domingo, 16 de agosto de 2015

Sozinhos: Gênesis - Capítulo 4

 - Amor.
 - ...
 - Amor, acorda...
 - Já são 05:30?
 - Já. Tem de me levar no ponto. Você prometeu.
 - Eu sei, eu sei...
 - Você tá bem?
 - Sei lá...eu tive esse sonho estranho...
 - Sonho ou pesadelo?
 - Pesadelo...
 - Como era?
 - Tudo acabava. As pessoas sumiam. As casas, as ruas...pareciam cemitérios...
 - Amor...
 - Parecia...a parte cinza do inferno.
 - Victor...
 - O que?

 Você me deixou pra morrer.


 O que me fez acordar foi o frio.
 Tentei abrir os olhos e isso os fez arder. Tentei me mexer e meu corpo mal respondeu, mas onde quer que eu estivesse, era áspero. Tentei respirar...e tossi. Algo gosmento ocupava meu nariz e boca...e tudo que fiz foi vomitar.
 Depois disso, eu consegui levar oxigênio para os pulmões. Inspirei fundo e demoradamente umas cinco vezes até que eu voltasse a mim.Tentei abrir os olhos de novo e arderam como antes. Foi ai que reparei que aquela gosma também estavam cobrindo eles...e ao tentar tirar, percebi que estava nas minhas mãos também.
 Me foquei em respirar. Depois, em me mexer. Nessa hora eu conclui que, o que fosse que estivesse espalhado nos meus olhos e mãos, estava no meu corpo todo e no chão. Depois de cinco minutos, consegui sentir a circulação voltar ao meu corpo. Com toda minha pele formigando, fiquei de pé e com cuidado, procurei uma parede. Minhas mãos acharam uma superfície áspera, mais do que o chão. Me apoiei naquilo e me mantive em pé. Dei três passos...até a parede acabar e eu ir de cara pro chão por perder meu apoio.
 Cai e ali fiquei. Rosnei, mas não me mexi. Respirava com dificuldade e não fazia ideia de onde estava. Eu não tinha bebido tanto assim...
 Fiquei ali até o formigamento passar. Tentei me levantar de novo. Meus músculos responderam bem. Sabe aquela leve puxada no seu braço quando você dorme em cima dele? Era isso o que eu tava sentindo no corpo todo.
 Que merda.
 Me levanto, cambaleio, mas fico de pé. Sem ver nada, sem ouvir nada...o desespero quase tomou conta de mim. Respirei fundo e comecei a tatear ao redor...eu precisava achar uma toalha, um pano ou...
 ...
 UMA PIA!
 Não sei onde estava, mas tinha uma pia ali. O metal frio e liso era inconfundível. Tateei até achar a torneira e liguei. Na hora que coloquei as mãos em baixo da corrente de água, aquela gosma começou a cair facilmente. Enchi a mão e passei no rosto e cabelo.
 E ai, eu olhei ao redor.
 ...
 Eu vou tentar explicar direito o que eu vi primeiro antes de dizer o que senti e pensei.
 Eu tava na casa minha vó. Na laje. O que me apoiei primeiro e cai foi na churrasqueira de tijolos do meu avô. A laje era grande, cabendo uma mesa que usávamos sempre para almoçar nos domingos, um sofá ao lado da churrasqueira, coberto com um pano amarelo e florido que minha vó mesmo costurou. Em frente ao sofá tinha um murinho baixo que servia de proteção para evitar uma queda para o quintal de baixo. Ainda tinha a lavanderia a minha esquerda e um pequeno banheiro lá dentro.
 Só que entre o sofá e a churrasqueira...tinha um casulo enorme preso a parede.
 O que eu senti primeiro foi desespero. Depois repulsa. E por fim, mil e uma duvidas.
 Que merda era aquela?
 ...
 Merda...
 Meu estomago revirou...me curvei e botei tudo pra fora. Vomitei o que parecia ser a própria gosma...fiquei de pé...ergui minha cabeça para o alto e gritei.
 Gritei o mais alto que pude e o mais longe que eu conseguia. Deixei toda raiva fluir. Todo o ódio que eu tinha guardado durante um bom tempo.
 Que merda tava acontecendo?
 Que merda tava acontecendo?
 Que MERDA tava acontecendo?
 QUE MERDA TAVA ACONTECENDO?
 ...
 Eu parei...respirava fundo e atordoado...
 - Vó? - Eu pensei em chamar e já gritei. Minha voz saiu rouca. Fraca. A garganta doeu. Engoli com dificuldade e senti meu estomago embrulhar de novo...
 - Vó... - Eu forcei a dizer. Entrei na lavanderia. Nada. A maquina desligada, o tanque sem pingar uma gota da torneira. No banheiro, nada nem ninguém.
 - Vó... - O som saiu mais alto agora. Doeu, eu aguentei. Sai de lá...tentei não olhar para o casulo, não era algo que eu queria ver. Desci os dois degraus que dava para o nível mais baixo da laje e já comecei a descer a escada de paralelepípedo.
 - VÓ! - Gritei, desesperado. Eu comecei a chorar, pela dor e pelo medo. Eu descia aquela escada o mais depressa possível. Quando estava no meio, cai. Escorreguei naquela gosma em meus pés. Rolei degraus a baixo e parei com um baque surdo no piso de lajota vermelha do quintal da frente.
 Estava nu, coberto de gosma e machucado. Um corte havia aberto no meu ombro e saia sangue dele. Eu simplesmente me encolhi e chorei, que nem um bebê que acabou de sair do útero.
 Não sei quanto tempo eu fiquei ali. Só sei que tirei tudo do meu peito. Fiquei ali até meus olhos estarem inchados e vermelhos e meu peito levantar e abaixar devagar com alguns soluços ocasionais.
 Até que tudo veio pra cima de mim, como uma onda que te arrasta para pedras pontiagudas.
 A correria. A luta. O gosto da vitoria. A felicidade. A bebedeira. A tristeza. A ligação. A escuridão. O medo. Os céus se fechando. O mendigo...e o fim do mundo.
 Então eu voltei aos meus sentidos. Eu voltei a mim mesmo. Eu me sentei, passei a mão pelos cabelos, fazendo aquela coisa cair na minha nuca. Foi estranho. Aceitei o fato com uma facilidade tremenda...a situação, o que quer que tivesse acontecido, não era normal. Estava bem longe de ser normal. Mas era assim que era...
 Eu estava bem longe da casa da minha vó quando tudo aquilo aconteceu. Depois, eu acordei aqui. Eu fiquei de pé e voltei pra laje e olhei para o casulo.
 Nojento pra caralho.
 A coloração era rosada com manchas vermelhas. Uma versão mais espeça daquela gosma que cobria meu corpo estava em volta dele, o prendendo na parede.
 Eu tinha saído daquela merda...
 Eu respirei fundo. Eu tinha, primeiro, que me acalmar, pensar direito...se não, eu perderia o controle da situação, o pouco controle que eu tinha.
 Primeiro...era tirar aquela bosta que tinha espalhada no meu corpo.
 Desci de novo, passei pelo quintal. Entrei pela cozinha, virei a esquerda, fui até o corredor e entrei no banheiro. Entrei, fechei e tranquei a porta. Mais por reflexo do que por qualquer outra coisa.
 Quando me virei, fui me ver no espelho. Tomei um puta susto.
 Não era por causa da gosma. Era por causa do que eu vi ali.
 Não era eu. O rosto, bem parecido...mas a minha barba havia voltado. Estava meio grande, mas ainda justa ao meu rosto. E meus cabelos...bem cortados. As entradas, herdadas do meu pai, haviam sumido. E meu corpo...havia crescido. Era o tipo de corpo que se conquistava com 10 anos de treinamento árduo, dieta e muita, mas muita paciência. Eu estava definido. Forte. Grande. O tipo de corpo em perfeito equilíbrio entre força e velocidade.
 E tinha aquele colar.
 Olhei no espelho e depois, peguei na minha mão. Era uma corrente de prata, meio fina, que fazia que um pingente da mesma cor ficasse no meio do meu peito.
 Era uma pequena espada. Detalhada e bem trabalhada. Nunca tinha visto aquilo.
 Com os dedos, percorri a corrente, tentando achar o fecho pra abrir e tirar. Depois de percorrer três vezes, tive a certeza de que não tinha um.
 - Mas que caralhos...
 Puxei. Puxei com toda força que tinha e tudo que consegui foi machucar meu pescoço e minhas mãos.
 - Ah, mano, que se foda...
 Depois do choque superado, eu me coloquei debaixo do chuveiro. Assim que a água tocou meu corpo, boa parte da gosma saiu e senti o ferimento no meu ombro arder. Passei o dedo ali, pelo menos não sangrava mais. Peguei o sabonete e fiz meu trabalho. Sai, me enxuguei. Sai do banheiro e fui para o corredor. Entrei a esquerda, no quarto dos meus avós...
 ...
 Vô...
 ...
 Na segunda gaveta a direita, tinha roupas minhas. Eu vim dormir ali uma vez e acabei deixando algumas camisas, uma calça e um par de tênis. Nunca tive tempo, nem disposição pra ir buscar. Graças a Deus. Eu amava meu vô, mas vestir os suéteres dele. é a mais.
 Vesti a camisa branca lisa, a calça jeans azul escura e os tênis brancos que tinha ali. Ai, eu lembrei o porque não tinha vindo busca-los. Pareciam sapatos ortopédicos. Mas era o que eu tinha.
 Vestido, tudo ok...agora eu precisava saber o que tava rolando.
 Ninguém estava em casa, nem me dei o trabalho de ver nada. Passei de novo no quintal e fui até o portão da frente. Tentei e o portão abriu. Assim que sai na rua a sensação de desespero voltou.
 O silencio era tanto que até senti o sangue fluir em meus ouvidos. Não tinha ninguém. Nenhum ruido que fosse. Nem carros passando na rua, nem pássaros voando...só aquele silencio que fazia parecer que o tempo tava congelado.
 Comecei a subir a rua e ver os detalhes. As janelas...algumas estavam quebradas. Outras, só rachadas, outras abertas. Os carros na rua...mesma coisa. Alguns com pneus furados, janelas quebradas e por ai vai.
 Fora isso, nada...todo mundo havia sumido.
 Eu estava...
 ...
 Passos.
 Estou ouvindo passos!
 Pés descalços...estavam vindo da rua de cima. Estava...
 Uma garotinha. Uma menina, não devia ter mais de 10 anos. Estava vestindo uma camisa branca e uma saia vermelha. Ela estava correndo e ia passar direto quando eu gritei.
 - HEY! - Ela parou e olhou pra mim. - AQUI! - Ela ficou dois segundos olhando...e disparou em minha direção. Primeiro, fiquei feliz, achei que ela precisava de companhia...
 Até que olhei melhor...
 Puta que pariu...
 Os olhos da menina...não havia olhos...eram duas covas negras. A boca, bochechas, queixo, estavam cobertos com alguma coisa vermelha...
 Não demorou muito e eu corri de volta. Desci a rua no maior pau com o som dos pés descalços daquela garota atrás de mim. Derrapei na calçada, me agarrei no portão pra não cair, entrei e fechei o portão.
 Não tinha chave pra trancar...
 Naquela hora, a menina bate no portão.


 A visão era de filme de terror. Ela começou a rir, os braços dela se esticando, tentando me alcançar. Ela não tentava abrir o portão ainda. Mas não ia demorar. Eu corri pra dentro de casa, na cozinha, tinha o preguinho onde colocávamos as chaves. Demorei um pouco pra lembrar e achar a chave...
 Foi quando escutei o barulho. Foi um estrondo seguido de mil risadas...
 Quando corri no quintal, eu tremi.
 Mil daquelas coisas estavam empurrando o portão. Mil daquelas coisas, meninas, meninos, todos vestidos com trapos e com os rostos cobertos de borrões vermelhos, rindo e tentando me alcançar, sem conseguir passar nas barras. Eu precisava ainda, trancar o portão...eu ainda tinha que ganhar tempo, tentar me esconder ou pular o muro para a casa vizinha.
 Aquilo era surreal...meu coração pulava. Se fosse nos dias normais, ou eu estaria correndo, gritando foda-se ou sentaria, congelado pelo medo. Mas naquela hora...naquele momento, eu estava motivado. Estava tudo na minha mente. Trancar o portão, dificultar a entrada delas e correr para a laje e pular para o muro vizinho...
 Seja lá o que fosse que estivesse acontecendo, eu não ia conseguir as respostas se caísse nas mãos daquelas merdas.
 Cheguei perto e elas se agitaram mais. Os braços delas tentando me alcançar...eu tinha de alcançar a fechadura, encaixar, virar a chave, tirar e correr. Fácil...fácil...
 Me estiquei, tentando encaixar a chave na fechadura. Os braços não deixavam que eu fizesse isso normalmente. Eu ia bem, eu ia conseguir...até que, parecendo que tinha visto qual era meu plano, um dos bracinhos se esticou pra cima e abriu o trinco...
 Eu tentei correr de costas e acabei cair no chão com tudo. Aqueles monstros entraram com tudo, tropeçando um em cima do outro, rindo e tentando me pegar. Meu coração parecia que ia sair pela boca. Ele martelava meu peito de uma tal forma que doía. Eu engatinhava de costas, tentando não ser pego por nenhum deles.
 - SAI! - Eu gritei. - SAI DE PERTO, PORRA! NÃO ENCOSTA EM MIM! - Os risos aumentaram. Eles vinha mais rápido agora. Eu consegui ficar a uma certa distancia deles...mas o caminho acabou. Cruzei o quintal, entrei na cozinha e fiquei de costas para a geladeira. O quintal de encheu deles...rindo e vindo me pegar.
 - SE AFASTEM! - Eu gritei. - AFASTA! - Eu acabei mostrando uma das mãos, como se falasse pra eles pararem. - VÃO EMBORA! - Eles riam e vinham...uma onda de rostos ensanguentados infantis e risadas finas e agudas...
 Chega uma hora que o medo vira raiva.
 - SAI DE PERTO, CARALHO! - Meu coração batia mais rápido ainda. Meu braço estendido começou a formigar. - SAI! - Eles chegavam mais perto.
 - EU MANDEI...
 O formigamento aumentou...primeiro no meu ombro...
 - VOCÊS...
 Desceu pelo meu braço...uma coceira...uma energia fluindo...

SE AFASTAREEEEEEEEEEEEM!

 O que aconteceu em seguida, tirou o sorriso da cara daqueles demônios. Literalmente.
 Meu braço se iluminou...iluminou mesmo. Uma luz alaranjada, um pouco voltada para o vermelho. Consegui ver os contornos escuros dos meus ossos dentro dele. E depois, o barulho de um canhão. O estouro foi grande. O deslocamento de som quebrou as janelas e porta do microondas da cozinha...
 Ficou tudo em câmera lenta.
 O que saiu da minha mão foi uma esfera de luz bruxuleante. Como uma bala saindo de uma arma grande, levando consigo todas as minhas forças. A porta da cozinha, junto com as paredes ao redor dela desapareceram. As crianças perderam seus sorrisos em suas bocas ensanguentadas. Depois do clarão...eu só vi cinzas. A tal esfera atravessou o quintal e destruiu o portão e ainda puder fazer algum dano na parede do outro lado da rua.
 O tranco de tal ataque foi forte. Me fez bater o corpo e a cabeça na geladeira com força...
 Com o pouco de consciência que tive, pude registrar isso...
 Minha visão ficou turva. Tudo embaçado e um zumbido chato em meu ouvido...
 A ultima coisa que vi antes de apagar, foram os montes de poeira...cinzas...forrando o chão e sendo levadas em poucas quantidades pelos ventos...
 E a ultima coisa que pensei...foi na voz dela...
 ...
 Será que ela tá lá fora?
 ...
 Será que alguém tá lá fora?
 ...
 Ou eu estou Sozinho?

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