segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Sozinhos: Gênesis - Capítulo 7

HEITOR HENRIQUE

 - LEVANTA, HEITOR!
 - ...
 - ACORDA, PORRA!
 - ...ein?
 - LEVANTA, EU PRECISO DE VOCÊ AQUI!
 - ...Tamires?


 Quando eu botei meus pés para fora do prédio, me lembrei do pesadelo...eu apertei involuntariamente o cabo da espada. Estava pronto para soltar a lamina e me defender com o que fosse preciso.
 Quando se é do exercito, sua mente é treinada para perceber coisas e detalhes que a grande maioria das pessoas não consegue ver. Afinal, eu sei de coisas que elas considerariam inúteis. E no dia a dia, eu admito, varias dessas informações são mesmo...mas agora...são vitais.
 Não faço ideia do que aconteceu. Lembro do céu roxo, lembro de algo caindo do céu, lembro de tudo ser varrido diante dos meus olhos. Lembro da sensação de vazio, de reconstrução (foi a unica coisa que consegui pensar em chamar aquilo) e acordei aqui...no apartamento de Tamires, cobertura, na rua Butiá...agarrado a minha Katana, que havia deixado no quartel...
 Panico? Admito que tive meu momento do mesmo. Mas me lembrei que isso não leva a nada a não ser perda de controle...então vasculhei cada um dos 21 andares do prédio e tudo que encontrei foi o mais puro silencio.
 E quando eu sai, eu me assustei.
 Os céus estavam escuros...nuvens se alinhavam e tampavam o sol de uma maneira pouco natural...
 Mas era no chão que estava meus fundamentos. Parecia zona de guerra...país de quinto mundo.
 O chão estava rachado nas bordas de crateras. Carros virados, alguns dentro das casas, pelos telhados...
 Aquilo era zona de explosão...
 Seja o que for que tenha caído do céu, foi forte...arruinou muita coisa.
 Ok...eu precisava ver alguém, algo que fizesse algum maldito sentido, eu precisava de...


 - PUTA QUE PARIU! - Eu me abaixei por puro instinto e xinguei por reflexo quando aconteceu. O relâmpago...estourou muito perto. Senti as vibrações pelo meu corpo, meu tímpano começou a zumbir. Me senti tonto...
 ...
 Porra, eu ouvi o grito de alguém?
 Junto com o trovão?
 ...
 Se recompõe, Heitor...
 Se recompõe, caralho...
 A situação é ruim, mas você é pior!
 Não soltei a katana e comecei a correr. Indo reto pela Pantojo, eu ia sair na Regente Feijó pela rua do posto de gasolina. Dali...eu iria para o Anália Franco. Shopping, deveria ter gente lá...ou pelo menos, algo que eu pudesse usar...
 Eu não parei de correr um único segundo. Meu caminho não revelou grandes surpresas, não mais do que eu vi...mato crescido, carros virados, chão e casas aos pedaços...vi algumas áreas de risco que passei longe, mas nada que me impedisse de chegar lá antes de 15 minutos.
 ...caralho, quanto tempo se passou?
 Eu dormi?
 Eu desmaiei?
 O que aconteceu?
 Como eu fui parar no apartamento dela?
 ...
 Calma, Heitor...
 Você já tem as perguntas.
 Vá buscar as respostas.
 O Shopping Anália Franco era referencia de todo mundo. Shopping de burguês, mas ainda assim, o povão se sentia a vontade. Muita coisa boa aconteceu lá com a família, com meus amigos...cara, que saudade...
 Então, quando eu vi metade da entrada destruída, as palmeiras quebradas e bloqueando o caminho...eu senti um aperto no peito.
 Respirei fundo e atravessei a rua para entrar ali mesmo. As primeiras gotas da chuva começaram a cair quando eu pisei nos degraus da entrada. Rochas bloqueavam o caminho, passei por cima delas com cuidado redobrado. Eu não queria fazer barulho.
 A porta mecânica estava aberta. Não havia nada piscando ou algo parecido para mostrar que ela estava ligada. Passei...o interior do shopping estava com as luzes ligadas...estava estranhamente...intacto...
 Como se nada tivesse acontecido.
 Estranho...incomum demais...
 ...
 As escadas rolantes estavam paradas. Subi até o piso superior, que dava de cara para um MC Donalds. Quando subi, o restaurante estava lá...com o caixa e tudo interno preto...e um cheiro de queimado horrível sendo exalado.
 Eu desviei para a direita.
 Continuei reto...respirando fundo...
 Tava tudo tão quieto que meus passos faziam eco...e eu atava de ALL STARS, caralho...
 Pensa, Heitor...
 ...
 Cinema?
 Pode ser...deve ter pessoas por lá...normalmente, eles iriam...
 ...
 Passos.
 Não são meus.
 ...
 Passos em superfície metálica.
 ESCADA ROLANTE A MINHA FRENTE!
 Eu corro. Coloco a Katana junto ao corpo e vou só movimentando um único braço. Corri o mais rápido que pude, chegando a escada rolante...
 Não vi ninguém...
 Onde que...
 ...
 Mais passos. Mais rápidos dessa vez. Alguém estava correndo para o terceiro andar. Fui até a escada rolante e pulei de três em três degraus até chegar no andar de cima. Praça de alimentação. Corri até a escada...ninguém...já devia ter subido. Corri atrás de novo...
 Quando eu cheguei ao topo, a unica coisa que vi foi um vulto. Mas senti algo me acertar no estomago. Impacto forte, mais forte do que tudo que já levei na vida. Eu voei em linha reta um segundo antes de cair...
 O metal da escada recebeu meu corpo da pior forma possível. Senti a camisa rasgar, a pele abrir, o sangue começar a escorrer...cai até o chão e ainda continuei escorrendo...o que me parou foi o portão de uma loja de eletrônicos.
 Acho que fiquei cinco minutos ali, ofegante. Tudo muito rápido. Não fazia sentido. Forte demais, quase vomitei minhas tripas...
 Eu olho pra cima para ver meu agressor...
 Ai, me convenço de que fiquei louco.


 Oni...
 ...
 O demônio era com uma imagem fora de foco. É difícil descrever. Parecia ser feito de traços mais grossos e estremecidos...como que fosse tirado de um filme antigo e colocado ali na minha frente e...
 Ele avança. Ele não emite um único som e parece uma sombra. Eu só saco a espada por reflexo. Mal entro na formação de combate, sua lamina bate na minha. Minha mão treme, arde, juntas estalam. Uma de suas mãos larga o cabo da espada. Ela bate no meu peito com uma força tremenda.
 Sou jogado longe. Pareço a porra dum boneco de pano. Caio para dentro da loja de eletrônicos. Meu corpo se estilhaça contra tudo quanto é vidro e concreto. Deslizo no chão, só parando por alguma parede abençoada por Deus.
 Eu não soltei minha espada.
 A bainha ficou lá atrás.
 ...
 Escuto os passos dele...ele tá vindo pra cima de mim, devagar.
 Ele ainda segura a espada em forma de combate, apesar disso. De lado, como se fosse fazer um corte de baixo para cima. Ele já está trabalhando com a hipótese que eu levantaria na ultima hora para um ataque surpresa...
 ...
 Rapaz...
 Eu acordei no apartamento vazio da minha namorada agarrado a uma espada que deixei a algumas milhas daqui.
 Todo mundo sumiu.
 E tem um demônio lutando contra mim...
 To tendo a certeza que morri e esse é meu purgatório.
 ...
 Beleza.
 Arrumo meus óculos.
 Eu topo.
 Eu me levanto meio metro do chão antes de jogar minha espada com toda força que tenho. A arma gira no ar, mirando o rosto da criatura. Sua face não muda, mas seus olhos irradiam um pingo de surpresa. Eu saltei. Meu punho em riste alcançou a face do monstro enquanto sua atenção ainda estava na espada. Joguei todo meu peso e força naquele soco. Acertei em cheio...e aquela coisa caiu a alguns metros de mim.
 Nessa hora, tive duas surpresas.
 Primeiro, eu estava com uma força maior do que eu esperava...bem maior. Porque pra mandar uma coisa daqueles por 5 metros de chão, não é pra qualquer um.
 E segundo...aquilo, no rosto, não era uma mascará...era seu rosto de fato...
 Era um demônio...
 Certeza, eu morri.
 Mas pro Inferno, eu não iria!
 Eu rolo pelo chão frio. A camisa social preta começa a apertar no corpo, tento ignorar a sensação. Minha espada ficou enfincada no chão quando eu a joguei. Eu a seguro, me viro, já a coloco no caminho da lamina do inimigo.
 Ele é rápido. No ataque e na recuperação.
 Eu me levanto ao o empurrar, ele corta na horizontal. Eu desvio, pulando e rolando para minha esquerda. Uma mesa de inteira de computadores vai para o espaço...
 Ele é forte.
 Eu preciso sair da loja.
 Campo aberto, espaço para me movimentar, eu não posso lutar aqui. Eu...
 O monstro rosna e se vira de forma agressiva. Seus olhos estão irradiando...são azuis...
 Ele enfia a mão dentro do quimono. Ele tira uma adaga...
 Merda!
 Eu dou as costas para meu agressor por poucos segundos, visando a saída. Um erro.
 Ele saltou sobre mim. Ele se virou e atacou com força e velocidade dobrada. Sua adaga, nada mais que uma versão mais curta de uma katana, me feriu perto do ombro. Sua lamina varou meu corpo.
 Eu rugi de dor. Não existe treinamento que te prepare para aquilo.
 Ele segurou na gola da minha camisa e me joga por cima dele. Ele não está mirando o outro lado do andar...
 Eu acerto o vidro temperado de proteção, que estoura em contato com o meu corpo. Eu caio para o andar debaixo, bem dentro de um quiosque. Estou todo torcido...pareço a porra de um boneco de pano...
 Eu ia gritar...ao menos pedir socorro, alguma coisa do tipo. Mas aquela coisa, me olhou lá de cima...e na hora, eu sabia o que faria.
 Me segurei nas lacas de madeira e vidro e me puxei para o lado esquerdo. Fui rápido, rolei meu corpo para fora do lugar, o suficiente para evitar o impacto. O demônio pulou lá de cima. Seu corpo deveria ser pesado...o impacto criou uma onda de ar que me lançou arrastado...ou então, deve ter sido só a minha fraqueza.
 A espada continuava na minha mão...eu não ia soltar ela por nada...
 Muita poeira subiu...eu não conseguia ver direito. Minha cabeça ainda girava...pela dor...e pelo fato de...depois de tudo aquilo, parecer mais que eu tinha caído de alguns degraus de escada...não daquela altura toda...meu corpo deveria estar todo quebrado. Nem parecia que tinha despencado um andar inteiro...
 Eu deveria ter morrido, mas...
 PARA!
 Se foca Heitor, não duvide, seja grato por isso. Vamos, procure...ache o inimigo.
 A poeira começa a abaixar...não está a minha frente. Não está dos meus lados...
 Frio na espinha.
 Eu me abaixo, mas sinto o deslocamento de ar da espada dele no meu couro cabeludo. Como ele foi parar atrás de mim, tão rápido?
 Eu me levanto e já empunho a espada e começo a defender seus ataques. Com uma mão só, os impactos doem, mas o outro braço está fudido. Eu tenho que me virar.
 Eu e ele fazemos uma dança selvagem. Ele é rápido, eu também sou, mas ele está no ataque, eu na defensiva. Nossas laminas criam o som ambiente enquanto eu começo a tentar tomar uma dianteira...arriscado...mas eu não iria morrer ali.
 Eu prefiro aguentar um pouco de dor a isso.
 Arrisco um ataque de uma mão só, corte transversal...ele defende...seguro com a outra mão o resto do cabo e o choque da dor me dá uma adrenalina a mais.
 Eu subo a lamina com tudo, o que faz com que ele perca o equilíbrio ao defender...faíscas saem voando e ele acaba abrindo todo o peito no ato. É minha chance!
 Viro a lamina e aponto para o feito dele...vou atravessa-lo e...
 - OOFF! - Como? COMO?
 Rápido demais...eu vi seus braços virarem borrões. Ele me acerta com a palma da mão aberta bem no meu peito.
 Mais forte de tudo que já senti na vida. Ele me faz bater em uma parede, meu corpo estala em vários lugares...
 Merda, são meus ossos...
 Eu escorrego para o chão, e tento tomar um ar...mas nem isso ele deixa...
 Sua lamina escorrega pelo meu estomago e pega na coluna ao sair.
 Eu fico em choque...
 Doi pra caralho mas eu não consigo gritar...eu não consigo dizer ou fazer nada, eu...
 ...
 Ele começa a rir. Rir muito alto. Chiada, fora de foco...igual sua própria imagem...
 Ele tira a lamina e a dor aguda e acida se espalha por todo meu corpo. O sangue começa a vazar mais rápido e fluido. Ele se agacha rapidamente e me segura pelo pescoço e me levanta...
 Engraçado...
 Eu deveria sentir alguma coisa com isso, mas...eu não sinto. Só me sinto...cansado...
 Tão cansado...que até chego a pensar que aquilo seria bom se acabasse logo de uma vez...
 - Insuficiente... - A voz dele é pior que sua risada...e ele se vira com agressividade e me joga com tudo que tem pra bem longe.
 Eu entro em um corredor que daria para os banheiros...me choco com o bebedor e os canos, que estouram, mas como antes, eu não sinto nada...só uma leve queimação na boca do estomago, de onde tem um buraco que não para de sangrar...
 ...
 Eu vejo ele me dar as costas...vejo ele começando a ir embora...
 Sinto a água fria me banhando...a sensação é até boa...
 ...
 Tamires...
 As alianças estão no meu bolso, eu...
 ...
 Eu prometi tanta coisa pra você...
 ...
 Caralho...
 Eu ainda não soltei a espada...
 ...
 Ele me deu as costas.
 Ele me deu as costas...
 Quem é ele...
 PRA ME DAR AS COSTAS?
 De repente, eu não sinto nada mesmo...tudo parece devagar, tudo parece totalmente irreal...
 Antes que eu perceba, eu estou de pé e estou gritando:
 - HEY! - O monstro se vira rapidamente, assustado.
 - Ninguém me dá as costas... - Eu seguro a katana com ambas as mãos...e eu corro.
 O monstro ruge...ele imita minha posição e corre até mim.
 Ele está mais lento que antes...o que aconteceu? Ele ficou cansado?
 Posso ver claramente quando ele levanta a espada pra cima da cabeça, dá um pequeno salto para descer cortando com todo peso do seu corpo.
 Eu levanto minha lamina rápida o suficiente pra decepar os dois braços dele. Corte limpo, mas senti as juntas arranharem.
 Eu giro meu corpo, até perco a compostura, parece mais agora que eu to manuseando um taco de basebol. Mas cortar ele ao meio, pela cintura, foi algo inexplicável...
 E rápido como começou, mais rápido ainda, terminou.
 Eu fiquei respirando fundo...olhando pra aquela coisa, sem os braços e as pernas, estendida ali, no meio de sangue...
 E água...
 Água?
 Eu olho para trás. Parece que um mar está se formando onde os canos estouraram...
 E o caminho que eu percorri...caralho...
 Onde eu pisei, a marca da sola dos meus pés abriu buracos no chão, os deixando rachados e cheios de água...como se súbito, lembrei do ferimento do meu estomago.
 Não estava lá. Nem mesmo uma cicatriz...
 - Mas que porra...
 - URRRRRRAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!
 O monstro ruge as minhas costas...de alguma forma ele salta, com a boca aberta, mirando minha jugular. Eu ia virar, tentar defender...mas ele já estava bem em cima...


 A explosão foi rápida, porém luminosa, me fez piscar varias vezes e dar passos para trás...
 Onde estava o Oni, pronto para me matar...agora tinha uma pilha de cinzas que se espalhava para longe...
 Olhei ao redor, para ver o que tinha causado aquilo...
 Então, eu vi ela.


 A minha esquerda, um pouco perto de mim, ela apontava os dedos como se fosse um revolver, estava ofegante...o cabelo desarrumado e algumas roupas rasgadas...
 Eu comecei a caminhar para perto dela, foi quando ela apontou os dedos pra mim.
 - OW, OW, CALMA! - Eu disse, levantando as mãos, mas ainda com a espada na mão.
 - Eu te vi morrer. - Ela disse. Sua voz era firme, um pouco com medo, mas a fúria escondia bem. - Como ainda está de pé, como você tá vivo?
 - Como você fez explodir aquele monstro com o dedo? - Eu perguntei. Ela esbugalhou o olho...depois voltou ao normal.
 - Eu consigo fazer...coisas diferentes, agora...
 - Pelo visto, eu também. - Eu respondi, abaixando os braços. - Meu nome é Heitor...
 Ela respirou fundo...e abaixou os braços.
 - Meu nome é Lorena...
 Ficamos em cinco segundos de silencio desconfortável.
 - Obrigado por salvar minha vida, Lorena...
 - De nada...
 - Você sabe o que tá acontecendo aqui?
 Ele olhou ao redor...engoliu em seco e respondeu.
 - Não...eu não faço ideia do que tá acontecendo. E você?
 Eu balancei a cabeça.
 - Eu também não.
 Eu olhei ao redor...tudo vazio, no maior silencio...
 ...
 Estávamos Sozinhos.

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