sábado, 28 de setembro de 2013

Sussurros Em Uma Mente Imortal

 Mais um Capítulo da série: Noturnos

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 Quando eu o conheci, ele não era mais que um garoto trabalhador. A família estava pobre e morrendo de fome e ele ainda correndo, procurando trabalho. Lagrimas enchiam seus olhos e estava pronto pra aceitar qualquer coisa para acabar com aquele sofrimento. Quando Fefs o mordeu, ela disse que sentiu algo diferente...um gosto diferente. Depois de um tempo, entre conversas e encontros, eles decidiram assumir e ficaram juntos.
 Pensei: Daqui a alguns anos, o clima vai estar horrível. Mas vamos aproveitar o tempo que temos.
 Para mim, um imortal nunca fazia bodas de ouro. Nunca conheci um casal que realmente ficassem juntos para sempre. Eu sabia quem era minha mãe, mas não sabia quem era meu pai. Nem mesmo me lembro de quando nasci...
 Quando um Puro Sangue nasce, ele cria consciência no instante que sai do ventre da mãe. Ele não chora, ele não grita...ele simplesmente olha ao redor e já busca alimento. É simples...
 Minha mais antiga memória é eu com um corpo de uma criança de 6 anos, olhando para a lua, com minha mãe de um lado e minha irmã em seu colo. Olhávamos a lua e eu nem mesmo sabia o porque...só sabia que minha barriga estava cheia e que minha família estava comigo...não ia precisar de mais nada.
 - Tudo um dia fará sentido, Drake. – Ela sussurrou pra mim. – Tudo um dia estará claro pra você...entendeu?
 O nome dela é Victoria Nightcrawler.
 Na noite seguinte, ela havia sumido. Na noite seguinte a está, eu conheci Felippe e o pai dele. Felippe era também um Nightcrawler, assim como seu pai. A segunda ramificação da família, se não me engano.  Ele levou a mim a e minha irmã em seu castelo e nos “criou” até atingirmos certa idade e partirmos para nossas próprias buscas e desejos.
 Toda vez que tentava saber sobre meu pai, meu caminho e perguntas me levavam a uma decepção. A mesma coisa ao tentar saber aonde minha mãe havia ido.
 Então eu desisti e deixei rolar.
 Vi minha mãe algumas vezes e trocamos algumas palavras antes dela sumir. Bom foi o dia em que ela me deu a jaqueta de couro. Foi um presente...por eu ter sido nomeado um dos Sete. Eu nunca a deixo para trás. Posso usar a roupa que for mas, a jaqueta é o que tem que ser por cima.
 Poucas foram as vezes que ficamos juntos. Os três realmente...e agora, estou aqui...olhando as cinzas de meus irmãos mortos enquanto o Sol está lá fora...não me permitindo sair.
 Erika em algum momento entrou, viu a cena e saiu. Não sei onde ela foi, não me importo.
 Cody e eu não éramos íntimos, mas lutamos juntos. E quando amigos cerram os punhos e partem para uma batalha juntos, se tornam irmãos. A mesma coisa para Fefs. Eles eram o único casal dos Nightcrawlers e os únicos que nunca me julgaram em momento algum, mesmo depois dos meus erros. Eram as pessoas que eu gostava de ficar perto, mas evitava...ficar de vela não era meu forte.
 Se existe alguma possibilidade...alguma razão nesse e no outro mundo...eu queria realmente que os dois fossem pra um lugar melhor...
 Se até monstros podem amar...então até monstros podem ir para o paraíso.
 E sinceramente, eu queria muito que Fefs e Cody fossem para lá...para ficarem juntos e desfrutarem da paz da eternidade.
 O que me deixou sobressaltado não foi o pensamento...mas o fato de que parte de mim, realmente acreditou ser possível.
 Talvez seja...
 Então...algo pingou em mim. Bem no chão a minha frente. Foi ai que notei duas coisas...
 Primeiro, eu estava sentado no chão, as pernas dobradas e meus cotovelos se apoiando em meus joelhos. Lagrima de Prata jazia jogada ali perto e eu não liguei muito.
 A segunda coisa...foi a gota negra que havia caído no chão...bem a minha frente...embaixo do meu rosto, no meio das minhas pernas.
 Eu toquei aquilo com o indicador e o dedo médio e a consistência era fraca. Era totalmente liquido e negro como a noite mais escura. Parecia nosso sangue, porém, sem a consistência viscosa...e nosso sangue, quando se “espalhava”, tons escarlates podiam ter vistos. Esse não...era incrivelmente negro que reluzia. Fui capaz de ver meu reflexo naquilo quando uma leve gota escorreu pelo meu dedo...
 Meu reflexo...
 Meu reflexo?
 A imagem da minha pessoa não era algo que me interessava. Eu já havia visto com pinturas e artes mas...como eu poderia ter reflexo?  Isso era...
 Algo de incomum estava ali. Algo...em meus olhos. Em ambos...
 Eu passei minhas mãos no meu rosto e ambas voltaram com o mesmo liquido negro...
 Eu só ouvi historias, mas nunca presenciei. Ouvi historias de flores negras de um cemitério na Alemanha onde rosas negras crescem por causa da mesma coisa.
 Lagrimas de Vampiro.
 Noite Úmida...era o que muitos chamavam aquilo.
 - Eu nunca vi um Vampiro chorar. – A voz de Erika veio atrás de mim. Ela estava perto da porta, mas eu não olhei para ela.
 - E não deveria ter visto... – Eu respondi a ela. Ela suspirou.
 - Você os amava, Drake? – E a pergunta dela foi afiada como os caninos em minha boca. E a resposta veio clara, limpa e simples.
 - Eu AINDA os amo. – Eu olhei para as formas de cinzas ali. E eu percebi. Eu juntei as peças e finalmente consegui descobrir tudo que havia para ser dito e feito.
 Eu os amava.
 Isabelle, Fefs, Cody, Luana, Felippe, Camila, Eduardo, Leonardo, Samy...minha mãe...eu os amava. O pensamento de ter tal sentimento era tão impossível que eu não poderia pensar que isso poderia existir dentro de mim. Sou uma criatura da noite. Um monstro destinado ao inferno e a tormenta das pessoas. Como um ser como eu poderia sentir tal sentimento que muitos julgavam como puro? Talvez...talvez porque o amor também seria um sentimento impuro...afinal, não é por causa do amor que as pessoas logo se levam a tristeza? Ao ódio? Ao ciúmes, a solidão? Que gera intrigas, brigas...mortes? O amor no final das contas era uma espada de dois gumes...que ao mesmo tempo que era um sentimento dos mais puros, era um sentimento que também trazia a mais puro e refinada angustia...
 Isso explica porque fui só capaz de senti-lo agora...quando perdi dois pedaços de mim.
 Cody não poderá ser substituído.
 Fefs não poderá ser substituída.
 Era como se meus dois braços tivessem sidos arrancados. A família, o conjunto, tudo...agora estava incompleto e ficaria assim...pra sempre.
 Percebi que mais Noites Úmidas caíram até o chão e eu não me importei. Eu trinquei os dentes...e meus olhos chegaram até o coração de cinzas que permanecia inteiro graças a força vital de Cody.
 Era como se eu pudesse ver a cena. Fefs entrando, Cody logo atrás, tirando a jaqueta, jogando no sofá, Fefs indo até o quarto com algumas malas. Cody com certeza pensou em tirar a roupa na sala e segui-la, lhe fazer uma surpresa...e então o som dos invasores vieram. Eles conseguiram abrir a porta...de alguma forma...e entraram aos montes. Tudo foi destruído, mas os dois resistiram...lutaram...mataram mais do que eles podiam imaginar até que, finalmente...um golpe certeiro fez Fefs ficar no chão. Cody com certeza explodiu de fúria...esmagou mais crânios, cortou mais cabeças, matou...matou...até que foi ferido e continuou matando...e acabou com todos ali. Por fim...se arrastou até o corpo mais próximo...e antes que virasse cinzas lhe arrancou o coração e fez de tudo para manter ele ali...se arrastou de novo...trouxe Fefs com ele...lhe segurou a mão e não tirou os olhos dela...até que ela se desfez em cinzas bem na sua frente...deixando ele sozinho...na esperança de que alguém viria ajuda-lo. Cura-lo. Livra-lo daquela solidão...
 - Farei uma coleção. – Eu falei a mim mesmo. – Colecionarei seus corações. Abrirei seus corpos e tirarei tudo deles. Os manterei inteiros como Cody manteve esse. Os colocarei como prêmios aqui em memoria a eles. – Eu trinquei meus dentes...mais lagrimas caíram. – Eu vou fazer...cada um deles pagar...vou abrir um rombo no mundo...do mesmo tamanho que abriram na minha família.
 Eu estava com o orgulho ferido. Estava me sentindo sozinho. Estava me sentindo perdido. O sol não ia embora de jeito nenhum e minha família estava lá fora...em algum lugar...e eu tinha que acha-los, ajuda-los...
 Vingue-nos...
 A voz de Cody soou em meus ouvidos...aquele sussurro ficaria em minha mente pela eternidade.
 Eu ainda não havia farejado o coração...com certeza estaria fresco o rastro...eu correria sem pensar duas vezes e viraria cinzas assim que o primeiro raio de sol me tocasse.
 - Drake...você vai precisar de ajuda. – Erika me disse, prevendo o que eu iria fazer.
 - Eu sei. – Eu respondi e voltei ao meu mártir particular.
 Eu fiquei ali...esperando...olhando...Erika continuou ali, próxima a porta, me olhando...vigiando.
 O Sol estava indo embora...já estava quase indo embora...faltava pouco...era 17:30.
 Não pensei em mais nada...eu só olhava para as duas formas de cinzas a minha frente...a forma de duas pessoas de mãos dadas...
 Um relâmpago cruzou os céus quando se deu 18:00. Já estava ficando escuro. Finalmente...


 Eu me levantei. De súbito, puxei a corrente, peguei Lagrima de Prata e coloquei de volta no coldre. Segurei o tal coração. Apesar da coloração cinza e coberto com o sangue viscoso de nossa raça, estava inteiro...forte...poderia aperta-lo se quiser. Coloquei meu nariz perto dele e deixei meus instintos e corpo fazerem o trabalho quando inspirei.
 Senti o cheiro de sangue. Do mar. Terra. Laranjeiras. Ébano. Do mar...do mar...de Jasmine...Jasmine...
 O choque percorreu meu corpo quando descobri quem eram.
 Redsons...
 A família de Thiago havia feito aquilo...
 - Drake? – Erika tentou falar comigo. Eu me agachei calmamente e deixei o coração no chão. Ele ficaria ali até eu voltar. Eu ia reformar tudo, colocar tudo de pé e fazer com que a casa até ficasse maior...
 Eu me virei e encarei os olhos desafortunados de Erika. Ela sabia o que ia acontecer...
 Ela me viu chorar. Ela me viu em um momento de fraqueza. Ela com certeza não iria contar a ninguém...
 Eu não podia arriscar, podia?
 Antes que ela pudesse fazer qualquer coisa, eu corri, rompendo a barreira do som. Antes que ela pudesse falar qualquer coisa, meu indicador e polegar entraram sem sua boca, abrindo caminho pelos lábios e dentes. Foram até sua garganta, o mais fundo que podia sem que a matassem ainda...e puxei a maior extensão da língua que podia.
 Não importa o quão forte seja uma Bruxa, ela sempre vai precisar dizer as palavras para fazer magias de autodefesa e conjuração. Basicamente...sem palavras, sem poder.
 Enquanto o sangue a engasgava e ela tentava gritar, eu a espremi contra a parede, segurando seu pescoço e a levantando. Enterrei meu caninos em seu pescoço e suguei aquele...mel vermelho em suas veias. Antes que acabasse, arranquei um naco do seu pescoço do tamanho da minha mandíbula e deixei que o sangue dela caísse em mim...em meu rosto, em minhas roupas. Em poucos minutos, Erika era só uma casca de ser...e eu a deixei cair ali.
 Ela ainda poderia ser útil...ela ainda poderia me ajudar, poderia me deixar compartilhar sua cama mais algumas vezes...e eu de certa forma, gostava de sua presença, gostava de como ela ficava comigo.
 Mas o meu Orgulho estava seguro e intacto agora, a salvo de qualquer forma de calunia que ele poderia ter.
 A escuridão finalmente reinava lá fora. Uma chuva pesada caia quando tranquei a porta e subi as escadas, depois, fechando a passagem. Chegando ao topo, deixei que a chuva caísse em mim como uma benção, podendo por fim lavar as Noites Úmidas em minha face. Era quase tão bom quanto o Lago da Babilônia...mas eu não tinha tempo para aquilo.
 Vingue-nos...
 E em meio a chuva, minhas pernas, músculos e ossos começaram a trabalhar em conjunto, me fazendo correr mais do que qualquer ser seria capaz.
 Vingue-nos...

 - Eu irei.

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