terça-feira, 15 de setembro de 2015

Sozinhos: Gênesis - Capítulo 6

VITOR GOMES

 Eu me olhei no espelho do armário de novo...
 O rosto úmido tinha traços familiares. Dos que eu já estava acostumado. Mas eu não reconhecia aqueles olhos...eram olhos castanhos bem claros. Os meus eram escuros. E aquele rosto mais..."reto". Todo aquele excesso de gordura que ele tinha havia sumido. Pra falar a verdade, todo o meu corpo estava assim agora...
 Não, cara...aquele não era eu...não era.
 Mergulhei a mão novamente na pia que já transbordava. Trouxe água ao meu rosto pela milésima vez e esfreguei forte. Encarei a imagem novamente...
 O mesmo rosto...
 Era eu.
 Agora, não restava duvidas.
 Mas isso não me acalmou.
 Fechei a tornei, tirei a tampa do cano e deixei a água escoar.
 Respirei fundo..encarei novamente o espelho.
 Meu punho acertou o vidro antes mesmo de eu pudesse pensar nisso. Os estilhaços cairam enquanto alguns ficaram presos ali. No segundo soco, a madeira cedeu e senti farpas entrarem nas juntas. No terceiro, a portinha quebrou de vez. Eu a segurei, a arranquei dos trincos e a joguei para o outro lado do banheiro.
 - CARALHO! - Eu berrei, passando as mãos no meu cabelo. - PORRAAAAAAAAAAAAAAAAAA!
 O que tava acontecendo?
 O que caralhos tava acontecendo?
 Quando abaixei os braços, meu bíceps esquerdo ardeu.
 Lembrei do cordão preso ao meu braço. Era o cordão Khan Sib Hok...ouro e prata...representa que, quem o usa, era um Grã Mestre de Honra do Muay Thai. E tinha aquela porra de pingente...um triangulo meio arredondado pra dentro...sei lá, parecia lamina de machado.
 Era uma desonra usar um cordão de um nível que não é devidamente seu. Eu o tentei tirar de todas as maneiras...e tudo o que fiz foi deixar meu braço em carne viva...
 ...
 Tanta coisa...
 Tanta coisa de uma só vez.
 Pensa Gomes...detalhadamente, uma coisa de cada vez.
 A festa. Você bebeu pouco. Conversou com as pessoas. Ficou com a Bianca. Você viu o Borges saindo cabisbaixo, você tentou segui-lo, mas seu pai teve uma crise de choro e ficou te abraçando. Escuridão. Céus roxos. Seu pai gritando pra você voltar. Aquela coisa caindo do céu...
 Escuridão de novo. Dores. Umidade de calor. Muita força pra sair de lá. Você saiu de um casulo...um casulo vermelho e cheio de meleca que ficou grudado no seu corpo. Você tá na sua primeira academia. Você veio até o vestiário, tomou banho...você achou que fosse uma brincadeira dos seus amigos...mas isso passou quando se viu no espelho...
 ...
 Nada disso me trouxe respostas.
 Eu estava no ultimo andar da academia. Ela tinha três. Tudo o que eu conseguia pensar era sair dali e buscar ajuda, ou procurar alguém e etc...
 Mas o silencio...o silencio era tão grande que me fazia sentir...
 ...
 Não.
 Isso não.
 Eu não vou mais sentir isso na minha vida.
 Olhei pra minha mão. Sangrava um pouco. Liguei a tornei de novo e lavei tudo. Fui até os armários...por puro instinto acabei indo no que era meu. Estava aberto. Tinha roupas ali, mas nenhuma delas serviria em mim. Procurei nos outros...estavam todos abertos. Até que achei.
 O calão do Muay Thai e estopas...ótimo. Coloquei o calção e deixei as faixas de lado. Achei uma camisa marrom escura, uma calça jeans meio larga pra mim. Ótimo. Procurei tênis, sapato, o que fosse...mas só achei um chinelo. Ok, ia ter de servir. Coloquei as estopas no bolso e desci as escadas.
 Os vestiários ficavam no terceiro andar. No segundo, eram as áreas de dança e coreografias. Aulas pra senhoras e idade e etc. No primeiro ficava a arena e as áreas de treino...quando eu cheguei ali, bateu uma leve saudade...

- Mais forte Gomes.
- To fazendo isso!
- Respira em cada golpe, solta o ar, não é pra ter ar ai, é força, é jeito, tudo combinado.
- Sim senhor.

 ...
 Foram os tempos mais difíceis...e eu sinto falta disso.
 É muito estranho como quando estamos vivendo aquilo, nós odiamos, nós detestamos, mas...depois, quando você pega o jeito, o gosto, tudo e acaba de fazer tudo que tem de fazer e vai embora...você daria tudo pra poder passar aquela pressão de novo...
 Deve ser porque nós superamos. É...certos tempos difíceis que superamos, nós sentimos falta deles, querendo que eles voltem, para podermos supera-los de novo...para podermos ficar satisfeitos conosco novamente...
 É...
 Ok, Vitão...foco.
 Eu tinha que procurar a saída. Um portão grande que ficava após a recepção, logo após um corredorzinho e...
 ...
 Que porra é essa?


 Naquela hora eu realmente pensei...que tinha ido para o Inferno.
 A coisa mais fudida que podia existir nessa vida estava ali na minha frente.
 Sua pele era azul. Azul defunto, daquele meio pálido. Seus braços e pernas eram finos...praticamente pele e osso. Mas seu tronco, do pescoço pra baixo...gordura pura. A barriga era enorme. Gigante. O umbigo parecia que ia estourar a hérnia. Os pés eram cheio de feridas...porra, o corpo todo era cheio de feridas...principalmente ao longo da barriga. E o rosto...
 Não havia rosto. Não havia cabelos na cabeça, era redonda e cheia das feridas...
 ...
 Puta merda...
 ...
 Eu me senti naqueles filmes de terror que eu e Bianca assistíamos durante algumas noites. Logo, eu achei de novo, que fosse uma brincadeira...só podia ser.
 Eu fiquei puto. Deveriam ter tido muito trabalho pra fazer aquilo. Porra...
 Mas e o espelho? E os céus azuis?
 Tsc, deve ser ressaca, me drogaram e eu to vendo coisas, só pode, foda-se.
 Andei a passos rápidos até a saída. Era só dar a volta pelo gordo azul e sair pra fora. Provavelmente, deveria estar todo mundo lá fora e...
 Eu passei por aquela coisa...e logo fui puxado de volta. Alguém pegou minha gola por trás e me puxou...puxou com força. O tecido esticou, rasgou, mas meu corpo ainda foi...
 Fui jogado com força o suficiente para atravessar o corredor, a recepção...e pelo metal e vidro que separava a mesma da zona de musculação. Metal pesados e concreto me cobriram antes que eu pudesse pensar em alguma coisa.
 Quando eu finalmente voltei a mim, assustado, tremendo...eu só tinha duas perguntas.
 Quem fez aquilo?
 E como eu sobrevivi?
 Em um ataque, mais de desespero do que por qualquer outra coisa, eu me chacoalhei e tirei tudo de cima de mim. Os aparelhos de musculação, despedaçados e quebrados, em cima de mim, logo saíram. Fiquei de pé...e vi quem era o meu agressor.
 O gordo azul.
 Ele estava vindo na minha direção. Andando, pesado, com as banhas mexendo, fazendo sons horríveis e pesados no chão...ele estava vindo em cima de mim.
 Senti o que prometi nunca mais sentir...
 Medo.
 Eu tava morrendo de medo de morrer. Aquela coisa me jogou como se eu fosse um boneco de pano. Tava tudo errado...tudo. Eu tinha um cinturão agora, eu era o melhor do mundo, eu ia comemorar, voltar pra casa, descansar, ia pedir a Bianca em casamento...
 E AGORA, EU IA MORRER...
 Aquele cara ia me exterminar. Eu ia morrer, ia apanhar até morrer...
 Eu...
 Eu...
 ...
 ...
 Fui jogado contra tudo isso...e não tem nada no meu corpo que está doendo.
 Nada...
 ...
 Olhei meus braços. Minhas pernas. Nada...só a camisa pelo puxão daquela coisa.
 Uma calma muito estranha me invadia...muito estranha mesmo. Mas bem vinda.
 Eu sobrevivi aquilo...eu poderia sobreviver a...
 Me distrai. Ele está na minha frente agora. Ele é rápido. Ele dá um gancho de esquerda, com aquele braço fino. Por puro reflexo, eu jogo meu corpo para trás. Sinto o ar deslocar pelo soco daquela criatura...e dou um direto de esquerda na cabeça dele, com toda força que tinha, jogando meu corpo pra frente. Ele voa. Ele rola pelo lugar e acaba se chocando contra a parede do outro lado da área. Respiro fundo...fico que nem um idiota olhando pro meu punho...
 ...
 Eu tinha feito aquilo.
 Eu sai da merda de um casulo, depois de um meteoro atingir a terra...
 Loucura? Era sim.
 Mas era real. Eu estava vivendo aquilo...e eu tinha de sair dali pra saber o que era.
 Olhei o portão de saída. Sem obstáculos. Eu corri pra ele. Eu tinha que sair dali...
 Não cheguei nem a sair da sala de musculação.
 Aquela coisa pulou...literalmente um salto de atleta. O punho cerrado acertou minha cara com tanta força que senti meus dentes tremerem. O mundo apagou por um segundo e fui jogado mais uma vez contra o concreto.
 Fiquei zonzo, visão embaçada...só fui ter alguma noção do que acontecia ao meu redor quando o desgraçado enfiou as mãos pelos meus cabelos e me puxou com tudo pra cima. Ele fez meu corpo girar no ar...e com sua mão livre, acertar seu punho no meu peito. Fiquei sem ar antes mesmo de atingir o chão. O barulho que fez foi de rachaduras...mas não era possível...
 Pensei em levantar...só pra aquele gordo azul colocar cada perna em volta de mim e se sentar no meu tronco.
 - ARGH...FILHO...DUMA....PUTA... - Eu rosnei. O desgraçado pesava demais. Eu mal podia respirar, eu...
 O primeiro soco foi inesperado. Minha cabeça foi jogada pro lado com violência. Consegui colocar os braços no caminho, mas começou a machucar eles...
 Recebi mais socos do que havia recebido a minha vida toda. Meus braços pareciam que iam quebrar. Aquela coisa não parava por nada...
 Fraco...
 A voz veio como uma bala.
 Inútil...
 Uma voz grossa, rouca...
 IMUNDO!
 Vinha daquela coisa...
 Não tinha olhos, nem boca...mas eu ouvia a voz dele...ouvia sim...como se fosse na minha cabeça.
 Até que uma hora ele me segurou pelo colarinho. Saiu de cima de mim e me ergueu bem alto...me fez olhar para a pele translucida de esticada que cobria o "rosto" dele...
 ...
 Aquela coisa fez reflexo. Meio embaçado, um pouco pálido...mas eu consegui me ver ali.
 Eu vi a mim mesmo ali.
 O meu rosto era agora o rosto dele...
 Eu...era ele.
 ...
 Aquilo me deixou muito puto.
 Eu não era aquela merda, nem fodendo.
 Eu não seria aquela coisa gorda, horrível e deslocada...
 EU NÃO SERIA AQUILO!
 Segurei nos pulsos daquele bicho. Apertei com toda força que podia. Ouvi uns estalos...eu rosnei.
 - Me solta... - Eu grunho. Ele ainda fazia força nos braços.
 - Me solta... - Eu rosnei mais alto. Ele teimava.
 - ME SOLTA, PORRA! - Eu rugi. Usei toda minha força e dobrei minhas pernas e forcei meu corpo pra cima. Dei com os dois pés no meio do peito gordo dele. Ele não havia aberto as mãos...logo, a camisa rasgou e foi com ele. Ele rolou e quebrou toda a recepção com aquele corpo gigante. Eu o ouvi rosnar como um animal selvagem pronto pra luta...
 ...
 Não, não...
 Quem rosnou fui eu.
 Por algum motivo, eu sorri quando tirei as calças e comecei a amarrar as faixas na minha mão. Só nas juntas e dedos...nada que o protegesse demais.
 O calção fez minhas pernas respirarem...senti meu corpo inteiro ligado ao meu espirito e meu coração pulsando aquela energia dentro de mim...
 Eu estava no inferno? Era bem provável.
 Então eu ia arrebentar o diabo.
 Aquela coisa se levantou, chacoalhando a madeira e vidros que tinha em cima dele. Sua pele do "rosto" esticou quando ele rugiu, formando uma pequena ondulação ali.
 Então eu olhei para o cordão no meu ombro. Ouro e prata...
 Pra eu ter sobrevivido a tudo aquilo e ainda ter forças pra lutar, até que era merecido aquela merda.
 - Você consegue me ver? - Ele começou a dar passos pra frente, assim como eu. - Se consegue me ver, consegue ver meu cordão. Consegue ver minha farda. Consegue ver meus punhos cerrados e canelas calejadas. - Eu dizia aquilo em voz alta, saboreando cada palavra. - Sabe o que isso significa? Eu sou a arma mais poderosa que já existiu nessa terra, rapaz! E já que você não tem nariz...vou ter que me contentar em quebrar seu pescoço! MAS EU VOU PASSAR!
 E eu pulei. Meu punho se encontrou com o dele. O deslocamento de ar foi visível. Ele se jogou pra cima de mim depois disso, tentando me derrubar com o peso.
 Segurei o braço fino dele, puxei por cima do ombro e taquei ele no chão a minha frente. Meus punhos desceram na cara e no peito dele com toda força que eu tinha, logo em seguida.
 Rápido como eu nunca vi alguém ser antes, ele me segurou pelas orelhas. Seu joelho acertou minha cabeça, bem no meio. Vi tudo ficar preto durante dois segundos. Ele me jogou por cima dele, o que me fez cair de novo em cima de concreto e metal, de maneira mais violenta possível.
 Com o sangue quente...eu até que estava me recuperando rápido. Tentei me levantar e aquela coisa já estava vindo pra cima de mim. Ele queria me matar...
 Eu trinquei os dentes.
 - Eu lutei demais pra morrer aqui... - Eu fiquei de joelhos. - Lutei demais... - Cerrei meus punhos.

LUTEI DEMAIS...
PRA MORRER AQUI!

 Tudo o que eu queria fazer era socar o chão pra dor me dar adrenalina e eu seguir pro combate. Mas não...
 O que senti foi toda uma energia percorrendo meu corpo. Percorrendo meu ombro e depois, saindo pela minha mão.
 Senti a terra rachar...senti a terra se dobrar...
 Senti a terra sair!
 Tudo ficou em câmera lenta. Estalagmites saíram do chão, afiadas, fortes...aumentando de tamanho de grossura conforme saiam para a superfície. Contei doze...todas elas perfuraram aquela criatura e vararam sua carne podre. Barriga, peito, pernas, braços, cabeça...tudo atingidos por aquelas terras...
 Estava morto.
 E de alguma forma, eu era responsável.
 Aquela imagem me fez parar...
 Senti o braço dormir...meu tronco falhar e eu cair no chão...
 ...
 Família...
 ...
 Tudo tão estranho...
 ...
 Balancei a cabeça, pisquei varias vezes...e os mantive fechados. forcei a ficar de pé...assim que o fiz, eu cai de novo.
 Respirei fundo...o braço dormente agora estava formigando...
 O usei, levantei. E finalmente comecei a andar. Devagar, mancando...finalmente sentindo minhas dores.
 Sai da academia...e dei de cada com um céu cinza e ventos fortes...
 ...
 Onde que eu estou?
 ...
 Eu comecei a andar. Primeiro eu subi a rua...depois, virei a direita. Depois...só continuei andando querendo achar alguém ou que alguém me achasse...
 Vazio. Tudo vazio.
 Tudo destruído. As casas com aparência de abandonadas...as ruas cheias de buracos e pedras jogadas...
 Meu Deus...o que tinha acontecido?
 Comecei a descer uma rua...o cheiro de queimado me fez ficar alerta.
 Só naquela hora que eu percebi a minha imprudência...eu estava no meio da rua, praticamente semi-nu...e se aquela coisa aparecesse de novo? E se outras coisas aparecessem?
 Comecei a olhar ao redor, procurando algum lugar pra ficar, algum lugar pra entrar e me esconder...
 Uma das casas tinha portão aberto...entrei nela, o cheio de queimado era mais forte...e...tem um cara ali. Porra, tem alguém ali, tem um cara jogado no chão ali e...
 ...
 Caralho...
 ...
 CARALHO, É O BORGES!

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