui com sua mãe, ok? Eu vou dar uma volta. - Ele se levanta, saindo nu ao frio do lugar e passa por eles, dando um beijo na testa do garoto e um nos lábios da mãe e sai do quarto.
 A casa de Amanda era simples, com o chão e as paredes feitas de pedra, portas, janelas e moveis feitas de madeira, de maneira tosca, mas eram bem cuidados. Cerâmicas de todos os tipos eram encontrados ali, desde vasos, a potes, canecas e tudo mais. Era um Hobby dela e ele aprendeu a gostar daquilo. Ele foi até o banheiro do lugar, onde o buraco que se fazia as necessidades estava bem selado com uma comporta de madeira que ele havia feito e uma banheira, cheia de água ainda morna. Ele se mergulhou nas águas e ficou ali durante um tempo, pensando em tudo.
 Faz um ano, maninho...cadê você?
 Depois de se lavar e se secar, entrou engatinhando no quarto, onde a mãe e o filho estavam dormindo. Foi até seu bau, um compartimento grande e negro, com um cadeado de aço trancando tudo. O abriu e tirou uma calça cinza de algodão, botas de couro e uma camisa de linho e vestiu tudo isso por baixo de um manto pesado azul escuro. Assim que se vestiu, foi até a cozinha, pegou uma caneca de ferro grande que tinha ali, a única, porque ele comprou, e foi até um barril, no canto esquerdo, onde o abriu e mergulhou a caneca, a tirando cheio de cerveja. Deu um gole, aprovou, caminhou até a mesa, pegou uma maça na fruteira e foi até a varanda para ver o Sol nascer.
 E pensar que, nos primeiros dias, ele odiou a quietude daquele lugar.



 Lukan foi até o estabulo primeiro, uma casa de madeira pequena que ele e Amanda construíram para alojar o cavalo dela, Trote, e o cavalo dele, Crom.
 Crom era um cavalo grande, bem grande, dois metros de altura, isso ficando de quatro e era tão destemido quanto seu dono. O guerreiro ofereceu a ele uma maça, que cheirou e depois comeu. Lukan o acariciou no meio das orelhas e o corcel gostou. Depois, finalmente, foi até a varanda, bebericando sua cerveja...e meditando sobre tudo.
 Amanda era dona de uma plantação, de um pesqueiro e de uma criação de ovelhas. Dinheiro não era problema para ela, ela podia morar em uma cidade grande, com criados cuidando dos seus negócios e tudo mais, porém ela escolheu viver no campo, em um vilarejo antigo, com casas de pedra e teto de palha, onde tudo era bem simples e trabalho duro era a garantia do dia a dia. No principio, quando Lukan estava de passagem, ele a conheceu e conversaram e ele não entendeu muito bem, uma vez que ela não tinha antigos parentes enterrados ali ou um marido...não, ela ficou ali pois a vida simples era melhor, tanto para se viver quanto para criar um filho. "Quero que seja um homem honesto e respeitado, diferente do pai, que me enganou e enganou outras mulheres por ai". Ela disse, pouco antes de seu primeiro beijo. Quando viu, Lukan estava alugando uma casa ali perto e ficou durante alguns meses, sempre encontrando-a quando possível, tanto para namorar quanto para ajudar nos trabalhos de casa. Ela dizia que a plantação nunca fora tão bonita, tudo graças a ele.. Quando o dinheiro acabou e ele recolheu suas armas e montaria para sair dali, ela ofereceu seu leito...e por um ano inteiro, Lukan soube o que era a vida de casado e de um "pai", apesar do garoto nunca chama-lo assim.
 Era difícil Lukan sorrir, mas ali, naquele lugar, ele fazia isso com frequência, ele quase esqueceu de seus planos originais.
 Quase.
 Já havia feito sua parte do acordo, ele agora tinha de esperar Vykan fazer a dele.
 E com tristeza no coração, enquanto observava o rio, tomando os últimos goles de sua cerveja, ele percebeu que era mais do que hora de sair dali.
 Seu coração estava cheio de outras coisas para se deixar levar. Ele fez uma promessa e Lukan era esse tipo de homem: Ele cumpria o que prometia.
 Fomos forjados no fogo e no gelo, irmãozinho. Paz não é exatamente o nosso negocio, não trás lucro. E que se foda todo o resto.
 Quantas vezes Vykan disse isso pra ele?
 Quantas vezes ele riu disso e concordou?
 Por que agora não era tão engraçado assim?
 - Bom dia, Lukan! - O tirando dos pensamentos, Sr. Hulgo, um velho calvo de barba branca, sempre usando um colete de couro por cima de uma camisa branca e calças e botas de couro, dono do açougue, o cumprimentou, passando com dois cordeiros nas costas e outro envolvido no braço.
 Lukan largou a caneca, correu até ele e segurou um dos cordeiros, o colocando nas costas.
 - Bom dia, Sr. Hulgo.
 - Ah, obrigado filho, meu braço já estava pegando fogo. - E deu uma risada. Lukan o acompanhou nisso. -Vai me ajudar a... - Mas antes que pudesse completar a frase, olhou para Lukan, que mexia no bolso e tirou sete moedas de ouro e ofereceu ao açougueiro.
 - Pelo cordeiro. - Hulgo agradeceu, pegou as moedas, aceitou o agradecimento e voltou ao seu caminho. Lukan levou o animal para a casinha de trás e o colocou em cima da mesa, pegando as laminas próprias para conseguir tirar a pele e limpar o animal, quando escutou o som de cavalos e seus velhos instintos começaram a se aguçar. Estavam longe ainda, mas não eram muitos...
 Antes que percebesse, Lukan estava deitado, com o ouvido no chão, escutando o melhor que podia...
 - Cinco...no máximo, seis...um grupo de mensageiros... - Ele pensou alto e continuou enquanto levantava. - Um vilarejo bem longe de qualquer cidade não recebe mensagens boas. - Logo, Lukan quis ter sua espada de volta...e respirou fundo, colocando as mãos na cintura e fechando os olhos.
 - Tio? - Ele abriu os olhos e encontrou os do garoto Mikael.
 - Oi, filho. - Ele desenvolveu essa mania de chama-lo de filho, mesmo se policiando, não conseguiu parar, ainda mais porque o garoto nunca protestou. - Cadê sua mãe?
 - Dormindo ainda. - O menino usava peles de animais enroladas nos pés e uma túnica que ia até pouco abaixo dos joelhos, com uma corda amarrada no quadril. Ele tinha a pele branca, as sardas e os olhos castanhos da mãe, mas os cabelos lisos e negros eram do pai, de acordo com Amanda. - O senhor comprou ou caçou comida?
 - Comprei. Achei melhor pra fazer rápido, você e sua mãe logo vão ficar com fome e eu...admito, to com preguiça. - Ele riu e chegou perto pra ver o animal morto...foi ai que se viraram, ouvindo o som dos cavalos e Lukan estava certo, era seis, passando correndo, trajando armaduras leves com espadas na cintura, escudos nas costas e cotas de malha por baixo de mantos. O guerreiro sentiu uma ponta de esperança, pensando que eles só estariam de passagem, mas conforme diminuíam de velocidade, ele percebeu que vinham pra ficar.
 - O que será...?
 - Devem ter ido falar com o Chefe. - Mikael disse, interrompendo os pensamentos de Lukan. O garoto voltou sua atenção no bicho morto e, com uma faca pega do balcão, cutucava o olho do mesmo.
 - Eles já vieram antes? - Lukan perguntou.
 - Uma vez por ano eles vem, de acordo com a mãe. Ficam na casa do Chefe e contam pra ele o que anda acontecendo no mundo a fora. - O menino respondeu, afundando a lamina no olho morto com mais afinco. Lukan tomou a faca do garoto com gentileza, mas firmeza e apontou a mesma para ele e perguntou.
 - E ai? - O garoto abaixou a cabeça e respondeu.
 - Temos de ter respeito pelos mortos, mesmo os animais, plantas e memorias.
 - Exatamente. Isso não é respeito, Mikael. Não é um dos formigueiros que você encontra por ai. - O garoto concordou e Lukan o puxou para o colo, o colocando sentado no balcão, longe das outras "ferramentas". Ele começou a tirar a pele, do melhor jeito possível, cortando bem acima da carne e músculo, quando o garoto veio novamente.
 - O senhor vai embora? - Lukan olhou para ele como se fosse uma das criaturas que teve de matar a um tempo atrás, lendo sua mente e suas ações.
 - Por que diz isso? - Ele pergunta.
 - To chutando. - O garoto respondeu, balançando as pernas no ar. Lukan só concorda com a cabeça com o olhar perdido, volta a olhar para sua tarefa e a executa-lá.
 - Sim, eu vou. - Ele responde, por fim.
 - Por que?
 - Eu tenho coisas pra fazer.
 - Tem haver com seu irmão?
 - Sim. E com outras coisas também. - Quando terminavam de conversar, Lukan estava na metade do cordeiro.
 - Já contou pra mãe?
 - Ainda não...estou com medo de magoa-lá. Eu prefiro falar isso quando achar as palavras certas.
 - Eu já ouvi o suficiente. - Lukan se virou devagar, mas a surpresa em seus olhos foram reconhecidas por ela. Amanda estava ali, parada, usando um vestido azul, claro, os pés descalços. Amanda era linda, os cabelos enrolados e louros escuros, com sardas no rosto. Seu corpo era, o que ele e todos os homens costumavam dizer, de "parteira", com os quadris um pouco largos, pernas grossas e seios fartos. Era como ele gostava.
 Lukan só respirou fundo e voltou a sua tarefa. Mikael pulou para o chão e saiu dali, voltando para dentro de casa. Era uma das coisas que gostava no garoto, ele sabia quando se retirar. Ele estava quase na região do pescoço do animal quando sentiu as mãos dela pousarem nos seus ombros e seu corpo colar com as costas dele. Ele suspirou quando ela perguntou.
 - Quando?
 - Não sei. Acho que essa semana.
 - Tem certeza?
 - Tenho.
 - Tem algo haver com seus negócios? Sobre...ser um mercenário? - Lukan não era chamado assim a um bom tempo...mas era isso o que ele era, não é? Não importasse quantas vezes batesse a enxada no chão ou tirasse água do poço ou caçasse para alimenta-los, era isso o que era e sempre foi...desde aquele dia.
 - Mais ou menos. Mas tem bastante coisa envolvida ainda.
 - Entendi. - Ela disse e ia se afastar dele quando Lukan se virou e,largando a faca, a puxou para si, abraçando sua cintura, sujando o vestido de sangue, mas ela aceitou de bom grado, aceitando seu corpo e seu beijo. Isso era o que Amanda mais gostava em Lukan, a sua "urgência" nas caricias. O modo como a beijava, como se deitava com ela, sempre tentando tirar a ultima gota, sentir o gosto dela a todo custo, sempre apertado, quente e a desejando de todas as maneiras. Ao mesmo tempo que ela gostava, a deixava com uma sensação estranha...era como se ele estivesse dizendo adeus todas as vezes em que ficavam juntos.
 Mais agora do que nunca.
 Eles pararam e respiraram depressa, tentando recuperar o folego. Ela engoliu em seco e perguntou.
 - Você vai voltar?
 - Não sei. É provável que não. - Outra coisa que ela gostava nele, mesmo que a machucasse as vezes. Lukan não mentia para ela. Nunca. Doesse o que doesse. Ela só concordou...se desfez do seu abraço e o ajudou com a pele do animal.
- Alguns cavaleiros passaram mais cedo. - Lukan puxou assunto, tentando tirar a tensão do momento. - Mikael disse que eles veem aqui pelo menos uma vez ao ano, contar fofocas para o Chefe.
 - Sim. As prostitutas que ele contrata, seus mensageiros e etc. não conseguem saber tudo o que acontece por ai, principalmente nos meios dos reis e rainhas, então ele paga esses cavaleiros anualmente para trazer as noticias. Eles passaram aqui?
 - Sim, mais cedo.
 - Hm, eu queria ter visto, que pena. Eu gosto da carroça deles, é grande e cheia de ornamentos, trabalho de marceneiro mestre. - E então, Lukan sentiu um leve arrepio nas costas.
 O Chefe, que se referiam, era o "líder" do vilarejo em que viviam, algo como um monarca, um coordenador do local, que ajudava nos negócios de exportação e ganhava uma porcentagem com isso, nada demais para eles, já que Amanda não exportava nada. Ele até que era gentil com as pessoas e organizava festas e banquetes com certa frequência, mas Lukan conhecia gente dessa laia: Eles estão bem com os bolsos cheios...quando UMA moeda falta, enlouquecem e procuram gente pra culpar. Ele era igual a todos os outros homens sentados em poltronas que tinha conhecido ao longo dos anos de "serviço militar" que prestou. Mas ele era rico, claro, tinha muitos bens...e fazer homens deixar o conforto de suas casas e reinos para vir até ele com noticias, claramente era um custo alto, mesmo para um capricho. Mas como todo bom homem de negócios, ele com certeza aproveitaria a situação, pense bem...só dar moedas e joias para os soldados? Não...tapeçarias, lã, roupas e outras coisas mais, tudo para que eles levassem para o mundo afora e contassem para os outros que foi o Chefe do Vilarejo Uivante que deu para eles, para que buscassem suas mercadorias mais tarde...isso explicava o porque o comércio ali, um local tão afastado era bom.
 - Lukan? - Amanda viu o olhar perdido dele e o atraiu para si e quase se arrependeu. Seu olhar era vazio, mas suas sobrancelhas estavam juntas, formando uma face que transbordava raiva e preocupação.
 - Não tinha carroça, Amanda. - Ele disse e voltou para a carne na mesa, soltando a faca e pegando o cutelo. - Não tinha, só cavalos. - E bateu a lamina com força, tirando os cascos traseiros fora, os dois em um só golpe.
 - Tá, mas...o que isso quer dizer?
 - Quer dizer que eu conheço presságios de guerra. - Ele bateu de novo e separou a coxa do resto do corpo. - Eles não vieram pra ficar. - Outro golpe, separou a outra coxa do corpo. - Eles vieram pra avisar. - Mais um, e a cabeça do cordeiro cai no chão.

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 O resto do dia foi tranquilo. Com o frio, Lukan acendeu o fogo do lado de dentro de casa, no centro da sala de estar e, enquanto assava duas coxas no espeto, Amanda fez um caldo grosso com a gordura do animal, com cebolas, cenouras, batatas e mandioca na lareira. Pra completar, enquanto estavam cuidando da carne, Mikael saiu escondido, pegando uma moeda de prata da bolsa da mãe e correu até o padeiro, comprando pão, fazendo uma surpresa para os dois. O almoço foi um banquete, com Lukan contando uma historia leve de combate e Amanda contando como pescou um marlim, sozinha, em alto mar. Aquilo rendeu risadas e, sentado no sofá de couro, coberto por peles de animais, Lukan deixou que adormecessem em seu ombro e em seu colo, enquanto ele observava o fogo e pensava no que fazer no dia de amanhã. Quando anoiteceu, eles acordaram, ao mesmo tempo em que uma chuva leve começou a cair e os três correram para pegar roupas no varal e coisas que não podiam ser molhadas. Voltaram ensopados para dentro, rindo e querendo se aquecer no fogo. Mikael, então, decidiu ir até o quarto, brincar com os bonecos de madeira que tinha e Lukan ficou a sós com Amanda na sala. Eles não falavam nada, nem brincaram um com o outro..só ficavam ali, abraçados, olhando o fogo...por um tempo.
 - Posso te perguntar uma coisa?
 - Pode. - Lukan respondeu a ela. Quando ela perguntava isso, ela queria tocar em algo intimo. Poucas vezes Lukan disse não a ela.
 - Seu irmão. Como ele é? - O mercenário riu com a pergunta. - Você não fala muito dele. - Amanda completou.
 - Ah...meu irmão é um babacão, entende?
 - Jura?
 - É...um puto, sai com toda mulher que vê pela frente, jura amor eterno e tudo mais...mas sofre por cada uma delas depois que vamos embora, é brincadeira. - Ela ri, ele ri. - Uma vez...cara, essa foi boa, foi quando a gente era pequeno ainda, a gente tava andando nos arredores duma cidade do Sul, sabe? E a gente ia encontrar umas meninas, eu tinha 11, ele tinha 11, tava na hora já...e a gente se perdeu no caminho, acabamos entrando numa viela e... - ele ri mais uma vez - tinha a porra dum urso lá, cara! Grande, enorme, a gente gritou e saiu correndo...tipo, a gente matava soldados e tudo mais, mas um urso de repente, pareceu demais...a gente tava desarmado na hora e corremos pra cacete, no meio do caminho, a gente correndo que nem louco, ele virou pra mim e gritou "UMA BUCETA NÃO DEVE VALER ISSO, MANINHO!". - Lukan riu alto, até jogando a cabeça pra trás. - Sei lá, ele sempre foi dessas...não importa a situação que seja, a merda que seja, ele vai achar um jeito de soltar uma piada brega e te fazer rir...olhar na cara do perigo e não levar ele a sério... - Foi quando ele olhou nos olhos dela e percebeu que não estava rindo. Foi quando ela soltou a pergunta.
 - Você...começou a matar...aos 11 anos?
 - Não. - Ele respondeu. - Comecei aos 8. - Amanda engoliu a seco. Ela sabia que ele havia começado o "ofício" cedo, mas não sabia que era tão cedo. - Não me olhe assim. - Ele a tirou se seus pensamentos. - Como se eu fosse um...
 - Não. - Ela disse, colocando a mão em seu rosto, o polegar em seus lábios. - Você é Lukan...e eu amo você por quem você é. - E ela o beijou, um beijo simples, como ela sempre fazia...mas ele não correspondeu da mesma maneira. Eles voltaram a posição inicial em que estavam e ficaram mirando o fogo. Amanda pensou, em silencio, o que deveria fazer. Quando ela ia dizer alguma coisa, eles ouviram.
 O som era grave, alto, bem alto, a ponto de fazer tigelas tremerem nas prateleiras e se quebrarem no chão. E outro som veio, igual mas mais alto...e outro, e mais outro...eram rugidos de alguma coisa, alguma coisa bem grande.
 - MÃÃÃÃÃE! - Mikael acordou, correndo, com cara de choro até os braços da mãe. Lukan pega o menino antes da mãe e ele o abraça forte. Ele tenta passar a criança para o colo de Amanda, mas ele não o solta. Os três saem na rua, mesmo com a chuva apertando e veem que todo mundo está lá. Está frio, a lua brilha e um vento forte uiva, como todo dia, por isso o nome do vilarejo...mas dessa é diferente. O vento trás algo com consigo...é o cheiro...cheiro de carniça.
 Um estalo se dá na mente do mercenário que trinca os dentes, gritando pra sua mente calar a boca, não era possível que AQUILO estivesse aqui. Não era!
 - CORRAM! - Um homem, com uma voz estridente, correu no meio de todos, com as mãos erguidas as céus, gritando, seus pés batendo nas poças, levantando lama. - CORRAM! PRA LONGE DAQUI! AGORA! O QUE VEM AI VAI DESTRUIR A TODOS! CORRAM! - Quando ele passou perto, Lukan o agarrou pelo braço e o puxou para perto de si, o segurando pelo colarinho.
 - Abaixa o tom de voz, rapaz! - Lukan disse, olhando bem nos olhos, mantendo a voz grave e baixa. Isso instalava medo aos fracos e respeito aos mais resistentes. O pessoal começou a se reunir em volta deles. - Agora, fala com calma, em alto e bom som, MAS SEM GRITAR, sobre o que tá acontecendo. - O homem engoliu a seco, seus cabelos castanhos estavam ensebados e penteados para trás, sua face era rubra e seus olhos eram agitados.
 - O Chefe...o Chefe foi embora. - Murmúrios aqui e ali de reclamação, poucos ficam quietos. - Ele foi a algumas horas. Vieram avisar ele e...
 - Okay, o Chefe é um covarde, deixou todo mundo pra trás pra não haver tumulto na estrada dele. Eu entendi essa parte. - Lukan o puxou pra mais perto. - O que tá vindo ai? O que está vindo que demanda a fuga de todos nós?
 Ele respirou fundo...e falou em sussurro primeiro...depois falou alto.
 - Uma Hidra. - Gritos de desespero começaram a vir e a consciência do mercenário pesou ao ver que seus pensamentos estavam certo. Lukan largou o homem, segurou Amanda pelo pulso e o garoto no colo, voltando pro dentro de casa. As ruas seriam uma confusão enorme agora, as pessoas iriam se dividir entre bater e xingar o homem como se ele tivesse culpa de alguma coisa ou estariam indo embora de maneira desastrada e petulante. Eles precisavam disso.
 - O que vamos fazer? - Amanda perguntou, recebendo o garoto no colo. Seus olhos eram urgentes, mas sua voz era calma. Outra coisa que Lukan amava nela, provavelmente mais do que tudo: independe da merda que a situação estivesse, ela tinha controle de si mesma, mesmo que o desespero a tocasse no fundo da alma, ela não se entregava a ele.
 Lukan respirou fundo e respondeu, ao tirar a camisa.
 - Vocês vão ficar aqui. Eu vou matar aquela coisa.
 - O que? - Amanda perguntou.
 - Você ouviu. - E ele olhou por cima do ombro, com as costas nuas...onde a tatuagem de um tigre, subindo sua pele e rugindo para o além, pareceu se mover um pouco. Sim...pareceu crescer!
 Lukan andou até o quarto do casal. Abriu seu bau, tirou todas as roupas e abriu o fundo falso, revelando seu equipamento. Vestiu uma calça mais grossa, depois botas melhores, marrom escuras. Colocou uma cota de malha sobre o corpo úmido, depois colocou dois braceletes de couro que quase cobriam seu antebraço inteiro, cada um com uma bainha com uma faca curta nele. Depois, colocou o manto azul novamente nas costas...e pegou sua espada larga.
 Soruna.
 Amanda observou ele voltando, trajando sua roupa para o combate e entendeu tudo. Ela pensou em protestar, mas ai, olhou nos olhos dele. Talvez fosse o fogo aceso, talvez fosse ele mesmo, sem nenhuma desculpa...mas seus olhos pareciam brilhar, como se o castanho estivesse mais acesso, mais claro. Ele carregava aquela espada enorme apoiado em um ombro, seu queixo meio erguido, olhando pra frente, passos largos em direção a porta. Quando ele abriu e ia sair, ele se virou pra mim e disse.
 - Pegue poucas coisas, só o dinheiro e comida. Tire o garoto daqui, ande com todo mundo da cidade. Eles são idiotas, mas um grupo grande intimida bandidos.
 - Acha que pode matar aquela coisa? - Mikael perguntou, olhando pra ele, mais admirado do que assustado.
 - Eu posso matar qualquer coisa. - O mercenário respondeu, saindo porta afora, pulando a varando e, parou primeiro na mesa onde limpava os animais, pegando o cutelo, a lamina mais afiada que tinha ali...depois, tomou rumo, indo até o estabulo. O cavalo Crom, ao ver seu dono daquela forma, bateu os cascos, fez menção de se empinar e relinchou alto, fazendo Lukan rir quando cravou a espada no chão para pegar e colocar a cela na montaria.
 - Sentiu falta disso, garoto? - Ele disse ao subir no cavalo. - Admito que eu também. -  Deu um toque e o cavalo disparou. Lukan se abaixou na cela e pegou a espada antes de realmente partir para o combate. Ele seguiu a estrada e todo mundo viu o estranho que havia chegado a um ano atrás partindo para o que muitos acharam que era suicídio.
 Lukan achava que estava partindo para a glória.
 Ele passou a ponte de pedra e continuou na estrada, seguindo o cheiro de carniça, própria daquela raça. Ele já tinha encontrado com aquela coisa antes...merda, ele já tinha encontrado com MUITAS coisas antes. Mas Hidras...ele já tinha lidado com uma antes, mas não enfrentado uma, não se disposto a matar uma. Quando essas coisas se movem são tipo desastres naturais, você só sai do caminho!
 Hidras são monstros sensitivos. Eles sentem as coisas, as presas, as ameaças, os parceiros, tudo. Nativos de pântanos, estudos dizem que elas acham o centro do lugar, se afundam na lama, matam o que passar, comem e pronto. Só isso. Tem três coisas que fazem uma Hidra levantar e dar uma volta: A primeira é que o pântano está sem comida, a desgraçada comeu tudo e precisa ir para outro pântano. Elas sentem isso, sentem onde vai ter outra poça de lama com arvores, raízes, musgo, nevoa e rios parados para servir de lar e nesse caso, ela se arrasta pra fora e come tudo que estiver no caminho, tudo mesmo. E isso era preocupante, pois Lukan sabia que o cheiro de carniça vinha do Sul e, para aquele lado, o pântano mais próximo ficava a cinco dias de viagem e, depois dele, ao noroeste, ficava outro, a seis dias de viagem. Ou seja, o monstro já tinha causado uma destruição catastrófica e queria gerar mais.
 A segunda coisa era a oportunidade de se acasalar. Outra Hidra estava por perto, procurando um parceiro e ela se levanta pra um encontro. Não precisa ser necessariamente em um pântano, pode ser qualquer lugar, eles iam sentir um ao outro e iam andar em linha reta, acasalar, dar meia volta e voltar para o pântano. Se fosse isso, Lukan não teria muitas oportunidades de se voltar vivo hoje.
 A terceira é que alguém a feriu. Hidras não descanção até matar aquilo que as tentou matar, elas ficam furiosas até acharem e matarem aquilo. Mas era pouco provável...elas não se distanciam muito de casa pra isso, em fato, elas costumam dar cabo em qualquer coisa antes de serem feridas.
 Lukan começou a torcer para ser a primeira opção. Dos males, o menor.
 Crom corria como nunca correu, desejando o combate, algo com muito barulho, como sempre estava acostumado. Lukan olhava para todos os lados, o cheiro de carniça estava forte agora, bem forte, mesmo com a chuva, agora forte, e a ventania, o cheiro entrava nas narinas e faria qualquer pessoa sentir enjoo.
 Lukan cavalgou mais...até ver as arvores quebradas. Isso fez com que diminuísse o ritmo da cavalgada e prestasse mais atenção, se dirigindo ao meio dos "destroços".
 As arvores estavam reduzidas a migalhas, tocos estavam aqui e ali, todos pontiagudos e recheados de farpas.O chão, mostrava sinais de luta...de alguma coisa grande, bem grande.
 E corpos...vários corpos esmagados. Irreconhecíveis.
 "De fato, de volta ao oficio". Lukan pensou e começou a analisar a cena...das arvores, corpos e...gado. Aquilo era uma cabeça de vaca ou metade de uma. Para confirmar a teoria que projetou, Lukan foi mais a frente, achando mais corpos...as pessoas estavam só esmagadas, mas o gado estava devorado...e o cheiro era insuportável. O mercenário continuou e confirmou tudo ao subir um pequeno morro e ver as carroças destroçadas e mais corpos, dessa vez meio comidos, em meio a poças vermelhas de lama, água e do próprio sangue...mas nenhum sinal de gado. Era uma caravana de mercadores e tiveram a "sorte" de cair na boca da Hidra, eles tentaram voltar mas não foi possível. A serpente preferiu as vacas, afinal, mais carne, mais alimento.
 Aquilo era incomum, ao menos para a experiencia dele. A Hidra deveria ter comido e continuado seu caminho, deveria ter trombado com ele em algum ponto...ela fez o que? Voltou? Estava voltando? Então...talvez os estudos não tivessem dito tudo. Afinal, quem era louco de estudar uma HIDRA? Com certeza, não era louco de aprender tudo...talvez tenha se alimentado e voltado para o pântano.
 Então por que os instintos de Lukan diziam que era pra ele dar o fora dali? E devagar. Nada de sair correndo...só sair dali, bem quieto?
 Lukan deu risada e desceu da montaria, pegando sua espada no processo. Crom, treinado como ela, esperou o comando do mestre. O mercenário respirou fundo e colocou uma mão gentil no pelo molhado do animal...e deu um tapa. O cavalo empinou, relinchando e desceu com tudo, batendo os cascos no solo molhado, fazendo uma poça estourar.
 E o inferno levantar.
 - SAI DAQUI, CROM! - Lukan grita, sua voz sobressai a chuva e sua montaria obedece, trotando para longe. Ele aponta sua espada.
 A terra molhada se moveu, se abrindo, levantando tudo a seu redor. A primeira coisa a sair são corpos de animais mutilados e destroçados, depois de seres humanos...e por fim, a primeira cabeça sai. E outra. E outra. E outra...
 Até que o monstro sai por completo, fazendo dele, a chuva e os relampados, uma cena espetacular.


 Mas é claro...não podia ter só UMA cabeça, não é? É esperar demais da vida!
 O mercenário pensou isso com a voz do irmão e riu...e continuou sorrindo. Aquela coisa encarava ele com curiosidade, pois ele não correu, não tremeu ou gritou...não, provocou sua saída do subsolo, interrompeu sua refeição e agora, estava ali, encarando ela.
 Eles ficaram ali, se encarando, por intermináveis segundos, só com o barulho da chuva, trovões e os cascos de Crom batendo no solo, indo embora.
 - Vem! - Lukan rosna. O monstro avança, as seis cabeças de uma vez. E ele também. Em uma velocidade desenvolvida com décadas de combate, ele rola pelo chão, se coloca de pé e golpeia a tempo suficiente para cravar metade da espada enorme que carrega no pescoço de uma das cabeças, que ruge, se colocando totalmente para cima, carregando o mercenário com ela. Se agarra ao cabo, como se estivesse fazendo exercícios de barra, sendo puxado pra cima com uma força que quase quebra seus braços...até que a subida é interrompida e ele é jogado para cima. Com o tranco do pescoço chegando ao limite, a lamina se soltou e foi junto com o guerreiro, em pleno ar, que olhou para baixo e viu seis cabeças de Hidra esperando por sua queda. Ele gira seu corpo e a lamina com ele, caindo, acabando por acertar outra cabeça e, no processo, rolar sobre ela e escorregar pelo pescoço...onde crava a lamina da mesma e desce rasgando sua carne podre, que se abre em lamento, lançando o cheiro de veneno no ar. Todas as cabeças rugem, afinal, a dor ali é compartilhada...mas elas reagem e uma delas acaba acertando Lukan, que cai na lama, rolando, sujando seu manto...mas rapidamente fica de pé. O monstro o encara de seis direções diferentes e finalmente sai por completo da terra, mostrando seu corpo cinza, pútrido, que se esticava e esticava, até terminar em uma ponta longa e fina, como um chicote. Pronto...era isso o que ele queria.
 Lukan deu meia volta e começou a correr.
 Se enfiou na floresta, sentindo o chão tremer enquanto o monstro disparava atrás dele, se arrastando, as cabeças rosnando para ele e destruindo qualquer arvore ou rocha no seu caminho. Lukan levou a espada as costas e depois, com os dois mindinhos, assobiou o mais alto que pode, para que o som sobressai-se o som da chuva...e não demorou muito, ele começou a ouvir os galopes...Crom estava se aproximando...quando ele sentiu algo úmido se enrolar em seu tornozelo e o puxar com violência. Em questão de segundos, Lukan viu a língua azulada enrolada em sua perna o puxando para o buraco negro que seria a boca do monstro. Em uma mordida, metade de seu corpo seria engolida, a outra metade cairia no chão ou outra cabeça aproveitaria esse resto.
 O mercenário deixou a adrenalina e instinto assumirem e, em um movimento rápido e insano, deixando que se aproximasse mais e colocou a espada na boca do monstro, a impedindo de fechar momentaneamente. Antes que as outras cabeças pudessem fazer qualquer movimento, Lukan sacou o cutelo dentro do manto e em um corte rápido, decepou a língua da criatura e começou a cair, já virando o corpo na queda, tirando o manto que usava...pois logo em seguida, outra cabeça vinha de baixo, outra pela direita, ambas de bocas bem abertas e rosnando. Lukan fez o impossivel qualquer ser humano normal. Quando caiu, abriu as pernas e cada pé pousou na boca do monstro, não o deixando cair lá dentro...e se virou, mirou a outra cabeça que vinha para ele e jogou o manto molhado, pesado o suficiente para ser arremessado. Aquela coisa não tinha olhos, mas aquilo, com certeza atrapalharia de algum modo. Lukan, então, saltou, quando as cabeças se chocaram, não dando tempo para nenhum outro ataque ser feito contra ele e, quando achou que tocaria o chão, uma sombra negra e rápida passou ali por baixo e o mercenário aterrizou no seu cavalo, que disparou rapidamente para longe do monstro. Um pouco machucado com o impacto não esperado, Lukan não se importou e abençoou o cavalo treinado de todas as formas possíveis enquanto ele disparava floresta adentro...com aquela coisa começando a segui-lo.
 Irritado, Lukan agora avalia suas opções...para seu plano dar certo, ele precisaria da sua espada de volta, que com certeza havia sido engolida por aquela coisa. Ele só tinha a merda de um cutelo, estava arfando e já tinha abusado da sorte e do seu corpo até demais...um ano parado fazia aquilo com um homem. Um ano sem entrar em combate devido, o mais pesado dos trabalhos que fizera foi cortar arvores...
 Mas ele tinha de continuar. Ele tinha de matar aquela coisa.
 Já tinha perdido uma casa, não ia perder outra.
 Crom continuou galopando, a chuva ficando cada vez mais forte, tirando um pouco da visão e da percepção do guerreiro, mas ele nem pensava em parar ou mandar diminuir o ritmo...não com o som da Hidra atrás dele, rastejando, levantando arvores e chão, rosnando, desejando matar aquele que a havia agredido e subjugado de varias formas. A corrida continuou entre chuva e relâmpagos até Lukan ver onde queria chegar.
 O Penhasco do Rei.
 Era dito que aquele penhasco foi o cenário de suicídio de três reis e cinco rainhas. Se tal historia era verdade, ele não sabia...mas que era fundo e a queda mataria até mesmo um monstro como aquele, isso ele tinha certeza. Ele saltou do cavalo, derrapou sobre a lama, quase chegando na porta do precipício e incitou a Crom a fugir novamente, que o obedeceu. Quando virou a cabeça para a floresta, segurando o cutelo como se fosse o espirito santo, Lukan se deteve...
 Silencio. Tudo estava calmo. O único som era o da chuva e os cascos de Crom na lama, nada mais. Ele ficou ali, parado, a chuva ensopando suas roupas e seus cabelos por alguns minutos, cada instinto, cada sentido, voltado para saber onde ela estava. O mercenário queria pagar de desesperado...mas sabia que se ficasse ali por muito tempo, até o monstro saberia que ele planejava alguma coisa e...
 *BOOM*
 Um estouro, embaixo, no penhasco, não lá embaixo, mas na encosta. A parede de rochas havia sido estourada por algo que veio por debaixo da terra, de novo...e seis cabeças ferozes, rugindo, uma delas com um manto azul entre os dentes, outra com uma espada larga cravada no lábio inferior...as seis avançaram. Todas elas de uma vez só. Lukan ainda tentou pular para a direita, mas foi pego em pleno ar por uma das bocas que salivavam...a que tinha sua espada cravada nela. Dentes enterraram em sua coxa e ele rugiu...sabia que agora, era seu fim...veneno de Hidra era letal, poucos sabiam curar aquilo, ele tinha poucas horas, talvez minutos...mas não pensou que sobreviveria mais do que alguns segundos...pois ele foi jogado para cima, girando...depois, quando caiu, caiu dentro da garganta do monstro. O mercenário tentou pegar sua arma, segurando o cabo da espada, mas a Hidra retraiu o lábio e a lamina desceu goela a dentro junto com seu dono. Em poucos segundos, Lukan estava no estomago do bicho.
 Úmido e apertado, a ponto de nem conseguir se mexer um centímetro. Lukan podia sentir o veneno o consumindo, sua coxa, logo sua perna estavam queimando. O cheiro era insuportável e o oxigênio logo ia acabar, e ele podia sentir...um calor, parecido como quando você coloca um pano úmido de álcool sobre a pele de alguém, por todo seu corpo...ele estava sendo digerido.
 Lukan relaxou o corpo...deixou o pesar passar.
 "Já era" ele pensou "acabou aqui...ser morto por uma hidra, ter deixado algumas marcas nela...não é tão ruim assim".
 Ele se deixou levar...se deixou cair...estava cansado, pensando em tudo...precisava descansar...fechou os olhos e sua mente vagou...pensou nos dias tranquilos que teve...e depois, se lembrou de coisas mais importantes.

 - Lukan?
 - ...
 - Lukan...
 - O que foi?
 - Levanta, caralho, eles estão vindo. Somos só eu e você aqui!
 - São cinquenta homens, Vykan, como acha que podemos com isso?
 - Cê tem razão, melhor alguém amarrar um dos braços.
 - É sério, porra! Olha pra eles! Olha só como eles vem com tudo! Queimamos fazendas delas, matamos as mulheres e crianças, eles tem toda razão de querer nosso sangue!
 - Eu quero que se foda! E é melhor você lembrar do que somos, antes que eu te lembre de uma forma nada agradável!
 - Irmão, sério...
 - Sério digo EU, Lukan! Não vem com crise existencial agora! Não tem meios limpos e honrados de fazer o que queremos fazer! Matei crianças sim, matei mulheres sim, e sabe do que mais? Eu não ligo! Esses caras são bandidos, caras que iam encher o bucho das mulheres com mais bandidos e criar os bandidos mirins para serem estupradores, ladrões, tudo de ruim nessa terra! Cortamos o mal pela raiz e vamos ser pagos por isso, SE nós sairmos vivos daqui!
 - Eu to cansado, cara...
 - ...
 - Eu só queria...
 - Frouxo.
 - Que?
 - Bichinha do caralho!
 - Cê tá falando com...
 - COM VOCÊ! É COM VOCÊ QUE EU TO FALANDO, SEU ANIMAL! Você esqueceu como começamos tudo isso? Por que começamos? A gente tem um lugar pra voltar, mas não vamos voltar se não tomarmos ele! Estamos construindo meios pra isso, não estamos? Agora, se você vai entrar em crise toda vez que ver um corpo, então eu vou te dar muita porrada nessa sua cara, entendeu? A gente é assim mesmo, ok? Bruto, rapaz! Vamos tomar porrada de todo mundo, toda hora, a gente vai rastejar na sarjeta, mas vamos sair do outro lado LIMPOS! Porque tudo o que eu to fazendo é por algo bom e eu sei disso! Então, levanta Lukan...levanta, porque eu não vou conseguir fazer isso sozinho.
 - ...você e esses discursos.
 - Vai, rapaz...vamos logo fazer isso.
 - Tem algum plano? Eles são cinquenta, não são?
 - Eu não to nem ai, podem vir 100, podem vir guerreiros, arqueiros e sacerdotes, homens bons ou ruins. No final do dia, ninguém vai perguntar quem ou quantos eram...eles vão perguntar como que dois mataram tantos.
 - Haha...
 - É sério, Lukan...tenha mais fé em você, eu sei que você quer ir pra um lugar tranquilo um dia, mas até lá, se lembra disso...da fúria, da raiva, da sua determinação...não fica no chão, irmão. Não aceite a derrota.

Enquanto o seu coração bate
MATE!

 E pela primeira vez em muito tempo, o coração de Lukan bateu mais forte.
 Agora ele lembrou...o porque de matar.

-

 As pessoas se atropelavam, carregando seus cavalos ou carroças com tudo que podiam, como podiam. Os gritos e chingos eram constantes, pais jogando seus filhos e esposas dentro de seus meios de locomoção e tentando partir, contornar a bagunça, com pouco sucesso. Amanda, por outro lado, ajudava quem podia enquanto seu filho permanecia dentro de casa, juntando suas ferramentas, comida e o pouco ouro que tinham. Tudo ali fora construído pelas suas mãos e as mãos da mãe, qualquer coisa poderia ser reconstruída, eles só precisavam...
 Um rugido, seguido de choros e gritos da multidão lá fora, faz Mikael parar de fazer qualquer coisa. Amanda, que estava ajudando uma senhora a colocar suas ovelhas na carroça, parou imediatamente e olhou para as arvores atrás dela. O som de algo se arrastando era mais alto do que a gritaria, e todos tentava correr e se esborrachavam, pois tentavam ver o que estava vindo na floresta. Amanda largou tudo e correu para sua casa, pegaria seu filho, iria embora com a roupa do corpo se for preciso. Mas quando pisou no primeiro degrau, as arvores se abriram e seis cabeças horrendas surgiram, rosnando, rugindo, apavorando a todos e fazendo o verdadeiro caos reinar. Eles estavam passando e quebrando a ponte de pedra quando ela entrou na sua casa, chorando, segurando o filho no colo, deixando a sacola que ele segurava para trás. Quando saiu novamente, o monstro estava mais perto e as pessoas mais longe. E por ironia do destino, ela tropeça, cai e rola no chão com o filho nos braços, mas logo se ergue e tenta correr novamente.
 É quando a Hidra para. Mikael também para, puxando o braço da mãe e a fazendo olhar. Todos que não estavam muito longe, param para ver...
 O monstro começa a roncar...a rosnar e...parece querer vomitar...
 É quando ele dá um espasmo e se escuta algo quebrando. Um som abafado, como se algo estivesse acontecendo dentro...dentro DELA!
 O monstro se debate agora, mais sons de coisas quebrando, ele se joga de um lado para o outro...uma torre é perdida no processo, quebrando com o contato do corpo enorme da criatura...até que mais um estalo, mais um osso quebrado e ela começa a ceder, encostando as cabeças no chão e...
 Sangue...
 Tem sangue escorrendo pelas bocas delas!
 O choque de todos só aumentou quando algo brota entre as cabeças...brota no corpo da criatura...
 Uma lamina em brasa!
 Como uma explosão, uma coluna de fogo se ergue e corta o corpo da criatura ao meio, de dentro para fora. O fogo se desloca até a floresta atrás dele, acabando por cortar algumas arvores no processo, as deixando chamuscadas, fazendo cair cinzas por ai...assim como o corpo da Hidra, que agora, se encontrava aberto, chamuscado, em cinzas...e as seis cabeças caindo, uma a uma, com baques altos e secos.
 Amanda não acreditava no que via. Não o monstro caído, não a floresta pegando fogo...mas sim a figura do seu amado, saindo das entranhas queimadas da criatura, com o corpo seminu, com uma aura vermelha crepitando ao seu redor, uma espada em brasa nas mãos...e com olhos vermelhos e suas iris laranja e a pupila bem fina. Ele ergueu sua arma aos céus...abriu a boca e rugiu. Rugiu até fazem as nuvens se afastar dali, até o coração de cada homem saber que, dentro dele, não havia uma alma humana...mas uma fera que antes estava enjaulada...não mais.
 Lukan havia matado a Hidra de dentro para fora, lembrando, finalmente quem ele era.

-

 O mercenário prendia a ultima fivela em Crom quando Mikael chegou, com olhos tristes, lhe oferecendo mais uma caneca de cerveja. Lukan ri, mas aceita, pegando o garoto no colo, o colocando em cima do cavalo negro e tomando a bebida para si. Eles conversam sobre coisas triviais enquanto Amanda observa, junto a porta.
 A dois meses após a morte da Hidra, as pessoas começaram a venerar Lukan como seu herói, o que ele usou para colocar a devida ordem nas coisas por ali. Primeiro, foi conversar com Amanda e explicar tudo o que ele deveria fazer, como deveria e o que ele queria. Ela, compreensiva como sempre, aceitou a maioria das coisas, enquanto outras, achou melhor esperar. Depois, foi colocar um novo líder no local, alguém que visasse o crescimento daquele lugar, não só esperar fofocas e comércios de cavaleiros ladrões. Hulgo, o açougueiro, era um homem firme para a tarefa, sendo um dos poucos que sugeriu enfrentarem o monstro devidamente enquanto mulheres e crianças corriam. Depois, foi montar uma forja e militarizar um pouco o local...eles não deviam depender de ninguém para se defender ou para lutar, deveriam saber fazer isso eles mesmos. Ensinou táticas, modos de luta com espada, machado e arco...e quando teve a certeza de que iriam conseguir seguir por si próprios, ele viu que era hora de partir.
 Terminou a cerveja, fez o garoto rir quando arrotou, o colocou no chão e se despediu dele, com um forte abraço. Chamou Amanda pra perto e a abraçou a beijou como de costume...mas no fim, ela mordiscou seu lábio inferior e disse em voz bem baixa.
 - Volte pra nós. Entendeu? É uma ordem, soldado. - Ele sorriu e respondeu.
 - Sim, minha senhora. - E a beijou novamente.
 Subiu no cavalo, deu um comando e Crom começou a galopar. Ele não olhou para trás. Só quando passou pela nova ponte de pedra, subiu um pequeno monte e se permitiu sentir.


 - Estou indo te procurar, irmãozinho...está demorando demais para o meu gosto. Eu lembrei nossos motivos e nossa causa...mas talvez eu não fique para desfrutar tudo no final...

Por que eu achei um lugar pra voltar.

 Lukan endireitou o cavalo e seguiu seu caminho, floresta adentro.

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