sábado, 30 de julho de 2016

Imortais - O Corvo

Para Thiago


  Os trovões iluminavam os arredores momentaneamente. A chuva caia como pedras nos marinheiros que desistiram de manter o navio em seu curso e se preocupavam agora em mantê-lo inteiro. As águas pareciam estar querendo os atacar, matar e possuir, atirando ondas que chegavam quase acima do mastro e faziam cada madeira da embarcação estalar. Já tinham perdido a ancora com metade do escovém, as velas estavam rasgadas e esburacadas e as enxárcias estavam a ponto de se arrebentar por completo.
 Estava tudo acontecendo igual ele disse que aconteceria. Pensa o Capitão Alárion.
 - SODON! - Ele em meio a tempestade antes de adentrar em busca do prisioneiro. O contramestre veio, se equilibrando da melhor forma possível e trajando uma camisa branca leve e uma calça azul marinho de aldogão com botas de couro de cano alto nos pés, totalmente colada no corpo por causa da chuva. Ele já havia tirado seu casaco, ornamentos, peças de ouro, todo seu uniforme formal e tudo que iria atrasá-lo e deixar seus movimentos mais lentos...igual a todos eles.
 - SIM, CAPITÃO! - Ele disse e o navio deu um solavanco e o Capitão o segurou pelo colarinho e o puxou para próximo de si, começando a gritar em seu ouvido.
 - EU VOU FALAR COM O PRISIONEIRO, VOCÊ DÁ AS ORDENS ATÉ EU VOLTAR!
 - O QUE TE FAZ PENSAR QUE ELE PODE AJUDAR, CAPITÃO?
 - ELE DISSE QUE ISSO ACONTECERIA! E NÃO ME QUESTIONE! - E empurrou o homem, que caiu no convés, mas se levantou prontamente, xingando o homem enquanto ele partia. O Capitão, uma vez dentro do navio, caminhando em seus corredores, enxugava o rosto com as mãos e aproveitava a sensação de calor e de não haver mais chuva para obstruir sua visão. Se apoiando nas paredes, ele voltou a se lembrar de tudo o que havia acontecido...uma semana antes de tudo aquilo.
 Antes deles acharem o Corvo.
 Era uma manhã de Sol, igual todas as outras quando saíram de Ulkovia, o Reino Branco do Oeste, o maior reino litorâneo de todo o planeta, cujos monumentos em mármore faziam a cidade reluzir e brilhar tanto quanto o Sol todos os dias. Seu exercito era poderoso, mas eram conhecidos por suas tropas navais e por seus constantes atritos com piratas e o fato de que, ninguém, nunca terem conseguido invadir ou tomar suas praias. Naquele dia, Capitão Alárion de Ulkovia havia sido convocado para uma missão especial. Alárion, um homem alto de pele morena e cabelos castanhos escuros, forte nos braços e pernas e de olhos verdes, era especial e visto com respeito pelos generais e com até mesmo carinho pelo rei, uma vez que ele havia sacrificado o seu sobrenome e substituído pelo nome da cidade, vivendo unicamente com o salário de capitão e os tesouros alheios que conseguia conquistar, uma clara demonstração de fidelidade a sua nação, uma vez que veio de uma família muito nobre e todas as regalias que conquistaria com seu antigo nome seriam muito maiores do que as conquistas materiais que conseguiria nessa profissão...mas seu rosto e nome eram motivo de orgulho para todos. Meio que uma celebridade, Alárion era puro para os outros...mas para si e para os íntimos que os conheciam, sabiam de sua gigantesca infidelidade para sua esposa, sua vontade por ouro e em como sua imagem e auto-preservação era mais importante para ele do que qualquer outra coisa no mundo. Suas escolhas foram unicamente para ser lembrado eternamente e não visando o bem para seu povo, mas ninguém podia dizer que ele era fraco ou que não era um líder nato, pois sua voz era ouvida, entendida e suas vontades executadas. E por isso, missões mais perigosas e extensas eram dadas a ele, pois ela seria feita com louvor e qualquer ouro encontrado serviria para molhar a mão dos seus companheiros e garantir mais anos de fidelidade e proteção da lei.
 A missão em questão era de achar uma certa ilha ao norte onde um navio da frota deles havia sido visto, navio que havia sido invadido e capturado por piratas a alguns dias atrás e mercadores e contrabandistas alegam terem visto tal embarcação. A missão era simples e clara, mesmo tendo um circulo vermelho bem grande onde eles deveriam procurar no mapa, Alárion saberia o que fazer. Eles zarparam ao meio dia e tudo correu bem nos primeiros três dias de viagem.
 Até que, no quarto dia, quando o Sol ia se por, um dos homens gritou.
 - HOMEM AO MAR! - Todos, incluindo o Capitão, foi averiguar tal chamado. Ele estava em um barco a remo, com água até a metade do mesmo, encolhido e cabisbaixo, tanto que pensavam que ele poderia estar morto.
 - Puxem-no para cima. Quero saber o que esse homem sabe. - A preocupação do Capitão era de sofrer ataques futuros. Aquele homem com certeza era vitima de um ataque, mas quando puxou para cima e viu o homem de perto e por completo, sua preocupação foi esquecida e sua consciência foi tomada pela raiva e pelo preconceito.
 O homem era magro para os padrões Ulkovianos e sua pele era branca e queimada pelo Sol, vestia botas de cano alto dobrado, uma calça de algodão cinza que combinava com o casaco sem mangas de mesma cor que usava por cima de uma camisa branca um tanto justa ao corpo. Uma tira de couro de ótima qualidade cruzava o peito do rapaz que se ligava ao cinto...onde um sabre de cabo de ouro com uma lamina de prata pendia. Semi consciente, o rapaz levou um tapa forte das costas da mão do Capitão e, meio acordado, em alerta, conseguiu ouvi-lo cuspir as palavras.
 - Pirata imundo... - O Capitão olhou para seus homens e disse. - Temos um cão do mar aqui. Vamos amarra-lo e...
 - Corvo... - O Capitão se calou ao ouvir. Sua voz era estranha...não era grossa, mas quando ela falava, você ficava quieto e escutava. Ainda assim, o Ulkoviano aproximou o ouvido do pirata e disse.
 - Repita o que disse.
 - Não sou cão. - Ele disse, com toda sua fraqueza aparente. - Sou o Corvo. - O Capitão piscou, confuso e de súbito quis saber mais sobre aquele homem.
 - Coloquem-no na prisão. Preparem água e comida pra ele, alimentem-no bem, ouviram? Um homem fraco não conta historias e eu preciso saber o que ele sabe.
 - Sim, capitão! - Quatro marinheiros disseram em uníssono e foram cumprir suas ordens. Quando estava por volta das três da manhã, o Capitão vestiu seu manto e seu chapéu, saindo de seu quarto, passando pelo convés, recebendo cumprimento dos homens que checavam as balistas e suas flechas. Desceu até a prisão, onde havia duas celas, uma vazia e outra com o "Corvo". O Capitã percebeu, pela tigela ao lado da cama o quanto o prisioneiro havia comido, três pernis inteiros e uma tigela de ensopado de coelho com cevada. Realmente estava com fome. Ele estava na mesma posição de quando o encontraram em alto mar, encolhido, sentado, com os cotovelos nos joelhos e seu rosto para baixo, com os cabelos negros caindo por cima da bandana azul escura e pelo rosto, cheios de anéis de prata presos a tufos, só que agora com algemas de ferro nos pulsos.
 - Prisioneiro, levante-se e olhe para mim. - O mesmo ouviu a ordem do capitão e sem fazer qualquer tipo de expressão, obedeceu. Primeiro o Capitão o mediu e olhou direito para ele. Suas roupas não estavam mais úmidas e seu corpo não era tão mirrado quanto parecia na hora. Seu olhos eram castanhos bem escuros e sua barba era um pouco cerrada, já estava crescendo e ficando pontuda no queixo.
 - Quem é você? - O Capitão perguntou com seu tom autoritário habitual.
 - Capitão Thiron Sirius Morgan. - Alárion levantou uma sobrancelha.
 - Capitão de que navio?
 - Do Meu. - O Ulkoviano cerra os olhos e franze as sobrancelhas.
 - Cuidado com a linguá.
 - O nome de meu navio era "Meu". - E Alárion substitui sua expressão para confusão e depois de entender, se desata rir em alto e bom som.
 - Admito que é um nome criativo.
 - Obrigado. - O jovem diz e sorri, levanta os braços e se alonga.
 - E o que aconteceu com seu navio? - A expressão do pirata ao ouvir tal pergunta muda para sombria.
 - Ele foi destruído. Feito em pedaços e depois afundou.
 - E como tal coisa aconteceu? Tempestade ou outros piratas?
 - Nem um nem outro. - A expressão do homem agora era de puro vazio, como ele fosse uma estatua de mármore. - É melhor vocês me soltarem no mar de novo. O barco a remo que eu tinha, vocês o recolheram também?
 - Você não vai a lugar algum. Primeiro, você vai me contar o que houve de bom grado e depois eu vou pedir para cortarem sua cabeça de forma limpa e rápida, uma vez que eu estiver de volta em casa. Esse é seu destino, Thiron, aceite-o, caso contrario...
 - Caso contrario você e seus homens vão morrer junto comigo. - O Pirata interrompe o Capitão que se indigna com tal ato, mas ouve os passos das botas do prisioneiro chegarem mais perto e se apoiar na grade e ficar cara a cara com ele. - Quer ouvir minha historia, Capitão?
 Lá vai.
 Por três vezes eu fui parte de uma tripulação. Por duas vezes me tornei capitão e por três vezes eu vi meus homens e amigos morrerem.
 As antigas lendas dizem que ele vem para as embarcações que trazem maldições consigo e as engole inteira, mas isso não é verdade, Capitão. A verdade é que ele trabalha de forma diferente, Capitão. Primeiro vem uma chuva fina e frio, acompanhada de uma nevo rasteira. Seus homens começam a ficar com mais fome e sede do que o comum, sua comida acaba bem rápido. Depois, vem noites sem dormir, pra você e para seus homens, os dias ficam pouco produtivos e mais ociosos por isso...e ai vem a chuva, a tempestade, os trovões e a merda do mar parece querer te matar antes que ele te mate...porque um afogamento deve ser mais bonito do que acabar nas entranhas daquela coisa.
 - Do que está falando? - O Pirata o ignora.
 - E quando a água fica calma e o céu bem estrelado e tudo fica na mais perfeita ordem é que ele vem, Capitão. Você vai ouvir um dos seus homens gritando "Tem alguma coisa no mar" e quando ele vier e trazer consigo tudo o que tem pra oferecer...ai sim, Capitão, você vai saber que tipo de homem você é.
 O silencio foi fúnebre e Alárion continuou olhando para Thiron, esperando falar mais alguma coisa.
 - O que é essa coisa de que você diz?
 - Ele tem muitos nomes. Mas eu prometi por fim em cada um deles. Na primeira vez, eu era um garoto e sobrevivi por sorte e porque o barco a remo em que estava seguiu uma correnteza que me mandou para uma praia. Piratas me encontraram, ouviram minha historia e seguiram meus conselhos. Cresci com eles, por ai, entende? Foi bom...tanto que eu me convenci de que aquela noite foi fruto da minha imaginação. Então quando aconteceu a segunda vez...quando eu sobrevivi porque fui rápido, eu soube que era algo pessoal. Era algo intimo entre eu e aquela coisa...e quando eu acordei na praia, sangrando, quase morrendo, entre os inúmeros corpos mutilados ao meu redor e os pássaros negros que os devoravam, eu soube que não ia parar...que toda vez que eu visitasse o mar, toda vez que eu olhasse para as ondas, eu veria seu rosto de terror. Pensei seriamente em ficar ali, deitado esperando a morte...mas o som de passos me fizeram levantar, quando os Ishitar me acharam, achei que iam me matar...mas eles me acolheram.
 - Os Ishitar? - Alárion perguntou, contendo-se para não rir de repente.
 - Eles mesmos. A ilha em que fui parar era uma das sedes deles...e quando ouviram minha historia de que como sobrevivi duas vezes a aquela coisa, eu era abençoado de alguma forma. Fiquei com eles por um bom tempo e por um bom tempo eu treinei, pratiquei, estudei e me tornei o homem que deveria ser...e fui para o mar novamente, pronto para tudo. Primeiro, em um navio menor, até o caís de Ostorion...de lá, reuni homens, comprei um navio e fui para o mar novamente. Eles sabiam no que estavam se metendo, eu expliquei pra eles, mas como você, não me levaram a sério...por falha deles eu não matei o maldito e agora, eu vou ter uma chance...se me soltar daqui e devolver o meu sabre.
 O Capitão desatou a rir e, ainda rindo, deu um soco no nariz do jovem pirata que caiu de costas na cela. Se Thiron não estivesse algemado e não houvesse uma grade de ferro em seu caminho, o Capitão sentiria pena de si mesma por ter feito aquilo...mas não, ele saiu rindo e desacreditando da historia do homem.
 Ishitar? Ele ria em sua mente. Os sábios do mar que vivem em ilhas perdidas? Ah, pelo amor de Deus...um pirata contador de lendas. Acho que irei enforca-lo aqui mesmo. Mas não enforcou, queria primeiro fazer dele um mico de circo para sua cidade, ao menos era esse seus planos.
 Até que veio a chuva fina e o frio. E a nevoa. Os homens começaram a comer muito e depois ficaram noites sem dormir, se queixando de dores nas costas e outras coisas...e a tempestade veio, avassaladora e monstruosa.
 Era hora de voltar a falar com ele.
 Estava sentado na cama quando o Capitão chegou em sua forma deplorável e quase caiu com mais uma guinada do navio. Ele se agarrou nas grades e gritou.
 - O QUE ESTÁ ACONTECENDO?
 - Exatamente o que eu disse que ia acontecer, criança. - Thiron respondeu, sem se mover um centímetro.
 - O QUE ESTÁ VINDO? O QUE VAI ACONTECER?
 - Me solte e devolva meu sabre. As coisas vão ficar muito sérias aqui, rapaz, e eu sou o único aqui capaz de finalizar o monstro.
 - Monstro? - O capitão falou mais pra si mesmo do que para qualquer outro. - Como assim, monstro?
 Thiron ficou de pé...caminhou até o meio da cela e olhou para todos os lados e depois para cima.
 - QUE MONSTRO É ESSE? - O capitão disse, chacoalhando as grades. Thiron olhou para ele e disse.
 - Tá quieto, não acha? - E a cor bronzeada do rosto de Alárion se foi. Tudo estava quieto...até demais. Ele dá as costas para o pirata e corre até o convés. Thiron sabe que é hora de agir e no instante em que fica sozinho, ele com seus dedos hábeis começa a puxar um dos pregos das tábuas na parede da cela.
 No convés, os homens estão tão cansados que mal conseguem comemorar, mas riem e sorriem. O mar, a segundos atrás, querendo comê-los vivos, agora estava calmo e plano, parecia até mesmo solido de tão reto que estava, o vento era calmo e gentil, uma brisa que fazia as velas destruídas balançarem poeticamente. O Capitão sentiu alivio mesmo preocupado e vendo o inacreditável. Ele se debruçou na madeira molhada a estibordo e permitiu relaxar e olhar o mar calmo...até que viu a sombra passar e começou a suar frio.
 Ao preço de uma unha, Thiron conseguiu tirar dois pregos e mexia calmamente na fechadura do portão, contradizendo totalmente seu coração e, quando conseguiu abrir e ia sair devagar, ele sentiu e ouviu...aquele som pesado e rasteiro...de alguma coisa passando por baixo do navio.
 - Olá, velho amigo. - O Corvo disse, abrindo a cela e correndo freneticamente onde deveria ser o arsenal, lugar onde encontraria seu sabre a quem ele mesmo forjara e chamara de Tormenta.
 No convés, outras pessoas olhavam a sombra e não acreditavam. Era maior do que o navio...e isso em questão de LARGURA...enorme, a sombra que se fazia ver na luz do luar serpenteava para longe...mas não parada de ficar maior e maior, não saia debaixo do navio por mais que nadasse.
 Até que um dos homens gritou. Um grito horrendo, rápido e seco, que rapidamente foi substituído por inúmeros rosnados rápido e graves.
 A visão fez o Capitão vacilar. Ele, que havia enfrentado inúmeros homens e animais selvagens, sempre com a coragem no peito não importasse o local, sempre havia lidado com homens e suas crias, nada mais...as historias para ele eram simples historias e por isso, ao ver o homem que estava apoiado a mureta a bombordo, seu coração parou e ficou sem reação...ao ver a criatura grotesca que havia matado seu marinheiro.


 Os homens entram em panico e começam a sacar suas espadas, outros a pegar os arcos e flechas, lanças, machados e até pedaços de pau...e todo o navio começa a se encher daquelas coisas. Elas saltavam da água e começavam a vir e atacar os homens. As espadas encontravam os bichos, mas a cada corte, eles debatiam e caiam...mas não morriam. Caos se tornou permanente em poucos segundos todos começaram a lutar, usando tudo que tinha pela frente. Menos Alárion...que correu até o castelo de popa e começou a desatar nós para um pequeno barco a remo que tinha ali. Ele iria fugir, aquilo era loucura demais, até pra ele.
 - CAPITÃO! - Sodon veio até ele, espada em mãos, sangue caindo da testa e roupas maltrapidas. - O QUE ESTÁ FAZENDO?
 - ME AJUDE, SODON! - Alárion pediu. - VAMOS, VAMOS SAIR DAQUI, NÃO PODEMOS LUGAR CONTRA ESSAS COISAS, NÓS VAMOS... - Um rosnado frenético atraiu a atenção e o Capitão voltou a olhar para frente. Uma daquelas criaturas pulou em seu rosto e começou a arranha-lo e morde-lo. Assustado, tentando tirar a criatura de seu rosto, o Capitão foi andando para trás...até cair no convés e ficar atordoado, com aquela coisa saindo da sua cara e pulando nas costas de outro. Em panico, Alárion rasteja entre seus homens que lutam por suas vidas e não sabe o que fazer...a loucura e o medo o tomaram e ele espera...até que ele se vira e olha para os céus noturnos, salpicados de estrelas e respira fundo...e surge outra daquelas coisas em seu campo de visão...ela abre a mandíbula e...
 Some. Como areia ao vento.
 De pé, armado com um sabre reluzente em uma mão e no outro uma faca menor de ferro, Thiron estava de pé...e passa por cima do capitão do navio e começa a desferir seus golpes.
 Concentre-se, ele sussurra para si mesmo em sua mente. E é o que ele faz. Ele percorre o convés e sua lamina não corta as criaturas, ele as transforma em pó...e logo todos veem ele, o Pirata, lutando contra os monstros com seu rosto frio e sem expressão, focado, sem medo, cortando aquelas coisas e as desfazendo para o vento calmo levar.
 - MANDEM ELAS PRA MIM! - Thiron gritou. - MANDEM TODOS PRA MIM, EU MESMO ACABO COM ELES, SUAS ARMAS DEMORAM DEMAIS PARA MATA-LOS, EU ACABO COM ELES! - E em uma junção de força e consciência, a tripulação inteira passou a cortar e empurrar aqueles bichos. Ficando no centro do navio, Thiron começou a cortar em arcos e as vezes até em círculos. As criaturas se desfaziam em uma poeira prateada que Thiron sabia que era areia e sal, caindo nele e sujando todo convés. Glorioso. O gosto da vitoria momentânea foi quando aquelas coisas pararam de aparecer e todos gritaram.
 O Pirata os interrompeu.
 - Homens...silencio. - Falou com a voz baixa e o comando foi seguido a risca por todos eles. - O pior ainda está por vir. Sinto em dizer isso, mas vamos...preparem-se, eu não vou conseguir fazer isso sozinho. Eu preciso de todos vocês trabalhando agora, uns com arcos e flechas, outros com as balistas e outros recolhendo os corpos. Quantos homens ainda nos resta?
 - Cerca de 70. - Thiron olhou para trás e viu Sodon, o contramestre careca com uma barba espessa e meio grisalha.
 - Isso vai dar para o gasto. - Depois olhou para todos novamente. - Vocês me ajudam? - o rugido da tripulação foi unanime e o Pirata sentiu o gosto do orgulho. Se conteve e olhou para o antigo capitão do navio, Alárion e depois para o contramestre.
 - Por favor, pegue esse covarde e coloque-o na cela. Não tenho tempo pra ele agora.
 - Sim senhor. - Sodon pegou o homem que tentou protestar e com gosto o colocou de pé, parado na porta aberta que descia para os corredores, tomou impulso e deu com a sola da bota no peito dele, que rolou pela escada pateticamente. Todos iam começar seus afazeres...até que o barco vacilou, dando uma leve guinada a bombordo...depois uma lenta e grande para estibordo, voltando violentamente para o lugar. Alguns homens caíram ao mar e Thiron praguejou.
 - Este é o pior que está por vir, senhor? - Sodon disse e o Pirata concordou.
 - Sim, rapaz. Eu to caçando essa merda a alguns anos...dediquei minha vida a isso. E hoje, essa merda não escapa... - As águas começavam a ficar agitadas de novo e os homens a ficar assustados, menos Thiron que caminhou até as balistas que estavam pronta e começou a raspar a lamina de seu sabre em suas pontas, uma a uma.
 -O que está fazendo? - Um dos homens perguntou.
 - Tormenta, meu sabre, foi forjado em veneno de hidra. - Ele respondeu sem tirar os olhos de sua tarefa. - É letal para qualquer criatura marinha e vai ajudar a enfrentar o que está por vir. Eu não vou conseguir ficar raspando minha lamina em tudo o que vocês tem, principalmente antes da luta, então tenham a certeza de acertar as merdas dos tiros. - Ele pegou uma lança presa a madeira, fez o mesmo em sua ponta e em outra, e numa espada, e em outra e mais uma lança. - Me tragam algumas das suas lanças e espadas, é melhor do que qualquer outra arma contra essas coisas. Vamos! - Assim que terminou de falar, um relâmpago estourou. O céu escureceu e as águas começaram a ficar mais e mais turbulentas...não chegava a ser uma tempestade, ainda...mas não foi isso que prendeu a atenção dos homens.
 Primeiro surgiu uma barbatana...maior do que a embarcação em que estavam...depois o corpo colossal...e mais outra parte surgindo do mar...e mais outra...até que a cabeça se levantou e arrancou suspiros e tremedeiras na tripulação.
 - O que...é isso? - Alguém perguntou. Thiron não tirou os olhos da criatura.
 - Detesto falar os nome dele...mas alguns o chamam de Serpente de Deus...outros de Jörmungandr...

Eu o chamo de Leviatã.


 O monstro pareceu parar...e tudo ficou em silencio...só para aquela coisa abrir a boca cheia de dentes e rugir. Era possível ver o som se deslocando enquanto saia daquela garganta negra e o mar respondeu ao seu chamado criando ondas em cima do navio...mas todos ficaram parados, especialmente quando ele parou de rugir...e outro rugido se deu inicio. Era menor em volume...mas o ódio era quase palpável. Thiron gritava para o monstro a sua frente brandindo sua arma, colocando um dos pés na balista como apoio e...quando menos esperavam, ele chutou a madeira e disparou a flecha enorme que cravou na carne podre do bicho...que rugiu, jogando sua cabeça para trás. Todos olhavam, sem reação, a besta voltando para o mar, mas mantendo-se perto da superfície.
 - VAMOS, HOMENS! - Todos olharam para o Pirata, com um olhar insano e um sorriso encorajador. - QUEM QUER ENTRAR PRA HISTORIA? QUEM QUER MORRER LUTANDO? - E, sem saber o exato porque, todos no navio sentiram uma fúria enorme, algo que fez o coração bater forte no peito no mesmo ritmo em que as gotas de chuva em suas peles. E eles gritaram e começaram a se mover, a pegar arcos e atirar as flechas, a pegar as lanças e atirar no monstro. Thiron sentiu o corpo ferver e começou a dar as ordens enquanto subia e tomava conta do leme.
 - É BOM ESSAS VELAS AGUENTAREM! - E começou a fazer o percurso, virando a bombordo, observando o movimento da criatura...foi quando mais Minions pularam no navio, dessa vez maiores e mais ferozes...mas os homens tinham agora lanças e espadas com pouco de sangue de hidra que Thiron havia passado para elas, fazendo o serviço ficar mais fácil. O pirata comandava o navio com toda força e determinação que aprendeu com os Ishitar...não ia demorar muito agora. Já tinha visto aquilo...o demônio gostava de mandar seus Minions primeiro, destruí-los um por um, espalhar a loucura, a morte, ouvir os gritos...mas se isso não funcionasse, se a tripulação não morresse com isso, ele atacaria pessoalmente. O Leviatã é sádico, mas seu orgulho será sua queda. E Thiron continuou, pacientemente, botando fé naqueles homens que mal conhecia para segurar e matar as criaturas. Um deles, um cara alto e careca de barba ruiva os golpeava com um machado que Thiago não havia "modificado", e mesmo assim, com a força dos musculos, ele conseguia arremessa-los para fora do navio com um belo corte em sua carne podre...até que foi subjugado por cinco deles, que despedaçaram seu corpo e partiram para cima de outros. O convés era um emaranhado de água da chuva, do mar, de ondas que batiam e levavam marinheiros e monstros para as profundezas, sangue e gritos de guerra e pavor...até que elas pararam de vir...e Thiron virou freneticamente, analisando a posição pela sombra...a chuva havia ficado mais pesada, era agora...ele iria atacar...
 E ele veio!
 E Thiron posicionou tudo no lugar certo dessa vez! A criatura levantou seu corpo enorme e estava face a face com o navio...que ia de frente pra ela com tudo.
 - SE SEGUREM! - Ordenou Thiron que não obedeceu a si mesmo e pulou do leme para o convés e sentiu o franco e viu, com louvor nos olhos e na alma, o gurupés enterrar na carne podre do maldito. O Leviatã, conhecendo a dor pela primeira vez em sua vida, ia colocar a cabeça para rugir novamente...aquilo ia virar no navio, todos iriam parar nas águas turbulentas e tempestuosas...mas Thiron correu, entre a chuva e os homens, pisando com firmeza cada passo de suas botas na madeira...pisou na ponta do navio e saltou o mais alto que podia. Um relâmpago estalou no mesmo momento em que Thiron rugia e brandia seu sabre com ambas as mãos, curvando suas costas para trás e mirando no meio da testa do monstro.
 Ele cai e crava a arma. A criatura toma um espasmo e quebra o gurupés e abre a boca, fazendo um som que parece choro...e tira boa parte de seu corpo do mar, indo para cima, mais e mais, se debatendo. Os marinheiros observavam e ficavam abismados com tudo aquilo, o mais sensato foi Sodon, que assumiu o leme e começou a fazer uma curva para poderem sair dali, mas nem ele conseguia tirar os olhos da criatura...cujas escamas eram verdes e barbatanas vermelhas, agora, estavam ficando cinzas e azuis...como ele se debatia e mesmo com a chuva, os trovões e tudo mais, ainda era possível ver Thiron segurando a lamina cravada no monstro e ouvir sua risada de triunfo.
 Os homens se afastavam conforme uma nevoa se formava ao redor deles...e por fim, o mar os levou para longe de tudo aquilo.

-

 Quando o Sol se levantou, as autoridades de Ulkovia receberam cerca de quarenta marinheiros apertados em barcos a remo. Dentre eles estava Alárion, amarrado, acusado de traição e tentativa de desertar. Por algum motivo os soldados se mostraram entusiasmados em leva-lo a justiça. Quando o Rei questionou Sodon, proclamado capitão pela tripulação,do que havia acontecido, o velho marinheiro sorriu...e antes de contar ao Rei, ele disse.
 - Vossa Majestade não irá acreditar.
 E foi o caso. Sem folego, o Rei confirmou com cada homem presente o ocorrido e tremeu sentado em seu trono...mas por fim bateu uma palma e se colocou de pé, perguntando.
 - E onde está Thiron? Ele morreu? O monstro morreu? - Ele gesticulava com urgência. - Me digam...ONDE ESTÁ THIRON SIRIUS MORGAN?

-

 - MESTRE NALA! - Um dos criados interrompera a meditação da mestra que, ao ouvir a urgência do jovem, sabia que tinha um motivo e não sentiu raiva. Olhou para ele, saindo de sua pose, arrumando sua túnica e perguntou o que havia acontecido. Sorrindo, ele respondeu.
 - É Thiron. ELE VOLTOU!
 E Nala disparou pelos corredores, depois pelo quintal do templo e por fim, pelas folhas e areias de seu caminho. O som do mar trouxe as lembranças antigas...de como conheceu Thiron e o acolheu.
 Quando viu o menino se erguer dos corpos mutilados pela besta, espantando os pássaros negros a sua volta, embebido em seus sangues, onde suas roupas e pele ficaram escuras por retar e coagular o sangue. Onde ele a olhou não com medo, não com raiva, mas com fome...fome de justiça e de vingança, fome de poder, de conhecimento e de informação para enfrentar aquilo que ninguém havia enfrentado antes.
 - Um corvo... - Um dos outros mestres disse ao vê-lo...e como nas primeiras semanas ele não disse nada, nem seu nome, foi assim que o chamaram...até que ele entendeu quem eram aquelas pessoas, disse quem ele era e o que tinha acontecido e viram, principalmente Nala, no menino, a esperança de expurgar um dos mais poderosos monstros que havia torturado esse mundo. E por anos, ela o ensinou...a lutar, a forjar, a ler, escrever, conhecer...e quando partiu, o garoto era um homem e deixou saudades a ela. Preocupada e aflita, Nala queria saber e correu mais rápido, sendo seguida por muitos...
 E quando chegou a praia, perdeu o folego por completo.
 Em cima da carcaça da maior serpente que já havia existido, sentado, com seu sorriso irônico, me olhando com todo o respeito que poderia ter, Thiron riu baixinho...e disse, timidamente.


- Oi, mãe.
Eu consegui.

-

 Nos nove mares, existe a lenda de um Capitão que foi feito prisioneiro, mas sua determinação havia sido maior do que todo tipo de preconceito e conquistou a todos para fazer algo impossivel: Enfrentar a Serpente de Deus. Esse Capitão, um Pirata, tinha todos os dentes na boca e havia sido treinado pelos Ishitar, os Sábios do Mar, conhecedores das artes misticas da água e de suas criaturas além de ótimos lutadores. Escolhido por eles, o Capitão foi enviado para fazer ta proeza e contra todas as chances do mundo ele o fez. Essa historia atingiu a terra e atraiu inúmeros homens para o mar, na esperança de vê-lo e conhecê-lo e saber onde ele foi parar. Alguns dizem que ele mesmo se tornou um Ishitar. Outros dizem que foi até Ulkovia, pegou homens que conhecia, formou uma tripulação e foi saquear os reinos do Sudoeste e enfrentar seus Corsários.
Mas uma coisa nós sabemos...
 Em algum canto do mundo, ele está lá...com Tormenta, sua espada e um navio recheado de marinheiros leais a ele.
O Escolhido dos Sábios, cuja bandeira hasteada é um pássaro negro de olhos brancos.
O Corvo.
 Essa é a lenda de Thiron Sirius Morgan.

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