sexta-feira, 26 de junho de 2015

Rosa dos Ventos Frios

Mais um Capítulo de Noturnos

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JASON NIGHTCRAWLER

 - O dobro ou nada! - Ele grita, bate na mesa de sinuca e rosna. Parece um cachorro assustado. Não está acostumado a perder e eu cheguei pra deixa-lo desconfortável. Zorro, perto dos meus pés, levanta a cabeça. A boca dele saliva. Está ficando com fome.
 - Eu não to afim. - Eu respondo, dando mais uma tragada no cigarro. Ele rosna de novo.
 - Você tá me tirando? Seu mer... - Zorro se levanta. Ele está de pé, rosnando e olhando para o homem. O mesmo dá um passo pra trás e olha pra mim.
 - Tira essa cadela de perto de mim! - Ele grita. Ele faz menção de pegar algo nas costas.
 - Hey. - Ele trava nomeio do caminho. Deve ser porque meus olhos estão vermelhos. - Deixe o dinheiro em cima da mesa e saia pelos fundos. - Ele fica olhando para mim por um tempinho. No final, ele tira duas notas de 50 dentro do bolso e coloca na mesa. Ele dá meia volta, empurra o segurança e sai pela porta do lixo.
 Pego o dinheiro coloco no meu bolso. Passo a mão na cabeça de Zorro, que coloca a linguá pra fora e começa a arfar. Eu volto a sentar no banquinho, apoiado pelo taco de sinuca em minhas mãos. O cigarro continua na minha boca e eu volto a olhar ao redor.
 O som é de Elvis Presley. Suspicious Minds. Saindo de uma Jukebox ligada a mais umas seis caixas de som espalhadas naquele bar. O som se embaralha perfeitamente a orquestra do local. Bolas de bilhar, copos batendo na mesa, gente conversando. As pessoas estão vestindo jaquetas de couro, camisas de White Snake e Deep Purple. Elas fumam, bebem, riem e respeitam a si mesmos e ao local. Jogam, brincam e pedem desculpas se trombam em alguém, recebendo um sorriso como resposta. Os rapazes tem cabelos cumpridos ou bem arrepiados. As garotas tem cabelos curtos e coloridos. Eles conversam sobre sexo, drogas, bebidas, politica, musica, crises internacionais, guerra e seus motivos fúteis, sistema educacional, sobre tudo. Vão das coisas mais fúteis as coisas mais importantes, de um comentário a outro.
 É como se aquele lugar tivesse parado no tempo. Um tempo que parece a milhões de anos atrás.
 Eu gosto desse lugar.
 - Vai querer mais alguma coisa? - Eu viro de costas para ver atendente. Uma loira, com luzes nas pontas dos cabelos. Seu batom vermelho é forte, assim como seu sutiã 42 por estar segurando seios 44. Ela sorri e espera a resposta.
 - Mais uma cerveja, por favor. - Como magica, ela tira uma garrafa debaixo da mesa, destampa e passa pra mim.
 - Por conta da casa. - Ela gesticula pra porta. - Aquele cara gritava muita merda por aqui. A gente sempre tinha de conter ele. Pedir pra ele sair. Quebrava um ou dois copos e saia.
 - Cachorro que late não morte. - Eu respondo, pegando a garrafa. - Mas obrigado. Seu nome?
 - Esme. - Ela sorri. Eu sorrio.
 - Nome bonito. Diferente. - Estendo minha mão pra ela. - Jason. - Ela segura minha mão e sorri mais ainda. Ela não parece notar que minha temperatura corporal é igual a zero.
 - Então, eu saio a meia noite. - Ela diz, colocando o cabelo para trás da orelha. Que clichê. - Que horas você tá pensando em sair?
 - Desculpa, gata. - Eu explico, depois de beber um gole. - Pra hoje, já tenho planos. - Ela sorri sem graça, diz que entende e sai rapidamente.
 Zorro dá uma leve rosnada no meu pé.
 - Ow. - Eu respondo, olhando pra ele. - Não vem com essa. Eu tenho mais o que fazer hoje. - Ele rosna de novo. - Eu não vou sair matando todo mundo que você acha gostosa, rapaz. Procure sua própria comida. - Ele late. - Juro que vou arrancar essa sua linguá e jogar sal em cima pra demorar pra crescer DE NOVO se você não ficar quieto. - Ele rosna mais alto, mas no final se deita no chão. Mas continua resmungando. - E dai que eu tirei a barba?! Eu queria que ficasse fácil de ser reconhecido. - E ele para de resmungar. Dou mais alguns goles. Ninguém quer jogar sinuca novamente.
 Não demora muito depois disso. O cheiro familiar bem e inflama meus pulmões.
 Estranho o fato dela estar sem gorro, mas decido não falar nada a respeito.
 Ela entra sozinha. Está usando All Stars no pé. A caça jeans preta está colada no corpo. A camisa regata é branca. A jaqueta de couro curta é negra como seus cabelos longos. Corpo atrai olhares,mas ela os ignora. Seus olhos percorrem cada canto daquele lugar até ela me achar.
 Ela sorri.
 Desfila pelo bar, sobe a pequena escada e passa pelas outras mesas de sinuca. Eu fico de pé e solto o taco em cima da mesa sem fazer qualquer ruido.
 Ela me abraça e me beija. Eu retribuo em todos os aspectos. Se houvesse qualquer coisa entre nós, se transformaria em pó ou diamante, tamanha a pressão que fazemos um ao outro. Não quero larga-la, não quero parar de prova-la. Que o mundo pare, mas que eu e ela não.
 Por fim, ela se solta só um segundo para dizer...
 - Oi Jason. - Ela dá uma leve risada.
 - Oi Bruna. - Eu respondo. Nos soltamos do abraço de leve quando ela olha pra baixo. Zorro está arfando e mostrando a linguá.
 - É seu? - Ela pergunta, já se abaixando e fazendo cafuné nele.
 - O nome dele é Zorro.
 - Zorro? - Ela pergunta, olhando pra mim e ainda fazendo cafuné nele.
 - Longa historia. - E ela dá uma risada e se levanta. - É...temos todos uma longa historia, não é?
 - É. - Eu mexo em seus cabelos. Posso sentir o olhar da atendente nas minhas costas. - Muita coisa acontece em cinco anos.
 - Pensei que você fosse me esquecer. - Ela diz, meio sem graça, se encostando na mesa de bilhar.
 - Não, não. Muito pelo contrario. - Eu sorri, ela sorriu. - Quando Ikeda chega?
 - Ah, ela vai chegar logo. - Bruna se recompôs. Pegou o celular do bolso da jaqueta e viu as horas. A luz bateu em seus olhos...suas pupilas ficaram finas como a de um gato. -  Ela já deve estar aqui, daqui a pouco.
 - Uhum. - Eu volto a me sentar no banco. Pego a cerveja de novo. - Você deveria ter dito que ela era o tipo de pessoa que se atrasa.
 - Ela só se atrasa porque foi buscar a prima. - Eu parei a garrafa no meio do gole.
 - Ein? - Eu pergunto.
 - A prima dela. Perola.
 - Desembucha, Bruna. - Ela deu uma risada leve.
 -Ikeda tem uma prima. Perola Furtuna. - Eu sorri de canto. Zorro prestava atenção na conversa. - Os Furtuna, como deve saber, se declararam abertamente contra o atual Conselho e a Renata. - Ela suspira. - Eles tem ajudado a erguer uma resistência, mas estão em tão pouco numero que permanecem escondidos. Foda encontrar eles. Mas, de acordo com que a Ikeda disse, ela passou esses anos com eles, se aperfeiçoando no que podia. Perola é filha do Conde dos Furtuna e deseja se juntar a nós. - Eu concordei.
 - E por que mesmo? - Eu dou a garrafa para Zorro. O Rottweiler abocanha o vidro, o destroça e em duas mordidas come tudo. Bruna fica olhando pra ele.
 - Ok...você transformou o cachorro e ele continua vivo. - Ela olha pra mim. - Por...?
 - Porque eu quero. - Ela levanta uma sobrancelha com a resposta. Ela dá uma risada e fica olhando o cachorro lamber os cacos restantes no chão. Ninguém parece notar nada. - Bruna...por que Perola Furtuna está querendo se misturar conosco? - Atraio sua atenção novamente. Ela se senta na ponta da mesa de bilhar e cruza as pernas.
 - Ao que parece, Perola quer conhecer melhor o campo de batalha. Ela treinou muito e tá afim de experimentar o que sabe. - Ela suspira e joga sua cabeça pra trás. Ela fecha seus olhos e respira fundo. - E eu também, Jason... - Ela olha para mim. Seus olhos são vermelhos. Seu sorriso é atraente. - Eu aprendi muita coisa, Jason. Muita. O que eu mais quero agora é lutar. Tomar o Conselho de volta...colocar um fim nessa bagunça...o que Renata está fazendo...não é natural.
- Nada do que fazemos é natural, meu anjo. Mas eu entendi o que quer dizer. - Eu me apoio na parede atrás de mim. - Eu também, Bruna. Eu entendo nossa historia agora e a necessidade de Ordem e Progresso. Enquanto ficarmos parados e calados, com medo...nunca alcançaremos toda a grandeza que um dia disseram que teríamos. - Eu respiro fundo. - E eu sei como tomar conta das coisas. Mas...você sabe que não podemos atacar diretamente agora.
 - Não. - Ela diz, descruzado e cruzando as pernas de novo. - Além de Renata ter varias e varias bases pelo mundo todo, o fato dela ser uma figura publica dificulta as coisas. Ela é do tipo que é vigiada 24 horas por dia. Qualquer movimento nosso pode comprometer nossa raça.
 - Além disso - Eu completo. - existe o fato dela já ter morrido e voltado. Não sabemos se agora ela vai ficar morta de verdade. - Eu deixo escapar um rosnado. Zorro guincha. - Temos de procurar tudo antes de fazer nosso movimento.
 - E é claro...juntar um pessoal. Porque guerras não se ganham sozinhas. - A voz dela veio como a canção de sereias a Odisseu. Atraiu a muitos, inclusive a mim e a Bruna.
 Ela vestia uma bota de salto curto que ia até acima da canela. A calça jeans preta estava toda rasgada em algumas partes da coxa. Sua jaqueta de couro escura estava fechada até próxima ao pescoço. Seu cabelo solto, agora, ia até o fim de suas costas e balançava de acordo com o mexer de seu corpo. Sua pele era um pouco mais pálida do que me lembrava e seus lábios estavam tão negros quanto sua vestimenta.
 Ikeda vinha até nós...e estava acompanhada.


 - Boa noite. - A japonesa disse, sorrindo e retribuímos. Ela me cumprimenta primeiro, com um beijo no rosto e um abraço apertado, porém rapido. Ela se demora mais com Bruna.
 - Oi... - ela diz, quase num sussurro.
 - Oi... - Bruna responde e elas se abraçam. Quase tão apertado quanto eu e Bruna fizemos alguns minutos mais cedo.
 - Por favor, vão pra um quarto. - A garota que acompanha Ikeda diz isso. Ela está vestindo uma jaqueta igual a de Ikeda e sorria com sarcasmo. Cabelos loiros escuros com luzes claras em suas pontas. Não pude deixar de comparar com a Barwoman de mais cedo, mas com a vampira a minha frente, o estilo lhe caia melhor. Ela usava uma saia jeans meio curta e botas que iam até o joelho com salto alto agulha.
 Ela se virou, sorriu pra mim e estendeu uma mão.
 - E você...é Jason, não é? Jason Nightcrawler.
 - É. - A cumprimentei. - E você deve ser Perola. Perola Furtuna.
 - A própria. Prazer em conhecer você, o Campeão da Gaiola.
 - Ah, sim, Ikeda andou te contando o que eu fazia.
 - É, algumas coisas.
 - Espero que não tudo.
 - Não, não, ela parecia saber pouco sobre você. Só contou a respeito da gaiola, habilidades e relacionamento com a Bruna.
 - Hm, entendo. Desculpe, mas, antes de hoje, eu nem sabia que você existia.
 - Ah, eu considero isso um elogio.
 - Vocês podem soltar a mão um do outro, sabia? - Ikeda diz. Foi ai que notei que ainda segurava a mão de Perola. A soltei, ela riu meio sem graça.
 Tentei não olhar diretamente pra Bruna pra ela não me fuzilar com os olhos, mas foi inevitável. O clima ficou mais ameno quando Ikeda viu Zorro. Brincou com ele e tudo mais.
 - Bom... - Ikeda disse. - Estamos todos aqui. Podemos ir?
 - Não podemos ainda. - Eu disse, organizando as bolas de sinuca dentro do triangulo. - Também estou esperando alguém. - Tirei o triangulo e posicionei a bola branca. - Ele chega a qualquer minuto. - E dei uma tacada. As bolas dançaram sobre a mesa e encaçapei logo a 8.
 - Quem tá vindo? - Bruna perguntou, observando o jogo.
 - Victor. - Dei mais uma tacada, mas errei o buraco. Ikeda pegou outro taco e começou a jogar junto.
 - O Espectro? - A japa pergunta, tando uma tacada e encaçapando a 5.
 - Ele mesmo. - Eu respondo, analisando a próxima jogada. - Ele tá evitando voar e usar a armadura dele agora. Tem muita gente de olho pra esse tipo de coisa. - Todas concordaram. Bruna foi até o balcão e pediu algumas bebidas. A atendente foi bem gentil com ela, apesar de tudo. Não demorou cinco minutos e todos estavam com cervejas na mão.
 - Ikeda...e os Shadewalkers? - Eu perguntei, depois da jogada dela.
 Ela demorou um pouco para responder.
 - Estão mal. - Ela respondeu, tentando mirar. - Muito mal. - Acabou batendo forte demais. A bola branca acaba soltando uma lasca e mandando a bola 3 pra fora da mesa. Sou rápido em pega-la, caso contrario, Zorro a comeria.
 - Desculpe.
 - Relaxa. - Eu coloco a bola na caçapa. Faço um sinal pra ela continuar. Ela suspira.
 - Os Shadewalkers estão com 80% menos Vampiros do que quando eu sai. - Aquilo me deu um certo choque no peito. - O novo Conde, um tal de Anthony, tá conseguindo colocar ordem nas coisas só agora.
 - Anthony? - Eu perguntei.
 - Primo de Pandora. - Perola respondeu por Ikeda, que deu uma jogada tão fraca que a bola branca mal saiu do lugar. Decidi parar de jogar por ali mesmo.
 - Entendo. Mais um motivo pra limparmos tudo isso e você se tornar Condessa. - Eu disse. E comecei a guardar os tacos. Senti os olhares surpresos delas nas minhas costas. Me virei, as encarei e disse.
 - Qual é? Eu não confio em mais ninguém pro cargo, Ikeda.
 - Não depende de mim ser Condessa, Jason. - Ela disse, com um riso. - Depende de família toda, do Conselho. Quando batalharmos contra todo esse mal e se vencermos...
 - QUANDO...vencermos... - Eu a interrompi. Ela deu uma leve risada.
 - Ok...QUANDO vencermos, o problema não será uma Condessa nova. Será os danos, colocar ordens nos Vampiros, tentar reerguer o Conselho e etc...
 - Confie em mim, Ikeda. Quando tudo isso acabar...eu mesmo tomo conta de toda organização. - E as três ficaram olhando pra mim...não entendo muito bem aquilo que eu disse.
 - Jason, como sempre, pouca ideia com as mulheres. - As meninas virara para trás quando ouviram sua voz.
 Ele vestia um coturno e calças jeans azul escuras. A camisa branca era do Sex Pistols e usava um colete de couro cheio de spikes por cima. A barba parecia mais certa, porém mais cheia do que antes. Os cabelos, mais curtos e baixos, como sempre.
 Victor, o Espectro, estava ali.
 - Não sabia que você conhecia outras formas de se vestir que não fosse uma armadura ou uma toalha. - Ikeda disse, dando uma risada. A resposta do Espectro foi tirar os óculos escuros, segurar sua mão dela e dar um beijo ali.
 - Quando quiser fazer um novo cruzeiro, só me avisar. - Ikeda riu meio alto, jogando a cabeça pra trás. O Espectro cumprimentou Bruna e Perola.
 - E ai, irmão.
 - E ai, brother. - Ele me abraçou e olhou pra mim.
 - Porra...traiu o movimento da Barba.
 - Faz parte. - Ele riu e eu perguntei a todos. Ele ia responder, mas foi interrompido por Zorro que na hora que o viu, pulou em sua direção.
 - OOOOH, OOOOOH....Calma ai, rapaz. Calma. - Ele ria. - To vendo que ainda tá vivo e inteiro. Boa garoto. - O cachorro latiu e balançou o pequeno rabo que tinha. A cena era engraçada.
  - E ai, vamos embora? - Eu perguntei e todos concordaram, menos o Espectro, se levantando.
 - Velho, acabei de chegar, e tá tocando Rev Theory!
 - A gente escuta isso no carro. - Eu disse. Mais olhares estranhos em mim. Paguei a atendente e comecei sair, sendo seguidos por todos.
 - Jason, tá falando sério? - Bruna me perguntou, segurando em minha mão.
 - Sim, to falando sério. - Eu respondi. - O Conselho tem mais gente do que vocês pensam, espalhados por ai. Eu tive de me certificar que ninguém estava nesse bar ou quarteirão durante uma semana pra depois ligar pra vocês.
 - Faz quanto tempo que você voltou da ilha? - O Espectro perguntou.
 - Um mês. - Respondi. - E vocês? A quanto tempo saíram de onde estavam?
 - Uma semana. - Perola respondeu por ela e Ikeda.
 - Quinze dias. - Bruna respondeu.
 - Ontem. - O Espectro disse em seguida, voltando a colocar os óculos escuros.
 - Cara, tá de noite, por que tá usando esses óculos? - Eu perguntei pra ele.
 - Eu sou um Espectro, eu faço o que eu quiser. - As meninas riram e eu fiquei quieto com um riso sem graça. Ele é cheio dessas.
 - Qual deles é seu carro, Jason? - Ikeda pergunta.
 - Esse aqui. - Eu tiro a chave com o alarme do bolso e faço o Mustang Cobra apitar. Eu rio da cara deles.
 - Clássico! - Victor respondeu, chegando perto da maquina. Passou a mão de leve no capo vermelho e disse - Eu acho que esqueci como se voa, galera!
 - Onde conseguiu o dinheiro? - Bruna perguntou.
 - Peguei de alguns cofres que Marcelo havia deixado la na Gaiola. Ninguém conseguiu mexer neles nesses cinco anos. Depois, eu apliquei o dinheiro. Não era muito, mas eu consegui fazer aquele valor se multiplicar rápido.
 - No que investiu? - Perola perguntou.
 - Industrias pornô. - E todo mundo caiu na risada de novo. - É sério, porra.
 - E ficou rico? - Victor disse, apontando o dedo pra mim. - Mandou bem, rapaz.
 Rimos mais um pouco e todos entramos no carro. Espectro atrás do banco do motorista com Zorro no colo, Perola no meio e Ikeda atrás do banco do passageiro, onde estava Bruna. Liguei o motor, o ronco veio manso, mas logo fiz ele rugir, disparando nas ruas.
 Eu gostava mesmo de dirigir aquilo.
 - Pra onde vamos? - Perola perguntou.
 - Minha mãe tem uma casa agora lá pela zona Sul. Eu ainda não vi onde, mas eu tenho o endereço. A gente vai pra lá, se organiza e começa a trabalhar. - Todo mundo concordou.
 Ficamos um tempo ouvindo "Rev Theory - Light Up". Quando a musica acabou, decidiram puxar papo.
 - E ai gente, além do rapaz aqui que ficou rico. - Bruna disse, batendo no meu ombro, ficando de lado no banco. - O que vocês fizeram nesse tempo que chegaram?
 - Eu fiz compras. - Espectro disse, tirando algumas risadas do pessoal.
 - Eu dei uma investigada como tá os status das famílias do Conselho, mas, não consegui muita coisa. - Ikeda respondeu. Perola não disse nada, logo, aquilo servia pra ela também.
 - Eu matei Vidal Panther. - Eu disse de repente.
 - Eu comecei a dar uma olhada nos sistemas e locações do Conselho e VOCÊ MATOU QUEM? - Bruna disse quando cogitou o que eu havia dito.
 Depois do breve silencio, Ikeda perguntou.
 - O Suicida?
 - Ele mesmo. - Respondi. - Lutou exatamente como tal: Suicida.
 - Isso é zueira, Jason? - Victor perguntou de mim, o tom brincalhão saindo de sua voz.
 - Quando e como? - Perola perguntou. Não gostei muito de alguém que tinha acabado de me conhecer fazendo perguntas naquele tom, mas eu superei.
 - Ontem. Na boate que era de Luana. Cortei a cabeça e depois dei pro Zorro comer. - Todos olharam para o cachorro que na mesma hora lambeu o nariz.
 - Jason...esperávamos que eles não soubessem que estávamos aqui. Queríamos ter o elemento surpresa. - Ikeda disse, séria.
 - Foi por questão de honra. Foi por questão de querer que eles soubessem que estávamos aqui. Que voltamos. Eu quero eles movimentando tudo que tem e saindo das tocas. - Eu me dignei a responder. - Eu fiz isso pelo Marcelo. E pra ser bem sincero? Me admira que nenhum de vocês tenham atacado nada desde que chegaram aqui. Uma semana? Quinze dias? Acho que dava pra ter feito um dano colateral maior ai. - Todos fizeram um breve silencio depois que eu disse aquilo. De certa forma, eles estavam certos, assim como eu, de certa forma, também estava.
 - Então...presumo que você seja responsável pela desordem em Manaus? - Bruna perguntou, mexendo no cabelo. Paramos no sinal vermelho.
 - Ein? - Eu respondi. Ela olhou pra mim.
 - Em Manaus. A desordem que tá tendo lá. - Todos olhavam pra ela, logo ela viu que ninguém entendia o que ela queria dizer. - Em Manaus, pra região das florestas, aconteceu alguns ataques a trabalhadores e etc. De acordo com a Luana, eram humanos que trabalhavam para o Conselho, na colheita de madeira e preparação de terreno. Vampiros estavam lá também, sem duvida. Mas alguém começou a ataca-los e ela pensou que poderia ter sido o Eduardo ou o Leonardo, mas, achei que tinha sido você, depois dessa...
 - Então o Conselho tá mesmo usando humanos agora? Conscientes ou inconscientes?
 - Provável que inconscientes. Luana não conseguiu muita informação sobre isso. - Eu concordei, confuso com tudo aquilo. E mais nervoso também.
 - Bom... - eu disse. - Eu não sei nada a respeito desses ataques. E seja lá quem for que esteja fazendo...é um cara foda e bem que podia entrar pro nosso exercito.

ELIAS REDSON

Manaus - 05:30 da manhã
Algumas horas após Jason encontrar sua família.

 - FILHO DA PUTA! - Oclavio jogou um armário em frente a porta. O outro cara começou a jogar uma mesa, outro armário, tudo pra tentar fechar a porta corretamente. Depois, eles foram fechando tudo quanto era janela que tinha naquela salinha.
 - E AI, ELIAS, VAI OU NÃO VAI, PORRA?! - Eu voltei a me concentrar no que eu fazia. Caralho, eu nunca pensei que teria de usar uma dessas.
 Engatilhei a AK47 e joguei pra Oclavio. Engatilhei outra e joguei para o outro cara. Peguei uma pra mim. Ficamos em silencio e esperando.
 Estamos no escritória da madeireira. Viemos em exatos 20 homens. Renata foi bem especifica em falar com Oclavio diretamente pelo telefone que queria que, quem quisesse que fosse que estivesse causando baixas nas madeireiras, teria de ser eliminado. Chegamos ali, nos embrenhamos na mata, achamos um rastro do maldito, avançamos...e caímos numa armadilha.
 Um cara só...só UM...e matou quase todos nós. Não vi nada. Só um vulto. Ele parecia usar uma lamina pelo modo que decapitava os outros e pelas marcas nas arvores. Meu Deus do céu...quem é esse cara? Não tivemos a minima chance contra ele. Matou todo mundo. Muito rapido. Não sei nem como chegamos no escritório da madeireira sem que ele nos pegasse, só se ele...
 Ele...
 ...
 Ele queria que estivessemos ali!
 - Fodeu. - Eu sussurrei. - Todo mundo, ele...
 - Shhh... - O outro cara fez pra mim. Senti os caninos alongarem, as garras crescerem e os músculos enrijecerem. Quase disparei a AK...só se não fosse os passos.
 O som era de botas no piso de madeira, que rangia levemente. Já tinha ouvido muito desse som...mas era eu quem era o caçador, não ele...
 PORRA, QUEM ERA ELE?
 - ATIRA! - Oclavio gritou e já apertou o gatilho. Metralhamos a parede até só ouvirmos estalos das armas. A deixamos toda cheia de buracos. Nem sabia como ainda tava de pé, mas...
 - Então... - Petrificamos onde estávamos. - Pelo que calculei, vocês são os últimos Sanguessugas aqui do Norte.
 Como se as palavras fossem um gatilho para uma bomba, a parede vai abaixo. E eu vejo nosso caçador por um breve momento. Ele está vestindo um casaco marrom, sujo. Tem cabelos negros. Seu cheiro é de suor e...
 Suor?
 ELE É HUMANO?
 Enquanto eu construía esse pensamento, ele foi rápido. Rápido demais.
 Ele decapitá Oclavio com uma passada rápida do facão. Já emenda o golpe, joga sua arma no outro cara. A lamina de enterra na face dele e o crava na parede. Eu me levanto. Eu tenho de atacar. Ele está desarmado agora e...
 - AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! - Algo se enterra no meu ombro e também fico cravado na parede. Queima...queima como o Inferno.
 E só então eu consigo olhar pra ele.
 Seus cabelos são longos e negros, assim como sua barba que chega até a boca do estomago. Ele está vestindo um casaco marrom, como falei, mas nenhuma camisa por baixo. Sua calça e botas são dos uniformes de trabalhadores da madeireira. Provavelmente dos caras que ele matou...
 O que ele jogou em mim foi uma flecha. Um arco de madeira rustico está em suas mãos e uma aljava nas costas. Eu nem vi ele tirando a flecha. Nem vi que ele tinha isso. Quem é esse cara?
 Ele se aproxima, abaixando o arco.
 - Eu não vou falar nada. - Eu digo, cerrando minha boca, trincando os dentes pra evitar de gritar. Ele cerra os olhos e avança mais um passo largo. Tento acertar com minhas garras na garganta dele...mas ele toca na flecha a torce. Não consigo deixar de gritar. Ele não esboça nenhuma reação. A flecha arde cada vez mais.
 - Não há nada que eu já não saiba. Fique tranquilo quanto a isso. - Ele me solta e fica um instante me olhando. Percebo que sua mente está um pouco distante, mas seus olhos continuam fixos em mim...até que ele diz.
 - Vai ficar quanto tempo escondido, Jack? - E ele se afasta de mim e só ai, se vira para trás. Alguém entra pela porta principal e passa pelo muro derrubado.
 Este homem, por sua vez está bem vestido. Taticamente, falando. Todas as peças de sua roupa são pretas. As calças são meio largas. Tem coldres de armas presos por todo corpo e uma...espada de samurai, presa na cintura, onde repousa sua mão esquerda. Ele é quase careca, tá na cara que passou maquina um na cabeça. Tem duas entradas. Está usando óculos e sua postura é impecável.
 - O que me entregou? - Ele pergunta.
 - Sua presença nada familiar entre as folhas. - Ambos dão uma risada e apertam as mãos.
 - Faz tempo, Jack. Te abraçaria se não fosse meu cheiro.
 - Agradeço por isso. - Ambos riem de novo. Estão agindo como se eu não existisse. Talvez se eu os ignorar, eles vão embora e eu consiga sair daqui...
 - O que vai fazer com ele? - O cara chamado Jack pergunta e olha para mim. O cabeludo também o faz. Ele sorri.
 - Deixe ele ver o sol nascer. - E eu me toco...porra, que horas eram? Eu me debato. Eu preciso sair dali, eu tenho que sair dali...
 Calmamente, eles abrem todas as janelas e começam a caminhar pra fora. Eu os interrompo.
 - QUEM VOCÊS PENSAM QUE SÃO? - Eu rujo, na esperança de ter alguém me ouvido, vindo me ajudar. Eles mal me olham nos olhos. - EU VOU MATAR VOCÊS! O CONSELHO VAI MATAR VOCÊS! VOCÊS NÃO SÃO NINGUÉM! - Eu dou uma risada pra não gemer da dor. O sangue negro começa a escorrer da ferida. - E VOCÊ! - Eu olho para o cabeludo. - NENHUM HUMANO FAZ O QUE VOCÊ FAZ! QUEM É VOCÊ? O QUE TEM DE TÃO ESPECIAL?
 Ele fica de frente pra mim...saca outra flecha e dispara. Essa pega na minha garganta. Sinto o sangue me fazer engasgar, queimar...
 - Meu nome é Heitor Helsing Hartz. E por favor, fique quieto.
 Helsing?
 O samurai bate nas costas dele e diz.
 - É bom ter você de volta.
 - É bom estar de volta. - Ambos sorriem e saem. Consigo ainda ouvir algo de sua conversa.
 - Diz ae, você tem alguma coisa haver com aquele papo lá em Sergipe?
 - Jack, eu não sai desse mato esse tempo todo...não sei o que está falando.
 Eu tento me debater. Minha situação é ridícula. Eu solto gemidos, coloco a mão nas flechas. Elas ardem muito, não sei do que são feitas, mas tudo arde, eu...eu...
 E então a luminosidade chega...
 Arde...arde muito...minhas pernas incham e explodem em cinzas...meus braços se desfazem...minha face derrete...
 Sou jogado ao inferno...

DAN MOONSON
Litoral de Sergipe

  O Sol nasce. Eu saúdo sua presença com um longo e profundo inspirar e expirar. Todos já voltaram a sua forma humana. O sangue seco em meu queixo e nos meus dedos incomodam um pouco. Caminho pela areia vermelha e negra e piso no mar. Me agacho e começo a me lavar da melhor maneira que posso.
 - Dan. - Olho por cima do ombro quando Lorena me chama. - Estão todos mortos.
 - Eu sei. - Eu respondo e volto a fazer o que estava fazendo antes. - Caso contrario, eu não teria parado pra me lavar.
 - Tá se sentindo melhor? - Thomas pergunta. Dou uma risada.
 - Claro que sim. - E me levanto. Quando me viro, o sangue e os pedaços já viraram cinzas.
 - O processo de transformar em cinzas está mais lento. - Maria diz, tocando nos montes de poeira no chão. - Estranho.
 - Não que isso seja um problema. - Ayane diz, quase interrompendo a ela. - Enquanto continuarem mortos...
 - O papo é sobre deixar rastros rastreáveis aos humanos! Esse é o único problema! - Contra aquilo, Ayane não tinha argumento.
 - Silencio. - Eu peço, educadamente. Eles obedecem. - Se nos rastrearem, os matamos também. - Eu respondo, passando por eles - Arrumem suas coisas e vamos embora. Temos mais o que fazer.
 - Vamos para onde? - Thomas pergunta.
 - Para o Mundo Negro. Onde mais? Meu pai diz que há uma presença lá que não deveria existir. Precisamos verificar.
 - Mas e quanto a Bruno e Rulli? - Thomas pergunta novamente.
 - Eu vou chama-los logo depois de falar com meu pai. Posso me comunicar com eles mesmo pelo Mundo Negro.
 - Rs'...logo agora que eu estava gostando do Sol. - Lorena diz, jogando os cabelos e observando o astro rei.
 - É eu também...mas ainda assim, temos de ir. - Eu sentencio. - Ayane, faça o favor. - A morena passa por mim e começa a escrever os símbolos na areia. Depois disso, morde sua própria mão e deixa uma gota de sangue cair bem no centro do circulo feito...não demora muito e a areia começa a se mover, primeira como um redemoinho...e se afunda, formando um buraco ali, engolindo areia, conchas e pedras. A toca só para de fazer isso até que cresce e todos nós possamos passar tranquilamente. Thomas salta, depois Lorena, Maria, Ayane.
 Eu tomo meu tempo...olho para trás...eu respiro fundo de novo...
 - Nightcrawler...
 Me viro e salto para o buraco...
 Eu tenho outras coisas pra pensar.

VERENA DE ALMEIDA
Rio Grande do Sul

 O pequeno barco se arrastou pelas areias, nos permitindo descer sem molhar nossos pés.
 Respirei fundo a brisa marítima e olhei ao mar. Agradeci aos meus bichinhos pela ajuda e elas se foram.
 - Bom... - Giovanna Faguli perguntou. - O que fazemos agora?
 - Comer alguma alguma coisa, por favor. - Anna Englert responde, ajeitando sua bolsa no corpo. -Estou morrendo de fome.
 - Você comeu faz meia hora. - Nataly diz, se alongando, usando seu cajado como ajuda. Ela o bate na areia e continua. - Sei que não foi nada de muito especial, mas deveria ter tapeado o estomago.
 - Ainda assim, seria bom ter algo descente pra comer. - Eu digo. - Vamos nos hospedar em algum lugar por aqui. Amanhã começamos o que queremos fazer.
 A três concordam e anda comigo pela praia. Ao mesmo tempo em que eu me sinto extremamente confiante agora, me sinto um tanto...triste. Sim...
 Muitos irão morrer. Logo logo...muitos irão. Os quatro cantos do mundo mandam ventos frios, avisando que movimentos em todas as partes do mundo estão sendo feitos...mostrando que o que está por vir...será algo grande.
 Muito grande.
 ...
 Hm...rs'
 Que o espetáculo comece!

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