quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Sozinhos: Gênesis - Capítulo 5


VITOR GARCIA

 Quando eu botei as mãos no volante, eu travei.
 Eu parei pra pensar...e como todas as memorias ruins, recentes ou não, elas fizeram uma visita forçada na minha cabeça...
 Acordar no chão da oficina do meu pai, nu, coberto por aquela gosma. Descobrir que eu sai de um casulo parecendo um útero. Descobrir que eu estava sozinho. Medo. Pânico. Só piorou quando eu sai para fora do local, quando fui pra rua. Tudo destruído. As casas em ruínas com seus muros virados para dentro em meio a escombros e pó. As ruas, rachadas e levantadas...
 Era um cenário de guerra.
 Pelo menos fedia como a morte.
 Eu chorei.
 Não tenho vergonha de admitir. Sentei no chão e chorei, querendo acordar daquele pesado...forçando meu corpo, até mesmo puxando meus cabelos...e tudo o que consegui foi vomitar.
 Demorou meia hora depois disso pra eu voltar a mim. Eu lembrei de tudo. Da festa, do céus ficando roxo...e daquela coisa caindo como um...como um meteoro...
 Eu resolvi encarar a situação.
 Era estranha? Era!
 Era impossível? Era!
 Era loucura? Era!
 Mas era real? ERA!
 Respirei fundo...sai da minha posição patética e voltei pra dentro da oficina. Eu precisava tirar aquela gosma do meu corpo, me vestir, me preparar. Eu tinha de ir atrás de certas pessoas, eu tinha de ir atrás de comida, de um carro, de muita coisa mesmo. Ficar no chão não ia resolver nada.
 Respirando fundo e suando, eu fui até os fundos. Lá, tinha um banheiro. Ao contrario de 99% dos banheiros de mecânicas que você conhece por ai, este era limpo. Regras do meu pai. A oficina inteira podia ser cama de graxa, mas o banheiro, o local mais sagrado de um homem trabalhador, tinha que ser limpo. Até a porra do chuveiro ele me fazia lavar quando tinha a chance.
 Entrei ali...e quando olhei no espelho, veio o segundo choque.
 Eu havia...MEU CORPO...havia mudado.
 Os músculos já era de meu conhecimento, eu treinava pra caralho a muito tempo. Eu e o Gomes. Arrastamos o Borges para ir conosco a algum tempo atrás e tudo mais...enfim...
 Mas eles havia mudado. O angulo. A extensão deles, o modo como se encaixavam em mim...
 Eu havia crescido.
 Eu estava alto.
 Não mais alto que antes, mas, porra, no minimo uns 20 centímetros. E meu cabelo...estava perfeito. Eu estava pensando em cortar ele antes da luta, mas acabei salvando um dinheiro pra gasolina e para as pizzas, mas agora, ele estava do jeito que eu gostava: Curto e arrepiado.
 E então, notei aquele brilho no meu pulso...uma pulseira. Corrente de prata segurando um pingente. Parecia, como...sei lá, uma shuriken, vai...uma daquelas estrelas ninjas...eu não me lembro de ter colocado ela, mas, eu bebi demais na noite anterior, então...
 Eu devo ter ficado pelo menos uma hora ali me observando, mal acreditando na imagem. Meu coração havia acelerado e parecia que ia quebrar meu peito. Eu só me movi porque um vento fez a porta abrir de leve e me deu um susto do caralho.
 Tranquei a porta e entrei no chuveiro. Estava limpo em 10 minutos.
 Sai e tive de cruzar a oficina com uma toalha na cintura até o quartinho perto da entrada.
 Aquilo me trouxe memorias...das vezes e que alguém precisava sair e esperávamos o cara tomar banho, pra ele passar correndo e, se caso não fosse rápido, ia tomar um tapa de graxa nas costas pra ter que se lavar de novo.
 Aquilo me faria rir em outra situação.
 Entrei no quartinho simples que havia ali. Era literalmente uma poltrona toa arrebentada, uma mesinha cheia de ferramentas e uma comoda simples. Abri as gavetas da tal comoda e peguei algumas roupas. Primeiro, peguei as minhas...e coloquei elas no meu corpo. Iriam ficar curtas. Eu havia mudado de tamanho, minhas roupas não iriam mais servir.
 - Buceta... - Eu sussurrei pra mim mesmo. Procurei nas outras gavetas, mais fundo...e acabei achando. Meu primo dava uma mão as vezes no trabalho lá. Ele sempre foi mais alto que eu, logo as roupas deles deveriam servir. Uma camisa azul clara, meio desbotada, com as mangas curtas pretas. Uma calça jeans azul escura, meias brancas e um tênis preto.
 Tudo ficou um pouco mais largo, como um numero maior. Ótimo. Eu teria mais liberdade de movimento assim. Mexia agora na caixa de ferramentas. Procurei, procurei e procurei...até que achei. Um arame. Bem fino, mas forte. Peguei um alicate, entortei um pouco a ponta. Guardei a ferramente e sai com arame na mão.
 Fui pra rua novamente, mas vestido dessa vez. Eu agora, precisava de um carro.
 O primeiro que vi na frente foi um Gol G3 prata.
 Fui até a janela, encostei a cara nele e vi o pouco que o insulfilm me permitiu. Ótimo, parecia bom.
 Rezei pra não ter alarme e coloquei o arame por dentro da janela. Achei a trava. Puxei. Abriu. Sem som. Graças a Deus.
 Entrei, peguei no volante e...voltei pra onde estava...
 Pra onde eu ia primeiro?
 E quando eu chegasse lá, o que eu ia fazer?
 ...
 Tainá.
 Ela era a primeira parada.
 Não morava muito longe dali, só alguns quarteirões.
 Meus amigos e família iam me perdoar...mas cada pedaço de mim tava gritando pra ir atrás dela.
 Engatei e acelerei. Passei com cuidado pelos buracos na descida da rua e virei pra esquerda pra continuar pela João 23.
O que eu vi...puta merda...
 A situação na rua da oficina não era nada comparado ao o que eu vi ali. Os poucos lugares, ainda de pé, estavam assim por um milagre. É foda descrever como tudo estava destruído. As ruas abriram em certas partes,deixando fendas onde uma criança facilmente cairia. Os muros dos comércios e etc, tudo caído, pilhas de entulhos do tamanho de casas estavam ali barrando o caminho.
 Aquilo me deu um puta medo. E a casa da Tai? Do Heitor? Do Borges? Do Gomes, da Bianca, da Tamires, da Ali...
 ...
 Não, pera...
 Depois do que ela fez, ela não era mais da família.
 ...
 Ainda assim, era difícil de acostumar.
 Suspirei...dei a volta com o carro. Parei ele na porta da oficina, sai, abri o portão, coloquei ele lá dentro, voltei, tranquei e sai de novo.
 Fosse o que fosse que tivesse acontecendo, eu teria certeza de onde achar um carro inteiro e com gasolina. Assisti e li muito sobre o fim do mundo pra saber como essa merda é importante.
 Corri de volta a avenida e comecei seguir caminho a pé, pulando as fendas. Tinha de ir na casa da Tai, que ficava descendo a Renata inteira e dobrando a Abel Ferreira, logo no começo.
 Subi um monte de concreto e revi a imagem de antes. Tudo quebrado, destruído, em uma escala que me fez temer por todos os meus amigos...
 Mas dali, eu pude ver a torre da Igreja Sagrado Coração de pé. Se a torre não caiu, o local também não deve ter caído. Então, teríamos pra onde ir e...
 ...
 A terra tremeu...
 ...
 De novo...
 ...
 Pausa...depois, vem de novo...
 Parecendo...que alguma coisa muito grande tava andando ali por perto...
 ...
 De novo...
 ...
 Eu fiquei parado...travado. Meu coração parecia que ia sair pela boca ou abrir caminho pelas minhas costelas. Eu respirava rápido e fundo ao mesmo tempo. Minhas pernas bambearam. A sensação de frio dentro do meu corpo aumentou.
 Eu me forcei a olhar para trás.
 Primeiro, vi pó caindo das poucas estruturas de pé. Depois, os carros tremendo, junto com a terra.
 Depois...o que eu vi não tinha nome...
 Gigante era uma palavra pequena para aquilo. Só a cabeça dele tinha o tamanho de uma casa. Seu corpo todo, de um prédio. Seus olhos...ele não tinha olhos. Eram duas bolas brancas que não se mexiam. Nariz? Não tinha também...eram dois riscos fundos e negros...como de cobras...da onde saia uma fumaça expeça e cinza, como chaminé de fabrica. Sua pele era meio amarronzada, bem escura, coberta de feridas, as quais escorria alguma coisa viscosa. Sua boca era uma linha reta, negra, com varias bolhas em volta. Ele não tinha braços. Pelo menos não no tronco. Seu tronco era reto, fazendo uma ondulação na barriga. Ele não tinha pés...seu corpo se estendia, dobrava e tinha quatro braços, servindo como patas...quase como um centauro...mas era uma extensão do seu corpo e não algo que se dividia. Os braços era grossos, fortes...as mãos também, com dedos bem longos e unhas longas também...e estavam cheio das feridas e...com cortes...cortes profundos, o qual escorria um liquido verde escuro...
 Eu fiquei paralisado, sentindo algo quente escorrendo pelas minhas pernas. Eu não conseguia me mexer...nem respirar direito. Um vento frio veio, me fazendo tremer mais ainda. Foi só ai que notei que os céus estavam ficando escuros e carregados de nuvens...
 E, "poeticamente"...quando aquela coisa virou a cabeça e olhou pra mim, um trovão cruzou os céus com a força de mil sóis.
 Fazendo tudo tremer, fazendo os trovões perderem seu efeito com seus passos...me olhando diretamente nos olhos...
 E quando ele chegou bem perto...bem perto...ele abriu a boca, soltando um rosnado e um cheiro fétido de morte e coisas podres...
 O cheiro do inferno...


 Eu queria dizer que foi reflexo, que foi algum treinamento que eu tinha feito em vida que me salvou da morte.
 Mas não. Foi uma pedra solta.
 Tudo o que eu fiz foi dar um leve passo para trás. Uma pedra se soltou em contato com meu peso e eu cai de costas, rolando aquele monte de escombros...cujo topo foi parar na boca daquela coisa. Ele fechou os dentes grandes e pontiagudos, mirando a mim, mas acabou devorando os entulhos. Quando eu cai no chão, sentindo minhas costas doerem e pegando fogo, eu não parei...eu me levantei como um doido e também comecei a correr como tal. Quando aquela coisa rugiu, fazendo as janelas dos carros ao meu redor estourarem e eu quase perder o equilíbrio, eu comecei a chorar. Lagrimas corriam pelo meu rosto sujo de pó e embaçavam minha visão. Mas eu não diminui...
 Eu devo ter corrido uns 50 metros até ele me pegar.
 Uma de suas patas...mãos...sei lá, foda-se...me pegou. Se fechou ao meu redor e fez tudo estalar. Eu gritei. Eu me debati. De nada adiantou.
 - ME SOLTA! - Eu berrava enquanto aquela coisa me levava de encontro a sua face. O filho da puta parecia que sorria. Que estava gostando daquilo. Me vendo sofrer...
 Eu trinquei os dentes. Os trovões aumentaram...os raios iluminavam os céus, criando fissuras...
 Ele abriu a boca pra me engolir.
 - EU MANDEI... - Mais trovões...ele parou por algum motivo.
 - VOCÊ... - Raios vieram...azuis, fortes, iluminando tudo...

ME SOLTAAAAAAAAAAAAR!

 O que aconteceu de novo, não consigo encaixar direito. Um clarão se deu. Eletricidade em sua mais pura forma atravessou o corpo daquela criatura...e também ao meu. Ele rugiu quando me soltou e me fez cair duma altura de 15 metros, batendo a cabeça no chão...mas seu rugido foi de medo. De dor.
 Eu sorri antes de apagar...
 ...
 Tentei lutar, ficar acordado..tudo o que fiz foi me arrastar um pouco...tentando ignorar o sangue que escorria da minha testa...tentando respirar direito...
 ...
 Então, meu corpo caiu. Minha menta mandava, mas ele não respondia.
 ...
 Tai...
 ...
 Família...
 ...
 Por favor, estejam me esperando...
 ...
 Eu não quero ficar Sozinho...

Nenhum comentário:

Postar um comentário