sábado, 2 de abril de 2016

Noturnos - Capítulo 004 - Espectro

 Essa era a cena: Sete Vampiros com roupas de gala banhados em sangue esperando pela boa vontade de seus "semelhantes".
 Estávamos sentados em um dos bancos de mármore e olhávamos quietos enquanto o patio principal era um misto de gritaria com choro e frescura. Ana segurava minha mão e apoiava a cabeça no meu ombro, tão entediada quanto eu. A minha direita, Fefs estava de pé e era abraçada por trás por Cody e em seus pés, Thiago estava sentado no chão com um pano úmido que passava em seus mocassins manchados de sangue por causa da batalha. A minha esquerda, Camila estava de braços e pernas cruzadas e o sangue que banhava todo o seu corpo parecia não lhe incomodar enquanto Nathalia estava de pé batendo os pés, impaciente querendo um banho e irritada por sua camisa social ter sido rasgada por um caçador ousado e rápido com a faca. Ela ficou brincando com a cabeça do coitado por uma hora até se encher e jogar na fonte, agora desligada. Não muito distante de mim, os outros seis dos Sete ficavam calados esperando uma decisão ser tomada de toda aquela confusão.
 A situação se resumia no problema de que o local não era mais seguro e precisávamos ir embora o mais rápido possível já que o Sol estava nascendo e os Caçadores poderiam voltar com mais pessoas, mais armados e usando a vantagem de nossa fraqueza perante luz natural e o único meio de sair dali era por um túnel que daria no metro o qual poderíamos seguir caminho até outro túnel preparado, mais longo, para o próximo esconderijo, um menor, mas que poderia comportar todo mundo até o Sol se por. E eis que ai a frescura e o choro começam: Muitos estavam reclamando de que não queriam entrar em um "túnel sujo e imundo nada digno de nossa presença" e que haviam carros nas garagens com vidros protetores que poderiam protege-los das luzes e que usariam de manobras evasivas para que nenhum Caçador pudessem segui-los.
 A minha vontade era de sair dando porrada e quebrando o nariz de todo mundo e enfiar aquele bando de cuzão dentro da porra do túnel e fazer eles indo engatinhando até o metro e depois ir rastejando até o esconderijo.
 - Cambada de viado... - Ana apertou mais forte minha mão na dela e eu travei a mandíbula pra tentar parar de falar, mas o sangue negro em minhas veias ferve quando vejo que mesmo em tempo de crise esses babacas se preocupam com etiqueta e não com sobreviver.
 Nunca confie em alguém que não saiba lidar com a guerra.
 - Drake! - A voz de Lucian veio aos meus ouvidos e todos olhamos para a direção do Nosferatu que erguia a mão e nos chamava da forma mais informal possível para trás de um dos pilares. Ele ainda usava sua túnica, mas estava descalço e sua barba parecia bem desarrumada para seus padrões. Soltei a mão de Ana e fui até ele, que olhou para a multidão reclamando com os outros dois Nosferatu como se quisesse que não queria que os vissem.
 - Bela confusão, ein? - Eu disse.
 - Sinto falta dos velhos tempos, Drake. - Ele suspirou e falava mais com ele mesmo do que comigo, ainda olhando para a multidão reclamando. - Quando eramos guerreiros da noite e a unica intriga que tínhamos era contra os Lobos e Bruxas.
 - Se eles amoleceram foi porque a mão que os guiava era frouxa. - Lucian me lançou o olhar mais tenebroso de toda a sua vida e tudo o que eu senti dele foi pena. Não havia só fúria ali, havia o reconhecimento do fracasso
 Os Vampiros cometeram o mesmo erro que os humanos: Quiseram se tornar civilizados. Somos animais, eu sempre disse isso, assim como minha mãe, assim como minha avó. Somos monstros e devemos nos comportar assim, mesmo que a elegância também seja de nossa natureza, não devemos esquecer que o sangue em nossos queixos também é. Mas depois que os Nosferatu assumiram o poder com a queda de Drácula, tudo ficou de cabeça para baixo. Eles se preocuparam em terminar os conflitos restantes e em fazer nosso povo se tornar uma lenda perante os outros, em deixar nossa raça confortável e escondida, usufruindo da sociedade falha dos humanos, os usando e manipulando como gado ao invés de entrar no bom, velho e saudável combate. Deixamos de ser as feras combatentes e nos tornamos aristocratas manipuladores e isso me fazia duvidar muito de todo o meu serviço com esses seres...por isso eu sempre me mantinha afastado de tudo.
 - O que você quer? - Eu finalmente perguntei.
 - Quero que recolha um time e vá logo para Umbra. - Ele me disse, de uma vez, olhando em meus olhos e cuspindo as palavras e se segurando para não avançar no meu pescoço. - Meu jato estará na pista de pouso da cidade de Campinas, você já foi lá, certo?
 - Sim, já fui. Mas como vou sair daqui?
 - Você pode usar o meu carro. - Ele me estendeu a mão e me deu uma chave. - É um Audi, não tem como errar. Tem proteção e tudo mais. - Ele falava como um jovem agora e isso me causou muita estranheza.
 - Ok. Mas eu pensei que isso não fosse permitido, que deveríamos seguir para o túnel e...
 - Ele não irão a esconderijo nenhum se deixarmos irem com os carros, Drake. - Ele me interrompeu, dizendo com firmeza e eu podia ver que ele salivava de raiva. - Eles vão pra algum covil e ficarem por lá, se escondendo, até terem a certeza de que o Conselho não está mais em perigo. - Aquilo só me fez sentir mais raiva deles. Eu conheci alguns entre aqueles criadores de confusão, nas latrinas das guerras que travamos, eles eram corajosos de sangue frio. Logo eu reconhecia seus rostos, mas não suas atitudes.
 - Sabe quem levar com você? - Lucian atraiu minha atenção novamente e eu respondi na lata. Eu já havia traçado um plano para tudo aquilo.
 - Beatriz, Nathalia, Yuri e se puder chamar Felippe...
 - Felippe está ocupado com assuntos meus. - Aquilo me deu um choque e tentei não demonstrar...falhei miseravelmente. - Fique calmo, Drake, vai saber sobre eles mais cedo do que imagina. Antes de pegar o voo, passe neste endereço, Felippe estará lá. - Ele pegou um pedaço de papel do bolso e me passou. Olhei de relance e antes que pudesse perguntar o que tinha lá, ele disse. - Você verá um dos meus mais obscuros segredos, Drake. Por favor, tome conta. - Fiquei um pouco sem reação ao ouvir aquilo...Lucian, um dos Três, estava aparentemente me confiando algum segredo...
 - Tudo bem. - Abaixei ainda mais o tom de voz ao perguntar. - E já sabe quem vazou informação?
 - Tenho uma ideia, mas eu vou confirmar primeiro. - Lucian respondeu olhando ao redor. Não era a primeira vez que um dos covis fora atacado por Caçadores Humanos...mas todas as vezes, foi alguém que vendeu a informação, para conseguir uma grana extra e, quem sabe, até pagar de herói durante o ato. Ninguém nunca escapou do julgamento, não por muito tempo...mas isso nunca impediu novas tentativas. Até que Lucian me chamou a atenção novamente.
 - E antes de mais nada... - O velho olhou para trás e fez um sinal com as mãos e da escuridão uma serva apareceu e trazia nos braços alguma coisa em volta em panos negros. Lucian pegou aquilo, ela se curvou e voltou para onde tinha vindo. Ele entregou o pacote a mim e assim que peguei sabia o que tinha ali...
 Arranquei os panos e vi minha querida amiga, cujo calor que produzia mostrava que também sentirá minha falta. O cabo era negro e em espiral, mais grosso que as lanças normais, e começava levemente curvado para baixo e seguia reto por 30 cm até a ponta, cujo brilho e runas escritas eram imensamente familiares.
 Minha arma.
 Lagrima de Prata.
 - Ela deve ficar com você, agora. - Lucian falava comigo, mas não conseguia tirar os olhos dela. - Boa sorte, Drake. - E quando fui agradecer, ele já havia saído, caminhando firme e corajosamente para a confusão de aristocratas na tentativa de apaziguá-las. Caminhei de volta para meu grupo e todos olharam para a pequena lança em minha mão.
 - Pegou de volta? - Cody perguntou.
 - E não pretendo devolver. - Eles riram. Olhei para os meus outros seis companheiros parados e sussurrei o nome de cada um e eles se viraram, fiz sinal e eles foram até mim, fazendo uma roda ao meu redor. - Muito bem...eu tenho autorização e formei um plano, portanto escutem bem porque cada um de vocês faz parte dele, ok? - Todos concordaram. Vi Pandora fazer menção de dizer algo, mas quando viu Lagrima de Prata em minha mão, ela se calou. - Eu tenho de ir até a cidade de Umbra ver o que está acontecendo e eu já escolhi meu parceiros pra isso, porém outras decisões precisam ser tomadas e colocadas em ação. Beatriz, Yuri, Nathalia, vocês vem comigo para Londres, ok? - O japonês e a baixinha de cabelo vermelho concordaram...mas Beatriz vacilou por um momento e só concordou quando olhei nos olhos dela. - Ok, Camila, Cody, Fefs, eu quero que vocês entrem em contato com os Panther e vejam se eles sabem qualquer coisa quanto essa ocasião. Aquela facção de merda sabe muito mais do que sempre conta.
 - Quando diz para entrarmos em contato. - Fefs disse. - É pra chegarmos na porrada e sairmos aos chutes, certo?
 - Você é uma Nightcrawler, não é? - Ela sorriu pra mim e eu retribui. Voltei a falar. - Muito bem, quanto ao resto, eu quero que vocês escoltem esses putos pra um lugar seguro. E eu quero que acabem com essa confusão, gritem, metam porrada, usem abuso de poder, eu to cagando pra isso, o Sol vai nascer logo e por mais que eu quero o sangue deles no chão agora, ainda são nossa família, tudo bem? - Cabeças fizeram que sim, mas eu não tinha terminado. - Pandora... - Atrai o olhar da Vampira - Você é a mais forte dos Sete em questões físicas, você seria necessária em qualquer das situações. Eu deixo você escolher.
 - Vou falar com os Panther, junto com Camila, Cody e Fefs. - Eu só concordei.
 - Ok, vocês ajudem o resto a tomar controle da situação, o meu time vai tomar uma rota diferente, e eu prometo voltar o mais rápido possível. - E cada um tomou seu rumo...menos eu, que teve o pulso puxado. Ana me trazia pra perto dela.
 - Por que não me chamou pra ir com você?
 Segurei nos braços dela.
 - Não sei o que tem lá embaixo, aquela cidade é maldita e eu não quero...
 - O que tem lá embaixo? - Ela reclamou. - Tem uma cidade queimada, cinzas e fumaça, só isso.
 - Então porque lacraram os portões, Ana? - Aquilo a fez parar, mas não tirar a cara de desgosto. - Vá e fique perto deles, ok? Eu volto. - Ela respirou fundo, deu as costas e se foi. Fiz a mesma coisa.
 Caminhei até o grupo que havia escolhido e segui pelas escadas até a garagem. Quando estávamos naquele pátio escuro e amplo, cheio de carros de luxo, olhei para Beatriz ao meu lado...


 - Hey... - Eu disse, baixinho. - Tá tudo bem?
 - Sim, sim...está...
 - Eu preciso de você nessa...sei que Umbra não foi gentil com você, mas...
 - Aquela cidade não foi gentil com ninguém, Drake. - Ela disse meio ríspida. - Mas se você está me chamando, quer dizer que precisa de mim e eu irei. Ok? - Eu só concordei.
 Olhei para Yuri, que com seu sobretudo e sua katana, continuava calado como sempre. Olhei para Nathalia, que continuava com seu sorrisinho de criança no rosto, mas ainda com um olhar assassino do caralho. Aquilo me fez sentir mais confiante. Entrei no carro com eles, parti e comecei a conduzir, entrei em um túnel e depois de meia hora, cheguei até um portão de ferro, onde tive de pegar um pequeno controle preso ao para-brisa e apertar um botão vermelho para ele escorregar para o lado e segui, onde desci em uma desova de esgoto que ai me deixaria ir para a rua.
 - Para onde vamos primeiro? - Yuri me perguntou, quebrando o próprio silencio. Ele só fazia aquilo quando sabia que algo daria errado ou que eu não seguiria de acordo com os planos e nesse caso, era a segunda opção.
 - Vamos pra um lugar seguro. Esperar o Sol nascer e depois se por.
 - Que lugar seguro? - Ele voltou a perguntar.
 - A cada de um amigo meu. - Eu respondi. Nathalia, no banco do carona ao meu lado, deu um sorriso maior do que o comum. Dai pra frente, a viagem foi bem silenciosa.

 - Onde estamos?
 - Zona Sul.
 - E quem mora ai?
 - Um amigo. - Eu me limitei a responder para Beatriz. Bati na porta de madeira nobre mais uma vez. O céu já estava clareando e eu podia sentir o cheiro de orvalho. Eu sabia como ele gostava da casa, mas eu sinceramente estava quase pegando Lagrima de Prata e colocando tudo a baixo pra conseguir entrar.
 - Vamos embora, Drake, e rápido. - Beatriz disse. - Ainda dá tempo de cavar um buraco no chão... - Ao falar isso, a porta destrancou e abriu levemente, entramos com certa pressa, com Yuri a fechando atrás de nós. Eu suspirei e o leve cheiro familiar de mofo veio até mim.
 O piso, da casa inteira, era de madeira nobre. A nossa frente, uma escada branca de mármore se estendia até o andar de cima com corrimões de carvalho envernizado. A minha esquerda, um corredor com duas portas que eu sabia que eram os banheiros para os recém chegados se limparem. A minha direita, uma sala de estar com lareira e poltronas e um sofá revestidos de couro fino. Eu estava me sentindo em casa, enquanto olhos analíticos de meus amigos miravam tudo.
 - Não é de nossa natureza o ser que reside aqui. - Yuri falou, observando tudo com olhos ferozes e vermelhos. - Estamos em local maldito.
 - Qualquer lugar em que estamos é maldito. - Nathalia respondeu para ele, mas olhando ao redor...até que olhou para mim e perguntou com os olhos cheios de esperança. - É aqui que ele mora? É ele, não é?
 - Ele quem? - Beatriz perguntou, mais arisca do que deveria estar.
 - Meu amigo. Ele é um Espectro. - Até Yuri se permitiu sentir a surpresa ao esbugalhar os olhos e Beatriz fez menção de falar algo quando foi interrompida pela voz suave e comportada no topo da escada.
 - Senhor Drake. - Todos nos viramos para ver a criada.
 - Roselein - Eu disse seu nome, o que a fez sentir confiante para descer os degraus e ir ao nosso encontro. Ela trajava a tipica vestimenta de uma empregada domestica...de um filme porno. Roselein era uma morena de lábios carnudos com um corpo que conseguiu por meios nada típicos e tanto ela queria mostrar quando seu mestre queria ver. Sua cabeça se encontrava raspada, e isso também era de feitio dela, ela gostava assim e assim deixava.
 - Sejam bem vindos a casa do amo. Por favor, sintam-se a vontade. - Ela gesticulou com as mãos para ambos os lados e completou. - Menos você, senhor Drake. O amo o espera. - Sorri e comecei a caminhar quando senti uma mão forte em meu braço. Beatriz me olhava rubro.
- O que está acontecendo, Drake? Você? Amigo de um Espectro?
 - Sim. E pode confiar nele, Bia. Vai ficar tudo bem enquanto estiverem aqui, poderemos ficar até o anoitecer sem que você se preocupe com isso, ok?
 - Até Yuri achou que aqui não é seguro, Drake, como pode...
 - Eu disse que o lugar era o local de uma presença diferente da nossa. - O samurai a cortou. - Não disse que não era seguro. - Os dedos de Bia se afrouxaram de meus braços ao encarar Yuri com espanto.
 - Beatriz. - Nathalia a chamou, segurando seu pulso. - É bom saber como sua confiança é grande em um dos membros da minha família. Agora, solte-o. Por favor. - A voz de minha irmã era como navalha  aos ouvidos de todos e causou uma certa tensão em todos ali, fazendo até Roselein perder um pouco de sua compostura...mas Beatriz Violence acabou por me soltar, dar a volta e Nathalia sem tirar os olhos dela e ir até a sala de estar. Yuri, com um pequeno sorriso no rosto, sorriu e se virou para Roselein para perguntar.
 - Onde fica os banheiros. - A empregada indicou a ele e o acompanhou. Pisquei para Nathalia antes de começar a subir os degraus e seguir para onde eu deveria ir.
 Um corredor escuro e polido me esperava e o cruzei rapidamente até a porta de madeira grossa...eu a abri e me senti perdido no tempo. O salão era branco, grande e oval, e estaria vazio se não fosse os círculos de pedra negra colocadas um em cima do outro que se erguiam em degraus como uma pequeno altar até uma poltrona enfeitada como um trono em seu topo.
 - Excêntrico como sempre. - Eu disse em voz alta, fazendo ecos quando a porta se fechou atrás de mim.
 - É um dos meus defeitos. - O ser sentado na poltrona disse com um sorriso irônico e sincero. - Seja bem vindo, Drake.
 - É bom estar aqui, Victor. - O Espectro, de cabelos e barba negra, vestindo uma calça rustica, camisa abotoada somente no meio e com um manto negro lhe cobrindo as costas e derramado pelos braços e pés de seu acento, me olhou de cima a baixa com seus olhos castanhos.
 - Vem a minha casa no inicio de um dia, segurando a lança que lhe foi tirada anos atrás, trajando gala ensanguentado. Ah querido amigo, me conte essa historia!
 - Eu contaria se já não soubesse. - Ele riu e eu também. Foi quando decidi tornar o tom mais sério possível. - Eu preciso dos seus conselhos...
 - É claro que precisa. Você não é o do tipo que se mistura com os outros por mera companhia. Não. Você se mistura a eles enquanto lhe forem uteis.
 - É um dos meus defeitos. - Eu respondi ele riu.
 - Ainda me sinto lisonjeado. Veio a mim primeiro, ao invés dos Panthers, Shadewalkers ou dos Blackhearts.
 - Mandei amigos irem falar com os Panthers. Eu meio que briguei com uma Shadewalker. E quanto aos Blackhearts...os gêmeos estão estranhos, reclusos demais, recolheram até os agentes de campo...não estou afim de me envolver em problemas familiares, ainda mais de uma facção.
 - Tem toda razão, garoto. - A voz do Espectro agora era pesada, gelada...todo o ambiente parecia, de alguma forma, mais cinza, mais morto... - Acabe com o assunto, Drake. Faça as devidas perguntas. - Quando voltei meu olhar para Victor, ele estava diferente. Seu corpo parecia maior, sua face mais dura, seus olhos um pouco mais claros...e sua arma, uma maça, madeira cilíndrica moldada a partir de um carvalho presa a trinta centímetros de ferro com espigões curvados ao longo dele, estava repousada em seu colo. Quem visse de longe parecia uma arma simples...mas nas mãos do Espectro...
 Apesar de tudo, sua reação era muito estranha pra mim.
 - Pra que tudo isso, Victor?
 - Hoje não é um dia como outro qualquer, Drake. - Ele estalou o maxilar. - Mas essa não é a pergunta que você quer fazer. Faça-as, Drake, filho de Jade. - Victor raramente falava assim...chamando a pessoa pelo nome da mãe ou do pai, a figura mais importante ou presente na vida de quem estivesse ouvindo quando estava nervoso ou triste. Eu não sabia dizer o que era, então eu decidi ser tão direto quanto ele.
 - Onde está minha irmã?
 - Essa não é a pergunta certa, Drake. - Aquilo me pegou de surpresa.
 - Como assim?
 - Pense, Drake. Quem é sua irmã? - Fiquei em silencio, pensando na pergunta como retorica, mas ele deixou claro que não. - Responda quando falo com você, Nightcrawler!
 - Minha irmã é Isabelle Nightcrawler. - Eu respondi, agora com firmeza. - Filha de Jade Nightcrawler, usou o mesmo ventre que um dia usei, lutou as lutas que lutei, lutei as lutas que ela lutou, ela estava lá por mim assim como eu estive por ela.
 - E alguma vez sua irmã se deixou capturar? - Eu iria responder e meu raciocínio pareceu chegar onde o Espectro o guiou. - Nem mesmo durante a Guerra Civil Nightmare sua irmã se deixou prender nos pesadelos causados pelo próprio Conde Romulo Nightmare, Drake. Você se lembra disso? - E eu me lembrava. Em dominar os exércitos Nightamare, em invadir a fortaleza, em entrar numa sala e ver minha irmã amarrada a uma poltrona, chorando sangue.
 - O que quer dizer? - Eu perguntei, minha voz saindo mais grave do que o esperado.
 - Talvez sua irmã não deseja ser encontrada. - Meu estomago virou gelo na hora. - Talvez ela queira ficar longe por enquanto. - Eu respirei fundo...olhei para a lança em minha mão e a fiz crescer, o cabo negro esticou enquanto a lamina de prata crescia junto e quando chegou a um comprimento razoável, a cravei no chão. Comecei a andar de um lado para o outro, analisando as "respostas" do Espectro, passando minhas mãos cobertas com sangue seco pelos cabelos.
 - Então eu devo parar de procura-lá?
 - Não. - A resposta do Espectro me fez parar. - Acha-lá faz parte do seu futuro. Mas você ainda não fez a pergunta certa.
 - Então qual é a pergunta certa, caralho?!
 - Em quem você pode confiar? - Eu fiquei olhando para ele, com toda aquela pose por alguns segundos para processar a resposta. Aquilo foi a primeira rachadura em muitos anos...o Espectro não mentia em hipótese alguma, era uma das maldições dele, além do fato de só falar por enigmas. Então havia traidores a minha volta...algo maior estava acontecendo.
 - E você não vai me dizer em quem confiar, não é mesmo? - Eu perguntei, trincando os dentes logo em seguida.
 - Os que você trouxe aqui são leais a causa, assim como o restante dos Sete, apesar dos questionamentos ao seu caráter. - Ele estava me respondendo as perguntas diretamente agora... - Mas principalmente você deve manter perto aquele que comanda o navio, e aquela que bate o martelo, e aquele que uiva, e aquela que levanta a espada, e aquela que lhe concede sonhos...assim como aquela que lhe concede desejos e tortura. - Mais enigmas...
 - Victor, eu...
 - Você sabe como as coisas funcionam, Drake. Eu posso dar dicas do futuro, as vezes direto, as vezes pensativos. Mas nunca posso lhe dizer o que irá ocorrer. Você tentará mudar e, que Deus exista e nos acuda, você pode conseguir mudar. E se isso acontecer...
 - Sim, Espectro, eu já "ouvi falar da Idade Média". Você já me disse isso antes. - Eu pressionei meus olhos e comecei a pensar.
 Aquele que comanda o navio. Eu sei quem era. Turquesa. Sem questionamentos aqui.
 Aquela que bate o martelo. Eu também sabia quem era. No meio de uma brincadeira, Cody me disse aquilo, "Ela é a unica que tem um martelo forte o suficiente pra atravessar esse peito de pedra". Ana.
 Aquele que uiva. Só podia ser Eron...mas não fazia sentido, não para aquela causa.
 Aquela que levanta a espada...ah não...
 - Eu devo confiar em Pandora? - Eu perguntei em voz alta, olhando para o Espectro.
 - Conhece mais alguém que usa uma espada. - Eu só concordei com a cabeça antes de voltar a falar.
 - Pandora é a que mais me despreza.
 - Sentir desprezo não significa que ela não tem falta de caráter. Seus pensamentos quanto a você são meramente pessoais e ela sabe separar as coisas. Ela acredita em uma causa nobre acima de tudo e acredita em muitas das coisas que VOCÊ acredita. - Só voltei a concordar e a pensar.
 Aquela que lhe concede sonhos...Vampiros não dormem, não sonham...eu não faço ideia de quem é...
 Aquela que lhe concede desejos e tortura...como posso confiar em alguém que me dá tortura? Quem era...
 Ah, rapaz...
 - Eu prometi a mim mesmo nunca mais me misturar com ela, sabia? - O Espectro deu uma pequena risada.
 - Certas promessas são feitas na hora errada e com emoções erradas. - E quem riu aquela hora, fui eu. Ele continuou. - Ela tem habilidades, Drake. Habilidades especiais.
 - Eu sei disso. Você sabe disso. O cara que esquartejou a esposa dele e foi levar as partes dos corpos para ela de presente e teve o coração arrancado e devorado sabe disso. - O Espectro fechou os olhos ao concordar com um sorriso leve, que logo sumiu. Então pensei mais um pouco antes de perguntar.
 - Devo ir a Umbra?
 - Sim.
 - Devo procurar minha irmã? - O Espectro deu um leve sorriso ao ouvir isso...eu estava fazendo a pergunta certa.
 - Procure as paginas brancas em meio as amarelas. - E uma sensação de satisfação me percorreu...por influencia dele.Era o seu sinal de que as respostas haviam acabado. - Vá, tome um banho, se limpe, descanse, se alimente...e amanhã, quando a lua subir ao céu, quero você fora dessa casa, resolvendo sua vida, procurando Felippe antes de ir. - Eu fiquei olhando para ele, por mais alguns momentos...até que peguei Lagrima de Prata, a diminui de tamanho novamente, virei as costas e comecei a sair.
 - Muito obrigado. - Eu disse, da forma mais sincera possível.
 - Só mais uma coisa. - Eu parei, mas não olhei para trás quando ouvi seu chamado. - Você lembra da historia de Leônidas?
 Eu pisquei algumas vezes e me virei.
 - Como é?
 - Dos 300. - Ele disse. - A batalha das Termópilas.
 - Sim, eu conheço a historia.
 - O que achou da atitude de Leônidas?
 - Em relação ao que? - E mais uma vez, ele sorriu.
 - Em relação a morrer no Campo de Batalha.
 - Digna de honra. Por?
 - Quero que pare para pensar nisso. No final ele morreu, certo?
 - Sim, e por seu sacrifício ele inspirou gerações.
 - Sim...mas você sabia que, mais dentro daquele desfiladeiro, os arqueiros não os teriam alcançado e ele poderia ter levado a luta para lá. - Eu continuei o observando e ele sorrindo para mim.
 - O que quer dizer, Victor?
 - Quero dizer que, ás vezes, um rei deve recuar, nem que seja um pouco, para que se possa ocorrer coisas maiores ainda no futuro.
 - Como por exemplo?
 - Um príncipe. - E a palavra pairou no ar por um tempo...até que o Espectro estalou os dedos e um súbito escuro se fez na sala, escuro demais até para a minha especie enxergar. Sai da sala, desci as escadas e pude ouvir uma conversa saindo da sala de estar. As meninas conversavam enquanto Yuri permaneceria no mais absoluto silencio, como sempre.
 Peguei o celular no meu bolso e fui até o corredor a minha direita...fiquei em uma boa distancia e disquei os números rapidamente. Ana atendeu o celular bem rápido.
 - Oi. - Ela respondeu, seca, como sempre.
 - Oi, como estão as coisas por ai?
 - Conseguimos controlar o pessoal. Colocamos eles dentro do túnel, eles seguiram, já estamos no abrigo novo a um bom tempo. E você?
 - Estou na casa de um amigo. Ficarei por aqui até o Sol se por.
 - Blackhearts?
 - Não. O Espectro. - Um minuto de silencio na linha.
 - Ele o recebeu bem?
 - Sim, foi tudo de boa.
 - Fez perguntas a ele?
 - Fiz. - Ela ficou em silencio de novo. Dessa vez eu ouvia vozes ao fundo, pedindo silencio. Lucian.
 - O que conseguiu?
 - Que devo ir a Umbra. Sem pestanejar.
 - Ele não te deu mais do que isso, não é?
 - Não. Sabe como ele é. - Menti.
 - Louco, fodido da cabeça.
 - Ainda assim, ele é poderoso. E respeita as regras.
 - Trocaria sua sanidade por poder?
 - Trocaria. - Ela não respondeu rápido a isso.
 - Por que?
 - Porque depois eu trocaria todo esse poder por você. - Ela fez mais um silencio antes de responder.
 - Você é um idiota.
 - É. - Ela deu uma risada. - Chama a Pandora para mim, por favor. Eu preciso falar com ela.
 - Ok, deixa eu ver...ok...achei ela. Calma ai.
 - Ok.
 - Um beijo.
 - ...beijo.
 Não demorou muito até ouvir a voz afiada daquela que usava a espada.
 - O que foi, Drake?
 - Entre em contato com Turquesa. Não quero saber onde ele está, eu não quero saber o que ele tá fazendo ou o que ele tá traficando, eu quero ele no Porto de Santos até hoje a noite.
 - Wow, wow, wow, wow, rapaz, segura as pontas e essa linguá! - Ela disse aquilo não com o tom de raiva natural, havia preocupação em sua voz. - O Turquesa? Pra que?
 - Eu preciso dele no Porto de Santos. Por precaução, Pandora. Alguma coisa grande tá pra acontecer, ok? - Mais uma vez silencio.
 - O que vai acontecer, Drake?
 - Eu não sei. Mas eu confio em você pra fazer o que pedi. Em mais ninguém. - Pandora suspirou do outro lado da linha.
 - Eu farei. Ok?
 - Ok. Obrigado. Passa para Ana, por favor. - E ela o fez rapidamente.
 - O que falou pra ela? Tá com uma cara de brava...
 - Essa é a cara da Pandora mesmo...
 - Hm...o que você quer?
 - Se cuida, ok? - Acho que coloquei sentimento demais naquelas palavras.
 - O que foi, Drake?
 - Só se cuida. E não sai de perto do Conselho.
 - Ok.
 - Tchau.
 - Beijo... - E ela desligou. Coloquei o celular de volta no bolso e respirei fundo. Me alonguei um pouco...estava estressado, precisando mesmo descansar, entrar no Sono um pouco...
 - Precisa de um banho, Senhor Drake? - Roselin veio até mim, perguntando com um sorriso gentil.
 - Sim. Relaxa, usarei o banheiro aqui de baixo mesmo.
 - Providenciarei roupas para o senhor. Deseja algo formal como este?
 - Não. Calça jeans, tênis e uma camisa. Só isso. - Ela concordou e se retirou rapidamente. Entrei, larguei a arma em cima da pia, rasguei minhas roupas e as taquei no chão.Mirei meu rosto cheio de sangue e meus olhos com olheiras profundas. O que era aquele cansaço? Estive parado por anos e agora que voltei mostro sinais de fadiga. Isso era vergonhoso...mesmo que o estresse havia sido grande em pouco tempo...
 Entro no chuveiro, deixo a água quente cair em mim. Por um instante, eu não penso mais nada...esvazio minha mente...menos de uma coisa.
 Isabelle...por que seu irmão não pode te achar?
 Já não basta nossa mãe? Nosso pai?
 ...
 Calei meus pensamentos e me lavei.

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