terça-feira, 4 de novembro de 2014

Mudanças

Mais um Capítulo da série: Noturnos

✝ ✝ ✝ ✝ ✝ ✝ 

HEITOR H. HARTZ

 Acordei com o som de panela de pressão. O cheiro de carne, arroz e feijão me invadiu de tal forma que eu arrepiei dos pés a cabeça e meu estomago parecia um dragão enclausurado.
 Foi só ai que eu comecei a olhar ao redor. E me senti bem ao mesmo tempo que confuso.
 Paredes brancas e lisas. Um pequeno criado mudo a minha direita com uma imagem do menino Jesus se elevando aos céus e a sua frente, um jarro generoso de água. Cobrindo-me estava uma manta branca, grossa, quente, mas o clima parecia frio...muito frio. Logo, eu ficava ali bem confortável. Eu só vestia uma camisa de manga curta e uma samba-canção. Comecei a mexer meus braços e pernas...só pra ver se tinha algo de errado. Estavam relaxados demais. Iam começar a doer no instante em que eu me levantasse. Olhei novamente ao redor, com mais cautela...
 Vi o jarro de água em cima do criado mudo de novo. A garganta apertou e ardeu, seca...
 Eu o ataquei quase que instintivamente. Eu saltei e peguei o jarro. Três litros de água para baixo em menos de um minuto. E ainda estava com sede.
 - Meu Deus... – Soltei o jarro na cama mesmo e coloquei as mãos no rosto...tentava me lembrar de alguma coisa...
 Fogo no Porto...um Lobisomem...Vampiros...Larissa e Larissa e Verena lutando...eu contra uma Greeneye...
 Onde é que eu estou agora?
 A porta a minha frente se abre...eu quase tenho dois ataques cardíacos...um por ouvir o ruído...
 O outro por ver quem era.
 A cabeça raspada como sempre, não deixando os cabelos pretos muito aparentes. Os óculos firmes no rosto que...sinceramente, eu estranhei vê-lo limpo...e não com manchas de sangue negro. Aquele sorriso de “eu como todo mundo mesmo” mostrando que estava tudo bem no momento ee a postura exemplar de sempre. O corpo estava mais forte do que eu lembrava por baixo de uma camisa preta e os olhos debaixo do óculos estavam mais calmos do que eu pensei ser possível...


 Jack. Um caçador exemplar. Meu amigo de longa data...que a muito eu não o via
 - Você não consegue ficar quieto, consegue? – Ele disse, entrando no quarto e deixando a porta aberta.
 - Jack? Mano, é você? É você mesmo?
 - Meu RG diz que sim. – Ele riu e até eu ri. Mas ainda não acreditava. – Faz tempo, não é?
 - Faz...faz muito tempo. – Eu respirei fundo e perguntei. – Por que voltou?
 - Você meio que se envolveu em um escândalo, sabia? – Ele foi até o criado mudo e abriu a gaveta...e jogou um jornal do Estadão ali que pegou.
 A primeira pagina era sobre o fogo do Porto...e todas as outras também. Nada que não falasse de tudo que aconteceu ali. Eu aproveitei e pensei em ler, saber como pode ter acabado...mas a cabeça começou a doer, me fazendo levar a mão até ela...
 - Calma, rapaz... – Jack veio até mim e colocou a mão no meu ombro. – A queda foi brava.
 - Queda? – Eu tentei dizer, mas a cabeça doía...doía demais....até que finalmente falei. – Me conta tudo que aconteceu, Jack...conta tudo de uma vez.
 Ele só concordou com a cabeça e se levantou da cama.
 - Aguenta ai...acho que não sou eu que tenho que te falar isso. Além do mais, eu tava ajudando na cozinha. Só vim ver como você estava. – E ele saiu...não demorou muito e ouvi vozes surpresas e passos apressados.
 Larissa Fagali e Larissa Venâncio...seguidas de Verena, que ficou parada na porta, vieram e me abraçaram. Apertado demais, eu senti algumas dores...mas não me permiti demonstrar.
 - Você tá melhor?
 - Eu to vivo. – Respondi Fagali. Elas se afastam de mim e eu, por fim, pergunto.
 - Quanto tempo?
 - Três dias. – Venâncio responde. Eu só concordo. Melhor do que três meses. Bem melhor...
 Foi ai que gentilmente pedi que dessem espaço e eu olhei para ela...na porta...
 - Oi... – Eu disse.
 - Oi... – Ela respondeu. – Tá melhor?
 - Uhum. E você? E vocês? – Eu disse, falando bem alto o S no final. – Me digam, como estão, o que fizeram nesses três dias...e mais importante, onde é que eu to?
 Elas deram uma leve risada. Até que o tom sério voltou quase que instantaneamente e Fagali começou a falar.
 - Voamos...sem eu entender como mas, voamos. Você nos pegou, abraçou e voamos. Cruzamos o porto, os céus e continuamos assim por um bom tempo...até que, do nada...você simplesmente apagou...literalmente. Toda aquela luz em sua volta apagou e estávamos a alguns quilômetros acima do chão, sabe? Bateu, morreu. – Venâncio deu uma risada e tomou partido da historia.
 - Estávamos perdidas. Não sabíamos o que fazer. Então, Verena – Ela apontou para a mesma com o polegar. – tinha um truque na manga...ou melhor, no pescoço. Um colar dela começou a brilhar e quando estávamos pra cair no chão, uma lufada de vento interrompeu a queda...e quando eu percebi, estávamos no meio do Ibirapuera rodeado por penas e uma pequena cratera no chão. – Ela olhou para a Bruxa, encostada na porta. – Em outras palavras...ela nos salvou.
 Nós três sorrimos para ela...
 - Obrigado, Verena. – E ela deu um sorriso de leve.
 - Não foi nada. – E se retirou.
 - Ela tem andando meio deprimida desde então. – Fagali falou baixinho. E eu concordei...lutamos contra uma Greeneye e eu sei...que Verena a teria matado se não tivesse que dividir metade das suas forças para fazer aquela esfera ao meu redor funcionar e me recuperar. Eu...
 ...
 Como eu sabia que aquela esfera usava metade das forças dela?
 Eu cocei a cabeça.
 - Calma, relaxa. Tá tudo bem agora. – Fagali disse, passando a mão no meu cabelo.
 - Ah, eu sei...caramba... – E ai...algo importante veio a mente e eu tive que perguntar. – Hey, o que aconteceu com o Porto?
 - Elas trocaram olhares...e Fagali que respondeu.
 - Afundou. – E fiquei olhando pra cara dela pra ver se era verdade...e era mesmo. Eu quando ia começar a lamentar a perda, ela pareceu que sentiu que era uma boa hora de soltar todas as bombas de uma vez...e foi o que fez. – E...a base com suas armas...ela explodiu. Nós...não trancamos a porta quando saímos. – E eu quase desmontei. O sistema de segurança era isso. Se não lacrasse as portas por mais de meia hora, tudo ia pelos ares. Eu nem tentei pensar em quem tinha morrido na explosão.
 - Está com fome? – Venâncio quem perguntou...só vi que de repente, a base não importava, eu só lembrei que meu corpo estava totalmente vazio e eu precisava comer alguma coisa.
 Me ajudaram a levantar, mas quando passei da porta, consegui ficar de pé e andar por mim mesmo.
 Parei pra ver a cena e logo de cara, eu já sabia onde eu estava.
 Os sofás e poltronas eram feitos de madeira com almofadas de couro no acento e no apoio as costas e mãos. O tapete era aqueles tricotados com espaços entre os nós. A mesa era de madeira escura e com um pote de balas vazio em cima. A televisão de tubo estava em cima de um rack da mesma madeira, cheio de porta retratos, livros e CD’s de bandas e cantores antigos. As paredes eram brancas, nela quadros de flores e paisagens reinavam e janelas abertas deixavam o sol entrar e banhar tudo...não se precisava acender as luzes do abajur ou do lustre...
 A casa aspirava a coisa antiga...não, antiga não...clássica. Casa de gente velha, mas legal...que te daria um real pra comprar doce toda vez que você olhasse pra ela...
 - VÓ? – Eu gritei, na hora me que tudo se encaixou.
 Ela veio. Passos firmes, os cabelos grisalhos e curtos combinando com o sorriso branco e convidativo. O corpo meio magro, mas em forma de certo modo, abriu os braços. A pele branca e enrugada do rosto pareceu jovem quando ela disse.
 - Oi Heitor. – E eu só corri até ela e a abracei com muita força. Ela fez o mesmo.
 Vó...ela tinha o cheiro de jasmim, como sempre. Vestia uma blusa azul comum, um shorts branco e chinelos...
 Eu olhei pra ela, segurando em seus ombros.
 - Vó...como você está? – Ela passou a mão no meu rosto e disse em tom baixinho.
 - Sou eu que tenho que te perguntar, filho... – E eu sorri pra ela.
 - Agora, está, vó...agora, está...
 Em seguida almoçamos. Jack foi e serviu os pratos e fez questão de cortar todos os pedaços de carne para todo mundo.
 Arroz a grega, feijão cozinhado com pedaços de linguiça paio, frango assado no forno com tiras de bacon e molho especial, picanha assada na churrasqueira elétrica, batatas assadas com queijo e molho branco e, pra finalizar, muita, mas muita coca-cola.
 Minha vó é foda!
 Eu comi quatro pratos e tenho certeza que bebi duas garrafas de coca sozinho. Mas ninguém disse nada. O papo na refeição foi descontraído, lembramos de alguns fatos engraçados da academia, da vida...nada demais. Até Verena deus algumas risadas.
 Por fim, eu me encontrei na pia, lavando a louça...os outros não quiseram me deixar, mas, eu me sentia bem melhor...eu não queria que eles fizessem tudo por mim. Eles sentaram na sala, exceto Jack, que ficou ali do meu lado secando tudo e guardando...mas eu podia sentir olhos me vigiando de 5 em 5 minutos.
 Mas ai, eu fiz o inevitável.
 - Foi você que me buscou lá no Ibirapuera?
 - Não. – Ele respondeu, na lata. Ele sempre fez isso. Jack é direto e firme, sem rodeios. Eu sempre gostei disso nele. – Pelo que me contaram, elas conseguiram um carro no estacionamento do mesmo. Ninguém saiu ferido, só um segurança ficou inconsciente por alguns segundos. Nada demais.
 - Devolveram o carro?
- Sim. Fagali cuidou disso. – Ele deu um leve riso. – Alias...Fagali cuidou de muita coisa. – Eu olhei para ele, levantando uma sobrancelha. – Ela dormiu pouco esses dias. Foi ela que te trocou, ela que te ajeitava na cama, ela que checava seu pulso. Foi sim. – E eu dei uma leve risada.
 - E a Venâncio?
 - Fez a mesma coisa, só que parava para dormir e saia bastante para cuidar de alguns assuntos. – Ele deu mais uma risada e continuou. – Então, elas vieram até mim...eu morava mais perto ali, sabe?
 - Não. Eu nunca sei onde você mora.
 - Venâncio sabia. Ela ainda estava ativa com os Caçadores e eles tem meus registros, querendo eu ou não. Logo, ela sabia onde me encontrar. Cuidei de você um pouco...mas ai, meu telefone começou a tocar. – Eu passei um prato para ele secar e o mesmo olhou nos meus olhos. – Sua avó. Ela me ligou. – Ele continuou a secar as peças. – Ela sabia que eu estava lá e sabia que eu deveria te trazer pra cá. Ela...
 - Tem um sexto sentido muito bom. – Eu completei a frase dele. – Meu pai uma vez me disse que...minha vó conversava com anjos...por isso ela sabia de tudo. – Eu lavei a ultima panela e comecei a lavar a pia, tirando os restos de comida ali. – Eu não queria envolver ela nisso. Ela já lutou demais pra um vida.
 - Rapaz, olha pra mim. – Jack disse e eu olhei para o mesmo. – Você tinha que ver teu estado quando chegou aqui. Pele e osso. – Eu estreitei os olhos e ele repetiu. – Pele...e osso. Magro, desnutrido, parecia uma criança africana. Quando você chegou aqui, sua avó se trancou naquele quarto com você. Depois de duas horas, ela saiu cansada, suada...e quando entramos e te vimos, eu quase cai no chão falando hebraico pra glorificar a Deus. Cê tava de volta, normal...sem nenhum arranhão, cara. Até os machucados cicatrizaram e outras cicatrizes, SUMIRAM. – Ele iria continuar...mas a voz dela veio primeiro.
 - Jack...Heitor...venham aqui, por favor. – Olhamos para a sala e minha vó fazia sinal para irmos até lá. Terminei de lavar a pia e Jack guardou tudo que podia bem rápido e fomos até lá. Eu sentei na poltrona, que ficava de frente para a TV e Jack ao lado da minha vó.
 Me senti naqueles grupos de alto ajuda no lugar onde fiquei. Eu não gostei.
 - Bom, filho...como você se sente? – Minha vó perguntou. Eu respondia.
 - Estou ótimo, vó. Obrigado pelo almoço. – Ela só concordou. Então, ela tomou aquele ar sério...e de repente, ela não era minha vó...ela era Marlene H. Hartz, caçadora, mãe do meu pai, que ensinou a ele tudo que soube em sua vida.
 - Muito bem, Heitor...eu tenho algumas coisas pra te perguntar e coisa pra te dizer. O que quer fazer primeiro?
 - Me pergunte. – Eu respondi e ela concordou.
 - Primeiro...como foi que você conseguiu criar asas e voar? – Eu me acomodei no sofá...e comecei a contar desde quando chegamos na minha base e desde quando saímos do porto voando...
 Todo mundo ficou olhando pra minha cara...e Jack foi o primeiro a falar.
 - Jogaram um Vampiro em cima de você?
 - Jura que esse foi o ponto alto da historia pra tu?
 - Foi. Na moral, foi. – Jack respondeu e minha vó voltou a falar.
 - Van Helsing...você falou com o próprio? – E eu concordei...ela também. Então, ela se curvou e foi pegar algo debaixo do sofá...de lá tirou um cinto com dois coldres. Um com uma Colt, o outro com uma faca...as armas que havia ganhado. – Foi isso que ele lhe deu? – Eu concordei e ela colocou tudo no meu colo. Apalpei as armas como se minha vida dependessem delas...e eu senti que dependiam.
 - O nome da faca é Canino. – Olhei para ela. – O da arma é Presa. – E olhei novamente as armas...e novamente a ela...e parecendo que previa o que eu ia dizer, ela respondeu. – Seu avô...as usou também.
 - Meu vô? Sério?
 - Sim. Por parte de mãe, claro. O...tsc...sempre esqueço o nome dele.
 - Juraci...
 - ISSO, o Juraci. Ele mesmo. Usou as armas também... – Ela deu um leve riso. – Nunca pensei que as veria de novo.  Mas enfim... – ela sabia que eu iria perguntar mais alguma coisa e quis cortar logo o assunto. – Essas coisas podem esperar...não ficamos parados enquanto você dormia, Heitor, temos noticias...informações que conseguimos. – Ela olhou para Jack...e o mesmo começou a contar.
 - O Conselho está quieto esses dias. Em 3 dias, eu só tive que cortar dois grupos de Vampiros. Nada mais.
 - Qual o tamanho dos grupos? – Eu perguntei.
 - Medianos. 10 a 15.
 - Acharam mais corpos com marcas?
 - Não. – Fagali que respondeu. – Não achamos nenhum corpo, na verdade.
 - Eu tirei algumas informações deles. – Jack voltou a falar. – E devo admitir...eu suei pra isso. – A mordida na mandíbula mostrou que Jack estava irritado.
 Jack era um Sanctus. Ou seja, sem armas de fogo...somente laminas. A bíblia inteira estava na mente do cara, de cabo a rabo...e ele sempre recitava algum versículo antes de partir pra ação. Jack não era seu nome de verdade, mas ele prefere o apelido ao seu nome...porque Jack foi dado pelos nossos professores da Academia quando Jack e eu começamos a sair nas missões. Enquanto eu era comentado com desdém pelo fato de não respeitar os dogmas e partir pra cima com balas e laminas...Jack era comentado com certo temor por, literalmente, fatiar e estripar seus inimigos. Os torturava, tirava informações importantes que muitos de nós usamos varias vezes. Seu nome verdadeiro era complicado, então, todos o começaram a chama-lo de Jack...o Estripador.
 E ele curtiu o apelido.
 - E o que conseguiu? – Eu perguntei, voltando ao assunto.
 - Bem...o Conselho está recolhendo todo mundo das ruas. Todos os Vampiros, sendo eles bastardos ou não, eles estão sendo chamados para lá. Quem não for, será caçado e executado. Tentei logo em seguida descobrir onde o Conselho ficava, finalmente, mas, o cara...simplesmente se desfez em cinzas quando ele ia me dizer.
 - Como assim?
 - Não tinha colocado a lamina ainda no lugar que lhe era devido. Mas ainda assim, ele se desfez. – Aquilo era muito estranho...muito.
 - Pegou mais alguém?
 - Sim...no segundo grupo...ele comentou sobre um grupo de Vampiros que estaria lutando CONTRA o Conselho. – E aquilo me fez engasgar.
 - É sério isso? – Conflitos internos, obviamente, era uma coisa que uma raça daquelas teria...mas aquilo, um grupo contra o Conselho...
 Se rolasse uma guerra civil entre essas coisas, podia dar muita merda.
 - Muito sério. E ele ainda disse um nome...
 - Qual?
 - Nightcrawler. – E aquela pontada no peito veio novamente.
 - Drake... – Eu disse...sussurrando, quase como uma oração... – Eu vi um cara...parecido com ele no Porto. – E todos os olhos vieram a mim. – O Vampiro que o lobo acabou jogando em mim.
 - Ah! Então, foi mesmo o ponto alto da historia!
- Porra Jack, cala a boca!
- Como era o Vampiro? Igual ao Drake? – Minha vó perguntou.
 - Sim. Praticamente igual. Mas os traços do rosto, eram mais...joviais. Os olhos eram diferentes também.
 - Então era filho dele. – Todos ficamos boquiabertos olhando para minha vó. – Pode ter certeza que era filho dele. Já vivi o suficiente pra entender como funciona. Sempre assim. Traços mais jovens e um olhar mais forte. – E eu concordei...
 Matei o pai e agora, tinha que matar o filho. Bem simples...
 Encarei Drake a algum tempo...mas aquela foi a pior luta da minha vida toda...
 - E tem mais... – Venâncio atraiu o olhar de todos. – Outras coisas estão acontecendo...como por exemplo...casos de aparições de Lobos no Sul.
 - Ein? – Eu respirei fundo...demais para absorver...
 - E também...Bruxas... – Verena dessa vez falava. – Bruxas também estão voltando...eu sinto as distorções na Magia. Minha mestra veio me avisar que preciso voltar amanha para junto dela para nos prepararmos. – E ela suspirou. – Coisas grandes vem ai, Heitor.
 - E só você vai poder lidar com tudo isso. – Minha vó atraiu meu olhar. – Você tem a Luz agora, Heitor. Você foi escolhido por Deus e seus antepassados. – E suspirei de novo.
 - Vó...eu não entendo ainda, muita coisa...eu...
 - Não está pronto. Eu sei disso. – Ela me interrompeu. – Também sei que vai demorar para as coisas começarem a acontecer, para podermos atacar, para podermos cortar o mal pela raiz...você vai ter tempo de se preparar.
 - O que está dizendo, vó? – Ela se curvou a frente e segurou minhas mãos...seus dedos correram pelos calos e deu um sorriso.
 - Você vai comigo para longe, por um tempo...vou te ensinar a ser um Caçador de verdade, coisa que a academia não pode fazer. – E então ela olhou nos meus olhos. – Eu vou te ensinar a ser um Helsing. – E de repente, todo o peso das minhas costas pareceu leve...
 Eu senti que ia conseguir.
 Eu dei um sorriso.
 - Quando partimos?
 - Em dois dias. O avião está sendo preparado e tudo está para ficar no lugar.
 - Ótimo. Quem sabe ai, eu posso ficar e ajudar as Larissas. – E olhei para as duas...e as duas ficaram sem entender.
 Falei alto e claro.
 - Samuel tem liderado os Caçadores Venáns por muito tempo e está levando tudo a falência. Vocês duas tem que tirar ele da liderança e acabar com isso. Vocês duas tem que assumir o posto de líder agora.
 As duas iam retrucar, iam falar merda...minha vó e Jack perceberam.
 - Ótima ideia. – Minha vó disse. – O pai de Samuel era um excelente lutador. Mas era muito ocupado. Então o garoto foi criado pela mãe, que estragou ele. Aquela vagabunda mais queria dinheiro e um pau pra chupar do que qualquer outra coisa. – Eu olhei bem pra cara da velha...engoli a vergonha...e dei graças a Deus que Jack voltou a falar.
 - Heitor pode até ficar aqui e se recuperar. Eu ajudo nisso. – E eu dei uma risada...e me levantei.
 - Na verdade, Jack...eu tenho que te pedir outro favor... – Me espreguicei...e andei até a janela. Deixei o por do Sol me encantar por um segundo...e voltei ao meu raciocínio.
 - Bom...resumindo...os Lobisomens estão voltando...as Bruxas estão voltando...o Conselho está se agitando demais...e existe Vampiros que, aparentemente, estão lutando contra esse Conselho. – Concordei comigo mesmo e encarei todos na sala e parei no olhar atencioso do meu amigo de longa data. – Jack...eu quero que você chame todo mundo.
 Ele sorriu.
 - Todo mundo?
 - Todo mundo mesmo. Até o Pafume, aquele doido de merda. – E rimos. - Tá na hora dos velhos Caçadores afiarem as suas laminas de novo.
 - Eu topo. – Jack disse.
 - E eu também. – Fagali.
 - E eu. – Venâncio.
 - Contem com minha ajuda. – Verena disse...seria complicado para ela, mas eu sabia que ela faria por merecer.
 Eu sorri. Olhei para minha vó e segurei sua mão. Ela sorriu também. Voltei a olhar para Jack.
 - Vamos seguir com o plano então. Vocês ai, comecem a se agitar e arrumar as coisas por aqui. Chamem todo mundo. Manda eles se prepararem. Antes que vocês percebam eu estou de volta.
 E vamos exterminar cada pedaço dessa raça maldita.

DAN MOONSON

 Eu estava ali...na beira do mundo, olhando as nuvens negras daquele mundo esquecido por Deus que logo eu deixaria...digerindo tudo que tinha acontecido comigo.
 Estávamos saindo do Mundo Negro...aquela dimensão paralela ao mundo real em que somente alguns Lobos de altas castas poderiam adentrar...tudo por minha causa.
 Todos se referiam aquele lugar como Mundo Negro, mas eu gosto de chama-lo iguais aos anciões fazem: Limbo.
 Quando eu voltei, eu apaguei. Na hora em que encostei o primeiro dedo nesse solo infértil, eu cai e tudo ficou negro. Acordei horas seguintes, em uma cama que cabia seis de mim com meu pai nos pés...
 Seu semblante era preocupante quando ele me explicou que dois dias haviam se passado. Seus cabelos negros, pele morena e músculos eram pura rocha. Tensão demais. Eu sabia que a intervenção da minha mãe havia sido alguma coisa ruim para nós...
 - Os Elder estão esperando por você. – E se levantou e saiu...e eu me toquei que ele não disse anciões...ele disse Elders...
 Os Shamans...
 ...
 Me levantei e procurei a sala de banhos. Me banhei e me vesti o mais rápido que pude...uma bermuda feita de couro maleável e segui para onde eu deveria ir.
 Fogueiras e tochas iluminaram meu caminho para a Cúpula que eu seria julgado. Imagine um Coliseu em Roma, só que maior e inteiro, feito de madeiras negras que o Limbo nos proporcionou...e todos os Lobos de todas as tribos me olhando...e os Anciões, líderes de todas as famílias, e os Elders, nossos Shamans e guias espirituais, nos olhando e analisando tudo que fazíamos.
 Meus pais estavam bem do lado deles. Me olhando. Os dedos entrelaçados uns com os outros, bem apertados. Próximos a eles, Thomas e Ayane...me olhavam com esperança.
 O mais velho de todos nós...Lunis, A Loba, se levantou...ergueu as mãos aos céus e disse.
 - Silencio...pois eis que um filho de Judas será julgado! – O silencio foi absoluto. A velha olhou para mim. – Danilo Moonson. Filho de Gomes Moonson e Erika Moonson. Tu...retornou! – E levantou as mãos. Gritos e uivos e rugidos de vitoria foram dados por todos os lados...gritos de vitoria, de que eu iria ser “coroado” com a maturidade perante a matilha...reação que eu estava acostumada a ver quando eu ganhava uma luta ou competição...
 Reações que eu não me senti confortável ao receber.
 Eu não tinha vencido nada para ganhar aquilo. Pra ser bem sincero...me simpatizei com aqueles que me olharam feio e me mediram dos pés a cabeça. Famílias rivais que não gostavam de nós...que se transformavam em Lobo por pura sorte, quando na verdade, tinham almas de PORCOS...
 O silencio voltou a reinar quando a Elder pediu. Ela então se sentou e olhou fundo nos meus olhos.
 - Nos conte o que aconteceu. Que a verdade domine suas palavras, que sua coragem tenha dominado suas ações. – Caso contrario, eu enfrento consequências fudidas...foi o que eu pensei quando ela terminou de falar.
 Contei tudo. Demorei mais ou menos uma hora para descrever  cada detalhe de cada lugar. Admito que me demorei quando contei sobre o Sol...mas todos pareceram gostar de ouvir aquilo...até os rivais.
 Teve três reações que não consegui deixar de perceber.
 Quando falei o nome Nightcrawler...e quando eu disse que eu havia enfrentado o filho de Drake, meu pai só não se levantou da cadeira porque minha mãe não deixou...ela sussurrou algo no seu ouvido e o mesmo se acalmou...coçou a grossa barba e respirou fundo.
 Quando eu falei que eu senti a presença de Bruxas, caçadoras e outros seres...os Anciões e Elders estreitaram os olhos de uma tal maneira que achei que iam me interromper, que eu estava mentindo...
 E quando eu disse que o Vampiro Jason havia arrancado o próprio coração para se livrar do meu veneno...todos começaram a cochichar.
 Não levou dois segundos para Lunis ficar de pé novamente.
 - Lobos...Filhos da Lua e Herdeiros do Dia, escutem o que eu digo a vocês agora... – Seus olhos castanhos percorreram todos ali. – Se acabou nosso tempo de reclusão aqui. – Senti um choque na espinha. Ela continuou falando. – Nós nos refugiamos aqui para que nosso povo não se envolvesse em um confronto dos Vampiros. Eles estavam entrando em guerras territoriais...e eu sei como ficamos quando existe grande atividade deles por ai. Nossas feras interiores, nossos verdadeiros EUS nos consome por dentro para caça-los. Isso só afetaria demais o equilíbrio...então....nos refugiamos aqui para que eles pudessem se matar sozinhos. E depois voltaríamos e caçaríamos seus restos...mas eu sinto...sinto que nossa intervenção tem que ser feita da mais feroz e rápida possível. – Rugidos se deram. Mandíbulas e ossos estalaram. Eles queriam se transformar. Ela continuou o discurso...sua voz sobressaindo por todos eles. – ELES ESTÃO QUERENDO DESTRUIR O MUNDO EM SUA GUERRA. ELES ESTÃO TOMANDO CADA PONTO PARA SI, ELES ESTÃO FAZENDO UMA BAGUNÇA...NOSSO AFASTAMENTO FOI UM ERRO, UMA PIADA...VOLTAREMOS AMANHA MESMO...E COMEÇAREMOS NOSSO CONTRA ATAQUE! – E foi o que aconteceu. Muitos se transformaram, muitos dos meus amigos, na verdade...todos urraram, uivaram...
 Até que Lunis olhou para meu pai...e disse em alto e bom som...
 - Abrace seu filho, Líder Moonson...pois a partir de hoje, ele é um homem.
 Mais rugidos, dessa vez do meu pai e da minha mãe. Muitos vieram até mim e me abraçaram. Eu até forcei sorrisos. E admito que quando meu pai pegou aquele Totem e colocou em meu pescoço, eu me emocionei. Ele mesmo tinha feito. Couro de lobo preso em um pingente de madeira que tinha a forma de um Lobo.
 E então, começamos os comes e bebes...festa, cantoria...
 E eu só me retirei.
 Meu pai, mãe e amigos tentaram falar comigo...mas eu só quis ficar aqui...
 Em cima de uma arvore, na beirada da Garganta do Diabo...o poço sem fundo do Limbo que muitos acreditam dar no Inferno.
 E eu só fiquei ali...quieto, como eu queria ficar...mexendo no meu pingente...”saboreando” uma derrota que não me era merecida. Pensando em tudo que estava por vir...
 ...
 Foi quando eu senti alguma coisa me chamando.
 Moonson...
 Quem...
 Venha até mim!
 Mas...quem era que...
 - DAN! – O berro veio de longe...mais precisamente para baixo. Olhei e era Thomas.
 Thomas Fenrir...meu amigo e companheiro. 90% das minhas historias de bebidas e brigas tinha o Thomas envolvido no meio. Ele olhava para frente, não para cima onde eu estava.
 Thomas era cego.
 Desci o mais rápido que pude e o mesmo me esperou ali. Seus olhos opacos fitavam o nada. Sua pele morena estava um pouco suada, como se tivesse corrido durante dias para me ver...ou estava muito nervoso. Ele só usava um shorts de couro, com eu e seu totem estava pendurado mais junto a garganta. Quando estava chegando perto dele e ia falar alguma coisa, ele apontou o dedo pra mim.
 - Por que não me contou?
 - Sobre? – Eu perguntei. Thomas suspirou. Seu peito subiu e desceu nervoso.
 - Que você não vai conosco. – E eu fiquei olhando pra cara dele...
 - Ein? – Eu acabei soltando. – Não vou com quem pra onde?
 E então ele ficou com aquela cara de analise dele...endireitou a postura e abaixou o dedo e a mão.
 - Você não sabe mesmo. Sua voz demonstra isso. – Thomas tinha os sentidos aguçados que compensavam a visão. Aguçados MESMO. O tato, por exemplo, ele podia saber quem estava perto dele em um raio de 30 metros. Juntando isso com sua Força Espiritual, ele sabia distinguir inimigos de amigos...e sabia quem dizia a verdade e quem não dizia.
 Segurei nos ombros dele.
 - Cara, responde, o que você quer dizer?
 E então, ele respondeu.
 - Eu não sei, mas...seu pai disse que você tem que ir vê-lo para se arrumar. E disse também que, todos nós íamos embora para o mundo humano...
 Menos você.

RENATA SHADOWKINGDOM

 Olhei pra o rosto de cada um deles...olhei fundo em seus olhos e eu cheguei mais uma vez a uma conclusão que me tem acometido demais esses dias...
 Decepção.
 Os meus Suicidas...voltam para casa cheio de marcas, olhares tristes e vazios...tanto que não consegui olhar para ele durante três dias. Procurei me concentrar na mudança, que começou a mais de um mês e ainda não acabou. Finalmente estamos no final, finalmente já está tudo perfeito onde tem que estar e sairemos daquela merda de fundo de museu. Iremos a um lugar mais digno.
 Mas voltando a eles...sinto vontade de cuspir em suas caras e mandar de volta ao processo de seleção...
 Ao menos não vieram de mãos vazias. E mostraram bravura de certa forma.
 Eles merecem uma segunda chance...
 A maioria pelo menos.
 - Minha filha, venha cá. – Ela subiu as escadas de mármore, os cinco degraus, ficando mais próxima a mim...o coração do Goldenblood em suas mãos, como um tesouro que lhe compraria a liberdade. Eu me levantei do meu trono, que logo seria retirado dali. Cheguei perto até ela...lhe acariciei o rosto....e segurei firme em seu queixo. Forcei sua face para a esquerda e olhei novamente em seu pescoço...
 A marca de dentes expondo músculos e tendões ainda estava fresca na minha mente...feitas pelo Nightcrawler...possível filhote de Drake...e mesmo que tivesse curado...eu ainda sentia o cheiro da saliva podre daquela prole maldita...
 Soltei seu rosto...ela olhou para mim.
 Virei minha mão na cara dela. O tapa foi forte, senti algo estalar, talvez um dente ou dois. Ela quase cai dos degraus...por sorte e para meu descontentamento, ela não o fez.
 Eu voltei a falar.
 - COMO OUSA VIR AQUI...COM FERIDAS A MOSTRA? – Meu rugido foi alto o suficiente para me ouvirem na superfície. – COMO OUSA VIR AQUI ACHANDO QUE CICATRIZES SERIAM BONITAS PARA MIM? – Olhei para o Panther. – VOCÊ! VIDAL! PORQUE NÃO CUROU MINHA FILHA?
 - Eu tentei, senhora. A mesma não permitiu que eu encostasse nela. – Voltei a olhar para Angela.
 - Seu pai já não está aqui para que eu seja branda com você, garotinha. Eu te criei para ser a melhor...não para aturar falhas suas. Lhe disse para ficar fora de batalha, lhe disse, ORDENEI QUE FICASSE LONGE! – Ela ficou quieta...olhares no chão...aceitando a punição.
 Mas então, eu respirei fundo...e olhei para o coração em sua mão...o peguei...o farejei...
 O gosto do sangue cristalizado dos Goldenblood encheu minha boca...o cheiro penetrou no meu ser e eu consegui ver como foi que ela o fez...esperou ele falar com os amigos, esperou ele estar fraco...e o atacou pelas costas, limpa e rasteira.
 Ótimo. Ela não é um completo desperdício.
 - Mas você fez bem em trazer isso. – Eu disse. – Está perdoada. Isso ajudará muito. – Olhei para o meu lado. Um servo ali estava, preparado como eu pedi. Ele veio com uma caixa de prata e eu depositei o coração lá dentro. O mesmo sai apressado.
 Repasso a historia na minha mente...vejo o rosto de cada um deles e vejo que é verdade.
 Eu a chamo.
 - Ana Greeneye...venha aqui. – Olho para minha filha. – Você, se retire.- Ela o faz. Rápido. Fica do lado de Aricia. Outra que mais tarde eu deveria ter uma conversa.
 Mas primeiro...prioridades.


 - De todos aqui...você foi a que mais me decepcionou. – Ela continuou olhando para o chão. – Aricia apanhou, mas deu uma surra em uma Verdadeira Forma. Vidal apanhou, mas provou seu valor com seu talento, se alto curando e curando os outros. Valdir desenhou, não entrou em combate. Pietro só resgatou Aricia. Wesley...pode ter quase usado sua arma... – Olhei para o mesmo, que baixou o olhar. – Mas se conteve e ajudou na fuga de lá, pelo que soube...
 Mas nenhum deles recuou e fugiu da luta, sua covarde!
 - Ele era um homem santo... – Ela disse, levantando o olhar. – Ele era...
 - Calada! – Eu sussurrei...o frio se instalou e senti meu servo tremer...uma camada fina de gelo se formou nas bochechas brancas de Ana...e eu voltei a sussurrar. – Você tinha que ter enfrentado ele. Lutado. Mesmo que perdesse. Que morresse. Você deu um gosto de vitoria ao inimigo...deixou ele sabendo que podemos perder, correr, fugir...você enfraqueceu nossa imagem, sabia disso? Você deixou nossa imagem, reputação...com uma mancha. – Mexi nos cabelos delas. – Eu não gostei...
 Me afastei, deixei a temperatura voltar ao normal...voltei a sentar no meu trono...olhei no relógio em meu pulso, eu tinha mais uma hora...
 Olhei para Ana novamente...e disse.
 - Você está expulsa do Conselho. – Todos olharam para mim...até ela. – Você está sendo retirada de qualquer titulo, proteção ou participação dessa casa. Não é mais uma Suicida. Não é mais uma Vampira. Agora é uma bastarda. Um bicho sem dono. – Me aconcheguei e arrumei meu casaco. – Você tem 24 horas de dianteira. Depois, eu vou mandar te caçarem.
 - Mas eu...eu... – Ela tentou balbuciar. Ela tentou falar...se sobressair da minha ordem.
 - Agora você só tem 12 horas. – Eu disse. Vi pequenas Noites Úmidas se formarem em seus olhos...e houve uma reação em meio a eles.
 - Minha senhora, me perdoe, mas...é realmente necessário? – Vidal...Vidal Panther e Valdir se colocaram na frente. O Redson falou em seguida.
 - Ela pode ter fugido, verdade, mas aguentou o ataque de um Lobo, comandou uma pequena tropa somente com a voz e ela tem um talento a desenvolver.
 - Jogar ela fora assim seria desperdício, minha Senhora. – Aricia começou a falar. – Ela merece uma segunda chance.
 - Vocês me confrontam? – O ar ficou frio novamente...e vi eles recuarem. Vi Ana então olhar para trás...seus olhares tomando a cor esverdeada...
 - Fiquem tranquilos. A senhora de vocês se pronunciou. – E então ela olhou para mim. – Eu irei me retirar...
 Então, ela deu dois passos para trás, se virou...e começou a andar para fora, se dirigindo a porta.
 Todos os Suicidas olharam para trás quando ela ...Pietro foi o primeiro a se virar e perguntar.
 - E agora? – Eu olhei para seus olhos e levantei uma sobrancelha.
 - E agora o QUE?
 - Fomos criados para combater os Sete de igual para igual. Estávamos nos nossos treinamentos, eu sei, mas ainda assim, estávamos predestinados a isso. Agora, somos seis...irá substituí-la? Ou não precisamos de Sete já que o Drake morreu?
 Olhei fundo nos seus olhos. Pietro era algo indecifrável. Todd, o pássaro de Pietro, piou em seu ombro, bem baixinho. O pássaro em seu ombro piava baixinho e aquilo me deixava um pouco intrigada. Porque o pássaro só piava quando a sombra nos olhos de Pietro mudava. Era o único modo de chegar perto de saber o que Pietro pensava. Seus olhos. Sua face morena e impecável, com seus sorrisos enigmáticos e hipnotizantes tiraria o seu foco de saber quem ele era e, a muitos, faria você querer que ele soubesse quem VOCÊ era. Mas seus olhos...sempre luzes diferentes neles, sempre energias indo e vindo, sempre sombras e luzes dançando ali mostrando o que sua mente tinha formado. Pietro era o mais perigoso dos Suicidas.
 - Teremos uma substituta. – Olhei para minha filha. – Uma nova líder. – E ela levantou o olhar, até o momento baixo, para mim...e ficou pasma.
 Eu ri.
 Virei para o servo ao meu lado e sussurrei.
 - Mande-a entrar...e diga aos Redsons que sobraram aqui para se dividirem em dois grupos e irem atrás de Ikeda e de Ana, ok?
 O servo fez que sim e correu para uma porta lateral. Não demorou muito para que seus passos fossem ouvidos.
 Eu ri das expressões deles...eu quase fiz um escândalo, mas me contive a tempo.
 E então, eu olhei para ela.
 Os cabelos roxos combinavam com o espartilho negro e o batom. Botas de cano alto cobriam as canelas e metade da calça jeans escura. Um manto negro que, para os leigos, veriam couro...mas para mim, eu sabia que era formado de sua própria escuridão. Um sorriso confiante e olhos selvagens varreram a todos os presentes.
 Ela parou do meu lado. Olhei bem para ela. Ela era mais bonita do que eu me lembrava. Ela olhou para todos eles, assim como eu fiz de novo e não contive um sorriso ao verem suas caras de espantados...eles sabiam quem ela era. Eles já tinha ouvido as historias de como ela tinha morrido. Talvez isso os fizesse acordar perante o meu poder.
 Eu gesticulei para a mesma...e eu disse em alto e bom som.
 Cumprimentem sua nova líder, Suicidas.
 Fernanda....ou melhor...


FEFS...
NIGHTCRAWLER


✝ ✝ ✝ ✝ ✝ ✝ ✝

Ventos novos trazem maldições.
Que irão se chocar com uma luz que se liberta.
Mas longe dali, onde uma fera descobria suas livrações.
O filho de Drake desperta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário