domingo, 12 de abril de 2015

Sozinhos: Gênesis - Capítulo 1

 Eu nunca fui um cara do tipo...espiritual. Eu não fazia preces a noite, eu não fazia durante o dia e com o tempo, eu parei de fazer antes das minhas refeições também. Mas eu sempre tive aquela...crença, por assim dizer, sussurrando no fundo do meu peito. Eu sabia que tinha alguém lá em cima. Eu sabia que tinha alguém que olhava pra mim. Não sei porquê ou quando...mas eu deixei de me importar com isso.
 Logo, eu sei que não é errado Ele deixar de se importar comigo enquanto eu sinto as rachaduras começarem a se abrir.
 O gosto de sangue na minha boca não é reconfortante. A visão turva muito menos. Escuto os gritos deles a distancia...não sei se eles estão longe ou a explosão tenha mesmo acabado com meus tímpanos. Mas por algum motivo...ainda escuto a risada dele.
 Estou zonzo. Estou cansado. Estou com frio. Estou furioso. Então eu deixo que as rachaduras dominem e se abram...eu prefiro ser dominado por isso do que continuar no chão. E a ultima coisa que digo antes de adormecer...é entre dentes e mirando meu alvo:
 - FODA-SE!

△ - Cerca de 15 dias antes - △

 Acordei como todos os dias. Com o som infernal de um despertador que eu não podia quebrar porque vinha do meu celular.
 Me levantei, desliguei, caminhei até o chuveiro. A água quente do meu corpo só me faz querer voltar pra cama...rs'. Acho que isso rola com pelo menos 90% das pessoas de manha.
 Me enxugando, eu passo pela sala do apartamento...quando acabei pegando com o canto dos olhos a luz vermelha piscando da secretaria eletrônica. Sentei no sofá marfim e olhei mais perto. Havia duas mensagens piscando ali. Coloquei pra ouvir no volume maximo enquanto ia terminar de me trocar no meu quarto.
 A primeira mensagem era de Garcia.
 - E ai, brother, firmeza? Então, eu vou passar ai por volta das 20:00 horas, ok? A luta é as 22:00, mas eu to afim de evitar o transito e conseguir pegar algo pra comer lá na arquibancada. Não se esquece que pra entrar, tem que apresentar o RG na entrada, ok? Valeu, irmão, tamo junto.
 Eu dei risada e pensei comigo mesmo que ele tinha que avisar sobre o RG. Eu era meio esquecido com esse tipo de coisa. Fazer o que? haha...
 E ai, a segunda mensagem começou a tocar...
 - Oi... - A voz dela estava monótona, totalmente diferente do que as lembranças teimavam em me trazer. - Eu vou passar ai amanhã pra pegar minha coisas, ok? Sei que não vai estar ai por causa da luta hoje. Enfim, se cuida. Tchau.
 Depois foi a voz da secretaria eletrônica dizendo que eu não tinha novas mensagens.
 Eu paralisei...tinha colocado só um tênis e sentei na cama, fechei os olhos e fiquei ali, concentrado...
 Eu tinha que fazer aquela coisa parar de rugir antes de continuar meu dia...
 Tsc...bom...vamos continuar...
 Meu nome é Victor Borges Cavalcante. Tenho 25 anos e moro sozinho em um apartamento a mais ou menos 3 anos, em São Paulo Capital.
 Durante a semana, eu faço faculdade de jornalismo, mas se você quer saber quem eu sou, passe um final de semana comigo. Vai me ver escutando Charlie Brown Jr., Linkin Park, Queen, Megadeth, Iron Maiden e mais algumas variações de rock. Vai me ver baixando quadrinhos e limpando minha coleção de Actions Figures que recomecei recentemente. Aos domingos e noites de segunda, quarta e sexta, é treino, que comecei a fazer a mais ou menos dois anos. Garcia e Gomes, meus melhores amigos, acabaram me empurrando pra isso, ainda mais agora. E eu os agradeço por isso.
 Basicamente, sou um nerd que passou pelo osso da vida, mas que no final deu sorte.
 Eu termino de me trocar: Uma caça jeans, tênis e uma camisa preta básica. Saio e tranco a porta.
 Eu trabalho como gerente em uma loja de colecionismo no centro da cidade, no segundo andar da Galeria do Rock. Os negócios vão bem, se não, eu não iria conseguir sustentar um AP sozinho. Eu abri aquela loja junto com meu pai...porém, o mesmo está velho demais para continuar com os negócios. Ele fica em casa agora, junto da minha mãe, me mandando emails a cada 5 minutos perguntando como está o movimento da loja.
 Aquele dia foi totalmente normal. Movimento médio, todo mundo vendo, poucos comprando, mas garantindo o lucro da loja. Alexandre, o caixa, tomava conta das cédulas altas de baixo da mesa enquanto Camila, a vendedora, tomava conta dos clientes e respondendo perguntas. Eu via tudo da minha sala, cuja janela de vidro enorme me possibilitava ver tudo da loja. Lá pelas 17 horas, quando faltava pouco para fechar tudo, eu estava respondendo mais um email quando aconteceu...
 Ficou tudo escuro.
 - AAAAAAH! - Camila sotou um berro e Alexandre topou com alguma coisa no balcão e começou a xingar.
 - Caralho, filho da puta de merda, toma no olho do cu, velho...
 - Calma ai, rapaz. - Eu disse, tateando meu caminho até lá. - Rolou em mais algum lugar?
 Camila acendeu a luz do celular. O rosto moreno e cabelos curtos foram iluminados rapidamente quando ela achou a porta para a saida. Ao abrir, a Galeria inteira estava escura.
 - Tá tudo apagado. Mas as ruas ainda estão acesas. - Ela responde.
 - Ótimo, então, vamos fechar mais cedo. - Eu respondi. - Alê, você conseguiu fechar o caixa?
 - Não. Ainda tava contando tudo pra botar no sistema e já facilitar pra fazer o fechamento das vendas já da semana, como você curte fazer.
 - Oh, caralho...é sério isso? - Eu resmunguei. O gordinho careca com barba longa fez que sim com a cabeça com uma cara de "fodeu, chefe". Eu fiquei puto. O sistema da loja era uma beleza, desde que você não puxasse o plug da tomada do simples nada. Ele iria falhar até decidir que tava de bom humor e voltar a funcionar. Aquilo iria atrasar o movimento da loja e eu teria de dar um jeito nisso, o que significaria perder a aula de Sábado do meu curso de Jornalismo. Tudo bem que eu já estava planejando faltar amanhã, mas ainda assim...aquilo me irritou mesmo. Já estava até que atrasado para voltar pra casa e me arrumar pra grande luta de hoje...e ainda aquilo rolava? Eu ia ter de esperar a luz voltar de qualquer jeito.
 - Mano...justo agora? - Eu reclamei comigo mesmo. Me curvei e me apoiei na porta da loja. Eu andava fiando irritado muito facil e meus amigos de trabalho sabiam daquilo. Camila ia dizer alguma coisa quando colocou a mão no meu ombro quando eu soquei o batente da porta e gritei.
 - MERDA!
 E como se eu tivesse ligado o interruptor...a luz voltou.
 Eu olhei para cima, fui brevemente cegado. Minha visão ficou meio turva e cheio daqueles "quadradinhos de luzes" que a gente fica vendo quando tiram uma foto com flash.
 - Ai, graças a Deus! - Camila disse, colocando a mão no peito e outra na cintura.
 - Voltou! - Alexandre disse em alegria ao olhar para o pc. Enquanto eu coçava os olhos, eu falei, sem grandes surpresas.
 - Beleza. É um milagre. Faz o favor de reiniciar tudo e voltar a fazer o que estava fazendo.
 - Não precisa reiniciar. - Ele disse, com mais alegria ainda na voz.
 - Ein?
 - Se liga. - Ele apontou para o PC. Fui e olhei para ele e fiquei embasbacado. O sistema havia voltado junto com a luz, logo, não teríamos de começar do zero.
 - Porra, ai sim! - Eu comemorei. Aquilo iria economizar muito tempo.
- Vitão, na moral. - Camila disse.- Pode ir, a gente segura a sua onda aqui. - Olhei para ela e ela sorriu para mim. - Sério, fica de boa.
 - Vai lá, cara, você fica falando dessa luta ae e de se reunir com seus amigos a muito tempo. To ligado como é importante pra você. Vai fundo.
 Sorri para eles. Agradeci, desliguei meus sistemas, guardei o dinheiro do caixa no cofre e sai da loja.
 Foi quando eu vi que toda a galeria estava no escuro ainda. Alexandre me seguiu para dizer alguma coisa e ficou meio assustado junto comigo.
 - Oshi. - O garoto disse. - Só a nossa loja voltou?
 - Estranho, né? - Eu disse. Virei pra ele e completei. - Mas foda-se, sorte nossa. - E ele também deu uma risada. - Falou ae Alê, se cuida.
 - Até mais, chefe. - E eu fui embora. Desci a escada e fui para o térreo, ignorando os questionamentos do pessoal a respeito da luz. Foi quando eu botei o pé na rua que veio aquela figura estranha.
 - EI! - Eu tomei um susto da porra. Eu cerrei meu punho, pronto pra acertar quem fosse, mas no final, senti um tanto de pena da figura.
 Um mendigo. Barba longa, touca na cabeça, vestindo trapos e um cheiro que faria urubus fugirem.
 - To sem dinheiro, eu disse. - Já pronto pra me dar as costas e ir embora. Mas ele continuou falando.
 - A loja que tá com a luz acesa é sua? - Ele perguntou aquilo com uma voz...um tanto diferente. Mais grave, não chiada e espalhafatosa como ele havia me chamado atenção. De fato, atraiu minha atenção, tanto que o respondi.
 - Sim, é minha. - Eu respondi. Foi quando eu parei e prestei atenção nele. O cara devia ter seus quarenta anos. Sujo pra caralho. Uma touca preta e cheia de manchas verdes na cabeça. A barba era longa, embaraçada e o cheiro ruim vinha dela. Seus olhos eram um castanho bem escuro. A pele morena era um combinado de feridas e sujeira. Ele vestia uma jaqueta de moletom cinza em cima de uma camisa social que também estava em cima de uma camisa normal. A calça dele era de moletom, toda surrada...e ele estava descalço.
 Ele olhou para dentro da galeria novamente e depois olhou para a loja.
 - Por que ela está acesa? - Ele realmente estava interessado naquilo.
 - Não sei, amigo. Olha, eu preciso ir, ok? Falou. - Finalmente dei as costas e continuei andando...mas ainda sentindo o olhar dele nas minhas costas.
 - Maluco doido... - Eu pensei comigo mesmo e continuei meu caminho.
 Peguei meu carro e fui para casa. Era umas 18:30 quando eu cheguei. Larguei tudo em cima do sofá e fui direto pro banho. Terminado, fui para o meu quarto, peguei minhas roupas. As minhas preferidas.
 Meu All-Stars, calça jeans azul escuro. Uma camiseta branca e, por cima dela, uma camisa preta, a deixando aberta, sem abotoar. Eu me sentia bem pra caramba com aquelas roupas.
 Deu 19:45 quando o celular tocou.
 - Alô?
 - E ai, man!
 - E ai, Garcia, já estou pronto!
 - Ótimo, porque já estou chegando. Seguinte, o Heitor tá chegando lá em Guarulhos ,pelo aeroporto...
 - Porra! Ele conseguiu vir? - Eu o interrompi. - Vamos buscar ele!
 - Pode ter certeza que vamos, manin! A gente corre até garulhos e depois vai lá no Ibirapuera, valeu?
 - Valeu!
 - ÓTIMO, desce ae que eu já cheguei! - E eu dei risada, peguei minha carteira e sai pra fora.
 Cheguei no térreo, sai, avisei o porteiro e dei de cara com ele.
 Vitor Garcia foi meu amigo no colegial. Depois disso, nos tornamos irmãos. O cara tinha 1,75 de altura, verdade. Mas era forte pra cacete. Ele malhava a muito mais tempo que eu e com uma dedicação dobrada. Além disso, ele tinha uma Oficina de Carros. E apesar de ser chefe, o que ele gostava mesmo era de trabalhar, então levantar e montar motores era com ele.
 Os cabelos pretos arrepiados, a pele branca um pouco rosada nas bochechas por causa do frio. Ele usava uma jaqueta de couro preta por cima de uma camisa azul escura, E como sempre que o via, eu o cumprimentei com um abraço.
 - E ai, irmão. - Ele disse.
 - Na paz, eae? - Eu respondi.
 - De boa. - Ele me olhou bem e deu risada. - Fala sério, eu mal te reconheço sem a barba, cara.
 - Ah, nem ficou tão ruim assim. - Me abaixei e olhei no retrovisor do carro dele. Lá estava eu...cabelos negros e curtos, rosto liso, olhos castanhos claro...é isso ae.
 Entramos no Opala 76 dele e fomos embora.
 - E ai, man, como você tá? - Ele pergunta, iniciando a conversa.
 - Tá numa boa. Só na correria. E você?
 - Mesma coisa.
 - Levantando muito motor?
 - Nem. É a parte administrativa mesmo.
 - Como assim? - Eu perguntei. Ele suspirou e continuou.
 - Ah, cara, cê sabe. Tomar conta do material que entra, tomar conta do que sai, salario, tanto meu quanto do pessoal e etc. Esse mês ae teve umas peças caras que tive que cuidar, tive que importar e, por causa disso, atrasei muito serviços e acabei ouvindo merda de gente que nem conheço, ta ligado?
 - Ah vey, eu sei como é.
 - É, cê trampa lá na loja, não é? Você sabe...
 - É mas, na real, o seu pessoal tem mais razão de perder a linha, entende? O seu pessoal tá nervoso por causa do carro, um meio de transporte, que ajuda com os filhos, com a família, compromissos, trabalho e etc. Mas o meu? Teve um dia que um cara quase veio pra cima de mim porque o Batman tinha um risco na lateral da bota e queria reembolso! - Garcia deu risada e concordou.
 - Pode crê! Você me contou essa. Mas ae, fala a verdade...se o seu Batman chega com um puta riscão na bota...?
 - Eu perco a linha também, nem posso falar nada. - E demos mais algumas risadas.
 - Mas continua, falae... - Eu disse a ele.
 - Ah cara, tá nessa, entende? A garagem tá lá, cheia de carros, não tem mais lugar pra colocar nenhum e se eu não resolver isso essa semana, é provável que eu tenha que recusar trabalho, entende?
 - Ai é foda. Você não pode colocar os carros em outro lugar?
 - Nem rola. Se deixar na rua, pode rolar roubo, se deixar em casa, vai parecer roubo.
 - É foda.
 - Demais.
 Ficamos um tempo em silencio. Eu vi os carros ficando para trás enquanto Garcia costurava o transito. Se fosse outra pessoa, eu ficaria incomodado. Mas como era ele, eu ficava de boa. Garcia era um puta dum motorista e ele conseguia se virar no transito.
 Decidi voltar com o assunto.
 - E a Tai, cara?
 - Ela tá bem. - Ele respondeu. - Ela tá com a mãe dela e vai com a Bianca e a Tamíres lá pro Ibira depois disso.
 - A Tamíres ainda tá com o Heitor? - Eu perguntei.
 - Está sim. Ela sempre vai lá pra Brasilia quando tinha chance. Agora, eles vão aproveitar essa folga pra passar o final de semana juntos, se não me engano.
 - Poh, ai sim! - Eu respondi. Fazendo uma manobra, Garcia parou o carro.
 - Chegamos. - O tempo passou rápido com aquela conversa. Olhei para o relógio, Era 15 pras 21:00. Ainda tínhamos tempo.
 Descemos do carro e começamos a andar para dentro do aeroporto quando ele perguntou.
 - Aé, cara, me diz, e a Aline? - Eu devo ter feito uma cara muito feia, porque na hora ele falou - O velho, desculpa, eu...
 - Não, não, relaxa...ela tá na boa, disse que passaria amanha lá pra pegar as coisas dela. - E ele fez que sim com a cabeça e colocou a mão no meu ombro.
 - Relaxa, man, vai ficar tudo bem.
 - É, eu sei que vai. - Eu respondi. Antes mesmo de Garcia dizer qualquer outra coisa...
 - OLHA ELES AE! - Ouvimos o grito e olhamos para frente. Saindo do aeroporto com uma mochila nas costas e uma jaqueta camuflada, estava Heitor.
 Eu mal o reconheci.
 Heitor estava bem diferente. Mais forte, mais alto e com uma barbicha no queixo.
 - Caralho, Ronin, cresceu ein? - E ele riu. Ele nos abraçou e disse.
 - É bom estar de volta. - E eu concordei.
 Fazia tempo que não nos reuníamos. Fazia muito tempo mesmo.
 E eu me lembrei quando conheci aqueles caras.
 Quando entrei no primeiro ano no colegial, eu mudei de escola. Tudo o que aconteceu comigo antes disso não tem lá muita importância. Lá foi onde eu conheci meus amigos pra vida toda.
 Vitor Garcia era um cara simples. Filho de um caminhoneiro e uma empresaria, ele cresceu mais na oficina do avô do que dentro de casa. Isso fez com que ele tivesse um gosto por carros não só na parte mecânica, como também na sentimental. Ele cresceu com o pai ensinando tudo sobre carros e com a mãe ensinando-o a ser mais ativo. Isso o fez um cara sistemático, um tanto perfeccionista, focado e extremamente humilde. Ele estudava numa sala ao lado da minha no primeiro ano e
 Através dele, conheci Heitor Camblor. Eles eram amigos de infância. Heitor não podia ser mais diferente do que ele. Quando tinha 14 anos, entrou em um Dojo Samurai simples da zona leste, só por curiosidade dessa arte marcial. Tomou gosto pela coisa. Ele se aprofundou na historia da arte e, quando aprendeu que os Samurais eram a alma do exercito japonês em seus dias de glória, uma coisa levou a outra. Ele começou a se interessar pela vida militar de um modo geral, o que fez se alistar no exercito e entrar aos 18. Ele ficou e cresceu. Por isso ele foi para Brasilia. Eles precisavam de um Tenente por lá.
 Mas agora, ele estava de volta.
 - E ai, temos quanto tempo? - Heitor perguntou.
 - Uma hora, mais ou menos. - Eu respondi. - Tamires, Tai e Bianca já estão lá esperando a gente.
 - Beleza, a gente conversa no carro então. - Garcia disse. Caminhamos até o mesmo e ai...
 - Ow. - Eu disse, trombando em Heitor. - Eu vou na frente.
 - Ah não, Borges, eu que vou na frente. - Ele respondeu. - Você já veio na frente.
 - Por isso, ainda vou na frente. - Dei um sorriso sarcástico pra ele. - Você pode ser o Tenente Camblor lá fora, rapaz, mas aqui, ainda é o Ronin! - Ele deu uma risada, um tapinha nas minhas costas e disse.
 - Deixo essa passar então. - Demos uma risada e ele sentou no banco de trás.
 Quando entramos no carro, Garcia estava sentado, olhando o celular, sorrindo.
 - Tainá deu noticia? - Eu respondi.
 - Não, foi o Gomes! - Ele olhou para nós. - Ele já chegou lá no Ibira. - Rimos, colocamos os cintos de segurança com pressa e Garcia já acelerou.
 Vitor Gomes...a razão de estarmos nos juntando.
 Outro que conhecemos na época do colegial. O mais novo de nós...mas com certeza o que decolou mais rápido.
 Eu quero me formar em jornalismo, ser um escritor e fazer a loja crescer mais.
 Garcia já se formou na faculdade de Engenharia e quer fazer a oficina crescer mais com seus conhecimentos.
 Heitor quer continuar subindo na carreira militar até a hora e que ele possa apontar uma pistola na nuca do Presidente sem ser preso ou coisa parecia.
 Gomes era o lutador do nosso time. Desde sempre o cara só falava em se tornar um lutador de MMA. E ele conseguiu. O cara treinava Muay Thai desde os 10 e Jiu Jitsu desde os 12. Um dia, ele atraiu atenção do pessoal certo e hoje, com 22 anos, o cara vai disputar o cinturão dos pesos pesados na Arena Ibirapuera, inaugurada mês passado. A primeira luta que vai rolar nela.
 Eramos unidos, cara. Unidos demais. Os três anos de colegial foram fodas. E depois disso também, continuamos amigos. Crescemos juntos, entende? Na forma "profissional" e espiritual da coisa. Amadurecemos.
 Eramos Quatro Reis.
 Até quando arranjamos namoradas eramos tão juntos que elas viraram amigas. Garcia conheceu Tainá, Heitor conheceu Tamíres, Gomes conheceu Bianca e eu...conheci Aline.
 Bom...pelo menos 3 de nós ainda mantém os relacionamentos. Mas enfim...meus amigos estavam ali ainda. Nos iriamos...
 - CARALHO! - Garcia freou do nada. O cinto quase me enforca e Heitor quase voa por cima de mim. - FILHO DUMA PUTA, SAI DAI!
 Quando eu tomei ar, me segurei na porta e me levantei.
 Alguém parou ali, no meio da rua e impediu o movimento do carro. Ou Garcia freava ou atropelava o cara.
 O que me fodeu a mente foi ver quem era o cara.
  Jaqueta de moletom cinza em cima de uma camisa social que também estava em cima de uma camisa normal. A calça dele era de moletom, toda surrada...e ele estava descalço.
 - Puta que pariu... - Eu disse, em um sussurro. Não era por raiva, não era por falta de folego...era a surpresa de ver aquele mendigo de novo.
 - ARROMBADO! - Garcia gritou antes de dar a volta a ele e continuar andando. Ele olhou pra mim...e continuou olhando para o carro mesmo depois de continuarmos indo embora.
 Olhei para trás...voltei e parei pra pensar...não tinha como ser o mesmo cara, tinha? O cara ia andar da Galeria do Rock até aqui?
 - Borges? - Heitor perguntou, colocando a mão no meu ombro. - Você tá de boa?
 - To. To sim. - Eu disse, passando a mão nos meus cabelos. - Só aquele viado que me assustou, foi só isso.
 - Porra, mendigo quando quer se matar, não cheira a própria cueca? Porque ele tinha que querer inventar de se jogar no frente do meu carro? - Demos uma risada e Garcia acelerou o carro.
 Mas eu ainda olhei no retrovisor novamente...
 Vi uma estrada vazia e escura...que parecia mais seguir o carro em que estávamos. Eu senti um pouco de frio...
 Eu balancei a cabeça. Eu precisava relaxar...
 Relaxei mais no banco e entrei no papo com meus amigos.
 Nós tínhamos uma luta pra assistir.

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