terça-feira, 12 de julho de 2016

Mensageiro

 - Quando eu bocejei pela terceira vez, eu decidi que era hora de dormir.
 O barco balançava bem de leve com as ondas calmas e, o que antes me dava enjoo, agora me embalava em sonolência, principalmente com uma quietude tão grande. Estava de noite, as águas escuras se tornavam verde escuro com a potencia das luzes na frente e na laterais da embarcação a qual meu pai guiava com maestria e minha mãe se assegurava das cordas mais uma vez. Meu irmão mais novo já dormia, mais resistente que eu, nunca vomitou por causa das ondas do mar.
 Estávamos no meio do atlântico, navegando a alguns dias em uma embarcação de porte médio que meu pai comprou fazia a pouco tempo. Não tinha muito espaço para se movimentar, mas o clima era tão relaxante que não ligamos muito. Fizemos churrascos, bebemos, conversamos bastante, na maioria dos dias o motor ficava desligado e ficávamos a deriva e não ligávamos para o mundo que havia ficado em terra firme, só queríamos nos conhecer novamente e ficarmos juntos como uma família. Todos nós estávamos precisando daquilo. Meu pai havia visto seu colega de trabalho sofrer um acidente de carro e era atormentado por pesadelos que ele mal conseguia descrever, minha mãe tinha perdido uma irmã e eu havia sofrido uma desilusão amorosa. E para não dizer que existia alguém sem problemas, meu irmão tinha perdido um baralho de cartas na viagem para cá e se sentia vazio sem elas. O modo como ele falava que aquilo era o fim do mundo para ele nos fazia gargalhar para o alto.
 Apesar do clima família, meu pai foi verificar bussola, as estrelas e o mapa um dia quando percebeu que nossas reservas de água estavam baixas para conseguir voltar para a praia, nos reabastecer e voltar para o mar, se possível. O homem entrou em estado de panico quando percebeu o quão longe estávamos da praia e temeu que a gasolina não pudesse nos levar até o local, mas minha mãe, mulher inteligente que era, havia colocado duas vezes mais de combustível do que o esperado para algum futuro problema que pudesse vir. Mais tranquilo, meu pai disse que seria melhor a caminho dia e noite para que não se perdesse tempo. E era por isso que estávamos navegando a noite em velocidade média.
 "Pai, eu vou dormir, okay?" Falei, colocando as mãos nos bolsos da jaqueta quando me levantei do banquinho em que estava. "Falou, boa noite, filhão" o homem respondeu, sorrindo por de trás da espessa barba grisalha. Fiz um aceno para a mãe que respondeu da mesma maneira e entrei. Desci uma pequena escada e passei pelo corredor interno, mantendo meu corpo no mesmo balanço lento da lancha, até o meu quarto que dividia com meu irmão. O mesmo dormia, com seu corpo pequeno de 6 anos encolhido em um cobertor grosso. Decidi imita-lo e parti para meu próprio leito ligado a parede da embarcação, onde apoiei a cabeça no travesseiro após olhar pela janela arredondada para a escuridão lá fora e adormeci em poucos segundos.
 Eu não sonhei nada. Absolutamente nada. Era um negro, um vazio tranquilo em que fui embalado e eu dormi mais profundamente do que dormi em toda minha vida.
 Mas tal tranquilidade foi interrompida quando o cheiro veio até meu nariz.
 O fedor, na hora ainda um mistério para mim, veio com tanta violência que me tirou do sono de tal forma como se tivessem me dado um soco. Levantei, tossi e cobri o nariz com meu cobertor. Era peixe...fedia a peixe podre, carne estragada largada no sol...
 Eu olhei para o lado e meu irmão não estava lá. Quando descobri a boca para tentar chama-lo, o cheiro veio novamente, nervoso, rápido, me fazendo tossir e sentir ânsia. Cobri meu rosto com o cobertor e depois o enrolei no meu pescoço e ombros, mantendo ele ali, cobrindo minha boca e nariz. Fiquei com medo, mas decidi sair do quarto e quando o fiz, notei que estávamos parados. Parados mesmo! Nem balançando o barco estava mais, parecia que tínhamos atracado em algum lugar e eu me perguntei se era isso que tinha acontecido e todos tinham se retirado e me deixado ali por algum motivo, já que eu não conseguia ver nada elas janelas e não havia nenhum movimento. Então, por que aquele cheiro de podre?
 Subi as escadas para o convés para ver onde estava.
 Pavor é uma palavra boa, mas não precisa para dizer o que senti, pois ainda é muito pequena para o que realmente veio até mim quando vi a cena iluminada pela lua cheia.
 O mastro não estava lá, somente lascas de madeira levantadas e rasgadas do chão. As lanternas estavam destruídas e soltavam faíscas da fiação partida. O convés inteiro era um festival de sangue e alguma outra coisa verde e gosmenta. Eu fiquei paralisado, com os olhos bem abertos, lacrimejando, temendo por minha família e por minha vida. Em minha inocência, achei que havia sido um ataque de piratas em primeiro momento, depois comecei a cogitar que deveria ter sido algo maior, algo que uma mente infantil iria pensar de imediato e considerar possível...é isso o que o medo faz, não é? Ele toca a nossa criança interior e coloca uma faca na garganta dela.
 Eu ia dar o primeiro passo, ia verificar tudo, ia procurar nas águas os corpos de minha mãe, pai e irmão e depois assumir o controle da embarcação e iria ir embora, dar graças a Deus que fiquei vivo e depois xinga-lo por ter deixado aquilo acontecer. Eu ia...mas quando meu calcanhar tocou o chão mais a minha frente, um chiado me fez virar para minha esquerda.
 Eu vi uma calda, cores azuis e vermelhas e um porte enorme até que algum tipo de criatura pulou sobre mim e me abraçou, me dando um tranco violento no corpo, me fazendo perder o ar e bater em alguma coisa quando caímos no mar. Me senti morto, uma marionete de carne enquanto era puxado para as profundezas. Eu não sei quanto tempo eu fiquei assim, sentindo um abraço esmagador que podia ter só mais um pouco de pressão e quebrar minhas costelas, vendo o vulto da calda se mexendo rapidamente na minha frente e me perguntando porque meu braço esquerdo estava dormente...e por mais fundo que íamos, quanto mais negro o mar se tornava a minha volta, quando mais meu corpo gritava por ar, eu, por algum motivo, não pensei em nada...me senti no meu sono mais cedo...em um negro reconfortante e calmo, tranquilo, que me embalava em algo que eu não entendia mas eu gostava...
 De repente, o abraço se desfaz e começo a afundar calmamente em meio a escuridão definitiva. Eu abraço meus braços e me deixo levar...eu sabia que ia morrer, sabia que era tarde demais e ao invés de lutar contra isso, eu preferi deixar aquela sensação me levar, morrer tranquilo, quase como dormindo...
 Mas ele tinha outros planos.
 Ele me deixou afundar mais um pouco...e mais um pouco...
 Até que ele abriu os olhos.
 Imagine que você está segurando uma formiga na sua mão. Perceba a sua imensidão comparada a insignificância dela, perceba seu tamanho ao dela...
 Eu era a formiga.
 Ele era a imensidão.


 Quando seus quatro olhos abriram, dois enormes na frente e dois nas laterais, iluminando em vermelho radiante a minha visão e ao meu redor, tudo o que fiz foi temer...e admirar.
 Primeiro seu rosto de iluminou junto com os olhos, deixando bem visível seu rosto, onde os tentáculos que cobriam sua boca começaram a se mexer. Consegui distinguir braços se levantando, apontando as palmas para cima, onde garras tão altas e grandiosas como torres pareciam poder puxar o que quisesse para junto dele...e ele podia. Ele pode! Suas asas se abriram de súbito e iluminaram tudo ao meu redor por completo e eu vi toda a verdadeira glória de como tudo poderia ser e como tudo um dia será! Eu vi os corpos e mil pecadores e falsos samaritanos boiando ao meu redor tomados pela podridão e pela morte, onde peles cinzentas se agarravam aos seus ossos e não os deixavam morrer, mesmo que seus olhos já houvessem derretido e seus dentes se tornado amarelos e estragados como o desperdiço de almas que havia em seus corpos...e eles se contorciam, em agonia, tentando alcançar a superfície sem nem mesmo sair do lugar. E eu vi a cidade...dominando todo o fundo do mar, se estendendo e se iluminando até onde minha vista podia ver a sua luz, em suas formas ciclópicas de esmeralda, com torres, fossos, cavernas, castelos, estatuas, tudo em formas que ele gostava, com ruas e corredores recheados de seus adoradores e carniceiros, seres que você nunca compreenderia até olhar de verdade, seres que respiram na água e podem caminhar na terra e nenhum poder do mundo dos homens poderia matar sequer uma delas...e existe centenas! Milhares! Bilhares delas! Com fome, com raiva, com toda gloria da realidade da natureza que negamos a tanto tempo...
 E a voz dele veio a minha mente, como um trovão que atravessa os céus e despedaça as estrelas. E ele disse que eu era seu mensageiro...que era para eu espalhar sua palavra e nome aos montes...de que a nova era iria começar, a verdade seria espalhada, o trono vazio que se encontra nos céus será ocupado devidamente e suas asas iram cobrir o mundo e tirar essa luz maldita que finge nos ajudar a ver, seus servos ocuparam espaços no mundo e nos darão o prazer de procriar com eles, nos mostrando como é a verdadeira forma humana, nos mostrar a verdade! Seus tentáculos se moveram ao meu redor como um redemoinho em câmera lenta e foram me revestindo em um abraço reconfortante e sua voz dizia...dizia que eu era seu mensageiro e devia espalhar a verdade. A verdade...
 - E qual é a verdade? - Foi a primeira vez que interrompi o depoimento do suspeito. E ele respirou fundo antes de responder.
 - A barbárie é a verdadeira forma humana. A sociedade é uma piada. A ordem é uma mentira. A selvageria é a verdade. E quando ele chegar e trazer os Antigos com ele, poderemos voltar a ter nossos instintos e eles serão a unica lei. Essa é a verdade. Somos selvagens, presos em coleiras...e ele virá nos ensinar a sermos livres de novo...com novas formas de lutar, novas formas de descobrir, novas formas de matar, torturar, trazer, comer e viver e ai o homem poderá sentir o prazer de dar a dor e sentir a dor e demonstrar a dor. Será o paraíso, enfim, quando a consciência medíocre do homem sair do caminho.
 O silencio em seguida foi fúnebre e eu esperei cerca de dez segundos para ver ele diria mais alguma coisa.
 - E você é o mensageiro..."dele", certo? - E com o mesmo sorriso satisfeito desde quando ele chegou ali, o suspeito balançou a cabeça antes de falar.
 - E irei falar para todos o que eu disse pra você.
 Eu suspirei e percebi que estava suando. Afrouxei um pouco o nó da gravata e li novamente a ficha do suspeito na minha frente, na esperança de ter algo a mais para perguntar e obter uma resposta lucida.
 O nome dele era Alexandre Matarazzo, tinha 17 anos, era o filho mais velho de Angélica Matarazzo e André Matarazzo, tinha como irmão mais novo Álvaro Matarazzo, de 6 anos de idade. Foi encontrado delirando, desidratado e com fome, faltando seu braço esquerdo em um barco cheio de sangue, atracado em uma praia de Alagoas. Após ser tratado, o suspeito gargalhou e começou a dizer as coisas que vinha a cabeça e dizia em alto e bom som o que tinha "visto". Quando questionado sobre sua família, ele só responde "Eles estão bem, mas não estão mais aqui". Um claro caso de demência e teria tudo para colocarem a culpa no garoto sobre o assassinato dos pais e do irmão e seria caso encerrado...se algo parecido não tivesse aparecido em São Paulo, na praia de Santos. Ou no Rio de Janeiro. Ou em uma zona litorânea da Africa. E no México...
 Alexandre era o oitavo "Mensageiro" a aparecer...e foi o menor em escala de mortes, porque todo o resto estavam em grandes embarcações e tripulações inteiras sumiram, deixando um rastro de sangue e marcas na madeira.
 Eu tirei os óculos e pressionei os olhos, lutando contra o sono e a paranoia.
 - Desculpe minhas tendencias poéticas, Doutor. - Ele me chamou a atenção novamente. - Mas eu não consigo evitar.
 - Está tudo bem, Alexandre. Tudo bem. - Eu suspirei novamente e o peso não saiu do meu corpo, então pensei em outra pergunta...que esqueci no momento em que ele voltou a sussurrar.
 - Nenhuma vida importa. - Ele sussurrou de novo, com os olhos perdidos e avermelhados. - Ph'nglui mglw'nafh Cthulhu R'lyeh wgah'nagl fhtagn...

 Ao sair da delegacia, o delegado quis me ver.
 - Doutor...só pra confirmar, posso colocar insano no papel, certo?
 - Eu não, sei, rapaz. Eu não sei mais...
 - Como assim? - Ele me olhou como se me analisasse agora.
 - Perdão, qual seu nome, Delegado? - Eu perguntei, corrigindo minha postura.
 - Rogério Afonso, senhor.
 - Rogério...eu sou psicologo formado desde meus 23 anos. Estou no ramo a 27 anos e eu nunca, jamais, vi algo parecido. - Os olhos dele, cansados, piscaram algumas vezes.
 - Em que sentido o senhor diz?
 - No sentido de que, a loucura desse homem...por algum motivo, me faz sentido. - E respirei fundo e soltei o ar pesado. - Pode colocar que ele é louco no papel, quando forem reloca-lo, por favor, peço que me avise, está bem?
 - Tudo bem, Doutor. Mas...
 - O que?
 - O que podemos fazer agora? Precisamos tomar alguma atitude especial quanto a ele enquanto ele estiver aqui? - Eu não pensei muito antes de dar a resposta.
 - Rezem.
 E me coloquei em meu caminho ao meu carro e pensei em como meus sonos não haviam tido imagens ultimamente...e aquela negritude havia me dado mais descanso do que o melhor dos sonhos.
 E a caminho de casa, a frase dele não saia da minha cabeça...e como gritos elas se repetiam...


Nenhuma vida importa.
Ph'nglui mglw'nafh Cthulhu R'lyeh wgah'nagl fhtagn

Nenhuma vida importa.
Ph'nglui mglw'nafh Cthulhu R'lyeh wgah'nagl fhtagn...

Nenhuma vida importa.
Ph'nglui mglw'nafh Cthulhu R'lyeh wgah'nagl fhtagn...

Nenhuma vida importa.
Ph'nglui mglw'nafh Cthulhu R'lyeh wgah'nagl fhtagn...

Nenhuma vida importa.
Ph'nglui mglw'nafh Cthulhu R'lyeh wgah'nagl fhtagn...

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