sexta-feira, 26 de junho de 2015

Sozinhos: Gênesis - Capítulo 3

O som combinava com o momento.


 Gomes não tirava o cinturão pra nada. Estava ali, reluzindo em sua cintura. A vitoria contra Belfort foi linda. Segundo Round. Nocaute. Um muque bem debaixo do queixo. Belfort desmoronou ao chão de uma tal forma que me deixou de queixo caído. A garganta ainda dói depois de tanto gritar. Os músculos dos braços ainda doem porque, depois da vitoria, Gomes quebrou o protocolo (e a porta do Octógono) e correu pela arquibancada, ignorando todo mundo e chegando até nós. Abraços rolaram e eu e Heitor carregamos o Campeão pelas costas até dentro da Arena novamente para poder receber o cinturão.
 Depois dali, o cara tinha mil e uma opções. Poderia ir pra uma festa enorme promovida pelos patrocinadores, poderia ir pra galera, o que fosse...mas ele preferiu ir para a Oficina de Garcia, onde uma festa simples com pessoas simples o estaria esperando. O local era agradável. Não era como aquelas oficinas todas fechadas. Não tinha teto, era aberto. Só algumas pequenas coberturas para os carros. Ficava depois da Rua João 23.
 Tinha tudo que precisávamos ali. Cerveja, vodka, churrasco, radio alto, todo mundo se conhecia...um ambiente família, como todos nós gostávamos.
 O pai dele, que eu nunca vi com outra expressão que não fosse sério ou com o sorriso de quando nos cumprimentava, não conseguia parar de chorar.
 - Meu orgulho. Meu maior orgulho. - Ele não parava de dizer entre uma soluçada e outra. A mãe dele, a mesma coisa, só que ela era mais sorrisos.
 Bianca, a namorada do Campeão, estava ao lado dele o tempo todo. Sorrindo, já tinha chorado demais. Estava feliz por ele. Assim como nós, ela sabia o quanto ele tinha lutado pra chegar ali. Garcia e Tai estavam como o resto de nós, dando espaço para Gomes ir e vir onde ele quisesse na festa. Heitor e Tamires tiravam o atraso depois de tanto tempo em algum canto, atrás de algum carro. Outros parentes de Gomes e alguns amigos em comum iam e vinha e curtiam a festa.
 Eu...estava de boa, com uma cerveja na mão olhando todo mundo. Fiquei cuidando da churrasqueira um tempo até o pai do Garcia se candidatar a vaga. Fiquei olhando um pouco e sai. Abri a porta de metal e fui pra rua, totalmente vazia, ainda ouvindo a musica mesmo dali. Me encostei na arvore ao lado da porta e fiquei olhando pro chão cinza banhado de amarelo pela luz do poste.
 Dei um gole generoso na Corona e fiquei pensando um pouco nas coisas...
 Engraçado como, mesmo quando está em um momento bom, quando algo foi conquistado, a nossa mente tem essa mania escrota de fazer a gente pensar no que perdeu, no que ainda não está pronto...foda essas coisas...
 - Borges? - Ouvi a voz familiar e virei para trás. Heitor estava ali, com um puta chupão no pescoço e respirando que nem um cachorro com asma.
 - Tava bom ein? - Ele dá uma risada e fica do meu lado. Ficamos ali, mirando a rua vazia durante uns cinco segundos. Ofereço a cerveja pra ele. Ele dá um gole e já começa a falar.
 - E ai, tá tudo bem?
 - Tá sim. - Eu respondi.
 - Veio ficar sozinho porque?
 - Vim peidar.
 - AH, CARALHO BORGES! - Eu ri muito naquela hora. Ri tanto que deixei a cerveja cair. Heitor tampou o nariz e tentou não gargalhar também, mas falhou miseravelmente.
 - Ai ai, essa foi boa. - Eu disse enxugando as lagrimas.
 - Foda. - Ele colocou a mão no meu ombro. - Vamos lá pra dentro?
 - Vou ficar aqui e peidar um pouco mais. - Ele deu uma risadinha e continuou.
 - Ah, vamo lá, vai. Eu to longe faz muito tempo, quero todo mundo junto.
 - Ah, velho, eu...sei lá, eu to aqui pensando só... - Heitor então fez o que só o Heitor faz...o cara leu minha mente através da minha expressão.
 - Tá pensando nela, né?
 - Não. - Negar era uma questão de honra, apesar de nunca funcionar.
 - Tá pensando em que então, Borges?
 - To pensando em onde deu errado. - Chutei uma pedra que tinha na minha frente e me apoiei na arvore novamente.
 - Não faz bem ficar pensando nessas coisas, Borges. O passado tem de passar pra você seguir em frente. Pode ser chato, duro, mas no fim das contas, você consegue.
 - É, eu sei. - Eu dei outro gole. - Eu só acho que ainda não to pronto pra passar, cara. Tipo...é aquela coisa estranha de se martirizar...
 - Melancolia? - Heitor sugeriu, colocando as mãos dentro da jaqueta.
 - Não, não, não chega a tanto, é mais pra...questionamento, entende? - Ele se limitou a balançar a cabeça devagar, concordando, ficando em silencio, esperando eu continuar. - É se perguntando como algo que durou 6 anos pode ter acabado do dia pra noite. Como algo que ficamos trabalhando pra construir de repente desmoronasse. É isso que eu me questiono. Não é tristeza, é meio que...raiva.
 - Por que raiva?
 - Sinto que perdi tempo. - Eu respondi a ele com mais energia do que esperava. - Sinto que podia ter colocado minha energia e tempo em outra coisa e AI...vem a parte da raiva.
 - AGORA vem a raiva? - Heitor questionou.
 - É, só agora.
 - Como?
 - Eu fico com raiva porque não me importo. - Ele levantou uma sobrancelha, a cara que fazia quando estava confuso.
 - Como assim?
 - Não me importo com aquele tempo que gastei, eu não me importo do dinheiro que gastei, não me importo de tudo que fizemos juntos ter tirado algumas noites de sono...aquilo foi bom pra caralho, mas...eu to com raiva de pensar que tudo aquilo foi em vão...sendo que foi tão bom. Eu sinto...raiva por não deixar de gostar daqueles dias...só isso...você entende?
 O silencio pairou durante algum tempo...Heitor fitava o chão...até ele olhar pra mim e falar.
 - Melhor do que você pensa. - Senti uma culpa do caralho naquela hora. Eu lembrei de algumas coisas e decidi sair daquela.
 - Obrigado por me ouvir, man...e me desculpa.
 - Relaxa. - Ele disse, já voltando o animo em seu rosto. - Vamos lá pra dentro agora?
 - Vamos sim.
 Eu respondi a ele e íamos entrar.
 Quando Heitor girou a maçaneta de alumínio e fez o clique de abriu...a escuridão veio...
 Como se a maçaneta fosse o gatilho de uma bomba, as lampadas da rua explodiram. Eu e Heitor nos abaixamos na hora, achando que podia ser tudo, menos aquilo.
 - Eita, porra! - Alguém lá dentro gritou e foi ai que notamos toda a escuridão e o silencio. Tudo que era eletrônico parou de funcionar.
 - Que porra é essa? - Eu perguntei.
 - Não sei...mas eu não to legal. - Heitor disse e na mesma hora, a porta foi aberta com tudo. Algumas luzes vieram de celulares mexendo nervosamente. Garcia e Tai saíram primeiro pra rua, seguidos de todo o resto dos convidados. Gomes segurava Bianca pela mão e Tamires veio de encontro ao Heitor. Todos olhavam para cima, procurando alguma luz ou esperando que voltassem.
 - Apagão?
 - Só pode. - Alguém disse aquelas palavras mas não levei aquilo a sério...o que eu só conseguia pensar era - Eu não to legal. - Igual ao Heitor.
 Até que senti algo vibrar na minha perna. Meu celular. Provavelmente minha mãe, irmã ou...
 ...
 Aline?
 ...
 - Alô? - Eu atendi, atraindo o olhar de algumas pessoas.
 - VICTOR! - O grito dela veio agudo, cheio de medo...
 - Aline?
 - ONDE VOCÊ TÁ?
 - O que foi?
 - ME DIZ ONDE...
 - O QUE FOI ALINE? - Eu gritei de volta. Ouvi Gomes sussurrando "Aline?" pra alguém, mas não me importei.
 A resposta dela foi um choro abafado. Antes que eu pudesse falar qualquer outra coisa, ela disse.
 - Me ajuda... - E tudo ficou mudo.
 - Aline? ALINE! - Eu gritei algumas vezes e olhei pra tela. Estava desligado. A bateria parecia ter acabado. Dei alguns toques na tela, rosnando. - Funciona, pedaço de merda, FUNCIONA!
 - Borges, o que foi que... - Tai ia dizer algo, olhei pra ela...mas ela se interrompeu. Ela esbugalhou os olhos e fitou os céus. Uma luminosidade roxa estranha mudou o tom de sua pele.
 Olhei para cima e não fazia sentido o que eu via...
 O céu...estava roxo. Luzes dessa cor cortavam as nuvens negras que se formavam ali.
 - Todo mundo pra dentro! - A voz do pai de Gomes veio como um trovão, mas eu não conseguia me mexer. Eu estava hipnotizado por aquilo. Dava medo...mas era lindo. - TODO MUNDO PRA DENTRO, AGORA! - Ele gritou novamente, e eu ainda fiquei olhando para lá...
 Até que as nuvens começaram a se mexer. Trovões iluminavam seus interiores. Fortes, altos...faziam tudo tremer...
 As nuvens se mexiam depressa...pareciam se juntar e girar...formando uma espiral no céu. Os trovões ficaram mais fortes...mais altos...luminosos...
 - Haha... - A risada me tirou daquela sensação hipnótica. Eu olhei para frente. Aquela risada...era familiar e estranha ao mesmo tempo, era...
 - Você... - Eu sussurrei pra mim mesmo. - Você era o cara de hoje mais cedo...e lá no aeroporto! - O mendigo que eu tinha visto nesses lugares estava ali, na minha frente, no final da rua... - O QUE VOCÊ QUER? - Eu comecei a andar pra cima dela. - TÁ ME SEGUINDO PORQUE? - Eu nem tinha chegado perto dele quando os gritos começaram.
 Voltei pra olhar para cima.
 O que eu vi...é muito difícil de descrever...
 Algumas pessoas viram um Meteoro Gigante surgir no meio daquela espiral das nuvens...e realmente parecia com um...do tamanho de um continente inteiro, fumegando, queimando, trazendo consigo toda a destruição que algo nesse universo poderia existir.
 Mas eu vi...juro que vi...algo mais. Era como uma massa...algo bem diferente. O meteoro caia, mas...se mexia...seu núcleo se mexia. Se retorcia!
 - O que é isso? - Eu perguntei a mim mesmo. O mendigo se virou para mim...abriu os braços, fechou os olhos, jogou a cabeça para trás e disse calmamente...
 - Arrebatamento.
 Eu tentei processar o que ele dizia...mas aconteceu de novo...

 Lute!

 A voz...ela rugiu de novo...me fez se curvar...

LUTE!

 A intensidade...era maior...não parcia uma voz, parecia alguém segurando na minha garganta e me mandando...

LUTE!


 Eu cai de joelhos. Fiquei exausto do nada. Olhei para cima e assisti aquela coisa caindo dos céus, sem poder fazer nada...não sentindo quase nada...só a ponta dos meus dedos formigando...
 O meteoro se chocou com a força de um Sol se explodindo. A força do impacto fez tudo...tudo se levantar. Ele caiu longe, bem longe de mim, mas não demorou para as ondas do impacto chegarem a mim.
 Doeu um segundo. Um só. Nada mais.
 Eu virei cinzas.
 Pó.
 E tudo ficou negro.
 A mais profunda e obscura escuridão.































































































Mas de alguma forma, eu ainda existia.



























































































































































































































































































































































































































Minha consciência, meu ser...
Flutuava...ou fazia parte daquela escuridão sem fim....









































































































































































































































































































































































































































































































































































Eu me sentia estendido, comprido e largo...como se meu corpo fosse um tipo de lençol que se espalhava sem parar...tentando cobrir algo muito maior que ele...

































































































































































































































































































































































































































Até que veio a dor novamente. Um segundo de novo.
Frio...muito frio...
Tão frio que queimou...
























































Estalos vieram de trás de mim. Como rachaduras se formando em uma parede. Senti aquela sensação de "esticado" passando pouco a pouco. Foi substituída por fragilidade. Me sentia fraco, vulnerável, exposto...como se fosse somente feito de ossos...tudo pronto para ser quebrado.



























































































 Me senti solidificar. Músculos cresciam em cima daqueles ossos.Eu começava a tomar uma forma desconfortável, mas ainda assim, era bom de certa forma. Eu estava ficando inteiro.






























































A dor veio quando me sentia completo novamente. Um arrepio se passou pela minha pele, a arrepiando, a fazendo se contorcer...eu tentei gritar, mas...quem me ouviria naquela escuridão?





























































Uma luz...
































































Uma luz vindo de trás de mim...

































































Eu forço meu corpo a se virar, mas...quando eu viro, a luz também vira...ela continua em minhas costas e....

































Não...



















































Não está em minhas costas, está...próximo a mim, ao meu lado é...





































Minha mão!






















































































































Minha mão é a fonte da luz...está totalmente branca, iluminada
Com feixes dançando entre meus dedos...como se fosse feito de neon...
Eu me sinto bem em olhar pra ela...sinto que...
Sinto que estou vivo.
Quero continuar me sentindo assim.








































































Eu a cerro em um punho...sinto que estou pegando minhas vida em minhas mãos...sinto que aquela sensação gostosa, de vida, está ali...mas não devo segura-lá...eu devo libera-lá, solta-lá...fazer dela realidade, infinita...
Abro minha mão.
Então tudo se ilumina.
Tudo fica o mais claro e receptivo branco.
E naquela hora, eu sei...eu sinto...que estou vivo de alguma forma.





































































A gravidade resolve fazer efeito e sou puxado para baixo...e eu não me importo...não consigo me importar...





















































Até que tudo fica escuro de novo.
Escuro...quente...e úmido.














"No princípio Deus criou os céus e a terra. Era a terra sem forma e vazia; trevas cobriam a face do abismo, e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.
E então, Deus disse: 'Que haja luz!'
E houve luz."

Gênesis - Capitulo 1 - Versículo 1, 2 e 3.

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