segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Imortais - A Aranha


Para Ikeda


 Dentro do palácio, a cerimonia ocorria tranquilamente. Mas lá fora, a neve caia rasteira e fazia os guardas tremerem dentro de suas armaduras, mesmo com o peso delas e do couro por baixo. Apesar disso, seus olhos eram atentos e sua postura exemplar, afinal anos e anos de treinos e preparamento físico e psicológico. Os guerreiros da dinastia Doragon valiam cem guerreiros comuns em todo o Oriente de Sandria.
 Sandria, o mundo em que vivemos, tem uma linha imaginaria em seu centro, colocando o Ocidente a Oeste e Oriente a Leste. Tal linha não teria a minima importância se não fosse pelo fato como ambos funcionam de formas tão diferentes. Aspectos culturais são só a ponta do Iceberg, pois o Ocidente, tendo vários reinos distribuídos aqui e ali, facções e religiões diversas, no Oriente havia apenas três reinos: O do Sul, os Iori, com seus Ninjas Cinzentos guardando os portões da Cidadela Verde e os Jardins de Éden de sua Senhora, juntamente com seus cinco filhos; o do Leste, os Ken, com seus Samurais Vermelhos, guardando o Forte de Fogo com seus calabouços, masmorras e tumbas que, por sua vez, são guardadas por fantasmas, tudo isso regido pelo Xogum Negro; e do Norte, os Doragon, com seus sacerdotes, arqueiros e lanceiros e mais de mil guerreiros usando diversas armas, com um exercito tão vasto e versátil que muitos diziam que os Doragon não tinham um exercito, e sim, uma Legião de Demônios, sendo todos comandados pelo Lorde Asano. E, indiscutivelmente, o maior poder comercial e militar era dos Doragon, por ser acesso a áreas fluviais mais favoráveis para navios de grande porte.
 O Oriente era enorme, quase tão grande quando o Ocidente, sua vida selvagem era diversa e seu povo era forte e seguia a risca as ordens de seus respectivos senhores e família real...ao menos a maior parte deles. Criminosos, com diferentes objetivos, meios e poderes caminhavam por lá, fosse para conseguir dinheiro, fosse para combater o poder abusivo de seus senhores. Inúmeros clãs rebeldes faziam certo sucesso e conseguiam abrir certas feridas profundas em seus inimigos, porém, alguns não escapavam da mão da "justiça" e aquile era o motivo de tal cerimonia estar acontecendo no grande Palácio dos Doragon: O Ultimo Clã de criminosos notórios daquela região haviam sido finalmente mortos, finalmente executados e todo o reino agora estava limpo...limpo para que Lorde Asano voltasse a cobrar os devidos impostos, fazer comercio e expurgar aqueles que manchavam sua vista e suas paisagens.
 No ultimo andar, uma sala bem ampla, com pisos de madeira, incensos acesos, dragões de ouro enrolados em colunas grossas na entrada e na saída para a varanda, inúmeras velas acesas, tanto no chão quanto em candelabros e lanternas acima, quatorze homens, sete de um lado, sete do outro, ajoelhados um para frente do outro, cada um com uma hakozen a sua frente, com massu cheio de saquê, trajando quimonos brancos e limpos, de olhos fechados, sem perder a postura aguardavam Lorde Asano, o qual se encontrava na ampla varanda, com seu quimono impecável, cheio de ornamentos, embaixo da neve, saboreando um cachimbo e sua vitoria, as vezes passando a mão em sua barba negra, grande e lisa, ou dedilhando a "decoração" em seu cabelo para ver se estava tudo certo. Ele respirava o ar frio e soltava fumaça de suas narinas, tanto pelo fumo quanto pela reação normal de seu corpo...saboreando o ar, a vitoria e o calor que vinha dentro de si, ele pensava em construir novos fortes militares perto das montanhas e do rio acima dela, pensava em fazer mais um filho em sua esposa hoje, talvez outro em sua concubina especial, mandaria forjar uma nova espada, talvez, nova era, novas armas.
 Perdido em seus pensamentos, ele não percebeu as aranhas entrarem em sua casa.
 Em meio a neve, você pode esperar tudo, menos aranhas, mas estas vieram. Calmas, tranquilas e certezas de seu caminho, pequenos pontos negros vieram, passo por passo, silenciosas, escondidas e calmas. Passaram pelo portão principal, por janelas, por inúmeros buracos e locais indiscretos...mas vieram e aos montes. Um dos guardas, ao andar pelos corredores, percebeu uma delas próximo de seus pés e, instintivamente, lançando um xingamento sobre a higiene do local e em como aquela criatura era insignificante, pisou no inseto.
 Ele piscou quando não ouviu o "crac" que achou que ouviria. Levantou o pé do local e não havia nenhum "resto" da aranha...mas sentiu uma coceira no pé. Levantou-o e viu um furo em sua sola e de repente, um comichão ali. Entrando em desespero, o homem começou a bater o pé no chão o mais rápido possível, estragando todo o silencio sagrado do local inteiro. Os Guardas que estavam nas portas e arqueiros que estavam na torre olhavam para a direção do som. Os mais próximos as portas iriam começar a abrir as portas e janelas e ver o que acontecia, segurando suas Kamayari em modo de combate quando um dos arqueiros despenca de uma das torres de segurança. Alertas, eles começam a procurar quem quer que esteja fazendo aquilo e, obedientes como são, a ordem de manter silencio os fez procurar o inimigo, mas não tocar os sinos e soar o alarme...não que eles tivessem qualquer tempo pra isso. Enquanto outros arqueiros caiam e alguns guardas começavam a cair e o homem lá dentro também caia, os guardas do portão principal sentiram uma picada no pescoço, perto da nuca. Com a gola alta das armaduras prateadas, eles não podiam tocar a ferida, que logo começava a coçar...e veias arroxeadas a se espalhar. Em segundos, a visão ficava turva e o corpo dormente...sonolência vinha e fazia o corpo cambalear, antes de um calor súbito subir e a boca ficar seca e depois a forte dor de cabeça, vinda como uma onda poderosa...tão rápido que não se podia gritar, só cair e morrer...mas antes ver a aranha saindo de seu corpo.
 Os Guardas e arqueiros lá de fora, os Guardiões de dentro, os servos, os cozinheiros, um a um, caiam em baques secos e ritmados pelas aranhas que adentravam ao local. No segundo andar, os residentes, famílias dos Generais e Senhores que esperavam pela resolução da reunião, já estavam deitados, então só se retorceram quando o veneno passou por suas veias. No terceiro andar, os criados e guardas que preparam tudo para seus senhores tiveram o mesmo destino...no quinto e no sexto, ninguém estava para ser visto ali, eram andares cerimoniais, com templos e fontes a serem vistas somente pelos monges e pelos homens que quisessem rezar. As aranhas, agora, um tapete negro e silencioso, andaram pelas paredes do local...o solo não devia ser maculado, independente de quem era o dono daquele local sagrado...os deuses não tinham nada haver com aquilo.
 Não havia guardas no ultimo andar, o mais iluminado e amplo. Também, com tanta segurança em todos os andares, porque haveria de ter algo ali? Eles queriam silencio. Falariam de negócios particulares e não queriam correr o risco de guardas e espiões tomando conhecimento deles...
 As aranhas começaram a se juntar bem em frente a porta. Caminhavam em circulo, formando um pequeno redemoinho negro e logo começavam a subir umas as outras, se amontoando...se fundindo. Tomando forma, cor. Primeiro as pernas, esbeltas, pele morena, um quimono curto, com flores negras e detalhes em azul escuro, braços fortes, mas ainda assim delicados, um pescoço e por fim...um rosto maquiado em branco total, olhos desenhados em preto, os cabelos negros e lisos amarrados em um coque com rashis brancos os segurando no lugar.
 A Gueixa consegue escutar muito bem a conversa na sala. Estão felizes. Lorde Asano está em seu lugar, como ela havia calculado e estava rindo de alguma coisa, tomando outro gole de saquê. Ela ficou ali, parada, ouvindo a grosseria dos homens ..até que veio o chamado. Uma corda foi puxada e um sino foi ouvido no segundo andar, na cozinha, sinal de que estavam com fome e queriam seu banquete.
 Quem entrou foi a Gueixa.
 Em sua forma adorável, todos a olharam com interesse. Alguns, bêbados, até sorriram, outros questionaram, mas quem falou primeiro foi o Lorde.
 - Mas olha, o que temos aqui, princesa? Eu sinto muito, mas no momento, não é desse tipo de banquete que precisamos. - Todos desataram a rir. A Gueixa fechou a porta e manteve-se parada, quieta, de frente para ele, em uma postura exemplar, as mãos dentro das mangás do quimono. - O que queremos agora é nos fartar de carne de peixe e porco. Portanto, vá embora, espere no ultimo quarto do terceiro andar e eu prometo, que eu, pessoalmente, irei visita-lá mais tarde. - E todos voltaram a rir. O Lorde, gordo,em um quimono amarelo com detalhes em ouro, riu tanto que babou parte da bebida em sua boca.
 Mas todos se calaram quando ela começou a falar.
 - Não haverá banquete. - E seus olhos encontraram os do Lorde. O mesmo perdeu, subitamente, todo o humor no olhar e na expressão.
 - Como assim não haverá banquete? - Ele bateu o punho, quebrando a hanzoken. - EU ORDENO QUE SAIA DAQUI E MANDE MINHA COMIDA!
 - Não me ordena nada, porco. - Todos arregalaram os olhos o máximo que podiam. - O seu banquete foi cancelado. - Asano ficou rubro e quando ia gritar, ela voltou a falar. - Senhore...vocês já comeram bem. Comeram a riqueza do Oriente. Suas pessoas. Suas casas. Suas terras. Seu espírito. - E ela sorriu ao terminar de falar. - O banquete acabou. De hoje em diante...nenhum de vocês estará a salvo.
 A Gueixa se joga para frente e abre seus braços. Quatro agulhas saltam de suas mãos, uma em cada Senhor perto dela. O primeiro da direita tomou no pescoço, o segundo na têmpora. O primeiro a esquerda tomou no olho e o segundo, bem no meio da testa. Os outros tentaram pegar suas armas, mas a Gueixa era rápida demais...mais quatro agulhas, mais quatro mortos, ela correu por eles antes mesmo que tombassem seus corpos e lançou suas ultimas quatro agulhas, matando novamente...agora só faltava dois senhores e o Lorde...Lorde que olhava a tudo e sua mão já estava em sua espada...mas a Gueixa só abriu suas mãos e alinhou os dedos e suas unhas passaram na garganta dos últimos homens ali e ela foi direto para Asano.
 Mas ela não o matou prontamente, não. Ela tinha algo a dizer antes. Era a tradição...
 Ela o chutou no peito, quebrando algumas costelas no processo. Seu corpo obeso voou do lugar onde estava e quebrou a porta de madeira atrás de si, o lançando na varanda enorme, em meio a neve e dores.
 Só ai o sangue e os corpos caíram no chão, ambos banhados em veneno.
 O Lorde, sem entender muita coisa, usou sua espada para se apoiar e tentar levantar...e voltou ao chão, cuspindo um amontoado de sangue. Ele voltou seu rosto para longe a luz vinha e viu a imagem da Gueixa chegando perto dele.
 - VACA IMUNDA! - Ele grita. - GUARDAAAAS! - Ele berra. - GUARDAAAAAAAAAS!
 - Olhe lá embaixo, Lorde. - A Gueixa diz, calmamente, parando de caminhar. O Lorde, confuso, mas com uma duvida na cabeça, se levanta com esforço, segurando na madeira avermelhada de apoio e faz o que foi mandado. Ele fica boquiaberto ao tentar contar a quantidade de corpos lá embaixo.
 - Sua esposa, seus filhos e filha também estão mortos, caso esteja se perguntando isso. - O Lorde fica parado, de costas para ela, ouvindo-a falar. - A ponte a leste daqui está quebrada, caso o seu exercito não acredite em "sua" carta de que estão dispensados para voltar para suas respectivas casas. Mas acho que eles irão comprar a ideia, afinal, foi uma guerra longa, não foi? Eles querem descansar.
 - Tem noção do que você fez? - O Lorde diz, com uma voz embebida em fúria e tristeza.
 - Você tem? - Asano se voltou para ela e já soube do que se tratava.
 - Você é um deles, não é? - Ele começou a caminhar, lentamente, em sua direção. - Um desses...hereges de merda...que falavam sobre outras culturas e deuses dentro do meu reino. Sobre bruxarias, magias e afins. Sobre cometer crimes justificáveis na "ordem naturais das coisas"? - Ele cuspiu no chão. - EU instaurei a ordem. Eu coloquei paz e certezas em cada lugar que fui. Se dependesse de vocês, este reino inteiro ainda estaria cheio de mato e moraríamos em cabanas de lama!
 - Não era exatamente assim que funcionávamos, Asano, mas sim...eu era um deles.
 - É Lorde Asano, sua vaca! - Os olhos do Lorde brilham vermelho quando ele rosna as palavras. - E de quem você era? Hm? Dos Same? Dos Shirasagi? Ujin? Hm? Qual dos selvagens você fazia parte?
 - Você me diga isso, Asano. - E quando o Lorde iria rosnar mais uma vez, a Gueixa abriu seu quimono e deixou suas vestes caírem, mostrando seu corpo nu. Por um momento, a beleza do mesmo deixou Asano sem palavras...mas mesmo pela luz fraca das tochas, lamparinas e do luar, ele pode ver as marcas. as cicatrizes...as marcas de queimaduras...de chicote...e até mesmo, da espora de um cavalo na coxa direita.
 - Qual dos clãs você se deu o trabalho de espancar...antes de matar? - Ele sabia a resposta...mas as memorias que vieram fizeram ele atrasa-la.
 - Os Kumo. - Ele respondeu enfim. Parou de olhar o corpo e olhou em seus olhos. - Quem é você?
 - Meu nome é Ikira Kumo...filha de Akemi Kumo.
 - Mentira! - O Lorde, dando um sorriso enlouquecido, apontou para ela. - Eu conheci Akemi! Quase poupei seu clã por causa dela! Ela era uma sacerdotisa! Virgem até o dia de morrer!
 - Sim, até o dia de morrer. - A Gueixa voltou a falar e o Lorde percebeu como não havia emoção em sua voz. - Afinal, você a estuprou antes de enterrar a faca em suas costas, não foi? - A pouca cor que Asano tinha em sua pele se foi. Ele abriu e fechou aqueles olhos puxados e olhou bem para a menina e começou a notar...
 - O que?
 - Ela não morreu. - Ikira voltou a falar. - E deu a luz a mim...pai. - Asano ficou com as pernas bambas mas se manteve firme, olhando nos olhos dela. - Ela sobreviveu e rastejou pela floresta, se afastando dos gritos e fogos que consumiam o clã inteiro. E você fez tudo isso...só por causa de sua ganancia e egoismo.
 - Ela era uma bruxa. - Seu tom era severo novamente. - Ela era...
 - Uma mulher livre que não quis revogar seus votos para se casar contigo..e você, mimado, descontou em seu clã. Mas ela o reconstruiu, achando sobreviventes, aqui e ali, nos levando para os extremos do reino, nos fazendo ser nômades para conseguir viver...mas, graças aos deuses, morreu, de causa naturais, antes de ver você nos achando...ou melhor, seus generais terminando seu serviço com violência, nos batendo, nos pisoteando, nos fazendo mal...eu tinha 10 anos quando isso aconteceu...apanhei muito, cai desfalecida e vocês foram embora...mas antes que as chamas consumissem por completo a minha casa, eu despertei...a tempo de rastejar para fora da morte, como a minha mãe havia feito antes.
 - Mas... - Asano tentava achar palavras, fazer perguntas cabíveis, mas ele não conseguia.
 - Mas nada, pai. - Ele a encarou com frieza. - Levei tempo e noites sem dormir para atingir meu ápice de força para esse momento. É chegada a hora do senhor tombar.
 - Calada, criança. - Com a voz firme, sem nenhum traço de dor, o Lorde sacou sua espada curta. - Não me importa quem seja ou fruto do que seja...você adentrou minha casa, em meu palácio e matou todos que aqui existiam...não viverás para contar essa historia. Vamos acabar com isso.
 - Sim. - Ela disse, se agachando e pegando seu quimono...a qual jogou nas costas, colocou seus braços nas mangas e deu um nó rápido...olhou para seu inimigo e disse. - Isso tudo acaba hoje. - E desatou a correr para cima dele, suas unhas alinhadas e preparadas...mas quando chegou perto o suficiente para acertar o golpe, contradizendo qualquer de seus traços físicos, Asano levou a espada para a palma da mão, cortou seu meio, fazendo o sangue espirrar e rosnou.
 - Ueiku, doragon!
 Ikira parou a corrida e saltou para trás. Um redemoinho de fogo envolveu o Lorde, criando uma leve explosão...e em instantes, a arma triunfal do Lorde estava ali...ao redor dele...olhando Ikira como sua próxima presa.


 - Muito bem, criança. - Ele disse, embainhando a espada. - É chegada a hora de uma lição de pai para filha. -  E apontou o indicador e o médio para ela. - Primeira e ultima lição: O Dragão sabe mais coisas do que uma Gueixa. - E assim que o disse, como um gatilho, o dragão tomou folego e seu interior se aqueceu. A Gueixa o olhou, surpresa e viu quando rugiu, lançando uma rajada de fogo para cima dela...e tudo ela fez foi dobrar os braços em sua face. O fogo crepitou e fez até mesmo o chão ferver, a neve derreter em toda a laje e a noite se banhar em laranja. Depois de um minuto inteiro de fogo, o Lorde fez um sinal e seu animal parou de súbito.
 O que se viu no lugar de Ikira não era uma montanha de cinzas ou um simples borrão preto, como deveria ser...e sim uma esfera, negra, cobrindo-a por completo. Sem conseguir respirar direito, o Lorde a olhou com descrença, com uma fúria que subia por todo seu interior...mas Ikira levantou e falou com uma voz diferente da anterior. Sua voz verdadeira, com o volume apropriado para aquilo.
 - Segunda lição, pai. - E quando se colocou de pé, a esfera se desfez. - O Dragão sabe varias coisas...mas a Aranha sabe uma bem grande.
 As pinturas de seu clã encontravam-se em seu rosto e na palma de sua mão, como fez questão de mostrar, trajava uma armadura de combate completa e uma katana nas costas, além de kunais escondidas na cintura.
 Ikira sussurrou atrás da mão o devido cântico em respeito a sua verdadeira forma adquirida.


本物のクモが合意されています
Honmono no kumo wa me ga samemasu.

 Lorde Asano rugiu...e seu dragão saiu do seu redor e partiu para cima dela. Como um fantasma, Ikira desapareceu de onde estava evitou um ataque que destruiu o piso de onde estava, aparecendo no telhado da estrutura a frente da criatura. O Dragão serpenteou o ar e avançou novamente, fazendo Ikira sacar sua espada e cortar como o vento. A criatura ruge e passa direto por ela, com um corte em um dos seus olhos...porém ele faz a meia volta mais rápido do que deveria ser capaz e se enrolar na Aranha como uma serpente, a apertando e a fazendo guinchar de dor. O Dragão olha para sua vitima e respira fundo novamente, Ikira sente o corpo da besta se aquecendo...mas ela age rápido.
 No momento em que as chamas explodem, Ikira explode...em mil minúsculos pontos negros que escapam das chamas por milímetros, saindo do aperto da fera, saltando para cima e se juntando novamente bem acima da cabeça do Dragão, voltando a sua forma humana, intacta e...sua espada, erguida, se crava por inteira na nuca da besta, varando o pescoço dela, interrompendo o fluxo de chamas, o fazendo rugir...e voar.
 O Dragão, subitamente, começa a voar para cima, sua velocidade é grande, Ikira tem que se segurar nos pelos do mesmo para não cair. O sangue flui e cai no rosto da ninja que não consegue ver muita coisa, só as nuvens chegando perto...ele está muito rápido!
 A pressão faz seu ouvido zumbir, seu sangue parece estar saindo da sua cabeça, a neve ...ela ia desmaiar...ela não ia aguentar e se tornaria uma presa fácil...
 E sua mente vagou para muitos anos atrás.

 - Ikira?
 - ...
 - Por que está chorando, filha?
 - Tá doendo...
 - Eu sei, mas você tem que continuar.
 - Mas eu quero descansar, tá doendo, mãe, nem to sentindo meus braços...
 - Ikira...você tem que continuar. Você precisa continuar.
 - Por que? Eu não quero, eu to cansada...
 - Porque se você não fizer, ninguém mais vai.
 - ...
 - Filha...a Aranha tem a paciência de construir a teia, usando muito de suas forças...e depois tem a paciência de esperar a presa cair na teia. Você está construindo a teia, Ikira...você não pode parar agora. Tem de ser forte. Termine o que começou.
 - Tá bom, mãe.
 - Olhe para mim.
 - ...
 - Eu tenho fé em você. Não porque é minha filha, mas porque você é quem você é. Você é uma Kumo. A mais pura que já vi. Você tem de terminar seu treinamento e continuar logo legado...mesmo que um dia seja a ultima de nós, você é especial...e vai continuar com o nosso nome. Liberte-se de qualquer sentimento ruim, filha...preguiça, raiva, avareza, vingança...liberte-se disso...e tome seu lugar de direito no mundo.
 - ...tudo bem, mãe.
 - Isso, meu bebê. Agora, vamos...

Ao trabalho, Ikira.


 A lua refletiu no olhar da Ninja quando despertou.
 Ela ficou de pé no torso do Dragão e puxou sua espada com a mão direita, com a esquerda se segurando em um de seus chifres. Ao sentir a lamina saindo, a besta guinchou...mas antes que pudesse ver ou qualquer outro tipo de reação, sentiu a lamina entrando de novo pelo ouvido, varando sua cabeça. A fera rugiu e Ikira segurou o cabo de um lado e a lamina de outro, tendo o cuidado de segurar na parte sem fio.
 Ela puxou para o lado com todas as suas forças e, sendo vencido pela dor, o Dragão obedeceu o comando. Ikira começou a dirigir a besta, o obrigando a fazer meia volta...e começar a descer, a cair como um meteoro na terra. A ninja fazia força, segurava o sangue na cabeça o máximo que podia, tentava se manter acordada...o ponto luminoso que era o Palácio começara a chegar perto e mais perto e mais perto...e quando ela viu a cara do Lorde, de espanto, ridiculamente exposto, sem nem mesmo sair do lugar...ela tirou a lamina de novo e voltou a cravar na nuca do monstro e depois a puxou, correndo pela extensão do corpo do bicho, o cortando ao meio dali para o final...Ikira saltou e o Dragão, sem mais forças para segurar vida no corpo, despencou em cima de seu mestre. A ninja rolou por toda a sacada, cravando a lamina de sua katana no chão para não cair da grande altura até o chão.Ela parou em um tranco quando chegou na beirada, seu ombro estalou, mas ela manteve as mãos firmes, ficando com seu corpo pendurado, mas evitando a queda. Ela olhou para baixo e viu...o Dragão fazia morto, cortado ao meio da nua para o fim da calda e o Lorde...seu corpo estava em posições horríveis...Ikira tinha certeza de que a cintura não deveria ficar tão longe da coluna assim...mas pelo poderes que a família Doragon tinha, Asano ainda vivia...tossindo, cuspindo sangue, todos os ossos do seu corpo quebrados...mas estava vivo.
 Ikira se puxou para cima e começou a caminhar. Desceu andar por andar, tomando cuidado para não pisar nos corpos dos mortos. Segurava seu ombro que estalou, o lado onde estava a ombreira que tinha uma face em prantos, não doía tanto, não estava quebrado, mas ainda assim incomodava.Ela saiu do palácio e andou pelo patio, onde o corpo do Dragão e o que havia restado de seu pai já estavam quase inteiramente cobertos de neve. Com certeza haveria uma tempestade.
 - Você...não é humana... - O Lorde, entre gargarejos de sangue e dor, começou a a balbuciar. Seu cabelo havia sido arrancado durante a queda, provavelmente o enfeite ficou enganchado em algum lugar, logo seu escalpo não estava mais lá e o cranio empapado de sangue estava a mostra. Seu corpo inteiro estava quebrado e com fraturas expostas, seu quimono estava rasgada e cheio de sangue nele.
 Era a visão mais patética que Ikira já havia visto.
 Ela encostou a lamina em seu pescoço e levantou para dar o golpe final...e ele riu.
 - Vai me dar a misericórdia de uma morte rápida...oh, meu amor, você não merece o pai que tem... - E com um sorriso e risos de escarnio, ele voltou a dizer. - Eu não teria tanta clemencia com você.
 - Não se trata disso. - Ele a olhou com certa confusão, mas ainda sorrindo. - Eu não te odeio, pai. Eu não guardo tais sentimentos. Minha mãe ensinou a ver as coisas de um outro angulo, um outro proposito. Se você não tivesse feito o que tivesse feito, eu nunca teria nascido...eu nunca teria encontrado anciões do meu clã, eu não teria me tornado forte...e você não estaria aqui, hoje, vulnerável, com todo esse preconceito que você carregou por anos sendo somente uma lembrança negra sendo enterrada pela neve. Você viveu com ódio de tudo aquilo que considerou diferente e inexplicável, Asano...e isso levou a morte de todos com quem você se importava e a queda de um império inteiro sob as mãos de sua filha bastarda. Eu não vou te matar agora porque eu te odeio. - Ele piscou e segurou a katana com ambas as mãos. - Vou te matar não só pela minha honra, pela honra de minha mãe e do meu clã...mas também porque sinto pena do senhor.
 O Lorde iria rugir alguma coisa, mas parou. O corte foi limpo. A cabeça escalpelada do Lorde rolou para lá, em silencio. Ikira respirou fundo...arrancou um pedaço limpo do kimono do corpo e limpo sua lamina, depois colocando a arma nas costas novamente. Foi até a tocha mais próxima e deixou que caísse no chão dentro do palácio, e mais outra, e outra.
 E mesmo quando estava distante, ela podia ver a torre de fumaça se formando ali.

-

 O sol já estava nascendo no horizonte e Ikira continuava ali, de pé, em meio as arvores, observando a sepultura de sua mãe. A neve já havia ido embora a uma semana...e fazia duas semanas que a noticia da morte de Lorde Asano. Todos acharam que rebeliões iam começar, ou que os outros dois reinos iriam disputar o pedaço de terra, mas não...os clãs que sobreviveram, que fugiram, que restaram, se uniram e começavam a debater uma nova formação de governo.
 Mas isso não importava mais...Ikira queria sair dali, ir embora, conhecer o Ocidente. Um navio a esperava no porto até semana que vem.
 Ela passou a mão no mármore onde o nome de sua mãe estava escrito e disse.
 - Oi mãe. Eu vou embora, okay? Não sei se pode me ouvir...mas esse pedaço de pedra não substitui a senhora. Eu fiz o que tinha de fazer...e eu sei que parece que estou fugindo, mas não estou. Eu só quero mudar um pouco as coisas. Essas cicatrizes, essa dor, esses momentos, eu sempre vou me lembrar deles...mas isso não quer dizer que eu tenha de conviver com eles. Espero que entenda...eu nunca mais vou ver a senhora. Mas uma parte de mim vai continuar aqui.
 E quando disse isso, uma pequena aranha negra saiu da manga da armadura de Ikira, caminhou pelo indicador e ficou em cima da lapide...parada, olhando para ela.
 Ikira sorriu...depois deu as costas e foi embora.


- Adeus.

-

Os ventos sopravam e com eles vinham a noticia de como um Dragão foi visto nos céus...e de como uma mulher o cavalgou e lutou contra ele na lua. A morte de Asano foi fora do comum em todos os sentidos, especialmente, quando aqueles que conheciam a ninja, sabiam de suas ambições. Logo seu nome foi contado e recontado e mil vozes falaram de seus dons e de como ela era a unica que podia matar o dragão e fazer tudo aquilo.
 Historia e lendas foram criados, teatros foram feitos e livros e mensagens escritas.
 De como uma guerreira enfrentou a tirania do Continente inteiro em uma noite só.
 A lenda de Ikira Kumo.
 A Aranha que matou o Dragão.

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