terça-feira, 31 de maio de 2016

Sangue do Meu Sangue

 Hey, mãe!
 Como você está?
 Ouvi a senhora chorando de novo no chuveiro.
 Quer conversar?
 Eu sei que as coisas não estão do jeito que deveriam estar e eu sei que você se culpa por tudo o que acontece por aqui. Quando eu faço algum erro pequeno e você acaba gritando comigo, eu sei que não é você ou o que eu fiz, é só a ultima gota que tá fazendo o copo transbordar. Eu sei, fica tranquila.
 Não foi justo o que fizeram com você, mãe. Em nenhum dos casos. E eu falo de todos eles, mãe, eu sei o nome deles, onde moram e o que fizeram, cada coisa, cada magoa e eu não os perdoo. Você diz que raiva é um veneno que nos mesmos ingerimos, mas eu não os consigo perdoar por nada disso. Eles não podiam fazer isso com a senhora, não com alguém que já passou por tanta coisa.
 A senhora é forte mãe. E sua força me serve de alicerce desde sempre, desde quando eu era criança. Lembra, das terças e quintas, indo para o hospital? Você acordava primeiro, limpava a cozinha, fazia café e depois me chamava. Você me abraçava forte e suspirava antes de eu entrar nas salas e fazer o que eu tinha de fazer e eu não entendia muito bem o porque até hoje. Você tinha medo, não é? Você tem medo até hoje de alguma coisa acontecer comigo, de não dar certo, de eu acabar falhando em alguma coisa. É por isso que eu luto todos os dias. Pra que a senhora não tenha mais medo um dia.
 Eu sei que muitas vezes a senhora não se sente apreciada devidamente depois de tudo o que faz por nós. Eu não te culpo, eu não demonstro muita coisa do que eu sinto. É resultado de experiencias passadas com dias estressantes no trabalho, mãe. Eu fico esgotado e chato até comigo mesmo. Mas eu percebo as coisas, sério. Sei que mesmo cansada e magoada, você continua aqui, na luta, vivendo mais por nós do que por você mesma e eu te digo, mãe...essa casa inteira já teria virado pó se não fosse por ti.
 Você me ensinou a importância de respeitar a família. A nunca desistir. A ser forte quando todo mundo te acha fraco. E continuar quando todo mundo fala pra você desistir. A respeitar uma mulher mesmo que ela não pareça ter muito respeito por si mesmo.
 E eu te agradeço por isso.

 Hey, pai!
 Como você está?
 Ouvi o senhor chorando no telefone ontem, eu mal pude acreditar.
 Quer conversar?
 Eu sei que o senhor se sente muito sozinho ai no seu quarto ai em cima. Sei que o senhor sente falta de conversar comigo, mas eu ando ocupado com muita coisa, me preparando para o futuro, igual o senhor me ensinou.
 Quando eu era garoto, o senhor era duro comigo. Cobrava de mim, era severo em suas respostas e algumas punições. O senhor nunca colocou a mão em mim, mas sabia me fazer pensar no que havia feito só com o olhar. Eu agradeço hoje pelo o que fez. Eu me acostumei com a cobrança, com as lições, com o valor das recompensas alcançadas porque o senhor me ensinou assim. O senhor sabia das vezes que tinha raiva de você, das vezes que reclamava do senhor e também das vezes que não te disse coisas nada gentis e mesmo assim, continuou me ensinando, mesmo eu não sabendo que era um aluno. Obrigado, pai.
 E eu sei que as vezes o senhor pensa que sinto raiva, que eu tenho magoas, eu não tenho. Eu aprendi que antes de ser meu pai, o senhor é humano e também tem seus defeitos e limitações. E eu o admiro mais por isso porque nunca deixou seus problemas afetarem na sua missão de me criar. Eu sei que o senhor não ia comigo no hospital quando eu era pequeno porque tinha medo, muito medo mesmo. Você via aquelas crianças daquele jeito, na cadeira de rodas, respirando por aparelhos e sentia um pesar muito grande porque o senhor morria de medo pensando que eu podia piorar a tal ponto. Sei que o senhor ficava triste por mim e por elas e aquilo o atingia de maneira tão profunda que o senhor não conseguia olhar ela nos olhos sem sentir pena...e sentir pena é uma coisa que o senhor não gosta de sentir. Você não gostava de ver aquelas pessoas daquele jeito e não poder fazer nada a respeito, isso o consumia por dentro. Por isso, o senhor não ia comigo, mas não pense que eu não sei que você dobrava os joelhos e orava por mim assim que eu saia pelo portão. E se estivesse no carro, no caminho pro trabalho, desligava o rádio e orava em voz alta.
 O senhor me ensinou a ser um guerreiro, pai. Um do tipo nobre. Me ensinou sobre a importância de ser espontâneo e, mesmo de uma forma bem "diferente", a me controlar quanto aos meus sentimentos ruins.
 E eu te agradeço por isso.

 Hey, irmã!
 Como você está?
 Ouvi você chorando no seu quarto.
 Quer conversar?
 Sei que ainda dói, irmãzinha. Dói muito toda vez que lembramos o quanto de nós foi dado para alguém ou para algo e o que recebemos em retorno é duvida de nossa integridade e do que sentimos. É a pior apunhalada nas costas. E eu não estou falando só do individuo, eu estou falando de todos os casos que foram assim, irmãzinha. Você sempre foi cheio de amigos e você sempre deu seu melhor para cada um deles e muitas vezes eles só te deram as costas como resposta. Você sempre foi assim, mana, durona e gritando por fora, mas por dentro, ainda é a garota doce que tem medo do escuro. E isso é bom, irmãzinha. Te dá firmeza pra seguir em frente e discernimento do que é certo e errado sem se deixar levar pelo o que os outros falam.
 Somos muito diferentes. Demais. Opostos saindo do mesmo lugar, mas nem por isso eu deixo de te admirar. Você é forte, mana, muito forte. Você abre o caminho aos socos se precisar, você caminha em cacos se precisar, você fala o que tiver de falar e pronto, acabou. Não falar com você no meu dia a dia é ruim demais, ao mesmo tempo em que eu acho que é bom. Discutimos muito por muito pouco, não temos lá muita paciência um com o outro, muitas vezes acabamos atacando feridas que acabamos por nos arrepender...e eu não quero isso. As vezes acho que é foda aguentar os dias sem os seus "bom dia" e "boa noite" e as vezes em que eu consigo te fazer rir...mas eu prefiro te deixar quieta e deixar você se curar seja lá do que esteja doendo. Eu queria poder te ouvir desabafar as vezes e te dar um abraço no final pra te mostrar que eu estou ali por você porque eu sei que no final você vai estar por mim também.
 E eu te agradeço por isso.

 E pra vocês...minha familia...sangue do meu sangue, eu queria muitas coisas. Eu queria que vocês pudessem ter tudo o que querem, que as coisas se resolvessem, que morássemos todos na mesma casa de novo, que nossas liberdades fossem garantidas, que não houvesse problemas...mas antes de tudo...
 Eu queria que vocês se tocassem e tivessem consciência de pelo menos metade do valor que vocês.
 Não só pra mim.
 Mas pro mundo todo.
 Eu amo cada um de vocês.
 E eu sei que vocês também me amam.
 E eu os agradeço por isso.

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