sábado, 31 de janeiro de 2015

Carnívoros - Capítulo 01: Cavaleiro

 - Senhor?
 - Frank.
 - Trouxe o que me pediu.
 - Já conseguiu concertar?
 - Sim, senhor.
 - Muito bom. Tempo recorde. Obrigado.
 - Não foi nada.
 - Realmente... eu senti falta dela.


Local: Município Severínia
Interior de São Paulo.
04/03/2017
21:17

 A noite caiu e com ela o sereno. A pequena cidade era o lar de sons relaxantes da natureza quando a noite caia. Grilos e cigarras se uniam em um coral suave para fazer de muitos um sono mais tranquilo.
 Mas aquela noite, não...o silencio imperava. A luz da lua não brilhava no céu e postes pareciam não iluminar o suficiente. Todos foram se deitar cedo e de preferência perto de seus familiares e amores. Alguma coisa estava errada naquela cidade. Tudo bem...os dias de gloria se foram e agora era uma cidade abarrotada de problemas...mas a noite...a noite, normalmente deveria ser digno de sossego. E por algum motivo, a natureza parecia querer se repelir daquele lugar...
 Talvez fosse aquele homem alto e roupas escuras...que se aproximava da Igreja da cidade em passos largos.
 Botas negras em seus pés. Calça jeans azul um numero maior do que o ideal para o dele, mas não parecia estar desengonçado.  Uma jaqueta negra sobre uma camisa de mesma cor completava a vestimenta. Sua pele era branca...branca demais. Seu cabelo era um castanho escuro, diferentes de seus olhos...castanhos claros...bem claros.
 O silencio da cidade pequena foi quebrado quando se ouviu o ranger das portas da igreja sendo abertas.
 O rapaz olhou ao redor... e ficou descontente ao ver que a imagem, mesmo sendo diferentes nos detalhes, era enjoativamente igual a todas as outras. Quinze bancos enfileirados e polidos a esquerda, quatorze à direita. Mais a frente da quantidade em par, estava um altar chamativo com uma escultura bem detalhada da manjedoura. Para cima, sete lustres pendurados e acesos com uma luz fraca não faziam as inúmeras velas espalhadas por ali parecerem inúteis. E claro. No altar, um púlpito simples tinha uma cruz banhada em ouro. E claro, pendurado no alto da Igreja, para todos contemplarem... a imagem de Jesus Cristo crucificado.
 O rapaz caminhou firme... seu destino era o confessionário a alguns metros da entrada, para a esquerda. Madeira de carvalho envernizada... ele caminhava mais um pouco até que ouviu a fechadura se abrir...e do lado onde somente o Padre entrava...o mesmo saia.
 Ele deu de cara com o “intruso”.
 - Oh, céus. – O Padre, um homem roliço, mexeu nos óculos da face os endireitando para ver o homem a alguns metros a sua frente. O Padre não deixou de se assustar um pouco... um homem com um aspecto diferente...um tanto quanto selvagem para a normalidade. As roupas, o modo como estava ali parado, a analisá-lo com as mãos dentro do bolso da jaqueta... ele era um delinquente. E jovem. Bem jovem. Ele estava li para criar problemas. Como se aquele lugar já não tivesse isso o suficiente. – O que faz aqui, meu jovem?
 - Padre, peço perdão se eu estou lhe incomodando, se já ia fechar...mas eu preciso de alguns minutos do senhor. – Ao abrir a boca, o rapaz fez o Padre desmontar. Sua voz era séria e repleta de magoa. Ele estava ali para confessar.
 - Claro, filho, claro. Por favor, entre. – O Padre voltou de onde veio e o rapaz caminhou até seu devido lugar ao confessionário. Ele precisou abaixar para conseguir entrar, mas sem nenhum problema. Quando ele viu a pequena almofada que serviria de acento...ele gentilmente a tirou e a colocou no seu colo. Ele se acomodou e fechou a porta.
 E começou a falar:
 - Padre, me perdoe, pois eu pequei...e irei pecar novamente. – O Padre ouviu aquilo, o deixando curioso...ele entrelaçou seus dedos e depositou ambas as mãos em seu colo.
 - Qual seu nome, filho? – O rapaz sorriu contido...aquilo o divertiu por algum motivo.
 - Não estou a vontade para dizer isso, Padre. Entenda...estou em risco aqui, já por contar o que faço para viver.
 - O que você faz? – Depois de um segundo de pausa...o garoto continuou. – E o que planeja fazer?
 - Eu mato pessoas, Padre. Mato pessoas...ou coisas...para viver. – O rapaz alisou a pequena almofada branca que tinha no colo. Ele começou a sussurrar, obrigando o Padre a encostar mais para ouvir o garoto. – Eu nem sempre fui assim...mas acho que as circunstancias levaram a isso.
 - Não existe motivo para tal pecado, filho. Não existe o porquê de tirar outras vidas. A vida deve ser respeitada.
 - E quando a vida não te respeita? O que se deve fazer? – O Padre ficou em silencio...a voz do rapaz parecia ter engrossado mais um pouco. – O que fazer quando a vida parece ter te visto como uma boa peça para uma historia de humor negro? O que fazer quando seus passos te levam para uma falha de Deus?
 - Deus não falha. Não se corrompe, não deixa se corromper e é a cura dos corrompidos, filho. Não diga isso. – O Padre respondeu no mesmo tom de voz, mas sentiu que deveria ter sido um pouco mais enérgico.
 - Eu sei, Padre. Eu sei. – A voz do garoto voltou a ficar normal...mas ainda estava baixa. – Não foi Deus que fez o mundo assim. Nós fizemos. – E ele ficou ali...parado um instante como se esperasse algo acontecer. O Padre estava ansioso...ele não deixou o silencio durar muito.
 - Me diga, garoto...o que planeja, fazer?
 - Matar novamente. – Ele respondeu como se fosse algo fácil de se dizer...algo que não pesasse realmente. – E matar mais amanhã. E amanhã. E depois de amanhã. Diga-me, Padre...é ruim quando nos sentimos estranhos...por não haver sangue em nossas mãos?
 - A sua cura terá de ser severa, filho. – A voz do Padre agora era um tanto carregada...mas o rapaz não relaxou a postura. Ele continuou exatamente como estava. – Você cometeu pecados graves...e se planeja pecar mais, filho...por que veio até mim? A culpa lhe carrega tanto?
 - Culpa? Não, Padre...eu vim aqui ver se Deus ainda pode me perdoar. Se mesmo com esse estilo de vida, eu poderia, quem sabe...ter um pequeno vislumbre do Paraíso. – O rapaz perdeu seu olhar...durante um segundo...até que voltou ao seu foco...enquanto colocava a mão direita dentro do casaco.
 - Não acho que possa, filho. Não acho...Deus não recebe assassinos em seu lar. Isso é um fardo. Mas para aqueles que vão se arrepender, para aqueles que podem encarar a purificação...existe uma chance.
 - Entendo. – O rapaz responde ao Padre, e volta a ficar em silencio.  O velho homem, não gostando do silencio, pergunta, novamente, movido pela curiosidade.
 - Rapaz...você disse que pretende matar novamente.
 - Pretendo. – O rapaz tira a mão de dentro do casaco.
 - E quem será, filho? Você não acha que poderia parar agora? Não fazer isso?
 - Não creio que seja possível, Padre. – O rapaz retira a trava de segurança. – Eu já recebi o dinheiro.
 O Padre respira fundo, largando o peso na grade de madeira do confessionário, com o ouvido colado na mesma para tentar ouvir o rapaz com mais clareza...e pergunta.
 - E quem é a vitima, filho?
 O rapaz levanta a almofada e a segura contra a grade. Ele coloca a Pistola Beretta 9mm bem encostada nela.
 O rapaz responde.
 - É você, Padre. – E dispara.
 Não há grande barulho. Não há muito alarde. Só o som de um velho homem indo e voltando, batendo a cabeça contra um confessionário.
 O rapaz se levanta, deixando a almofada para trás. Ele sai, voltando ao corredor da Igreja, colocando a arma de volta ao coldre dentro da jaqueta. Diana com certeza diria a ele, quando voltasse a base, que teria sido melhor colocar um silenciador...mas ele não gosta de silenciadores. Ele prefere assim.
 Ele estava a alguns metros da porta...quando o confessionário se abriu. Ele parou no meio do caminho e olhou para trás, por cima do ombro...enquanto um garoto...não poderia passar dos 16 anos...saia do confessionário em trajes de Padre com a cabeça toda ensanguentada...
 - Ah, seu merda... – O garoto dizia, entre rosnados, olhadas feias e com a mão esquerda coçando no lugar onde deveria ter um furo de entrada de bala. – Eu não estava planejando voltar tão cedo, sabia? Eu estava querendo ficar assim mais uns cinco anos, seu bosta!
 O rapaz se virou lentamente, ficando de frente para o garoto em trajes de Padre.
 Ele sorriu. Sorriu e depois começou a rir...não descontroladamente, de certa forma contida...só olhando para a cara daquele sujeito.
 O Padre, agora um garoto...não entendeu muito bem. Aquela não era a primeira vez que tinha acontecido...mas normalmente, suas vitimas ficavam confusas e em pânico quando presenciavam tal ocorrido.
 O rapaz colocou o polegar e o indicador nos olhos, os pressionando de leve. Ainda com um sorriso no rosto, voltou a olhar para o Padre.
 - Você sabia? – O Padre pergunta. – Quem é você?
 - Não, eu não sabia. – O rapaz segura o zíper da jaqueta e começa a abaixa-lo. – Mas, qual é...não será a primeira vez que tenho de lidar com um NECROMANCER! – O Padre trinca os dentes. Sua forma jovial agora parece mais velha pela cara carrancuda que faz.
 O rapaz tirou a jaqueta, a jogando próxima de si, em cima de algum dos bancos. Ele revela um coldre especial preso em seu tronco...armas estão presas em sua cintura e debaixo dos braços.
 Ele volta a falar.
 - Diz ae...quantas pessoas você já tomou, ein? Quantas almas ainda restam no seu corpo?
 - Não lhe interessa. – O Padre diz, levantando sua mão...uma espécie de aura surge em sua volta, em uma coloração cinza...ela afasta o sangue seco em sua cabeça e revela cabelos loiros escuros e curtos. Os olhos do garoto Padre, antes verdes...agora são totalmente brancos. – E não me interessa quem você é, humano. Não me interessa quem você seja. A sua alma...irá repor a que eu perdi hoje! – O Padre estende sua mão direita...e a aura se estende com ela, até o rapaz. Aquela sombra cinza o obriga a abrir a boca e entra em seu corpo...o Padre ri.
 - Isso mesmo...mais uma alma, mais uma garantia de juventude quando a morte tentar me pegar de novo! Ao menos você não vai se preocupar de ir ai Inferno rapaz, já que sua alma vai ficar comigo para... – O Padre se silencia...quando vê o rapaz fechar a boca com força o suficiente para que, o estalo de seus dentes, seja ouvido como se fosse o barulho de um tiro. A aura cinza que se estendeu até o rapaz, quebra como vidro em sua ponta...e volta para o Padre. O rapaz se curva...quase tocando seus dedos ao chão.
 - O que?
 - Desculpe, Padre. – Ele se levanta...e encara o mesmo. – Mas eu não tenho alma para você roubar! – O rapaz o encara com olhos totalmente rubros com um “pingo” preto em seu dentro. Seus caninos ficaram mais afiados e cresceram.
 - Nosferatu! – O Garoto Padre diz em voz alta...deixando que sua aura aumentasse.
 - Faz tempo que não escuto ESSE nome! – O rapaz ajeita sua postura. – Somos chamados de Vampiros agora.
 - O nome não importa, criatura maldita. Você veio aqui para me matar! – O Garoto Padre começa a se levitar...começa a subir mais e mais...e mais começam a surgir de sua aura. – Mas eu não posso ser morto. Eu sou...eterno!
 - Sabe, você deve ser o quinto ou sexto cara que me diz isso. – O Vampiro diz, sorrindo, tirando as metralhadoras HK MP5 KA4 da sua cintura e as engatilhando rapidamente. – Nenhum deles teve funeral, mas não estão mais aqui pra ficar falando merda.
 - Silencio, criatura. – O Padre dizia...sua voz, mais grave...mais chiada...com se estivesse possuído. Seu cabelo tomou uma tonalidade grisalha e seu corpo pareceu crescer um pouco...se tornar mais musculoso debaixo da batina negra. – Meu nome é Oscar Nephesh. E me foi prometido a eternidade. E você não...
 - VOCÊ FALA DEMAIS! – O Vampiro ruge quando salta e começa a abrir fogo. Oscar rosna e manda suas mãos o envolverem. Os tiros do Vampiro são conseguem ultrapassar a aura endurecida. Ele planeja achar uma brecha. O salto o leva a ficar na parede, acima da porta de entrada.
 - PEGUEM! – Oscar grita mais uma vez, fazendo o Vampiro rir. As mãos cinzas vão para cima dele, enquanto o Vampiro começa a correr por toda a extensão das paredes, abrindo fogo contra o Padre. O mesmo começa a desviar, indo para cima e para baixo, direita e esquerda, mas ainda mirando suas mãos em cima do Vampiro. Os tiros são dados, nenhum deles funciona. Até que o Vampiro tem uma ideia.
 Ele coloca as metralhadoras de volta na cintura...e salta diretamente contra Oscar o mais rápido que pode. O Padre não esperava isso...o Vampiro o tromba com o corpo todo, fazendo-o ser jogado para o outro lado da Igreja, se chocando contra a parede e depois o chão.
 O Vampiro cai e já corre novamente...suas garras prontas e seu olhar fixo no alvo. O Padre está para levantar. Ele não irá deixar...ele afia suas garras ainda mais, mira a face de Oscar e...
 Algo o bloqueia.  Ele enterrou sua mão e garras em algo macio...e fétido.
 O Vampiro olha para aquilo que simplesmente brotou do nada em sua frente. A pele morta e enegrecida. Os olhos não estão mais lá...são duas orbitas ocas e expostas. A língua está para fora, cheia de bolhas amarelas...e lhe falta uma perna.
 - Agora faz mais sentido você ser um Padre... – O Vampiro ficou encarando o bebê que brotou ali por um segundo...antes do cadáver abrir a boca e gritar. Um grito agudo, tremido, horrível...o Vampiro se afasta porque deve ser algum modo de ataque.
 O Padre dá uma leve risada. Ele se levanta, colocando a mão na cabeça do bebê morto que agora flutuava em sua frente.
 - Um erro comum de muitos Necromancers por ai...é achar que o corpo se torna inútil agora que já havia lhe tomado a alma. Mas eu...sou diferente. Eu descobri novos meios da Necromancia que poucos tiveram o prazer de fazê-lo. – O bebê sorriu...um sorriso banguela com a língua apodrecida e amarela para fora. – Eu descobri que tendo a alma de alguém, seu corpo pode ser usado...e eu sempre fui de pegar almas mais...jovens. – O Padre sorri...seus olhos, antes, totalmente brancos, começam a ficar injetados de veias negras. – Sabia que com a alma de um recém nascido, eu posso utiliza-la duas vezes para voltar aos meus 16 anos? Sabia disso? – O sorriso de Oscar é doentio...e ele ergue suas mãos de carne e osso e mais seis feitas da aura cinza que o rodeava. E proferiu as palavras. – Levantem-se. Pois seu senhor vos chama!
 O Vampiro observou enquanto, em volta e abaixo do Padre, a terra se remexia...o azulejo se despedaçou e os braços foram afastados por aquilo...até que saíram. Imagine um formigueiro, de repente, estourando...só que ao invés de formigas...o que saia do monte de terra eram cadáveres enegrecidos de crianças , de varias idades...de vários tamanhos...mas todos igualmente sem dentes, sem roupas, com línguas apodrecidas para fora de suas bocas...algumas flutuaram em volta do Padre...outras ficaram no chão, algumas de pé, outras de quatro...agindo como animais.
 Os olhos do Vampiro irradiariam.
 - Aé...mais uma coisa... – Oscar riu, apontando um dedo para o Vampiro. – Eu também tenho controle...de seus ossos! – O Vampiro, antes que pudesse entender...sentiu o chão sob os pés tremer...e logo sentiu a dor aguda de ter seu corpo perfurado por pilhas de ossos amarelados. Eles surgiam como as crianças também, só que mais rápido, se uniam, se movimentando como serpentes...e entravam na carne do Vampiro, espalhando seu sangue pela Igreja...
 Por fim, ele estava ali...empalado em vários sentidos por todos aqueles ossos.
 - Ah...o corpo de um Vampiro... – Oscar se inclinou para frente, levitando até próximo de sua vitima. O Vampiro estava com lascas de ossos saindo por todo seu corpo...e uma coluna inteira o empalando, saindo pelo pescoço, deixando sua cabeça pendida para o lado, com um olhar rubro perdido. – Imagine as possibilidades se eu conseguir controlar você. Imagine o poder que eu assumiria em ter um corpo desses comigo...eu poderia... – Oscar parou de falar...quando viu os olhos do Vampiro se focarem nele...e um sorriso brotar em seus lábios.
 - Diz a verdade...você iria adorar isso, não é mesmo? – O Padre ficou sem reação...mas abaixou para se proteger quando ouviu todas as janelas se despedaçarem...e coisas entraram voando...
 Morcegos!
 O Padre se afastou quando as criaturas começaram a chegar e chegar mais perto...alguns deles tentaram atacá-lo, alguns até mesmo causaram rachaduras em sua aura...
 - O que... – Oscar logo levou os braços ao rosto...não podia acreditar no que via e sentia.
 Os Morcegos...agora rodeavam o Vampiro. Eles voavam em volta dele rápido, muito rápido...e ventos começaram a se formar...ventos muito fortes a ponto de fazer alguns dos cadáveres rolarem para longe. Até que uma coloração vermelha começou a surgir em meio a aquele redemoinho macabro...uma luz forte que foi aumentando...até que os chiados dos morcegos se tornaram insuportáveis. Ou Oscar cobria os ouvidos ou os olhos...ele escolheu manter a audição.
 Rodeado dos seus cadáveres, ele olhou para o centro do ciclone de trevas a sua frente...e viu o Vampiro se erguendo novamente...
 Impossível! Ninguém nunca havia escapado da sua armadilha de ossos! Ninguém nunca teria feito aquilo!
 - SEU MERDA! VOCÊ... – Oscar iria tentar outra artimanha mágica...invocaria mais mãos, mais cadáveres e mandaria para cima do redemoinho vermelho...mas parou um segundo para olhar quando, por algum motivo, o Vampiro tirava algo de dentro da camisa...
 Um colar!
 E dele, puxava algo redondo...algo que parecia uma moeda...e depois, jogava para cima com seu polegar...e deixava cair no centro de sua mão e...
 BOOM!
 O Redemoinho parou. O chiado parou e os morcegos começaram a se pendurar no teto da Igreja...e a cor da luz mudou. Agora, não era só o vermelho, tinha algum prateado ali também.
O Padre foi ao chão...ele respirava com dificuldade. Seu coração pareceu bater ao contrario de repente...e ele sentiu um gosto estranho na boca...
 Quando ele olhou para frente, ele conseguiu ver cerca de vinte cadáveres de crianças suas...parecerem em cinzas...
 - Não...espera...isso...
 - Isso...é o que eu posso fazer. – A voz era a do Vampiro...que estava de pé a sua frente agora. O Padre o olhou e não acreditava em sua visão. Nem mesmo as roupas havia rasgos ou coisa do tipo. As armas estavam no lugar, nem mesmo o cabelo dele havia bagunçado. Ele parecia estar em chamas...chamas vermelhas como seus olhos percorriam seu corpo e em sua mão...
 Em sua mão...algo se estendia.
 Seu punho estava fechado...uma espécie de energia começava em seu pulso, cobria a mão e crescia...formando uma lamina de energia de coloração prateada.
 - Não... – Oscar começou a recuar...com ele seus cadáveres. – Não, você não...não...me...me disseram que você tinha desertado...que não existia mais...
 - Não se pode desertar de uma coisas dessas. – O Vampiro respondeu, sorrindo. – Eu só tirei férias! – E ele balançou seu braço, usando a Lamina para cortar mais cadáveres...dessa vez, quinze sendo cortados.
 Oscar se retorceu...sentindo aquela dor no coração...aquele gosto estranho na boca.
 - O que...como...COMO FAZ ISSO? – O Padre gritou...já não parecendo tão jovem.
 - Pensei que não fosse mais conseguir formular frases, rapaz! – O Vampiro respondeu a ele...e tomou um tom mais sério. – Essa é a Lamina Nobre! Acho que até alguém como você sabe o que é isso. Ela é fruto da Moeda de Azazel...aquela que eu carregava no pescoço. – O Padre, ainda em dores...conseguia prestar atenção. – A cada corte, ela não somente mata o inimigo...mas como eu tomo sua alma para saber de suas experiências e recuperar minhas forças. Isso significa, Oscar Nephesh...que a cada cadáver seu que eu matar usando isso aqui...a alma que está em você sairá...para vir a mim! - O Vampiro sorri. - Não importa se você as tomou...a alma sempre irá pertencer ao seu corpo original.
 - Moeda de Azazel... – Oscar ficou de pé, apontando um dedo tremulo ao Vampiro. – Você! VOCÊ É O CAVALEIRO!
 - Parabéns, Sherlock! – O Vampiro rosnou e partiu para cima novamente...a Lamina Nobre novamente cortando mais cadáveres.
 Oscar, movido pela dor e raiva, gritou aos céus...aquilo o fez trazer tudo o que tinha a tona. Quinze mãos brotaram de sua aura...cadáveres começaram a saltar pelas paredes e mais ainda pelo chão...
 - NINGUÉM ENTRA EM MINHA CASA E AMEAÇA MINHA VIDA! – O Padre ruge...e manda a onda de mortos para cima do Vampiro. – NINGUÉM! NEM MESMO A PORRA DO CAVALEIRO! – O Vampiro se vê encurralado...está cercado de mortos, são muitos...ele precisa acabar com aquilo antes que se estenda demais, antes que o Padre continue gritando, atraindo mais atenção.
 Ele aumenta aquela aura vermelha presa em seu corpo...a lamina responde...e ele ataca. Cada golpe, leva no mínimo, 30 corpos para o esquecimento. As crianças gemem, partem para cima deles naqueles corpos podres...quase que ansiosas para morrer de uma vez por todas.
 O Vampiro não podia culpa-las.
 Seus ataques estavam indo bem. Até as mãos de Oscar o seguram pelas costas e pelos braços. Ambas o puxam com violência, rasgando novamente sua camisa...e o jogam para o teto. O impacto é forte. O concreto racha, reboco cai...mas o Vampiro se prende ali.
 A Gravidade não se aplica aos Vampiros se ele não quiserem...eles podem andar em qualquer plano assim que lhe der na telha...e aquele Vampiro, o Cavaleiro, ficou de ponta cabeça mirando o Necromancer que estava enfrentando. Os cabelos estavam grisalhos ainda...mas sua aparência agora era de um homem de trinta anos...
 Mas ainda faltavam muitas almas a serem recolhidas...e ele tinha hora marcada...
 O Padre levantou as mãos, apontando-as para o Vampiro. As mãos cinzas de sua aura vieram novamente...o Vampiro pulou para a esquerda...enquanto sua mão livre ia até suas costas...e ele pegava sua Dama de Ferro: Uma S&W 500 MAGNUM.
 Banhando a arma com seu poder, o Vampiro a disparou. O tiro foi uma explosão, mesmo para todo aquele barulho...e a mira impecável do Imortal não falhou aquela hora. Oscar perdeu um braço quando um tiro pegou em seu ombro esquerdo. Ele começou a gritar tentando estancar o sangue. As mãos cinzas que iam atacar o Vampiro pararam no meio do caminho. Os mortos pararam de tentar alcança-los. Oscar havia perdido a concentração...ele poderia usar alguma coisa para de regenerar.
 O Cavaleiro não deixou.
 Ele apoiou seus pés na parede mais próxima e assobiou...Morcegos ficaram a sua volta e ali, ele acumulou mais energia...fazendo com que o rubro de seus olhos fosse absoluto...e forçou com tudo para frente. Seu corpo, dominado pela aura o fez parecer um meteoro. Oscar ainda tentou dizer algo...quando a Lamina Nobre atravessou seu peito. O corpo do Padre foi ao chão, fazendo tudo rachar e quebrar. O Vampiro foi por cima dele...com a lamina ainda em seu peito.
 O silencio durou um segundo. Logo o som de vidros quebrados começou...eram os cacos da aura de Oscar se desfazendo. Então, o grito e choro de crianças...os cadáveres começaram a se desfazer, gritando, chorando...estendendo as mãos para cima...até que todos se desfizeram em cinzas.
 O Vampiro retirou a lamina do peito do Padre. Foi só naquele momento em que ele viu o quão escuro estava o local...varias velas foram apagadas...somente algumas restavam.
 Ele abriu sua mão, fazendo a Lamina se desfazer...a Moeda estava ali, em sua palma...ele puxou novamente o cordão com um imã e colocou a moeda em seu devido lugar...parecendo um pingente qualquer. Aproveitou e colocou a arma de volta ao coldre que ficava em suas costas, na cintura...mas não desengatilhou.
 - Por que...? – O sussurro veio até ele. O Vampiro olhou para baixo e viu um velho...um velho acabado, com os olhos um tanto acinzentados, parecendo ser feito somente de pele e osso. Era aquilo que o Padre era sem seu poder...sem suas almas para se alimentar.  – Como foi...que isso aconteceu? – O ignorando, o Vampiro foi até onde havia deixado sua jaqueta. E ela estava ali, intacta. Ele a pegou e a esticou, vendo se tinha algum arranhão ou corte. – Minha fé... – O Padre ainda reclamava...mas aquelas palavras chamaram a atenção do Imortal. – Minha fé foi tão pequena assim? Meu...poder...precisava de mais fé?
 O Vampiro riu antes de começar a falar.
 - Não acho que fé realmente faça alguma diferença no mundo. – Ele vestiu a jaqueta. - Fé não é algo palpável, não é algo que possa cheirar, algo que se possa ver, afinal de contas. Isso o que você chama de fé também é conhecido como esperança...ou como eu e meus colegas gostamos de chamar, "merda nenhuma". – Ele tirou novamente o revolver do coldre e começou a caminhar de volta para o Padre. - Esse papo de ficar esperando uma oportunidade aparecer, de alguma coisa cair do céu é patético. É o verdadeiro mal do mundo. Não...o que realmente se precisa ter é sangue nos olhos. Força de vontade. Espírito de luta. Consegue entender isso? Consegue imaginar isso? Consegue imaginar eu, nesse corpo, nessa espécie que sou, ter outro tipo de atitude? Não. Não consegue. – O Vampiro parou na frente dele...e colocou o pé em seu peito quando o mesmo tentou levantar. - Porque quando você olha pra mim, você começa a suar frio. Você começa a tremer. – E ele realmente o fazia. - Porque você sabe que eu estou no topo da porra da cadeia alimentar. – O velho começou a respirar difícil...estava com medo...estava tão acostumado a usar tão pouco suas habilidades para sobreviver que, no primeiro confronto de verdade que teve em sua longa vida, ele surta...ele perde o meio. Ele não pensa criticamente e se expos demais. O Vampiro odiava isso...odiava pessoas acomodadas.
 - Você...você...deixou só uma alma em mim...só pra poder...?
 - Você perguntou quem eu sou mais cedo, coroa... – O Vampiro apertou seu pé no peito do velho, o impedindo de falar. Apontou a arma para a cabeça dele e concluiu.
 - Eu sou Alek Montenegro. Eu sou um Carnívoro.
 O tiro da Magnum, mais uma vez, soou por quilômetros dali. A cabeça do Padre se espalhou por todo o altar.
 Alek desengatilhou a arma e a guardou no coldre, agora pra ficar. Foi até as velas que sobravam e as derrubou, perto das cortinas e do confessionário. O fogo começou a consumir antes mesmo dele sair pela porta enorme de madeira.
 Ao sair pela rua, ele viu alguns olhares curiosos saindo pelas janelas...mas esperava ver mais gente...mais companhia...
 Ele sorriu...se uniu as sombras da noite e correu como o vento para longe dali...enquanto a Igreja ardia em chamas.
 Em meio a sua correria, Alek levou um dedo ao ouvido esquerdo, encostando e ativando seu comunicador.
 - Diana, está ai?
 - Que porra foi aquela, Alek?
 - Uma brincadeira de mal gosto. Me encontra no local marcado!
 O Vampiro soltou o ouvido e continuou correndo por mais 15 segundos. Ele agora estava nos limites da cidade, na saída da estrada para São Paulo. Um Audi A4 os esperava.
 Não demorou muito até que Diana aparecesse.
 - Alek! – A Vampira caminhava até ele firme e imponente. Ela estava meio puta da vida. – O que foi tudo aquilo?
 Diana Herácles. Tinha um cabelo castanho com luzes, coisa que ela começou a fazer desde que viu Friends pela primeira vez. Corpo bonito, peitos e bunda grande. Sua pele, de acordo com ela, já era bem branca antes mesmo de sofrer a transformação. Os olhos, naturalmente verdes, agora estão tão rubros quanto o de Alek. Sua vestimenta é uma camisa regata preta com coldres especiais para a munição do rifle Dragunov que tem na mão.
 - Já disse, uma brincadeira de mal gosto. – Alek respondeu calmamente, diferente da vampira.
 - Foi um show de luzes, lá dentro! E eu não tive um tiro certo em nenhum momento!
 - Diana, se você não conseguiu explodir uma cabeça hoje, a culpa não é minha. – Alek disse aquilo olhando nos olhos dela e chegando bem perto. – Se quer saber de alguma coisa...porque não pergunta para a moça dentro do seu carro?
 - Ein? – E foi quando ela olhou.
 - Ah, Alek...você não perdeu o jeito. – A voz da moça quando saiu do carro...parecia uma melodia cantada pelas sereias de Ulisses.
 - Você que ainda me subestima, Cassandra. – Alek respondeu a moça de cabelos ruivos e sobretudo negro que saia do carro. Botas negras de salto alto nos pés. Calça jeans escura rasgada por toda extensão da coxa. Um espartilho negro com um zíper de prata no meio completava o vestimenta dela.
 - Cassandra? – Diana se adiantou. – Ela não é...?
 - A Primeira Conselheira de Perséfone. É sim. – Alek respondeu a pergunta antes dela ser terminada. Diana olhou nos olhos vermelhos da Vampira que havia saído do seu carro e logo juntou as peças.
 - Foi um blefe. Você mandou o serviço por um cliente falso! – Diana rosnou e Alek a viu tirando a trava de segurança do rifle. Como se aquilo fosse funcionar com alguém como Cassandra. – Por que esse teatrinho ridículo? Ele é o Cavaleiro! Ele iria assim que Perséfone pedisse!
 - Sim, eu iria. – Alek respondeu por Cassandra, sorrindo enquanto o fazia. – É por isso que ela complicou as coisas. – E Diana revirou os olhos.
 - A Rainha pede para vê-lo novamente, Alek. – Cassandra começou a falar. – O mais rápido possível.
 - Irei passar na minha base primeiro. Eu tenho coisas urgentes a serem resolvidas. – Cassandra só assentiu quando ouviu aquilo. – Ok, vamos embora. Diana, você dirige?
 - O carro é meu, certo? – A Vampira respondeu a ele e entrou no banco do motorista e colocando o seu rifle no banco de trás.
 - Sua amiga é meio nervosa, não é mesmo? – Cassandra dizia, entrando no banco do carona.
 - Dizem as más línguas que ela foi transformada na TPM. Deu nisso. – Os dois riram enquanto Alek entrava no bando de trás, colocando o Dragunov em seu colo, abrindo os braços e se reencostando melhor.
 - Vai fazendo, graça. Vai fazendo! – Diana disse, mas não conseguiu deixar de dar um sorriso contido.
Ela deu a partida no carro e começaram ir a seu destino.
 Alek contemplou a janela, sem ver realmente o que tinha lá fora.
 Fazia mesmo tempo que ele não enfrentava um Necromancer. Fazia mais tempo ainda que a Rainha manda uma dos seus Conselheiros vir e chamá-lo pessoalmente para vê-la, ainda mais usando as palavras “o mais breve possível”. Alguma coisa grande iria acontecer. Alguma coisa que mexeria com muita gente, com muitos planos.
 Alek sorriu. Quem sabe agora, seu posto valeria de alguma coisa.


Não se preocupe, minha Senhora...seu Cavaleiro já está indo para casa.

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