segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Imortais: Capítulo 02 - A Cidadela




05 de Novembro de 2399. 18:00hrs. Zona 610.
Portões da Cidadela Euro.

 Mil armas apontaram para mim quando estacionei o caminhão no grande portão de metal com sinais de ferrugem bem visíveis.
 - Babaca impacientes.
 - É o trabalho deles. - Eu respondi a Ericka no banco de passageiro.
 - SAIAM DO CAMINHÃO, COM AS MÃOS PRA CIMA! - Os soldados em fardas azuis escuras, capacetes negros e mascarás negras cobrindo os rostos, apontaram suas M19 para mim. Fiz o que mandaram. Abri a porta, sai do carro, mãos para cima, passos largos e lentos.
 O Sniper, no topo da segunda Torre, baixou o scope e falou alguma coisa no rádio. Em seguida, gritou, provavelmente para me deixar mais tranquilo.
 - É o Tyler! - Todos abaixaram as armas, rapidamente e logo começou o cochicho.
 Ouvi a pergunta "O que tem no caminhão?" quinze vezes antes do portão abrir.
 O Portão Principal da cidade é feito do mais puro aço fundido com chumbo. Só o maquinário pra abrir aquilo teve de ser construído parcialmente no subterrâneo de tão pesado e resistente que é aquilo. Tem 50 metros de largura, mas somente três de altura. O objetivo disso é deixar claro que ali só pessoas a pé é que entram no local. Ao seu redor e acima, um muro de rocha matriz se erguia a cento e cinquenta metros do chão.
 Cidadelas foram feitas para durar para sempre.
 Mas a entrada de trás, que levaria as garagens subterrâneas estavam bloqueadas com destroços e pedras enormes, consequência do tornado.
 Quando o portão estava na metade, três Soldados Fortuna saíram de dentro.


 - Boa tarde, Tyler.
 - Tecnicamente, é noite, Sargento. - Ele deu uma risada e largou o fuzil, deixando a bandoleira segurar o mesmo em seu ombro. Baixou a mascará, mas não tirou o capacete, não era aconselhável. Seu rosto era cheio de rugas e marcas da idade e uma barba rala grisalha havia ali. Sargento Paulo era um dos poucos homens ali que eu respeitava devidamente.
 Ele me estendeu a mão.
 - Como vai, Tyler?
 - Bem, e o senhor?
 - Tudo ótimo. - Ele olhou para dentro do caminhão, e viu Ericka, sentada, com cara de sono. Ele mandou um tchau pra ela e recebeu um sorriso sincero em retorno. Ele voltou a olhar para mim.
 - O Caminhão vai ter de ficar estacionado aqui fora, garoto. Estamos preparando a equipe para remover as pedras e os entulhos do portão da garagem, ate lá, não é para nenhum veiculo sair ou entrar.
 - To vendo que aquela ideia do senhor de um portão auxiliar deveria ter acontecido.
 - Você não tem noção da felicidade que eu tenho em lhe dizer que você é a vigésima terceira pessoa a me falar isso. - E o sorriso dele mostrava que dizia a verdade.
 - Enfim...não acho que seria uma boa deixarmos o caminhão aqui fora. Ao menos, não sem uma supervisão. Ele tem um sistema de suspensão manual. Posso faze-lo rastejar e ficar no corredor interno, até eu falar com o Capitão.
 O olhar do Sargento mudou.
 - Vejo que não achou simplesmente um caminhão qualquer.
 - Não, não achei. - Eu respondi. - Achei muita coisa e tenho muita coisa a dizer pra poder evitar muita coisa.
 - É muita coisa pra entender. - Ele disse e eu dei uma risada. - Pode me mostrar?
 - Vem aqui. - Ele fez um sinal para que os outros soldados ficassem parados e eu o guiei até a traseira do veiculo.
 Era um caminhão pipa, modificado para a caçamba abrir do lado esquerdo e atrás, para carregar qualquer coisa que não fosse água. Foi repintado de preto e toques de cinza para tentar se camuflar com a paisagem, mas o barulho que aquela coisa fazia não valia o esforço.
 Destranquei e como porta de geladeira, abri o caminhão e o Sargento deu uma olhada no que tinha ali. Ele ficou de boca aberta por cinco segundos.
 - Rebaixa tudo que vamos colocar lá dentro, eu te escolto até o Capitão. - Eu só concordei e fechei tudo. Quando subi na cabine, Ericka se mantinha quieta. Nem puxei assunto. Estava impossível agora. Esperei o Sargento falar com seus homens, eles concordarem e dar a ordem no radio de que o caminhão estava autorizado.
 Embaixo do rádio, havia algumas pequenas alavancas e interruptores. Quando achei o caminhão, demorei um pouco para aprender tudo, mas peguei o jeito. Rebaixei o mesmo o máximo que podia, até ranger. Depois, dirigi com cuidado para entrar. Mesmo assim, o texto raspou. O som de metal se retorcendo só parou quando entrou tudo. Desci, Ericka desceu.
 Ao passar do portão, se segue um túnel de dois quilômetros de pura terra até realmente você entrar na cidade. Agora,você se pergunta "Porque dois quilômetros?". Porque essa era a grossura do muro.
 Alguns soldados me receberam com cumprimentos ríspidos e olhadas para Ericka. Aquilo sempre me irritava, mas por experiencia própria, não adiantava brigar com eles. Enquanto eles não botarem a mão nela, eu fico tranquilo.
 Um jipe veio cantando pneu e levantando poeira naquele túnel largo e escuro e mal iluminado. O soldado desceu, nos dando lugar. Eu fiquei no passageiro, Sargento no motorista, Ericka no banco de trás.
 - Deixa ela em casa antes de irmos pra lá, tudo bem? - Eu perguntei. Recebi só um aceno de concordância com a cabeça.
 Cruzamos o túnel até a luz no fim dele.
 E ai, veio a Cidadela.
 A terra agora era piche azul marinho. Uma rua asfaltada que nos levava para o centro comercial, a primeira coisa que se via ao entrar. Paralela a essa rua, havia calçadas, para trafego das pessoas, obvio.
 Era bonito. Mais bonito do que muita coisa que eu já vi.
 O lugar mal parecia afetado pelo apocalipse.
 A rua era cercada por arvores que estavam crescendo um pouco mais que o esperado, criando rachaduras no chão com suas raízes. Mas tudo bem, porque de tão altas, seus galhos e folhas criavam um túnel. Ao sair do túnel, a rua continuava no centro comercial. Roupas mais chiques, trabalho com encanamento, moveis, marcenaria, construção adicional, armas, escolas de luta, etc...tudo se achava ali.
 O Sol não nos recebeu, graças a cúpula fechada de proteção, ativada por causa da tempestade. Era normal deixar 24 horas adicionais fechada para que pudesse se inspecionar de algo tinha ficado lá em cima. Já pensou abrir e começar a cair pedras e vacas?
 O que iluminava tudo eram postes e luzes auxiliares de cima.
 Todas as construções, fossem elas moradias ou os prédios de comercio, eram feitos de tijolo e tetos feitos com telhas azuis marinho. Tudo era assim. Eram estruturas fortes e aguentavam muita porrada.
 O centro comercial se estendia a mais 10 ou 12 quilômetros. E então, vinha uma praça, com mais mato, arbustos e arvores. Arvores tinha em tudo quanto é lugar. O Capitão queria que isso acontecesse. Queria que o verde, que o oxigênio prevalecesse, tanto que só oficiais tinham o direito de usar veículos e só em ocasiões especiais.
 Ao contornar aquela praça, era a unica curva que aquela rua faria. Depois, ela subiria direto até o local do Capitão.
 Depois da praça, vinha as residencias. Humildes, basicamente um retângulo com telhado, cada uma delas. Se quisesse aumentar sua casa ou adicionar cômodos ou mudanças, você teria de pagar por isso. A construção das casas foi financiada pelo próprio Capitão. Não se vendia casas, não se vendia água, não se vendia peças de roupas básicas. Tudo isso era de direito do ser humano.
 A primeira leva de residencias eram dos Operários. Os marceneiros, ferreiros, pedreiros, pistoleiros, costureiros, resumidamente, trabalhadores manuais em geral. 99% dos Soldados Fortuna também moravam ali. Eram simples.Crianças saindo na rua, jogando futebol ou basebol, tocando violão, brincando de pega pega ou jogando pião.
 Quando estávamos chegando no final da área, paramos o jipe. Ericka saiu do carro.
 - Tchau Tyler. Obrigado pela carona, Senhor Paulo.
 - Tchau, Ericka.
 - Não foi nada, Ericka. - Respondemos. Seguimos nosso caminho e ela para casa. Eu e o Sargento mantivemos silencio.
 As residencias seguiam até ter uma área vazia, com mais grama e mais arvores, para lazer do pessoal. Depois, vinham as casas dos Professores. O pessoal que trabalhava com a escrita, contabilidade, engenharia (principalmente), pedidos e ocorrências da população. Administravam a biblioteca e trabalhavam diretamente com o Capitão. Costumavam receber um pouco mais do que os Operários, sobre a desculpa de que tal serviço cansava mentalmente e isso era pior. Em parte eu concordo. Ainda assim, a diferença ainda era gritante. E eles gostavam de mostrar isso. Porque não tem UMA casa deles que não tenha dois andares, entre outras coisas.
 Mas enfim...ao passar delas, passamos sobre os Escritórios. Local de trabalho dos caras mencionados anteriormente. Continuamos subindo até passarmos pela delegacia principal. Depois dela, tinha o casarão enorme, de três andares, cercado por um muro de pedra com duas guaritas (mais parecidas com torres de batalhas). Escritório e moradia do Capitão.
 Paramos no portão de ferro, que logo se abriu. Entramos e fomos recebidos por diversos Elite Fortuna. Soldados de patente mais alta, vestindo roupas e armaduras negras. Eram a ultima linha de defesa da Cidadela.
 Paramos o carro no meio do caminho e saímos. Fui recebido com olhares vazios e analíticos. Segui andando juntamente com Sargento Paulo até a porta do casarão. Subimos alguns degraus de madeira e entramos. O piso era de madeira e nossas botas faziam barulho. Subimos uma escada, e mais uma..viramos alguns corredores e sabíamos que porta entrar quando vimos três guardas em frente a ela. Nos aproximamos e um deles fez sinal para Paulo.
 - Desculpe, Sargento. Ordens do Capitão. Tem de esperar aqui fora.
 - Por mim, tudo bem. - Sargento se limitou a responder. - Se cuida lá dentro, Tyler.
 - Pode deixar. - Respondi.
 Eles saíram do caminho e eu entrei.
 A sala do capitão era toda de madeira. A minha direita tinha uma mesinha de centro em cima de um tapete de pele de lã e sofás com estrado de madeira. A minha esquerda, uma samambaia crescia pendurada no teto. A minha frente, em uma mesa de ébano, lendo um livro, trajando um terno vinho escuro, careca, com uma barbicha grisalha no queixo, porte musculoso apesar da idade, com um óculos na ponta do nariz, estava o responsável por aquela cidadela.
 Sandro Moura. 09º Capitão sobre o regimento de General Fonseca.
 Líder e governante da Cidadela Euro.
 Meu amigo.
 - Só um minuto, Tyler.
 - Fique a vontade. - Eu respondi. Andei em linha reta e fiquei de pé, como costumava ficar, falando com ele. Parei meu olhar na bandeira do Brasil, presa em uma haste de metal, no outro canto esquerdo da sala. Ele terminou de ler o que queria, colocou o dedo no paragrafo e falou em voz alta.
 - "Contudo, não era como eu esperava". Pagina 89. - Fechou o livro, tirou o óculos e olhou para mim. - Como está, Tyler?
 - Muito bem. E o senhor?
 - Cansado. Como sempre.
 - Imagino. - Ele concordou e suspirou.
 - Paulo disse que você tinha algo para me dizer.
 - Tenho. E o senhor não vai gostar. - Ele suspirou mais uma vez, apertou os olhos com o indicador e o polegar e perguntou.
 - Alguém te descobriu?
 - Sim. Mas eles não estão mais vivos. - Eu respondi e ele concordou. O Capitão era um dos poucos que sabia quem eu era de verdade. Fora ele, só Ericka e o Padre sabiam. O resto, nem desconfiava.
 - Muito bem, me conte.
 Detalhadamente, contei tudo o que aconteceu, desde que sai da Casinha até o momento que eliminei todos os homens do Ninho de Rato que havia achado. Depois, explorei o local com a ajuda de Ericka. Em meio as inúmeras caixas e prateleiras, achei um pouco de tudo.
 - Como assim um pouco de tudo? - Ele me perguntou.
 - Roupas e suprimentos desidratados. Tinha menos do que eu esperava achar. Agora...eu achei armas.
 - E dai?
 - Não são as antigas, enferrujadas, caseiras ou coladas com silver tape que estamos acostumados. São tipo essas aqui. - Então tirei a pistola que estava por debaixo da minha camisa e coloquei na mesa. Primeiro, ele olhou pra mim e disse.
 - Não te revistaram dessa vez? - Eu até levantei a sobrancelha antes de responder.
 - Eles nunca me revistaram. - Ele bufou.
 - Tem gente que vai levar bronca hoje. Das fodidas. - Eu dei uma risada. Então, ele prestou atenção na arma...
 Pistola Beretta 11mm...carregada, pronta para o combate.
 - Funcional?
 - Sim.
 Ele pensou um pouco.
 - Foi feita em fabrica.
 - Foi.
 - Não houve noticias de nenhum furto ou ataque as Cidadelas, muito menos roubo de porte desses. Nem mesmo um comboio assaltado ou coisa do tipo, estamos saindo pouco das Cidadelas por causa das inúmeras tempestades que vem acontecido.
 - Eu temia que dissesse isso. - Eu o interrompi. - Porque achei pistolas, submetralhadoras, metralhadora, rifles e explosivos...tudo de primeira linha naquele Ninho.
 Ele ficou em silencio, me observando.
 - Como?
 - Não sei. De alguma forma, esses Saqueadores conseguiram achar uma maneira de desenvolver e fabricar armas. E explosivos.
 - Que tipo de explosivos? - Ele perguntou, impaciente e claramente mais irritado.
 - Plastico. Não vi nada que tivesse energia nuclear ou cinética. Até o lugar, era alimentado por geradores movido a óleo de girassol.
 Ele concordou com a cabeça.
 - Isso não está certo. Todas as ferramentas para construir tal tipo de coisa não deveria estar lá fora. Tomamos tanto cuidado, tanto cuidado...os projetos, tudo, de construção civil até fabricação de refrigerante, deixamos longe de todos porque não tínhamos como confiar em ninguém.
 - Refrigerante? - Eu perguntei. - Que mal faria alguém saber como fazer refrigerante?
 - Um dia me lembre de te contar a historia de Nanira, uma mulher que trabalhava em Goiais antes da Grande Queda.
 - O que ela fez?
 - Começou a vender refrigerante adulterado com veneno para as pessoas. Por saber como fazer a bendita bebida, ela conseguia disfarçar o sabor do chumbinho. - Eu me calei depois dessa. - Enfim...continue. Me conte sobre o caminhão.
 - Continuei investigando, achando uma especie de escada secreta...
 - Escada secreta? - Ele apertou os olhos. - De que tipo?
 - Do tipo que aperta um botão e uma parede se move. - Ele bufou.
 - Ok, continue.
 - Ela deu para uma garagem. Três caminhões estavam ali. Todos adulterados para conseguir comportar grandes quantidades de carga.
 Um minuto de silencio.
 - O que isso tudo parece pra você, Tyler?
 - Me parece que descobriram como fazer armas e bombas de ótima qualidade, aprenderam também a como embala-las e transporta-las. Provavelmente, estão juntando tudo o que podem entre si...ou vão começar uma guerra de gangues lá fora, ou...
 - Um ataque organizado e massivo contra alguma Cidadela...
 - Ou todas... - Eu completei. Ele concordou.
 Aquilo era preocupante mesmo. Maquinas para construção eram a base da sociedade hoje. Depois da segunda revolução industrial de 2145, as maquinas de construção e criação ficaram mais avançadas. O que demorava meses para se fazer, tipo um estadio de futebol, não demorava muito mais do que uma semana. Quando a Grande Queda foi prevista, o maquinário necessário para reconstruir o mundo todo foi colocado no sub-solo quase que prontamente. Projetos e mais projetos foram feitos e todos escondidos da população por diversos motivos. Quando as Cidadelas foram construídas, esses projetos foram escondidos. Ninguém deveria ter qualquer tipo de maquina lá fora que poderia construir tal coisa. Isso era um mal sinal. Um erro interno imperdoável.
 - Não preciso dizer que isso não pode chegar a conhecimento publico, preciso?
 - Não.
 - Tyler... - Ele respirou fundo. - Vou precisar da sua ajuda. De novo.
 - Pode contar comigo.
 - Como você já sabe, você é um dos poucos que podem ir e vir da Cidadela como bem entendem. Ainda não gosto de Ericka saindo por ai, mas...já que a mãe dela não comenta nada com ninguém a respeito, eu não vejo porque não. Enfim...eu farei uma investigação interna. Eu e mais um pessoal. A minha maneira. E você...quero que faça uma investigação externa. Investigue até nas áreas vermelhas se precisar, sei que irá sobreviver. Só preciso mesmo é saber com o que estamos lidando.
 - Já sabia que ia me pedir algo do tipo. - Eu respondi a ele. - Eles tinham um rádio que usavam para se comunicar. Não tinha gravador, nem nenhum tipo de anotação que revelasse qualquer coisa que eles pudessem ter dito, porém, consegui uma frequência. Posso rastrear.
 - Excelente, Tyler. Excelente.- Ele sorriu e se levantou, deu a volta pela mesa, passando os dedos na bandeira. Ele veio até mim, colocou as mãos no meu ombro e disse. - E tome cuidado, por favor. Se alguém descobrir...sequer desconfiar de algo...de você, do que pode fazer...nem mesmo eu vou poder te proteger, Tyler. Eu tenho normas a seguir.
 - Fique tranquilo, eu sei disso. - Eu respondi. - E você...tem tomado as providencias, certo? - Ele concordou, deixando claro que não gostava de tocar naquele assunto.
 - Sim, sim, eu tenho. Eu tenho mantido contato com um dos Anjos, Tyler, mas, eu não acho que você...
 - Vá perder o controle? - Eu o interrompi. - Acho que nenhum Imortal pensou isso antes de perder. - Ele se calou. - Eu só não quero machucar ninguém ok? Por favor, Capitão Moura...já me prometeu antes e quero que prometa de novo...
 Se eu perder o controle...você vai me matar.
 Ele ficou em silencio por um segundo, até que respondeu.
 - Sim, Tyler...se você perder o controle, eu vou te matar. - Eu concordei.
 - Obrigado.
 - Agora...o que vai fazer?
 - Vou pra casa. O Padre deve estar preocupado. Vou descansar e começo amanhã, tudo bem?
 - Tudo bem. Queria poder te dar mais tempo, mas...esse tipo de coisa não pode esperar.
 - Eu sei, eu sei. - Eu respondi. Ele ficou em silencio um minuto até me dar as costas e voltar a mesa.
 - O conteúdo do caminhão é seu, ok? - Aquilo me pegou de surpresa. - Não tenho como explicar esse tipo de armamento extra no meu arsenal sem um numero de série. É tudo seu. O caminhão em si também. Se for levar para a igreja, leve amanhã e pelo túnel, ok?
 - Sim senhor.
 - Ok. Mais uma coisa. - Ele abriu a gaveta da mesa e tirou um radio dali, parecido com um Walkie Talkie e um saco de estopa. Ele os joga pra mim. - Um pouco mais avançado do que você tem. Mais longo alcance e pode pegar frequências clandestinas dessa vez. Parece que eu senti que algo ia acontecer. Pode vir a ser útil pra você. Dentro do saco, tem cinquenta chapas.
 Eu sorri.
 - Obrigado, senhor.
 - Agora, sai daqui. Vá comer um pouco, tomar um banho e dormir. Antes de sair, amanhã, volte até aqui para terminarmos essa conversa. Lá pelo meio dia está bom. Eu preciso pensar um pouco. Ok?
 - Ok. - Eu respondi a ele. E quando coloquei a mão na maçaneta, ele disse.
 - E não se esqueça, garoto... - eu parei, me virei para ele e ouvi - Marche, rapaz. Marche. Para a gloria. Ou orgulhosamente para a sepultura. Mas marche. E nunca abaixe a cabeça.
 - Jamais, senhor. - Ele sorriu.
 Sai da sala, fiz o caminho todo para fora...olhei para cima, a cúpula ainda estava lá, fechada e iluminando tudo.
 Olhei para baixo e vi, todas aquelas luzes. As pessoas falando. Vivendo...
 Respirei fundo aquele ar puro e me deixei acalmar...tudo seria um pouco mais complicado a partir de amanhã...
 Mas valeria a pena...valeria a pena...
 Pra proteger aquele meu pedaço...para proteger aqueles que viviam ali...eu faria qualquer coisa.
 Me espreguicei. Estava mesmo com fome e sabia onde ir pra sacia-la.
 Do lado de fora do portão de ferro, alguns soldados, sem capacetes, sentados em caixas, fumando cachimbo e comendo algumas besteiras, conversavam e ouviam musica.
 E no radio, se ouviu...

Aqui é mais uma noite de tempestade na Terra De Ninguém, minhas meninas e meninos, a rádio do apocalipse! E vamos de novo com mais um sucesso, um que eu , particularmente, gosto muito. 

Johnny Cash - Rusty Cage

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