sábado, 2 de maio de 2015

Menos Um. Mais Um.

Mais um Capítulo de Noturnos

 ✝ ✝ ✝ ✝ ✝ ✝ ✝

VIDAL PANTHER

 As batidas não paravam, assim como a luz piscando, os corpos se retorcendo ao meu redor e o cheiro de álcool e sêmen as alturas. Na parte “calma”, cerveja e cocaína sobre as mesas, risos forçados, outros por causa de alucinógenos. Os seguranças observam tudo, ficando excitados, querendo participar de todo aquele pandemônio, aproveitar cada segundo, cada corpo, cada gole e cada êxtase que podem ter.
 Eu amo esse lugar.
 A antiga casa noturna de Luana Nightcrawler...Silver Claw...agora é minha.
 Levou uma cota para reformar tudo e abafar daquele escândalo ridículo que ninguém soube como aconteceu. Como caralhos cortaram aquela boate ao meio, eu nunca vou saber...mas isso não importa. Não mais.
 Estou sentado em uma poltrona forrada com veludo. Meus pés estão erguidos em cima de uma pequena mesa de mármore com topazios azuis encrustadas em sua madeira. Em cima dela, uma garrafa de whisky ainda está de pé, múltiplas seringas vazias, pó e um pequeno monte de doce em uma bandeja de prata.  Ao meu lado, em acentos mais humildes e comunitários, uma mulher cai. Não consigo ouvir seu batimento cardíaco.
 Eu estalo os dedos, os seguranças mais próximos escutam. Aponto para a garota e eles sabem o que fazer.
 - Bom apetite. - Eu digo. Eles riem e seguem com a garota para um quarto aos fundos.
 Eu levo meu charuto aos lábios e decido me levantar. Uma das putas está bêbada. Sou obrigado a empurra-la para o lado. Ela cai com tudo em cima da mesinha, derrubando o Whisky, as seringas e os doces. Todos riem. Até ela mesma e tenta se levantar.
 Eu arrumo meu terno e dou uma olhada em tudo lá embaixo. Luzes azuis e vermelhas se mesclam em suas piscadas, dando diferentes tons a pele das pessoas. Elas se contorcem e se retorcem ao som de eletrônica. Estão consumindo, enchendo o lugar...noite após noite. Até mesmo em dia de semana. Estou lucrando mais aqui, por mim mesmo, do que pelo Conselho...
 Vai estar tudo pronto, graças a esse dinheiro, quando tudo o que eu quiser, for feito. Já estou construindo tudo.
 Vai dar tudo certo.
 Um dos guardas tira minha concentração. Ele está usando o uniforme padrão, botas, camisa e calças pretas. Seu olhar é de certa preocupação.
 - Senhor. - Ele sussurra respeitosamente em meu ouvido.
 - Pois não?
 - Tentamos fazer contato com o pessoal do telhado. Eles não responderam.
 - Já foram verificar? Não é esse pessoal que estava aqui agora e foi comer a prostituta de agora a pouco?
 - Não senhor, esses são os guardas do piso de cima. Eles só estavam aqui por causa da pausa deles.
 - Já verificaram o que aconteceu?
 - Já estão indo. Só decidi avisa-lo o quanto antes.
 - Fez muito bem. Vá lá e você me avisa o que acharem, eu vou ficar no comunicador. - Ele concordou e saiu de perto de mim.
 Foi quando ia colocar o comunicador no meu ouvido que eu notei ele entrar.


 Em meio a todo aquele barulho, por algum motivo, eu consegui ouvir seus passos, alto e claro. Seu movimento ela lento de sutil, parecendo que estava observando tudo a sua volta..mas ele só mexia suas pernas. As pessoas deliberadamente se afastavam quando ele passava e não voltavam a pisar no caminho que ele trassou...e elas faziam isso inconscientemente. Como sem querer. Elas pareciam...nem notar sua presença.
 Ele usava botas...não, coturnos...e calças jeans, um pouco largas para ele...suas mãos estavam dentro dos bolsos da jaqueta de couro negro que usava, com um capuz de moletom que cobria seu rosto e...porra, ele tá com um violão nas costas? Eu não falei nada de musica ao vivo hoje!
 E puta que pariu...aquilo é um cachorro?
 - Alo! - Eu rosnei no comunicador na gola da minha camisa social. - Quem foi o animal que deixou um cantor e um rottweiler entrar?- O chiado foi minha resposta. Eu ia falar novamente...até que aquele homem fez algo.
 Ele me olhou.
 Dentro da touca tudo continuava negro como a mais pura noite...como se a escuridão estivesse sendo ordenada de estar ali...mas seus olhos...brilharam ao me olhar.

 E ele falou...e como se sua voz estivesse em minha mente, deixando tudo extremamente quieto por um segundo...eu ouvi alto e claro...

 - Achei você!

 Então, o cachorro rosnou...e tudo ficou escuro.
 Os próximos dez segundos...foram extremamente lentos.
 As pessoas começaram a reclamar...e em seguida, gritos de todos os lados. Ouvi rosnados, pedidos de socorro e pessoas engasgando. Estava escuro, foda-se, eu conseguiria ver no escuro, mas...
 Eu não conseguia. Não parecia escuridão...não, não parecia normal, como um estado de "falta-de-luz"...aquilo parecia mais denso...como uma massa...algo que não me fazia enxergar.
 Em seguida, comecei a sentir os pingos de sangue caindo em cima de mim. No meu rosto, pescoço e por todo meu corpo...de todos os lados...eles vinham sem parar. Os rosnados ficaram mais altos, mais ferozes...eles vinham próximos de mim, depois longe, proximos de novo até que...
 Me acertaram. Bem no peito. Um chute ou um soco, não faz diferença, o que sinto é que foi forte. Muito forte. Sou jogado contra o parapeito de metal e vidro que se desfazem e me deixam cair. Vou parar no que penso ser o térreo, na pista de dança. A queda machuca, mas não atinjo o chão diretamente...algo pegajoso e gelatinoso forra o mesmo. Eu paro de joelhos e logo fico de pé...eu inspiro para saber o que é aquilo...e foi com temor que eu noto que nem mesmo meu olfato funciona...
 E quando vou indagar algo, tudo volta a ter cor.
 As luzes se acendem e eu vejo vermelho. Muito vermelho.
 Nas paredes, no chão, no teto, nos telões quebrados, nas caixas de som, pingando dos andares superiores...
 Minha casa noturna esta forrada de corpos em pedaços, tripas e muito sangue...
 E a minha frente...está o homem de capuz. Seu cachorro está a alguns metros a minha direita...está comendo tudo que acha pelo chão.
 - Eu sinto muito pela entrada dramática. - O homem no capuz começa a falar. - Mas eu sentia que os assuntos que temos de tratar deveriam ser feitos de forma...particular. E...você está sempre tão... - ele gesticulou para os lados. - cercado de gente e barulho.
 - Quem é você? - Eu pergunto. Só ai percebo que estou...ofegante.
 - Eu? - Ele deu de ombros. Ainda não conseguia ver seu rosto. - Eu ainda não sou ninguém. Um fantasma. Um holandês voador. O X fora da equação. Uma consequência de suas ações, eu presumo.
 - Não me lembro de deixar minhas ações com pontas soltas. - Eu respondi a ele.
 - Não, claro que não. Mas quando eu disse suas...eu quis dizer você e seus amigos. Como é que eles se chamam mesmo? - Ele mexeu a cabeça para o lado e pareceu olhar para baixo...até que ergueu a cabeça e disse. - Aé...Suicidas...
 E então, eu sorri.
 - Então...isso tudo... - Eu abro meus braços, mostrando o show de horrores ao redor. - Foi tudo para me chamar a atenção? Você é o que? Hm? - Eu abaixo meus braços e rosno para ele. - Mais um bichinho daquela resistência patética?
 - O bichinho fez você ter medo do escuro. - Começo a sentir meus dentes ficando mais afiados, meus olhos se ascendem...o cheiro de sangue me invade...como um tubarão branco, eu estou querendo provar o sabor daquele incenso.
 - Mostre seu rosto. - Ele dá risada...e começa a falar novamente.
 - Vidal Panther. Um filho perdido do clã Panther, a arma secreta do Conselho quando se trata de caçar lobisomens. Porém, eram incrivelmente burros. - Eu cerrei os punhos. - Eram tão apaixonados por batalhas e tão confiantes de suas habilidades regenerativas que esqueciam que ainda eram Vampiros...e que compartilhavam as fraquezas mutuas da raça. Tanto que fizeram que tudo caísse no conhecimento popular dos humanos lá pela idade média, causando um período difícil para muitos. 90% da família foi executada, os outros 10%, banidos para que Caçadores de Recompensa e Lobos os caçassem, justamente por causa disso. Porém, a família ainda assim se reproduzia e logo, nasceu o novo campeão aqui... - Ele estendeu a mão para mim. - Vidal Panther...cuja habilidade regenerativa é surpreendente até mesmo para os padrões da família. Chamou a atenção das pessoas certas quando começou a matar por ai por dinheiro e por Sangue de Virgem...até cair nas graças de Renata...lhe prometendo mil e uma coisas se juntasse a sua causa.
 - Parabéns. - Eu bati algumas palmas pra ele. - Fez seu dever de casa. Mas, acontece... - Eu me posicionei. - Que eu cansei de ouvir. - E eu avancei...com tudo que tinha. Um golpe direto nunca funcionava...era para medir a velocidade do inimigo. Qualquer babaca sabe disso. Mas ele não se mexia...ele simplesmente esperou. Parece que queria que eu...
 - AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARG! - Eu grito enquanto eu caio no chão, rolando. Dor...sinto muita dor...no meu braço...
 Eu levo a mão até ele, mas...ele não está lá...só o meu ombro, exposto...
 Olhei para o lado...
 Meu braço estava na boca do Rottweiler.
 Mas eu nem vi...
 - Bom garoto. - O homem com capuz disse...e e seguida o cachorro estava ali, bem do lado dele, entregando-o meu braço...
 - Mas... - Eu fico de pé. - Não é possível, você transformou o cachorro e...ele resiste?
 - Vocês, Panther, tem um certo habito nojento que eu gostaria de comentar a respeito. - Ele cheira o braço...agora, posso ver seu nariz, seu queixo e seu pescoço. Ele tem barba...uma barba negra e espessa, mas não muito longa. E em seu pescoço...posso ver algo ali, uma marca...uma tatuagem. - Vocês conseguem absorver as coisas que jogam em vocês. Por exemplo...todo o sangue que você tinha, até mesmo em suas roupas...foi absorvido por sua pele. - Eu não preciso olhar...as únicas manchas agora em mim são do meu próprio sangue que escorre sem parar. - Seja sangue de humano, Vampiro ou Lobo, vocês absorvem...até mesmo sujeira, água da chuva, tudo...o corpo de vocês as absorve e transforma em energia. Por isso...vocês não tomam muito banho. E por isso... - Ele inspira fundo em cima do meu braço. - Eu posso sentir o cheiro do sangue de Marcelo Goldenblood. - Um estalo se deu em minha mente.
 Goldenblood...aquele garoto que lutei no Porto de Santos e Ângela finalizou, tomando seu coração.
 - Você o conhecia? - Eu soltei meu ferimento. - Então é sobre isso que tudo se resume? Vingança?
 - Ele era meu irmão. - Ele responde, soltando meu braço para longe. - E não...não é somente vingança. É também para mandar uma mensagem.
 - Que mensagem? - Eu pergunto...já sentindo os músculos começarem a agir.
 - De que eu ainda estou vivo. - E ele tira o capuz. Primeiro, eu o confundo...já criando teorias na minha mente de como ele escapou de Cocito, mas logo, eu vejo que seus traços são mais joviais...e ele confirma minhas suspeitas.
 O cabelo espetado, a barba, os olhos furiosos...tudo era jovial demais. E em seu pescoço...a letra N estava tatuada no seu lado esquerdo.
 - Meu nome é Jason Nightcrawler. - Ele diz de boca cheia. - E Marcelo Goldenblood...era meu irmão. - Realmente fiquei surpreso.
 - Hm...agora entendi. Sabe...nós até mesmo achamos que vocês tinham morrido em consequência da luta do porto ou que já tinha aceitado o destino.
 - Não existe destino. - Ele diz. - O que existe são pessoas fracas demais para fazer a diferença que aceitam tal sentido obsoleto dessa palavra patética que é o destino. - Ele deu um passo para frente. - É melhor regenerar esse braço, Vidal. - Ele caminhava agora, decidido para mim. A capa do violão mexia levemente em suas costas. Como ele sabia que eu...? - É bom sacar sua arma forjada por Renata... - Seus olhos foram dominados pelo rubro. - Faça esse momento durar. - Ele sorriu. - Faz muito tempo desde que lutei com algo que só tem duas pernas. - E ele avança. Ele é como um borrão negro com olhos vindo do inferno. Seu soco é defendido pela minha mão boa...mas meus ossos são esmigalhados no processo.
 Eu não posso pegar leve com esse cara.
 Eu entro em Fúria. A aura vermelha se espalha pelo meu corpo como fogo selvagem. Meu braço volta a crescer. E com ele, eu ataco. Eu o atinjo...eu sinto minha mão acertar algo solido. Mas depois...tudo vira fumaça negra...
 - Filho da... - O cheiro daquilo me deixa confuso...é um cheiro de morte inexplicável e...
 - Eu to aqui. - Ele sussurra no meu ouvido, bem atrás de mim. Eu me viro para acerta-lo e ele segura meu braço direito. Eu salto, giro meu corpo e acerto com meus dois pés na cara dele. Ele é jogado para longe, soltando meu braço. Mas antes mesmo que eu volte a chegar ao chão, ele se joga para trás, dando um mortal...agarra o chão com suas unhas afiadas...coloca um dos pés no chão e se impulsiona para frente. Ele me acerta com o ombro bem no meio do estomago. Sou lançado com força na mesa do DJ que se desintegra com meu impacto. Acabo só parando quando racho um dos telões, passo por ele e fico preso na parede.
 Eu rosno...olho para ele...o filho da puta nem esta no modo Fúria...e aquele maldito violão nas costas dele não atrapalha em nada sua movimentação.
 Seus olhos aina ardem...ele quer mais...ele está me esperando...
 - Beleza! - Eu rosno. - Ta ok! - Junto as palmas da minha mão e salto, levantando concreto e poeira. - Você quer? - Minhas mãos brilham...estou quase tocando no teto da boate quando eu a invoco.
 Afasto meus braços com rapidez e deixo que ela se estenda. Eu a seguro e viro sua ponta negra para o meu inimigo.
 Sulita.
 Minha lança.
 Meu ataque é rápido, mas o meu inimigo também. O chão da boate é atingido e tudo vai pro inferno. O chão se despedaça, os vidros, cadeiras, mesas, o que resta de enfeites na parede caem. Os corpos e tripas espalhados se levantam e arrumam novos lugares pra ficar. A estrutura fica comprometida. O risco de tudo desabar aumenta.
 - Engenhoso. - Jason diz, a alguns metros a minha frente...seu cachorro está do seu lado. - Então, Renata realmente os ensinou truques mágicos. Mais uma para as inúmeras Leis que ela quebrou.
 - É tempo de renovação, garoto. - Eu o respondendo, me levantando, colocando a lança apoiada em meu ombro. - Chega uma hora em que tudo precisa de uma repaginada. O Conselho antigo era fraco e extremamente submisso. Agora, temos o controle dos humanos e do mundo em nossas mãos. Um gado controlado é melhor do que um gado livre.
 - Não se trata somente de gado, Panther. - Ele responde, com frieza. - Se tudo se tratasse apenas do controle dos humanos, então, tudo ótimo. Eu estaria ao seu lado agora, aproveitando a balada do que a destruindo. Porém, não é simples assim. É um contesto geral. É algo maior. Tem haver com a natureza das coisas. Coisa...que sua dona tem ignorado até demais.
 - Foda-se. - Eu respondo a ele. Ele suspira profundamente.
 - Vamos acabar com isso, Vidal. - Ele diz. Ele tira o violão das costas e o apoia no chão. - Eu tenho mil motivos pra te deixar vivo. - Ele volta a ficar com os olhos totalmente rubros. - Mas eu prefiro o motivo que me leva a te matar.
 Eu dei risada. Eu estava com minha lança agora, a arma que me fazia ser um Suicida. Um da elite. Eu já havia vencido.
 Eu parto para cima dele. A ponta negra de minha lança mirando seu coração. A energia do modo Fúria distribuída ao meu corpo de forma que acentuava minha velocidade. Tudo em minha volta parecia câmera lenta. Mesmo que ele se movesse, eu iria segui-lo e acerta-lo. Ao atingir sua carne, minha Sulita iria desintegra-lo por completo.
 Mas ele não tenta correr...não...ele primeiro, segurando pela alça da capa, leva o violão para o alto...e depois o desce, com o intuito de se defender do meu ataque.
 Ridículo, o que aquilo queria dizer? Ele distribuiu energia no violão? Achando que seria o suficiente?
 Foda-se. Eu finalmente dou o meu ataque. O violão está na frente. Eu o acerto.
 A capa se desfaz...a madeira e as cordas viram pó e...
 Não...
 Não!
 Não é um violão!
 É uma espada!

JASON NIGHTCRAWLER

 Madame Ferreiro fez um ótimo trabalho. Fantástico. A espada segura o impacto da lança sem muito esforço. Eu mal sinto tranco. Pra fazer uma comparação clara e dizer logo o porque, vamos dizer que o meu produto é o original e que Vidal comprou o dele na 25 de Março.
 Sua arma é feita de magia. E só.
 A minha é feito com cuidado, minérios específicos e poder concentrado.
 Flarum.
 Minha espada.
 Seu cabo é forrado com estopas de couro, fundidas ao metal, logo não sinto qualquer desconforto de segura-la. Não há protetor, só um acabamento de prata que firma a lamina no cabo. A lamina negra, com o fio da navalha em branco, tem um metro e dez de comprimento. E ela continua paralela ao cabo, como se fosse uma espécie de soco inglês.
 É perfeito.
 Vidal se enfurece mais. Seus olhos negros com as pupilas vermelhas se tornam mais chamativos. Ele começa a atacar sem parar, só mirando minha cabeça ou meu peito. Zorro, como o bom menino que é, está escondido nas sombras. Ele sabe que eu gosto de resolver esse tipo de disputa sozinho.
 Eu defendo os ataques da lança. É uma arma formidável, mas, seu dono, nem tanto. Uso minhas aulas de esgrima nesse cara, e fico feliz de ver as faíscas que saem da minha espada. Ele realmente está usando toda sua força? Eu mal sinto o impacto, é como defender as pedras de diamante que Eduardo jogava em mim.
 - PARA DE RIR, VIADO! - Ele esbraveja pra mim. Eu nem tinha percebido que estava sorrindo. Então eu olho pra ele. Olho de verdade.
 E tudo que vejo é uma criança. Ele nasceu com um dom e achou que aquilo seria o suficiente. Ele não prestou atenção nas lições aprendidas nesses anos todos. Enquanto estive fora, eu até mesmo duvido que ele treinou alguma coisa. Seu dom aumentou junto com sua idade, como é de lei. Mas ele não o forçou a evoluir. Nem mesmo aprendeu com ele.
 Marcelo...não é a toa que você venceu esse cara. Eu sei que você o venceu. Ele só o enfraqueceu. E foi por causa dele que você morreu. E saber que esse bosta ajudou na sua morte...
 Já basta.
 Eu ataco. Rápido. Desvio de um golpe horizontal. Eu subo com a lamina e corpo seus pulsos. Suas mãos caem, junto com a lança. Ele ruge de dor. Com a ponta do cabo, acerto seu peito...e ele está no chão.
 - Minhas... - Ele geme. - Minhas mãos...
 - Não vão regenerar tão cedo. - Eu digo, colocando o pé em cima do seu peito. Ele me olha com descrença. Mas ele é rápido. Ele rosna...seus olhos se tornam totalmente branco e seu corpo a tremer.
 Ele quer usar a verdadeira forma.
 Com um rápido movimento, corto sua cabeça.
 Ela rola a alguns centímetros a minha frente. Invoco minha escuridão...crio uma mão e a faço pega-la para mim. A cabeça de Vidal está comigo agora e eu a ergo para o alto. Estou surpreso ao ver que ele ainda está consciente. Ele realmente é alguma coisa.
 - Como eu disse, Vidal. - Eu falei, olhando em seus olhos, que agora, choravam Noites Úmidas. - Fraquezas mutuas. - Eu a jogo para cima. Um rápido corte...e eu a parto no meio.
 Quando os pedaços caem no chão, Zorro não perde tempo...ele corre e devora o lado esquerdo...enquanto eu piso e destruo o lado direito.
 Demora cinco minutos...até que o corpo de Vidal se torne cinzas.
 Eu tomo meu tempo...eu observo tudo ali a minha volta. Depois, eu escuto os sons de fora da boate. Nada. A barreira que construí em volta do local não permitiu que o som vazasse.
 Eu coloco minha espada nas minhas costas. Assobio e Zorro vem do meu lado. Coloco meu capuz de novo e me preparo para saltar alguns prédios...
 Eu deixo que a escuridão tome a forma de chamas na palma de minha mão. Eu a deixo cair. Rapidamente, ela começa a queimar tudo.
 E ao sair na rua, só uma coisa passa pela minha mente.
 Essa foi por você Marcelo. O primeiro deles. Só o primeiro de muitos.
 Menos um.
 E eu desapareço na noite.

Duas horas mais tarde.
Topo do Edifício Reino Branco.

RENATA SHADOWKINGDOM

 - Por favor, repita. - Eu peço ao meu lacaio. Ele o faz.
 - Vidal Panther está morto, majestade. O local estava em chamas quando chegamos, mas, suas cinzas estavam empilhadas no centro do local. A analise confirmou se tratar dele.
 Eu concordei. Absorvi a ideia. Perguntei outra coisa.
 - Algo mais a acrescentar?
 - Sim, majestade. As chamas do local...não era comuns. - Ele disse, ainda de joelhos ao chão e cabeça baixa.
 Eu me coloquei para frente do trono, apoiei um dos braços no joelho e perguntei.
 - Como assim?
 - Eram negras, majestade...e soltavam uma fumaça branca, mas, extremamente densa. Nosso faro não funcionava direito, ela impedia que tivéssemos uma noção de quem fez aquilo.
 Ouvi tudo...me acomodei novamente ao trono...e sorri.
 - Muito bem, você fez um bom trabalho. Tire o dia de amanhã de folga. - Ele se ergue e sorri também.
 - Obrigado majestade. - Ele agradece, se levanta, reverencia e sai.
 Quando ele bate a porta, só estou eu e meus Suicidas ali.
 - Vidal morreu? - Pietro Întuneric diz, cruzando os braços. - Que coisa, não?! - Ele sorri ao ouvir o passarinho piar.
 - Não me admira. - Fefs Nightcrawler diz logo em seguida. - Ele faltava aos treinos e não se empenhava em descobrir novas portas para o seu dom, nem se estudar sua família.
 - Ainda assim, ele era forte. - Angela, minha filha, comenta. - Será uma certa perda para o time. Meu pai ficará um tanto transtornado, sendo que ele e Vidal tinham se tornado amigos.
 - Seu pai supera. - Valdir Redson diz em seguida. - Felippe é um cara centrado. Mas nós...agora, estamos desfalcados. Antes, foi a Ana, agora, o Vidal...esse time merece o nome que tem...
 - Se parar pra pensar, já estávamos desfalcados antes. - Wesley Oblivion alegou. - Como Fefs disse, ele não aparecia nos treinos e nem se misturava mais conosco. Não somos os 7 Suicidas a um tempo. Somos só 6.
 - Esqueçam ele. - Atraindo o olhar de todos, Arícia Blackheart diz. - Aposto que nossa Majestade tem um plano em mente.
 - De fato, eu tenho. - Eu disse, em alto e bom som. - Eu até contava que Vidal ficasse vivo, mas, no final das contas, sua morte foi premeditada por mim.
 Fefs sorriu ao ouvir isso.
 - Foi tudo um plano?
 - Logico. Eu coloquei ele em uma balada, o local mais publico para um Vampiro não há. Ele seria meu...sinalizador.
 - Sobre o que? - Wesley perguntou.
 - Sobre a volta dele. - Eu apoiei meu rosto em meu punho. - A verdadeira resistência. - Dei uma risada. - Então, Drake Junior voltou... - Dei outra risada. - Vocês vão voltar a trabalhar muito, meus pequenos. E não se preocupem...vocês ainda são 7.
 - Como? - Valdir perguntou...e a porta atrás deles se abriu.
 Arícia sorriu ao vê-lo.
 Ele caminhou firmemente até nós. Estava descalço, calça jeans escura, camisa negra. Os cabelos bagunçados e um olhar frio no rosto. Todos o olharam com surpresa, exceto Arícia, que já esperava aquilo e Fefs...cuja frieza era impressionante para tudo.
 Ele ficou ali, de pé, olhando para mim. E eu sorri para ele.
 E o apresentei.
 - Senhoras e senhores...eis o novo membro do meu grupo de elite, os Suicidas...
 Seja bem vindo.

LUCAS BLACKHEART!

 Ele se ajoelha e responde.
 - A seu dispor, majestade.

 Eu rio novamente.

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