quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Carnívoros - Capítulo 2: “Bang-Bang”

 Era mais ou menos uma hora da manhã quando Jéssica e Roberto decidiram pegar a estrada. Estavam no interior, cidade de Campinas e tinham que voltar para Guarulhos logo de manhã. O domingo serviria para arrumar a breve bagunça que tinham deixado no apartamento e depois, dormir bastante antes de voltar à rotina na segunda-feira. Eles já haviam passado por Vinhedo e agora se aproximavam de Jundiaí quando resolveram desligar o rádio e conversar.
 - Jéh, o que foi mesmo que você pediu pra fazermos quando chegarmos em casa? – Roberto, 24 anos, corpo mediano, pele branca, um tanto avermelhado pelo sol que tomou na sexta e no sábado, corpo nem gordo nem magro, cabeça raspada com maquina 1, vestindo chinelos havaianas, bermuda de pano e camisa regata, olhou rapidamente para a namorada no banco do lado quando perguntou aquilo.
 - Temos que ir e pagar a conta de água. – Jéssica, 26 anos, morena gostosa, cabelos negros e “liso de chapinha”, usando uma calça jeans branca, uma blusa azul decotada, pés descalços e olhando na janela lá fora, respondeu sem grande interesse. – Eu esqueci de fazer isso na pressa de vir.
 - Ah, ok. Pensei que tinha alguma coisa haver com seu irmão.
 - Que que tem meu irmão? – Jéssica finalmente olhou para o motorista.
 - Ele disse para passarmos lá depois da viagem, não é? – Roberto disse, sem muito ânimo, até soltando uma das mãos do volante e a apoiando na janela aberta do carro.
 - Ah, disse sim. – A morena sorriu. – Ele anda meio solitário desde que a Orlanda largou ele.
 - Graças a Deus, na boa! – Roberto disse entre risos. – Orlanda! Olha o nome! Puta que me pariu! Consegue ser pior que o Jaspion que conhecemos naquele bar em São José do Rio Preto. – Os dois riram um pouco.
 - Ah, coitada. – Jéssica disse, arrumando o decote e atraindo o olhar do namorado. – O nome era feio, mas ela não era feia e cuidava dele. Agora, ele está sozinho.
 - Imagino. É, uma pena. – Roberto disse, meio entre risos. – Olha, amor, eu acho que... – Ele não completou a frase. Ele simplesmente começou a gritar como um louco.
 Pingos voaram até o rosto da morena antes do cinto de segurança quase estrangulá-la. O namorado pisou no freio com tudo e o carro quase capotou pela forma brusca que o fez. Jéssica ficou confusa conforme o mundo girava e ela tentava recuperar o ar...até que olhou para a estrada, totalmente escura e vazia. Ela passou a mão no rosto para tentar focar o olhar e depois...olhou para ela.
 As palmas de suas mãos...não só ela, seu braço...o painel do carro...
 Tudo tinha pingos de sangue.
 - O que...?
- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! – Jéssica quase terminou de enfartar quando viu o namorado...
 Primeiro, foi reparar que ele estava mais coberto de sangue do que ela.
 Depois foi reparar que faltava um braço nele. O braço que estava para fora da janela.
 - ROBERTO! MEU DEUS! ROBERTO! – Ela desceu do carro na maior pressa do mundo. Ela correu até o lado do carro dele e abriu a porta. O homem não conseguia parar de gritar ou ranger de dor. Estava entrando em estado de choque e a constante perca de sangue não ajudava.
 Jéssica abriu a porta do carro, tomando cuidado com o esguicho que ficava saindo da junta exposta do namorado. O mesmo tentava colocar a mão, mas não parava de se mexer. Ela queria entrar, soltar o cinto de segurança dele, tentar pegar algo para estancar o sangue...
 Na hora, ela tirou a blusa e pressionou no ferimento. A dor fez Roberto gritar, mas quando olhou no rosto da namorada toda suja de sangue, de alguma forma, aquilo o acordou. O fez voltar mais a si, o fez ficar mais quieto.
 - JÉSSICA, LIGA PRA AMBULANCIA, PRA POLICIA, LIGAAAA! – O estado dele era grave e parecia já estar perdendo seus sentidos novamente. Jéssica achou melhor deixar ele preso com o cinto. Ela pegou o celular com as mãos tremulas. Ficou uns dois minutos olhando por toda aquela escuridão, tentando entender...como isso era possível? Não passou carro, não passou nem caminhão, nem moto, o braço dele simplesmente pulou pra fora. Uma hora estava ali,na outra...nada...nada. Quando digitou 1, depois o 9 e ia digitar o zero, aquela sombra passou pelo farol do carro...e estacionou ali.
 Jéssica nunca vai esquecer daquela cena, seja lá onde ela esteja agora.
 Um homem. Cabelos castanhos, roupas negras. A jaqueta de couro que usava era negra como a noite e havia algo nela que a fazia ser mais escura do que o restante da roupa do rapaz de pele muito branca.  O braço de Roberto estava em sua mão e ele o erguia, como uma garrafa. O sangue caia em sua boca e se despejava pelo pescoço e pela sua camisa branca, manchando tudo com aquela coloração vinho.
 Os gritos pararam. Roberto de repente, via a cena...e começava a enfraquecer pela falta de sangue...começava até pensar que estava delirando.
 O homem abaixou o braço, o encarou...e depois o jogou por cima do ombro. Olhou com desdém para Jéssica...e a mesma o viu com todo o medo do mundo. A boca, as bochechas e o pescoço banhados em sangue...os olhos, um rubro forte e a pupila fina como a de um gato. Ele deu um leve sorriso...mostrando aqueles caninos enormes...
 Jéssica não gritou. Apenas tremeu e urinou nas calças.
 - Você tava certa, Diana. – Alek dizia sem tirar os olhos da morena. – É tipo O negativo. E nem o álcool no sangue dele me deixa mentir. – Depois de dizer isso o Vampiro começou a caminhar lentamente até a garota. Jéssica tentou dar dois passos para trás...só para trombar com alguma coisa. Nem mesmo tempo de virar ela teve. Diana segurou seu ombro e sua cabeça e puxou ambos para lados distintos. O pescoço quebrou antes da Vampira cravar os dentes em sua jugular e começar o banquete.
 A atenção de Alek voltou para Roberto. O motorista estava com a cabeça jogada no banco do carro. O braço voltava a sangrar “normalmente”, uma vez que nem tinha forças para fazer algo para estancar nada.
 Logo abaixo do sangramento, Cassandra, a Primeira Conselheira da Rainha, abria a boca e deixava que cada gota caísse ali.
 Alek não conseguiu deixar de sorrir mais uma vez.


 - Eu disse e vou dizer de novo, Alek. – Diana falava enquanto o corpo da morena caia ao chão. – Eu sou foda! Quando se trata de identificar sangue, eu sou a melhor! O simples cheiro que vem com a brisa me diz tudo! – Então a mesma sorriu e apontou um dedo para o Vampiro. – Você, por outro lado...quando dissemos para você ser sutil, não dissemos para você ser RÁPIDO!
 - Queria que eu fizesse o que? Ficasse no caminho, deixasse eles me atropelarem e parassem pra checar? – Alek riu. – Qual é, Diana. Estamos no Brasil! Aqui, se foge de Testemunhas de Jeová, o que diria de um atropelamento.
 - Ainda assim, adoro essa técnica. – Diana disse, rindo e tentando limpar o sangue espalhado em sua boca.
 - “A técnica”, você diz. Ver meus ossos se quebrando faz parte?
 - Ah, isso é um bônus, eu admito! – Cassandra riu quando Alek mostrou o dedo para a loira e se aproximou da Conselheira.
 - Ok, Cassandra, voltando ao papo...antes de sermos interrompidos. – Alek olhou para Diana com o canto do olho e foi a vez dela de mostrar o dedo. Ele voltou seu foco a Conselheira. – Por que a Ordem simplesmente não me chamou e me colocou no caminho do Padrezinho?
 A Vampira estava secando as veias do motorista quando Alek perguntou. Ela parou por ali e se ergueu.
 - Podemos falar nisso quando voltarmos para o carro? – Seus olhos rubros olharam nos de Alek. – Por favor, senhor...eu quero ao menos degustar uma refeição.
 Alek respirou fundo e o ar saiu rápido de seus pulmões. Sinal claro de que estava irritado. Diana até parou de sorrir quando aquilo aconteceu e Cassandra parou de se alimentar.
 O Vampiro foi até o corpo de Jéssica, o pegando pelos cabelos e o atirou no carro. Eles se afastaram até que Alek sacou uma de suas metralhadoras e meteu bala no tanque de gasolina até tudo arder em chamas.
 Eles subiram um barranco até o carro deles, estacionado em uma estrada superior. Daiana no banco do motorista, Cassandra na carona e Alek no banco de trás.
 Eles partiram. Alek cruzou os braços e disse.
 - Muito bem...estou esperando. – Cassandra se virou, apoiando-se no banco para olhar diretamente a ele.
 - Lembra quando te chamamos para executar alguns ocultistas que estavam fazendo coisas suspeitas lá pelo Texas?
 - Lembro.
 - Esperávamos que Oscar estivesse entre eles. Não estava. Lembra quando te mandamos pegar alguns satanistas em Liverpool?
 - Lembro.
 - Também esperávamos encontrar Oscar entre eles. Também não estava. – Alek só fechou mais ainda a cara.
 - Quantas vezes vocês me mandaram atrás desse cara e eu nunca soube a respeito?
 - Nas quantas vezes a própria Rainha omitiu de todos nós. – Cassandra também fechou a cara, até mesmo perdendo seu olhar por um segundo. – Ela disse que tem algumas suspeitas. De coisa grande. E ela disse que só vai falar a respeito quando você chegar lá.
 - Puta que pariu, eu odeio quando ela faz esse tipo de coisa! – O Vampiro apertou os olhos e relaxou no banco, estendendo os braços e jogando a cabeça para trás.
 - É, eu também. – E Alek riu baixinho quando ouviu isso de Cassandra...
 Sua memória foi longe...
 A Ordem...o grupo político/militar dos Vampiros. Aqueles que fazem tudo funcionar, com suas leis e regras para que nada saia do controle. Que limpam a sujeira e deixa tudo quieto quando se precisa. Sua historia começa junto com o tempo...e se estende até hoje. Mas isso é coisa pra se lembrar outra hora.
 Mas o básico...é fácil de entender.
 Uma Rainha a governar. A dar as ordens, o exemplo e o espírito da família. Ela que senta no Trono Negro e de lá toma conta de tudo a todos. Ela rege a raça por todo o globo, incluindo os Clãs Solitários. Uma Rainha sempre terá dois Conselheiros: Uma mulher para tomar conta de assuntos familiares e os quais devem ser...silenciosos. E um homem, para assuntos militares e de grande escândalo.
 E uma Rainha sempre terá um Cavaleiro. Aquele que está em Segundo no comando de toda a raça. Aquele que tem a Moeda de Azazel e que terá seu rosto desenhado ali. Que poderá invocar a Lamina Nobre, a mais poderosa de todas as armas. O Cavaleiro é escolhido pela Rainha e assim que escolhido, sua autoridade e poder, não devem ser questionadas.
 Alek era o Terceiro Cavaleiro. Ele era o segundo em comando de toda a raça.
 Mas do que adianta esse tipo de título em tempos de paz? Por anos, ele ficou vagando pelos corredores da Ordem, sem muitos trabalhos, vivendo no tédio, no ócio. Todos pareciam mais o respeitar pela moeda que carregava do que pelos seus feitos em si. Tudo bem...houve algumas coisas grandes que ocorreram, mas por mais de 100 anos, Alek não ficou fazendo nada que não fosse se perder em seus pensamentos...
 Até que lhe ocorreu...sair por ai...montar algo grande...
 Os Carnívoros!
 - Alek! – Diana disse um pouco alto, tirando o Vampiro de seus pensamentos. Ele levantou a cabeça e olhou para ela.
 - O que foi?
 - O Sol vai demorar pra nascer, mas vai querer parar em um hotel de novo? Trocar as roupas e tudo mais? – Alek passou os dedos no queixo logo após ouvir a pergunta. Um pouco de sangue seco e coagulado se prendeu ali. Ele lambeu os dedos e respondeu.
 - Não, não. Vamos direto pra São Paulo. Vamos pra casa numero 37 e lá, tomamos banho e fazemos tudo que temos que fazer, ok? Depois, a gente vai ver o pessoal todo. É só não tirar o pé do acelerador.
 - Por que precisamos parar ontem mesmo? – Cassandra perguntou, a respeito de ontem, após saírem de Severínia, Alek pediu para irem a um hotel, onde se trocaram e passaram o dia com tudo fechado e dormindo.
 - Eu gosto de ficar quieto depois de um trabalho. – Alek dizia, colocando a mão dentro da jaqueta. – Eu gosto de ficar na minha, sem muito barulho ou movimento. É uma mania minha, não sei muito bem explicar o porque. – Ele pega um maço de cigarros e um isqueiro zippo. Acende um e passa para Diana, que faz a mesma coisa. Ela oferece a Cassandra, que recusa e devolve tudo para Alek.
 - Entendi. – Ela responde a Alek. – Mais alguma mania que você adquiriu ao longo desses anos de “trabalhos” que eu deveria saber?
 - Eu to aprendendo a tocar violino.

Uma hora depois

 Todos ficaram um tanto quietos no caminho para a grande São Paulo. Houve algumas conversas e até algumas piadas, mas nada que durasse mais de 10 minutos. Alek terminou de fumar o maço todo quando finalmente chegaram a seu destino.
 Um bairro quieto na zona leste. Vila Formosa.
 O portão automático do pequeno sobrado se abriu e entraram, fechando também automaticamente. Alek, Diana e Cassandra subiram a escada que levava a um corredor que daria ou na lavanderia dos fundos ou na porta da sala.
 A porta estava aberta, como Alek disse para a empregada, que foi limpar a casa, fazer. Piso de madeira e sofás brancos esperavam por eles.
 - Vocês duas podem ir e tomar banho primeiro, eu vou verificar e guardar o armamento, ok? – As duas vampiras concordaram. Só havia dois banheiros na casa, logo, Alek conseguia esperar. Ele deixou a jaqueta em cima do sofá e foi até o carro novamente. Abriu o porta malas e tirou a sacola de armas que estava ali e o Dragunov de Diana.
 Voltou, subiu a escada que dava para uma espécie de escritório. Paredes brancas forradas com pôsteres de armas e sua “anatomia”. Piso de madeira com algumas marcas que fez Alek ter lembranças rápidas. Uma grande mesa de metal com algumas ferramentas presa na parede logo a frente dela e um armário de metal compunham a sala. Ali, ele colocou todas as armas que tinha em cima da grande mesa e pegou alguns instrumentos na primeira gaveta. As desmontou, uma por uma e cada uma teve uma atenção especial quando Alek as limpou, recarregou e ativou a trava de segurança. Tudo feito, ele foi até um armário de metal atrás dele. Havia papéis, mapas, blue prints, tudo haver com armas e missões feitas na região. Na segunda prateleira, ele tirou a pilha de papéis central e apertou um botão ao fundo. Se ouviu uma trava e ele puxou o armário. O mesmo deslizou, como se fosse uma porta, revelando um fundo falso do mesmo tamanho que o armário. Algumas pistolas estavam penduradas, algumas escopetas encaixadas com cuidados, outros fuzis estavam presos em coldres de ferro. Alek encaixou todo o armamento ali, até mesmo os dele, só tirando uma Glock 45 e um cartucho da mesma e seu devido coldre. E claro, a Dama de Ferro, sua S&M MAGNUM 500. Fechou tudo, voltou a mesa e colocou as armas dentro do coldre e o cartucho. Não colocou o sinto, somente carregando na mão mesmo, ele voltou a sala.
 Foi quando ele percebeu...e berrou.
 - CARALHO, VOCÊS AINDA NÃO SAIRAM DO BANHO?  - Risos foram as respostas que ele teve, antes que Cassandra gritasse.
 - NÃO!
 - PORRA! E POR QUÊ? – Alek gritou de volta.
 - VAI SE FODER, É POR ISSO! – Diana respondeu e os três começaram a rir.
 Alek colocou o coldre com a arma em cima da mesinha de canto, se jogou no sofá e ligou a televisão. Estava passando algum filme que ele não realmente prestou atenção. Só desejou ter mais algum cigarro por ali.
 - Pronto, tá liberado. – Diana disse, aparecendo de toalha enrolada e secando o cabelo. Alek ia levantar...quando ela olhou em seu antebraço. – Sério...eu curto muito essa tatuagem.
 O Vampiro, então, olhou em seu antebraço esquerdo. Uma tatuagem de um rifle Winchester 44, com 15 cm, feito somente em tinta preta, com detalhes e tudo mais estava lá.
 - É uma das melhores que eu tenho. – Alek disse, se levantando e indo para o banheiro.
 - Você nem tem tantas assim. – Diana disse e Alek riu. A Vampira se sentou no sofá e deixou que a toalha caísse. Suas costas e tattoo apareceram.


 Ela olhou por cima do ombro e, com olhos rubros, piscou para Alek...que retribui o olhar, mas entrou no chuveiro.
 Diana era assim mesmo. Nasceu pra provocar. Se fosse diferente, Alek não iria gostar dela.
 -
 O Vampiro deixou a água quente cair sobre o corpo. Tirou o sangue seco do rosto e do pescoço sem muitas dificuldades. Ficou ali, por pelo menos uma hora, sendo que já estava limpo depois de 30 minutos. Ele ficou ali, pensativo, mexendo na moeda que estava presa em seu pescoço...organizou tudo, como sempre.
 Ele coçou a nuca. Mas a coceira não aliviou.
 Saiu, enrolou a toalha na cintura, pegou o celular do bolso da velha calça e foi para a cozinha, depois para a sala...onde viu as garotas rindo.
 - Qual foi? – Alek disse, já sorrindo.
 Cassandra, ainda com os cabelos ruivos úmidos, vestindo uma camisa vinho simples, uma calça jeans preta e tênis com ambas as cores mescladas, se virou para Alek e respondeu.
 - Diana estava confessando a sua época de ninfomaníaca. – Alek riu concordando com aquilo e as Vampiras riram da cara dele.
 Diana estava vestindo só uma blusa preta, calça jeans branca e estava descalça. Ela voltou a falar de novo.
 - É, eu tive alguns problemas aqui e ali. Eu era viciada nisso. Eu não conseguia passar meia hora sem dar uma, era realmente um problema. Mas o tempo e a terapia caseira me curaram. Ficar parada, pensando no que aquilo estava fazendo comigo... – Então Alek pigarreou e começou a falar.
 - Esqueceu da parte em que te amarramos em uma cadeira de titânio e colocamos luzes ultravioletas ao seu redor para se impedir de sair por uns três meses. Tínhamos que alimenta-la com um canudo bem longo e sangue de gente virgem, pra ver se ela se acalmava. – Cassandra colocou a mão na boca e começou a rir descontroladamente imaginando a cena.
 - E eu te agradeço por isso, Alek. – Diana disse, cruzando os braços e sorrindo para ele.
 - Relaxa. Alias, se vicio em sexo realmente fosse uma doença, acho que todo mundo com mais de 13 anos deveria estar se tratando. – O Vampiro se retirou ao som de risos depois de dizer isso. Subiu as escadas, entrou em um dos quartos.  Uma cama de casal com dois criados mudos, um em cada lado e um guarda roupa. Abriu o mesmo e se trocou. Colocou uma camisa branca, calça jeans azul escura e tênis preto. Procurou em algumas das gavetas do criado mudo e achou um maço meio amassado de marlboro branco. Do lado do maço, alguns fósforos. Alek fez cara feia, mas o pegou assim mesmo.
 - Puta que pariu, Conrado...
 Quando acabou de acender o cigarro, o seu celular toca. Ele atende e a voz vem:
 - Alek?
 - Caralho, eu tava pensando em você agorinha!
 - Sério?
 - Sério. Eu estou aqui na casa 37, sem cigarros. Ai eu procurei nas gavetas e achei a merda de um maço BRANCO!
 - Você sabe que não fumo muito.
 - Beleza, mas não pode começar a fumar algo mais forte em respeito aos amigos?
 - Não.
 - Sério. Tipo, você é japonês e tudo mais, segue a cultura dos seus ancestrais. Eles não fumavam nada não?
 - Cara, eu sou JAPONÊS! Não um CUBANO!
 - Beleza, então. – Alek riu. – O que manda, Conrado?
 - Nem Diana, nem você ligaram na hora marcada. Aconteceu alguma coisa?
 - Nada que atrapalhasse o serviço. O Padre tá morto, o dinheiro é nosso.
 - Ok. Mas por que não ligaram? – Alek deu uma tragada e respondeu o amigo.
 - Cassandra apareceu. Ela era o verdadeiro cliente. A Ordem é o cliente!
 - Como assim? E aquele cara que eu conversei pessoalmente?
 - Algum peão, sei lá. Mas nada que você precise se preocupar, isso é meio pessoal, mas da minha parte.
 - Você e a Rainha sempre tiveram esses joguinhos, né?
 - Sempre, cara. Sempre. – Alek disse, dando mais uma tragada. – Enfim, o Padre era foda. Ele era um Necromancer.
 - Que nível?
 - Ele ressuscitada corpos das pessoas que matava e mandava pra cima de mim. Usava uma aura de merda pra criar mãos e me atacar. Eu tive que usar a Moeda.
 - Ok, ele era bem foda.
 - Um pouco. Serei sincero, se ele não tivesse tão cheio de si e usado melhor seus recursos, eu teria suado.
 - Ok, tudo bem. Mas por que a Rainha queria ver ele morto?
 - Não sei. Ela não deixou Cassandra ficar sabendo de nada, só mandou ela vir aqui me avisar. Ela disse que quer conversar comigo pessoalmente.
 - Tudo bem, então. Quando você volta?
 - Vocês vão comigo!
 - É O QUE?
 - Você ouviu. Pode ir chamando Baxter, Elena e o Frank. Prepara o jato que vamos decolar amanhã a noite.
 - Sério mesmo? É muito raro irmos para lá.
- É, eu sei, mas, não fica muito contente não...
 - ...o que foi, Alek?
 - To sentindo a coceira, sabe?
 - Na nuca?
 - Isso.
 - Velho, da ultima vez que você sentiu a “Coceira na Nuca”, rolou aquele troço em Cuba.
 - Eu sei.
 - Nunca pensei que um avião Boeing poderia ser usado daquela maneira.
 - Matamos o desgraçado, não matamos?
 - Matamos.
 - Todo mundo voltou pra casa, não voltou?
 - Voltamos.
 - Ótimo. Não importa que merda o Diabo jogue no meu caminho, Conrado, enquanto eu tiver vocês comigo, faremos um jeito e sairemos bem, ok?
 - Velho, isso foi tão Power Rangers.
 - Ah Conrado, pega sua Katana e enfia no cu. – Do outro lado da linha, Conrado se matou de rir. Alek deu algumas risadas e voltou a falar com ele.
 - Ok, ok. Eu irei avisar o pessoal. Esperamos você amanhã, ok?
- Ok. – Alek ficou em silêncio mais um pouco...deu mais uma tragada...e voltou a falar. – Conrado?
 - Eu.
 - Você tem tido notícias da Giovanna?
 - Você sabe que não.
 - Ok. – Alek suspirou e apagou o cigarro na sola do sapato. – Faz o que tiver que fazer.
 - Falou, chefe.
 Os dois desligaram.
 Alek se deixou cair na cama. As janelas e cortinas estavam bem fechadas, então, nada iria acontecer com ele.
 Com os pés no chão, mas o corpo na cama e os braços estendidos...Alek adormeceu.

16 horas depois

 Com um pouco de dificuldade, Alek se ergue. Ele ficou do mesmo jeito que se deitou até acordar. Ele apoia os cotovelos no joelho e passa as mãos nos cabelos...e finalmente sai do quarto.
 Ele passa por um quarto onde vê Diana dormindo na cama juntamente com Cassandra. As duas estavam com roupas...que merda...
 Alek tinha que acordá-las. Eram 20:00 e eles tinham que partir, de preferência, o mais rápido possível.
 Ele deu dois toques na porta e começou a falar.
 - Diana? Cassandra? Vamos...temos de ir. – As duas se mexeram na cama até que começaram a abrir os olhos. Cassandra se levantou e mexeu os cabelos, que voltaram ao lugar na hora.
 Diana se levantou...e se jogou na cama de novo.
 - Que horas são?
 - 20:00. – Alek respondeu já descendo as escadas.
 - Ah, merda... – Ela disse, se levantando ao sons de risos de Cassandra.
 - Vão se trocando, se banhando, o que quiserem fazer, eu vou... – Naquela hora, um estalo se deu na mente de Alek. Algo que fez com que parasse tudo...seus movimentos, pensamentos, reflexos, tudo...
 Era o som de choro.
 Choro de criança estava vindo da rua.
 O Vampiro foi até a janela em passo acelerado e a escancarou.
 Na rua, ele pode ver...
 Um menino. Não podia passar de sete anos. Uma camisa velha com um furo perto da gola e um shorts de pano preto. Cabelos negros ensebados e um roxo no rosto.
 Ele só tinha uma perna. Andava de muletas...e estava carregando uma sacola com uma cruz vermelha de farmácia.
 Alek se irritou. Se irritou profundamente.


 - Ei, Alek, você... – Diana tentou falar alguma coisa, mas se interrompeu. Alek estava com a camisa vestida, o coldre na cintura com ambas as armas e estava procurando algo na gaveta do hack onde a televisão ficava. Achando algo que parecia uma carteira preta, ele a colocou no bolso interno da jaqueta e abriu a porta pra sair. – Ow, ow, ALEK! – Ele se deteve na porta pelo grito de Diana. – Onde você vai? O que aconteceu?
 - Esperem aqui até eu voltar, ok? Não planejo demorar muito.
 - Não, calma ai...é uma daquelas situações de novo? – Diana perguntou. Alek olhou por cima do ombro...e fez com que a Vampira, a única entre os Carnívoros que era mais velha que ele, tivesse um frio na espinha.
 - Eu mandei esperar aqui! – Diana não respondeu. Só voltou a subir a escada enquanto Alek saia.
 O Vampiro foi até a garagem. Abriu a porta do Audi, tirou a Magnum do Coldre e entrou. A arma era muito grande para se sentar com ela. Então ele a colocou no porta-luvas e apertou o botão do controle no retrovisor. O portão se abriu e ele saiu, bem calmo.
 Ele ainda tinha tempo.
 Ele contornou o bairro e viu o garoto novamente, descendo a rua, ainda fazendo som de choro.
 Ele parou o carro bem em frente a ele. Desceu do mesmo, atraindo a atenção do garoto.
 O menino de muletas olhou para aquela figura enorme que surgia em sua frente. Grande, com roupas pretas e uma camisa branca...ele ficou com medo.
 - Calma. – Porém, a voz dele...era diferente de sua aparência. Totalmente diferente. – Meu nome é Alek Montenegro. – Ele se agachou, curvando as pernas e o corpo, deixando os braços em cima dos seus joelhos. – E qual o seu nome?
 O garoto ficou ali, ainda assustado com tudo aquilo. Ele apareceu de repente...o que ele queria?
 Ainda assim, ele o respondeu.
 - Meu nome é Gabriel. – Uma voz engasgada de choro. Alek sentiu a boca salivar e os dentes aflorarem.
 Ele colocou a mão dentro da jaqueta e mostrou ao garoto a carteira negra que havia pego mais cedo.
 - Eu sou policial civil, filho. Eu te parei porque eu quero te ajudar, tudo bem? – O garoto olhou o documento. Parecia autêntico.
 - Eu fiz algo de errado?
 - Não. Parece que estão fazendo algo de errado com você. – O garoto entendeu a frase. Ele olhava nos olhos de Alek, mas logo abaixou a cabeça e começou a fitar o chão. – Tem alguém te fazendo mal, Gabriel?
 O garoto começou a chorar. Um choro contido...ele estava louco pra gritar ao mundo a merda de vida que levava e que estava cansado daquilo.
 Alek o abraçou. O garoto soltou as muletas e a sacola e retribuiu. O corpo da criança era um grão comparado ao muro que era o do Vampiro. Ele ficou ali cinco minutos, ignorando os olhares e todo o movimento dando atenção a ele.
 Quando o garoto parecia mais calmo, Alek o soltou do abraço, mas ainda o segurava para que não perdesse o equilíbrio.
 - O que aconteceu, Gabriel?
 - Meu pai! – Ele falava, ainda em choro. – Ele me bate! Ele não me dá comida! Ele me manda pegar coisas pra ele! – Ele engasgou mais um pouco e limpou os olhos. – Minha mãe foi embora! Eu to sozinho com ele! Ele me bate, ele me bate muito!
 Alek o abraçou de novo...e se levantou com a criança no colo. Ele se agachou rapidamente, para pegar a muleta e o saco da farmácia. Olhou ali dentro. Não era remédio.
 Camisinhas e viagra.
 O Vampiro rosnou.
 Ele deixou a sacola ali e colocou o garoto dentro do carro, no banco do carona. Ele deu a volta e sentou no banco do motorista. Deu a partida e começou a andar de novo.
 - Gabriel?
 - Hm?
 - Você pode me explicar o que fazia a essa hora na rua? - O Vampiro mais perguntou para ter a certeza do que para qualquer outra coisa.
 - Meu pai disse pra eu ir na farmácia buscar o remédio dele. Disse que eu ia ter que ficar quietinho no meu quarto depois. É até bom, porque ai ele não me bate. – O garoto jogou as mãos em cima das pernas, como se estivesse muito cansado para sequer ergue-las. Seu cabelo negro tinha um cheiro de gordura muito forte para Alek. O mesmo abriu a janela do carro.
 - E por que seu pai te bate tanto? – O silêncio foi quase fúnebre enquanto Alek pegava a avenida Abel Ferreira.
 - Uma vez ele disse que eu lembro minha mãe. - E Alek entendeu.
 - Gabriel...você quer voltar pra casa? – Alek olhou de relance pra ele. O garoto fez que não com a cabeça. –  E se eu te levasse pra outro lugar? Outro lugar pra você morar, hm? – O garoto olhou para ele e Alek, viu ali... aquela coisa que ele não gostava. Aquela coisa que ele detestava que os outros sentissem e que ele deixou de sentir a muito tempo.
 Esperança.
 - Eu quero, mas...  – Sua face murchou. – E meu pai?
 Alek começou a acelerar um pouco mais... e respondeu.
 - Eu cuido do seu pai.
 Naquele instante, houve um ronco. Alek olhou no monitor do carro pra ver se tinha alguma luz acesa ou se foi uma moto ou...
 - Eu to com fome. – Alek olhou para o garoto quando parou no farol vermelho próximo ao Shopping Analia Franco.
 - Ah, deve ter um chocolate ou alguma coisa no porta-luvas, você pode ver ai. – E engatou a marcha e voltou a andar com o carro.
 - NOOOOOOOOOOSSA! – Alek olhou e viu... o rosto da criança estava sorridente. – Olha isso... é uma arma! – Alek se xingou de mil um nome em mil e uma línguas... esqueceu a merda da arma na merda do porta-luvas. – Eu posso ver? – A criança perguntou. Alek bufou... pegou a arma, a descarregou e passou-a para a criança.
 - Então... você aceita, Gabriel? Quer morar em outro lugar? – Alek voltou a perguntar. – Quer uma nova vida?
 O garoto que estava sorrindo... parou... pensou... olhou pra Alek e disse.
 - Você é um Xerife? – Alek esperava tudo. TUDO. Menos aquilo.
 - Ein?
 - Você tá me levando pra um lugar melhor, longe do bandido! E essa arma! Você é Xerife! – O garoto sorriu. – BANG-BANG!
 Alek sorriu também. Colocou a mão no ombro do garoto e respondeu.
 - É isso ae, garoto. Bang-bang! – Gabriel sorriu e voltou a ver a arma.
 Alek sacou o celular e discou o numero rapidamente.
 - Alô?
 - Oi, sou eu.
 - Alek?
 - Oi Rebecca. Como você está?
 - Meu Deus. Faz tempo!
 - Eu sei, meu anjo. Seguinte... pode me encontrar agora?

Uma hora depois
Mc Donalds

 - Eu quero mais um!
 - Gabriel, você comeu TRÊS DELUXE BACON, CARA! – Alek dizia, em meio ao Shopping Center. – Calma ai, vai te dar dor de barriga!
 - Mas eu to cum fome! – O garoto disse, fazendo Alek rir.
 - Faz assim. Aguenta só mais um pouco que a minha amiga vai chegar e ela vai te dar o que comer na sua nova casa, ok? – O garoto piscou duas vezes antes de perguntar.
 - Ela tem sorvete de flocos?
 - De flocos, de creme, de napolitano e de chocolate com nozes também.
 - Eu já gostei dela! – Alek riu mesmo naquela hora. Até cobriu um pouco a boca enquanto o garotinho limpava a dele com um guardanapo.
 - É bom te ouvir rir... – A voz, inconfundível, mesmo estando um pouco rouca, veio aos ouvidos do Vampiro. Ele olhou para trás e a viu.
 As poucas rugas em seu rosto não tiravam a atenção de seus olhos azuis. Os cabelos brancos bem arrumados, por algum motivo, completavam seu sorriso. Estava usando um vestido longo e azul marinho, com uma echarpe pelas costas.
 - Rebecca. – Alek se levantou e abraçou aquela senhora com todo o cuidado do mundo. Quando saiu do abraço, aquela senhora colocou as mãos em seu rosto.
 - Olha pra você. Parece magro. Tem se alimentado direito?
 - É sério isso? – Ela deu uma risada e olhou por cima do seu ombro. E ela viu o garoto ali.
 - Oh! E esse deve ser o Gabriel! – Ela disse, indo até ele. Se agachou e conheceu o garoto, que pareceu animado em conhecê-la.
 Rebecca não conseguiu disfarçar o olhar de tristeza ao olhar a perna do garoto.
 - Você é quem vai tomar conta de mim agora? – Rebecca ouviu a suplica do garoto e sorriu.
 - Se você quiser... eu irei sim, Gabriel.
 - Qual o seu nome?
 - Rebecca.
 - Ah... você tem sorvete de flocos?
 - De flocos, de creme, de napolitano e de chocolate com nozes também!
 - Então eu quero! – E ele a abraçou. A senhora retribuiu o abraço da forma que sempre fazia... como se estivesse segurando um pequeno mundo em seus braços.
 E de certa forma, ela estava.
 Ela trocou algumas palavras com o garoto e por fim, se virou para Alek, que observava tudo de pé. Ela foi até ele enquanto Gabriel juntava o lixo em sua bandeja.
Rebecca cruzou os braços e olhou em outra direção ao perguntar.
 - Ele nasceu assim... ou fizeram algo com ele?
 - Ao notar pela forma como o membro está faltando, ele nasceu assim.
 - Ah, sim, entendo... mas... pelo que sei, se te conheço bem... você não vai deixar isso barato assim mesmo, não é? – E então ela olhou para o Vampiro... que devolveu um olhar feroz a ela.
 - Não. Não vou.
 A velha senhora sorriu para Alek e disse a ele.
 - Faça o que tiver que fazer. – E por fim, mexeu em sua jaqueta, como se fosse preciso arrumá-la.
 Alek sorriu e depois foi até o garoto, se agachando pra falar com ele.
 - Gabriel. Estamos indo, ok? Você vai pra casa. – E ele sorriu. – Mas antes... me diga, tem alguma coisa na sua antiga casa que você queira pegar? – O sorriso do garoto se foi... mas ele disse que sim com a cabeça. – Ok... façamos assim... vamos pro carro e vamos até lá pegar, ok?

30 minutos depois.
Zona Oeste
Casa de Carlos, pai de Gabriel

 - É aqui? – Alek perguntou, vendo uma casa com um portão velho que dava a uma escada de cimento que dava para outra porta velha. O som de TV ligada e o cheiro de coisa mofada vinham da casa como um trem desgovernado para os sentidos de Alek.
 O Vampiro conteve um rosnado.
 - É aqui mesmo. – Gabriel disse... e segurou a manga da jaqueta negra de Alek. – Não vai lá dentro, não... meu pai já deve tá bravo de eu não ter voltado ainda, ele vai te bater.
 A ideia de um miserável TENTAR bater nele, divertiu Alek.
 - Ele não vai bater em mim, Gabriel. Fica tranquilo. – Ele olhou para Rebecca no banco do motorista e disse.  – Mostre a casa da Gabriel. Eu vejo vocês lá, tudo bem?
 - Tudo bem, meu anjo. – A senhora respondeu. Alek olhou novamente para Gabriel no banco de trás, que olhou preocupado para o Vampiro... mas sorriu de volta.
 Alek saiu do carro e não esperou que fossem embora para começar a entrar. A tranca do primeiro portão cedeu fácil ao empurrão de Alek. Ele subiu as escadas quando ouviu o homem na sala se levantar do sofá sobressaltado. Pelo som, Alek sabia que ele tirava o cinto de suas calças. Ele achava que era Gabriel.
 - Moleque do caralho, chegando a essa hora!? – O som da voz dele lembrou o som de sapos coachando.
 Alek parou na segunda porta. Ele esperou ver a cara do homem ao vê-lo.
 Quando abriu a porta, mirando para baixo e com o cinto levantado, ele subiu sua cabeça pouco a pouco...e viu o grande homem de ombros largos e cabelos castanhos o fitando com olhos vermelhos.
 - O que... – Ele parou de falar. O pé de Alek afundou em seu peito de tal forma que o jogou para o outro lado da sala. Algumas costelas quebraram quando ele atingiu a parede e começou a cuspir sangue.
 Antes mesmo de cair no chão, Alek já tinha fechado a porta e a trancado...e começava a analisa-lo.
 Roliço, sem camisa, só usando uma samba canção, cabelos grisalhos e lambidos para trás, um cavanhaque negro, já perdendo sua cor. A face tinha algumas rugas e seu corpo era um tanto flácido.
 Aquele homem era a personificação da escória do mundo.
 - Olha só pra você. – Alek parou a um passo do homem. – Por que não se levanta agora? – O mesmo tossia, sem emitir um único som que não fosse o engasgo do sangue. – Ah, sim...você está começando a entender! – O Vampiro se abaixou e o segurou pelos cabelos, o levantando o máximo que podia. O homem segurou fracamente o braço que Alek usava e tentou dizer alguma coisa.
 - Você é pai do garoto chamado Gabriel? – O homem ficou olhando sem entender. Alek se invocou... seus olhos ficaram vermelhos. A pupila ficou fina como a de um gato... o pavor ficou estancado no rosto daquele homem. A dor piorou quando Alek afundou mais ainda seus dedos nos cabelos do homem. – Eu perguntei... se você... é o pai do garoto chamado Gabriel... – O homem debateu seus pés e fez um “sim” com a cabeça o melhor que pode.
 Alek meteu um tapa em seu rosto, o fazendo cuspir alguns dentes.
 - Porco de merda! – Alek soltou o cabelo do homem...mas logo em seguida segurou seu pescoço com a mão esquerda. – Como é, ein? – Alek perguntou, o homem só respondeu com um olhar cheio de medo. – Como é? Como você se sente? – Com a mão livre, Alek segura o ombro do homem. – Como é estar indefeso? Como é estar apanhando e não puder fazer nada? – As unhas de Alek crescem...e cravam no ombro do homem.
 O Vampiro começa a puxar.
 Ele tenta gritar, mas a mão de Alek só aperta mais ainda em sua garganta. Ele se debate...em vão.
 Alek não puxou rápido. Não. Ele aproveitou o momento. A pele rasgando, o músculo se rompendo, o osso quebrando, a junta descolando...
 O Vampiro levou 10 minutos para arrancar o braço daquele homem.
 O sangue começou a escorrer logo quando a pele e os músculos foram atacados. E começou a fluir mais rápido. Ele soltou o homem ao chão, em cima de sua poça de sangue e o ficou olhando se retorcer, depois levar a mão que sobrava a garganta machucada...
 Mas ele ainda conseguiu olhar para Alek...olhou para o Vampiro e perguntou a ele.
 - Quem...quem é você? – Com uma voz fraca e deprimente.
 Alek tira a Glock 45 do coldre e aponta para o homem...e diz.
 - Eu sou o Xerife. – Dois tiros foram dados no rosto de Carlos.
 Alek coloca o revolver de volta ao coldre e vai olhar o quarto do garoto no fundo da casa. A porta range quando ele abre e vê uma cama, sem lençol e uma mancha enorme no meio do colchão. O quarto do garoto fede a roupa suja. Uma cômoda quebrada é o que ele procurava.
 Segunda gaveta. Ao fundo. Ele pega o que o garoto queria.
 Um boneco todo gasto do Superman.
 Ele coloca dentro da jaqueta e fecha o zíper.
 Ele desce e vai até a sala novamente. Segura o corpo do homem pelo seu pé e o leva até a cozinha. O fogão estava quase em pedaços e gorduroso...mas ainda tinha gás. Ele solta o homem em cima do fogão. Ele solta a mangueira de gás e deixa rolar. Volta a sala e pega o sofá e o joga até a cozinha. A TV, a mesinha de centro, até mesmo partes da estante que ele arranca, ele joga tudo na cozinha e espera...
 Por fim, ele acende um fósforo e salta para fora da casa.
 A explosão é imediata.  O fogo se alastra pela cozinha e logo pela sala e corredores...com o centro de incêndio com bastante “combustível”, ele iria durar.
 Alek corre alguns metros pela rua escura...ouvindo o comentário de pessoas se chamam ou não chamam a policia ou os bombeiros.
 Ele já está longe quando começam a fazê-lo.
 Alek corre mais alguns quilômetros. Ele encontra um ponto alto para fazer sua última procura. O telhado de um sobrado serviria.
 Ele salta ali em cima...se ergue...e inspira bem fundo.
 Vampiros tem olfato bem aguçado...mas Alek era a “perda do senso de ridículo” da situação.
 O sangue de alguém SEMPRE será a união de dois sangues. Cada sangue tem seu devido cheiro e essência. Então, o sangue de alguém terá o cheiro e essência, por menor que seja, dos sangues que os originou, do sangue de seus pais.
 Alek podia sentir isso. Podia sentir, mesmo que fosse difícil e ele tivesse que ter um cheiro profundo de alguém, mas ele conseguia.
 Ele já havia pego o pai de Gabriel.
 Tava na hora de ir atrás da mãe.
 E ele conseguiu uma trilha.

1 hora mais tarde.
Em algum lugar da Zona Norte de São Paulo

 Rosangela estava terminando seu jantar quando ouviu a campainha tocar. Ela estranhou aquilo...não esperava nenhum tipo de visita a aquela hora da noite. Ela queria mais era ficar quieta.
 Largou os talheres em cima do prato e foi até a janela, olhando discretamente, onde poderia ver o quintal no piso inferior e ver quem estava no portão.
 Um homem alto, ombros largos com as mãos dentro de uma jaqueta negra. Ela fez um bico e estendeu o braço, para alcançar o interfone.
 - Oi, quem é? – Ela perguntou.
 - Boa noite, senhora. – A voz dele fez Rosangela sentir um arrepio. – Meu nome é Alek Montenegro, trabalho para Policia Civil. Se importa de eu entrar e fazer algumas perguntas? – Rosangela pensou um pouco... o que a Policia Civil queria?
 Ela abriu a porta e apareceu para o homem. Ela desceu até metade da escada e disse.
 - Boa noite, Policial.
 - Boa noite.
 - Posso ver o distintivo? – Ela tirou uma carteira de dentro da jaqueta e a abriu, mostrando o mesmo. Ok, era autêntico.
 Ela foi e abriu o portão, mas não o chamou para entrar. Ela ficou ali, parada.
 Alek a analisou. Não poderia passar de 50 anos. Magra, vestia roupas simples, provavelmente estava se preparando para dormir. Os cabelos eram de um loiro natural e os lábios ainda tinham resquícios de um batom rosa.
 Ela vivia bem.
 - Pois não, o que se trata? – A mulher disse.
 - Se trata de seu ex-marido... Carlos. – A mulher empalideceu. Ele olhou nos fundos dos olhos de Alek, que no momento, estavam somente em um castanho vivo.
 - E...e o que tem ele?
 - Ele faleceu, senhora. Assassinato. – E Alek pode ver... pode ver, ali no fundinho da alma dela... que ela sentiu alívio e um pouco de júbilo.
 - Ah... ah, meu Deus e... e... você me toma como suspeita? – Ela perguntou de novo.
 - Senhora... acho melhor não discutirmos isso na rua, não é? – Rosangela concordou. Ela deixou Alek passar e depois, fechou o portão. Ela correu escada acima e Alek a seguiu. Entraram em sua sala de estar... piso e paredes brancas, um tapete caro embaixo de uma mesa de centro feita de cristal. O sofá, grande e branco, ficava de frente para uma TV enorme. Ela se sentou ali e Alek sentou ao seu lado.
 - Pois não, então...ele morreu?
 - Sim, senhora... ele foi assassinado.
 - Ai meu Deus. – Ela fingia bem, Alek admitia isso... ele sentia isso. Mas ela estava feliz com a noticia. – E quando foi isso?
 - Ontem. – Mentiu o Vampiro. – Senhora, me diga... quanto tempo foi casada com ele? – Ela suspirou... cruzou as pernas e respondeu.
 - Por volta de uns seis meses... nos casamos por obrigação, entende? – Alek assentiu. – Desculpe, qual é mesmo o seu nome?
 - Alek. Alek Montenegro.
 - Ah, sim... nome diferente, né? – Ela riu nervosamente. Depois, continuou. – Então... nos casamos por obrigação porque eu fiquei grávida. Não planejamos isso, mas, meu pai e os pais dele, na época, todos eles... nos obrigaram a isso.
 - Entendo. – Alek concordou. – E o que foi que te fez ir embora?
 - Bom... meu pai faleceu. Um mês depois, eu pude pegar o seguro de vida dele... e Carlos queria o dinheiro para ele de qualquer modo, de qualquer forma e eu recusei em dar, eu iria aplicá-lo em um negócio que, como você pode ver... – ela gesticulou para a casa. – Deu certo, não é? Mas... ele me bateu... ele me fez sofrer. Então, eu consegui deixa-lo.
 - Entendo. E a criança? – Alek perguntou e a mulher ficou um tanto tensa.
 - Bem, ela... ela... – ela pigarreia. – Ele, a verdade, era um menino...eu perdi ele quando nasceu.
 - Errado. – A voz de Alek mudou... tanto que a mulher notou, naquela hora. – Não é só porque ele não tem nem mesmo certidão de nascimento que ele não existe.
 - Ein? – Rosangela ficou com medo naquela hora... ela havia pensado que poderia sair pela tangente, que poderia fazer algo para ir embora, se livrar daquele incomodo, mas...
 - O nome dele é Gabriel. – O Vampiro começava a mostrar sua natureza pelos seus olhos. – Ele é um garoto com deficiência. Nasceu sem uma perna. Você sabia disso?
 A mulher começou a querer tomar uma certa distancia ele.
 - Ele... ele está vivo?
 - Sim. Está. Está sim. Aposto tudo que tenho que, quando foi embora e deixou o garoto com Carlos, achou que ele ia acabar matando a criança. Quantos anos ele tinha? Dois? Meses de idade ainda? – Ela tentou recuar mais... mas foi pego pelo rosto. A mão de Alek cobria sua boca e apertava sua bochecha em seu maxilar. Ele a puxou para perto de si, ficando cara a cara com ela. – Você é pior do que ele.
 E a jogou no chão. O som ao bater a cabeça no piso foi nauseante. Ela ficou tonta, perdida...e nem teve tempo de se recuperar antes de ser puxada para cima.
 - Vamos...me responda. – Rosangela então viu algo que a seguiria para o Inferno.
 Os olhos de Alek eram um puro vermelho radiante. Em volta de seus olhos, olheiras negras se criaram. Os dentes cresceram e ficaram afiados... e sua voz... sua voz eram como a de um demônio tentando possuí-la.
 - GABRIEL! POR QUE O DEIXOU PARA TRÁS? – Em choro, em prantos, mas falando baixo...a mulher respondeu.
 - Ele nasceu com defeito. Ele nasceu errado. Seria trabalhoso para cuidar dele. Eu não tinha tempo pra isso. Eu sou uma mulher de negócios, eu... por favor, eu tenho dinheiro, não me mate... – O Vampiro rosnou e a jogou no sofá.
 - Vocês, humanos... meu Deus... a que ponto vocês chegaram? – Ele rosnou de novo. – Uma mãe... abandonar o filho... por que ele nasceu com uma leve diferença? – Ele curvou o corpo... uma parte dele queria estraçalhar cada pedaço de seu corpo... mas ele sabia o que tinha que fazer realmente.
 A mulher tomou um pouco de coragem e falou.
 - Ninguém tem que tomar conta de ninguém. Temos que nos cuidar nós mesmos. Cada um tem uma luta na vida e EU ESCOLHI A MINHA! – A primeira resposta de Alek foi um soco na cara da mulher...forte o suficiente para rasgar a bochecha, mas não para desnortea-la.
 Então, ele começou a falar.
 - ESSE É O PROBLEMA! – Ele chegou bem perto dela, cara a cara...o rosto da mulher mostrava que ela não teria mais nenhum sintoma de heroísmo. - Vocês precisam acordar! Vocês precisam parar de ver o próprio umbigo e começar a pensar juntos, sabia? Sabe como era foda conseguir comida lá por 1700 e bolinhas? – Ele a segurou pelo colarinho de novo. - Não tinha internet, telefone, nem porra nenhuma...mas vocês eram mais unidos. Eram mais crédulos um com os outros. Tinham uma comunidade ao seu redor querendo o bem de cada um, mesmo que nos finais de semana fofocassem um dos outros na igreja, todos se viam presos de bom grado naquela convivência que fazia todo mundo se amar, de uma forma ou de outra. Mas agora? Vocês todos estão mais juntos do que tudo. Você pode dar um simples telefonema e vai conseguir comida, companhia, carona, o que quiser... e vocês decidem viver sozinhos por causa disso. Chegam até ignorar suas próprias crias!
 Eu abomino tanto certos atos absurdos dos humanos que me fazem duvidar de que, um dia, eu fui um de vocês.
 O Vampiro, então, segurou seu rosto... seus polegares foram nas maças do rosto e as puxou levemente para baixo, para que ela abrissem mais ainda os olhos.
 - Diga-me, senhora... será que você consegue ver a verdade aqui? Eu não sou nenhum tipo de monstro, não... eu só sou uma espécie em uma escala superior na cadeia alimentar. Monstros são vocês. Não pelas guerras. Não pelas cagadas. Não por fazerem os outros passarem fome, sede ou carência. Mas pelo o que vocês fazem a vocês mesmos! – E então, ele sorriu. – E ISSO AQUI... você fez com VOCÊ MESMA.
 Alek enterrou os dedos nos olhos da mulher.
 Seu grito ecoou longe. Um rugido de pavor rouco. Alek a jogou contra o piso. Ela continuou gritando, rastejando... cravando as unhas no piso de azulejo branco e tentando sair dali para algum lugar.
 - Eu quero que você se sinta perdida. – Alek dizia enquanto caminhava pouco a pouco ao lado dela.
 A moribunda tentava se arrastar mais, tentando se lembrar de que lado ficava a cozinha, mas pelo medo, ela não sabia exatamente para onde ir... ela só continuava tentando se arrastar.
 Então Alek pisou, com grande força que tinha, na coxa da mulher. A carne se desfez e o osso do fêmur se esmigalhou.
 Ela urrou de novo.
 - Quero que você se sinta incapaz. – Alek disse novo, vejo o sangue jorrar. Rosangela parou de tentar caminhar, de lutar... parecia que estava desistindo.
 Mas aquilo... não era o suficiente para Alek.
 Ele a segurou pelo ombro e a colocou virada para cima... ela tentou lutar, socando e arranhando... mas do modo que estava fraca, nem mesmo danos da jaqueta de Alek ela conseguia fazer.
 Então... o Vampiro a forçou abrir “as pernas”. Ele alinhou seus dedos, fazendo questão de suas unhas crescerem...e disse...
 - Mas acima de tudo... eu quero que você perca a capacidade de gerar vida. – Alek rosnou... e mirou. – Você não merece a dádiva de ser uma mãe!
 Alek introduziu todo o seu braço direito na vagina da mulher. Lá dentro, fixou suas garras. E com um puxão rápido, ele tirou algo dali.
 Seu útero.

Meia hora depois
Casa de Rebecca

- Eu acabei! – Gabriel disse, com um prato de comida vazio na mão. Rebecca nunca tinha visto um garoto comer tanto... ele realmente estava com fome...
 - Ah, bom garoto. Gostou?
 - Gostei. Muito mesmo. Mas eu to guardando lugar pro sorvete! – E Rebecca riu, passando a mão no cabelo do garoto. Ele tinha tomado banho a alguns minutos atrás. Estava limpinho agora. Até o rosto parecia mais branco.
Foi quando a campainha tocou.
 - Alek? – O garoto perguntou. Rebecca pediu para que esperasse e foi lá ver. Ao olhar pelo olho mágica, viu o mesmo... e abriu a porta.
 Sua face tinha um sorriso nos lábios. Uma aura de satisfação transbordava dele.
 Ele tinha feito o que tinha que fazer.
 - Alek.
 - Rebecca. – O Vampiro disse, abrindo os braços para ela. A senhora se acomodou nos braços dele. – Tudo bem com você?
 - Uhum. – Ela disse... e depois, respirou fundo. – Tá com cheiro de sabonete. Hmmm. – Ela olhou pra ele. – Você tomou banho na casa da vitima?
 - Cê queria que eu viesse fedendo a sangue?
 - Não, seu imbecil. – Ela disse. – Queria que você tomasse cuidado. Tomasse banho aqui! E se você deixou provas lá? – Ele deu uma risada.
 - Relaxe. Eu só lavei meus braços e tirei o sangue da jaqueta. Fique tranquila. – E ela sorriu.
 - Faz tempo, Alek.
 - Eu sei que faz. – Alek respondeu. – Eu prometi a seu pai que te manteria em segurança. Ficar perto de mim não é o melhor meio disso.
 - Ah, vai se foder, Alek. – Ela disse, tirando um cigarro do bolso. Marlboro vermelho. Ela acendeu um e ofereceu para Alek, que aceitou. Os dois deram uma longa tragada e soltaram a fumaça juntos.
 - Vejo que ainda é sentimental, Rebecca. – O Vampiro disse, rindo.
 - Eu senti sua falta. – Ela suspirou. – Fiquei me perguntando o que estaria fazendo.
 - Saindo por ai. Matando, roubando e sendo pago por isso. – Ele fumou mais um pouco. – Nenhuma novidade.
 - Ah, que original. – Rebecca deu mais uma tragada. -  O que fez com os corpos?
 - O pai, cremado. A mãe, exposta.
 - Exposta? O que você fez com ela?
 - Você não vai querer saber. – A senhora tremeu um pouco... mas voltou a si.
 - Aé... as vezes esqueço que você é um monstro.
 - É isso ae. – Alek então levou a mão para dentro da jaqueta e de lá, tirou o boneco. – Toma. Entregue a Gabriel.
 - Não vai vê-lo?
 - Não. Ele está em boas mãos agora. E eu tenho de voltar logo. – Ele olhou triste para a mulher. – Desculpe te dar esse trabalho, mas...
 - Mas nada. Você tem mais é que fazer isso mesmo. – Rebecca disse, se impondo para ele. – Eu disse a você que te ajudaria sempre que possível.
 - Rebecca... ainda é tempo, sabia? – Ele segurou uma das mãos daquela senhora...e com a outra mão, passou em seu rosto. – Eu ainda posso fazê-la mudar. Posso te deixar jovem de novo.
 - Ah, meu querido Alek... você sabe como me sinto a respeito. – E ela sorriu. – Eu prefiro ficar assim...humana, velha e encalhada. – Alek sorriu com tristeza... mas de certa forma entendia seu ponto de vista. – Por falar nisso... você vai transformá-lo um dia? O Gabriel?
 - Não sei. – Alek disse, dando mais uma longa tragada. – Eu ainda vou pensar nisso. Eu darei a ele uma escolha, assim como dei a você.
 - Entendo... – Rebecca então ficou em silencio... e ficou olhando para o rosto daquele Vampiro que ela conhecia a tanto tempo.
 - O que foi?
 - Alek...eu nunca perguntei antes, mas...eu queria saber o por quê.
 - Do que exatamente?
 - Você não liga muito para os humanos. São seu alimento. Muitos deles, você despreza. Despreza como o mundo ficou ao longo dos anos. Você se tornou um tanto frio para muitas coisas. – O Vampiro escutava atentamente a aquilo tudo. – Mas... mas quando você acha uma criança... alguém indefeso... alguém cuja vida o judiou, você para tudo o que está fazendo... e ajuda esse ser. – Rebecca, dentro de si, se continha. – Por quê?  Por que fez isso pelo Gabriel?
 Alek pensou... terminou o cigarro... o jogou no chão e respondeu.
 - Porque na minha época... quando eu era um de vocês... quando eu era como ele... eu rezava todos os dias para aparecer alguém como eu.
 Rebecca ficou sem palavras. O Vampiro estava sendo mais sincero do que qualquer outra coisa na sua vida.
 - Por um tempo... eu quase esqueci disso. Esqueci de um dos sentidos que minha imortalidade me deu. Mas teve alguém... que me lembrou de tudo. – Então, o Vampiro levanta a manga...e mostra a tatuagem do Rifle Winchester 44. – Seu pai. Orácio Stone. Me lembrou de muita coisa. E eu jurei que ia trilhar meu caminho e que protegeria a filha dele, Rebecca Stone, custasse o que tivesse que custar. – A senhora então, derramou algumas lagrimas... e Alek colocou a manga de volta no lugar. – Por favor, as chaves do carro.
 Rebecca sorriu e colocou a mão no bolso. Pegou a chave do carro e passou para ele.
 - Você ainda se lembra dele?
 - Do seu pai? – Alek deu um riso. – Como esquecer? Bebia sete litros de conhaque e ainda conseguia ficar de pé. – Rebecca riu.
 - Lembra como as coisas eram naquele tempo? – E Alek teve aquele... leve relâmpago de memória.


- Eu lembro... lembro sim.

 Ele sorriu. Respirou fundo e disse.
 - Enfim... eu vou indo. – Ele a abraçou a de novo que o abraçou forte também... e  Alek deu as costas e saiu andando.  O carro estava estacionado logo na frente da porta da luxuosa casa. Ele entrou nele, ligou o carro...engatou e acelerou.
 - Alek? – Gabriel apareceu na porta, perto de Rebecca. – Ei, cadê o Alek? – Rebecca sorriu, pegando o garoto no colo, que fez cara de surpresa ao ver o seu boneco de volta.
 - Alek teve de ir embora. – Rebecca disse.
 - Mas por que?
 - Porque ele tem trabalho a fazer.
 Gabriel viu o carro indo embora... olhou para Rebecca e perguntou.
 - Bang-bang?
 Rebecca sorriu... e concordou.


- Bang-bang!

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