quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Imortais - A Pantera


Para Pan


 O cervo se espantou quando o semblante da guerreira pôde ser visto completamente, mas ela não se importou. Não era aquilo que ela estava caçando.
 A floresta aparentava ficar mais ingrime agora que a trilha havia acabado. No final da estrada de terra vermelha e batida, uma placa tosca, mais parecendo um pedaço de parede arrancada as pressas e uma tinta que já estava desaparecendo dizia "Não ultrapasse - Risco de vida". Foi quando ela soube que estava no local certo e deu um leve comando na rédea para que a montaria seguisse em frente. Raízes, pedras e elevações se mesclavam entre as arvores e a nevoa. Mas tudo bem.
 Ela não estava montada em um cavalo.


 A caçadora deu mais um comando em sua rédea e com os pés na cela, fazendo a Pantera explodir em uma corrida silenciosa. Nem mesmo galhos ou folhas quebravam sob as patas leves e poderosas do animal que era conduzido por sua dona, uma mulher de pele bronzeada sendo protegida por uma armadura leve de prata, bem simples, com um cinturão de couro segurando diversos bolsos e pequenas laminas, tudo isso por baixo de um pesado manto negro maleável. Em suas mãos, luvas, e nos pés botas de cano alto, dobradas antes de chegar ao joelho, ambas marrom escuras. Sua montaria, seu amigo, Gheera, a pantera, enorme! O felino era das Savanas de Itull, logo seu tamanho era o triplo do normal, podendo carregar a caçadora numa cela especial, mais seus pertences em inúmeras bolsas de couro e ainda correr como se fosse uma sombra.
 Desviando das arvores, pulando as raízes e evitando poças de água, Gheera obedece a risca as ordens da Caçadora, cujos olhos castanhos estão fixos no seu destino mais a frente...porém quando sente que esta chegando, quando o terreno fica mais plano e as arvores mais escassas, ela começa a diminuir a velocidade, fazendo seu manto se abaixar em suas costas e o felino a parar de correr e começar a trotar e, logo, a caminhar.
 Um pequeno monte a sua frente é o ultimo sinal que ela precisava ver. Aquele era o lugar...e ela fez sua montaria caminhar rasteira e silenciosa. Mesmo para um animal daquele tamanho, Gheera era muito bem treinado e conseguia ser o animal mais silencioso ser de toda Sandria quando lhe fosse ordenado. Chegando ao topo do monte, a Caçadora tirou o capuz do manto relevando seus cabelos negros que balançaram ao vento.
 - Chegamos. - Ela diz, baixinho, mais para si mesma do que para o fiel pantera.
 A sua frente, descendo um morro verde de grama e musgo, a cidade se formava lá embaixo...mas o silencio que vinha dele era aterrador.
 Dando mais um comando para Gheera, o felino saltou e começou a correr rasteiro e silencioso pelo morro e, depois de dois minutos de descida, eles estavam em meio as estruturas.
 Eram casas de pedra, incrivelmente bem alinhadas umas as outras, feitas de vários tipos de rocha, desde mármore a granito...todas abandonadas, tomadas pelo mato e até com arvores crescendo dentro delas. Brinquedos e diferentes utensílios podres e enferrujados se encontrava aqui e ali, indicando a quanto tempo o local estaria abandonado. Caminhando pela grama, os olhos e ouvidos do felino eram tão atentos quanto da Caçadora e não percebia tais detalhes fúteis, mas sua dona se ponderava que tipo de vida eles podiam ter por ali. Após passar por uma verdadeira minuscula cidade, a Caçadora se encontrou em mais um campo aperto, mas com uma trilha feita de pedras que levavam a uma escadaria que faria subir mais um monte, dessa vez, bem alto.
 Puxou as rédeas pela direita e fez o animal correr novamente, com o intuito de contornar o lugar, ela começou a procurar um lugar alternativo para subir, um que não seria fácil ser notada.
 Enquanto em primeiro plano sua mente se concentrava na tarefa, em segundo plano, o encontro de "contratação de serviços" era relembrado.


 Era uma noite de chuva e ela estava lendo um livro da taverna local, da cidade de Surion. Gheera havia ficado em sua residencia, como de costume, guardando-a. O animal era bem conhecido por todos ali e ninguém se sentia ameaçado, era só não mexer com ele.Ele servia também de sinal para identificar forasteiros que, quando viam o bicho, entravam em panico ou tomavam um susto e isso rendia boas risadas.
 Com os pés em cima da mesa, usando uma túnica azul escuro com um cinto preso na cintura, uma calça de mesmo tecido e botas leves, a Caçadora bebericava seu vinho enquanto lia a respeito dos reinos do Oriente. Tal curiosidade se devia aos boatos de que um lorde havia sido morto por uma aranha, o que a fez rir de primeira instancia, mas a fez ficar curiosa a respeito do mundo de lá.
 Foi quando um homem entrou no local. Ela não tirou a atenção do livro, mas, pelas vozes que se cessaram e a musica que ficou lenta por um minuto, ela soube que era um estranho e concentrou seus sentidos em seus passos. E ele caminhou até ela, sem rodeios, sem perguntas a ninguém. Ele parou na frente de sua mesa e disse em um tom de voz médio.
 - Você é Panuria? - O homem, trajando um manto negro por cima de roupas escuras, tinha cabelos encaracolados e longos e o rosto branco e liso.
 - Quem pergunta? - Ela responde, sem tirar os olhos do livro.
 - Meu nome é Aron, da cidade de Múria. Eu requisito seus serviços, se estiverem disponíveis, senhora.
 - Sente-se. - Disse ela, fechando o livro e tirando os pés de cima da mesa, cruzando as pernas e terminando de beber seu copo. Ela o enche novamente, oferece a garrafa ao homem, cuja sede o faz pegar com urgência e beber diretamente no gargalo. Ela não se incomoda, uma vez que já fez algo parecido varias e varias vezes.
 - Desculpe, é a sede. - Aron diz, colocando a garrafa de volta a mesa.
 - Como me encontrou, Múriano? - Ela pergunta a ele, em seu tom habitual, tomando mais um gole de vinho de seu copo.
 - Eu a conheci quando buscava quem poderia me ajudar. Eu pesquisei e procurei por inúmeros mercenários, espiões, ladrões e guerreiros...seu nome soou mais vezes e procurei saber sobre seus feitos para saber se poderia atender meu pedido, caso o aceitasse.
 - Jura? - Ela disse com falso entusiasmo. - Fui sua escolhida?
 - Na verdade, eu fiquei em duvida durante um tempo. - Ele não pareceu notar o escarnio dela. - Eu fiquei em duvida entre você e dois irmãos Mercenários que tem residencia a Sudeste daqui. Mas ele se mostraram incapazes de corresponderem as minhas expectativas. Seus julgamentos e senso de honra são muito bons, mas seus métodos são barulhentos demais e para o que eu preciso, eles não podem me dar. Fora que eles estão longe um do outro, daria trabalho reunidos.
 - O que você ouviu? - A curiosidade fez Panuria se ponderar um pouco sobre o que diziam sobre ela por ai. Mas Aron, apesar de começar com meros boatos e reputação, ele foi mais longe que isso.
 - Ouvi sobre suas caçadas ao Sul, onde e neve é azul e os céus ficam coloridos a noite. Ouvi sobre sua invenções que ajudaram cavaleiros a matar gigantes. Ouvi dizer que projeta suas coisas em uma mesa, com papiro, tinta e cálculos que aprendeu com mestres de artes em Ronarian. Sei também que projetou e construiu sua casa com suas próprias mãos. - A Caçadora sorri e Aron exita um pouco...mas continua a falar. - Sei que nasceu a Nordeste daqui, nas Terras Aridas. Sei sobre sua família e porque decidiu sair de lá. E porque depois voltou. E porque saiu de novo... - O olhar de Panuria continuava baixo e perdido, mas seu sorriso havia ido embora. Aron pigarreou. - Mas eu sei também que continuou lutando, apesar de tudo. Sei que se especializou em mil maneiras de caça e acabou adestrando uma Pantera de Itull com a ajuda dos Elfos... - Aron levantou o braço e chamou atenção do dono da Taberna, deu dois toques com o indicador na garrafa de vinho, levantou a mão fazendo o numero dois com os dedos e recebeu a confirmação do dono de que havia entendido a mensagem. - E é por isso que preciso de você.
 - E o que precisa, Aron? - Ela o olha nos olhos pela primeira vez, ele engole a seco.
 - A Noroeste daqui, existe uma estrada que se segue por cinco cidades e depois acaba na Floresta Cinzenta. Depois dessa floresta, há uma local abandonado a muitos anos atrás...
 - Nunca ouvi falar dessa cidade. - Ela o interrompe.
 - Ninguém ouviu. Só eu e minha família. - Ele abre o manto e rapidamente tira um embrulho de dentro. Ele estica o mesmo e revela um mapa desenhado em pele de porco, um mapa bem detalhado que a Caçadora estuda atentamente com seu olhar. Aron volta a explicar. - Lá, nossos antepassados viveram por muitos anos até que algo os fez partir, deixando para trás um tesouro enorme, de ouro e joias. Ninguém sabe ao exato porque, mas é sabido que muitos dos nossos eram adeptos de uma magia antiga, negra e trabalhava com deuses que não deveriam ser nomeados...mas aposto que você já ouviu falar a respeito deles...
 - Quais deuses?
 - Os Uruni. - Ele sussurrou a palavra, falando bem baixinho perto dela...e devia mesmo. Uruni...deuses que não eram deuses, seres do Vazio, os opostos de cada um dos deuses que existia para as religiões "boas", tomando os humanos como meros pedaços de carne para sustentar algo maior...ou os tornar algo maior...depende de que tipo de palhaço você para concordar com isso.
 Aron continuou.
 - Dizem que foi fruto dessa magia que o fizeram sair de lá, as pressas, se tornando nômades por um tempo e só depois e fixando em um lugar.
 - Que lugar? - Ela quis saber. O lugar de onde as pessoas vinham sempre podia ser uma dica sobre sua índole.
 Ele suspirou. Havia mesmo pesquisado sobre ela durante um bom tempo e sabia que se mentisse ela iria descobrir e nunca faria negócios com ele, seja por todo ouro do mundo.
 - Da cidade de Clyde.
 - Hmmmmmmmm...sei. - Ela deu uma risada no final. Clyde, a Cidade dos Ladrões. - Muito bem...o que quer que eu faça lá?
 - Veja se podemos nos aproximar novamente, se é seguro retornar, investigue. Me retorne com a informação, qualquer que seja, lhe será pago uma boa quantia.
 - Qual quantia? - Ela quis saber quando chegaram as duas garrafas de vinho e mais uma taça. Aron serve a caçadora e depois serve a si mesmo.
 - Vinte mil peças de ouro. - Ele volta a abrir o manto e tira uma bolsa pesada de couro. - Dez mil agora, dez mil quando voltar. Iremos pagar mais caso tenha de matar alguma coisa e mais ainda, caso retorne ferida.
 Panuria analisa toda a situação enquanto vira a taça e pensa em tudo que lhe é prometido. Ela pensa novamente...mais um pouco...até que mexe em um bolso de couro do cinto que está em sua cintura e tira um pequeno pedaço de metal que, para Aron reconhece que é um apito. Ela o assopra e nenhum som sai dele, deixando o rapaz confuso, até que ela o guarda e responde.
 - Eu recuso sua oferta. - E o homem a olha com espanto.
 - Mas...por que?
 - Primeiro, você diz que sua família veio de lá, mas deixou seus tesouros para trás, por causa do que quer que os obrigasse a fazer isso. Depois, me oferece vinte mil moedas. Ou seja, vocês ainda são ricos, certo? Ainda mais por sair por ai, pesquisando sobre mim, caçando outras pessoas para fazer o serviço e vindo única e exclusivamente a minha procura quando soube que eu era sua melhor opção. Tipica atitude de um garoto que cresceu tendo tudo que sempre quis, do bom e do melhor, gastar tempo e dinheiro para uma única missão que, provavelmente, é de reconhecimento. E depois, mesmo sendo um mimado, você teve a graça de ser gentil comigo e gentil de tocar em certos assuntos sem muitos alardes, para mostrar sua influencia...logo, você é algum tipo de corrupto ou contrabandista, necessita desse ardil para encantar as pessoas a sua volta, se fazer de tímido ou amistoso para suprir seus negócios. É assim que sua família se mantém viva, não é? Na cidade dos Ladrões, você é o que? Seu barão?
 - Olha, do que está falando? - Ele dissimula. - Eu tenho mesmo problemas que só pessoas experientes podem resolver, só isso. Minha família sempre teve experiencias com negócios, talvez nem todos sejam puros, mas a causa é! Veja...
 - Vá embora, Aron. Ache outra pessoa que tenha menos escrúpulos e derrame suas moedas de sangue para ela e não para mim. Nunca mais. - E ela voltou a beber o vinho.
 A face do rapaz se fecha e toda doçura que havia nele se azeda. Ele bate o punho na mesa, atraindo a atenção de boa parte do local.
 - Eu estou oferecendo ouro, lugares novos para descobrir e você vem com esse papinho para mim? Hm? Sua vaca ingrata! Eu tenho direito a aquelas terras, lhe ofereço um trabalho honesto e você me ofende? Diga alguma coisa PANURIA! - Aron abriu um sorriso de escarnio. - Há! PANURIA! Que tipo de nome é esse afinal?
 - É um dialeto élfico. - Ela segura algo no cinto. - Significa: aquela que come suas tripas e depois arrota! - A caçadora puxa a faca guardada em segredo e faz seu serviço. A cabeça do homem só não cai dos ombros porque um pedaço de pele a segura. Sangue espirra em cima dela e de muitos próximos, assim como toda mesa e no livro que lia. O dono da taverna se queixa e pressiona os olhos.
 - Puta que pariu, Panuria, DE NOVO?
 - De novo, Sanchez. - Ela diz, se levantando e limpando o sangue perto da boca e dos olhos. Ela olha para a faca e pensa no seu golpe...ela deveria afiar aquilo. Ela pega a bolsa em cima da mesa e joga para ele. - Pronto, isso deve cobrir. - O homem olha dentro da bolsa que caiu no balcão e pisca três vezes.
 - É, cobre sim, mesmo que você não precisasse fazer isso.
 - Eu sei. - E de repente, toda a musica volta a tocar.
 - Ele deve ter homens lá fora, sabia? - Sanchez volta a falar, indo até ela e lhe entregando um pano úmido o qual, ao invés de se limpar primeiro, ela limpa o livro e depois o seus braços e rosto.
 - Dê mais alguns segundos. - E subitamente, a musica para de novo...para que todos escutem o grito de homens lá fora e dos rugidos de uma pantera enraivecida. Sanchez da risada.
 - Pode dar conta de alguns corpos pra mim, San? - Panuria pergunta e o homem pisca para ela. E antes de sair, ela pega o mapa em cima da mesa.
 Ela caminha para fora e pula 7 corpos encapuzados e ensanguentados, meio dilacerados. Gheera a esperava, lambendo o focinho encharcado de sangue. Ela subiu no felino, foi até em casa e estudou o mapa. Curiosidade era o que motivava a Caçadora, qualquer coisa que pudesse ser descoberta era algo que merecia ser investigada por ela e aquilo lhe parecia ser algo que valia seu tempo. Apesar do teatro, Aron dizia a verdade, seu pecado foi omitir e ser desonesto com ela. Ela se banhou, se preparou e junto tudo o que precisava em alguns dias e seguiu seu caminho.
 E voltamos onde estávamos, onde Panuria conseguiu achar uma trilha para cima, em meio as arvores, não muito longe e nem muito perto da escadaria branca.


 Gheera seguia com precaução, caminhando e sua dona olhava tudo ao redor. Qualquer que fosse o motivo daquele lugar estar abandonado, com certeza deveria ser algo perigoso...ninguém abandona um lugar daqueles a toa.
 E assim que ela chega ao topo, ela vislumbra o que realmente é aquele lugar...e seu medo cresce, ao mesmo tempo em que uma admiração nasce em seu peito.
 Piramides quadriculadas dominam seu campo de visão, varias, espalhadas por aquele campo enorme até onde os olhos dela podem ver. Se parecem muito com as piramides dos Cleopítas que as construíam em meio a areia ao lado de seu rio, crescendo em formado triangular, mas elas são feitas em degraus enormes...como se fossem estruturas que serviriam para gigantes usarem como escadas para o céu, terminando em uma figura quadrada de pedra polida cheia de adornos pintados...cada uma delas. Panuria não pode contar quantas tinha, mas tinha certeza que dentro de cada uma delas havia algo de valor inestimável.
 E isso a fez temer.
 Já não bastava ver uma cidadezinha lá embaixo, bonita, ordenada, com ruas largas, ali em cima, havia aquelas piramides...aquele lugar era uma riqueza, inestimável, bem localizado, com bastante lugar aberto...com certeza havia um exercito para protegê-lo...e mesmo assim, se Aron disse a verdade de tudo, eles saíram dali. E, pensando agora, em sua vinda para cá, na floresta, que com certeza deveria servir para caça...ela não viu uma única criatura viva.
 Que tipo de mal veio para cá que fez todos os seres vivos partirem?
 Um arrepio passa pela sua nuca e até mesmo Gheera sente o nervosismo da dona e começa a se eriçar.
 - Calma, rapaz, calma! - Ele passa a mão na cabeça da montaria. - Relaxa...vamos...achar um lugar para ficar, fazer uma fogueira...okay? Okay...
 Quando a noite caiu por completo em um céu sem lua, a fogueira iluminava e aquecia a ambos. Gheera dormia com seu corpo levemente curvado e Panuria o usava como encosto, se aquecendo nele e com o fogo, a qual ela cutucava com um pedaço de graveto. Esse era o acordo entre eles, a primeira vigia sempre era dela. Panuria ficou assim, durante um tempo, pensando sobre o que poderia ser aquilo, olhando para o céu e percebendo que nem estrelas apareciam...nuvens carregadas pareciam se formar, mas nenhum som de trovão podia ser ouvido ainda. Ela se concentrou nas chamas novamente e começou a divagar em pensamentos...até que, como todos os humanos, seus pensamentos trouxeram coisas que moldaram seu caráter.

 - Você está indo embora?
 - Não.
 - Então o que está fazendo?
 - Estou obedecendo uma ordem do dono da casa, só isso. Vou me encontrar em outro lugar.
 - E pra onde você vai?
 - Eu tenho um lugar em mente.
 - Pan...
 - Eu não irei retornar.
 - Não estou pedindo que retorne, eu quero que me escute.
 - ...
 - Encontre seu caminho. Procure um lugar que você não só se sinta bem, mas que te motive a ser forte. Fará sentido quando achar...mas por favor...nunca se esqueça de onde você veio. Nunca se esqueça de nada e se dedique no que você é boa e você sabe do que eu to falando. Fique bem...e por favor, fique viva.
 - ...tá bom, pai.

 Tais pensamentos tortuosos se foram quando Gheera levantou a cabeça, prevendo o urro que cruzou a noite. Foi longo, distorcido e grave...e de súbito parou, assim como começou.
 Gheera se levanta numa pal velocidade que faz Panuria ficar de pé e quase cair e, antes que pudesse protestar, a fera pula com as patas dianteiras em cima da fogueira. Suas patas poderosas apagaram o fogo em segundos, os jogando na escuridão e depois, em uma esperteza genial, espalha os galhos queimados...a caçadora entende o recado e em um salto, está nas costas dele. Confiando nos extintos dele, ela se deixa levar porque sabe que Gheera está prezando por sua segurança...ela aproveita e se concentra...tanto que tudo ao seu redor fica em silencio por um momento...e seu corpo se contrai e depois de expande, seus caninos ficam mais afiados, suas orelhas mais pontudas e aguçadas e sua íris e pupila se tornar mais fina e contraída. Panuria havia entrado em seu modo de combate.
 Quando saiu do transe e sua "transformação" estava completa, ela se viu no topo de uma daquelas piramides. Ela podia ver tudo lá embaixo...só então notou que a lua cheia brilhava acima dela, agora. Gheera olhava concentrado para baixo e ela começou a fazer o mesmo, se agachando e deixando seu corpo rente ao do animal, deixando seu manto lhe cobrir por inteira, assim se camuflando da melhor forma possível.
 Não demorou muito e eles vieram. Ele, literalmente, brotaram do chão, abrindo buracos na grama...milhares deles, um monte, simplesmente saíram dali do solo, humanos, ou pareciam ser, de pele pintada de branco, que dava para se ver que descascava, nus e carecas, trazendo consigo armas enferrujadas mas, com os sentidos aguçados, Panuria sabia que elas eram afiadas.
 Ela só observava e via que eles caminhavam para o lado oposto de onde ela tinha vindo, atravessando aquele monte de piramides quadriculadas e caminhando mais para frente, para outra floresta. A Caçadora só esperou que saíssem do campo de visão, deu um toque na montaria e ele desceu a piramide em cinco pulos e se pôs a correr atrás daqueles seres. Quando chegou perto da outra floresta, ela estagnou um momento...observando para caso algum deles tenha ficado para trás ou que tivessem percebido sua presença...nada...mas ainda assim, ela abriu as bolsas principais da cela de Gheera e tirou dali suas armas, as prendendo nos punhos.
 As Garras de Prata consistia em duas manoplas de aço e couro fervido com três garras presas nas "costas da mão" de cada uma, com mais ou menos quarenta centímetros de lamina.
 Ela estava pronta e se colocou a correr novamente.
 Quando ouviu o cântico, ela parou e começou a caminhar rasteira novamente. Eram palavras que ela não entendia, palavras disformes e que, por algum motivo, faziam Panuria se sentir com o estomago revirado.
 - Eu não gosto disso. - Disse para Gheera, que concordou com um aceno da cabeça. Ela desceu na cela e caminhou lado a lado com ele. Ambos, silenciosos, foram chegando mais perto, a musica ficando mais alta, até que eles viram uma especie de luz que vinha de baixo...eles chegaram perto e Panuria pediu que Gheera ficasse para trás e ela se arrastou até uma raiz alta...se apoiou nela e olhou para baixo.
 Perdeu o folego.
 Uma depressão ingrime fazia o local parecer uma cova gigantesca aberta e, muitos metros abaixo, todos aqueles seres estavam de joelhos, em meio a grama e raízes grossas e espessas, cobertas de musgo. Eles cantavam, levantando suas mãos e se mexiam para lá e para cá...e eles adoravam aquilo.


 O que quer que fosse, brilhava em um laranja bem claro e estava encrustado na arvore e  a maior delas, que se erguia bem alto...muito alto, como não pode ver ela antes?
 Panuria sentiu um calafrio enorme lhe percorrer, a vontade de atacar, eliminar aquilo. Seja o que fosse, era maligno e merecia ser destruído...mas ela quis ouvir primeiro.
 A cantoria continuava, logo eles se levantaram e começaram a bater os pés conforme cantavam. Homens, mulheres e até crianças, todos bem nutridos, faziam o maior barulho que a Caçadora já ouvira, ela conseguiu contar começando a bater no peito, girar os braços e...pararam, voltando a se ajoelhar.
 A arvore começou a falar. Sua voz era grossa, gostosa de ouvir...como a de um dragão.
 - Novamente...nos reunimos essa noite, meus filhos. Para relembrar o que aconteceu, ver o que acontece e planejar o que irá acontecer! - Ele usava a linguá antiga, mas Panuria a conhecia bem. - A anos atrás, quando o mundo era jovem, eu vim...eu cheguei...deixando as estrelas para trás, o Sol e a Lua me receberam e eu me derramei aqui...nessa floresta, deixando essa profundidade em minha queda. Esse mundo me abraçou e meus filhos nasceram comigo... - A coisa gesticulou para todos os lados...as arvores, ele falava das arvores. - E eu fiz desse mundo um pouco melhor com minha presença. Consegui alimento para vocês...e mais uma vez, vamos nos alimentar agora...e com louvor, iremos crescer...até que o mundo todo nos conheça e nos veja como seus verdadeiros soberanos.
 Os homens abaixaram a cabeça. As mulheres colocaram o rosto na grama. Os meninos abriram os braços.
 As raízes começaram a se mover, a sair do solo, deixando a grama com fios marrons como marca...a se levantarem...até as arvores ao redor da depressão pareciam tombar um pouco para frente.
 Até que a coisa voltou a falar.
 - Que se inicie...o banquete. - E as raízes atacaram. Os homens tiveram os peitos perfurados e varados, as mulheres tiveram raízes entrando por suas intimidades e saindo pelo pescoço e as crianças tivera seus membros puxados até serem arrancados. E as raízes continuaram, destroçando suas carnes, banhando a grama com seu sangue, tomando sua carne e esmigalhando seus ossos.
 Panuria assistia a tudo com pavor, mas não ousava se mexer ainda...até que ouviu o rosnado atrás de si e viu Gheera, com uma raiz segurando uma das suas patas traseiras. Panuria saltou e com um golpe de suas garras, a raiz se cortou e seu amigo foi libertado. Porém, mais vieram...muito mais...as arvores pareciam tomar formas e rostos...rostos que sorriam para ela, a olhavam com apetite.
 Panuria as encarou, tirou o manto e assumiu posição.
 - Podem vir.
 E mais raízes e braços vieram, distorcidos, recheados de espinhos. Gheera batia com suas poderosas patas naquelas coisas, destruindo-as e a Caçadora as cortava, fazendo movimentos que pareciam uma dança de morte, suas garras não deixavam nada no caminho e era isso que ela estava tentando fazer...abrir caminho...porque ela sabia como acabar com aquilo.
 Uma daquelas coisas agarrou seus pés e a puxou para cima...quando estava a poucos metros do solo, ela torceu o corpo e cortou a raiz que a segurava girou em pleno ar, cortando mais quatro que vinham de direções diferentes antes de atingir o solo...e ai, ela viu o caminho limpo.
 - GHEERA! - A Caçadora ruge e a Pantera corre até ela e por ela, Panuria se segura em sua cela e ambos estão correndo para dentro da depressão, descendo na maior velocidade possível, parecendo um borrão em olhos comuns.
 Panuria mira seus olhos felinos na criatura dentro da arvore. Ela está em transe, os olhos fechados, suas mãos tremem e ele fica falando alguma coisa para si mesmo.
 Gheera salta de um lado para o outro evitando as arvores e os corpos mutilados, Panuria corta o que vem a sua frente, eles funcionam como uma maquina de matar e corta tudo pelo caminho...até que eles chegam perto e ela salta. Em silencio, ela estende os dois braços e cravava suas garras no peito da criatura.
 O mundo para. Panuria arfa e torce sua arma no peito do mesmo...que sai do transe. Seus olhos são como todo seu corpo, laranjas e vazios...e ele olha para baixo, vê a cena..vê a seiva que escorre por entre as feridas das garras ainda cravadas ali...e grita. Grita alto...tão alto que faz os ouvidos da Caçadora zumbirem. Ela tenta puxar suas armas para fora, mas não consegue tirar muito...a seiva gruda e as com que o processo seja lento...até que Gheera morde seu cinto e a puxa com tudo, fazendo seus cotovelos estalarem, mas garras saem de prontidão. O felino não fica parado para que sua dona o cavalgue propriamente...primeiro, ele salta e começa a correr e logo Panuria nota o porque...a terra está se movendo, os corpos sendo puxados pelo solo...só após sair dali, Gheera puxe sua dona para cima e a joga, que gira o corpo e cai em cima da cela, se encaixando na mesma depois. Aquela coisa ainda grita o solo continua se movendo, para aquele lugar, para ele...
 - Ele é um deus? - Panuria pergunta em voz alta, cheia de raiva, não de medo. Ela estava um tanto que despreparada para aquilo tudo e a sensação não era boa. Gheera corria freneticamente, suas patas fazendo barulho no solo que se movia, desviando de tudo ao seu caminho...até que ele tropeça, mas não cai...e é quando Panuria vê que tudo parou. Ela se pergunta se aquela coisa morreu, se está tudo bem agora...Gheera até diminui o ritmo...até que eles vem a escutar. Batidas...pesadas...uma lenta, outra lenta...e o ritmo aumenta, o peso continua o mesmo, mas...seja o que for, é pesado, é enorme e está vindo para eles.
 - Vamos, Gheera...vamos, vamos... - Ela incita a Pantera a correr e eles partem novamente, com a velocidade a toda quando a floresta atrás deles ruge e alguma coisa corre para pega-los. A sombra do que quer que seja aquilo está no alcance de visão de Panuria e ela olha com horror tudo aquilo...alguma coisa está vindo, é grande demais. Ela olha para frente pra ver se já sinal de outros inimigos e volta a olhar para trás...e tudo fica em silencio novamente. Gheera não diminuiu o ritmo...mas deveria.
 A coisa brota do chão a frente deles, os fazendo voar. Parecia que metade da floresta inteira estava levantando, rugindo, fazendo o planeta todo parecer que era pequeno demais para ele. Panuria cai, rola no chão e já se coloca de pé, em posição de ataque, assim como Gheera...até que ambos olham para o que surgiu a frente.


 É três vezes o tamanho de Gheera, é verde com luzes alaranjadas saindo daqui e ali...parece ser feito de terra, troncos e tudo mais que uma floresta poderia ser feita. É como se o ser cravado na arvore tivesse assumido sua verdadeira forma. Ele dá um passo a frente e faz a terra tremer.
 Gheera ruge para ele e parte para cima, assim como sua dona, ambos se movendo na mesma velocidade.
 O monstro se coloca de pé, erguendo as patas dianteira maciças e as desce com tudo. Terra pula, assim como Panuria, que desvia do golpe, passa por baixo do bicho, erguendo uma mão e rasgando a "carne" do monstro com algumas de suas garras, fazendo a seiva escorrer. Gheera pula e ataca diretamente no olho, crava suas próprias garras e fechando suas mandíbulas ali. O monstro ruge, mas não para, se debatendo, fazendo a Caçadora se afastar mas não a Pantera o largar. Panuria aproveita a historia do bicho e corre até a arvore mais próxima...ela salta, corre pela extensão do tronco e então pula, mirando suas garras.
 Péssima ideia. Os tentáculos nas costas do monstro ganham vida e a rebatem, a fazendo voar e atingir a arvore mais próxima e depois o solo. Ela consegue sentir o gosto de sangue na boca e a dor de alguma coisa quebrada, mas o a faz sentir dor é Gheera, sendo lançado até o outro lado da floresta.
 Ela rosna e se abriga a ficar de pé. Aquela coisa a encara. A seiva ainda escorre de onde Panuria a cortou, ela observa isso.
 - Se pode sangrar, então pode morrer. - Ela diz pra si mesma e cospe uma bolota de sangue. - Eu só preciso descobrir como. A coisa parte para cima dela...é como um gigante partindo pra cima de uma formiga...mas ela faz o mesmo, ela corre até ele e em grande velocidade, sua mutação permite isso, permite até ignorar a dor e quando eles chegam perto, o monstro abaixa sua cabeça para acerta-lá e esse foi seu erro. Panuria gira seu corpo em um mortal e crava suas garras na cabeçada criatura, com os pés apoiados e suas pernas flexionadas. O monstro sobe seu corpo todo, mas Panuria continua ali, imóvel, mesmo quando ela fica de ponta cabeça quando o monstro se coloca de pé, rugindo...e ela se solta, aproveitando a gravidade e suas pernas velozes para correr por ele...cortando cada tentáculo de suas costas, pular e rolar pelo chão.
 Mais um rugido de dor, dessa vez acompanhado pelo riso de uma pantera. Com as costas banhadas de seiva, cheio de fúria, aquela coisa se vira para mirar sua agressora e contra atacar...mas é surpreendido por um felino gigantesco que salta das arvores e grava novamente garras e dentes em seu focinho. Gheera estava sem a cela, com certeza perdida no momento em que caiu, mas isso não importava, o que importava era matar o desgraçado. Panuria sentia que era a coisa certa a se fazer...não só por ela, mas por todos, algo daquele nível faria um estrago massivo caso chegasse em alguma civilização próxima e não iria parar de fazer mortes e mais morte...e pelo que pode ver, morte de seres humanos o fortalecia...ela não podia deixar aquilo escapar dali. E foi quando o monstro se debatia que ela viu como: Ele empinava e descia com força, tentando a todo custo tirar o felino que o machucava de si...e foi quando a Caçadora viu um ponto brilhante no peito do monstro, encoberto de raízes, ficava claro, depois escuro, ficava claro e depois escuro...se aquilo não era o coração, o que mais poderia ser?
 Ela olha ao redor e forma um plano...ela vê uma arvore próxima a um declive perfeitamente posicionado. Ela sorri e corre até ela e, sem perder tempo, suas garras começam a golpear o tronco que em poucas estocadas das laminas prateadas da Caçadora, cai, formando uma especie de rampa. Tendo a certeza de que daria certo, Panuria deixou o instinto agir e correu em direção ao monstro agora, novamente se tornando um borrão e calculou tudo no percurso.
 - GHEERA! SOLTA! JUNTO! - Ela ruge e o animal faz como ela o comanda, sem nem precisar olha para ela, solta o monstro, cai no solo e sai do alcance de ataques. - DISTANCIA! OLHO NO TRONCO! ESPERE O SINAL! - Ela aponta para ele do que está falando e o felino faz o que ela manda mais uma vez e Panuria corre e salta novamente, cravando suas garras na pata dianteira do monstro e fazendo sua subida rapidamente. O monstro corre se bate contra uma arvore e a Caçadora só escapa por seus reflexos, se jogando para cima, indo parar nas costas dele. Gheera ruge no chão, correndo de lá para cá, tentando atrair a atenção da criatura. "Garoto esperto" ela pensa e volta ao seu plano...ela caminha pela seiva nas costas do monstro e percebe que novos tentáculos estão crescendo...o bicho é forte e está se regenerando, precisa agir rápido! Ele se debate mais uma vez e ela se obriga a se segurar, por um segundo...e corre e até a cabeça dele e crava suas garras noamente em sua carne podre, mais seiva, mais um rosnado furioso...e ela começa a puxar. Não de uma forma que liberte suas garras, não...ela as torce enquanto puxa, forçando o monstro a empinar...primeiro, ele se abaixa, dificultando o processo, se debate contra arvores e rochedos.
 - GRANDE MOMENTO PRA MUDAR DE TÉCNICA, SEU FILHO DUMA VACA! - Ela rosna entre dentes e volta a puxar...até que finalmente ele dá indícios de que vai "cooperar". Panuria grita. - GHEERA! LUZ! ATACA! - O felino escuta atentamente e não entende muita coisa...até que o monstro sobe tudo de uma vez e ele vê o ponto luminoso no peito.
 Gheera estava na distancia perfeita e explode em movimento. Ele consegue ser mais rápido que sua dona, mesmo com todo seu tamanho, ele sobe no tronco caído, aumenta a velocidade e salta em direção ao ponto luminoso.
 Gheera atinge o alvo com tanta força que atravessa o corpo podre do monstro.
 Panuria escuta o ultimo rugido da criatura, se soltando ela e saltando em cima da arvore mais próxima. Gheera aterrissa, uma esfera disforme que bombeia uma luz laranja está presa na sua boca a qual ele força entre suas mandíbulas até que ela estoura em mil fragmentos e ruge para o alto em triunfo. O corpo gigantesco cai, massacrando arvores e rochas em sua queda e ali fica...para sempre.
 Panuria salta até o chão e corre de encontra a Gheera e abraça seu pescoço, que por sua vez, coloca uma pata no ombro da dona.
 - Conseguimos, garotão, CONSEGUIMOS! MATAMOS UM DEUS! - Ela comemora e Gheera lambe seu rosto. Ela ouve o tilintar de metal e olha para o cadáver vegetal e percebe que, do rombo de onde estava seu coração, caia coisas brilhantes...ela chega perto, vê o que é, arregala os olhos e diz. - Rapaz, vá buscar sua cela, rapido. - A fera, nem parecendo cansado com a recente luta, dispara floresta adentro. Ele volta com a pesada cela na boca, caminhando com dificuldade e depois ajuda Panuria a prendê-la de volta nele. Ela retirar suas luvas com as garras e as guarda e logo em seguida começa a encher os bolsos de couro com ouro e prata, pedras enormes, que caiam do monstro. Milhares dela, inúmeras, mal dava pra contar! Esse deve ser o tesouro de que Aron havia falado, ele estava...
 - Uruni... - A voz do monstro volta e faz Gheera rosnar e a Caçadora a ficar alerta. Ela escuta a voz dele mais uma vez...só que uma frase completa se faz agora.

Uruni Sumuone Oru Tury Yuii Strom OHAY

 A floresta já eram um silencio...mas quando acabou de dizer a frase, até o vento parou de soprar...até que a terra começou a engolir a tudo.
 Começando na depressão onde estava acontecendo tal ritual, a terra começou a despencar para o nada, o chão estava deixando de existir e caindo para os deuses sabiam onde.
 Panuria sobe na cela, puxa o pelo da montaria e grita.
 - CORRA, GHEERA, CORRA, CORRA! - E ele dispara mais uma vez. Seu ritmo está um pouco mais lento do que o de costume por causa da batalha, mas ele ainda consegue tomar distancia da terra que cai. Ele corre por toda floresta até chegar a área das piramides e começa a diminuir o ritmo...até receber uma cutucada de Panuria e volta a correr o máximo que pode. A Caçadora olha para trás e vê que estava certa...a Terra continua a despencar. A Pantera continua a correr enquanto as piramides começam a desabar ao seu redor, caindo no buraco gigantesco que se forma. Eles passam pelas casas e depois de alguns segundos, elas também são engolidas pelo buraco e caem até o centro da terra. Ao chegar na floresta cinzenta, Gheera se cansa e diminui um pouco seu ritmo, está arfando, Panuria está com dó dele, ele merece um descanso, mas ele vão morrer se ele não correr mais então grita ordens a ele, promessas, que trazem de volta a motivação a ele e ele volta a correr com tudo...até que tropeça e os dois rolam no chão de barro. O buraco enorme ainda cresce, mais e mais, está chegando perto...ela se aproxima de Gheera e o abraça e espera...
 E tudo para.
 Panuria demora para abrir os olhos e vê a sua frente uma imensidão vazia, cujo fundo não podia ser visto. Ela olha sem entender, até que vê, em seu lado direito, a placa "Não ultrapasse - Risco de vida". Eles tinham saído do suposto território do Uruni e estavam salvos...
 Gheera se deixou cair e Pan caiu apoiada nele, como se estivessem sentados em frente a uma fogueira. Ela ri entre arfadas e a Pantera fica respirando fundo. Ela engole em seco e fala.
 - E ai, rapaz? Que tal tirar uma soneca e depois a gente vai embora pra casa? - A resposta foi um leve ronco de sua montaria. Ela ri, respira fundo e olha para o Sol que despontava no horizonte. Estava tudo bem agora.


 - Relaxa, pai...eu ainda sou boa no que faço...eu ainda to viva.

 E Panuria se deixou cair nas mornas águas do sono.
-

 A noticia se espalhou como fogo em palha.
 Um enorme buraco havia se formado a Noroeste,
tão grande e são fundo que nenhum fim podia ser visto.
 Lendas sobre o lugar haviam sido ditas por causa de pessoas que entravam e não voltava e se voltavam, estavam loucas, sussurrando coisas e cometiam atrocidades antes de sumirem novamente. Essas pessoas sussurravam sobre uma grande luz que conhecia as verdades da terra e que um dia iria engolir todo o planeta, toda a Sandria para si e reivindicar seu ludar de direito no cosmos.
 Tal ameaça havia sido enfrentada por uma guerreira de pele bronzeada e de seu fiel mascote, um gato negro enorme com olhos azuis.
 Se iniciou o murmurio de que ela era a melhor caçadora que existia, a melhor assassina e muitos partiram para conseguir seus serviços...tentar conhece-la e saber o que era verdade e o que não era, se tal coisa era possível ou não era.
 A Caçadora que havia matado um Deus e conquistado grande fortuna.
 Essa é a lenda de Panuria.

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