segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Chuva

 Mais um Capítulo da série: Noturnos

✝ ✝ ✝ ✝ ✝ ✝ 

 Uma vez, em Halfet, na Turquia, um Vampiro conheceu uma humana. O mesmo foi toma-la para si, se alimentar. Porém, por algum motivo que não sei dizer, ele se apaixonou por ela. Se apaixonou por sua fragilidade, por seu coração pulsante. Acabou que ele a seduziu e ambos se amaram. Se amaram e começaram a viver juntos. Porém, o Vampiro em questão não a transformou, apesar de tantos pedidos dela. Ele sentia que se ela deixasse de ser aquela criatura delicada, ela seria somente mais uma imortal rude sem valor algum. Um dia ele a transformaria, mas não naquele tempo. Porém, a jovem saiu do castelo em que viviam e foi atropelada por uma carroça dirigida por um bêbado qualquer, que encontrou seu fim da pior maneira possível. Por fim, a garota foi enterrada...e o Vampiro, sozinho. Ao aceitar a humana, ele se desprendeu da família, deixando seu orgulho para trás. Isso não fez com que a garota voltasse a vida. Ele visitava seu tumulo todas as noites e chorava...Noites úmidas regaram o solo daquele lugar e Rosas Negras nascem lá até hoje.
 Comovente para muitos...mas para mim é um exemplo.
 Ninguém lembra do nome do Vampiro. Ninguém lembra de suas batalhas. Ninguém lembra de quem ele era, quem foi, como foi, quem o fez daquela forma. Ninguém lembra de quantos ele matou e quantos litros de sangue ele podia beber em uma noite.
 Todos só se lembram do enorme imbecil que ele era por renegar sua natureza e ficar sozinho com algo frágil como uma humana. Todos só lembram da sua fraqueza e da forma como depositou seus sentimentos nos lugares errados. E todos só lembram que ele inspirou aquela vagabunda a escrever Crepúsculo.
 Foi por isso que matei Erika. Foi por isso que arranquei sua língua e me banhei com seu sangue. Foi por isso...que eu não deixei que ela espalhasse meu momento de fraqueza.
 Meu Orgulho é o Orgulho da família. E ninguém ia difamar meu nome. Ninguém.
 E por algum motivo, depois de concluir esse pensamento...eu comecei a pensar...em Ana...
 Ana Nightchild...
 A mulher que fez com que Renata pirasse de vez.
 Acho que vou precisar revirar mais memórias dessa vez...mas tudo bem.
 Como eu disse...depois de 48 anos com Renata, eu me cansei. Muito dominadora, grudada, impaciente...não gostava mais dela, não da mesma forma que antes. E então, conheci Ana...e Ana quis me conhecer. Conversamos durante aquela noite. Eu dei a desculpa de que ia caçar para poder pensar um pouco e escolher as palavras com cuidado que ia falar para Renata e, claro, me alimentar bem...você não pode vacilar com uma Bruxa, ainda mais uma Bruxa Imortal. No meio dessa caçada, eu conheci Ana e caçamos juntos aquela noite...e dormimos juntos também. Senti algo especial nela, não sei o que era realmente...mas senti que não estava afim de sair do lado dela por um tempo e passei o dia seguinte junto a ela no escuro do seu apartamento. Na noite seguinte, Renata veio a minha procura...e eu falei com ela. Mas omiti a parte de ter achado outro alguém. Não tinha nada sério com Ana, nunca tive realmente...mas basta nós dois ficarmos sozinhos para que aconteça.
 Renata não reagiu bem...ficou ruim, gritou, tava na cara que queria brigar...mas por fim, ela se afastou. E eu continuei minha vida como tinha que ser...até que duas noites depois, ela aparece...me dizendo que eu deveria ir com ela...ver o que ela tinha pra me mostrar...
 Eu fui...e eu vi...que transformar a Renata havia sido um erro.
 Ela tinha planos...planos de fazer com que um hibrido nascesse. Ela me pediu ajuda...ela disse que iria tentar achar um macho da raça Licantropo e uma fêmea também que pudessem topar. Ela disse que tinha suspeitas de quem poderia ser...
 Fingi aceitar. Engoli meu orgulho e fui até o Conselho...lhes contei a historia...fui julgado, quase perdi meu posto entre os Sete, mas Lagrima de Prata não se soltou a mim quando a puxaram. E foi ai...que me deram a tarefa de encerrar o caso. De matar Renata. Botar um fim naquela loucura...
 Mas acontece que Renata já havia feito amigos. E criado alguns...
 Necromancia é a Arte dos Mortos, onde se é capaz de chamar espíritos e levantar corpos ao seu comando. Obviamente, Vampiros era impossível de se fazer isso, graças ao fato de nos tornamos cinzas quando morremos...mas Venáns e Lobisomens podem...e como podem.
 Quando eu apareci para mata-la, eu não pensei que ia ficar três dias...tentando sair daquele prédio. Todas as pessoas mortas, todas levantadas de novo com aquele brilho roxo em seus olhos e um bando de Licantropos também...foi um inferno. Quando eu sai de lá, o caos já estava instaurado. O Conselho tomou a atitude de Renata como Ato de Guerra e começamos a tomar as devidas providencias...
 Lutamos. Lutamos muito, nesse mundo e no outro. Por fim...acabamos que era eu e Renata...e eu a matei, depois de uma boa briga...
 Joguei seu corpo as Chamas do Tártaro até que ela virasse pó...e eu e Ana ficamos ali...bem em cima de suas cinzas...e eu nunca tive uma noite tão prazerosa.
 É uma historia longa e complicada...um dia contarei com mais calma e detalhadamente.
 Por honra e pelo esforço que fiz, fui perdoado de minha sentença. Demorou algum tempo para que eu silenciasse boatos e aqueles que sussurravam as minhas costas, mas eu consegui fazer com que minha reputação e de minha família ficasse intacta.
 Até agora...
 Renata estava viva, o Conselho de repente, parece outro...tudo, TUDO estava fora do lugar...
 Mas eu ia resolver isso...eu ia concertar tudo novamente...
 A chuva ainda caia, me fazendo ficar encharcado. Eu nunca entendi realmente porque a água da chuva cai em nós e não causa nenhum mal...mas uma vez tentarão explicar que a água da chuva não pertence nem a Terra ou o Céu e que está divida...logo, não tem a benção de nenhum dos dois. Explicação fraca pra mim mas, o que importa é que está água não impede que eu corra até o Conselho.
 E novamente, me vi pensando em Ana...por algum motivo...
 Nunca tivemos nada sério mas, senti a necessidade naquele momento...senti mesmo...do nada... Me lembrei do seu cheiro...suave de forma que você se encanta e busca por mais...pela fonte. Cheiro de Rosas...de incenso...de noite...de...
 Não, pera, eu to mesmo sentindo cheiro de rosas, incenso e noite agora, caralho!
 Mesmo no meio da chuva, eu podia sentir...suave...me fazendo querer achar a fonte...
 Ana estava por ali? O que aconteceu? Por que se separou de Felippe e dos outros?
 Eu estava na AV. Dr. Ricardo Jafet, eu iria chegar lá em pouco tempo...mas o cheiro ia me fazer dobrar o caminho e ir até a praça Fagundes de Almeida...
 Se não fosse Ana...eu não iria. Mas no caso...é ela.
 - Merda... – Rosnei entre os dentes e desviei meu caminho, saltando de três carros de uma vez só. Continuei correndo...até que fui capaz de ouvir vozes...sussurros.
 - Aguentem ai...ninguém vai morrer até eu me satisfazer aqui!
 - Você é sempre o primeiro, seu merda...toda merda de vez!
 - Foda-se vocês, chupem o pau um do outro e... – Eu disparei. Eu corri tanto que mal podia ouvir as coisas ao meu redor. Eu abri buracos no concreto e na Terra a cada passo da corrida que eu dava. Senti as gotas se desfazendo em meu corpo antes mesmo que alcançassem o chão. Corri mais ainda...e por fim, depois de algumas arvores, eu vi...
 Ana estava caída, um pouco ferida, mas rodeada de Vampiros...rodeada de muitos deles. Todos a comiam com os olhos...ainda mais quando ela estava sem nada da cintura pra cima. Ela cobria os seios cruzando os braços e olhava pronta pra atacar a cada um deles...mas um já estava avançando...ele ia tentar pega-la...ia tentar viola-la.
 Não mesmo...
 Eu desviei por todos que estavam no caminho. Finalmente cheguei naquele que ia tentar encostar nela. Minha mão segurou sua nuca e cravei meus dedos em seu pescoço. Enfiei sua cara no solo de forma que fez uma pequena cratera abrir ali. Poeira e terra se levantou...e um corpo se transformava em cinzas enquanto eu levantava. Um trovão ecoou pelos céus e eu pude ver pela cara dela que ela realmente achou que era o fim.
 - Eae... – eu disse, sorrindo. Ela sorriu de volta...
 - DRAKE?! MAS COMO... – Olhei para trás quando ouvi meu nome. Saquei Lagrima de Prata e disparei na cabeça do sujeito. Bingo...uma explosão de cinzas se deu no seu lugar...


 - Eu lhe autorizei a usar o meu nome? – Eu disse a todos os presentes.
 Lagrima de Prata então vibrou. Seus adornos cintilaram uma leve luz prateada. Ou seja, ela reagiu...eu realmente matei um inimigo dessa vez.
 Me virei novamente para ver Ana. Ela estava toda molhada graças a chuva. Seus longos cabelos meio colados ao corpo e seus olhos eram o mais puro rubro. Seu corpo seminu estava ali, enrijecido, esperando uma batalha...mas o que ela recebeu foi minha jaqueta em suas costas.
 - Cubra-se. – Eu disse a ela. – Não quero que eles te vejam assim.
 - Drake... – Ela colocou as duas mãos no meu rosto. – Precisamos ir agora...existem coisas maiores... – A voz de Ana era levemente urgente, não a ponto de fazer ela parecer desesperada, mas a ponto de me deixar mais alerta. Então minhas suspeitas realmente poderiam ser verdadeiras...hm...então, só podia significar uma coisa... – Precisamos ir até o Conselho...nós... – E eu a calei com meus lábios nos dela...e olhei em seus olhos antes de falar.
 - Nós iremos. E vamos destruir tudo ali...mas primeira, eu vou te proteger...ok? – E ela ficou ali parada, sem fala. Me levantei e voltei a encarar meus inimigos que tiveram a elegância de me esperar. Contei-os rapidamente. Eram 47 ao todo. – Escutem. – Eu disse em alto e bom som. – Posso facilitar pra vocês. – Um raio cruzou novamente os céus. A chuva ficou mais forte. – Ficam em fila e se ajoelhem, de costas para mim. Meterei uma bala em cada um e morreram sem dor. É isso ou lutem. – E risos sonoros vieram de todos os cantos. Um deles, o que estava em linha reta a minha visão, que usava uma simples camisa cinza toda ensopada e a cabeça careca, abriu os braços e começou a falar como se fosse alguém.
 Engraçado...
 - O que você vai fazer, Drake? Diga-me? Olhe ao redor. – Ele abriu mais ainda os braços e aumentou o tom de voz. - Está cercado, confinado, pronto para o abate e...e...porque... – Ele estreitou os olhos e abaixou um pouco os braços. - Porque está rindo? – E por fim deixei minha risada ecoar por toda a noite. Eu não me importava mais...eu ri como nunca.
 - Olhem para cada um de vocês. – eu me recompus. - Olhem bem. Olhem em seus olhos, em seus corpos, olhem para os resquícios de suas almas...e depois olhem para mim...e digam...acham mesmo que podem? Acham que podem mesmo me matar? – Muitos me olharam espantados. - Eu lhes respondo: A sua quantidade não chega nem perto da MINHA qualidade. – Cerrei um punho e o outro, apertei Lagrima de Prata. - Podem vir...banhemos esse mundo em sangue negro enquanto ainda é tempo!
 E como se eu tivesse acendido um pavio curto...os rugidos e rosnados explodiram e vieram com tudo. Eu sorri e avancei.
 Na corria comecei a atirar. Muitos desviaram...mas consegui mandar sete para o inferno somente nos disparos. Faltavam 40.
 Dois deles chegaram perto e guardei minha arma em seu coldre e abri os braços. Eles vieram em ataques diretos mas seus pés mostravam uma leve elevação para a direita...e o outro para a esquerda...
 Eles iam pular e me atacar em X pelas costas.
 Deixei que pulassem...e peguei suas pernas em pleno ar. Os bati no chão, rachando o mesmo e comecei a roda-los. Acertei aquele bando de filhos da puta com dois filhos da puta, haha’
 Acertei vários, até que os dois na minha mão finalmente viraram cinzas. Faltavam 38.
  Quatro vieram, pelo chão, um de cada laxo, tentando me atacar em X novamente. Saltei e olhei para cima...um quinto vinha a minha direção, sorrindo triunfante. O que ele não estava acostumado era um Vampiro tirar um revolver calibre 50 e disparar. BANG! Cinzas voando sobre mim...
 Fui pego. Do nada, senti um tranco do meu lado...um deles havia me agarrado e eu estava caindo ao chão. Mas cai sozinho...apontei a arma para a espinha dele e disparei. Faltavam 36...
 Cai no chão de bruços e fui atacado aos montes. Dentes se enterraram na minha carne e garras tentara me rasgar pelas costas. Rugi, sentindo um pouco da dor que eles queriam me infligir...mas eu levantei. Forcei meu corpo e forcei a todos sair de cima de mim, os espalhando. Comecei a correr, sentindo novamente a água da chuva em meu corpo. Acertei dois na garganta, o outro, segurei seu rosto com minha mão e espremi até ele se desfazer. Os outros dois a seguir, segurei suas cabeças e espremi um ao outro. Faltam 31...
 Saquei Lagrima de Prata, apontei e comecei a atirar, ao mesmo tempo que me movia. Atirava aos que estavam longe tentando pegar Ana e atacava os que estavam por perto. 4 deles eu esmaguei seus crânios na parede do Monumento da Independência e voltei a luta...
 Faltam 27...
 Faltam 20...
 Faltam 12...
 Faltam 8...
 Faltam 5...
 Falta 1...
 “Aterrissei”. Uma grande poça explodiu quando toquei o chão novamente. Cinzas para todos os lados, assim como os trapos de minha roupa. E o ultimo que sobrou foi o careca que falou comigo como se fosse alguém...ele mesmo...
 - O que...o que você é? – Ele disse, respirando rápido como se realmente precisasse do ar a sua volta.
 - Um Vingador. – Eu respondi, arrumando minha postura. – A pedido do meu irmão. – E comecei a andar até ele. Ele estava no chão, em choque, olhando para todos os lados, procurando alguém. Seus caninos pareciam pequenos agora, sem vida...sem nada...
 - Eu...eu só segui ordens...
 - Dos Redsons. Eu sei muito bem. –Eu respondi a ele, chegando mais perto. – Os Redsons atacaram minha casa, levaram de mim integrantes da minha família. E o pior de tudo é que um grande amigo meu faz parte de vocês. – Cheguei perto dele. – Mas sabe como é...família é família.
 - Thiago, não é? – Ele tentou dizer...tremendo. Me deu náuseas...um Vampiro que TREMIA? – Thiago Redson, o Cão do Mar, ele é seu amigo não é?
 - É sim. Ao menos onde eu me lembro.
 - Ele está sendo levado para o México. – Senti um leve choque. – Posso te mostrar onde é. Ele...ele... – Apontei a arma para ele e o mesmo pareceu que ia chorar.
 - Por que o estão levando pra lá? – Eu perguntei. O mesmo respirou fundo antes de dizer.
 - Thiago está sendo feito prisioneiro. Recebemos ordens de...caçar vocês...e outras famílias...só o que eu sei, eu... – E ele virou uma pilha de cinzas antes da Capsula de bala cair ao chão molhado.
 Por um segundo...tudo o que se ouviu foi o som de chuva. Logo a policia estaria ali. Precisávamos ir logo para o Ipiranga.
 - Drake... – E olhei para Ana. Seu rubro nos olhos...ela não estava bem. Corri até ela e a peguei em meus braços. Minha jaqueta a cobria...mas ainda assim, precisava tirar ela da chuva...ir para algum lugar calmo...
 O único lugar ali era o Monumento da Independência. Não tinha outra escolha.
 Não corri com ela em meu colo. Talvez a velocidade iria só piorar seu estado.
 - O que fizeram com você? – Eu perguntei. Ela engoliu a seco.
 - Me bateram e morderam...iriam fazer coisa pior mas... – Ela me olhou nos olhos. – Você chegou.
 - Que bom, não é? – Eu respondi a fui até o portão grande do mesmo. Com a sola do sapato e um impulso bem dado, a traça se partiu e eu entrei. A coloquei nos degraus que desciam cuidadosamente e fechei o portão. O som das sirenes lá fora vinha em junção ao gotejar das águas e dos trovões e por alguma razão, aquilo me deixou irritado. Olhei novamente para Ana.
 - Vai precisar de comida. –Eu disse. – Eu volto logo. – Ela concordou. – Abri e fechei igualmente rápido quando sai. Corri como antes, tomando cuidado para não abrir nenhum buraco na Terra dessa vez.
 - PUTA MERDA! – Pude ouvir um policial dizendo quando viu o chão todo rachado. Não consegui deixar de rir.
 Corri até a avenida mais próxima. Ali tinha uma garota a pé, deveria estar voltando pra casa depois de um dia de trabalho com um guarda-chuva negro que a protegia do clima. Passei rapidamente por ela, afundando meus dedos em sua carne e na traqueia, a impedindo de gritar conforme corria o caminho de volta. Antes que notasse, eu já estava novamente dentro do Monumento. Ana salivou ao ver a garota. Joguei a mesmo no chão e Ana a abraçou...secando suas veias em segundo. Limpou a boca, jogou o cabelo para trás e respirou fundo.
 - Bem melhor... – Ela disse.
 Gotas começaram a sair de nossos corpos rapidamente. Como eu disse, se não é água do Lago da Babilônia , não há liquido que nos aceite. Podemos até encostar no liquido, mas, ele nunca ficará no nosso corpo, muito menos se o bebermos. Vomitaríamos durante semanas. Os mais fracos de nós morrem quando tocam a água. Mesmo a água da chuva nos rejeita depois de um tempo.
 - Enfim, secos... – Eu disse. Sentei no degrau juntamente com Ana. A mesma me olhava curiosamente. Me virei para ela.
 - O que foi? – Eu perguntei.
 - Matou mais de 50 vampiros. – Ela disse. – Eu nunca vi tal coisa com alguém sozinho.
 - É porque nunca viu Camila ou Eduardo lutar. – Eu me alonguei. – E alias, eram 47 e não 50.
 - Mesmo assim. – Ela disse meio irritada e sua voz voltou a ficar calma. – Suas roupas. Estão um trapo.
 E eu me olhei e era verdade. Minha camisa estava rasgada, parecendo uma flanela jogada em mim e minha calça estava amassada e rasgada...e a perna direita agora, era uma bermuda.
 - Faz parte. – Eu respondi. Mas ela ainda não estava satisfeita.
 - Por que me ajudou? – Ela perguntou, ficando frente a frente comigo. – Por que você não foi direto para o Ipiranga resolver isso?
 - Porque você é da família. – Eu respondi.
 - Sou uma Nightchild, não uma Nightcrawler.
 - É DA FAMILIA PRA MIM! – Eu disse, me levantando, a encarando. A mesma não recuou...só ficou me olhando.
 Imagine a cena: Eu, com a roupa toda rasgada. Ela, não usando nada da cintura pra cima que não fosse a minha jaqueta...
 - O que tem no Ipiranga? – Eu perguntei. Ela umedeceu os lábios antes de falar.
 - O Conselho tá aprontando...Felippe, eu e os outros estávamos correndo juntos, indo pra lá...quando topamos com os Redsons. Eles vieram aos montes...tivemos que nos separar...foi uma merda...
 - Felippe fez vocês se separarem pra usar a verdadeira forma dele. – Eu disse. – Acredite, ele fez bem. – Eu respirei fundo. – Sabe onde eles estão?
 - Não. Mas se estivessem no Conselho, saberíamos. Não sinto o cheiro deles.
 - Nem eu. – Eu respondi. Apesar da chuva atrapalhar um pouco de nada no faro, cheiros conhecidos e simples como aqueles, não podia ter erro.
 E antes que eu pudesse falar qualquer coisa...Ana estava me abraçando.
 Colocou a testa no meu peito e suas mãos em minhas costas. Fiquei um pouco surpreso...sem reação...
 - Você disse que sou da família... – Ela sussurrou. – Por que? – E eu suspirei. Envolvi meus braços no dela...e comecei...
 - Lembra quando ficamos juntos pela primeira vez? – Eu perguntei. Ela concordou com a cabeça, sem tirar o rosto do meu peito. – Você me ouviu...ouviu eu contar sobre Renata, ouviu tudo o que eu disse...e não me julgou por isso. Disse que tudo tinha uma saída, disse que eu deveria fazer o certo. Você não me conhecia, eu não te conhecia...e mesmo assim, ficamos juntos aquela noite e aquele dia e tudo deu certo. Você ouviu uma conversa que eu queria ter havia 48 anos...me deixou mais leve. – Eu a apertei mais. – Alguém que faz isso por mim é da família. – E eu a olhei...e ela levantou o olhar. – Ainda mais você...
 Sei que tínhamos que ir ao Conselho e se preparar para briga. Sei que o Sol ia demorar a se erguer. Sei que tínhamos muito o que fazer...mas o que poderíamos fazer sem Felippe, sem a família toda reunida? O Conselho com certeza ouviu a batalha e já estava tomando as devidas providencias. Eu sabia o que fazer mas...eu podia tomar um tempo se quisesse...
 Então deitamos juntos naquele chão frio...e permanecemos assim...durante aquela chuva...eu e ela...

 Drake e Ana...

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