quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Noturnos - Capítulo 002 - Restituição

Drake

 "Não há lugar como nosso lar".
 Ouvi muitos dizerem e escreverem isso ao longo dos anos. Desde grandes homens a pessoas comuns. E em todas as situações, eles se referiam ao lar de maneira positiva, com um sorriso nos lábios e uma saudade no peito.
 Essas pessoas eram hipócritas.
 Lar, casa, o que seja...é um campo de batalha. É de onde as pressões vem, os julgamentos, os debates, as discussões, os fundamentos de seu psicológico. As pessoas te afetam e você as afeta. E não amenizou nada nesses treze anos de afastamento.
 O modo como Lucian me olha deixa claro seus pensamentos por mim.
 - Já é um desrespeito você entrar aqui. E ainda desta maneira? E com esta aparência? - Ele fala baixo, mas sua voz grave toma conta do ambiente. Seus músculos de enrijecem sob a túnica preta com detalhes de perolas e se seu coração batesse sua face estaria rubra, com toda certeza. A barba grisalha estava um pouco maior do que eu me lembrava, mas a careca reluzente continuava a mesma.
 - Lucian Nosferatu! - Eu pronuncio seu nome como se quisesse escarrar - Minha irmã! Onde ela está?
 - E ainda ousa levantar...?
 - NÃO ME FAÇA REPETIR A PERGUNTA, SUA COBRA MALDITA! - Eu rujo o mais alto que posso. - ONDE ESTÁ MINHA IRMÃ?
 Sinto muitas coisas quando dou aquele passo para frente. Sinto mãos fortes segurando meus pulsos, tornozelos e pescoços, sinto a ponta de uma lamina sendo colocada na minha nuca e sinto o desprezo do olhar rubro de Lucian. Mas principalmente sinto incomodo, porque não era a primeira vez que meus irmãos de batalha tinham de me parar daquela forma.
 - Continua agindo muito e pensando menos, Drake. Achei que os anos de afastamento e consequência de seus atos acalmaria sua mente. Mas parece que eu estava errada.
 - Como de costume, Stormrage. - Respondo a Pandora, a que está encostando a ponta de sua espada em minha cabeça. - Você sempre focada nos fatos que lhe são apresentados, mas nunca pensando em juntar seus pedaços e ver a situação como um todo.
 - Independente de nossa alegria de te ver novamente, Drake - Luke Goldenblood, aquele que segurava meu pulso esquerdo, começou a falar. - sabe que nosso principal compromisso é manter a ordem do Conselho.
 - Isso não muda o fato de ele estar esquivando da pergunta... - Eu respondi
 - Porque a resposta você já sabe muito bem, Drake. - Lucian falou em alto e bom som. - Sua irmã sumiu!
 - O nosso acordo não era ess... - Não consigo terminar a frase. Beatriz Violence aperta minha garganta e sorri para mim antes de dizer.
 - Drake, por favor, não force...
 - Chega! - A voz de Ana Nightchild é um sussurro que se espalha pela Câmara Negra como uma leve brisa deixando um zumbido em nossos ouvidos. Nenhum deles me soltou, afinal a ordem deveria ser dada por Lucian, mais ninguém...mas senti os dedos afrouxarem.
 - Soltem-no. - E assim o fizeram quando a voz certa falou. Pandora embainhou a espada e Beatriz parou de sorrir. Lucian se levantou de sua cadeira a afastando da mesa e olhou para baixo, novamente para mim.
 - Saiam todos. Vão fazer o que quiserem em seus quartos, o Sol já vai nascer. Mas você Drake vem comigo. - E virou as costas e seguiu caminho para a sala atrás do Altar. Sem me virar ou acenar para ninguém, segui caminho até a lateral do Altar e subi as escadas ali postas, deixando as inúmeras cadeiras vazias do local em seu silencio. Era muito estranho (a nível de me incomodar) estar ali sem aquela centenas de vozes se digladiando ou sem olhares julgadores por todos os cantos.
 Quando cheguei no ultimo degrau, me permiti sentir e olhar para trás.
 Vi Pandora verificando se a bainha estava devidamente colocada em seu cinto. Vi Joe alisar os cabelos para trás e dar risada de alguma piada feita em sua mente. Vi Beatriz alisando seus cabelos azuis. Vi Luke tirando o maço de cigarros do bolso esquerdo. Vi Angela com uma chuchinha na boca e recolhendo os cabelos pra conseguir prender. Vi Hideki colocar as mãos nos bolsos e sair mudo e calado como sempre. E vi Ana, a unica que olhou para trás, me lançando mil perguntas com seu olhar.
 Não respondi nenhuma delas.
 - Drake... - Lucian me chama deixando bem claro de que estava impaciente. Virei as costas, passei pela mesa do Altar e segui até a porta. Passo por ele e me vejo numa sala escura desprovida de janelas ou qualquer tipo de comodidade, exceto por três poltronas grandes e uma mesa de centro esculpida em madeira pura com um cinzeiro no centro e uma faca cravada próximo a ele. Era a segunda vez que eu estava ali.
 Dei alguns passos para frente, esperei que ele fechasse a porta e antes que fizesse qualquer som com a boca eu comecei.
 - Qual era o nosso acordo, Lucian? - Seus olhos vermelhos brilham no escuro ao me mirar.
 - Não pense que pode tirar a primeira palavra de mim, Exilado. Você...
 - Corta essa, caralho... - Eu mais suspiro do que digo aquelas palavras. - Não tem ninguém aqui pra você perder credibilidade, velho! Somos só eu e você, como nos velhos tempos, sem ninguém pra interromper. Agora, qual era o nosso acordo?
 O silencio dura um pouco mais de cinco segundos até que Lucian decide caminhar até uma das poltronas de couro marrom, se esparramando ao sentar e respirando fundo como se seu corpo realmente precisasse de oxigênio.
 - Sente-se Drake...
 - O acordo era eu concordar de bom grado com meu exílio, sem causar tumulto, sem fazer nenhum levante, sem levar seguidores, sem contar nenhum segredo para ninguém. Em troca, você tomaria conta da minha família, não deixaria que o nome dos Nightcrawlers caísse em desgraça, cuidaria para que ainda fossemos um nome de respeito e que fossemos lembrados como realmente somos, uma família forjada na honra e no calor do combate. E de repente, meu amigo vem me avisar de que estou sendo chamado porque minha irmã, sangue do meu sangue, sumiu...o que acha que devo fazer, Lucian?
 - Acho que deve se sentar e ouvir o que tenho a dizer, Drake. - Lucian gesticula para o lado dele, a outra poltrona. Trinco os dentes antes que faça qualquer movimento.
 Ao me sentar ao seu lado, a conversa começa.
 - Thiago foi te chamar?
 - Sim.
 - O Redson... - Ele dá um riso leve - Nunca entendi aquele rapaz.
 - Ele é o menor dos seus problemas...
 - Onde ele está agora?
 - Pedi para que ele não entrasse comigo. Provavelmente foi para o quarto dele.
 - É...é difícil pensar nele sem ficar confuso. - E apesar de tudo eu entendia o que Lucian queria dizer. Thiago Redson havia sido chamado junto comigo para fazer parte da Terceira Geração dos Sete, a Elite Vampírica a ser treinada além dos status considerados comuns. Ele recusou, sem motivo aparente.
 - Lucian... -Ele finalmente me olhou nos olhos.
 - A alguns meses atrás, algumas relíquias de baixa importância, mais voltadas para o sentimental e memoria da raça começaram a sumir. Dobramos a segurança para que os historiadores começassem a me deixar em paz e parassem de falar merda no meu ouvido. Funcionou por um bom tempo, ficamos três meses sem receber nenhuma noticia de furto...até que recebemos mais noticias. Dessa vez relíquias realmente importantes conquistadas ao longo dos séculos e deixadas em lugares que não deveria existir possibilidades de serem invadidos. O mais curioso era que...ninguém morria no processo. Alguma coisa estava ali...e depois não estava mais. - Senti um frio na barriga ao ouvir aquilo. - E logo depois, alguns de nossa raça começaram a sumir. E não foi aos poucos...muitos, ao redor do globo, de uma vez, reclamações chegavam em toneladas e no mesmo dia. Então eu trouxe os Sete...ou melhor...os seis para que pudesse haver uma intervenção maior, uma investigação mais minuciosa que nossos agentes genéricos não pareciam conseguir fazer.
 - E o que minha irmã tem haver com... - Antes dele responder, eu já sabia. Eu parei, pensei e me lembrei da base daquele time...
 - Mas havia o fator de cooperação, Drake. Entenda isso. - Senti meus dentes se afiarem sozinhos - Aqueles seis haviam sido treinados para analisar a situação e confronta-la...em Sete. Faltava um. Você se lembra do treino, não lembra? Vocês aprenderam a reconhecer qualquer tipo de ocorrido e interferir usando o trabalho em equipe, tantas e tantas vezes que chegou uma hora que era automático saber quem e como poderia lidar com uma situação especifica. A falta de um único integrante  fazia as estrategias adotadas serem desfalcadas e cheias de furos...fazia a dinâmica do grupo se perder. Precisávamos preencher aquilo, precisávamos...de um Nightcrawler. Alguém que pudesse trazer de volta a real força do time. Alguém que tivesse amizade com eles. E sabemos que inúmeras vezes você levou sua irmã para missões e a fez interagir com os Sete. Ela tinha a simpatia e confiança deles, por isso a chamamos para ser a nova integrante e que a situação pudesse se resolvida devidamente. - Fiquei um minuto de silencio digerindo tudo aquilo.
 Era verdade. Os Sete podiam ser chamados individualmente as vezes mas seu real potencial estava no trabalho em grupo...em uma situação como aquela, ter o grupo completo seria melhor.
 - Quando ela sumiu? - Eu perguntei.
 - Essa poltrona é de couro raro, Drake... - Foi quando vi que meus dedos haviam afundado até a metade nos braços do móvel. Olhei para Lucian e minha resposta foi apertar mais ainda até eu ouvir a madeira estalar. O Nosferatu revirou os olhos.
 - Ela sumiu ontem.
 - Pistas?
 - Ai é que está, Drake. Entenda o que eu estou tentando te dizer. - Ele se apoiou nos joelhos - Eles foram de avião até Londres onde o roubo de relíquias começou e decidiram voltar para cá depois disso. Ela entrou no nosso avião particular igual a todos. Quando saíram...ela não saiu.
 - Como assim?
 - Ela não estava mais lá, Drake. - Ele disse aquilo mirando o nada. - Estava lá...e depois não estava. Sumiu. Não havia nem traço de que ela esteve no avião.
 Eu não sabia o que pensar, então só afundei mais ainda na poltrona. Umedeci os lábios e ao sentir o gosto ferroso lembrei de todo o sangue seco que estava na minha cara e nos meus punhos mas, naquele momento, não me incomodei.
 - Você quebrou sua promessa.
 - Drake...
 - Me chamasse antes. - Eu olhei nos olhos dele ao dizer isso. - Que viesse com ameaças e gritos e o que fosse mas deixasse minha irmã fora disso. - Eu me levantei, dei as costas e comecei a me dirigir até a porta quando ele se levantou de maneira brusca e começou a rosnar.
 - Você teria recusado, Drake. Recusado! Tentaria manter seu orgulho ferido até que...
 - Até que VOCÊ, pessoalmente, o homem responsável pelo meu banimento viesse me dizer que estava precisando de ajuda. Sim, eu faria bem isso. - Eu me viro para ele antes de responder e vejo que seus olhos brilham cada vez mais a cada palavra que digo. - Mas se tem alguém cujo orgulho é maior do que o meu, só pode ser você!
 - Sabe muito bem que o que eu faço aqui...
 - É deixar seus problemas pessoais interferirem nas decisões mais logicas que poderia ter tomado! - Agora eu que estou rosnando. - Tantas vidas que podia ter salvo se tivesse me ouvido aquela noite, seu velho senil!
 - Me respeite, Exilado!
 - Não. - Eu sinto a escuridão ao meu redor ser atraída para meu corpo...começando a tomar forma e se solidificar.
 - Você sempre foi um incomodo na minha imortalidade, Drake! - Naquela hora, eu decidi tocar numa das feridas...
 - Todo mundo sabe que você me odeia porque peguei sua irmã, Lucian! - Os olhos dele se tornaram rubro puro e senti o ar ficando frio...bem frio.
 - Quer mesmo falar sobre relações, rapaz?
 - Não me importo nem um pouco com quem minha mãe fica ou deixa de ficar, velho! A vergonha retorna a você por não ter tido os culhões necessários para segura-lá. - O ar esfria tanto que sinto gelo se formando ao redor dos meus pés.
 - Você nunca se comportou. Essa é a raiz de todo o nosso problema.
 - Eu lhe oferecia outra coisa que ao meu ver era mais importantes do que comportamento, Lucian. Mas agora você perdeu isso também.
 - E o que era isso de tão especial, Drake?
 - Minha lealdade. - E subitamente, o frio começou a ceder. - Eu me sentia honrado de travar batalhas ao seu lado...mas no dia em que eu vi o tipo emotivo que você é, eu não consegui mais ter "postura" com você. - Tudo ficou bem quieto e quente novamente. - Você me decepcionou e decepcionou milhares. Pode ter jogado a culpa nas minhas costas quando o Levante de Renata terminou mas isso não faz de você mais homem. - Fiquei quieto olhando em seus olhos rubros por um bom tempo até que vi que não diria mais nada. Quando iria sair e virei de lado, vi ele colocando a mão dentro da túnica negra e tirou algo que tilintou e a jogou para mim com mais força do que o necessário. Peguei o objeto e o medi em minhas mãos.
 Um colar de aço. O pingente era uma pequena asa de morcego aberta bem detalhada. Fazia tempo que não via aquilo...olhei para Lucian, descrente, mas o mesmo já estava sentado em sua poltrona novamente. Sem olhar para mim ele disse.
 - Pelo poder conferido a mim pela descendência de Lilith, eu o restituo de nome, posto e lugar entre sua raça. Longa vida a Drake Nightcrawler e etc... - Ele colocou os pés em cima da mesa de madeira, mexeu de novo na túnica e tirou um cachimbo e uma corda de fumo. - Vá dormir, Drake. O Sol vai nascer. Amanhã a noite nós conversaremos e resolveremos o resto do assunto.
 Fiquei olhando para ele pegando a faca cravada na mesa e começando a mexer no fumo. Coloquei o colar de volta, abri a porta e sai. Fiquei admirando o pingente enquanto descia as escadas da Câmara Negra quando a voz dela veio...
 - Ficou bem em você. - Olhei para frente e dei de cara com Ana. De braços cruzados e apoiada na porta enorme e quebrada, ela sorriu torto pra mim. Eu dei risada e continuei caminhando até a saída.
 - Ficou ai me esperando pra fazer pose? Toma vergonha nessa cara... - Ela deu uma risada. Caminhei até ela e ela desfez a pose e o sorriso ao meu abraçar. A tomei forte em meus braços e ela me apertou em seu corpo.
 - Seu filho da puta... - Ela sussurrou ao me apertar mais.
 - Também tava com saudade... - Eu respondi.
 - Por que você...
 - Aqui não. - Eu a interrompo, desfazendo o abraço. - Vamos para algum quarto...qualquer lugar quieto, ok? - Ela só concordou. Passamos pelos portões e ela disse.
 - Vai ter que pagar por isso, sabia?
 - É, mas vai sair mais caro para eles, vai por mim. - Ela sorriu por cima do ombro e continuamos andando. Atravessamos o longo corredor que daria no patio branco. Tomamos o corredor da direita, ignorando os olhares e buchichos dos outros ao me verem passar. Fomos pra mais um corredor, descemos algumas escadas e depois de mais alguns passos em um corredor com carpete, ela tira uma chave do bolso e abre uma das portas. Só quando entramos e ela tranca tudo novamente, eu me permito relaxar. De repente, a roupa em meu corpo começou a pinicar, a me sufocar...rasguei a camisa social e já comecei a tirar as calças quando ela falou.
 - Só porque eu ia dizer que tava adorando esse estilo? - Eu dei risada e comecei a procurar pelo banheiro.
 - Só vou tomar um banho e já volto, ok? - Ela só concordou quando começou a tirar a jaqueta.
 Entrei no box, liguei o chuveiro. A água quente caiu como uma chuva de glória e senti boa parte daquele peso cair ralo a baixo.
 ...
 Isabelle...
 ...
 Onde você está, irmãzinha?
 ...
 Não tinha porque ficar me martirizando. Não agora. Eu não podia fazer nada nem descobrir nada naquele momento, então só terminei de me lavar e sai com a toalha enrolada na cintura. Até que um Sono enquanto o Sol estivesse no céu não seria tão ruim...
 Mas quando eu sai, havia uma surpresa a minha espera.


 Ao me ver sair, ela se levantou da cama e pegou um controle debaixo do travesseiro. Ela apontou para cima e clicou em alguma coisa, fazendo algum elaborado sistema de som começar a tocar a musica.


   Ela veio até mim, colocou os braços ao redor do meu pescoço e sussurrou.
 - Eu quero muito te fazer perguntas e te socar pelas respostas que vou receber. Mas eu e você temos passado por muita merda de uns tempos pra cá...então, só quero relaxar por algumas horas...esquecer de tudo...e não me venha com esse papo de que meu pai...
 - Foda-se seu pai... - Eu respondi. Eu a seguro pelas coxas e a puxo para meu colo e ela as fecha em torno da minha cintura. Ela mordisca meus lábios e minha língua durante seus beijos. Qualquer tipo de vestimenta é logo destruída quando nos deitamos na cama. Ela arranha minhas costas conforme puxo seu cabelo e faço a cama tremer. Ela me faz pedidos em diferentes tons de voz e eu os atendo de bom grado. Ela gira e domina por um tempo e...
 Bom...
 Nós apreciamos a musica.

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