segunda-feira, 8 de junho de 2015

Morcego

 Sábado, 02:00hrs da manhã.
 O ambiente era considerado inapropriado e ameaçador para as pessoas normais, cujas vidas tiveram seus pontos altos quando seu time de futebol ganhou algum campeonato ou quando o assassino da novela finalmente fora revelado.
 Mas para aqueles que o frequentava, era agradável, aconchegante e convidativo. Ninguém que estava lá dentro, ouvindo o som gostoso que saia da Jukebox e se abrigando da chuva e ventos frios, queria sair dali. Era um ótimo lugar para os desamparados ficarem.
 As cadeiras eram de madeira envernizada e apesar das noites turbulentas que vieram, elas estavam intactas e inteiras. As mesas, do mesmo material, não poderiam dizer o mesmo. Estavam cheias de marcas, de facas, copos, queimaduras de cigarros e desocupados que queimavam as bordas com esqueiros. As paredes marfins também tinham suas marcas, estas por sua vez, haviam historias e motivos mais interessantes de se ouvir, mas que no momento, não são importantes.
 As pessoas brindavam, cantavam e bebiam muito. Algumas estavam de pé, jogando dardos ou na unica mesa de bilhar perto do banheiro. No Bar, uma parede inteira com as mais diversas garrafas das mais diversas opções de se embriagar. No balcão, poucas pessoas, solitários que achavam melhor ter somente a si mesmos como companhia. Havia poucas mulheres ali, como de costume. Mulheres clientes, é claro...porque "empregadas" havia de montes.
 Não era nenhum Bar de Strip barato, muito menos sujo, mas estava longe de ser algo luxuoso. Não que isso fosse um problema. Tinha personalidade e pessoas boas em sua frequência. Aquilo já garantia um bom negocio.
 Camila vai ao Pole Dance como penúltima atração da noite. A pele branca e os cabelos negros combina com a calcinha preta fio dental que ela usa e as fitas isolantes em X colocadas em seus seios. Solange continua servindo as bebidas aos inconsoláveis do balcão, balançando seus cabelos loiros toda vez que é comida com os olhos, só para provocar. Anita, Roberta, Rebecca, Ângela, Nora, Angélica, Charlotte, Rúbia, Núbia, Elaine...todas iam para lá e para cá, em suas poucas roupas de couro apertadas e fantasias diversas, procurando qual seria seu próximo cliente, qual seria sua próxima fonte de renda e comissão. Os quartos lá em cima já haviam sido usados até demais, mas os lençóis continuavam inteiros e as despesas tinham de ser pagas. Ainda tinham de usa-los a noite toda.
 E, mesmo em meio ao frenesi do local, não havia uma garota que não parasse um segundo o que quer que estivesse fazendo para olhar para a mesa de canto do local. Um frio subia pela espinha de cada uma delas...e elas gostavam.
 Elas olhavam para o homem que sempre estava presente ali. Sempre sentava naquela mesa se "paredes" acolchoadas e bancos grandes. Sempre com uma garrafa de whisky que esvaziava pouco a pouco ao estilo cowboy com o copo de shoot vermelho que lhe era dado. Cinzeiro, maços de cigarros vermelhos e, de vez em quando, petiscos. Sempre carne. Mal passada. E cada uma delas tinha a ordem se reabastece-lo caso parece estar faltando algo, sem cobrar nada, sem trocar muitas palavras. Mas toda que faziam isso recebiam um sonoro "obrigado madame" que, mesmo aquelas que repudiassem cortesias, se sentiam lisonjeadas.
 Ele sempre vestia botas marrons. A calça variava, mas sempre Jeans em tons escuros. A camisa ou era preta ou azul escura. A jaqueta, porém, era sua marca registrada. Couro, vermelha e um tanto larga para ele, mesmo assim, não parecia desleixado. Parecia cuidadosamente desarrumado.
 Seus cabelos castanhos estavam penteados para trás, com um ou dois fios caindo sobre a testa. O rosto liso, branco, como todo sua pele, parecia mármore. Raramente mudando sua expressão. Raramente mudando até mesmo sua postura.
 Excêntrico...seria uma boa palavra para descreve-lo.
 Tudo continuou normalmente...até as 03:30.
 A expressão dele mudou.
 Solange notou e parou de falar com um cliente do nada. Rebecca parou de paparicar o cliente em que estava sentada no colo. Camila até se distraiu e parou de dançar.
 Ele vira seu pescoço e olha para o lado. As meninas seguem seu olhar e sabem o que vai acontecer.
 Três homens sussurram no ouvido de Núbia. Um gordo, um baixinho e um careca. Devem ter por volta de 23, 25 anos no máximo. Pelas roupas, nascidos em berço de ouro. São grosseiros, falam coisas sujas e seguram no pulso de Núbia, que força um sorriso. Eles a estão irritando, mas ela tem de aguentar. Tem de conseguir dinheiro. Ela não quer parecer fraca para as outras, mesmo que não precise.
 - Vamos subir, rapazes. Tragam ela. - Um deles, o gordo, fala. Ele provavelmente é o lider, caminha na frente, sem olhar para trás, um sorriso no rosto e o queixo erguido. Os outros dois seguram os braços de Núbia sem necessidade. Ela é obediente, ela vai subir tranquila, mas eles precisam daquilo. Precisam se achar os donos do mundo. Precisam trata-la como uma cadela. Caso contrario, eles se sentem pequenos. E homens sem honra e respeito se sentindo pequenos é uma coisa perigosa.
 Eles sobem a escada que vai dar ao andar de cima. Rindo, sussurrando, Núbia fingindo alguns sorrisos e caricias. Ninguém no bar nota, eles tem mais com o que se preocupar.
 Mas o homem de casaco vermelho, sim...ele se importa.
 Ele se levanta e vai atrás dos mesmos.
 - Evan... - Camila veio até ele. Ela depositou sua mão em seu peito frio. Era como se nenhum coração batesse ali.
 - Olá Camila. - Ele diz. Sorrindo. Camila se perde ali por alguns segundos, mas ela logo volta a falar.
 - Tem certeza? - Ele só balança a cabeça, dizendo que sim. E começa a dar as ordens.
 - Deixe a porta dos fundos aberta. Peça para Solange preparar o esfregão, o carro e o plastico. Não vai durar mais que 5 minutos. - Camila concorda, sorri para ele. Ele pisca,olha para frente e caminha. Seu sorriso sumiu.
 Ele começa a subir as escadas.
 Lá em cima, o show já havia começado.
 - VACA! - O tapa do homem gordo fez Núbia ver estrelas. Ela não cai ao chão somente porque o homem baixinho a segura.
 - PARA! - Ela grita. - PA... - Ela é interrompida pelo soco do homem careca.
 - Caralho! - O baixinho diz, segurando a mulher pelos cabelos e a colocando de joelhos, forçando seu rosto a ficar pra cima.
 - Você não podem fazer isso...isso é estupro, seus merda... - Núbia diz, em sussurros e gemidos, zonza, tirando risos dos animais.
 - Estupro é ilegal, neném. - O homem gordo dizia, já abrindo o zíper. - Mas não quando eu to pagando! - E quando ele coloca o membro para fora, segura os cabelos da garota...as luzes piscam. Os homens, ainda com sorrisos em seus rostos, olham para cima. A lampada...interferência?
 Antes de esboçar qualquer reação, seus olhares vão para baixo.
 A mulher está rindo. Cuspindo sangue, com o rosto cheio de marcas...e está rindo.
 - Tá rindo do que, sua puta? - O homem gordo pergunta, puxando mais seu cabelo. Os outros dois já estão estranhando a situação. Está macabra para eles. Está diferente. Eles não são bons em lidar com o desconhecido.
 - Se fodeu. - Foi a ultima coisa que ela disse antes de se deixar jogar ao chão. O homem gordo ia perguntar ao homem baixinho porque a deixou ir...até que viu o olhar surpreso e irado do homem e o seguiu.
 Alguém, de jaqueta vermelha, fechava a porta do local.
 - Cavalheiros... - Ele se vira, colocando as mãos as costas. É um homem pálido com cabelos castanhos penteados para trás. - Boa noite.
 - Quem é você? - O homem gordo diz, tentando esconder tudo de volta as calças.
 - Eu? - O homem a porta pergunta, colocando o indicador da mão direita no peito. - Para vocês, ninguém. Mas alguns amigos me chamam de Morcego.
 - Morcego? - O homem gordo se vira e ri para os parceiros, que mudam sua expressão assustada instantaneamente para risos nervosos. - Então...Morcego...
 - Não me lembro de ter dito que você é um amigo para me chamar assim, seu insolente. - Morcego diz aquilo e os homens se calam. Não porque as luzes voltam a piscar. Não porque a postura do homem agora mudou para algo mais ameaçador. Mas porque...quando escuro...seus olhos brilham em vermelho.
 - Deus me livre... - O homem baixinho diz.
 - Mateus, Capitulo 18, Versículo 20. "Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou Eu no meio deles". Levando por esse principio, eu lhe digo, homem de baixa estatura, Deus...não está aqui. - Ele sorri...seus dentes são mais brancos que sua pele. Os homens recuam quando ele dá um passo. - E se estivesse, de certo, fugiria de mim.
 - Sai de perto! - O homem careca diz, escorregando na cama e caindo ao chão. Ele se arrasta. Morcego ri. Ele tira a mão de suas costas.
 - Me lembrando de outro Capitulo 18 e Versículo 20...dessa vez Ezequiel..."A alma que peca, essa morrerá". Me digam, senhores... - Ele para, bem ao lado de Núbia. - Vocês pecaram?
 - CHEGA! - O homem gordo decide reagir. Ele está morrendo de medo. Mas ele só quer sair dali. Seu movimento é lento e previsível. Ele quer empurrar Morcego do caminho. Quer correr porta a fora e sair dali. Os colegas que se virem de encontro com aquela coisa. Ele não se importa.
 - SAI DA MINHA FRENTE, CARA... - Ele não completa o palavrão. Não com os dedos indicador e médio dentro de sua boca. E o polegar, criando pressão em seu queixo.
 - Shhh... - Morcego sussurra. - Silencio agora. Serei rápido. Não piedoso. - Ele sorri mais uma vez. Seus caninos estão maiores. - Mas rápido. - Ele puxa. O queixo do homem gordo sai, com metade da pele de sua garganta. O sangue jorra...e as luzes se apagam.
 O homem baixinho grita. O escuro o faz ficar perdido. Ele grita, cai em alguma coisa. Ele chora, ele consegue ouvir os gemidos e grunhidos do que ele julga ser do homem gordo. Ele não se importa. Ele quer sair dali. Ele precisa sair dali.
 Ele lembra do celular que está dentro do bolso da calça. Ele o procura, os dedos tremendo, o corpo suando frio. Ele o pega e liga sua lanterna. Ele vê o que pode...
 O homem gordo está com duas mãos encharcadas de vermelho, tentando segurando a linguá dentro da garganta. Núbia está deitada, de bruços, cobrindo a cabeça com as mãos...
 Mas cadê...cadê o careca? Cadê o homem de jaqueta vermelha? Cadê?
 Ele mexe a lanterna freneticamente, quem sabe ele pode levantar agora, ele pode ir e...
 - Ahhhm... - O som roco de uma voz em desespero o faz olhar para cima. Alguma coisa estava no teto...curvada, de cabeça para baixo...alguma coisa vermelha, ela...
 Morcego estica seu corpo ao perceber a luz apontada para si.
 O homem baixinho vê o homem careca pendurado pelo teto. Ele é sustentado pelos dentes de Morcego em seu pescoço quebrado.
 Dois pontos vermelhos brilham na escuridão.
 Algo pesado cai ao chão e depois, outra coisa, mais pesada, mais rápida...
 Silencio.
 Núbia ainda está abaixada. Os olhos protegidos. Não se deve ver o que Evan faz quando ele decide protege-las. As poucas que viram não conseguiram mais ficar no local.
 De repente, ela é erguida. Rápida e firme, ela está no colo de alguém.
 - Mantenha os olhos fechados. - A voz dele vem calma, apesar de tudo. Núbia tira as mãos dos olhos, mas ainda os mantém fechados, como ele pediu.
 - Eles estão...
 - Estão. - Ele responde antes de completar sua devida resposta.
 - Eles iam...?
 - Sim, iam. - Ela soluça.
 - Malditos...
 - Sim, eles eram. - Ele começa a descer as escadas.
 - Eu nem sabia quem eles eram. Eles nem falaram seus nomes...
 - Não se pergunta o nome de uma barata. Você simplesmente se livra dela. - Morcego diz e se cala.
 Logo, Núbia se sente levada para o andar de baixo, onde a musica e as conversas são logo ouvidas e receptivas. Ela se sente mais calma, mas suas pernas teimam em tremer.
 Solange abandona o balcão. Camila deixa um cliente falando sozinho. As duas vão amparar a amiga.
 - Tudo bem? - Camila perguntou.
 - Tudo correu como deveria ser. - Evan resumiu em dizer. Ele olhou ao lado da porta. O esfregão, balde e sacos de lixo estavam ali.
 Ele pegou tudo e subiu, sendo aguardado por Solange. Camila levou Núbia para casa.
 Tão rápido e sutil como deveria ser, ninguém percebeu quando um homem pálido de jaqueta vermelha saia, junto com a barwoman, carregando alguns sacos pretos.
 Do lado de fora, pelo fundos, ele fechou o porta malas da mulher, colocando tudo lá dentro.
 - O local de sempre? - Solange perguntou.
 - Sim, por favor. - Evan se virou para ela. - Não vai acontecer mais nada de ruim aqui por um bom tempo. Vou aproveitar e dar uma volta. - Solange parou o que quer que estivesse fazendo e olhou para ele. Fitava o céu noturno com um sorriso tímido e as mãos dentro da jaqueta.
 - Você vai embora? - Ela pergunta.
 - Só por um tempo. Eu volto, prometo. - Ele sorri novamente.
 Solange estranha a ideia. Ele sempre está lá. Era como parte da mobília. Estava ali e sempre estaria.
 Mas agora, ele dizia que ia embora.
 - Mas...e as outras...?
 - Não tenho tempo de me despedir. E, sinceramente...não gosto. - Ele olha para dentro do estabelecimento, rapidamente. As portas do fundo dava para o beco dos lixões e somente luzes e sombras saiam de uma porta estreita.
 - Vai voltar? - Ele volta a olhar para Solange. Uma gota negra da maquiagem borrada escorre pela bochecha esquerda.
 Evan a abraça. Solange sente algo bom nisso. Aquele era a maneira mais querida de dizer "eu não sei".
 - Se cuide, Solange.
 - Se cuide, Evan.
 - Diga as meninas pra continuar. Com academia e lições de auto defesa. Diga a Camila pra melhorar sua volta na passarela e diga para Rebecca continuar com as aulas de violino. Tudo bem?
 - Tudo sim.
 - Jogue os corpos no lugar de sempre. - Ela concordou com a cabeça e se desfez do abraço.  maquiagem já estava arruinada, mas Evan ainda a achava linda.
 Um leve beijo nos lábios e ele se virou. Passou pelo carro, saiu do beco e continuou a andar...até que a escuridão o abraçasse.
 Tudo tinha acontecido muito rápido. Muito estranho...
 Solange se virou, pensando em como contar aquilo para todos.
 Mas parou na porta ao ouvir o som...o som que só tinha ouvido a muito, muito tempo...
 O farfalhar de asas.

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