quinta-feira, 16 de junho de 2016

Eu Cansei

 "Você mudou, Victor".
 É a sexta vez que eu escuto isso só essa semana. O que mostrei que mudou? Minha conversa? Meu modo de se expressar? Meus pensamentos? O modo como eu me foco nas coisas agora? O jeito que diminui as piadas? Ou o modo como eu me porto em publico agora?
 Eu sou bom em auto-analise. Eu sei onde mudei. Eu sei quando eu mudei. E eu sei porque mudei.
 Eu cansei.
 Tudo aquilo que eu fiz, tudo aquilo que eu queria tanto e me vangloriei conforme conseguia, pareceu errado e vazio depois daquele dia.
 As coisas que eu fiz. As pessoas que enganei. As pessoas que me envolvi. As pessoas que confiei. As pessoas que trai. As risadas que dei. As vezes em que chorei. As vezes em que fingi chorar. As vezes em que fiz alguém chorar. As vezes em que roubei. Os lugares em que fui. As coisas que usei. As coisas que experimentei. Os socos que eu dei. Os xingamentos, as humilhações. Tudo tão efêmero e perdido no tempo, tudo tão grandioso pra mim na época que faz eu ter vergonha de olhar para o passado. Me faz ver o tempo que perdi e as pessoas que afastei por más escolhas e ter uma visão tão limitada da vida, de mim mesmo e da fragilidade do meu ego.
 Eu cheguei em casa, a noite, eu estava meio distraído com tudo mas não o suficiente pra não escutar o choro dela. Eu não a machuquei, ela não, não a minha irmã. Mas ela estava chorando, gritando, abraçando minha mãe de tal forma que eu achei que meu pai havia morrido ou algum parente próximo. Mas não, seu choro foi por causa de outra pessoa, alguém que dizia que amava ela, alguém que jurou amor a ela, alguém que fez com ela o que eu fiz com mil outras. Minha irmã estava de joelhos, abraçando minha mãe e chorando alto e entre soluços dizendo "Tá doendo, mãe. Tá doendo.".
 Eu sempre disse que odiava muita coisa naqueles dias. Que eu odiava as pessoas, a escola, a vida, meus pais até...mas tudo o que eu sentia era raiva e necessidade de atenção. Ódio era algo mais profundo, algo mais feroz como raízes se espalhando no seu corpo, fazendo seu coração acelerar, fazendo cada pensamento dentro da sua mente se tornar vermelho e seus ensinamentos morais se tornarem cada mais dispensáveis e estúpidos conforme a unica coisa que você quer é apagar a existência aquilo que causa a dor da pessoa que você ama. Machucaram minha irmã. Machucaram a princesa da casa. Machucaram ela fazendo aquilo.
 Aquilo que eu também fazia.
 Demorei um dia inteiro pra pensar nisso. Eu sou desses que nunca para de pensar, é minha maldição e eu penso em todos os ângulos possíveis e impossiveis. Foi quando eu cheguei a auto-analise.
 Eu fiz aquilo, não fiz?
 Eu aposto que fiz...
 Fiz coisas piores do que ele com pessoas melhores do que eu.
 Eu fiz alguma mulher chorar alto junto com a mãe, não fiz? Eu fiz...eu aposto que fiz. Devo ter feito.
 Foi a primeira vez que eu senti culpa. É como o ódio, mas os seus ensinamentos morais se armam e atiram em você.
 Eu comecei a procurar e comecei a perguntar. Primeiro a respeito dos outros, depois a respeito de mim.
 As coisas que eu fizeram para mim. As pessoas que enganaram. As pessoas que se envolveram comigo. As pessoas que confiaram em mim. As pessoas que me traíram. As risadas que deram de mim. As vezes em que choraram. As vezes em que fingiram chorar. As vezes em que me roubaram. Os lugares que foram e não me queriam lá. As coisas que usaram contra mim. Os socos que eu deram. Os xingamentos, as humilhações.
 De repente, eu vi que tudo aquilo, aquele "império" era o mais frágil dos castelos de areia, eu não tinha amigos, eu não tinha amantes, nem namorada, eu não tinha com quem conversar e com quem lidar sobre tudo aquilo. Eu nunca tive. Todos eles se aproximaram de mim por inúmeros motivos, mas nenhum deles era porque sentia algo. A cada dia, a cada nova pergunta eu descobria uma nova faca nas minhas costas e mais uma ferida que eu abri em alguém que não merecia. Foi o ano mais solitário que eu já tive, mas também o ano em que eu recomecei. Eu tinha tudo pra ser só mais um solitário, revoltado, quieto, na minha ignorando meu passado, mas não. Eu não consigo. Eu só paro de mexer na merda quando ela parar de feder. Eu comecei a perguntar mais, a encontrar algumas pessoas, pedi desculpas e tentei fazer o certo. Os resultados doíam, mas os poucos momentos bons, aqueles que me perdoaram, aqueles que se mostraram não ser o que eu pensei ser...esses fizeram a diferença.
 Recomecei tudo. A pensar, falar, agir, foi uma transição um pouco difícil. Certas manias não se perdem tão fácil. Mas eu consegui e ainda estou conseguindo. Agora eu tenho amigos. Conto nos dedos de uma mão só e eu digo que eles valem a pena. Agora, eu consigo me olhar no espelho, consigo conversar, consigo caminhar onde que eu vá de cabeça erguida, consigo ser alguém diferente daquele que matou um pouco da minha irmã aquela noite. Talvez eu seja um pouco mais sozinho e quieto do que antes, talvez um pouco mais triste, mas eu me preocupo com outra coisa agora, outro sentimento, eu que me faz olhar para frente e não para o chão.
 Integridade.
 Ainda estou melhorando. Tenho que trabalhar na minha maturidade para certos assuntos, tenho que parar de ser um tanto teimoso, a trabalhar mais em equipe. Mas isso eu faço com o tempo...com o esforço de cada dia.
 Mas eu sei que eu nunca vou voltar pra lá. Aquela vida, o barulho, o bando de gente, os sorrisos falsos, os sussurros pelas costas, a sensação de intocável, as constantes piadas, as saídas, a busca da satisfação e ignorando totalmente o sentido humano.
 Não. Eu não vou voltar pra aquilo. Nunca mais.
 Eu cansei.

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