segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Reinado Sombrio - Guerra (Pt.34)

 Os pingos faziam as poças balançarem com pequenas ondas graciosas. Por alguma razão eu preferi prestar a atenção nelas do que em qualquer outra coisa. A chuva caia rápida e fina. Era aquele tipo de “chuva depois do sereno”, que era mais fácil de mandar um resfriado pra todo mundo. Eu com certeza já estava contaminado. Mas antes um enfermo do que um Morto.
 Eles caminhavam ainda na chuva, na escuridão da noite como sempre faziam, de um lado para o outro, com seus olhos totalmente brancos focados em nada. Eles poderiam me ver a qualquer hora, mesmo que eu estivesse com o capuz cobrindo todo o rosto e com roupas negras para me misturar com a escuridão particular do beco em que me encontrava, bem próxima à entrada do túnel que levaria ao Ninho de Vermes.
 Raul disse que estaria ali pelas 20:00 e já eram 19:58. Não sei porque mas, eu sentia que ele não era um homem de se atrasar, ainda mais para algo daquela magnitude. Ele queria tomar o Complexo para si e depois, ir até o Ipiranga, para depois o Porto de Santos para depois ir para a segurança de uma ilha não mapeada para escapar dos Mortos que andavam agora ao meu redor.
 Eu tava nervoso pra caralho.
 Ele tinha meus amigos como refém, e eu não sabia se ia trazer com ele ou deixar no complexo subterrâneo deles embaixo da mecânica do Espanhol, antigo amigo meu. Eles teriam de trazer, era lógico...tomar tudo, pegar tudo e ir para os campos Elíseos, certo? Mas fazer o que? Esses militares me davam nojo.
 - To notando movimento ao norte, amigão. Faróis fracos. – O comunicador da minha orelha esquerda transmitia as palavras de Douglas, que estava com uma Sniper no prédio a minha esquerda. O outro comunicador, mais discreto, estava na direita, era o dos soldados. Não pensei em chama-los nenhuma vez, somente esperar.
 Estava tudo planejado e tudo ia começar logo. O meu taco de Basebol estava nas minhas costas, uma faca nas botas que usava e uma .40 nas minhas mãos. E eu não me sentia nem um pouco poderoso.
 William, mantenha o foco. Mantenha o foco...
 Eu falava pra mim mesmo. Fechei os olhos. Procurei pensar em tudo...organizei os rostos em minha mente.
 Bruna, Leticia, Thai, Henrique, Alice, Isabelle, Oliver...Aline...
 Aline...
 - Senhor William? – O chamado na minha orelha direita me fez acordar. Uma súbita adrenalina dominou meu corpo me fazendo ficar de pé. Coloquei o dedo no comunicador e respondi.
 - Pois não?
 - Sua posição. – Raul estava com a voz séria, mais do que de costume. Acho que até um superior fica tenso em uma missão.
 - Estou a quinze metros da entrada. Estão todos dormindo e os únicos guardas estão “fora de serviço”.
 - Poderia repetir essa informação? – Raul perguntou, com duvida real em sua voz.
 - Eu matei os guardas. O caminho está livre para você. Quer que eu desenhe? – E então um certo silencio veio...e três carros enormes e negros vieram o mais silenciosamente possível para a rua em que eu estava. Estavam a 20 metros a minha esquerda. Dele, dois soldados saíram. Ambos com o uniforma do exércitos brasileiro...manejando fuzis com silenciadores. Em poucos segundos, eles fecharam a rua com os blindados e com tiros silenciosos, fizeram cada morto ali cair com tiros na cabeça, como se cortassem as cordinhas de uma marionete.
 Me levantei, tirei o capuz e abri os braços. Eles apontaram suas armas para mim e por um segundo, pensei que fosse mesmo meu fim...até que eles me reconheceram e abaixaram as armas.
 - Venha até aqui. – A voz de Raul no comunicador de novo. Eu corri até eles, diminuindo o ritmo dos passos quando cheguei mais perto. Os soldados eram enormes de perto. O da minha direita gesticulou com a cabeça e me mostrou a traseira do blindado, aberta.
 Corri até lá...
 A visão foi quase perfeita.
 Bruna estava com uma jaqueta meio fofa, com um capuz cobrindo seu rosto. Nunca disse isso mas, Bruna era linda e nunca me pareceu isso tanto quanto naquele momento. Henrique estava com sua toca e suas mesmas roupas de antes, porém limpas a ponto de eu sentir um cheiro de lavanda da onde eu estava. Letícia estava com o cabelo ligeiramente maior e com roupas mais escuras. Seu rosto estava com um leve arranhado na boxexa esquerda que me fez querer dar porrada em todo mundo. Thai não tinha mais luzes nos cabelos, que agora estavam totalmente negros como os meus. Seu rosto também tinha uma marca, mais discreta, me fez querer mais guerra...mas eu esqueci tudo isso quando todos vieram e me abraçaram.
 - Caralho, vocês estão bem?! – Eu perguntei. Eles não responderam. Bruna soltou um leve gemido, mostrando que ia chorar e eu também senti lagrimas querendo escapar dos meus olhos. Meus amigos estavam bem...estavam bem...
 - Senhor William. – Abri os olhos e vi a sombra do homem que fazia com que a cena fosse imperfeita. Raul tinha agora um boné virado para trás e a barba de seu rosto estava mais espessa do que me lembrava. – Como prometido...ai está seus amigos.
 - E como prometido, ai está sua entrada. – Eu me levantei, saindo um pouco dos abraços. – Eu vou colocar vocês lá dentro...e depois é por conta de vocês, ok?
 - Não. – Thai foi a primeira a dizer, segurando meu colarinho. – Não pode...você já fez demais.
 - Deixa ele descansar. – Henrique disse, olhando para Raul.
 - Negativo. – O mesmo disse, com a voz fria e ríspida.
 - Ele vai precisar de mim. – Eu disse, saindo dos abraços.
 - William, paro, velho...para com isso. – Letícia disse, olhando diretamente pra mim.
 - O que aconteceu com seu rosto? – Eu perguntei. Ela respirou fundo e fechou os olhos.
 - Orlando... – ela tentou falar. – Ele...
  - Deixa pra depois. – Raul disse, porém, eu já sabia e já havia entendido. Raul os separou de mim e por fim, começou a dizer. – Você vai me colocar lá dentro, como você mesmo disse. Qual a situação geral?
 - Todo estão dormindo. Os corpos dos guardas ainda estão de pé graças a arame farpado. Ninguém vai notar de suas botas forem silenciosas.
 - Então tá tudo bem. – Raul respondeu, saindo do carro. Olhei para meus amigos novamente...especialmente para Bruna, cuja cara de choro era insuportavelmente corrosiva.
 - Eu volto. Só vão ter que esperar mais um pouco. – E dei as costas a eles rapidamente...e deixei que a chuva molhasse meu rosto para disfarçar as poucas lagrimas que caíram sem querer. Os dois soldados que me viram, ainda montava guarda, mas, não tinha mais nada pra se preocupar.
 Ainda não.
 - Matias, Olívio, você dois vão montar guarda. – E depois olhou pra mim. – E você? Está pronto?
 Engatilhei a .40 e dei dois tapas no meu bastão nas costas. Raul esboçou um sorriso.
 - Ótimo. – Ele colocou o dedo na orelha e disse. – Ok...vamos lá... – E então, as portas dos blindados se abriram. Dos dois, desceram soldados e mais soldados, todos com fuzis M16 na mão, com scope e silenciador, em uma ordem que até me fez sentir no filme S.W.A.T.. E poucos segundos, a rua estava lotada com trinta homens uniformizados, armados e prontos para o combate. Eu me forcei um sorriso...e Raul pareceu engolir.
 - Feliz? – Ele perguntou. Concordei.
 - É...menos um problema pra me preocupar. – Eu respirei e olhei para ele. – Vamos?
 - Lidere o caminho. Senhor William. – Olhei bem a comitiva e tudo mais. Eu não era burro, sabia que podia ter mais soldados ali e aqui e pronto pra botar pra foder caso alguma coisa desse errado.
 Estava tudo planejado. Tudo no esquema.
 Mas ainda assim, a insegurança batia. Meus amigos dentro do carro, outros amigos dentro do complexo. Tudo isso entraria em choque assim que eu desse o sinal.
 - Por aqui. – Eu me limitei a responder. Caminhei até a guia mais próxima e comecei a caminhar próximo a parede...Raul me seguiu, com seu fuzil abaixado e seus soldados os seguindo, formando uma fila de duplas. Quanto mais próximos chegávamos ao túnel, mais rápido meu coração tentava quebrar minha caixa torácica. Quando chegamos na boca do túnel, Raul me deu um cutucão nas costas.
 - Qual é a do túnel? – Ele perguntou.
 - Os Mortos quando entram nisso, se atrapalham, ficam presos na entrada pelo tamanho do grupo que se movem. Ele se estende um pouco, até uma porta de aço. Dessa porta de aço, vai ter a abertura e poderemos ficar de pé. Depois, só mais um portão e finalmente estamos dentro. O arsenal fica lá no final do complexo. Com tudo no esquema, eu abro o cofre pra você enquanto seus homens encerram o serviço lá dentro. – Eu olhei nos olhos dele...esperando uma reação que não veio. – Eai, tá fácil pra você ou tá querendo mais? – Eu perguntei. Ele deu um sorriso.
 - Ótimo plano, Senhor William. – Ele deu uma leve risada. – Talvez façamos alguns ajustes quando entrarmos mas, por hora, está bom. Vamos.
 Me virei e continuei andando, tirando o capuz quando entrei no túnel. Meus pés tocaram nas cinzas e na carne enegrecida que ainda havia ali e o cheiro me encheu como nunca e continuei andando.
 - Puta que pariu... – Um soldado reclamou lá atrás.
 - Parece que andou fazendo muita coisa, Senhor William. – Raul me disse, com o fuzil ainda baixo.
 - Nem faz ideia. – Eu dei um leve riso nervoso. – Não tem noção do que se pode acontecer em 24 horas.
 - Ah, eu tenho... – Raul respondeu. – Acredite, eu tenho sim... – E engoli a seco. Raul parecia um soldado experientes. Com certeza trabalhou nas fronteiras, aposto também que teve que lutar com mais coisas do que se pode contar. Mas isso não mudava o fato dele ter capturado meus amigos...e recebimento de perdão perante isso, era inconcebível.
 Por fim chegamos aquela porta de metal redonda. A toquei a rangeu um pouco quando a abri. Fiz o melhor teatro de cara feia que pude e fiz sinal para esperarem. O som das botas se cessaram e olhei para dentro “me certificando de que ninguém tinha ouvido”.
 - Ok, vamos... – E continuamos andando. Quando sai do túnel, fiquei de pé e olhei para cima...e estava tudo como combinado. Até senti um leve embrulho no estomago...estava tudo perfeito até demais.
 - Uau... – Uma mulher entre os soldados disse, olhando para a cena. Três seguranças estavam de pé, ali...amarrados com arames farpados nos pescoços e cinturas e fitas adesivas nas mãos, segurando suas armas para que parecessem manter a posição.
 - Mandou bem, Senhor William. – Raul disse e pude ver a satisfação em seus olhos.
 - É, eu sei. – Eu suspirei e comecei a sussurrar. – Bem...aqui fica um pouquinho complicado. Depende do que vocês querem fazer. – Eu disse e olhei para todos ali. O pequeno espaço mal comportava todos os soldados. Raul por fim perguntou o que eu queria ouvir.
 - Explique a situação.
 - Shhhhhhhhhhh! – Eu fiz para ele, que fez uma cara de bunda que quase me fez rir, mas gesticulei que era para manter o som de voz baixa.
 - A partir daqui, começam as casas. – comecei a sussurrar novamente. - Depois de três residências simples, começam onde as pessoas ficam. Estão todos dormindo. Ai depende do que querem. Querem fazê-las refém ou...vocês sabem.
 - Daremos um jeito. – Raul respondeu, engatilhando a arma. Porem quando ia me virar e abrir o portão, ele perguntou... – E estão dormindo?
 - Sim. – Eu respondi.
 - E porque?  - Eu sabia que uma hora ou outra, eles iam fazer aquela pergunta. Depois do surto, provavelmente todo mundo optou por hábitos noturnos, já que de dia os Mortos ficam mais agitados e mortíferos. Mas eu já estava preparado.
 - Os hábitos aqui estão de acordo com o cotidiano antigo. Mudou muita coisa aqui, sabia? Pelo visto seus amigos criaram tanta confusão de madrugada que fizeram o pessoal temer a noite também. Ao menos de dia, sabemos quando estão perto ou longe. E alias... – eu engoli a seco. – as noites andaram meio silenciosas ultimamente.
 Uma sombra de preocupação passou pelo rosto de Raul de uma forma tão profunda que eu pude perceber inteiramente. Ele suspirou nervosamente e gesticulou com o fuzil.
 - Abra a porta, Senhor William...vamos logo resolver isso.
 É agora.
 Abri o portão de ferro, que não fez nenhum rangido. Abri só o suficiente para dois soldados passar um atrás do outro. E ali estava a porta acima, onde levaria para os armários de armas e mais para trás a sala de tortura. A escada de metal que levaria para lá dentro não estava mais ali. Assim que saímos todos do outro lado...veio a primeira falha do plano.
 - Ok Senhor, William. – Raul colocou a mão no meu ombro esquerdo e me deu um puxão que me fez dar dois passos para trás. - Vai ficar bem do meu lado. Caminharemos e não precisa puxar nenhum gatilho. Você só precisa me acompanhar.
 - Não gosto de você. – Eu disse em alto e bom som. – Por que andaria do seu lado? – Eu perguntei. Olhares vieram a mim e a face rubra de Raul também.
 - Porque isto é uma ordem! – Ele disse, praticamente rosnando. – E eu não estou acostumado a ser questionado! – Aposto que não está acostumado a ser morto também, não é? Essa era minha resposta...mas me contive. Eu respirei fundo e olhei para trás, para todos aqueles soldados e tentei perder meu olhar, como se pensasse em Bruna e nos outros...então voltei a olhar para frente e resmunguei.
 - Então vamos logo... – E com um resmungo começamos a andar. Passamos a primeira casa e meu coração ameaçou de parar. E então, eu respirei fundo...pensei em tudo localizado em meu corpo, como estavam as coisas lá fora e como o plano estava em desenvolvimento...e percebi que não tinha tempo para desespero...muitos iam precisar de mim.
 E então, estávamos na terceira casa.
 Foi tudo muito rápido.
 Ambas as casas em terceiro em ambas as fileiras para isso, nos deixamos com a porta e a janelas frágeis para ficar fácil de quebrar. Eu deveria pular sozinho para dentro da sala quando tudo aconteceu...mas eu pensei melhor.
 Eu tinha que resolver um papo pessoal.
 Eu saltei em cima de Raul com tudo, segurando seu pescoço e o jogando em cima da porta e consequentemente dentro do quarto quando ouvi o primeiro tiro. Douglas estava em cima de um dos prédios e abriu fogo com a Sniper nos soldados que guardavam os blindados. Eu cai com Raul no chão de concreto e apertei a cara dele no mesmo entre as lascas de madeira da porta falsa enquanto mais tiros e sons de granadas começaram a vir.
Mas ele era um capitão...um soldado treinado. Seus reflexo foi mais rápido do que pensei.
 Com uma mão só, ele segurou seu fuzil e deu uma coronhada na minha cabeça que quase vi passarinhos cantando. Ele ia dar de novo...mas soltei seu pescoço e defendi, atingindo o braço dele com tudo. Ele soltou o fuzil e me empurrou, com as duas mãos. O tiroteio comia solto lá fora enquanto eu caia no chão e me reerguia, já pegando minha faca dentro do casaco. Em algum momento eu perdi a .40, não sei quando.
 Raul sacou uma faca também...maior que a minha e rugiu.
 - FILHO DE UMA PUTA! – E se levantou, deixando seu boné para trás. Eu fiquei puto...ninguém tinha o direito de falar da minha mãe...
 Ele veio com tudo, com a faca baixa, pra dar um golpe direito. Cruzei os pulsos e segurei o braço do mesmo e antes que ele pudesse ter mais alguma reação, os descruzei rapidamente e cortei bem fundo ali. A minha faca era menor, mas ao menos era bem amolada, fazendo com que a mão dele ficasse a meio pulso de cair.
 - CARALHO! – Ele rosnou e tentou me dar um chute com a sola da bota para me jogar lá fora, onde mais tiros e gritos eram dados. Eu desviei para a direita e cravei a faca na coxa dele. Mais um grito e o imbecil jogou a cabeça para trás. Eu tirei a faca em um puxão e eu ia finalizado...cravar a faca na garganta dele e torcê-la, depois rasgar a traqueia dele e ai...
 BOOM!
 Alguma coisa explodiu. Alguma coisa bem forte. Me jogou para longe, contra o teto e depois a parede e por fim, o chão. O zumbido no meu ouvido só não era maior da dor que senti no meu antebraço esquerdo. Eu podia sentir...a faca de alguma forma tinha entrado ali e varado ainda por cima.
 A minha visão era turva e os sons ao meu redor mais ainda. Distingui gritos de socorro...e dentre eles, distingui a voz de Lucio....de Alice...de Bruna?
 O desespero tomou conta de mim. Eu precisava levantar...eu precisava...
 - Cuidei deles... – Ouvi a voz rouca logo antes de ouvir o gatilho de uma arma. Não sabia onde a minha .40 havia ido...mas Raul a havia achado e estava apontando pra mim. – Cuidei dos seus amigos de merda...cuidei deles...e você me fode desse jeito...
 - Você os sequestrou... – consegui dizer, sentindo a saliva fina se formar na minha boca. – Usou eles pra me ameaçar...
 - Era preciso... – ele disse. – Não tinha opção...
 - Vai se foder... – Eu disse, antes de me levantar um pouco e vomitar tudo que tinha dentro do estomago. Recebi um chute na cara que fez minha cabeça bater com violência na parede...só piorando meu estado.
 - SEU MERDA! – Outro chute. – VAI SE FODER VOCÊ! – Mais um chute, esse na boca do estomago. – EU FUI EXILADO! DESHONRADO! EU SALVEI TANTA GENTE E DESRESPEITEI UMA ORDEM E ELES ME JOGAM PRA FORA DA BASE! – Agora um pisão, bem no meu pescoço. – VOCÊ NÃO SABE O QUE É NÃO TER PRA ONDE IR! E AI, EU TINHA TUDO AQUI...TUDO...ESSES CARAS ERAM ORGANIZADOS...EU PRECISAVA DELES...E ELES ME NEGARAM! – Mais um chute. – NINGUÉM NEGA NADA A MIM! – Mais um – NINGUÉM ME DEIXA PRA TRÁS. – Mais um. – NINGUÉM ME... – E então...tudo ficou negro. Tudo. Senti então uma leve coceira no peito...senti gosto de sangue na boca...e senti todas as minhas memórias voltando.
 A morte da minha mãe, eu deixando os Renegados, eu trabalhando naquele emprego de merda...
 E quando eu abri os olhos...me senti como me sentia a mais ou menos um ano atrás.
 Agora eu era o Coelho.
 Rolei para a direita, seu pé acertou o chão. Nunca poderia ter feito aquilo se não fosse aqueles 5 minutos de insanidade que tive. Arranquei a faca de mim em um puxão e cravei em seu pé. Ele gritou, apontou e disparou. Rolei mais uma vez, escapando por pouco dos tiros e me levantei em um salto. Outro tiro, pegando agora de raspão no meu rosto. Mas eu consegui...
 A mão em que ele segurava a arma era a esquerda, porém, a coxa esquerda dele era a que eu havia acertado...não se pode atirar com a esquerda e se apoiar com a direita, isso causa um desequilíbrio enorme, não podendo atirar direito. Mas eu estava bem de certa forma...bem para pode fazer aquilo.
 Tirei a arma dele do caminho e dei uma cabeça com tudo em seu nariz. Ele caiu no chão, soltando a arma.
 A peguei rapidamente, apontei para ele...e disparei. Uma...duas...três...quatro vezes em seu tronco.
 Comecei a respirar fundo. O sangue ainda quente fazia o ferimento sangrar ainda mais e podia sentir o raspão da bala na minha bochecha fazer a mesma coisa. Mas o que me interessava era Raul...ele estava ali, não conseguindo nem gritar...mas ele começara a chorar.
 Eu sorri.


 - Não...não, eu quero viver...eu...
 - Raul... – Eu disse, chamando a atenção dele. Ele me olhou nos olhos. – Obrigado por cuidar dos meus amigos. Se não fosse por isso eu não teria achado o Complexo...aprendido mais sobre esse mundo e reatado as pazes com um grande amigo meu. – Sorri mais ainda. – Então, agora, por favor...vai pra puta que te pariu.
 Ele tentou dizer algo, mas eu não ouvi.

 Eu apertei o gatilho.

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