quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A Ultima Noite

 Mais um Capítulo da série: Noturnos

✝ ✝ ✝ ✝ ✝ ✝ 

 Eu colocava aqueles trapos novamente, já que não tinha mais nada pra vestir. Eu me concentrei no que eu tinha que fazer. Não era necessariamente a coisa mais sensata, mas era a mais certa, e por isso minha consciência estava tranquila.
 Terminei de colocar o coldre com Lagrima de Prata dentro dela e olhei para trás e a vi novamente. Seu corpo nu estava mal coberto pela minha jaqueta, a qual ela se agarrava como se fosse algo precioso. Ana entrará no Sono a pedido meu...para que ela revivesse a mais doce memória que tinha enquanto eu fosse caçar.
 Ela ia ficar uma fera quando percebesse que eu menti...
 E me agachei novamente a sua frente, com um joelho no chão. Com cuidado retirei a vestimenta de cima dela...e me abaixei mais ainda até que meus lábios tocaram seu tornozelo...depois suas pernas...seu corpo...e por fim seu pescoço...e fui até seu ouvido e cochichei.
 - Lhe deixei um presente. Cuide dele...e você vai entender o que eu farei aqui hoje. La Lua... – Ela não acordou...eu não permiti. Por fim, beijei seu rosto...levantei e parti para a nova noite que se iniciava.
 O ar estava úmido com a tempestade de ontem e varias placas e faixas sinalizavam que a área estava em reforma graças aos buracos que fizemos. Nenhum deles tentou entrar no monumento, o que de certa forma foi bom para nós dois.
 Comecei a descer as escada, sem pressa. Eu precisava pensar com cuidado o que iria fazer...o que não era fácil, já que planejamento nunca foi realmente meu forte.
 Mas eu sabia onde eu tinha que ir e o que eu tinha que fazer.
 O museu do Ipiranga.
 Eu ia acabar com aquilo aquela noite.
 Caminhei aquela rua particular da área em que os Skatistas chamavam de paraíso. Continuei caminhando quando o piso mudou para o mármore e passei pelas pequenas fontes. Enquanto eu estava ali, cheiros diferentes vinham até mim...mas o cheiro de Morte era o que estava realmente no arma. Senti Lagrima de Prata vibrar.
 - Eu sei. – Eu respondi a ela. – Mas tem de ser feito. – Ela vibrou de novo. – Vai ser um exemplo. E alias, não faço a mínima ideia do que vou ver lá dentro...conto com você? – E ela se aqueceu a ponto de eu sentir. Eu dei um riso.
 Continuei caminhando e finalmente cheguei ali na porta. Sinceramente, eu pensei que alguém fosse me receber, me daria alguma luta e não algo pra pensar. Quem sabe, até algumas respostas. E antes que eu percebesse meu pensamento estava na minha família...e antes que eu notasse, eu já estava agachado na porta do lugar. Com um soco bem dado, quebrei o chão e pude puxar a porta secreta que levaria para o subterrâneo. Desci as escadas sem me preocupar em fechar aquilo e entrei naquele corredor branco. Meti o pé na porta de ébano...e me deparei com outra cena...
 - Isso explica o cheiro de morte. – Eu disse a mim mesmo quando vi as pilhas de corpos infinitas nos corredores. Eles ainda os separaram em cores e tamanhos...
 Aquilo significava festa. Comida/Bebida a vontade para todos...estava tendo uma festa dentro do Conselho.
 Aquilo só me deixou pior.
Estão comemorando...a vitoria?
 Eu continuei a caminhar. Meu corpo gritava para correr e minhas asas estavam quase quebrando minhas costelas, mas eu me contive. Meu instinto disse para eu ir com calma...para analisar tudo com cuidado e ele nunca me traiu.
 Desviei de mais pilhas de corpos do que posso me lembrar. Aproveitei e peguei alguns que ainda estavam frescos e terminei de esvaziar. Continuei caminhando até que a grande porta de entrada estava ali, pronta para dar de cara com o Conselho.
 Dessa vez não me contive totalmente. Saquei Lagrima de Prata, levantei meu pé...e chutei a porta com tudo. Ainda ouvi um pesado som de risos que pararam se súbito quando a porta se escancarou e uma delas quase caiu.
 Mas o que caiu foi meu mundo. O que caiu foi o pouco de alma dentro de mim. A cena a minha frente era tão grotesca que tive que analisar...pensar...e analisar de novo.
 Agora entendi porque eu não conseguia correr...não consegui já chegar chegando, destruindo tudo...
 Vários e vários Vampiros. Diferentes famílias, diferentes nacionalidades. A sala do Conselho teve ainda que tirar todas as mesas e cadeiras para comportar tanta gente. Bebiam em taças...taças...Sangue de Virgem e diretamente dos corpos o sangue comum, e todos pararam para me olhar...surpresos, outros de boca aberta. Mas foi ao centro que minha visão parou. Ao centro do pandemônio inteiro foi que eu vi...e fiquei horrorizado.
 Renata Enila estava ali.
 Renata...estava ali. De pé, olhando para mim como se nunca tivesse morrido e de certa forma desinteressada. Como se nunca a tivesse queimado até as cinzas. Ela usava um espartilho apertado e calça jeans escura, com os pés descalços. Seus cabelos eram novamente negros, contradizendo totalmente como eu a vi a algumas noites atrás. Segurava uma taça de ouro com pequenos rubis incrustados nela. E ao lado dela...como se estivessem em uma conversa amigável...estava, os Três Grandes. Os Três que comandavam o Conselho inteiro e organizavam nossa raça. Os Três que comandaram que eu a matasse antes. Os Três maiores filhos da puta do mundo.
 Mas o que me fez cair...não foi aquilo. Não foi...
 Foi o fato de Felippe estar ali com eles...fazendo parte da roda.
 - O que...? – Foi só o que consegui dizer, apontando a arma para o pequeno espaço que havia dentre Renata e Felippe.
 - Ele chegou. – Renata disse, tomando um gole do que tinha.
 - DRAKE! – Felippe gritou, chamando minha atenção. Ele abriu os braços como se eu fosse um convidado de honra, alguém esperado por muitos. Até mesmo os Três sorriam...
 - Felippe...o que tá acontecendo? – Fúria corria por minha veias e eu estava louco pra começar a dar tiros...mas eu tinha que ter cautela. O silencio não ajudava muito.
 - Calma, meu irmão. – Ele sorriu e começou a andar para mim. – Vem aqui, vamos conversar e... – Apontei Lagrima de Prata para ele. Seu sorriso morreu e suas pernas pararam.
 - Não chegue perto de mim! – Eu disse, olhando em seus olhos. – Fale! – Eu ordenei. O rubro de seus olhos escureceram assim como os meus. Ele respirou fundo e abaixou os braços.
 - Abaixa isso ae, Drake. – Ele disse, como uma ordem. Engatilhei a arma só de birra e ele quase rosnou. – Pode ficar calminho, ok? Temos novidades pra você.
 - Drake. – A voz dela...emanando o cheiro de Rosas e Sangue.
 - Nunca... – eu rosnei quando apontei a arma para ela. – mais...fale...o meu nome! – E disparei, mirando em sua cabeça. Lagrima de Prata atravessava magia, assim como as outras seis armas que formavam o Conjunto dos Sete. Mas ela ia desviar, ia correr ou...ou...Felippe ia jogar um qualquer na frente dela para parar a bala.
 Ele o fez.
 Pegou o primeiro que viu pela frente e atirou na frente de Renata para que ela não recebesse o tiro. O corpo se desfez em cinzas, caindo um pouco em cima dela. Sem mexer mais nada do que os olhos, ela olhou para a pilha de cinzas e depois para mim.
 - Que coisa mais rude... – Ela disse, com um sorriso irônico no final. E então eu explodi...mas não foi com ela...foi com Felippe.
 - O QUE VOCÊ TÁ PENSANDO?! – Eu gritei. Felippe gritou de volta.
 - CALA A BOCA! – Ele deu uma rosnada. – ME ESCUTA PRIMEIRO!
 - ESCUTAR VOCÊ É O CARALHO! – Berrei de volta. – SABE QUEM É ELA? SABE QUEM É ESSA VAGABUNDA? – Eu apontava para ela com minha arma, mas não tirava os olhos de Felippe enquanto gritava. – ESSE TROÇO AI FOI QUE CAUSOU AQUELA GUERRA A 50 ANOS ATRÁS! ELA DESTRUIU METADE DA NOSSA RAÇA E QUASE BOTOU O MUNDO PRA DORMIR! E PRA QUE? PRA NO FINAL VOCÊ TRAZER ELA PRA CA? PRO MEIO DE TODO MUNDO?
 - ELA VEIO AQUI PORQUE ELA É NECESSARIA!
 - CODY E FEFS MORRERAM! – Eu rugi dessa vez. Minha voz estava misturada com a voz da minha verdadeira forma. A mesa que havia os corpos para se servir e taças para pegar tremeu quando o fiz. Mas continuei gritando. – ELES ESTÃO MORTOS. SÃO UMA PILHA DE CINZAS, SABIA DISSO? – Felippe teve ao menos as maneiras de ficar quieto. – ELES MORRERAM NA NOSSA CASA! MANDARAM OS REDSONS LÁ! POR QUE? POR QUE FIZERAM ISSO?! – Eu trinquei os dentes. – ELES ERAM DA FAMILIA! – E com esse ultimo rugido, até os cabelos de Felippe balançaram e algumas taças caíram...até eu fiquei surpreso. O silencio imperou mais do que nunca. Felippe tentou dizer alguma coisa...porém, foi interrompido por Dorian, um dos Três que o interrompeu, usando sua voz firme e suas túnicas sangrentas.
 - Drake...escute, por favor. – Eu o olhei com a mesma raiva que tinha de todos ali. – Acabou que conversamos com Renata. Ela veio até nos de bom grado. Ela explicou a situação e mostrou algumas coisas...algumas coisas que provam que o nascimento do Hibrido fará bem a nós. – Eu fiquei sem reação. – Ao que parece...Renata está disposta a esquecer tudo e servir a nós. Ela até mesmo está disposta a desistir de sua magia para poder ser...
- Você perdeu o juízo, Dorian? – O mesmo me encarou da forma mais ameaçadora que nossa poderia ter. Seus olhos não eram rubros...eram prateados, do mais puro e me olharam como se eu fosse uma aberração repugnante. Dorian não estava acostumado em ser desafiado.
 - O que disse, criança?
 - Perguntei se perdeu o juízo, sua múmia! – Eu disse em alto e bom som. – TODOS VOCÊS, PERDERAM?! – Olhei para todos. – PERDERAM O JUIZO? ELA MORREU! E AGORA ESTÁ AQUI DE PÉ! MATOU METADE DA NOSSA RAÇA E VOCÊ! – Apontei a arma para Dorian...que não ficou nem um pouco feliz. – VOCÊ VEM ME DIZER QUE ELA TE CONVENCEU? ACORDA, DORIAN! O QUE ACONTECEU COM VOCÊ? COMO QUE ELA VOLTOU?!
 - Eu nunca morri, Drake. – Ela me atraiu e eu olhei para ela. Ela deu um sorriso irônico e cruzou os braços. – Nunca morri...
 - Te cortei em oito parte e te queimei... – Eu disse quase instantaneamente. Ela suspirou e mexeu rapidamente nas temporãs, logo em seguida, voltando a cruzar os braços.
 - O que você matou...foi realmente meu primeiro corpo. – E foi ai que eu fiquei atordoado. Abaixei a arma e comecei a ouvi-la. – Sabe,  como você lembra, eu comecei a estudar e entender a Necromancia. Eu sabia que tinha a possibilidade de acontecer alguma coisa comigo...então criei um novo corpo para mim, caso alguma coisa acontecesse com o antigo. – Ela abriu os braços. – Vê? Você destruiu meu corpo aquele dia Drake...mas acontece que minha alma continuou bem viva. Demorou um tempo para que me acostumar a ele, mas...eu estou aqui agora.
 - Como...?- Eu perguntei.
 - Não dá pra explicar, eu teria que lhe mostrar. – Ela sorriu. – É complicado, entende?
 E eu olhei ao redor. Todos...pareciam cientes...todos pareciam de acordo...
 - A...quanto tempo faz...que isso está combinado? – Eu perguntei. E dessa vez foi Lucius, outro dos Três que respondeu.
 - A cerca de Duas Noites. Não sabíamos como iria reagir, então...fizemos tudo acontecer primeiro para que depois contássemos para aqueles que provavelmente recusariam nossa oferta. E honestamente... – Ele olhou para Felippe, que lhe devolveu o olhar. – Felippe foi o único que aceitou.
 - E por que aceitou? – Eu perguntei. O mesmo voltou a olhar para mim.
 - Porque é o certo a fazer.- Ele me respondeu. – Não consegue ver? Teremos um mundo de paz, tranquilidade. Rios de sangue, virgem para caçarmos, lutas todos os dias...não entende?
 - Entendo que vendeu sua família. - Eu respondi, perplexo. – Entendo que vendeu Cody e Fefs para o abandono. – Felippe olhou para mim...respirou fundo...e deu de ombros.
 Ele deu de ombros...
 - Eles não quiseram aceitar. Eu tentei falar com ele e eles se mostraram contrario as ideias. Os Redsons fizeram o que tinham que fazer. – E senti meus músculos virarem pedra...mas o pior ainda estava por vir.
 - Quem é você? – Eu rosnei. – O que você fez com o Felippe? Onde está o meu irmão de verdade? – Eu serrei tanto os punhos que senti minhas unhas entrarem na carne. – E Thiago? Por que não o mataram? – Ouvi vários sussurros de surpresa, mas no momento, ignorei. – Por que o estão levando para o México?
 - Ah, aqueles imbecis abriram a boca... – Tefor disse, fazendo tremer algumas janelas. – Só podia ser.
 - Senhor! – Uma voz feminina foi ouvida e atraia olhares. Logo, uma loira estava se levantando ali. Eu a conhecia...era Karol Redson. – Não ofenda nossa família. Ele pode ter ouvido de outros e...
 - Cale a boca, cadela! – Tefor disse, sem pensar. – Não lhe perguntei nada. – E com a cara azeda e o maxilar junto e firme...Karol se sentou. – Bem... – O terceiro Senhor do Conselho voltou a falar. – Acho que está na hora de algo mais claro para o garoto... – E o mesmo se levantou...bateu palmas...e o som de correntes logo foram ouvidas.
 - Vocês... – E eu não consegui terminar a frase. Não com a cena seguinte.
 Eu estava pagando por cada pecado meu aquele dia...não era possível. Não era...
 Acorrentadas como cães...entrando pela porta lateral, a mesma que eu e Cody corremos tentando achar Renata da ultima vez...descendo as escadas em fileira com guardas as segurando com sorrisos e Correntes Maculadas mais pesadas ainda enroladas em suas mãos...Alice Nightmare...minha irmã Isabelle...Samy...e Leo...vinham até a reunião.
 Gritos de gloria e desejo foram ouvidos enquanto os quatro, feridos e cansados eram trazidos a frente de todo mundo.
 - Isso era realmente necessário? – Felippe perguntou...como se aquilo fosse somente uma medida que ele usaria, mas quando achasse realmente apropriado.
 - Quem sabe agora, ele se toca... – Tefor disse, sorrindo, bebericando mais uma vez sua taça.
 Eles foram colocados em fileiras, olhando para mim. Luana não estava entre eles...nem Camila, Nathalia ou Eduardo.
 - Os outros irão chegar, acredite. – Renata disse, mas eu ainda mantinha meus olhos neles...na minha família.
 Leo estava com o queixo erguido...ao menos o tanto que a coleira poderia deixar. Estava preto no pescoço, cintura, pulsos e pernas...e ainda assim, mantinha a postura com certo esforço. Samy, estava cabisbaixa...mas não tirara os olhos de mim assim que entrei...e eu podia ver leves fios negros que desciam de seus olhos e iam para suas bochechas. Alice estava ali...indestrutível...e toda raiva e suspeita que eu tinha dela foi embora.
 - Qual o ponto de proteger Alice para depois acorrenta-la? – Eu perguntei. E foi o próprio Dorian que respondeu.
 - Ela teria futuro...mas parece que se afeiçoou a sua laia. – Ele disse, cuspindo as palavras. – Ela não é mais...a minha filha. – Alguns cochichos vieram e se calaram assim que Dorian olhou para todos...
 E então, reuni forças...e olhei para minha irmã...
 Suas roupas estavam rasgadas, estava quase seminua para falar a verdade. Seu cabelo estava imundo de lama e seu rosto estava arranhado...pedindo sangue para que pudesse ficar inteiro novamente. Rastros de lagrimas negras também estavam em seu rosto...e seus olhos se encontraram com os meus...com um rubro quase apagado.
 Eu sorri.
 Eu dei dois passos para trás...
 Eu não aguentei, eu comecei a rir...a rir...e a rir...
 - Meu Deus... – eu pensei alto. – Estou certo...pensei certo desde o começo... – E dei mais uma risada.
 Eu estava certo. Eu planejei certo...eu sabia realmente o que tinha que fazer desde a hora que sai do Monumento.
 - Então...resumindo aqui... – Eu olhava para Renata enquanto falava. – Você...vem com esse papo...de que mudou de corpo...de que convenceu os Três...de que todos aqui entraram em um acordo...de que meu melhor amigo e irmão se vendeu para vocês...que vocês mandam matar minha família...que vocês acham...realmente que no final das contas...que o Nascimento do Anticristo...realmente vai trazer alguma coisa? – Eu olhei bem nos olhos dela. – Acha mesmo...que vou cair nessa?
 - E o que mais poderia ser, Drake? – Ela me disse. E então eu sorri mais ainda.
 - Muitos podem ter caído na ameaça de vocês...ter caído no papo de vocês, mas eu...eu talvez...talvez eu iria até pensar sobre o assunto...mas acontece que vocês fizeram um erro... – Eu disse, deixando que meu corpo começasse a queimar. – Vocês mexeram com a única coisa nesse mundo importante pra mim.
 E antes que alguém pudesse dizer alguma coisa, eu disparei. Rompei a barreira do som com meu impulso. Puxei meu punho para trás e forcei toda minha musculatura. Felippe viu o que eu ia fazer e colocou a mão no caminho, para se defender. Meu soco acertou a mão dele...mas a força de seu braço não foi capaz de segurar a minha. Ou seja...seu rosto foi acertado pelas costas da mão além do meu punho.
 Foi jogado contra a parede que esfarelou ao recebê-lo e eu saltei, desviando de dois guardar no caminho. Acabei parando no enorme Candelabro que tinha lá em cima no teto. Fiquei em cima dele, me segurei no fio. Disparei umas três vezes, acertando quatro no processo, sendo um dos tiro varou e pegou um deles atrás. Saltei novamente, em linha reta, mirando na gárgula que tinha na parede ali...mas me virei no ar e atirei no apoio do lustre, o fazendo cair em um grande estrondo, mas não antes de eu chegar a gárgula.
 - EU DISSE QUE ELE IA ATACAR! HÁ! – Tefor disse...e mirei nele e disparei. Não parei pra ver se ele ia ou não ia desviar...mas saltei de novo...e dessa vez sem mirar meu destino...mas mirei minha família e perto deles...
 Doze disparos...quatro coleiras quebradas, oito guardas mortos...nunca disparei tão rapido...e de repente o pandemônio havia começado.
 - MATEM OS NIGHTCRAWLERS! – Dorian rugiu quando meus pés tocaram a parede e eu pulei novamente...e todos aqueles vampiros reunidos começaram a se mover para cima de nós.
 Eu precisava ser mais rápido. Eles estavam fracos, não iam poder se defender sozinhos. Estavam muito próximos deles...
 Eu segurei a gola da minha camisa e a rasguei assim que toquei o chão...minhas costas trincaram e se abriram em duas linhas retas....e deixei que minha asas saíssem.
 Assumir somente parte da transformação era uma merda. Mas era necessário...era mesmo.
 Rugi e abri as asas violentamente. O estrondo se deu, atingindo todos aqueles que eu queria...os jogando para longe...até mesmo os Três caíram...menos Tefor...ele se equilibrou e continuou olhando...como se aquele fosse o melhor filme do mundo. Eu tinha alguns segundos. Eles iam me odiar por isso mas...
 Corri e segurei as correntes que ainda pendiam em seus braços...as puxei com violência e os joguei para fora da sala...para os corredores novamente. As quatro caíram em baques secos no chão de carpete e me olharam assustados...eu corri novamente para um lado e depois para o outro. Eu tinha que fechar aquela porta...eu...
 - NÃO! – Minha irmã segurou as duas madeiras enormes de Ébano quando ela estava a centímetros de fechar. O puxão machucou ainda mais seus pulsos...mas ela conseguiu se libertar das Correntes Maculadas graças a isso. – O QUE TÁ FAZENDO? – Uma pequena gota negra se formou em seu olho direito.
- Estou cumprindo um juramento.  – Eu não tinha muito tempo...mas sorri e disse a ela... – Tira eles daqui, maninha. Adeus. – E fechei a porta em um baque seco e alto.
 Virei para trás, apontando minha arma e abrindo mais minhas asas. Todos estavam enfurecidos...loucos...
 - Ficaram moles... – eu disse, em alto e bom som. – Não esperavam que eu atacasse, não é?
 - Você ficou aqui dentro, imbecil! – Renata disse, olhando para mim como se tivesse ganho alguma coisa. – Sabe o que isso quer dizer...
 - Sei. – Eu respondi. – Também sei que não usou nenhuma magia pra cima de mim... – e seu sorriso sumiu...e um estrondo de pedras e madeira se deu quando um monstro emergiu das paredes...
 Felippe havia se transformado em sua verdadeira forma.
 - MATEM ELE DE UMA VEZ! – Uma voz veio do nada da “plateia” que começou todos a virem pouco a pouco para cima de mim. Eu só forcei meu corpo mais ainda e estava pronto para me transformar por completo...quando Lucius caminhou calmamente a minha frente.
 - O que pretende fazer, Drake? – Ele perguntou, dando uma leve risada, ganhando a mira de Lagrima de Prata em sua cabeça.
 - Ninguém vai passar por essa porta. – Eu disse, olhando em seus olhos. – Absolutamente ninguém! – E por fim...deixei que minha verdadeira forma viesse a tona.


 Minhas asas estavam completas...meu corpo inteiro revestido pela pele endurecida que mais parecia uma armadura...e a corrente de Lagrima de Prata se enrolando em meu braço. Invencível...era como eu me sentia...porém, dita a verdade de que eu não era.
 - Drake Nightcrawler... – Tefor disse, tomando a dianteira com Dorian. – Em seu ultimo ato...lutando pelos irmãos...quem diria... – E eu olhei para Felippe antes de dizer...
 - Alguém tinha que fazê-lo! – E o mesmo rosnou para mim.
 E então...como uma explosão, todos...todos ali presentes...aqueles 100...200...talvez 400 Vampiros, eu não sei...avançara contra mim, em uma onda mortal. E eu contra eles...assim que senti a presença da minha família se afastando rapidamente...
 E...Eu não sei. Me senti bem...me senti leve. A raiva, a angustia foram embora com eles...
 Porém, eu senti vontade...vontade de saber o que ia acontecer amanha...se a lua ia brilhar como sempre, se os sangues continuariam quentes...se Samy ia conseguir crescer mais rapido que Leo conforme diziam minhas apostas pessoais. Se Nathalia fugiu para o Alaska, o único lugar que a deixava calma, como ela disse. Se minha irmã...iria ficar bem...
 Se Ana...iria ficar bem...
 E pela primeira vez na minha vida, eu ansiei pelo futuro.
 Mas sempre foi assim...
 Eu sempre tive a mania de ansiar por aquilo que não tinha...



-


Longe dali, uma Vampira despertava. Ela se vestia rapidamente, olhando ao redor, procurando por aquele que disse que voltaria. Ela sente o rastro de seu cheiro e o segue para fora. Era sempre o cheiro de fogo...de tanto ele usar aquela arma que ficava acorrentada a sua cintura...e de sereno...de noite tranquila...que ele insistia que pegou esse cheiro de passar tanto tempo com ela. E ela sentia esses cheiros agora..mais forte do que nunca...misturado um pouco ao cheiro de adrenalina...e morte...
E tão subitamente que ele apareceu...tão subitamente que se tornou forte...
Ele desapareceu.
Desapareceu...

Lhe deixei um presente.

Ela se lembrava de seu sussurro quando gotas negras vieram a escorrer pelo seu rosto.

Cuide dele...e você vai entender o que eu farei aqui hoje.

Ela trincou os dentes, sufocando a vontade de gritar.

La Lua...

 Ela engoliu a seco ao se lembrar de como ele o chamava toda noite em que ficavam juntos...
A Vampira fugiu...fugiu, rápida e sorrateira...enquanto múltiplos gritos demoníacos de vitoria poderiam ser ouvidos até nos confins do mundo...
 Ela tinha de viver...
Cuidar de seu presente...
Viver para entender o porque ele fez aquilo...
Ela tinha de viver...

Por ele...

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