terça-feira, 16 de agosto de 2016

Imortais - O Chacal

Para Valdir


  Eles dizem que entre as dunas e areias movediças do cruel Deserto de Sunah, existe um lugar chamado Kunush; um reino tão vasto, tão bonito e tão reluzente que quem vive ali só morre depois de duzentos anos de idade, alegando que a felicidade e satisfação daquele lugar rejuvenesce e toma conta de suas almas. As pessoas ali são extremamente receptivas, trabalhadoras, amáveis com os raros viajantes que sobrevivem ao deserto enorme e cheio de animais asquerosos e perigos naturais que os cercam. São amantes das artes, bons fazendeiros, exímios arqueiros e espadachins e grande domadores de animais. No local nunca falta água, frutas ou qualquer tipo de carne, bebidas e os maiores prazeres mundanos, tendo poucos problemas como alguns arruaceiros que não sabem o devido lugar de festejar, mas eles nunca tiveram mais problemas do que isso. Seus governantes, a Rainha Oro e o Principe Suna, nome dado em homenagem ao deserto que os rodeia e os protege, são pessoas preocupadas com o povo e dedicam quase todas as horas do dia para tomar conta de seus devidos assuntos. É difícil descrever o quão bonito é o lugar e o quão prazeroso é ficar ali, só podendo dizer que é o paraíso na Sandria.
 É difícil pensar como alguém teria coragem de destruí-lo por quaisquer motivos que seja.
 Kunush era tão bem protegido durante séculos por meios naturais que nunca houve um exercito propriamente dito. Havia suas forças armadas como já mencionada e estavam sempre de prontidão somente para desfiles, mas nada com táticas de defesa ou que tivessem sua coragem assegurada em casos de adversidades. Seus ancestrais se acostumaram e conseguiram fazer crescer um civilização no lugar mais inóspito do planeta e, esqueceram, que se eles conseguiram, outras pessoas poderiam e, esses que viriam, poderiam não terem sido amaciados e agraciados conforme novas gerações nasciam.


 Urunushi, uma civilização subterrânea, eram guerreiros exímios pois lutavam desde o nascer. Suas vidas eram baseadas nas forças dos braços, no fio de suas laminas e em seus aguçados sentidos e, quando estavam em grande números, com maquinas diversas de guerra e táticas militares para encarar qualquer tipo de perigo, eles saíram do meio das areias e começaram a percorrer seu caminho de dominação e destruição. Rumores dizem que os antepassados dos Urunushi eram um povo construído pelos renegados de qualquer civilização e tal rumor se provou verdadeiro, pois seu ódio por elas era claro. Eles começaram nas regiões mais calmas, onde muros e exércitos caíram e mortes nada bonitas aconteceram, com reis sendo empalados e rainhas estupradas por todo o exercito. No final das contas, as cabeças eram cortadas e limpas, com as caveiras sempre presas ao cinto do Rei do Urunushi. Outros reinos pediram clemencia e abriram seus portões para o massivo exercito e tiveram, de fato piedade. As forças armadas de tais reinos foram poupadas desde que integrassem ao exercito deles, o povo não sofreu qualquer tipo de retaliação e seus governantes tiveram uma morte limpa e rápida em praça publica. Os Urunushi se proclamaram senhores do deserto e finalmente colocaram seus olhos em Kunush e os demônios se colocaram em marcha para dominar o paraíso na Terra.Como um povo sem preparo, quando as aves trouxeram as noticias, todos se desesperaram, já pedindo a sua rainha para que abrissem os portões caso eles conseguissem chegar e que se sacrificasse pelo seu povo e ela não teve escolha...passou dias e dias rezando e pedindo aos seus deuses que lhe dessem iluminação e um milagre.
 Mas milagres não são dados...eles são tomados.
 E um guerreiro não se conformou com a situação...e decidiu buscar a devida recepção que os Urunushi mereciam. Ele saiu de noite pelos portões da frente, sendo chamado de desertor e fugitivo...enquanto que, aqueles que o conheciam, sabiam que Valur havia ido atrás de qualquer coisa, menos um meio de fuga.


 Valur subiu em uma rocha e observou a imensidão alaranjada a sua frente por um segundo, depois tirou um pedaço de papel grosso da bolsa que deixava na parte de trás das costas e o conferiu junto com uma bussolá...sim, aquele era o lugar. Mais alguns quilômetros e já devera estar perto.
 Ele coloca a mão no bolso direito e sente a esfera quente no bolso, do tamanho de uma bola de gude...mas ele pensa melhor e decide deixar para mais tarde, quando tivesse realmente um problema para enfrentar. Afinal, o efeito era curto.
 Ele desce, escorrega com seus pés descalços por uma duna e se vê frente a frente com sua montaria. Guna, o Komodo das Areias, o esperava. Valur subiu na cela, mandou um comando e o réptil disparou. O lagarto era grande e bem rápido, fazendo a capa do guerreiro voar pelas costas enquanto percorria o caminho certo, farejando e deixando suas escamas nas cores da areia.
 Não demorou muito e entre os ventos, Valur observou seu objetivo e puxou a rédea de forma brusca, fazendo Guna parar...e depois ir bem devagar.
 A caverna estava ali, igual os livros antigos disseram que estaria...já foi o suficiente para fazê-lo se sentir com menos peso nos ombros. Eles entraram e, contradizendo o clima á fora, um vento frio e úmido veio de seu interior. O guerreiro tirou sua capa, capuz e mascará, revelando um rosto fino, de pele morena, cabelos encaracolados, uma barbicha no queixo e acima dos lábios e uma argola de prata presa ao nariz. Aquele devia ser o lugar...tinha de ser. Ele corre até sua montaria e começa a mexer nas bolsas que tinha ali, deixando suas vestimentas desnecessárias, só ficando com o couro fervido no peito, as calças e as tornozeleiras e pegando sua espada khopesh e uma tocha. Ele vai até a parede mais próxima e bate a lamina nela de maneira rápida e certeira, fazendo faíscas saírem e caírem nos panos úmidos de querosene, fazendo a chama e sua luz virem.
 - Guna, fique aqui. - Ele comanda e o lagarto parece entender sua ordem, que fica plantado vendo o dono se esgueirar pra dentro do local, com a tocha levantada em uma mão e a espada na outra.


 Valur adentrou caminhou, sentindo aquele vento fresco, seus pés descalços nas rochas e a escuridão a sua frente parecendo a boca de um monstro qualquer. Ele caminhou por vários metros, até sentir algo nos pés que o fez parar e olhar para o chão. Ele primeiro aproximou a tocha e fez o modo como o solo refletia a luz, depois colocou seus dedos nele e os levou gentilmente a sua língua...
 Era água.
 O chão estava úmido.
 Deve haver algum tipo de lago ali dentro que levaria a umidade para lá ou coisa parecida, mas o fato deixou Valur com uma certa sensação de desperdício. Em Kunush, apesar de uma fonte de água inesgotável, o desperdício era visto com péssimos olhos, mas para Valur, era outro nível, digno de castigo.
 Ignorando o fato, ele continuou seu caminho, pulando e desviando de rochas e estalagmites, sempre deixando sua tocha o mais levantado possível até que sentiu outra coisa.
 Seu corpo começou a tremer e ele sentiu seus músculos se contraírem um pouco por instinto, começou a curvar o corpo. De repente, ele sentiu falta de lá fora, das areias e do Sol sob sua cabeça e acabou olhando para trás...mas se deteve, continuou seu caminho mais e mais, sentindo aquela sensação até o ponto de seus dentes começarem a bater. Ele parou e grunhiu, apertado a mandíbula o mais forte que podia e começou a mexer a tocha de um lado para o outro, segurando a khopesh para se defender...só podia ser algum feitiço ou coisa parecida, aquele lugar deveria ser amaldiçoado...mas conforme ele balançava a tocha e o ar quente começou a subir e bater em seu rosto, ele sentiu um certo prazer naquilo...e notou que o calor que emanava do fogo fazia seus dedos pararem de doer e voltarem a ter cor.
 Foi a primeira vez na vida que Valur sentiu frio.
 Quando se tocou do que sentia, respirou fundo e voltou a percorrer o caminho. Ele já estava bem fundo na caverna, não conseguindo ver mais nenhum tipo de luz lá atrás e pensou que estaria perto...até pisar em algo que o machucou, o fazendo parar novamente. Soltando um leve rosnado, Valur levantou o pé e viu que a lasca de algo havia entrado na sola e agora sangrava um pouco. Tirando o que o machucou e analisando, o guerreiro reconheceu o pedaço de osso e decidiu olhar ao redor ao invés de pela frente...
 As paredes e chão estavam dominados por esqueletos e restos mortais...mil deles só onde Valur estava e ele sabia, sentia em seu amago, que haveria muito mais pela frente. Eles usavam roupas características de vários outros reinos, alguns de centenas de anos atrás, outros até recentes...talvez ele não era o único que tinha ouvido falar da lenda, provavelmente, outros vieram atrás da mesma coisa que ele.
 E falharam.
 Valur olhou tudo cuidadosamente...e viu o que queria. Deveria ter pensando nisso mais cedo, mas sempre se sentiu melhor descalço do que com botas ou sapatilhas. Ele viu um cadáver recente, meio decomposto, usando uma sandália que, dali, ele pode ver que era de boa qualidade. Pisando cuidadosamente nos lugares certos, Valur chegou perto do mesmo, colocou a lamina na cintura e encaixou a tocha em um dos olhos vazios do esqueleto a sua frente e, com dedos ligeiros, desamarrou os calçados e os colocou em si. As sandálias eram de couro fervido e as tiras iam até metade de suas canelas, deixando o mesmo bem firme nos pés. Se sentindo bem, ele pegou a tocha novamente.
Antes que pudesse tirá-la dali, a mão do morto segurou seu pulso...e sua caveira abriu a boca e soltou um rugido que ecoou por toda caverna. Valur foi rápido, apesar de tudo, e tirou a khopesh da cintura e balançou a lamina dourada, cortando braço e cabeça ao mesmo tempo, destruindo os ossos de uma vez...só para dar meia volta, querendo sair e ele ver aquela massa de esqueletos e corpos se levantando do chão úmido. Trajando suas armaduras, pegando suas armas enferrujadas e escudos velhos, suas armaduras largar nos corpos secos se prendendo novamente...um exercito de mortos, vasto e imbatível, se ergueu ao seu redor, o deixando com menos de trinta centímetros de solo.
 Valur respirou fundo e acalmou o coração no peito...entrou em pose de combate e, mesmo cercado, deixou que viessem...e quando vieram, mesmo no escuro, se quebraram perante ele. A espada de Valur se balançava em arcos amplos e precisos, mirando pescoços e cabeças, seu corpo desviava dos golpes, outros ele tirava do caminho com sua tocha e depois rebatia, quebrando mais corpos...até que aqueles que tinham escudos vieram e pararam seus golpes e o começaram a empurrar contra a parede...aqueles que ele tinha quebrado, seus braços começaram a agarrar os seus pés...ele se debate, tentando se livrar daqueles seres e acaba levando um dos escudos no rosto, fazendo o gosto de ferro vir na boca e suas costas baterem com violência na parede úmida do lugar. A dor vem como uma carroça desgovernada em seu corpo...mas ele já está acostumado e não perde tempo...ele se vira, dá impulso com o pé na parede e acaba subindo no ombro de um corpo decapitado que tentou pega-lo...mas deu outro impulso, voltou a parede e saltou verdadeiramente para o meio daquele exercito dos mortos...e com um rosnado no meio da garganta, ele se jogou contra ele, balançando espada e tocha o mais rápido que podia. Golpes foram dados contra ele, nada mais do que feridas superficiais se fizeram, mas os esqueletos continuavam a quebrar, a se desfazer, até armaduras pereceram na perspicácia dos golpes da afiada khopesh...mas Valur viu que não importava aquilo tudo, mesmo os quebrando de novo e de novo, eles continuavam vindo, se refazendo, ou seus pedaços dando um jeito de atingi-los...foi quando ele gritou bem alto, o primeiro grito curto, depois longo e depois curto, um grito rouco, a pleno pulmões...e voltou ao combate...até que eles pararam de se mexer, pararam de avançar contra ele...e só ficaram ali, parados, com Valur no meio deles. O guerreiro começou a olhar para todos os lados, confuso, esperando novos ataques...mas o que veio foi o som de metal pesado sendo arrastado. A tocha em sua mão, ainda acesa, não iluminava o suficiente para ver o que estava vindo...mas ele sabia que era algo forte e grande, pois os esqueletos e corpos abriram caminho para a coisa que logo entrou no seu semblante.
 Valur logo soube que aquilo não era de natureza humana.
 Seu corpo era esquelético também, dava para se ver a partir de suas pernas que eram osso puro, amarelado e cheio de marcas negras...mas da cintura para cima, um manto cor de vinho cobria seu grande corpo corcunda, o capuz cobria grande parte de sua face, mas o queixo ossudo e os olhos vermelhos brilhantes podiam ser vistos...assim como o grande machado de ferro puro que ele carregava, arrastando o mesmo consigo, criando aquele som infernal.
 Valur sabia que para sair dali ele teria que matar aquela coisa...e depois que matasse, ele teria de se resolver com o resto do exercito dos mortos a sua volta.
 Ele endireitou sua postura e olhou para aqueles pontos vermelhos, analisou a postura do monstro e respirou fundo...e quando o primeiro golpe veio, pesado, de cima, ele só deu um passo para o lado e deixou a lamina cravar na rocha que estava sob seus pés e subiu no cabo do machado com seus pés leves logo em seguida, dando um golpe direto, crava sua lamina na escuridão que deveria ser o rosto da criatura...e diferente dos outros, ela ruge, aparentando dor e ergue sua arma com violência. Valur salta com o impulso que recebeu e girando seu corpo no ar, evita a lamina do machado que veio em suas costas e se segura em uma estalactites, observando a criatura o olhando com raiva, com sua khopesh cravada na testa...ele ruge e mexe o machado, golpeando onde Valur está, o guerreiro se solta e a pedra se faz em pedaços...mas ele cai em cima dos ombros do monstro, segura sua espada, crava a lamina mais fundo e a puxa com tudo, fazendo novos rugidos surgirem...ele cai no chão, esperando o contra-ataque, que com certeza não vai demorar...mas sorri ao ouvir o som de patas pesadas chegando mais perto a cada segundo. O monstro ruge mais uma vez e segura o machado com firmeza quando Guna surge, saltando das trevas com olhos dourados e seu corpo pesado, esmagando a criatura com seu peso. O mortos voltam a rugir e empunhar armas, como se tivessem sido despertados de um longo sono e resolvem partir para cima de ambos...mas o lagarto é esperto e usa seu corpo massivo e sua cauda pesada para quebra-los em pedaços minúsculos. Assim como seu dono, Guna estava acostumado a diversos tipos de perigos.
 Valur mata alguns ele mesmo e espera o ritmo dos ataques de sua montaria diminuírem e corre até ele, colocando a khopesh na cintura e saltando, se segura a cela, puxa a mesma até o animal estar na direção certa e ruge.
 - VAMOS, GUNA, VAMOS, VAMOS! - E ele abriu caminho no meio dos mortos e seguiu em frente. O lagarto era rápido e seus olhos viam na escuridão, mas Valur continuou com a tocha em mãos, pois ele sabia que mais surpresas poderiam vir...e vieram. Os esqueletos, os mortos, haviam muito mais pelo caminho e conforme eles passavam pelos corpos, eles vinham se reanimando...e começaram a correr atrás deles, correndo numa velocidade que não deveria ser possível para tais criaturas, mas eles chegavam a acompanhar o animal na velocidade e começavam a atacá-lo. O lagarto grunhiu e quase tropeçou quando a primeira lamina entrou no seu couro e o morto rugiu para seu dono, que por sua vez, o golpeou com a tocha, o tirando de cima de Guna. Mais vieram, mais tentaram derrubá-lo, mas Valur não deixava. Ele até mesmo ficou de pé, se equilibrando o máximo que podia e combatendo aquelas aberrações da melhor forma possível, não deixando interromper o curso...até que o rugido da criatura gigante de antes veio da escuridão, o som do metal pesado novamente, mais alto e mais "rápido" do que antes junto com o som pesado de passos de uma correria...e não demorou muito, o semblante monstruoso apareceu e ele segurava sua arma...se ele havia se refeito ou outro havia aparecido, não importava, Valur sabia que não podia parar de correr e sabia que não podia derrota-lo. Ele voltou a se agarrar a cela, bem na hora certa, porque quando ia dar uma ordem a Guna, eles caíram e pousaram rápida, porém duramente, no chão. Um degrau enorme deu uma passagem a uma especie de corredor natural...que era iluminado. Luzes azuis vinham das rachaduras do teto, o que maravilhou Valur momentaneamente...até ouvir o som do seu inimigo vindo segui-lo novamente, caindo no grande degrau e voltando a correr. Ele soltou a tocha em cima, agarrou a espada, mas só incitou o lagarto a correr mais e foi o que ele fez. Entretanto, olhando pelo ombro, o guerreiro viu o monstro chegando perto...e mais perto...ao ponto de pegar seu machado e...
 Valur se sentiu pesado e depois incrivelmente leve. Guna havia saltado e no meio do ar, o guerreiro olhou para baixo e viu o tamanho do precipício que seu animal havia evitado...mas não conseguiu ver a profundidade, pois só havia escuridão. Em uma fração de segundos olhou a distancia do salto...muito longe da outra borda...ele se agarrou a cela e deixou o impacto vir. Guna parou no chão, com um baque seco e se arrastou por alguns metros, tanto ele quando seu dono perderam o folego...mas Valur ainda conseguiu ver, o esqueleto gigante correndo pelo mesmo caminho que ele e fazendo o pulo...forte, contra todas as logicas, ele quase chegou a borda e começou a cair...e quando ia dar o suspiro de alivio, o machado dele crava na borda em que estava. Valur salta da cela, corre o mais rápido que consegue e derraba, batendo as duas solas do pé na arma do inimigo que finalmente cai, rugindo para o alto, com o som ficando mais e mais baixo. Valur notou que não ouviu som de queda.
 Ele se levanta, bate a areia das roupas e olha porque não tinha conseguido ver o penhasco...as bordas estavam no mesmo nível, alinhadas, não era tão facilmente visível, ainda mais na posição em que estava. Olhou para cima e viu que o teto da caverna era aberto ali...e pode ver claramente a lua cheia, que provinha a luz pálida para fazê-lo enxergar.
 - Já é de noite...quanto tempo eu passei aqui? - Valur engoliu a seco, pensando que cada segundo era precioso. Ele se voltou e olhou para Guda...que gemia de dor e estava de cabeça baixa. O impacto havia-o machucado, não fatalmente, mas o suficiente para deixa-lo incapacitado pela dor. Valur chega perto do companheiro e passa a mão no seu pescoço.
 - Obrigado, parceiro. Relaxa, eu sigo daqui sozinho. Obrigado mesmo por salvar minha vida...mas eu tenho que continuar. Você entende, não é? - O lagarto só abaixa e levanta a cabeça duas vezes. Dando um ultimo cafuné, o guerreiro o contorna e continua seu caminho para mais fundo da caverna.
 Valur caminha, o corredor oval sendo iluminado por aquelas fissuras azuis brilhantes. Primeiro, ele pensava se tratar da luz da lua refletindo em alguma coisa, mas ao olhar melhor, percebeu se tratar de algo mais mistico...não que isso importava agora.
 Finalmente, ele estava na gruta.
 O lugar era frio, mais frio do que toda a extensão da caverna e se abria, enorme, uma gruta oval, perfeita...como se escultores houvessem escavado a rocha e deixado perfeitamente a pedra lisa, nas paredes, teto e chão, que se conectavam pela sua forma geométrica...exceto por uma pequena coluna que se erguia a um metro do chão...e em cima dessa coluna, uma pedra, perfeitamente redonda, com o simbolo da Lua Minguante nela.
 Então era real...era tudo real.
 Os olhos de Valur brilham e seu coração acelera, mas seus músculos fica tensos e seus sentidos se aguçam sozinhos.
 Ele se aproxima da pedra, seus passos ecoando pela sala perfeitamente simétrica. Ele tira a luva da mão esquerda e encosta a lamina de sua arma na palma dela...e deixa o sangue escorrer.
 Uma gota cai em cima da pedra e tudo é tomado por uma fumaça branca. Ela se torna mais densa conforme se espalha e Valur quase se sufoca...ele sente como se duas mãos espremessem seus pulmões enquanto tudo se torna branco e embaçado na sua frente...ele quer tossir, mas ele se segura, ele leu nos livros de que isso demonstraria fraqueza...então Valur se segura, mantém a postura e espera. A sensação quase o faz ceder, mas por fim, ela se vai, sua visão normaliza e ele pode ver a fumaça começar a ficar mais e mais densa...formar um circulo em sua volta, como um rio de leite em pleno ar...e por fim ir para o topo da gruta, se juntar em uma pequena esfera...e essa esfera se expandir, lentamente, tomando sua devida forma...
 Pouco a pouco, o Gênio se formou e se fez por inteiro a sua frente.


Evitando o calor, o frio e a morte
Me acordou, o guerreiro de grande porte!
Com um coração inocente e cheio de esperança
O que posso fazer por você, minha criança?

-

 Valur, com o coração acelerado, respiração pesada e suor frio em sua testa, analisou o ser a sua frente. Ele era branco, vários tons de branco, desde sua pele até o manto e o turbante que vestia. Ele não tinha pés, ele simplesmente flutuava, com os tecidos balançando e não tocando o chão, enquanto uma fumaça branca saia lentamente de sua vestimenta, tocando o chão e se desfazendo no ar, como se aquilo fosse seus pés. Seu corpo todo tinha uma aparência velha, com pele parecendo se soltar aos poucos da carne flacida e sua barriga...e seu peito eram abertos ao meio, com ataduras colocadas para segurar o que estivesse dentro. E apesar de ele não ter rosto, Valur sabia que o Gênio o olhava com muita curiosidade e expectativa.
 Era sufocante.
 - Você é...o Gênio da Lua Minguante? - Apesar de ser uma pergunta idiota, Valur sabia o que estava fazendo. Ele tinha suas próprias teorias a confirmar.
 - Uma pergunta interessante, apesar de resposta certa. O Jinn da Minguante sou eu, encontrado aqui, nessa prisão deserta. Mas graças a você, mais uma vez, minha alma desperta. - Ele usou o termo Jinn...ele gosta de formalidades.
 - Meu nome é...
 - Valur Onaga. - O Gênio o interrompe, começando a voar ao seu redor. Valur o seguia com o olhar. - Filho de Orele Onaga, a marceneira, a quem você amou por inteira. Morta pela febre, uma pena, mas você continuou com sua vida, sem se esquecer da cena...dela estendida, pedindo por acuda, mas ninguém vindo a sua ajuda...você se culpa desde aquela noite brusca, mas... - O Gênio gesticula para o alto. - Não é por isso que você veio a minha busca...não... - Ele mexe sua deformada mão como se quisesse pegar algo no ar, lentamente. - É sua casa. É sua cidade. O lugar de alegria que só trouxe tristeza a sua intimidade. Sua mãe, com madeira e força de vontade, construiu grande parte daquela comunidade. E mesmo que eles a tenham desertado por causa de um boato deturbado, você ainda ama o lugar, pois as criações de sua mãe estão, assim como seu coração.
 - Você viu tudo isso agora ou você já sabia? - Valur pergunta quando o Gênio termina de vagar e recebe em resposta uma risada, seca e ecoante, assim como sua voz...e mais uma rima.
 - Saber dos seus desejos é meu oficio. E o coração dos homens, meu domínio.
 - Tudo bem. - O guerreiro permanece parado, olhando o Gênio parar em sua frente. - Então sabe do exercito dos Urunushi e sabe como ele tem destruído tudo que veem pela frente e violando as regiões em que tocam. Eu quero saber...o que deve ser feito para que eles sejam destruídos. - O Gênio fica parado, calado ao ouvir o questionamento...coloca um pouquinho a cabeça para o lado e fala.
 - Hmmm...quer saber o que deve ser feito, não reclama para si o conforto de um leito, assim como os poucos outros que vieram antes de ti e acabaram...se perdendo por ai. - Ele ri novamente. - Você foi instruído ou incumbido?
 - Instruído. Eu procurei os livros antigos. Eu sei que você demanda algo em troca de seus desejos...e se a troca for satisfatória, você faz exatamente o que pedi. O que eu tenho de fazer para que você destrua os Urunushi?
 - Você sabe o que eu quero...ou o livro não foi tão esclarecedor quanto eu espero? - Valur piscou algumas vezes e se lembrou do trecho do livro pesado de paginas amareladas e frágeis que leu com a luz de uma vela.

 " O Gênio da Lua Minguante, diferente de seu irmão aprisionado na Lampada de Ouro ou de sua irmã presa no Anel de Prata, lhe dá exatamente o que seu coração lhe pede, sem truques ou meios de infernizar seu ser ou lhe trazer uma morte agonizante. Mas ele demanda algo querido de você, eu percebi isso...ele demanda que você dê algo em troca, algo que lhe seja tão precioso, algo próximo ou totalmente sua razão de viver. Ele me pediu o coração de minha esposa e em troca, a cidade de Kunush seria construída para mim e para meu povo e daria felicidade para milhares e milhares de gerações. Eu o entreguei, junto com minha vontade de viver. Me tornei rei, tomei mais esposas, mas me sinto tão sozinho desde então. Eu pensei no melhor para meu povo e me sacrifiquei, como um bom Rei faria, então, irei para o tumulo satisfeito, mas um tanto irônico que o primeiro Rei de Kunush, o paraíso no deserto, é infeliz. Eu lhe digo isso, ele pedirá em troca algo de você, como se não fosse o suficiente sobreviver a todos os desafios que vem em seu caminho. Não sei se terá sangue em todas as suas condições, mas algo lhe será pedido, algo lhe será tirado para lhe dar o que você quer, mas adverto isso: Infelicidade também será lhe dado no caminho. "

 - Você...quer sangue. - Valur disse, olhando para o nada.
 - Um coração pulsante, em minhas mãos repousantes. - Ele disse, colocando as mãos de três dedos a mostra.
 - Eu não tenho ninguém importante, eu...
 - Guna, é o nome, eu presumo. O de seu amigo, servira para meu consumo. - Valur sentiu um leve aperto no peito e olhou para trás. O lagarto deveria estar ferido, machucado ainda pela queda brusca, e estava em algum lugar lá atrás. - Me traga seu coração...e seus desejos se realizarão.
 Valur respirou fundo...e foi a vez dele de andar ao redor do Gênio, pensando e medindo suas próximas palavras e ações.
 - O livro que li era "As Memorias de Kunush - Volume 0". Eu tive de entrar no cofre real para achar tal coisa, por sorte não fui visto. O Primeiro Rei escreveu ele, relatando tudo o que fez, inclusive como você construiu a cidade. Conheci a existência do livro graças a um dos criados do rei a quem eu me envolvi, e ele sabia demais, pois também se envolvia com a Rainha. É estranho...a cidade trás felicidade, mas ainda tem certos problemas.
 - Ele me pediu felicidade e um povo forte. A força vem da adversidade, não da sorte. - Ele respondeu e Valur conseguiu sentir um leve toque de curiosidade em sua voz.
 - Sim, é verdade. O Rei também era sincero...ele não conhecia mentiras e disse que conversou longamente com você antes de fazer o pedido. Então...eu quero perguntar algumas coisas também, antes de tomar as devidas providencias.
 - Tome seu tempo, faça suas perguntas. Vamos colocar as cartas na mesa, todas juntas. - Valur concordou e perguntou.
 - Se a cidade trás felicidade, se o desejo era que o povo fosse feliz...por que existe pessoas tristes nela?
 - Você se sentia parte do povo, jovem guerreiro? Ou se sentia perdido, com inveja do alheio? Sua casa era ali...mas seu coração pertencia ao lugar? Ou você se recusava conjugar? - Valur compreendeu a resposta...ele não era feliz como todos os outros pois não se sentia parte do povo, não sentia a vontade de ser um deles...logo, ele não era...logo, a felicidade incondicional, não lhe era garantida.
 - Deixando claro então...você levantou a "cidade"...ou seja, levantou os muros, o monte, as estradas e o palácio, escavou as minas também...mas as casas foram as pessoas que foram construindo ao longo das décadas...mas foi minha mãe que construiu os verdadeiros templos, estatuas, postos e estábulos... - O Gênio ficou quieto, esperando por mais. - Você nunca mente, não é? - O guerreiro pergunta, parando na frente dele, de lado, olhando para o chão. Com o canto do olho, ele observa o Gênio fazendo "não" com a cabeça. - Então tudo o que disse para o Rei é verdade? Tudo o que ele perguntou, você respondeu seriamente? - E fez que "sim". Valur concordou...
 Sacou a khopesh e apontou sua lamina para ele.
 - Até a parte em que diz que você pode morrer?
 O silencio dura poucos segundos até que o Gênio começa a rir...uma risada grossa, bem diferente da sua voz anterior. Agora ela era grossa e ecoava por toda a gruta.
 - Me dará um desafio...ou pedirá por clemencia, como o primeiro Rei de seu povo, ao cair no chão, se debatendo como um alcoólatra em abstinência?
 Valur sorriu...colocou a mão no bolso e retirou a esfera. Uma esfera alaranjada, pequena, mas que o Gênio reconheceu e, se tivesse olhos, os teria aberto em surpresa e alerta.
 - Vamos ver no que vai dar. - O guerreiro coloca a esfera na boca, morde o vidro e o quebra, deixando a substancia alquímica ser absorvida por seu corpo.
 Valur cospe o vidro com um pouco de sangue e sente seu corpo enrijecer, esquentar...de repente, ao seu redor, o vidro é intenso..intenso demais, pois seu corpo está fervendo, literalmente saindo vapor. Ele pega a sua arma com ambas as mãos e ruge.
 - VOCÊ MORRE HOJE, ABERRAÇÃO! - E parte para cima do ser onipotente. O Gênio age e abre seus braços, expandindo sua aura, fazendo o guerreiro interromper a investida, cravando sua espada no chão para não ser mandado para longe com a força que veio até si...e começa a ventar, como se um tornado estivesse ali, na gruta, preso com eles.
 - TOLO! - O espirito ruge, deixando sua cor predominante agora se tornar cinzenta. - MACULANDO SEU CORPO COM POÇÕES DE ALQUIMIA, CRIADOS POR UM LOUCO, NÃO FARÃO VOCÊ PÁREO PARA MINHA MAGIA! - E raios saíram das mãos de suas mãos disformes, fazendo Valur pular para um lado e para o outro, rolar no solo úmido e avançar mais uma vez, dando um salto e cortando em arco, visando atingir um pescoço.
 Uma lamina parou a sua. Uma espada, longa e curva, como as espadas largas dos soldados que vira, se formou ali, na mão dele. Seus pés tocaram o chão e Valur já levantou sua arma para defender o golpe que veio logo em seguida. O Gênio começou a brincar com ele, rindo, golpeando com a espada e defendo os golpes dele, fazendo-o ficar nervoso...ao menos era o que pensava. Valur era tudo, menos pavio curto. Sua vida inteira havia sido baseada na paciência e, enquanto sua mente de combate lutava contra o gênio, a sua mente de lembranças vagava em memorias antigas.
 De como o povo evitou sua mãe pois boatos diziam que ela era uma bruxa, quando tudo o que ela fazia era trabalhar com Alquimia, ensinamento que levou com ele. Mesmo depois de tudo que construiu, mesmo depois de tudo que fez, ela foi ignorada em sua doença, evitada e difamada...assim como ele, ela se sentia deslocada. E no final, quando ele ficou sozinho, ele também sentiu os olhares frios e imundos de pessoas estranhas...ele trabalhou, ralou sozinho, caçou no deserto, onde conheceu Guna...onde o trouxe, o criou e o defendeu quando tentaram expulsa-lo ou matá-lo. Ele sobreviveu a anos escuros, a décadas de dor, se aperfeiçoando no combate, na arte da Alquimia e montaria, tudo para poder um dia ir embora...e tudo estava quase pronto.
Até ele ouvir sobre um exercito inimigo vindo.
 As pessoas que morressem...mas ele não deixaria que nenhuma construção fosse colocada a baixo, nenhum templo, nenhuma imagem, nada que sua mãe havia construído, dado seu sangue, suor e tempo para colocar de pé. Ninguém destruiria nada.
 Ninguém...
 Ninguém!
 NINGUÉM!
 - NINGUÉM! - O guerreiro grita seu pensamento e em uma esquiva e jogos de pés, ele achar uma abertura e corta para cima...decepando a mão do monstro, que ruge alto, fazendo toda a gruta tremer. Sua ara cai e se desfaz em fumaça...mas outra arma, um machado, se forma na outra e Valur sai do caminho, deixando a arma cravar no chão, aproveita o momento, corre, sobre no cabo da arma e corta em arco, tirando sangue negro do ombro da criatura, que ruge novamente. Valur rola para longe dele, mas outro golpe o faz colocar a lamina de sua khopesh no caminho...mas o golpe é forte demais, por sorte sua arma não se quebra, mas ele cai bruscamente no chão...e nem mesmo conseguiu levantar. Com a mão sobrando, o gênio solta sua arma e segura a cabeça do guerreiro...e quem ergue e bate no chão com toda força que tinha. E de novo...e de novo...e de novo...e depois o ergue, o segurando pela garganta, observando seu rosto ensanguentado. A ventania fazia os cabelos do jovem guerreiro balançarem, enquanto alguns tufos grudavam em sua testa...ele respirava com dificuldade, mas não largava sua arma.
 - Renda-se e traga o que eu lhe pedi. Seu desejo será realizado e você não morrerá aqui. - O Gênio fala, com a voz calma de antes. Sua resposta é uma risada rouca.
 - Tem poder pra construir uma cidade da noite pro dia...de acabar com um exercito...mas tá com medo de matar um cara que cavalga um lagarto. - Valur ri de novo e olha no vácuo negro que seria o rosto da criatura. - Gêniozinho bunda mole do caralho você, ein? - E levanta sua lamina e a crava no braço dele, o fazendo gritar e o soltar...mas ele se segura no pulso e se puxa para cima, seu pé se apoia no peito da criatura e ele se impulsiona...puxa a lamina de volta, ergue sua khopesh e, com as duas mãos, com um grito de desespero, dor e raiva, ele crava a lamina até o punho naquele espaço negro entre o turbante.
 A ventania para.
 Tudo fica quieto...até o grito mais aterrador que Valur já ouvira começar a soar. É como metal afiado raspando em vidro, só que mil vezes mais alto e pior, com o interior do Gênio começando a se iluminar...e seu corpo a esquentar. Valur tirou a lamina dele, que veio banhada em sangue negro, caiu e rolou no chão...e correu. Correu pois sabia o que poderia vir, ele sempre ouviu falar de lendas de seres poderosos que morriam e liberavam seu grande poder de forma agressiva. Ele se jogou e se encolheu, tampou seus ouvidos, encostado atrás do pilar onde estava depositada a pedra do Gênio...e sentiu o impulso da explosão. Fogo branco veio por todos os lados, chamuscando o chão, teto e até a ponta de suas roupas e um pouco do seus ombros e braços...mas ele aguentou a dor por pouco tempo e tudo ficou quieto de novo.
 Ele sentia calor quando saiu de seu esconderijo, tomando cuidado para não tocar no chão, que fervia. Ele se endireitou, olhou ao redor e depois para o chão e na sua frente, o corpo do Gênio estava estendido em uma posição que parecia que tinha caído de uma grande altura...
 Ele não teve tempo de saborear a vitoria, pois tinha de saborear outra coisa.
 Ele caminhou até o corpo gigante e ficou sobre ele, colocando cada pé em um lado do corpo. Cravou sua lamina novamente no corpo do monstro e percorreu a cicatriz de seu peito, abrindo depois com as mãos, relevando os órgãos da criatura. Eram azulados, mas muito parecidos com os de um ser humano, tirando a coloração.
 O coração ainda batia. Valur segurou o órgão com ambas as mãos e o puxou, arrebentando as artérias e tudo que o impedia de sair no caminho.
 Ele ainda batia, fracamente, quando deu a primeira dentada.

-

 A Rainha se encontrava nos portões, tremendo, vendo o exército dos Urunushi chegar. Era enorme, vasto e poderoso, cheio de maquinas e cavaleiros. Seus homens, dentro dos portões, estavam tremendo de medo. Por algum motivo, o Rei deles não tinha aceito a oferta de paz e rendição, deixando claro que invadiria de qualquer forma. Então, ela decidiu ir até os portões, ficar diante dele, se ajoelhar e pedir clemencia, achando que isso poderia fazer algum efeito. Ela queria que seu filho estivesse com ela, mas o jovem se mostrou com o coração mais fraco do que o dela, já que se atirou da janela da mais alta torre quando ouviu que a rendição foi negada.
 Eles se aproximavam mais e mais. Ela fechou os olhos e começou a rezar...
 - O que está fazendo aqui fora? - A pergunta foi um susto, não maior do que a imagem que estava a sua frente.
 Um lagarto enorme, de escamas de areia, com uma cela em suas costas, carregando um guerreiro, que trajava calças largas, com os pés descalços e sem camisa. Seus cabelos eram negros e encaracolados e suas feições a lembravam alguém, mas ela não conseguia dizer quem...pois ela estava perdida em seus olhos laranjadas, que brilhavam como o Sol...como as de um Chacal, mirando sua presa.
 - Eu, eu... - Ela ia responder a pergunta, até se lembrar de quem era.- Quem é você?
 - Valur Onaga, filho de Orele Onaga. - Ele diz e ela se lembra...ele era filho da Bruxa? Mas...ele não era assim...não era forte dessa maneira, muito menos tinha essa presença. - O que a Rainha faz aos portões da morte?
 Ela engole a seco e responde suas intenções de se entregar.
 Valur ri. Ela enrubesce, não sabe o porque.
 - Fique aqui. - E ele desce do lagarto e, calmamente, com uma khopesh de lamina negra e punho branco na mão, caminha em direção ao exercito inimigo.
 Valur anda e observa todos aqueles seres a sua frente...eles também vem calmos...até o verem, rirem e começarem a cavalgar ferozmente, com os sabres em punho, prontos para matá-lo, acreditando que tinham mandado um só guerreiro contra eles, tomando aquilo como ofensa.


 O guerreiro começa a correr também...rápido...muito rápido. Seus pés não afundam na areia, na verdade, eles parecem nem tocá-la...o que a toca, na verdade, é a ponta de sua espada, a qual levanta poeira. O exercito gritava e ria, vendo o guerreiro parar, girar seu corpo e golpear o ar com a espada, rosnando em plenos pulmões, parecendo...parecendo um cão raivoso.
 Eles pararam de rir e tiveram alguns segundos para tremer de medo...quando um tornado de areia vermelha se formou ao redor do guerreiro.
 Enorme, crescia mais e mais, vermelho como sangue, tragando os inimigos para ele em uma força invisivel, que os fazia cair dentro de seus ventos e tinham a carne e o sangue cozidos e comidos por causa do calor intenso...esqueletos e restos de carcaças caiam ao redor dele, dando lugar a novas vitimas do massacre, que seguia em frente...pois Valur, em seu centro, caminhava, tranquilamente, enquanto seu tornado tragava e acaba com o exército dos Urunushi, um passo de cada vez.


 Em menos de trinta minutos, tudo o que sobrou eram cadáveres queimados e carcomidos pela areia fervente, maquinas de guerra despedaças e nada mais. O tornado se desfez, revelando Valur, em pé, calmo, contemplando o que tinha feito. Nem se tentasse achar o Rei para lhe dar uma morte digna ele conseguiria, mas não se importou...e tomou seu caminho de volta para Guna.
 A Rainha estava sentada na areia, com os olhos esbugalhados, abraçando a si mesma, assim como todos os cidadãos da cidade, que olhavam com pavor o homem que se aproximava e subia em sua montaria incomum.
 - O que você quer? - A Rainha pergunta, aterrorizada e tremendo, mesmo com o calor que suas vestimentas de gala juntamente com o Sol escaldante do lugar proporcionavam. O guerreiro se ajeitou na cela, olhou para o nada...depois puxou de sua bolsa um livro feito a mão, um diário, simples e mirrado, com poucas paginas e jogou aos pés dela.
 - Quero que diga a eles. - Ele disse, calmamente, com postura. Ela pegou o mesmo, se colocou de pé e perguntou de novo.
 - Dizer o que?
 - A verdade. - Valur respondeu. - Que o filho de Orele Onaga salvou a cidade. - Depois, puxou a rédea para o lado, apontando sua montaria para o deserto, deu dois toques e Guna começou a correr ligeiro, para onde o seu senhor o mandava ir.

-

 A noite, o Deserto de Sunah não perdia seu calor intenso e Valur pensou se sentiria falta disso. Ele olhou para longe, de cima da duna em que estava, onde a Cidade de Kunush se iluminava e viu as formas das casas e do palácio. Ele respirou fundo e pensou consigo mesmo.


- Suas criações estão a salvo, mãe.
Assim como seu nome.

 Valur guiou Guna novamente e tomou seu rumo para bem longe dali.

-

Por milênios, as pessoas falariam do espadachim que veio montado em um Komodo e enfrentou um exercito sozinho, salvando a todos, com o poder mágico que tirou ao devorar o coração de um Jinn. Filho de uma Marceneira injustiçada, ele tomou seu lugar de direito entre os mais valorosos guerreiros do mundo e salvou seu lar e as criações da mãe.
Essa historia é passada de geração a geração, tirada de um diário que a Rainha tinha consigo, escrito por ele e é contada com a moral de que o desconhecido não é algo que deve ser temido ou tratado com raiva...e sim, com calma, paciência e mente aberta para se entender.
É assim que é contada sua historia.
É assim que é contada sua vida.
A Lenda do Chacal
Valur Onaga.

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