quarta-feira, 1 de junho de 2016

Noturnos - Capítulo 006 - Nightmare


JORNAL SPTV

Hoje ocorreu uma explosão no Museu do Ipiranga.
 A policia já está no local, ambulâncias podem ser vistas apesar de ser relatado que não há nenhum ferido. De acordo com os policiais, não houve dano a propriedade do Museu. A causa da explosão ainda está sendo investigada e o museu ficará fechado até segunda ordem.

ANA NIGHTCHILD

  Fiz tudo o que tinha de ser feito. O Sol já havia se posto a alguns minutos e Cody, Fefs e Pandora já deviam ter chegado na casa noturna dos Panther. Drake já deveria ter chegado para ver Felippe e eu...estava aqui.
 Esperando algo interessante acontecer.


 Saímos do subsolo do Ipiranga antes que a mídia caísse em cima e seguimos pelos tuneis do metro e áreas de esgoto até aquele lugar apertado que era o refugio de emergência. Ficamos ali, apertados, com a tensão e nervos a flor da pele. Angela teve de parar pelo menos umas três brigas e Luke quase matou um Redson, tendo que mostrar sua arma, seu baralho, para todos se aquietassem. Eu só vi Luke usar aquele baralho uma vez...e eu entendi porque todos recuaram.
 Quando a noite voltou, nos movemos de novo, dessa vez, com mais dignidade. Lucius deu a ordem direta de todos irmos para o segundo esconderijo, a segunda Câmara Negra...de baixo da Pavilhão Lucas Nogueira Garcez, ou como todo mundo conhece, a OCA do Ibirapuera. Lá era maior, mais espaço pra todo mundo, mais quartos...porém, o barulho que vinha de cima não deixava muitos dormirem de dia. Mas a noite, o silencio era notável e palpável.
 Mas dessa vez eu o condenava. Suspirei fundo e voltei a fechar os olhos e cruzar os braços...pensei seriamente em entrar no sono até que a voz amarga veio em meus ouvidos.
 - O tédio não é uma coisa que você consiga lidar, não é, maninha?
 Seus cabelos castanhos escuros com luzes douradas estavam repousados em seus ombros de maneira teatral. Seus lábios eram vermelhos de um batom recentemente aplicado. Seu espartilho era negro e brilhante e combinava com as calças jeans rasgadas e as botas que iam até o joelho. Para completar, ela olhou em volta com asco para todas aquelas pessoas conversando entre si sobre o mesmo tópico a quase três horas...e a visão de minha irmã se tornou uma obra de arte.


 - Oi Gabriela. - Eu respondi e voltei a fitar o nada. Ela se sentou do meu lado, cruzando as pernas.
 - Pai pediu para você ir ver ele até o fim da noite. Ele precisa discutir algumas coisas conosco.
 - Sobre? - Perguntei.
 - Se eu soubesse, conversaria eu mesmo com você. Eu vou estar indo pra lá por volta das três, eu tenho que ver alguém daqui a pouco. Se você puder cooperar e aparecer lá por esse horário, eu agradeço.
 - Vai ver quem?
 - Fica tranquila que não é o seu Drake. - E ela trouxe minha fúria de volta. Mas eu me contive.
 - Que bom, você não serve pra ele mesmo.
 - Então você realmente foi ver ele, não foi? - Ela olhou pra mim, sorriso meio aberto e debochado. - Que coisa fofa.
 - Não é problema seu, irmãzinha
 - É todo problema meu, sua irresponsável de merda. - Sua face se tornou vazia e dura como porcelana, mas seu tom de voz era carregado do mais profundo rancor. - Você coloca em risco toda a nossa família, nosso nome e reputação por se envolver com esse rato de esgoto.
 - Cuide de sua vida, Gabriela. Eu sei muito bem com quem e como eu...
 - Eu preciso te lembrar o que ele fez? - Meus olhos se acendem e ele sorri. - Apaga esses olhinhos se quiser manter eles, docinho.
 - Como da ultima vez? - Dessa vez eu sorrio. Ela ignora e continua.
 - Ele provocou a Guerra que tomou nossa mãe...
 - Renata provocou a Guerra.
 - Renata foi transformada por ele.
 - Ele pediu ajuda quando tudo saiu fora do controle, nós ouvimos? - Ela ficou quieta, me mirando nos olhos e trincou os dentes.
 - Ele é um exilado.
 - Ele ainda continua sendo o mais ético de todos aqui. E você sabe disso.
 - O que eu sei é que todo mundo que se envolve com um Nightcrawler ou morrem ou se tornam razões de grandes catástrofes. E eu não quero que você se torne qualquer um dos dois, Ana.
 - Pare de fingir que se importa comigo, Gabriela.
 - Eu não me importo. E você sabe disso. - Eu suspirei e desviei o olhar. - Eu me importo com todos que carregam o nome Nightchild e isso, minha querida, é o mais importante de tudo. Família. Você pode me odiar a vontade, eu também te odeio. - Ela deu de ombros. - Mas enquanto você for a minha irmã e estiver viva, eu não vou deixar nada acontecer com você. Entendeu bem?
 Eu me levantei, me alonguei e arrumei os cabelos.
 - Eu vou ver o que o pai quer. Se puder chegar mais cedo, eu agradeço. - Eu ia caminhar para o corredor a minha esquerda, seguir até o quarto do meu pai mas ela me segurou pelo pulso. Olhei para trás e vi algo em seus olhos...mareados, me olhando bem fundo no corpo...como se procurasse algo bom pra falar...ou se lembrar.
 Ela estava triste. Preocupada.
 - Só se cuida, ok? - Ela me soltou...e continuou a andar seu rumo. Eu fiquei desconcertada, ela nunca tinha feito aquilo ou qualquer coisa parecida.
 - Você também. - Eu respondi. - Olha lá com quem tá se envolvendo. - Ela deu uma risada e se virou.
 - Eu me envolvo com quem eu quiser, maninha. Igual a você.
 - É...acho que esse é o nosso defeito. Não ter medo de morrer. - Eu respondi e ia seguir quando ela completou.
 - Não, não. Você é só uma tonta apaixonada, Ana. Eu que sempre fui meio suicida. - E deu uma risadinha e desapareceu no meio do mar de gente.
 Eu sorri torto, mais para mim do que para qualquer um e fiquei olhando para o nada mais um tempo.
 Fui procurar meu pai.


DRAKE NIGHTCRAWLER


 Não sei porque mas eu pensei em Ana o trajeto todo até o ponto de encontro com Felippe. Eu pensava nela de vez em quando, saudades dos momentos, dela...mas daquela forma, não. Eu senti...vontade de ir até ela. De qualquer maneira...
 - Foco, Drake. Foco.
 - Hm? - Nathalia perguntou, enquanto me via balançando a cabeça e sussurrando bem, bem baixinho.
 - Nada. Falei comigo.
 - Tem que parar de beber SV. - Beatriz brincou, se ajeitando no banco de trás do carro, cruzando os braços.
 - Não vejo uma virgem pra beber a décadas. - Eu respondi, olhando de novo para a entrada do apartamento em que meu amigo supostamente estava.
 - Por falar nisso, estou com fome. - Yuki, atrás de mim, quieto como sempre, falou com sua voz grossa. - Se Felippe não aparecer em cinco minutos, eu vou me alimentar.
 - Ele já vai vir. - Eu falei e me ajeitei no banco do motorista e torci pra que fosse verdade. Yuri ia embora e ninguém ia fazer o cara ficar de boa.
 Deu quatro minutos e meio, ele apareceu. Tava mais forte do que eu me lembrava e usava uma camisa de algodão branco com uma puta gola V, calça jeans escura e descalço. O cabelo moicano de sempre e o sorriso sincero quando olhou pro carro e fez sinal. Nós quatro descemos e fomos até a portaria do prédio que abriu em um estalo.
 Felippe ignorou a todos e veio me abraçar. E eu correspondi.
 - Bom te ver, irmão.
 - Bom te receber, irmão. - Ele respondeu, entre uma risada ou outra. Assim que me soltei dele, ele me olhou estranho e apalpou minha jaqueta, bem na região das costelas e sentiu o que tinha ali.
 - Lagrima de Prata?
 - O que é meu fica comigo, rapaz. - Eu respondi e ele deu risada, dando alguns tapinhas no meu ombro.  Cumprimentou o resto e olhou pra mim e seu semblante feliz se amenizou. - Precisamos subir e conversar. - Eu só concordei e perguntei.
 - Deu merda?
 - Vai depender de você e da sua reação. - Ele fez sinal para o porteiro que abriu a segunda porta, subimos os degraus de pedra e continuamos nosso caminho para dentro do local de luxo.
 Eu tinha muitas perguntas para Felippe, principalmente porque no ultimo dois anos ele se afastou totalmente, nem mesmo trocando mensagens ou telefonemas quando era tudo o que ele podia fazer, sendo uma pessoa tão voltada para o Conselho. Mas se ele estava resolvendo pipino do Lucian, então com certeza era algo que tomaria cada segundo do seu tempo, decidi ver qual era a merda e qual era o problema que eu tinha de enfrentar primeiro, depois conversaria com ele. No elevador, Felippe puxou assunto com todos, Nathalia e Beatriz responderam animadas e Yuri com a educação fria de sempre. Era bom ter o cara de volta, Felippe era um carisma ambulante...queria ser um pouco mais como ele.
 Paramos no sexto andar e encontramos um puta dum apartamento. Eu nem vou me dar ao trabalho de descrevê-lo, mas pense em um apartamento de luxo e com estilo futurista. Aumenta por 10. Era o AP do Felippe.
Aquilo era estranho.
 - Você mora aqui? - Eu perguntei.
 - Moro sim.  Faz uns 3 anos. Eu te contei, não contei?
 - Contou sim. - Eu respondi secamente. Era uma norma conhecida por todo Conselho: Extravagancia é o único pecado que deve ser evitado. Se vestir bem era uma coisa, agora ostentar, ter objetos e muitos bens, mesmo que não fique muitos aos olhos de publico, chamam a atenção, seja de olhos que você conhece ou não conhece. E aquilo, definitivamente, chamava a atenção.
 - Quem tá ai? - Uma voz feminina meio fina veio lá do fundo do lugar. Felippe gritou em resposta.
 - Visita, se troca! - E eu olhei pra ele com cara de surpresa.
 - Tá brincando de hétero de novo? - Beatriz perguntou, sorrindo e a ponto de rir. Felippe debochou.
 - O que eu faço com meus 30 centímetros não é da sua conta, meu amor. - Todos rimos, até Yuri sorriu. - Ok, fiquem a vontade...eu preciso trocar uma ideia com Drake. - Os três se retiraram...mas eu notei uma coisa. Quando Felippe deu as costas para os três e eles começaram a sair, ir para a sala do lado, Yuri virou para trás...olhou para o Felippe, depois para mim e fez que não com a cabeça. Aquele era a forma de Yuri de avisar de que alguma coisa estava errada, muito errada e ele não estava gostando.
 - Então, Drake, eu...
 - O que tá acontecendo, Felippe? - Eu o interrompi. Yuri era da família Orochi, a unica família japonesa dos Vampiros, um clã de assassinos frios, calculistas, intuitivos ligados unicamente pela honra de suas tarefa, os caras são treinados nos mais variados estilos de combate e força e seu dom único é o de controle de energia dos seus corpos, depositando-a em seus punhos e pés a quantidade necessária de cada luta...já vi membro do clã Orochi colocar tanta energia no punho que os enegrecia. Quando não estavam lutando, deixavam essa energia, esse "Chi", como eles mesmos se referiam, pairando sobre o corpo, então eles podiam sentir o que for, onde for de quem for, ou seja, se Yuri tava dizendo que tinha alguma coisa errada, então tinha coisa MUITO errada. Começamos a sussurrar, bem baixinho, para que que ninguém ouvisse, só nós.
 - Você não consegue nem me dar as boas vindas direito, Drake?
 - Felippe, corta o papo, é sério, tá tudo bem?
 - Tenho quase certeza. - Ele respondeu e eu esperei um pouco pra ver se ele tava brincando. Não estava.
 - Quase não é o suficiente, Felippe. - Ele debochou.
 - Aposto que se eu falasse que estava "quase morto" seria o suficiente pra salvar minha vida, não é? - Então eu debochei.
 - ...nós estamos quase mortos. Vampiro. Coração não faz "bumbum"...lembra?
 - ...vai se foder, Drake. - Soltei um riso e ele também...mas voltei logo ao assunto.
 - Felippe, sério, o que tá acontecendo? - Ele respirou fundo...colocou as mãos na cintura e começou.
 - Mais do que todo mundo, você se lembra dos Nightmare não é? - Eu senti uma pontada na boca do estomago naquela hora. Se tinha alguma coisa haver com os Nightmare...
 - O que é que isso tem haver com eles, Felippe?
 - Lembra quando Célia, a Condessa deles, mudou de lado porque viu que a guerra estava praticamente perdida e deu localização e tudo mais pra que acabássemos logo com ela?
 - Sim. Lembro. Lembro também dela saindo no Sol em um belo domingo de verão, sabe lá Deus porque.
 - Bom..ai, é que está...ela não mudou de lado porque viu que a guerra tava perdida. Ela mudou de lado por causa de outro motivo. - Eu só levantei a sobrancelha. - Lucian. - Fiquei confuso nos primeiros segundos...mas depois tudo veio a tona e eu quase urrei...mas eu cruzei os braços e perguntei no melhor tom que eu podia.
 - Diz que eu to pensando merda...diz que eu to errado, Felippe, diz...
 - Eu to cuidando da filha bastarda de Célia e Lucian faz dois anos. - E eu olhei fundo nos olhos dele e eu vi o que eu temia...a verdade.
 - Por que ela ainda tá viva? - Eu perguntei e o engraçado foi que ele pareceu SURPRESO com a pergunta.
 - Porque ela é filha de Lucian, Drake...
 - Não, ela é filha de Célia! - Eu acabei rosnando. Ele gesticulou de um jeito que apontava para o lado, lembrando que eles podiam ouvir. - Foda-se. - Eu disse normalmente. - Eles iam saber uma hora ou outra.
 - É meu dever proteger ela agora, Drake. Foi uma honra receber ela e...
 - Alexsander Nightmare, o Conde dos Nightmare, matou seu pai...meu tio. - Eu toquei na ferida...sabia disso pelos olhos dele que brilhavam. - Eu tenho que te lembrar isso pra você se tocar de que todo Nightmare deve morrer?
  - Você não precisa me lembrar de nada, Drake. Eu estava lá. Eu juntei suas cinzas. Eu sei de tudo. Mas isso é diferente.
 - Em que sentido? – Eu acabei rosnando de novo. – Ela é uma Nightmare, Felippe! Nightmares não podem ficar vivos!
 - Eu não sou como você, Drake. – Ele acabou falando aquilo num tom frio...bem frio. – Você pode ser assim, um constante herói de guerra, querendo destruir qualquer coisa, qualquer um qualquer lugar que foi ou possa ser uma ameaça. Nem tudo se resolve nisso, rapaz!
 - Corta essa de pacifista pra cima de mim, Felippe, eu e você sabemos que com os Nightmares e os nossos inimigos os buracos SEMPRE são mais embaixo. Está no sangue deles dominar tudo, é do feitio dos Nightmares, quando eles descobrem suas habilidades e percebem que todo mundo tem medo de alguma coisa, eles se acham superiores e começam a querer controlar tudo!
 - Ainda assim, é diferente, Drake, ela é só metade Nightmare!
 - Eu quero que ela queime no fogo do inferno mesmo que ela seja só trinta e dois avos de Nightmare. Felippe, você sabe que eu to certo!
 - Eu não acho, Drake. Eu já disse, eu não concordo com seus métodos em 100% das vezes.
 - Meus métodos? Você diz de expurgar de uma vez o mal que pode acabar matando nossas famílias, filhos e amigos?
 - Nem tudo precisa ser resolvido na base de violência, Drake, é por causa disso que sempre estourava uma guerra e sempre muitos de nós morriam. Violência gera mais violência...
 - Não. – Eu o interrompi. – O que gera violência é a impotência de uns quando encontram alguém que se acha onipotente. O que fazemos e o que sempre fizemos foi contra ataque ou prevenção do futuro, e você sabe muito bem disso. – Ele se calou e respirou fundo, mas seus olhos ainda brilhavam. – E quer saber, Felippe? Eu sinto falta daquilo. Da sarjeta, do barulho, dos rugidos, das habilidades se chocando. Eu sinto falta dos combates.
 - Eu sei que sente. – Ele respondeu. – Você nasceu pra isso.
 - Não só pra isso, irmão. Se trata de que esse sempre foi o melhor meio de se melhorar. – Ele só levantou a sobrancelha. – É no combate que expurgamos tudo. É na caça, na guerra em que nos tornamos melhores. Os fracos morrem ou se tornam fortes, os fortes se tornam sábios e os sábios se tornam lendas. Nossa raça sempre se manteve no topo em todas as outras por causa disso, se não estávamos lutando contra os outros, estávamos lutando entre nós mesmos, nos melhorando. Seleção natural, Felippe, a lei mais absoluta que já existiu.
 - Você é extremista demais.
 - Não, eu só sou realista e respeito certas leis universais. – Eu suspirei e olhei para a porta onde meus amigos passaram e de onde a voz tinha vindo. – Mas os Nightmare? Não. Eles nunca quiseram melhorar. Eles usavam a habilidade deles para descobrir nossos piores medos, transformarem eles em realidades ou ilusões que arranhavam nossas almas e nos faziam cometer atrocidades. Nightmare são sádicos que se preocupam em se tornar a única família, a única responsável pela escuridão e conduta da humanidade. Isso é inaceitável, Felippe. Eu não me importo de quem ela seja filha, ela deve morrer.
 - Ela é filha de Lucian, Drake. – Seu tom continuava firme...nada do que eu havia dito, havia alcançado ele de qualquer forma. As vezes eu admirava isso nele, se manter imparcial e ligado ao dever só com a consciência e não com os punhos, como eu. Mas naquele momento, tava me irritando. – Ela merece uma chance. A garota ainda é jovem, bem jovem. Ela nasceu no final da guerra e não se lembra muito bem de nada. Caralho, Lucian nem mesmo ensinou nossa historia para ela, só ensinou a lutar com as técnicas básicas de todo Vampiro. Ela nem deve saber direito o que é um Nightmare.
 - Como é?
 - É sério, ela nem mesmo sabe utilizar as habilidades dela e...
 - Felippe. – Eu o interrompi gentilmente. – Isso é estranho. Muito estranho. Ela é filha do Lucian, um dos três líderes que comandam nossa raça e decidem onde e quando vamos fizer. Eu entendo que ela teve de nascer escondida, provavelmente Lucian nem teve lá muito contato com a filha desde então. Mas se você vai me dizer que ele não se preocupou nem em dar uma educação descente a ela ou pelo menos ensinar as artes de combate FORA do básico, ai você tem que me dizer que tem algo de errado ai.
 - As vezes eu esqueço que ele foi responsável pelo seu treinamento.
 - Não. – Eu fiquei meio nervoso com a memoria. – Ele foi responsável por me dar locais e alguns para treinar. A responsável por quem eu sou hoje é minha mãe e minha irmã. Que por sinal, ESTÁ DESAPARECIDA A MAIS DE QUARENTA E OITO HORAS! Então, Felippe, cortando o assunto logo pro final, qual é missão?
 - A missão é você tomar conta de Jéssica. – Eu só fiquei quieto.
 - Eu me recuso.
 - Você não tem como recusar. Lucian quer que você ensine a garota tudo o que ele não teve tempo de ensinar. Ela tem por volta de 30 anos, é um bebê, cara. Eu ensinei um pouco de maneiras para ela e como se comportar em publico, mas o resto é com você. Sabe como funciona. Primeiro eu, depois você, depois Edward.
 - Você sabe que ele quer ser chamado de Eduardo agora...
 - Tanto faz. Drake...você precisa aceitar isso. Você odeia os Nightmare, eu sei, mas tá ai sua chance de fazer algo maior e melhor agora, você pode ser o responsável de pegar uma Nightmare e fazer ela boa. Lucian, com toda certeza, pode fazer as coisas voltar ao normal pra você, de vez, se conseguir isso e...
 - E se eu falhar, Felippe? – Eu o interrompi. – Eu achei que podia ensinar Renata e tudo o que eu fiz foi causar um dos maiores estragos na historia da nossa raça. Eu nem faço ideia de como eu to vivo, Felippe, não faz sentido Lucian mandar essa missão pra mim...
 - Ele te mandou essa missão porque confia em você. Por isso ele te devolveu Lagrima de Prata, por isso ele te mandou aqui. Porque eu também confio em você, Drake. Então, por favor, fica calmo e vamos seguir nessa, ok? E eu prometo, agora, que estamos juntos, eu vou te ajudar com sua irmã. Eu prometo.
 Eu só concordei.
 - Falou então. – Caminhei até a porta e vi todo mundo jogado no sofá com rostos constrangidos, até Yuri. Me virei pra Felippe, ignorando tudo e perguntei. – Me diz, cadê ela?
 - Jéssica, por favor... – Aguardamos e ela veio.
E foi ai que eu sabia que Felippe estava brincando de ser hétero de novo.


 Eu fiquei surpreso. Jéssica era a fusão perfeita de Lucian com Célia. Eu tinha visto pouco a condessa, só de relance, mas o pouco que vi eu vi novamente em Jéssica...nas maças do rosto e seus olhos castanhos bem claros e na forma meio ondulada de seus cabelos e principalmente no batom vermelho...a Nightmare só era visto usando cores fortes no lábio. De Lucian, a pele morena e a postura de quem manda no lugar onde está. Jéssica não era muito alta, estava só em roupas intimas e uma camisa cobrindo os seios...mas não senti o cheiro de Felippe nela, então, eles não fizeram nada. Então, ela era assim mesmo...
 - Este é Drake. - Felippe apresentou. Ela andou como se desfilasse até mim e notei mais uma semelhança dela com Célia. Cruzou os braços, me mediu e disse em alto e bom som.
 - Eu esperava mais. - O silencio na sala só foi interrompido pela minha pergunta.
 - Eu não entendi, criança. Pode repetir?
 - Eu esperava mais. - Ela disse, no mesmo tom e altura. - Eu achei que você fosse mais alto. Mais forte. Felippe me passou uma imagem muito boa de você, contou as historias e eu lembro da minha mãe sussurrando seu nome como algo que ela temia...é...mas eu, sinceramente, esperava mais. - Olhei de relance para Felippe, ele deu de ombro. Olhei para os outros e Nathalia deu uma risada.
 Raramente eu agrido alguém, normalmente, quando se é mais fraco, algo mais verbal basta pra acabar com a graça. Se é no mesmo nível eu compro a briga. Mas quando se trata de se ter disciplina, ao menos em nosso meio, não tem outra escolha.
 O tapa que dei no rosto de Jéssica não foi um dos mais fortes, mas foi o suficiente pra tirar sangue. Seu rosto virou com tal violência que até temi que quebrasse o pescoço, mas não chegou a tanto. Ela caiu em cima do joelho e logo me olhou com olhos vermelhos como sangue e fechou o punho e me atacou. Sua velocidade foi mediana...é, ela tinha potencial. Quando eu defendi, apertei o punho...minha intenção era quebrar, mas pensei melhor. Mas foi inevitável quando algo aconteceu...
 O rosto de Jéssica se desfez como um turbilhão, uma ventania muito forte que vinha em minha direção, uma escuridão em borrão que engoliu tudo ao meu redor em negro e tons escarlates fortes...e só o que sobrou foram seus olhos...que começaram a crescer e afinar...se tornando um com toda a escuridão a minha volta e se contorcendo, tomando a forma de um monstro com feições de serpente e dentes de dragão que me olhou e rugiu com toda força...
 O dom dos Nightmare...criar um pesadelo na mente do adversário. Mas eu podia ver...ela era novata. Ela jogou a primeira coisa que viu que poderia me assustar, ela não foi ao fundo de minha mente para saber meus medos...e eu duvido que ela poderia torna-los reais.
 - DRAKE, CALMA! - Quem me acordou foi Beatriz. Pisquei os olhos e quando voltei a mim eu vi o que estava fazendo mesmo inconscientemente. Eu havia invocado a escuridão, uma serpente negra envolvia e apertava Jéssica com força o suficiente para esmagá-la. A garota rosnava e olhava para a cara da forma que a escuridão assumiu e não tremia ou pedia clemencia...
 Cheia de si. Mas muito boa. Boa mesmo.
 Desfiz o meu dom e a Nightmare caiu no chão, de joelhos...olhei de relance para Felippe que estava com os olhos bem abertos e assustado com o que tinha acontecido. Balancei a cabeça negativamente e me agachei na frente dela e segurei seu queixo, levantando seu rosto.
 - Você tem espirito, garota, e muita vontade, eu admito e admiro isso. Mas acontece que esse seu sangue ai vai ter de esfriar e o mais rápido possível. Te jogaram no meio do forno aceso, quente e cheio de merda e eu sei, você não pediu por isso, você não queria ou quer isso, você não sabe como vai continuar fazendo isso, mas você vai ter que se recompor agora, vai ter de aguentar e, mais importante, vai ter que ME OBEDECER! E eu não ligo que você é mulher, que tem historinha triste, eu to pouco me fodendo pra quem você era ou é, eu me importo com o que eu vou FAZER de você! E eu te digo o que você vai ser, você vai ser uma guerreira, uma lutadora, uma assassina e eu espero que uma das melhores, porque você não caiu em facção, garota, você caiu no topo da cadeia alimentar! Então abaixa esse topete pra mim, sua vagabunda, porque pra você, de hoje em diante, eu sou o pai, o filho e a PORRA DO ESPIRITO SANTO!  - Ela ficou estática, me olhando bem fundo nos olhos, sem reação. - Cê entendeu ou quer que eu desenhe? - Esperei um pouco até ela balançar a cabeça, concordando. Me coloquei de pé, olhei para o Felippe. - Dá um banho e limpa ela. Eu vou descansar um pouco, ok?

 Duas horas depois.

 Eu estava na varanda quando ela veio falar comigo. O rosto levemente inchado ainda, mas estava limpa, vestindo uma regata e leg preta, descalça. Ela fechou a portinha de vidro atrás dela e eu joguei o cigarro fora.
 - Não precisa parar de fumar, eu fumo as vezes também.
 - O que quer, Nightmare? - Eu perguntei e ela me respondeu com olhos de fúria...mas acabou abaixando o olhar.
 - Felippe disse que é melhor eu te pedir desculpas...porque você é quem vai cuidar de mim agora. - Ela disse aquilo ainda olhando para o chão.
 - Você quer me pedir desculpas?
 - Não. - Ela respondeu no ato e ai sim estava olhando nos meus olhos. - Só quero ficar mais forte pra te matar. - E eu ri daquilo. Decidi que gostava de Jéssica.
 - É justo. - Respirei fundo e decidi puxar assunto. - Você quem você é?
 - Filha bastarda de Lucian. E filha de Célia Nightmare.
 - Sabe quem são essas pessoas?
 - Lucian é um dos Três Grandes. - Fiquei esperando ela completar, mas ela não o fez.
 - Não sabe quem é Célia? Não sabe quem são os Nightmare? - Ela ficou nervosa.
 - Você é a terceira pessoa que me fala isso. Caralho, eu fiquei trancada na porra duma mansão a minha vida toda, ok? Só agora eu sai e to tendo de ficar preso com outros agora, eu não tive liberdade, ninguém pra ensinar quase nada, nem um livro pra ler, eu não preciso que me digam que sou burra e fraca, eu...
 - Ow, ow, OW! - Interrompi. - Sem escândalo. - Ela respirou fundo e eu também. - Você é forte, ok? - Ela não conseguiu esconder a surpresa no rosto. - Mesmo sendo novata, focando seu olhar no meu, conseguiu entrar e arranhar a superfície da minha mente. Vampiros mais experientes não conseguiram fazer isso. Vocêé forte, ok? Ficamos um momento em silencio, eu observando a cidade lá embaixo, pensando no que dizer e ela me olhando como se quisesse localizar o ponto fraco de mim.
 - Meu pai é o que dizem ser? - Voltei a olhar pra ela. - Eu só vi ela algumas vezes...nunca por muito tempo. Ele é carinhoso comigo, mas nada demais...eu não vejo que os outros falam. Ele é forte e destemido como todo mundo diz?
 - Usaram mesmo a palavra destemido para Lucian? - Eu ia rir, mas ela balançou a cabeça dizendo que sim. Então eu suspirei...olhei pro nada e acabei balançando a cabeça também. - Eu não sei, Jéssica. Seu pai foi sim um grande homem, um Vampiro destemido...ele era um líder, comandante, poderoso, eu o seguia com orgulho...mas com o passar dos anos, ele...pareceu se tornar só mais um democrata. Um cara de discursos e poucas ações, é isso. - Ele só concordou de novo. - Mas tudo bem, com o tempo eu vou te mostrando tudo. Eu posso contar a nossa historia se quiser.
 - Ok, tudo bem.
 - E um dia, eu quero ouvir a sua. - Eu respondi pra ela e recebi uma risadinha como resposta.
 - Você não vai querer saber.
 - E por que não?
 - Bom...eu tenho bastante arranhões aqui e ali, sabe? Eu vi muita coisa...passei por muita coisa. - Eu dei risada.
 - Existem certas coisas que eu não quero nem preciso falar. - Olhei fundo nos olhos dela. - Entende uma coisa, garota, você pode ter muitos anos de vida, mas não viveu quase nada. Eles dizem que existe um mundo lá fora, mas existe vários, constantemente em choque, parece que harmonia não é uma opção. Você tem arranhões? Nós temos cicatrizes e feridas em necrose. - Gesticulei pra dentro do AP, onde todos estavam sentados e conversando, combinando de sair pra caçar. - Agora senta aí é fica quieta... - Apontei para os poltronas simples que tinham ali. Ela me obedeceu, me escutando com atenção de verdade. - Você já leu a Bíblia?
 - O Felippe tem uma, eu foleei...
 - Viu até a parte em que Deus grita "Que haja luz!"? - Ela fez que sim com a cabeça. - Dai pra frente você esquece que é tudo merda, ok? - Ela deu uma risada de leve. - Eu vou contar a nossa história pra você. A minha, a sua, do seu pai, da sua mãe, dos que estão ali dentro, do Conselho, de tudo...
 Eu vou te contar a historia de nossa raça.
 A história dos Noturnos




































No princípio, Deus criou o céu e a terra.

E a terra era sem forma e vazia;
 e havia trevas sobre a face do Abismo;

e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.
E disse Deus: Haja luz...
















E as Trevas responderam:
HOJE, NÃO!

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